_pat Bluema .

Bulma Briefs é agente especial da homicídios e junto com o inspetor de polícia Freeza Folke, investiga os crimes, aparentemente, sem solução. Seis mulheres foram mortas. Nenhuma ligação entre elas. Nenhuma pista deixada nas cenas dos crimes. Mas o que Bulma não esperava, é que ela também seria uma das vítimas. Após um sequestro traumático, ela sobrevive, mas o assassino não é encontrado. Dois anos depois ele volta a agir e Bulma irá caçá-lo, irá vingar-se, mesmo que isso lhe custe a própria vida. **ATENÇÃO** Gêneros: Ação, Drama / Tragédia, Ficção, Luta, Mistério, Misticismo, Musical (Songfic), Policial, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência Você também encontra essa história publicada nesse link: https://www.spiritfanfiction.com/historia/bulma-briefs--schizofreneia-20375463


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

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Considerações sobre a Loucura

ATENÇÃO: essa é uma obra de ficção, porém, existem cenas de violência que podem gerar gatilhos. Se você é sensível a esse tipo de conteúdo, peço que pare por aqui.

Essa história não tem como objetivo romantizar ou fazer apologia à qualquer tipo de violência. Se você tem menos de 18 anos, pare por aqui.

NÃO me responsabilizo pelo acesso de menores. Caso você leia algo que lhe incomodar, não hesite em falar.

* Os personagens de Dragon Ball pertencem ao Akira Toriyama. Os personagens originais pertencem à mim.


***


A vingança é um prato elegante, preparado cuidadosamente e servido apenas para convidados especiais.

Bulma Briefs




Cidade de Aether

2018

3h00



- Síg?! – a garota loura de olhos azuis gritava pelo quintal da casa – A brincadeira já acabou, onde você está?

De cima do galho de uma árvore, a irmã mais nova ria, se divertindo com a irritação da outra. Estavam brincando de pique esconde, mas por estar entre as folhas da árvore, Tights não conseguia encontrar a irmã. Já se passara meia hora e ela havia cansado de brincar.

- Síg?! – Tights gritou novamente – Não tem graça, apareça!

Começava a anoitecer e a temperatura descia junto com o sol. Apesar de ser verão, os dias eram frios e as noites mais ainda.

- Meninas, chega por hoje, entrem!

O pai gritou da porta de casa.

- Pai, - Tights chamou chorosa – manda a Síg aparecer!

O Briefs riu. Apesar de ser mais velha, Tights era constantemente enganada pela irmã. Fosse em brincadeiras, desafios e até mesmo com a comida, principalmente quando o assunto era, morangos.

O pai tragou o cigarro e soltou a fumaça branca que foi levada pelo vento. Preparava-se para chamar a filha mais nova quando um grito fez com que ele e Tights se virassem.

- Bulma! – o pai largou o cigarro e correu.

A menina estava no chão e segurava o braço esquerdo. O galho da árvore havia cedido e ela caiu de uma altura considerável.

- Ai, ai, ai... – Bulma se contorcia no chão – meu braço está doendo!

- Bulma? – Tights gritou e correu na direção da irmã.

- Minha cabeça... – Bulma balbuciou e um filete de sangue escorreu pela lateral esquerda.

Ela tentou se levantar, mas ao fazê-lo, sentiu tudo girar e escurecer.

- Bulma, não se mexa! – o pai alertou – Bulma?

Ele se aproximou da menina e amparou sua cabeça que tombava lentamente.

- Bulma, não durma! – o Briefs ergueu a menina nos braços – Bulma? Bulma?






- Bulma!

O calor e o silêncio eram tão aconchegantes que Bulma sequer se importou em abrir os olhos. Sentia um sono quase dormente e seu corpo parecia estar flutuando, sustentado por alguma espécie de força maior.

A sensação era parecida com a pressão da água quando se mergulha profundamente no mar.

- Bulma!

A voz que a chamava vinha de longe. Não era baixa e nem era alta. Mas as pálpebras pesavam e isso tornava a sensação do sono ainda maior. Bulma apertou os olhos e tentou virar de lado, mas algo a impediu.

- Bulma, abra os olhos!

Ela reconheceu a sua própria voz.

- Abra os olhos!

E ela abriu, mas tudo o que Bulma viu, foi a escuridão total. Tentou se levantar e sua cabeça bateu em algo duro e áspero. Dobrou as pernas, mas seus joelhos também foram imediatamente contidos.

Bulma estava tonta, lenta, mas ainda assim conseguiu perceber que havia algo errado. Não sentia cheiro de nada. Não ouvia qualquer som.

Seus braços estavam esticados na lateral do corpo e ela se deu conta de que havia, aparentemente, paredes colocadas na lateral. Empurrou os pés e eles tocaram em algo rígido e um som oco reverberou.

Esperou, com a esperança de que alguém pudesse ter ouvido o barulho. Concentrou-se, mas continuava no silêncio absoluto.

- Deus...

Bulma se deu conta de onde estava. Não queria admitir, mas era a única resposta, a mais óbvia pelo menos: um caixão. O desespero foi a primeira sensação a querer crescer dentro de dela. Respirava rápido, mesmo sabendo que isso faria com que o oxigênio se extinguisse mais rápido ainda.

Ela era treinada para situações extremas, mas nunca havia chegado à tamanha extremidade de uma situação como aquela.

- Pensa Bulma, pensa.

Com certa dificuldade começou a apalpar as laterais em busca dos bolsos da calça ou alguma lanterna que pudesse ter sido deixada ou, até mesmo seu isqueiro. Acender um isqueiro era arriscado, poderia haver algum gás ou material que entrasse em combustão com facilidade. E o fogo também queimaria o oxigênio ainda mais rápido.

- Merda.

Não havia nada. Seus bolsos estavam vazios e claro, sua arma havia sido levada. Bulma chutou a extremidade diversas vezes na tentativa de quebrar o que ela imaginava ser a madeira, mas nada cedeu. O calor aumentava e ela começava a suar. Estava vestida com sua jaqueta de couro, o que tornava o calor ainda mais sufocante.

- Tem alguém aí?!

Ela gritou o mais alto que conseguiu e, apesar de estar deitada, sentiu sua cabeça girar.

- Não se agite muito, a entrada de ar é pequena.

Bulma congelou. Seus olhos iam de um lado para outro, procurando no escuro pela voz que ouviu. Foi tão repentino e assustador que ela cogitou estar delirando. Não fazia a menor ideia de quanto tempo estava naquele lugar. Não se lembrava sequer de onde estivera pela última vez antes de acordar. Sua garganta estava seca, necessitava de água como urgência.

- Como vai, agente especial Briefs?

Bulma não conseguiu distinguir se era uma voz de homem ou mulher. Estava disfarçada, provavelmente por um daqueles programas que mudam vozes. Ela mesma já tinha usado um deles. Mas Bulma notou o tom de deboche com o qual foi chamada de “agente especial”.

- Quem é você?! – ela gritou – O que vai fazer comigo?!

- Acalme-se, vamos conversar um pouco.

Bulma fechou os olhos e lágrimas escorreram pelas laterais de seus rosto. Ela torceu para que não tivesse uma câmera com visão noturna dentro daquele cubículo.

- Bulma?

Ela tencionou a mandíbula. Cerrou os punhos como se estivesse pronta para socar o maldito que se atreveu a colocá-la naquela situação. Seu corpo estava completamente retesado e sua coluna começava a doer.

- Fale comigo, Bulma.

Ela respirou fundo.

- Onde eu estou? O que você fez comigo? O que quer de mim, desgraçado?! Porque não me enfrenta cara a cara, filho da puta!

Bulma gritou e começou a se debater na tentativa de quebrar alguma parte daquela prisão sufocante. Ela chutava, socava como podia, gritava palavrões, ameaças.

- Eu te dei algumas chances, mas você não soube aproveitar. – a voz soou calma – Você não conseguiu entender os sinais a tempo, agente especial Briefs.

- O que?!

Bulma parou.

- O que você disse? – ela estava cansada e com sede, muita sede – Que sinais?

- Bulma..., - ele riu – as seis mulheres...

Como se um filme estivesse acabado de ser colocado na tela, as imagens das vítimas foram passando uma a uma na mente de Bulma. Cada uma das mulheres assassinadas.

- Não... não... não... não....

Era o que Bulma conseguia dizer, repetidas vezes. Começou baixo, quando ela se deu conta de que era a última vítima.

- Sim, agente especial, sim.

A voz soava como uma maldita assombração. Bulma continuava a murmurar a palavra não e sua voz ia ficando cada vez mais alta.

- Sim...

Ela ouvia no escuro.

- Não!

Ela gritava no escuro.

E Bulma passou dos gritos aos berros, mesmo sentindo dor na garganta e no peito. Ela berrava, urrava, enquanto se debatia. Isso a impediu de ouvir um barulho bem sutil, vindo de um pequeno orifício logo acima da cabeça dela. Aos poucos Bulma Briefs foi perdendo as forças para gritar ou se mover e, sem que percebesse, ela adormeceu novamente.






Aether.

Uma cidade Escandinávia localizada no Círculo Polar Ártico, pertencente à Finlândia. Uma ilha com pouco mais de 15,000 habitantes, cercada pelo Mar Báltico. No inverno a temperatura pode chegar à -20℃, no auge da estação e o dia dura menos de seis horas. No verão a temperatura varia entre 19℃ e 21℃. É uma cidade turística e sua principal atração é a densa floresta Spiritus. As lendas contadas pelos nativos, é o que leva cada vez mais turistas a se aventurarem na floresta de coníferas em buscas de esconderijos e até mesmo casas construídas pelos antigos nativos. Os vikings.

Conta-se que muitas pessoas jamais voltaram de Spiritus. Muito se diz dos fantasmas famintos e devoradores de almas, condenados eternamente a viver fora dos portões de Valhalla. Um castigo imposto por Odinaos que se converteram ao cristianismo em troca de riquezas e poder. Os mais velhos, quando surge a aurora boreal, dizem que Odin, o pai de todos,aparece e escolhe uma dessas almas para levar, perdoando-os e permitindo sua entrada para o descanso eterno.

Mas são apenas lendas. A verdade é que a floresta Spiritus é densa, suas árvores são numerosas, altas e de troncos largos. A terra é escura e pedregosa, nada fértil e muito escorregadia. É fácil se perder entre as árvores, principalmente para quem não tem experiência com trilhas. É muito fácil morrer congelado e ficar esquecido para sempre em Spiritus.

Só é possível chegar em Aether através de embarcações. Sejam balsas ou barcos particulares. Também é possível chegar por via aérea usando helicópteros de pequeno e médio porte. Do lado oposto à floresta fica o lago Fictum.

Fictum recebe água do Mar Báltico e formou-se devido à constante expansão terrestre por conta da recuperação pós-glacial. Uma fenda gigante se abriu e a água escura tomou conta. Durante o dia torna-se o espelho do céu, plagiando de forma obscura a imensidão azul. Não há peixes em Fictum, mas todo ano, no inverno, acontece o campeonato de mergulho. A única peça que pode ser usada é sunga ou biquini.

Estranhamente, Fictum nunca congelou, mesmo nas temperaturas mais baixas. Mas se alguém permanecer muito tempo sob suas águas, pode congelar e desaparecer para sempre. Nunca, em todos os casos, o corpo de um azarado foi encontrado após morrer congelado e perder-se nas profundezas escuras do lago.

Aether é uma cidade curiosa e estranha. Mais estranha do que curiosa. Talvez seja isso que chame atenção e é nessa cidade que Bulma Briefs mora desde que se formou na academia de polícia. Foi transferida de Éden, sua cidade natal, quando aceitou o convite após ser promovida e iria integrar o time do inspetor Freeza Folke, ficando no lugar de Sorbet que havia se aposentado.




Polícia de Aether

3 dias antes do sequestro


A guarnição policial de Aether era composta por uma pequena tropa. Ficava em um prédio de três andares divididos nos principais departamentos: IML, Narcóticos, Homicídios, Guarda Florestal, Guarda de Trânsito, Ronda Escolar, Prevenção Anti Sequestro e no subsolo ficavam as celas de detenção provisória.

Homicídios ficava no segundo andar, junto com IML, sala de autópsia, uma pequena sala com câmara fria para conservar os corpos e um laboratório de análises clinicas. Tinha também uma pequena copa, uma sala de televisão equipada com vídeo game e pufs macios.

O inspetor Freeza Folke tinha sua própria sala e ao lado dela havia uma sala de reuniões e, espalhados de forma organizada, os demais agentes.


- A polícia confirmou mais uma vítima do serial killer, ainda desconhecido, essa semana. Trata-se de uma mulher de aproximadamente vinte e seis anos, seu nome não foi divulgado, mas sabemos que trabalhava como corretora de imóveis. Voltaremos com mais informações no jornal das oito.


- Ah, mas que merda!

Bulma desligou o televisor, puxou uma banqueta e se sentou de frente para o quadro branco. Acendia seu terceiro cigarro em menos de cinco minutos. Apoiou os pés nas ferragens de baixo e inclinou-se apoiando os braços nas coxas.

- Você tem um vocabulário bem peculiar, agente Briefs. – Folke provocou.

- Não podemos parar agora, inspetor! – Bulma ignorou a observação do chefe – É a sexta vítima e não temos nada, nada!

Ela buscava solucionar um caso que estava deixando os moradores de Aether preocupados. Eram seis vítimas. Todas mulheres. Idades diferentes, tipos físicos diferentes, nenhuma ligação entre elas e todas foram mortas de formas diferentes.

- Tem que ter um padrão, não é possível!

- Ouça, minha cara, - Freeza juntou-se a ela se sentando em outra baqueta – eu realmente adoro a empolgação de jovens policiais, mas, pela experiência que tenho, isso não dará em nada.

Bulma encarou seu chefe com indignação. A calma com a qual ele falava lhe dava nos nervos. Como ele poderia ignorar seis mortes em menos de quatro meses. Parecia que não se importava com a segurança da cidade ou das pessoas. Mas a novata, como a chamavam, ainda não sabia muito sobre Freeza Folke.

Ele já estava prestes a se aposentar também. Carregava o peso de muitos anos como policial e já tinha visto de tudo, muito de tudo. Já tinha solucionado casos impossíveis e perdidos casos simples. Já tinha sido agente de trânsito, guarda municipal e trabalhado algum tempo apenas no administrativo. Sua ascensão à inspetor aconteceu quando Freeza, um pouco mais jovem, desvendou as mensagens de um assassino e a polícia conseguiu prender o criminoso antes que ele cometesse outro crime.

Ele era muito astuto. Inteligente, perspicaz e tinha um raciocínio lógico de dar inveja. Era formado em Direito, mas nunca advogou. Freeza gostava mesmo era da parte bruta. Nunca se incomodou ao ver um cadáver. Nunca poupou esforço para conseguir uma confissão. Nunca gastou uma bala de sua arma em vão. Se ele atirava, ele matava.

Mas agora, velho e cansado, ele preferia a confortável cadeira de couro com encosto alto e apoio de cabeça. Seu café forte e sem açúcar, o jornal do dia e o noticiário de esportes que ouvia à moda antiga: no rádio.

E ele sabia quando um caso seria desvendado ou não. O que Freeza via, naquele quadro branco, era apenas algum espertinho brincando de Deus. Um espertinho um tanto inteligente, ele tinha que admitir, mas não era um serial killer.

Não havia, aparentemente, motivação. Não havia padrão. As escolhas das vítimas eram aleatórias e nenhuma delas tinha qualquer profissão especial ou alguma ligação com autoridades ou até mesmo fichas policiais. Eram mulheres comuns do ponto de vista de que não possuíam pecados, defeitos, delitos. Elas não davam à ninguém um motivo para serem mortas. Sequer tinham multas de trânsito e uma delas nunca havia chegado atrasada no trabalho. Nunca.


- Ela trabalhava aqui há quatro anos e nunca se atrasou um minuto.


Foi o que o gerente da corretora de imóveis disse em seu depoimento.

- Esse cara não é o Zodíaco, eu vou pegá-lo!

Freeza riu. A nova agente era tempestuosa, falava alto, não levava desaforo. Ela se impunha, fosse para homens ou para mulheres. Ela não tinha qualquer problema em ditar suas qualidades como policial, pois havia batalhado muito para isso.

Bulma ignorou a risada do inspetor e se levantou aproximando-se mais do quadro. Estava ficando obcecada. Lia e relia os depoimentos de familiares, amigos, colegas de trabalho, gerentes, supervisores e todo o tipo de pessoa que conseguiram entrevistar. Lia e relia os relatórios da perícia, laudos do legista, resultados das digitais, sangue, fibras de tecido, pedaços de comida, horários de trabalho, horários de academia, tudo, absolutamente tudo que conseguia coletar. Olhava as fotos dos corpos, os ferimentos, as expressões nos rostos das vítimas e tudo isso lhe dizia apenas uma coisa: nada.

Bulma não conseguia tirar qualquer nova prova ou qualquer novo sinal. Fazia rondas pela cidade em horários diferentes, visitando os lugares onde as vítimas foram encontradas, onde trabalhavam, onde moravam. Os bares ou restaurantes que frequentavam. Assistia, até seus olhos arderem, aos vídeos de segurança obtidos de todos os lugares possíveis e tudo que eles lhe mostravam era: nada.

- Diz alguma coisa, pelo amor de Deus!

Ela virou-se para Freeza de repente. Os dois se encararam por alguns segundos até que ele se levantou.

- Ouça, eu gostaria de poder dar à você uma resposta, uma pista, um nome, um suspeito. – Freeza aproximou-se mais – Mas tudo que você tem é o que eu tenho, agente Bulma. Esse monte de nada por cima de seis mulheres assassinadas.

Bulma bufou.

Freeza afastou-se e saiu da sala de reunião onde o caso estava montado. Dirigiu-se até sua sala e chamou Bulma. Sentou-se em sua cadeira preferida e esperou.

– Eu já perdi casos simples e casos complicados. – ele começou assim que Bulma chegou na porta, cruzou os braços e encostou na lateral - Isso me incomoda até hoje, mas não dá para ganhar todas. Às vezes, o mal vence.

Ele abriu uma das gavetas da mesa e tirou uma pasta velha de papel.

- Venha. – Bulma entrou - Apague esse cigarro, você vai morrer antes de mim se continuar a fumar desse jeito! – Freeza abanou a mão tentando dissipar a fumaça e Bulma riu – Olhe, o que vou te mostrar agora foi o maior erro da minha vida e até hoje eu não consigo superar.

Bulma abriu mais os olhos e acompanhou os movimentos do inspetor Folke. Ele colocou a pasta na mesa, virada para Bulma e abriu. A primeira coisa que a agente viu foi a foto de uma garotinha.

- O nome dela era Ana Vulpes.

Freeza pronunciou o nome da menina devagar, o pesar em sua voz foi notado por Bulma. A foto, que foi cedida pela família, estava presa ao relatório do caso com um clipe metálico em processo de oxidação. Ana sorria abertamente e parecia feliz. Vestia o traje dos escoteiros e tinha um lenço vermelho no pescoço com o símbolo dos “Heros Meam”, onde uma silhueta que não denominava ser de homem ou mulher, segurava um arco e uma flecha. O traje era verde musgo e Ana usava uma saia short que ia até seus joelhos.

A garota aparentava ter no máximo doze anos. Era branca, tinha cabelos ruivos e encaracolados. Olhos cor de mel e sardas no rosto. Parecia uma bonequinha de porcelana e, por um momento, Bulma se pegou sorrindo para ela.

- Ana saiu em uma excursão com o grupo de escoteiros, - Freeza continuou – era o que ela mais amava, segundo seus pais. A excursão, que duraria três dias pela floresta Spiritus, acabou antes mesmo de começar.

Bulma tirou os olhos da fotografia e fitou o inspetor.

- O ônibus que levava a turma atolou. – ele respirou fundo e continuou – Todos desceram e enquanto o motorista ligava para o guincho, as crianças se espalharam. A única que não voltou foi ela. Ninguém a viu. Ninguém soube dizer para onde Ana caminhou. Ninguém, absolutamente ninguém, notou o desaparecimento dela. A única coisa que encontramos, depois de três semanas procurando, foi o casaco amarelo que ela estava usando.

Freeza virou a folha e Bulma viu outra foto.

- Aqui, - ele apontou com o dedo – esse casaco estava boiando no lago Fictum. Mas o lago fica totalmente oposto à floresta e isso causou uma confusão infernal no caso. Colhemos mais depoimentos, falamos com todos os amigos dela, mais de uma vez e as respostas eram sempre as mesmas. Nenhum deles se equivocou, nenhum deles lembrou de qualquer detalhe que não tivesse dito antes, ninguém, agente Bulma, ninguém soube dizer o que aconteceu com Ana Vulpes.

Freeza recostou em sua cadeira e passou as mãos pela cabeça. Fechou os olhos e respirou fundo prendendo o ar por segundos e soltou. Bulma apenas observou e sentiu o quanto aquilo o afetava. Ela voltou os olhos para a foto do lago Fictum e o casaco amarelo boiando. Era um daqueles casacos térmicos cheio de gominhos e extremamente quentes. Era caro e logo ela deduziu que Ana Vulpes pertencia à uma família de, no mínimo, classe média.

- Posso? – ela apontou para a pasta.

- Fique à vontade. – Freeza se levantou – Quer café?

- Sim, por favor, sem açúcar. – Bulma sorriu levemente.

- Não se acostume, não estou aqui para servir você.

Ela riu quando ele lhe deu as costas. Estava conhecendo seu chefe aos poucos, mas já havia percebido que ele era uma pessoa orgulhosa. Vaidoso, jamais admitia que estava ajudando alguém. Gostava muito de exaltar suas qualidades como policial e através disso ele passava ensinamentos. Era mal humorado a maior parte do tempo, sarcástico o tempo todo, irritante, irônico, mas sempre soltava alguma piadinha que fazia com que ela risse.

Assim que Folke deixou a sala, Bulma puxou a pasta e buscou pelo relatório do caso. As investigações duraram seis meses e foram encerradas por falta de provas e Ana Vulpes foi declarada desaparecida e morta. A família insistiu para que continuassem a procurar, mas sem qualquer pista, o caso não recebia investimento. Junto aos relatórios da perícia forense estavam alguns recortes de jornais e as notícias eram completamente sensacionalistas.



“Inspetor da polícia declara caso encerrado”

“Incompetência: inspetor Freeza Folke, responsável pelo caso Vulpes, diz não ter pistas da menina desaparecida”

“Medo: moradores de Aether assumem insegurança e dizem não confiar na polícia”

“Clube dos Escoteiros ‘Heros Meam’ fecha as portas”

“Caso Vulpes é encerrado. Família pede justiça.”

“Família Vulpes deixa Aether: ‘Não podemos viver em um lugar onde não nos sentimos mais seguros’, diz mãe de garota desaparecida”



- Wow... – Bulma sussurrou.

- Pois é. – Freeza apareceu e colocou uma xícara ao lado da pasta – Eu ainda ando pela floresta de vez em quando e também passo horas observando o lago.

- Mas..., - Bulma pensou um pouco – você mesmo me disse que existem casos que não tem solução. – ela acendeu um cigarro e bebeu o café – Por que acha que foi uma falha sua? Por que se sente responsável se fez tudo o que podia?

Freeza pegou a pasta de volta, fechou e guardou na gaveta. Com um dos braços para trás, parou na janela e olhou para fora.

- Houve uma noite em que eu acordei assustado depois de um pesadelo estranho. Olhei para o relógio e eram quatro horas da manhã, exatamente quatro horas. Eu estava completamente coberto de suor e me levantei para tomar uma ducha. Depois fui para cozinha e preparei meu café. Já estava amanhecendo e logo eu sairia para trabalhar.

Bulma ouvia atentamente enquanto Freeza falava pausadamente aumentando o mistério e deixando a novata ansiosa. O cigarro já estava no fim e Bulma logo emendou outro.

- Às seis horas eu estava saindo quando o telefone fixo de minha casa tocou. Eu ia ignorar, mas esperei e ele continuou tocando. Eu contei sete toques e atendi. Eu ouvia apenas o som da respiração do outro lado da linha. Esperei, esperei, esperei e quando eu ia desligar ela falou.

- Ela?! – Bulma saltou da poltrona – Ela, a...?

- Ana. – Freeza completou – Ana Vulpes me ligou e disse que tinha fugido de casa.

- Co... co... como assim?! – ela foi até Freeza – Como assim, inspetor?

- Ana estava sendo violentada pelo pai. – Freeza encarou Bulma – Ela me disse que começou aos dez anos quando as regras dela vieram. Ela tentou contar para a mãe, mas não conseguiu. – o semblante de Freeza estava endurecido pela raiva – Ana viu a oportunidade de fugir quando a excursão foi anunciada, ela estava com quatorze anos e estava grávida.

Bulma ficou estática.

- Ela me disse que quando o ônibus atolou e todos se separaram, ela tirou o casaco amarelo e guardou na mochila. Vestiu-se de preto e se embrenhou na floresta. Achou uma cabana e ficou até o anoitecer. Tinha levado comida, água e um medicamento para abortar. – Freeza fechou os olhos – Ela sabia que poderia morrer, mas preferiu assim. Estava com quase quatro semanas...

- Pobrezinha... – Bulma lamentou.

- Bom, acontece que ela tomou o medicamento e logo as dores começaram. Ela sabia que iriam procurar por ela, não podia gritar. Sabia que nenhum animal iria até lá, afinal não temos animais em nossa floresta. Ela sangrou a noite inteira até conseguir abortar. Sozinha, no escuro, no frio. Enterrou o feto e se embrenhou ainda mais na floresta e ficou alguns dias se escondendo, sempre mudando de lugar até voltar para a cidade e pegar a balsa. Foi para Éden e de Éden ela sumiu.

- Como assim, sumiu? Não te disse onde estava?

- Não. Eu insisti muito, mas ela não disse. Estava com documentos falsos e por isso não foi interceptada. – Freeza deu meia volta e sentou-se – Ela disse que tinha mudado o cabelo e seu nome. Ela não me disse qual era o nome, apenas que estava loira e tinha destruídos seus lindos cachos. Ela chorava e eu não conseguia dizer nada. Eu fiz apenas algumas perguntas, mas eu estava atordoado, chocado. Ela disse que acompanhou as investigações e me pediu desculpa, mas eu disse que ela não me devia nada.

- Você tentou encontrá-la?

- Não. Ela implorou que eu não o fizesse e eu respeitei. Ana disse que estava segura e tinha um emprego, mas eu insisti para que ela me desse notícias vez ou outra.

- E? – Bulma se agitou.

- Bem, ela me agradeceu e disse que se precisasse de alguma coisa me ligaria. Então ela desligou e nunca mais eu soube de Ana Vulpes ou, seja lá quem ela se tornou.

- E os pais? – Bulma sentou novamente.

- Eu não pude ir atrás do pai dela, não legalmente, pois não tinha provas e Ana não iria depor. Mas eu estava com raiva, irado. Eu queria pegar o maldito pai e socar até que minhas mãos se estourassem, então eu pensei muito, por muitos dias. Eu não dormia, eu não comia, eu só pensava nele e no que ele fez com aquela menina.

- Fala logo, pelo amor de Deus! – Bulma não aguentava mais, sua curiosidade a estava sufocando e o cigarro também.

- Antes de Ana desligar eu perguntei a ela o que sentia em relação ao pai e ela me disse uma única palavra: ódio. Esse foi o aval que ela me deu. Dias passaram e em uma noite eu acordei assustado por causa de um pesadelo, aquele mesmo pesadelo e tomei uma decisão. Eram exatamente quatro horas da madrugada, eu peguei a minha arma não oficial, um gravador, entrei no meu carro e fui para Éden. Observei a nova casa da família Vulpes – o inspetor frisou a palavra família com ironia – e quando anoiteceu, às quatro horas em ponto eu toquei a campainha.




- Inspetor?! – um homem alto e com cara de travesseiro abriu a porta.

- Boa noite senhor Vulpes, me perdoe por aparecer a essa hora, mas eu tenho notícias de Ana.

O homem sorriu e chamou sua mulher. Logo os três estavam na sala e os pais ansiosos para saber da filha.

- Preciso dizer, - Freeza deu o tom do suspense – que Ana está um pouco traumatizada e me pediu que viesse até vocês e dissesse que ela só quer ver a mãe, por enquanto.

- O que?! – o pai se indignou – Mas, por quê?

- Creio que sua esposa pode esclarecer melhor sua dúvida, meu caro senhor.

O homem olhou para sua mulher que imediatamente baixou a cabeça e cobriu o rosto com as mãos. Freeza apenas observava e logo a mulher explodiu em um choro convulsivo. O inspetor quis sorrir, mas conteve-se.

- Eu sinto muito, senhora Vulpes. – Freeza fingiu condescendência, o que não era de seu feitio.

- A culpa é dele! – a mulher gritou e se levantou apontando para o marido – É dele, a culpa é dele, esse maldito estuprador! Minha filha..., minha menininha... minha raposinha...

Freeza sacou que a mãe sabia, mas porque ela não denunciou o marido? Porque deixou que sua filha tivesse que tomar atitudes drásticas sozinha, sem qualquer apoio.

- Senhora, calma-se. – Freeza também se levantou – Eu preciso perguntar uma coisa, é algo realmente sério.

Imediatamente a mulher o encarou. O marido também se levantou e encarou inspetor.

- A senhora sabia que ela estava grávida? – Freeza soltou de uma vez, ele queria que a bomba explodisse.

- Gravida...? – ela empalideceu e antes que caísse o marido a segurou.

- Isso é algum tipo de piada, inspetor?

- Não, senhor Vulpes. – Freeza manteve-se firme – Ana me contou que você é o pai da criança que ela carrega no ventre.

O pai de Ana Vulpes sorriu. Um sorriso sombrio.

- Aquela pequena vadia gostava quando eu ia ao quarto dela. – ele tocou a própria pubs – Está vendo isso aqui? É grande e grosso e ela gostava, ela gemi...

Um estampido seco soou dentro da casa e o homem tombou feito uma tábua. No meio de sua testa um pequeno buraco vertia sangue, mas na parede que antes estava atrás deles, era possível ver os pedaços de massa cinzenta e muito sangue.

Antes que a mulher gritasse, o inspetor Folke levou o indicador aos lábios e ela se conteve.

- Vou te deixar viva e com muitas dúvidas sobre como a sua filha sobreviveu ao aborto que ela mesma teve de fazer. Você sabia, você ouvia e o que você ouvia não eram gemidos de prazer, mas preferiu ignorar.

- Só me diga se ela está bem, por favor, inspetor, eu imploro. – a mulher ajoelhou-se aos pés de Freeza, mas ele se afastou.

- Você quer saber se ela está bem?

- Sim, por favor! Eu imploro! Por favor...

- Coloque-se no lugar dela e tente imaginar, mamãe...

Apesar dos gritos chorosos e suplicantes da senhora Vulpes, Freeza deixou a casa, o homem morto e levou consigo a confissão. Ele sabia que não era sua jurisdição, talvez fosse demitido, mas tinha a verdadeira história de Ana Vulpes, contada por ela mesma. E toda vez que a culpa o visitava, ele ouvia as próprias palavras do pai, o maldito pai de Ana. Não que isso o fizesse se sentir melhor, mas o ajudava a acreditar que as palavras de Ana, de que ela estava bem, eram verdadeiras. Ela havia se livrado do inferno em que vivia e poderia ter uma vida melhor.







- Killing in the name of!

Bulma acordou e se levantou batendo a cabeça na madeira com força. O som da música soava alto demais e estava desorientada. Estava escuro e logo ela sentiu algo escorrer em sua testa.

Era sangue.

- Olá, agente especial Bulma!

A música foi interrompida pela voz que falara com ela antes.

- Eu estou com sede.

Bulma sentia dores no corpo por conta da impossibilidade de se mexer. Sua garganta ardia. A cabeça começava a doer por conta da batida e seu estômago vazio nauseava por conta do cheiro de urina.

- Você ainda vai sentir muita coisa, inclusive a sensação, ou a certeza de estar louca.

A música tocou novamente e Bulma tentou, em vão, levar as mãos até as orelhas. Era como se os auto falantes estivessem ao lado se sua cabeça. Tocou por alguns segundos e parou.

- Você já matou em nome de alguma coisa que acredita?

- Eu preciso de água..., – Bulma estava zonza – por favor, só um pouco de água.

- Sabia que um ser humano consegue viver por até trinta dias sem água?

- Está muito quente aqui...

- Eu sei. Vai ficar pior, Bulma, muito pior.

- O que quer de mim, por que está fazendo isso?

Silêncio. Silêncio total. Bulma pode relaxar um pouco, era melhor do que o barulho.

- Há um pequeno orifício no lado esquerdo, vire a cabeça e tente se aproximar.

Em seguida o som de algo escorrendo surgiu e Bulma se esforçou para alcançar. Era a água. Com a língua, Bulma lambia a madeira áspera torcendo para que nenhuma farpa entrasse. Assim que a água chegou até sua garganta ela sentiu o alívio. Era fresca, sem gosto ou cheiro.

- Obrigada. – ela agradeceu assim que cessou o fornecimento.

- Não me agradeça. – a voz soou pesada – Nos próximos sete dias eu farei da sua vida um verdadeiro inferno e, se você aguentar, eu vou te esperar, porque sei que se você viver, você virá atrás de mim.

O coração de Bulma acelerou a tal ponto que ela pensou que iria infartar. Tudo que aprendera na academia de polícia parecia ter sido apagado de sua memória e ela temia não conseguir sobreviver naquele lugar.

- Sete dias, Bulma.

“Sete dias.”, Bulma repetiu mentalmente.

- Eu vou esperar você.

E o volume violento da música voltou a tocar.



***


- as cidades Aether e Éden foram criadas por mim, mas estão localizadas, nesta história, na Finlândia.


27 de Setembro de 2020 às 17:31 0 Denunciar Insira Seguir história
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