dissecando Edison Oliveira

Um idoso, que se recusa a abandonar as próprias raízes, acompanha solitário o avanço populacional enquanto sua velha cidade se desintegra.


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NOS VEMOS DO OUTRO LADO DA PONTE


Observar aquelas luzes ao longe até que era algo belo, quase poético, a forma como todas elas em união iluminavam a escuridão do horizonte. Dali, daquela colina íngremníngreme Ariele Gonzaga passava parte de suas noites, observando, olhando para um mundo que jamais ousara se aventurar.
Vivera sua vida inteira naquela província que agora era chamada de Ilha pelos moradores da Maravilhosa Cidade Grande, colhendo algodão, milho, plantando soja, saboreando laranjas e maçãs enquanto esticava o corpo debaixo da sombra de algum pomar. Escutava os pássaros, adivinhava a espécie de todos apenas pelo seu canto, sorria olhando para o céu. Fez isso e apenas isso durante sua longa vida, e isso foi o suficiente, prazeroso, um deleite que jamais encontraria se atravessasse para o outro lado da província. Na época em que era apenas um garoto, chamavam aquele lugar de Campo Silvestre, e ali era uma região de farturas, sorrisos e apenas paixão. Os dias foram ficando para trás, assim como a esperança de parte do lugar de um dia aceitarem a sua província como algo de fato habitável, nomeado em algum mapa de alguma enciclopédia verdadeira. Com isso, Ariel ganhou rugas pelo corpo inteiro, teve seus cabelos escuros cedendo lugar a alguns fios mais grisalhos, as mãos calejadas se tornando mais frágeis e doloridas. Contudo, seguia fazendo suas caminhadas até o topo da colina, todo fim de tarde, com o intuito de chegar em seu topo já com as estrelas como teto. Nunca olhara para o outro lado do mundo durante o dia; achava que, sem aquelas luzes iluminando a vida do lado de lá, não teria a mesma importância. A magia só funcionava à noite, o brilho só era relevante quando causava efeito na escuridão. Ariel não fazia ideia de como era chamada aquela região que se encontrava do outro lado de sua vida, mas já escutara os mais jovens (aqueles que sonhavam em viver do lado de lá na vida adulta), a chamarem de Pedra Negra, nome estranho para uma cidade que brilhava todas as noites.
Ele subiu e subiu, utilizando um galho de acácia como apoio, desviando das pedras maiores, parando de tempos em tempos para recuperar o fôlego. Antes, subia aquela colina correndo, sorrindo, erguendo as folhas secas pelo caminho, deixando um rastro emblemático para trás. Hoje, suas articulações não permitiam tal façanha, e Ariel até que preferia assim, achava que apenas daquele modo, lentamente, se podia apreciar melhor a paisagem. Quando enfim chegou em seu topo, deparou-se com alguém sentado em seu lugar. Subira ali milhares de vezes durante a vida, cresceu e envelheceu indo até o topo, sempre sozinho, e achava que sim, tinha o direito de chamar aquela pedra debaixo da árvore de sua, aquele lugar de seu. A colina era sua. A visão do mundo de lá, aceso, único na escuridão, também era sua. Aproximou-se com cautela, pisando firme, querendo ser escutado. As folhas secas farfalharam no silêncio da noite, atraindo a atenção do intruso. A silhueta dele moveu-se do caule da árvore, um vulto pequeno, talvez uma criança ou um adolescente muito magro.
— Quem se aproxima? — perguntou a voz da silhueta. Tinha um timbre fino, jovem, alguém que ainda não passara pela puberdade.
Ariel aliviou-se.
— É apenas um velho, — respondeu. — Só estou de passagem. Sempre estou de passagem.
— O senhor é da região?
— Sou, é claro — falou Ariel, notando que o rapaz estava assustado. — Sempre subo até aqui, a noite. É meu lugar favorito em Campo Silvestre.
— Campo Silvestre?
Ariel suspirou. Aquela silhueta devia ser de alguém muito jovem, certamente. Ninguém com menos de vinte conhecia Campo Silvestre pelo seu nome original, apenas como “a Ilha”, um nome qualquer dado por algum qualquer, alguém que vivia do outro lado, provavelmente uma pessoa refinada, que usava ternos e fumava charutos caros. Talvez este alguém retirara Campo Silvestre do mapa, e hoje quando se olha para uma enciclopédia, nada se vê ali a não ser uma porção de terra com uma legenda em que se lê apenas a palavra Ilha. Ariel chegou mais perto da silhueta e disse:
— Isso. Campo Silvestre. Este é o nome deste lugar.
— Sempre chamo de…
— Ilha, eu sei, — retrucou Ariel, agora mais próximo, perto o suficiente para ver que o dono da silhueta era um menino de doze ou quinze anos. Magro. Muito magro. Vítima da fome, ou como gostavam de dizer os barões do lado de lá, uma “vítima das circunstâncias”.
— Nunca tinha subido até aqui, — falou o menino, encantado.
— Eu venho até aqui desde garoto. A primeira vez que subi era mais novo que você. Aliás, que idade tem, rapaz?
— Dezesseis, — respondeu o jovem, e em seguida ergueu-se da pedra que servia como banco. — Quer sentar, senhor?
— Se quero. Essa poltrona é minha, rapaz, — e sentou-se, sentindo o corpo aliviar, relaxar naquela que tem sido sua região favorita desde sempre. Já acomodado, olhou novamente para o menino esquelético.
— Disse que tem dezesseis?
— Exatamente.
— Que lástima! — resmungou o idoso, desviando o olhar para frente, na direção das luzes sempre reluzentes do lado de lá. Aquilo lhe trazia conforto. Uma paz em meio ao caos, uma serenidade no centro de tanta loucura.
— Tenho comido pouco, — revelou o menino, abatido, porém conformado.
— Imagino que sim.
— E só vai piorar.
— Só.
— E também estamos com sede.
— Estamos, — disse o idoso, sentindo-se triste, algo improvável quando se encontrava ali em cima, sentado e olhando o mundo de luz. Aquilo o fez pensar, em questão de segundos, se estaria ele, um velho de setenta e oito anos, perdendo a vontade de sentir paz e tranquilidade, agora, anos e anos depois de subir até a colina em busca exclusivamente disso. Afastou os pensamentos e buscou aconchego nas luzes distantes do mundo de lá. Não encontrou o tanto que encontrava em anos anteriores, mas deu-se por satisfeito.
— Está indo para lá? — perguntou o idoso, olhando para as luzes.
— Estou. Todo mundo está.
— Eu não estou.
— Não devia ficar aqui, senhor. Não há mais nada por aqui.
— Não há para você! Você e os outros como você. Garotos que não reconhecem as próprias origens, que ficam hipnotizados por aquelas luzes. Vocês olham para lá e querem estar lá.
Um silêncio se formou por algum tempo, e nisso dava para ouvir o vento, os galhos das árvores dançando, murmurando coisas tristes, chorando inconsolavelmente no topo daquele lugar.
— Já eu, — falou o idoso, tempo depois. — Olho para lá desde sempre. Mas não porque desejo aquele lugar. E sim porque ele me faz lembrar de onde estou e agradecer por isso. É como olhar um quadro em uma moldura. É lindo, mas jamais estarei nele.
Outro instante de silêncio se iniciou, até que o jovem enfim se afastasse um pouco, na direção oposta de onde Ariel viera.
— Acho que vou indo, — disse. — Tenho muito que andar.
— Não vai chegar até o outro lado, filho. Quilômetros demais, combustível de menos.
— Mas preciso tentar! Todos estão tentando. Existe uma ponte que leva até…
— Conheço a ponte. Até já pisei nela. É enorme. Não se vê o final. Vai na direção das luzes. Meu conselho para você, é que não faça isso no momento.
— E esperar mais o quê? Não há o que esperar mais. Dois amigos meus já seguiram viagem. Dois dias atrás. Já devem estar do outro lado, comendo, enchendo as barrigas, matando a sede.
— Claro que estão, — falou Ariel, tentando não parecer tão irônico, mas suspeitando não ter conseguido. — Se quer mesmo ir, vá logo. Deixe tudo para trás. Sua vida, suas origens e sua família.
— Não tenho família.

Outro órfão, pensou Ariel. Lembro-me de quando me tornei um, trinta ou quarenta anos atrás, quando o mundo de lá passou a invadir o de cá. Maldita modernidade!

— Sinto muito, — lamentou o idoso. — Se tivesse algum fruto, daria para você. Ajudaria na viagem.
— Agradeço muito.
— Bem. O que está esperando?
O garoto pareceu sorrir, girou nos calcanhares magros, começou a andar e pouco depois se deteve. De onde estava, virou-se novamente na direção do idoso.
— Venha comigo, — pediu o menino. — Faremos companhia um para o outro durante a viagem.
— Estou bem onde estou. Além disso, não há nada para alguém como eu do lado de lá.
— Nem do lado de cá, — disse o menino, baixinho, imaginando que o idoso não escutaria, que já estava cansado demais, lento na vida e com os próprios reflexos, mas Ariel Gonzaga ouviu muitíssimo bem, porém, preferiu deixar as coisas como estavam.
— Siga sua viagem, rapaz.
— Me chamo Micael Silva, — revelou o garoto e deu as costas. No mesmo instante, tornou a se voltar para o idoso. — Vou esperá-lo do lado de lá, está bem?
— Como quiser.
— Obrigado pela conversa. Então, nos vemos do outro lado da ponte — e finalmente saiu, andando devagar, provocando ruídos na noite sempre quieta, passos arrastados, exaustos, que foram ouvidos por algum tempo por Ariel até que finalmente cessaram.
No alto da colina, apenas o silêncio outra vez, como sempre fora, desde sempre, com as luzes consumindo cada vez mais, avançando, se expandindo para todos os lados. Subira até ali durante todas as noites seguintes, com dificuldade, com dores pelo corpo, fazendo pequenas pausas, agradecendo imensamente aos céus quando finalmente chegava em sua pedra e sentava sobre ela. Lembrou-se do menino (mas não de seu nome), sempre que ficava ali em cima. Teria ele chegado do outro lado? Ariel não fazia ideia, mas gostava de acreditar que sim.

22 de Setembro de 2020 às 18:38 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Welington Pinheiro Welington Pinheiro
O que mais apreciei nessa história foi o clima de mistério sobre o outro lado da ponte e sobre o porquê de as pessoas estarem escolhendo atravessá-la. Mas ao longo da leitura vai ficando claro que a ponte é o foco em si. É uma metáfora poderosa sobre a transição das coisas, sobre o movimento eterno da vida. Cheguei a comentar essa história no Recanto das Letras e não sei se cheguei a dizer que quando li essa história, o tempo todo pensava sobre a morte. Não tem muito sentido quando se pensa que as pessoas "escolhiam" atravessar e não eram obrigadas a tal. Mas é um modo de sentir a história. Quem vai não volta mais e deixa para trás a solidão no cume de nossas vidas.
Gabriel Amaro Gabriel Amaro
Olá! Li seu conto e gostaria de expor os muitos pontos positivos que identifiquei, além de alertar sobre dois problemas que também notei. Pra começo de conversa: eu adorei o conto. Penso que o fator responsável por torná-lo realmente interessante é o clima de mistério que cerca a coexistência entre a cidade e o Campo Silvestre, então parabéns por construir isso tão bem. Gosto de como as informações — que já são escassas — chegam aos poucos, em pequenos sinais. Penso que essa subjetividade e esse mistério contribuem muito pra pluralidade de interpretações do conto. Eu, por exemplo, o enxerguei como uma ótima alegoria ao conflito inevitável entre o antigo e o novo, o clássico e o moderno, e acho que isso se torna explícito na teimosia do protagonista e em sua recusa em abandonar o que foi familiar durante toda sua vida. Sobre os problemas, identifiquei dois erros de digitação bem no começo, quando você tentou escrever a palavra “íngreme” e na primeira aparição do nome do protagonista, onde você escreveu “Ariele” e não “Ariel”, que foi como você se referiu a ele pelo resto do conto. Também quero alertar sobre a vírgula no fim das falas, antes do verbo dicendi: ela não é necessária. Se o verbo dicendi for aparecer após a fala, termine a fala sem pontuação e pontue após indicar quem a disse; já se o verbo dicendi não surgir, como no caso de narração de ações, coloque o ponto final após a fala e inicie a ação com letra maiúscula. Seu conto é ótimo, abraço!
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