antonio-stegues-batista Antonio Batista

Henry Jekill nasceu em Londres no ano de 1886. Estudou medicina na Universidade de Edimburgo. Herdeiro de uma grande fortuna, como todo ser humano, possuía boas e más qualidades. Teve uma personalidade dupla, a de médico de boa reputação, honesto e benfeitor durante o dia, e à noite, um homem lascivo, às vezes violento, viciado em orgias sexuais. Ao meditar sobre essas duas essências, o bem e o mal, Henry Jekill teve a ideia de separar esses dois elementos. Queria se desfazer do seu lado ruim.


Fanfiction Livros Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A SOMBRA NA PAREDE

Henry Jekill nasceu em Londres no ano de 1886. Estudou medicina na Universidade de Edimburgo. Herdeiro de uma grande fortuna, como todo ser humano, possuía boas e más qualidades. Teve uma personalidade dupla, a de médico de boa reputação, honesto e benfeitor durante o dia, e à noite, um homem lascivo, às vezes violento, viciado em orgias sexuais.

Ao meditar sobre essas duas essências, o bem e o mal, Henry Jekill teve a ideia de separar esses dois elementos. Queria se desfazer do seu lado ruim. Para isso, estudou os escritos dos alquimistas Thomas Charnock e John Dastin. Depois de alguns anos de pesquisas trabalhando em seu laboratório nos fundos de sua casa, conseguiu criar uma poção química capaz de arrancar de seu íntimo, a essência do mal. Era o que ele acreditava conseguir.

Depois de beber a poção, deitou-se na poltrona e ficou à espera do efeito. Não levou muito tempo, começou a sentir uma dor horrível como se o corpo estivesse sendo puxado em todas direções. Em sua mente havia um redemoinho de sombras e luz. Sentiu suas carnes sendo rasgadas e arrancadas.

Perdeu os sentidos.

Quando acordou, ficou estarrecido ao ver a si mesmo, parado em sua frente. O homem era igual a ele, como se fosse um irmão gêmeo.

─ Por que está tão espantado, doutor Jekill? Queria se separar de mim, e aqui estou. Em carne e osso. Livre e autônomo.

Henry tentava compreender o que havia acontecido. Presumira que tomando a poção, acabaria com seus vícios, com o seu lado pernicioso. Mas o que aconteceu foi o seu duplo ser extirpado e materializado como uma pessoa de carne e osso.

Henry se sentia alegre e temeroso ao mesmo tempo. Satisfeito por ter realizado o seu objetivo, receoso por não saber que consequências aquilo traria.

─ Enquanto você estava desacordado, fui ao seu armário, peguei algumas roupas para me vestir e pensei que eu deveria ter um nome. Me lembrei de um certo Edward Hyde, personagem de um livro que lemos na adolescência. Pois meu nome vai ser Hyde, Edward Hyde. O que acha?

Henry permaneceu calado, não conseguia opinar. Tentando recuperar sua racionalidade.

─ Vou precisar de dinheiro para alugar um quarto e outras despesas, roupas novas, almoço num bom restaurante, charutos e outras coisinhas mais. Faça-me um cheque por favor, para o seu irmão de sangue.

Henry apoiou-se nos joelhos, levando as mãos à cabeça.

─ Nunca pensei que seria assim. Preciso de um tempo para assimilar isso.

A expressão de Hyde se alterou. Agarrou Henry pelo pescoço e o colocou de pé.

─ Quero dinheiro. Já, agora, ou mato você. – mas logo o soltou e recuou. ─ Ocorreu-me uma ideia. Eu sou você e sendo assim, posso ir ao banco e retirar dinheiro sem nenhum problema. Não saia de casa. Ninguém pode nos ver juntos. Voltarei amanhã para continuarmos esse assunto e tratar de um outro. Precisamos planejar umas coisas.

Henry respirou aliviado. Voltou a sentar-se porque o choque era tanto que se sentia enjoado. Ficou a pensar que Hyde tinha razão, não podiam ser vistos juntos. Haveria muita especulação e o seu segredo seria revelado, talvez com sérias consequências. Ficou no laboratório o resto do dia e só entrou em casa para dormir.

****

No dia seguinte, Henry estava pensando naquela situação, considerando que havia cometido um grave erro, quando chegou uma carta. O remetente era, nada mais nada menos que Edward Hyde. Pedia para encontrá-lo no hotel Earle, quarto de número 622. Dizia para pegar a chave na recepção, entrar no quarto e esperar.

O Earle era um hotel decadente. Quando entrou no apartamento sentiu o cheiro de mofo e velhice. A decoração era escassa e insípida, uma cômoda num canto, uma cama de ferro no lado oposto, mesa pequena com duas cadeiras, uma escrivaninha perto da janela com uma máquina de escrever e um maço de folhas de papel ao lado, além de lápis e caneta-tinteiro dentro de um tubo de papelão.

Na parede, acima da escrivaninha, havia um quadro pequeno com a imagem de uma mulher na praia. Sentada na areia, com uma mão aberta sobre os olhos, ela olhava para o mar.

De repente, uma sombra materializou-se na parede.

A porta se abriu e entrou um homem de aspecto selvagem e primitivo. Carregava numa das mãos um pacote quadrado feito com papel pardo, amarrado com um barbante.

As sobrancelhas eram hirsutas, a base da testa projetando-se para a frente, aprofundava os olhos. Os lábios eram estreitos, os cabelos compridos, as mãos grandes e peludas.

Andava meio inclinado como se carregasse um peso nas costas.

Colocou o pacote sobre a cômoda e pendurou o chapéu e a capa num cabide atrás da porta. Esboçou um sorriso, exibindo dentes amarelados, tortos e espaçados.

─ Não se assuste, doutor Jekill. Essa é a minha verdadeira aparência. Afinal, sou o seu lado feio e mau. − disse Hyde numa voz rouca e sussurrante. ─ Não vou ficar me lamentando por isso. Eu o chamei por que temos um assunto importante a tratar.

Soaram batidas na porta. Hyde foi abrir. ─ Pedi o almoço para nós.

Uma jovem vestindo uniforme cor de vinho, entrou empurrando um carrinho com algumas travessas e pratos. Ela colocou a comida sobre a mesa. ─ Bom almoço, doutor Jekill. – disse e voltou a sair com o carrinho, as rodas guinchando como um porquinho assustado.

Hyde preparou os pratos e fez um gesto para Henry comer. Embora já fosse tarde, e a comida apetitosa, ele estava sem fome. Ingeriu um café ralo aquela manhã, mas seu estomago parecia pesado como uma pedra. Para não fazer desfeita, começou a comer o bife acebolado com creme de abóbora. Hyde serviu-se de um pouco de cada e lançou-se ao prato como um cão esfomeado.

Encheu a boca com arroz, salada de cenoura ralada e mastigou com vontade. Engoliu e atacou o bife, cortando um pedaço e o levando a boca. A gordura escorreu pelo queixo ossudo que ele limpou com o guardanapo, num gesto brusco.

Ergueu o rosto macilento olhando para cima enquanto mastigava um pedaço de carne e meditava.

Henry tentava imaginar qual seria o seu destino com Hyde como sua sombra. O que fazer dela? Aquela ignóbil consciência? Aquele espectro em seu caminho?

Estava arrependido por ter tido aquela ideia, de separá-lo de sua personalidade.

Hyde terminou o almoço, arrotou, e disse, apontando para a escrivaninha.

─ Ali tem papel e caneta. Quero que você escreva de próprio punho, o seu testamento nomeando-me como seu único herdeiro.

─ Por quê? Está com a intensão de matar-me?

─ Não, claro que não. Somos como irmãos, ligados por laços de sangue. Meu instinto de conservação me impede de fazer tal coisa.

─ Acho que o testamento vai despertar curiosidade, principalmente do meu advogado, o senhor Gabriel Utterson.

─ Por enquanto não vamos nos preocupar com Gabriel. Ele não precisa saber agora, sobre a existência do testamento.

Hyde levantou-se e parou ao lado de Henry, intimidando-o com sua aproximação. Jekill sabia que, para chegar aos seus objetivos, Hyde usaria de violência se fosse necessário.

Ele ergueu-se e sentou-se diante da escrivaninha. Na máquina de escrever estava uma folha papel com o logotipo do Hotel Earle. Havia apenas uma única frase datilografada: Em um prédio residencial a Leste de Manhattan. O barulho do transito naquela manhã era intenso.

─ Isso era do antigo hóspede – disse Hyde por cima do ombro de Jekill.− Parece que ele era um escritor com bloqueio criativo. Use a caneta tinteiro para que a sua letra seja reconhecida, e a assinatura, é claro.

Henry escreveu o testamento e assinou. Hyde pegou o documento assoprou para que tinta secasse e guardou no bolso do paletó. Ficou de pé, encostado na cômoda.

─ Fiz uma visita à senhorita Jane Bennett. ─ disse, com uma expressão pensativa. Continuou, pausadamente. ─ Aquela que você ama e não tem coragem de se declarar. Esse sentimento bobo que você guarda no peito por tanto tempo. Eu a visitei, não com essa aparência, é claro. Antes da transformação. Ela pensou que eu era você. – Hyde lançou um sorriso cínico.

Jekill ficou preocupado com a jovem. Realmente, ele a amava, mas por ser dez anos mais velho, tinha medo de se decepcionar. Talvez Jane o tinha apenas como amigo e achasse ridículo se casar com um homem mais velho.

─ O que você disse à senhorita Jane?

─ Conversamos, tomamos um chá. Estava sozinha em casa. Os tios haviam saído para visitar um parente doente. A convidaram para ir junto, porém, não estava animada. Sentia-se um pouco indisposta para sair. A minha chegada a deixou surpresa, mas não demonstrou desagrado. Foi gentil e receptiva. Convidou-me a entrar e me serviu uma xícara de chá. Conversamos sobre diversos assuntos e percebi aos poucos que ela tinha por nós, completo desdém. Sabe? Aquele jeito de levantar uma barreira e não permitir que a ultrapasse? Que não lhe concede acesso a sua intimidade? Eu, aliás, tu, que foi amigo desde a universidade?

Hyde faz uma pausa e depois disse com uma entonação dura na voz− Jekill, Jane Bennett te achava um bobo! Um completo idiota por pensar que ela se casaria com você.

Henry estremeceu com um mau pressentimento.

─ Por que te referes a ela no passado? O que você fez a Jane, Hyde?

─ Àquele rosto sedoso como pele de pêssego? Àqueles olhos azuis como duas gotas de céu? Quando declarei que estava apaixonado por ela e a queria beijar, sabe o que ela fez? Me deu um tapa na cara. A ira inundou minha alma, o sangue ferveu nas veias e foi então que me transformei. Dei a ela um bom castigo e resolvi trazer uma lembrancinha para você.

Hyde acabou de falar dando palmadinhas sobre o pacote de papel pardo, amarrado com barbante.

Jekill aproximou-se do pacote. Hyde foi até a janela, e ficou olhando para o trânsito lá embaixo.

─ Quando finalmente beijei seus lábios, eles já estavam frios.

Jekill encolheu-se, com náusea. Não teve coragem de abrir o pacote. O cheiro era perceptível. Num ímpeto, pegou a máquina de escrever com as duas mãos e bateu com ela na cabeça de Hyde. Quando ele caiu, Jekill continuou batendo com a fúria embaçando seus olhos.

De repente sentiu um estalo na cabeça. Como se um relâmpago iluminasse as trevas na sua mente.

Viu-se de joelhos no chão, segurando a máquina de escrever. Edward Hyde havia sumido. Só ele estava no quarto. Concluiu que o monstro voltara para dentro dele.

Abatido, pegou o pacote e foi embora.

****

Henry Jekill viajou a noite toda em direção ao litoral. Precisava sair da cidade. Fugir para longe.

Parou no acostamento para dormir algumas horas e seguiu viagem.

O sol já estava alto quando estacionou o carro numa rua, perto do Forte Garrison. Pegou o pacote, desceu, trancou a porta e seguiu por um caminho estreito entre as dunas, os pés afundando na areia fofa. Sentou-se na areia a poucos metros das ondas.

Ficou meditando sobre sua vida, sobre a ideia louca de separar de si a parcela da maldade que há em todo ser humano. Uma coisa impossível de se descartar.

Jane Bennett estava morta e o culpado era ele.

Só havia uma coisa a fazer. Henry deixou o pacote sobre a areia e dirigiu-se para o mar. Achava que as ondas lavariam sua alma de toda a culpa e o seu corpo repousaria em paz no fundo do Oceano.

****

Uma mulher de maiô sentada na areia, levou a mão direita a testa para bloquear o sol, e ver ao longe o que era aquela mancha escura flutuando nas ondas.

Depois ela viu o pacote de papel pardo, amarrado com barbante.

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1) Esse conto é uma versão do romance de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro.

2) Há também, referências ao filme dos irmãos Cohen, Barton Fink- Delírios de Hollywood.

3) Ao conto de Clarice Lispector, O Jantar.

20 de Setembro de 2020 às 13:23 0 Denunciar Insira Seguir história
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