alexisrodrigues Alexis Rodrigues

A princesa Viria, do reino de Isnaucurike, tem sua vida destruída e seus direitos tomados de si da noite para o dia após sofrer ataques de opositores a família de sua mãe. Furiosa e sedenta de vingança, promete a sua mãe, a rainha, que se vingará, mesmo que isso signifique sacrificar quem ela é.


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O cair da neve chegava a queimar a pele. Estava no meio da floresta com as árvores já caducas devido ao inverno. Sentou-se na grossa camada que antes se deitava. Não lembrava como havia parado ali, mas mesmo assim o que mais a assustava era não sentir o peso dos loiros cabelos símbolos de sua família. Passou as mãos na cabeça careca, confirmando sua hipótese. A vida como Princesa Viria havia acabado.

Assim como os cabelos, suas roupas haviam sido tiradas dela. Nenhuma joia, ou os sapatos.

‘‘Ninguém que entra na floresta a noite sai de lá’’, as pessoas mais religiosas diziam. ‘‘Os que ousam entrar pela manhã voltam sem seus pertences’’. Viria deveria se considerar sortuda, de alguma forma, por ainda estar viva?

A neve fazia com quem tremesse violentamente, visto que não havia absolutamente nada que pudesse usar para se cobrir. Levantou-se, pois não tinha melhor escolha, e caminhou floresta adentro, procurando por algum lugar onde pudesse se esconder. Não havia luz além do luar para guiar seus passos e ela sentia que seus dedos não demorariam a morrer.

Sem coroa, sequer com as roupas, e irreconhecível, certamente. O que Viria era naquele momento? Sentiu seu peito apertar e lágrimas ameaçarem verter, mas ela se refreou.

– Por que está aqui, criança?

Ela sentiu o coração dar um solavanco e então acelerar, podia ouvi-lo bater. Havia alguém atrás dela, e a julgar pela voz, era um homem. Que espécie de homem estaria em uma floresta em uma noite fria como aquelas?

Foi quando lhe ocorreu…

Viria engoliu a seco e se virou devagar para ver quem lhe falara. Os olhos se arregalaram quando percebeu que não havia ninguém ali. ‘‘Estou alucinando?’’. Não havia muito o que poderia fazer e ela estava perdendo as esperanças, morreria congelada em breve. A única herdeira da rainha Vilya com suas vergonhas expostas em meio a uma densa floresta do reino de Isnaucurike. Perdida para sempre, e, se encontrada, a mancha na família.

Ninguém procuraria por ela.

Deu meia volta para continuar andando, e então esqueceu-se de como respirar.

– Por que está aqui, criança?

Não passava de uma sombra em forma de homem, mas seu tom já não soava humano. Estava tão perto que ela conseguia sentir a respiração quente contra a sua pele.

– O gato comeu a sua língua? – a sombra indagou enquanto a rondava, no que ela tremeu mais ainda. – O que a princesa de Isnaucurike está fazendo em minha floresta?

Ela franziu o cenho ao ouvir ‘‘minha’’, mas não protestou. Não poderia, não se quisesse sobreviver ali naquela noite e conseguir o que queria.

– Por que está aqui, Viria?

Viria ponderara a resposta para aquela pergunta por muito tempo em sua cabeça, muito antes de finalmente se prostrar na neve que fazia seu corpo inteiro doer, aos pés daquele homem.

Não, não um homem.

Um monstro.

Naquele momento, entretanto, um monstro era exatamente o que precisava. Precisava de poder para conseguir o que seu coração desejava. Poderia dar a ele uma lista de motivos que a fizeram chegar ali, mas, em verdade, só havia um.

– Porque quero vingança.

Quantas vezes havia rezado por aquilo? Perdera as contas. Primeiro aos deuses benevolentes que supostamente governavam aquele mundo, mas eles haviam lhe dado às costas. Que deuses dariam ouvidos às preces dela? Não havia conforto em seus templos, apenas julgamento. Viria rezou às deusas mães, às deusas da guerra, e por fim, às da morte.

E somente elas lhe apontaram a direção, pois a Morte não tapava os ouvidos ou vendava os olhos. Não, Ela estava em todo o lugar. Viria havia lhe visto. Viria a conhecia bem. Todos à Ela pertenciam. Somente as deusas que a serviam poderiam ouvir suas preces e indicar o caminho.

Um cheio de terrores era aquele que ela percorreu. Sussurros ao pé do ouvido na calada da noite, instruções que deveria seguir, ingredientes que deveria encontrar e qual ritual deveria fazer para encontrar quem precisava. As memórias daquela noite começavam a retornar.

A tumba da família. O túmulo da rainha. As luzes das velas, o sangue pingando da palma de sua mão, o cheiro de morte no ar. Os símbolos desenhados com o seu sangue sobre o mármore.

O gosto amargo do luto e da desgraça.

– Tudo tem um preço – a criatura parou a sua frente, trazendo sua consciência de volta a floresta. – Está ciente disso?

– Sim – sua voz tremulou.

Ele segurou seu queixo.

Breu.

Foi quando começou a sentir calor, e sua respiração tornou-se gradativamente mais fácil. Seu corpo parecia girar, mesmo que ela estivesse ciente de que estava parada, e deu-se conta de que estava em um lugar completamente diferente.

Ajoelhada perante um trono. Um trono de pedras negras que reluziam a luz de archotes, como os de castelos de outrora.

O monstro, em seu trono, a olhava de cima. Um monstro de cabelos louros de prata tanto quanto os que ela um dia teve em sua cabeça. As roupas tinham a mesma cor de seu trono, e era quase como se eles fossem um só.

Atrás dela, percebeu um pouco depois, duas mulheres, as mais altas que havia visto, vestidas de vermelho cor de sangue, com os cabelos negros pendendo livres em seus colos. Seus olhares eram severos quando Viria as olhou, e uma delas segurou sua cabeça para que ela tornasse a virar para frente.

– Servirá à Ela daqui em diante. Fará parte de um coven. Todo o poder que conquistar será seu e apenas seu, mas nós pertencemos à Ela. Compreende?

– Sim, senhor.

– A princesa do reino de Isnaucurike morre hoje, aqui. Jamais terá sua vida de volta. Erga-se, criança – e ela o obedeceu, ainda que com dificuldade. – Você aprenderá a usar o poder que Ela nos dá, aprenderá todos os tipos de magia, bruxaria e feitiçaria que o seu mundo proíbe. Não há tabus para a morte e para aqueles que a servem. Treinará até a exaustão para que tenha a força de um exército.

– Como saberei quando estarei pronta?

O monstro sorriu.

– Quando o momento chegar, você saberá.

E Viria treinou, trabalhou em seu aprendizado a ponto de se exaurir, conforme as exigências de seu mestre.

Aprendeu a utilizar magia sem os limites impostos pela Ética Mágica, transformou seu corpo em uma máquina que trabalhava conforme ela desejava, tudo sem perceber o quanto estava mudando.

Não era a única a procurar pelas criaturas da escuridão. Elas não eram fáceis de encontrar, mas fora a sua última carta na manga, uma deixada por sua mãe. Se ela não conseguisse encontrar a criatura, estaria perdida.

Anos de trabalho árduo se passariam. Testes de magia e mais testes de força. Ali não haviam espadas ou adagas, salvo os momentos cerimoniais. A única arma que Viria precisava era seu corpo, a pele que habitava e fortalecia com magia.

E a pele que habitava também crescia em necessidades. Já não era a garota assustada da floresta.

A mulher que havia dentro de si rasgara sua pele pedaço por pedaço até se libertar. Agora ela era parte da floresta, conhecia cada centímetro dela, conhecia suas plantas e flores, suas árvores, os animais que lá viviam, e as pessoas que nela haviam morrido.

Seu treinamento básico estava completo, e sua iniciação estava a alguns passos de se concluir. Havia, no entanto, uma última cerimônia a ser feita para que fosse aceita definitivamente no coven.

As Senhoras da Morte estavam condenadas a sempre depender das Grandes Mães. Uma luta perpétua entre seus filhos e a terra em que viviam, segundo os sacerdotes de outras religiões diriam. Viria sabia que era verdade, e como sabia! Vira tantas pequenas batalhas entre a vida e a morte, e ainda assim… Não conseguia abandonar o desejo de vingança. Fora tal desejo que a levara até os servos Dela. Fora tal desejo que a levara até ele.

Era uma noite de lua cheia. Em grande círculo, demarcado por um único e extenso fosso, chamas ardiam e as labaredas dançavam ao vento. Os seis magos e magas trajavam robes vermelhos e o mestre do coven estava de preto, no centro do círculo interior.

Viria estava entre os sete candidatos reunidos em um círculo exterior ao fosso de chamas e nada trajavam. Nenhum sapato ou joias, nenhum adorno, apenas seus longos cabelos prateados cobrindo seus seios.

Aquele era o momento em que deixariam a infância para trás, como as crianças assustadas que pisaram naquela floresta. De lá somente os mais fortes jovens adultos sairiam, os novos servos das Senhoras da Morte.

Das mãos do mestre sete cobras-rei saíram e rastejaram, cada uma na direção de um candidato.

Alguns recuaram um pouco, temendo picadas e evitando ao máximo enfurecer as que estavam a sua frente, outros tentaram dobrá-las às suas vontades usando magia, mas Viria sabia. Havia abandonado sua coroa, mas não o seu conhecimento, e não deveria cometer nenhum dos erros que seus colegas estavam a cometer.

Manteve-se onde estava e ajoelhou-se lentamente para que o réptil não se sentisse ameaçado. Deixou que a cobra se aproximasse como desejava, rondando algumas vezes e então novamente à sua frente. A cobra ergueu-se, ficando à mesma altura.

Permaneceram ali, quase imóveis, por um demorado período, olhos fixos uma na outra ao mesmo tempo em que os demais candidatos se utilizavam de magia ou de força para não serem picados pelas demais e falhavam em sua tarefa. Viria estava determinada a agir com toda a cautela necessária. Sua vingança dependia de seu sucesso e aceitação no coven, precisava daquele poder.

Não, Viria queria aquele poder. Fracasso não era uma opção, portanto, fez seu melhor para conquistar a confiança da criatura. Sem movimentos bruscos, sem palavras desnecessárias, olhar fixo sobre ela, mas respeitoso.

No momento em que a cobra decidiu se mover, se aproximou e esticou a língua para fora, sentindo os odores no ar. Rastejou por sobre seu braço e ombro até chegar a sua outra mão, e então desapareceu. Sobre a pele dela, onde a cobra-rei havia rastejado, surgira uma marca.

Viria fechou os olhos quando sentiu o mundo girar, por um instante que durou uma eternidade, o poder da cobra-rei fluindo em seu corpo, tornando-o ideal para a magia das Senhoras da Morte.

Quando despertou de seu transe, percebeu que os outros candidatos ou foram mordidos ou estavam, inutilmente, tentando enfeitiçar as cobras, e decidiu matá-los todos um a um.

As palavras deixaram seus lábios de forma rápida enquanto ela caminhava na direção dos seus antes companheiros de estudos. No momento em que se deram conta de que ela era uma inimiga, já era tarde demais. Alguns tentaram correr, mas ela os impediu usando magia conforme sua vontade, e, ao tocá-los, absorveu seus poderes e suas vidas, deixando-os caírem como se nada fossem.

Estava satisfeita quando terminara. Os corpos logo se transformaram em cinzas, e as cobras-rei enrolavam-se ao corpo dela, marcando-a e desaparecendo.

– Você agora é uma de nós – o mestre do coven tinha os brilhantes olhos negros nela. – Este corpo agora renasce, uma nova vida se inicia, uma nova identidade. Diga-nos, qual é o nome de sua escolha?

Viria fora instruída a escolher um nome para si antes da cerimônia, um que ela seria obrigada a usar pelo resto de sua existência. Se ela agora estava entre as cobras, só havia um nome que poderia adotar.

– Thanita – encarou-o. – Meu nome agora é Thanita, mestre Baldrak.

Sua vingança agora estava próxima, mesmo que suas irmãs e irmãos a desaconselhassem a desistir de tal, agora que tinha uma nova vida.

Vingança levara Thanita até o coven e se ela não a fizesse acontecer, não seria honesta consigo mesma e com os desejos de seu coração, desonrando, assim, sua mãe.

Noites após a cerimônia, enquanto planejava os próximos passos para a execução de seu plano em seus aposentos, o mestre do coven batera à sua porta. Ela não ousaria recusar sua visita, mas não era nenhuma tola. Sabia o que ele queria no momento em que abrira a porta e lhe dera passagem, pois era a mesma coisa que ela queria.

– Então está decidida – Baldrak observou os mapas que ela havia desenhado em sua escrivaninha. – Uma serpente honrada, eu vejo. Fiz bem em acolhê-la.

– Você sabia o que eu estava buscando, mesmo antes de eu falar.

– Sim – ele sorriu. – Mas não acreditava que seguiria conosco. Possui mais determinação que eu imaginava.

– Assim como você – ela se aproximou. – Está aqui. Tentando me fazer mudar de ideia?

– Eu não conseguiria – suas mãos afagaram o rosto dela. – Mas devo tentar.

– Por que quer que eu fique? – encarou-o.

– Porque vejo potencial em você. Potencial para liderar esse coven um dia, para trazer outros até nós. O seu futuro aqui será maior que o futuro que teria naquela corte.

– Diz isso como se fosse deixá-los.

– A nossa Senhora eventualmente nos chama. Ela busca a todos nós.

– Pare – ela sorriu brevemente. – A Senhora ainda não terminou com você, ainda há muito trabalho a fazer, mestre.

– Diga-me que voltará para nós quando terminar.

– Não posso fazer falsas promessas – tocou seus lábios. – Sinto muito, Baldrak. Há algo que desejo fazer antes de ir, no entanto. Você se deitaria comigo?

~

A noite que tanto esperara finalmente havia chegado.

Seis anos após a promessa que fizera, a vingança aconteceria.

Adentrou o castelo do rei de forma sorrateira, matando todos os guardas em seu caminho, tal como, de forma sorrateira, havia matado todos os súditos do rei e todos os outros membros de sua casa.

Todos que haviam amaldiçoado sua mãe e a chamado de bruxa, que haviam cuspido em seu rosto, que a chamaram de maldita. Todos estavam mortos. Nenhum alarme soado, nenhuma correria provocada.

Naquela noite o rei comemorava o aniversário de um ano de seu primeiro herdeiro homem e o castelo estava em festa. Era a oportunidade perfeita.

Thanita, em uma sombra, observava os presentes no salão comum, bebendo, dançando, entre risinhos e cochichos, e lembrou-se de quando a senhora sua mãe, a rainha Vilya, costumava se sentar ao lado de seu pai, o rei, e ela ao seu lado. Há muitos anos eles tentavam um herdeiro homem, alguém para quem poderiam passar a coroa, e Thanita, então Viria, tinha grande ressentimento com o costume, pois estava custando a saúde de sua mãe.

A rainha havia lhe ensinado tudo o que um rei deveria saber para governar bem, e ela nunca reclamou para aprender, pois tinha em si o peso do dever.

Mas os apoiadores de seu pai não gostavam nada daquela ideia e menos ainda da influência que a rainha exercia no povo. Depois de perder mais uma criança, o irmãozinho que Viria tanto esperava, a vida da rainha se tornou um inferno, assim como a da princesa.

Em pouco tempo a rainha fora acusada de bruxaria, de matar o verdadeiro herdeiro do trono de Isnaucurike para que Viria ascendesse, e por tal suposto crime, fora condenada à morte. Mesmo que Viria protestasse e dissesse que alguém havia provocado o aborto de sua mãe, seu pai não lhe dera ouvidos.

Viria nunca se esquecera do assolador desespero que sentiu quando a cabeça de sua mãe caíra do pescoço.

Como poderia amar seu pai e rei, se este havia condenado sua mãe injustamente? Não havia mais amor ali, e nem um lar. Prometera à sua mãe que se vingaria. Restou a ela usar o último recurso deixado pela rainha: o Livro das Sombras da casa Dracari.

Se desfizera dos cabelos, das roupas nobres, e sobre o túmulo da mãe, Viria invocara vingança como justiça, oferecendo sua vida e sua alma para servir as Senhoras da Morte. Quando despertara nua e careca na floresta proibida, soube que suas preces foram ouvidas.

E quando pôs seus pés livremente no salão comum, a música morreu, os pés interromperam sua dança, tal como os risos e as conversas.

No rosto do rei, a confusão.

– Pensei que estivesse perdida para sempre!

– Eu estava – Thanita avançou em sua direção. – Mas a Morte me encontrou.

Thanita tomou para si as vidas de todos os convidados de uma só vez, apagando o fogo nos archotes e nos candelabros um a um. Só então avançou para a mesa onde estava o senhor seu pai, sua madrasta e o príncipe herdeiro do trono.

– Isto é pela minha mãe – disse ela, e atravessou o peito da nova rainha com o punho. – Isto é pelo meu irmão – disse ao incinerar seu meio irmão. – E isto... É por mim!

Seu pai, já horrorizado com o tamanho da desgraça em que se encontrava, berrou em absoluto desespero quando Thanita o rasgou de fora para dentro, apanhando seu coração por último e pisando sobre o mesmo até que não passasse de pedaços soltos.

Em plena escuridão, sorriu.

– E assim termina uma dinastia.

10 de Outubro de 2020 às 01:48 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Alexis Rodrigues Olá, turubem? Meu nome é Alexis (na verdade é pseudônimo), manauara de 25 anos (tô velha). Tenho graduação plena em Letras - Língua Inglesa pela UNINORTE. Faço parte do Time de Verificação do Inkspired. Em caso de quaisquer dúvidas com a plataforma, não hesite em nos perguntar ;) Estamos aqui para melhor atender vocês <3

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