zephirat Andre Tornado

Um jovem estudante de arte, que sonha em ser músico nas horas vagas, responde a um anúncio que solicita um professor particular para dar aulas de piano. Aguarda-o uma surpresa enorme e um valente susto…


Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas. © Linkin Park e Twilight não me pertencem. História escrita de fã para fã.

#vampiro #musica #piano #MikeShinoda #edwardcullen #crepusculo #twilight #LinkinPark
Conto
0
459 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo único


Meteu o cabelo mais uma vez para dentro do boné para domar a mania que tinha de se espetar em momentos inesperados para envergonhá-lo. Tinha uma cabeleira rebelde, densa e fofa que o irritava, embora algumas meninas apreciassem o seu farto capacete capilar. Por isso, usava bonés. Ajudavam a disfarçar aquele contorno escuro acima da sua testa alta. Tinha olhos bonitos, grandes, redondos, pretos, expressivos. Era também as meninas que lhe diziam isso e, se escondesse o cabelo, focavam-se nos seus olhos e não nos seus tufos indomáveis, que ele, para ser sincero, odiava.


No fundo, ele só estava a encher o cérebro para controlar o seu nervosismo.


Estava nervoso, pois.


Conferiu mais uma vez a t-shirt, se estava devidamente enfiada dentro das calças. Era uma coisa estúpida de se fazer, enfiar a t-shirt dentro das calças e apertar tudo com um cinto, pois as t-shirts eram feitas para estarem de fora das calças, à larga, amarrotadas e a enviar a mensagem certa de inconformismo contra o típico mundo chato dos adultos. Mas naquela ocasião ele queria deixar uma primeira boa impressão.


Susteve o fôlego.


Mas por que raio queria deixar uma boa impressão?


Era só uma experiência, iria ver se gostavam dele e, se gostassem, podiam aceitá-lo como professor particular de piano. No fundo, ele não precisava daquilo, mas o amigo dissera-lhe que havia essa oportunidade e que ele devia experimentar, para ganhar uns cobres.


Na verdade, também não precisava desse aumento suplementar da mesada. Tinha as propinas da faculdade asseguradas, com uma margem folgada para comprar os materiais necessários às aulas. Podia até ter aulas suplementares e escolhera cinema, filosofia e literatura inglesa.


Por isso, pensou, qual a verdadeira razão de estar ali, àquela porta?


Talvez por causa do orgulho… Acontecera uma espécie de desafio, embora o repto não fosse totalmente declarado, e ele fora até ali, com a cópia do anúncio, um papel dobrado no bolso das calças largas. Puxou-as para cima, ajeitou a t-shirt mais uma vez. Estava tão apreensivo que parecia ter emagrecido naqueles últimos minutos.


Tocou à campainha daquela mansão quieta. Parecia que ninguém morava ali, tal era o silêncio que a rodeava. À entrada havia um jardim discreto, mas muito bem cuidado, onde sobressaía um relvado verdejante que parecia cintilar à luz forte do Sol da Califórnia. Uma cerca branca, bem pintada, rodeava a propriedade. A porta da garagem estava fechada e não se via qualquer automóvel estacionado no passeio que ficava defronte. As janelas, ao lado da porta onde ele aguardava que o atendessem, estavam veladas por cortinas brancas e toda a casa exalava uma aura sofisticada e rica. Era a habitação de uma família com posses.


Pois claro que sim, concordou para si mesmo. Só uma família com posses poder-se-ia dar ao luxo de contratar um professor particular de piano…


Depois de ter este pensamento singular, uma pequena dúvida alfinetou-lhe a nuca e ele sentiu uma pequena comichão. Retirou o papel do bolso, desdobrou-o com o polegar e ficou a olhar as curtas frases que aí estavam escritas, uma nota caligrafada com letras de forma bem delineadas.


Por que motivo haveria uma família que morava numa mansão imponente, ou alguém dessa família, ter colocado um anúncio num painel de classificados que se encontrava pendurado à entrada de uma cantina universitária? Podiam contratar o mais famoso pianista de Los Angeles com toda a discrição e ninguém ficaria a saber… Por que razão haveriam de querer um mero estudante para essa função?


E estava tão distraído no meio desta cogitação que não se apercebeu que a porta se tinha aberto, entretanto.


Aconteceu uma mudança subtil de temperatura e ele levantou os olhos.


– Oh… Boa tarde. Peço desculpa, não vi que… Boa tarde – repetiu, atrapalhado.


À porta estava um homem impecavelmente vestido, com uma postura exemplar, que segurava a maçaneta da porta que escancarara. Pela sua altivez e presunção, ele deduziu que seria o dono da casa e não um mordomo ou outro tipo de serviçal.


O homem olhava-o de uma forma penetrante. Tinha um rosto harmonioso, de uma beleza estranha e lívida que o deixava hipnotizado, como se lhe fosse impossível escapar àqueles profundos olhos azuis. Pestanejou e sentiu um calor imenso subir-lhe das pernas pelo torso que o despertou do transe. Aclarou a garganta.


– Boa tarde – disse, mais uma vez. – Senhor… senhor Cullen? Vim por casa do anúncio.


– Do anúncio?


– Chamo-me Mike Shinoda e estou aqui por causa do anúncio. Aulas de piano. É o senhor que pretende um professor particular? – Lembrou-se que ainda tinha o papel na mão. – Senhor Edward Cullen?


– Edward Cullen é o meu filho. Chamo-me Carlisle.


– Ah… Peço desculpa. Não… não sabia… eh… Senhor Carlisle.


– Por favor, trata-me por Carlisle. Não há qualquer problema, Michael.


Ele voltou a pestanejar à menção do seu nome. Ninguém o tratava por Michael, a não ser a sua mãe e quando estava zangada. Seria sinal de cortesia, de bom-gosto do homem, de como o seu estatuto social era superior ao dele…


A porta abriu-se mais e Carlisle Cullen deu-lhe passagem, convidando-o a entrar. Ele hesitou, mas acabou por franquear a soleira com uma crescente sensação de desajuste. Começava a suar e não sabia exatamente qual a razão que justificava aquele pico de adrenalina que juntava uma ligeira impressão de medo à sua curiosidade.


A entrada da casa era magnífica, decorada num modo minimalista, o soalho encerado a brilhar, a mobília em tons claros, e ele achou que nunca tinha visto um compartimento tão bonito. Nem parecia que morava alguém ali. Todas as cortinas estavam descerradas e a luminosidade californiana típica, aquele brilho amarelo que realçava os contornos, estava ausente. Da entrada, da galeria que se dividia noutras passagens, da ampla sala que ele entrevia dali. Quando a porta se fechou nas suas costas deu um salto.


Lembrou-se que continuava a segurar no pedaço de papel e olhou-o, fazendo daquele pequeno quadrado branco uma espécie de boia de salvação. Algo concreto que ele podia segurar e que o haveria de restituir ao mundo real – porque tudo começava a parecer-lhe irreal.


– É o seu filho que pretende as aulas de piano? Ele… que idade tem?


– Dezassete anos.


– Ah… Dezassete anos.


Era um pouco mais novo do que ele. Mike assentiu. Reparou no rápido relance que Carlisle lhe fez ao boné, mas de algum modo não o conseguiu tirar da cabeça. Era uma falha grave na etiqueta, mas, naquela fase, precisava de manter uma certa teimosia na sua maneira de ser. Como se tudo fosse um teste, a partir do momento em que acedera entrar ali. O boné, o pedaço de papel…


– O Edward não me contou que tinha solicitado um professor de piano, Michael. Acho até esse desejo… peculiar, dada a nossa situação na Califórnia.


– E qual é a vossa situação na Califórnia?


– Estamos apenas de passagem. Sou médico e estou na cidade… para integrar uma equipa de um grande amigo meu que solicitou a minha ajuda na sua clínica. Um caso especial e único. Contamos partir ao fim de duas semanas.


– Ah… Compreendo. Então, quer dizer que o anúncio fica sem efeito?


– De todo!


Estendeu um braço num registo teatral, quase uma vénia jocosa de um autor de teatro que representava aquele papel há demasiado tempo para falhar qualquer trejeito, e foram para a sala. Num canto, junto a um reposteiro que ondulava em magníficas pregas largas e imóveis que cobria uma portada envidraçada e, deste modo, impedia a luz quente do Sol de entrar, estava um piano de cauda, branco, suave e macio como uma pérola gigante. Mike arquejou com a surpresa. Era um instrumento magnífico!


– Uau…


Quando ia perguntar se Carlisle também tocava piano foi surpreendido por encontrar um rapaz ao lado do dono da casa, que ele depreendeu tratar-se do seu filho. Assustou-se, porque não tinha dado pela sua chegada que se processara em milissegundos de silêncio, numa rapidez inédita.


– Oh… olá. Boa tarde. Deves ser… o Edward…


O rapaz tinha a mesma palidez do pai, um rosto sério de feições cinzeladas em mármore duro. Os olhos eram escuros e o cabelo tinha um espantoso tom de bronze que variava entre o castanho e o vermelho, parecendo que brilhava como revoltas chamas negras.


– Edward, o Michael está aqui por causa do anúncio que solicita um professor particular de piano.


Os extremos da boca de Edward curvaram-se ligeiramente para cima e Mike não conseguiu distinguir um sorriso; era quase um sorriso, um esgar divertido que podia muito bem ser um sorriso. Também o filho hipnotizava, com um encanto sobrenatural, igual ao seu pai. Mas ao contrário de Carlisle, que era gelado e rígido, Edward acalmava com calor e languidez.


– Isso é muito interessante – respondeu Edward.


– O anúncio estava na cantina do campus Sul da UCLA – explicou Mike, dobrando o braço pelo cotovelo, exibindo o pedaço de papel amachucado. – Tem esta morada e indica que é necessário um professor particular de piano para um Edward Cullen. Vim ver se a vaga estava ainda disponível e saber as condições. Não tenho recomendações, mas posso fazer-vos um resumo breve do meu currículo.


– Isso é mesmo muito interessante – tornou Edward.


Carlisle sorriu e Mike entreviu-lhe os dentes pequenos e brilhantes. Era um sorriso frio e contundente, mas delineava-se cabalmente como um sorriso e não era totalmente desagradável, como a careta de Edward.


– Então… podemos começar a entrevista? – sugeriu Mike, olhando do pai para o filho. Achou estranho ser ele a fazer a sugestão, mas tinham de despachar aquilo. Se não o queriam como professor, mais valia que o dissessem logo e que se deixassem de rodeios. Ele desconfiava que não precisavam dele como professor, com um piano daqueles. E se estavam de passagem em Los Angeles, para que raio precisavam realmente de um professor de piano?


– Vou fazer chá. Aceitas uma chávena de chá, Michael?


– Sim, claro… Carlisle. Aceito.


Edward, entretanto, já se tinha sentado no banco do piano e, mais uma vez, Mike não lhe viu os movimentos. Ele estava ao lado do pai e, quando deu por si, viu-o sentado no banco, a abrir o teclado com gestos vagarosos.


– Eu também aceito um chá, Carlisle – disse Edward. – Vamos, Michael. Senta-te ao meu lado. A entrevista poderá ser… uma demonstração prática do que podes fazer ao piano?


– Ah… queres que toque?


– Claro que sim, Michael. Quero que toques para mim.


– Está bem.


Notou que Edward também olhou para o seu boné num relance, mas não o retirou. Agora é que não tirava o boné! Precisava de sentir a cabeça protegida, nem sabia bem porquê, pois sentia que estava exposto, vulnerável… e tremendamente sozinho naquela sala imensa de uma mansão também imensa.


Sentou-se no banco, tendo o cuidado de manter um espaço razoável entre a sua perna esquerda e a perna direita de Edward. Fechou e abriu os dedos, um tosco aquecimento. Disse:


– Tive aulas de piano quando era mais jovem. Agora continuo a tocar, mas trabalho mais com sons sintetizados e samples. Tenho algumas noções básicas de piano e sei tocar algumas peças clássicas, não sei se seria um professor assim que teriam na vossa ideia para…


– Toca para mim, Michael.


– Ah… está bem. Queres que demonstre o que sei tocar?


– Sim. Faz-me o obséquio.


– Fazer-te o obséquio… muito bem. Tu falas de uma maneira estranha. – E riu-se, nervosamente.


– Vais ser músico, Michael?


– Hum… Não, acho que não. A música é só um passatempo. Estou a cursar arte na UCLA. Conto arranjar emprego como designer gráfico numa empresa de publicidade, para começar. Depois gostaria de criar jogos de computador, estás a ver? Aí é que está o futuro. Entretanto, vou me divertindo com os meus amigos a fazer uns sons. Mas toco piano, claro. Ou não teria vindo saber sobre esta vaga de professor particular de piano. Já dei algumas aulas…


– Já deste aulas de piano.


– Sim. Dei aulas a crianças. Pensei que fosses… uma criança também. Sete, oito anos. Talvez com menos idade.


– Não é um currículo impressionante para um professor particular de piano, mas acho que serve, por ora. Gostei de te ouvir falar, Michael. Tu gostas de falar. Agora, quero ouvir-te tocar.


Edward sorriu-lhe outra vez e persistia aquele esgar que lhe torcia levemente a comissura dos lábios. Continuava a emanar uma aura quente, mas a forma como desfazia a rigidez do seu rosto era artificial e forçada. Tinha um olhar igualmente quente, apesar de profundamente escuro, depois eram os cabelos que evocavam o calor de uma fogueira que ardia em fogo lento.


Mike pigarreou para se forçar a se concentrar nas teclas. Olhou-as. Perfeitas. Polidas. Refletiram-lhe os dedos quando ele pairou com as mãos sobre estas.


Começou a tocar o tema Für Elise, de Beethoven, porque era a peça de música clássica que sabia de cor e salteado e que tocava com mais à-vontade, com a certeza de que não se iria enganar.


Olhava em frente, para o reposteiro, ansiando pela luz do dia. A sala era iluminada artificialmente por projetores disfarçados no teto e no rodapé. Estava luminosa e quase não se dava pela diferença de não se tratar de luz natural, mas Mike começava a sentir-se um pouco desconfortável naquele ambiente assético.


Sentiu um incêndio na coxa e parou de tocar. De repente, Edward estava encostado a si e Mike ofegou, surpreendido com o contacto. Os dois vestiam calças de ganga, mas parecia que estavam com as pernas despidas, pele com pele, tal era o calor abrupto que perpassava entre eles.


– Eh… Sabes tocar alguma coisa, Edward? Que tipo de lições de piano estavas a pensar? Foste tu que colocaste o anúncio na UCLA?


– Queres que toque agora para ti?


– Sabes tocar?


– Sim, sei.


– Então… precisas de um professor de piano para quê?


– Não sei. Queres tu dizer-me depois de me avaliares, Michael?


– Vou avaliar-te?


– Sim, claro. És o candidato ao lugar de meu professor de piano. Deverás ser tu a fazer a primeira avaliação das minhas habilidades e perceber onde necessitarei do auxílio da tua sabedoria musical.


– Ah… está bem. – Mike arrastou-se subtilmente pelo banco para escapar-se à proximidade de Edward. – Começa lá, então…


As mãos de Edward tinham dedos brancos e compridos, unhas aparadas e perfeitas. Os seus dedos pousaram delicadamente nas teclas. Um primeiro acorde com a mão esquerda. A direita parecia hesitar. De repente, os mesmos dedos que se mostravam inicialmente incipientes deslizaram pelo marfim com uma destreza surpreendente, arrancando ao piano uma composição complexa e exuberante que encheu a sala com uma melodia carregada de uma alegria sombria, uma pressa exigente.


Mike quedou-se abismado. Edward Cullen era um virtuoso ao piano!


O rapaz olhou-o, continuando a tocar. O canto dos seus olhos crispava-se ao de leve em finas rugas que desenhavam linhas esbranquiçadas no seu rosto pálido.


– Gostas, Michael?


– Sim… Que música é esta?


– Fui eu que a compus.


– Tu escreves música para piano? Tu consegues escrever este tipo de música… para piano? Então, não precisas de um professor! – exclamou Mike.


Edward parou de tocar, de repente. As últimas notas vibraram no silêncio da sala. O outro agarrou-lhe na perna e Mike olhou assustado para a sua coxa, aprisionada por aquela mão que acabava de arrancar uma música épica ao piano de cauda.


– Queres explicar-me que história é essa de um anúncio para professor de piano, Michael?


Mike deu um salto e levantou-se. Tropeçou às arrecuas. Julgava saber onde ficava a porta da rua, nas suas costas, e continuou a recuar, de braços estendidos para formar uma barreira que o protegesse de qualquer coisa, ele nem sabia bem o que seria.


– Tu não precisas de um professor, Edward. Já percebi isso. Desculpa se te fiz perder o teu tempo, ou o do teu pai! Agradece-lhe o chá, mas tenho… tenho um outro compromisso e já estou atrasado.


Deu meia-volta. Sim, a porta da rua estava ali. Trotou até à entrada, uma mão em riste pronta para agarrar a maçaneta. Nisto, Edward estava ao seu lado direito e ele gritou.


– Podes ficar e tomar um chá connosco… Quem sabe se não poderemos ser amigos? Tens alguns atributos… interessantes, Michael Shinoda.


– Como sabes o meu nome?


– Foste tu que o disseste. Apresentaste-te quando apareceste na minha casa.


– Apresentei-me ao teu pai. Disse o meu nome ao teu pai.


– Eu estava perto e escutei-te.


– Não posso mesmo ficar para o chá. Desculpa, Edward.


– O que vais fazer com a música, Michael?


– Eh… não sei. Sou apenas um estudante de arte.


– Gostei de te ouvir tocar. Há qualquer coisa de totalmente novo em ti. Promissor. Nunca desistas da música.


– Eh… Obrigado, Edward. Obrigado.


Tateou aflito e conseguiu apanhar a maçaneta da porta. Girou-a. A porta abriu-se. Estava com sorte. Ao menos não a tinham trancado e ele podia sair da casa.


Ficou, por momentos, preso no olhar cativante de Edward Cullen, na tentação esquisita de ficar e aceitar o chá de Carlisle Cullen e perceber os segredos que eles guardavam. Deixavam-no a ferver e a tremer de frio, numa ambiguidade que o excitava, ao ponto de ter pensamentos esquisitos onde gotas de sangue pingavam sobre um cenário sussurrante.


O que raio lhe estava a acontecer?


Pestanejou com determinação. Com a mão livre, a esquerda, puxou a pala do boné para baixo e a sombra cortou o feitiço que o ligava ao olhar intenso de Edward.


– Agradece ao teu pai por mim. Queres, Edward? Obrigado por tudo. Mas não vai dar… Resolvi que vai ser impossível ser o teu professor de piano.


Depois fugiu. Saiu daquele bairro a correr tão depressa que, quando se apercebeu, tinha percorrido dois quarteirões numa corrida desesperada e desenfreada. Apanhou o primeiro autocarro que viu parar numa paragem. Só queria afastar-se daquele lugar o mais depressa possível e sem olhar para trás. O seu coração batia a mil à hora e os pulmões contraíam-se, com falta de ar. Sacou da bomba e fez algumas inspirações, para evitar o ataque de asma.


Só se acalmou quando regressou ao campus da universidade. Enfiou-se na cafetaria, a beber uma coca-cola e a comer um donut açucarado. Sacou do seu caderno de desenho e pôs-se a fazer esboços. Deu por si a desenhar um piano de cauda e suspendeu o lápis de grafite sobre a folha imaculada, riscada com os seus traços iniciais. Depois resolveu continuar o esboço e replicar aquela sala magnífica onde Edward Cullen tinha tocado para ele e onde ele só se envergonhara ao ter tocado uma música clássica que se ensinava às criancinhas nas suas primeiras lições.


Estava tão imbuído no seu desenho que nem reparou que os amigos se tinham sentado ao seu lado. Despertou do seu estado de concentração com uma palmada nas costas que o fez dobrar-se para diante.


– Então… conta lá, meu. Como foi a tua ida à casa dos Cullen?


Ele olhou irritado para o Joe.


– O que queres dizer, Joe?


– É senhor Hahn, Shinoda! Conta lá.


– Foram vocês que armaram aquela história do professor particular de piano! Foram vocês que forjaram aquele anúncio! Os Cullen nunca precisaram de nenhum professor.


Mark e Dave davam risadas, sentados no banco em frente. Tinham cada um a sua garrafa de coca-cola. Joe tinha-se sentado ao seu lado e Mike olhou-o, de cima a baixo, incomodado com a sua proximidade. Estava como que amuado, pois acabava de perceber que fora alvo de uma partida. E ele odiava partidas! Mesmo que viessem dos seus melhores amigos de faculdade.


– Os Cullen são esquisitos. Há histórias estranhas a circular sobre eles… – contou Dave com um encolher de ombros. – Nós queríamos que tu fosses lá investigar, Mike.


– Como é que sabem essas coisas? Eles são forasteiros, não pertencem à cidade. Só cá estão de passagem… como é que sabem, hum? – atirou, agressivo.


– Chegaram há cinco dias – disse Mark. – E deram logo nas vistas, mesmo sendo forasteiros e mesmo sendo muito reservados. Correram uns boatos de que eram pessoas… diferentes. Sei que houve alguém que se cruzou com o médico na clínica onde ele está a trabalhar e começaram a inventar umas histórias. Sabes que há pessoas com muita imaginação e outras demasiado curiosas. Existe uma bolsa de apostas no campus sobre os Cullen.


– Uma bolsa de apostas? E mandaram-me investigá-los… Assim, sem mais nem menos! – Mike agitou as mãos, com o lápis de grafite preso entre os dedos. – E se fossem umas pessoas perigosas? Tinham-me colocado em perigo só para se rirem um pouco à minha custa.


– Tu és um menino crescidinho. Darias bem conta do recado – justificou-se Dave mostrando-se falsamente arrependido. – Não te iria acontecer nada de mal, Mike. Nós sabíamos onde estavas.


– De quem foi a ideia do anúncio?


– Foi do Mark. Eu escrevi o texto…


– Como sabias os nomes dos Cullen e onde moravam, Dave?


– Já te disse. Eles chegaram a Los Angeles e os seus modos deram nas vistas. Há histórias de aventuras… noturnas.


– Aventuras noturnas?


– De dia eles estão enfiados dentro daquele casarão. Saem só à noite. O médico trabalha na clínica. O filho do médico anda em festas nas fraternidades. O mais incrível é que se porta bem. Não bebe, não fuma, não se mete em substâncias esquisitas. Fica nas festas só a observar. Mas tem um qualquer magnetismo pessoal que provoca desmaios nas mulheres…


– Dizem que são vampiros – acrescentou Joe, recostado no assento, num comentário átono.


Mike lembrou-se, subitamente, da palidez excessiva dos dois homens, pai e filho. Carlisle e Edward. A forma como transmitiam calor através de insinuações, não de gestos pragmáticos ou de atitudes mensuráveis.


A sua garganta fechou-se e ele arquejou à procura do ar que parecia se ter rarefeito no interior da cafetaria.


– Vam… vampiros? – gaguejou.


– Eles são vampiros, Mike? – perguntou Mark, ávido.


Com um safanão, Mike fechou o caderno de desenho. Levantou-se e empurrou Joe, que estava na sua frente e lhe trancava a saída da cadeira. O coreano protestou com um berro, levantando a sua garrafa de coca-cola.


– Ei, Mike! Onde é que vais? Ainda não nos contaste o que aconteceu na casa dos Cullen. Eles sempre têm um piano de cauda, não têm? – pediu Mark.


– Se querem saber o que acontece na casa dos Cullen e já que sabem onde eles moram… vão lá vocês. Merda! – Mike mostrou-lhes o dedo do meio e saiu da cafetaria como um furacão. Chegou até a bater com a porta que fez um estrondo medonho e escutou, abafados, gritos a chamá-lo de anormal.


Irrompeu pelos jardins do campus no mesmo modo destrutivo de vento ciclónico e só parou quando se deu conta de que não estava a respirar. Dobrou-se para a frente, mãos nos joelhos a tossir e a ofegar, cansado, assustado e nervoso.


Vampiros… Seriam os Cullen vampiros?


Teve medo de que Edward viesse atrás dele. Tinha-se mostrado tão amistoso, tão interessado na sua habilidade enquanto pianista, no que podia ele mostrar enquanto músico…


Mas depois afastou essa ideia da sua cabeça. Os Cullen estariam pouco tempo em Los Angeles, uma cidade cheia de Sol, e era sabido que os vampiros não se davam bem em lugares soalheiros. Era também verdade, lembrou-se, que a casa dos Cullen tinha as janelas fechadas e os reposteiros corridos, que não havia luz natural a entrar ali dentro. Logo, não teriam interesse em ir atrás dele.


A não ser que tivessem gostado do seu cheiro. Os vampiros tinham o sentido do olfato muito apurado e podiam aparecer no campus para caçá-lo…


– Não! Não, Shinoda!


Endireitou-se. O caderno pendeu na sua mão, não o tinha guardado na sua mochila. O peso das folhas fê-lo oscilar e abriu-se naquela onde ele tinha esboçado um piano, uma parede de reposteiros, um rapaz magro e elegante sentado no banco debruçado sobre as teclas.


Sentiu-se furioso. Arrancou a folha e amarrotou-a. Iria decididamente esquecer aquele episódio.


Avançou até ao caixote do lixo mais próximo, atirou a bola de papel amarfanhada lá para dentro. O alívio espalhou-se por ele como tinta derramada. Viu-se longe daquela experiência esquisita na casa desses infames Cullen, como se tudo o que lhe tivesse acontecido pertencesse a um sonho febril.


Ao fechar os olhos, conseguiu ser capaz de borrar as feições de Edward e de Carlisle da sua memória, tornando-as indistintas, vulgares, vazias, rostos brancos sem qualquer traço que os tornasse únicos. Caricaturas ou mesmo bonecos animados.


E se ele os esquecesse, eles também o haveriam de esquecer.


Depois ir-se-iam embora de Los Angeles e cada um continuaria com a sua vida.


Guardou o caderno de desenho na mochila, com a confiança recuperada.


Ao olhar em frente descobriu a mulher que começava a imiscuir-se na sua alma, acionando várias alavancas e interruptores que operavam uma reconfiguração agradável no seu interior. Diziam que era uma bruxa. Era apenas uma moça gótica que gostava de cultivar uma personalidade diferente das outras e que se vestia de preto, mesmo nos dias de intenso calor e de muito Sol. Inclinou a cabeça, prendeu o lábio inferior com os dentes, observando-a a caminhar sobre o relvado do jardim como se flutuasse.


Entre bruxas e vampiros, haveria sempre de preferir feiticeiras que lhe pudessem capturar o coração com a magia poderosa do amor… Riu-se consigo mesmo.


Levantou um braço e chamou-lhe a atenção:


- Ei! Anna!

25 de Outubro de 2020 às 15:41 0 Denunciar Insira Seguir história
2
Fim

Conheça o autor

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~