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Sarah Moura


Todo engenho guarda segredos em suas fundações. Muitas deles escondidos do véu da realidade, mostrando-se seus horrores àqueles sensíveis as sutilezas do mistério. O Engenho Pimentel tem seu segredo e menina Maria o vê. Cabe aos seus pais descobrir o que é.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#medo #sobrenatural #brasil #brazil #terror #horror #conto
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Às Sombras do Engenho Pimentel

Pernambuco, de suas lembranças mais profundas, divide-se entre o sertão, com os gemidos dos cangaceiros decapitados ou da fome; e o litoral, com o choro sufocado da emparedada ou os cânticos dos escravos enterrados à margem do rio Beberibe, aos pés da Cruz do Patrão.

Mas é na Mata sul de Pernambuco, sombreada pelas matas densas e engenhos construídos por portugueses e dominados ulteriormente por flamengos, que o visível e o invisível se encontram, estivesse sol alto no céu ou a plena lua emoldurada pelas nuvens. Minha mãe, Maria da Conceição, crescera nesse lugar de penumbra eterna, que em sua memória afetiva é pintada de ocre e sépia.

Um fato presenciado por ela ainda criança ronda suas narrativas, principalmente quando a conversa vara a noite e o dia ainda é escuro. É a história de Maria, filha mais velha de dez crianças do Vigia do açude, na mata do engenho Pimentel, pertencente à usina Massauassu. Menina de pele alva e cabelo preto, que ondulava até abaixo da cintura, calma e serena, sempre ajudando a mãe nos afazeres da casa. Ela e sua família moravam numa casa de taipa, às margens do açude. Da mata, o pai de Maria retirava a madeira para construir as camas das crianças; dos sacos de algodão que ensacavam o açúcar, a mãe de Maria, dona Mazé, costurava os colchões das caminhas e os enchia de capim seco.

Os nomes delas são os únicos que a memória da minha mãe permite lembrar.

Certo dia, meu avô, João Cavalcante, viu o desesperado Vigia correr para a vila do engenho, implorando por tudo quanto era mais sagrado que alguém o ajudasse. Meu avô, ao ter com ele, lhe foi dito:

- Noite passada a gente não dormiu. As cama das criança eram jogada contra as parede, que fez os reboco de barro cair. Os menino não dorme. A mulher desesperada. – Ele falou com os olhos arregalados e respiração forte.

Minha mãe viu tudo, agarrada à barra da saia da mãe, minha avó, Luzia. Meu avô, já sabendo do que se tratava, foi com o homem até a casa dele, acompanhado por uma ruma de gente curiosa do engenho. Minha mãe ia nesse meio, saltitando ao lado do pai. Para uma criança, tudo era festa.

A casa do Vigia estava na mais perfeita paz, como se nada tivesse acontecido. A não ser pelo choro das crianças e dos poucos móveis e utensílios quebrados, a história do Vigia seria uma mentira para cobrir a violência doméstica, tão comum aquela época.

O murmúrio do povo no terreiro da casa aumentou, desacreditando o pobre homem desesperado ao lado do meu avô. Meu avô e o Vigia conversavam fora da casa quando a porta subitamente, se fechou. Foi com um estrondo tão grande que o barro da parede caiu, deixando a armação de ripas de lenha à mostra.

As crianças gritavam em desespero e o choro, misturado com orações da mãe, ecoavam pelo lugar, deixando as pessoas em polvorosa. Meu avô pegou uma vela branca que trouxera consigo e se encaminhou para a casa.

- Vão joga a vela no senhor, seu João. – Gritou uma pessoa desesperada no meio da multidão.

- Vão nada! – Ele disse calmamente, adentrando a casa pela porta que havia se fechado. Ele foi até o quarto das crianças e lá acendeu a vela. Enquanto ela queimava, a casa permaneceu sossegada.

Quando a chama se apagou, anunciando o fim da cera queimada, um grande estrondo foi ouvido; todos correram para ver o que havia sido. Uma pedra grande, retirada das entranhas da terra, foi arremessada contra uma bacia cheia de loiças - a única coisa que estava inteira na casa. O silêncio tomou conta do ambiente, com todos tomados pelo medo.

- Procure o pastor, seu Vigia. – Sussurrou uma pessoa no meio daquele silêncio.

Nesse mesmo dia, ele foi em busca do pastor para que fizesse um culto de oração na casa. Chegando à igreja e contando os acontecimentos ao pastor, este se recusou a ir. Diante da recusa e desesperado, o Vigia foi pedir ajuda ao padre, do qual recebeu apenas uma garrafa de água benta.

Quando estava em casa e aspergia água benta, o lugar se tranquilizava. Mas ele percebeu que, quando a água benta respingava em Maria, ela tremia. E então reparou que os fenômenos aconteciam quando a menina estava presente. O Vigia e dona Mazé decidiram levar a menina para a casa de uma Tia, no centro da cidade.

A casa do Vigia encontrou a tão sonhada paz. Contudo, na casa da Tia, o desesperou tomou conta, com os móveis e utensílios domésticos sendo arremessados contra as paredes.

- Pelo amor de Deus, levem essa menina daqui! - A Tia, desesperada, gritava com Maria, que chorava ao fundo. O Vigia e dona Mazé foram buscar a filha e a levaram de volta para a casa.

Era um domingo de manhã, acontecia missa no engenho, e eles decidiram levar Maria até o Padre. Eles chegaram já ao fim da missa, próximo ao meio-dia. A menina ia sendo puxada pelos braços com os pezinhos se arrastando pelo meio da nave paroquial, os olhos virados, a boca entreaberta e os cabelos assanhados. O Padre, ao ver a situação, pediu para que eles o aguardassem na sacristia e encerrou a missa mais cedo, para acudir a pobre família. As portas da Igreja de Nossa Senhora da Conceição foram fechadas, deixando os curiosos na rua.

Quando eles saíram da igreja, já era tardinha, com o céu pintado de violeta. A menina saíra andando sozinha, como se nada tivesse acontecido e aparentemente bem. Mas ao chegar em casa, a menina começou a dizer as coisas que via, como um homem com o corpo coberto de pelos, pendurado pelos pés numa árvore ao lado da casa. Caso alguém discutisse com ela, pedras eram arremessadas contra a casa.

Esse tormento durou cerca de seis meses, com idas e vindas da menina às missas e as orações das beatas.

Já cansado com situação em que a família se encontrava, o Vigia desabafava com a minha avó Luzia e meu avô João. Então ela sugeriu:

- Por que o senhor não procura seu Biu de Lira? – O homem a quem ela se referia era um juremeiro conhecido no engenho. Mas como a família do Vigia era muito católica, ela preferiu não o indicar antes, por conta do preconceito que se tinha com os "macumbeiros". Minha mãe Maria da Conceição, que estava ao lado de minha avó, viu o homem ponderar.

- Eu vou falar com Mazé! - E ele foi-se para casa.

Noutro dia, ele voltou à casa dos meus avós.

- A gente quer falar com seu Biu de Lira.

Minha avó o levou até o terreiro da Jurema Sagrada, num canto mais afastado do Engenho. Até chegar ao terreiro, percorria-se uma légua de distância em chão de barro, cercado por cana de açúcar alta, e atravessava-se a linha férrea da máquina que transportava as canas cortadas para a Usina Massauassu. Meu avô não acompanhou os fatos seguintes, pois ele não gostava de ir ao terreiro. Ele sabia o que sua ida àquele lugar sagrado lhe implicaria.

A casa de seu Biu de Lira era simples, feita toda em palha. Mas seu interior era bem vistoso, com uma mesa comprida de madeira coberta por uma toalha branca de renda. Era enfeitada com copos d'água, velas e imagens de índios, caboclos, orixás, giras e santos cristãos, circundada por banquinhos de madeira.

O Vigia foi bem recebido pelo seu Biu de Lira, a quem relatou toda sua história.

- Vou levar meu povo, para ver o que é. Até lá, o senhor fique tranquilo. – Seu Biu de Lira falou ao homem. Eles marcaram o dia que iriam até a casa do Vigia, com os médiuns do centro. Minha avó Luzia participou de todo o processo.

Chegado o dia que visitaria a casa e lá estando, seu Biu de Lira fez uma avaliação e disse:

- A gente vai ter muito trabalho pela frente. – E a partir daí começaram os trabalhos para ajudar o pobre Vigia e sua família.

A mesa da casa foi forrada com uma toalha branca, velas acesas e copos d'água: cada médium tinha seu copo. Eram sete médiuns, contando com seu Biu de Lira. Ele sempre carregava um crucifixo de madeira pendurado no pescoço com a imagem de Cristo, medindo aproximadamente vinte centímetros.

A mesa foi aberta através da oração mais simples e poderosa da religiosidade nordestina: o pai nosso. Após a abertura, seu Biu de Lira anunciou:

- Gente. Tenham muito cuidado. Pois vai descer uma coisa muito séria. – Foi instruído que as crianças do local ficassem trancadas no quarto, o que incluía a minha mãe, que acompanhava minha avó. Ela observou tudo, através das frestas do quarto da casa de taipa.

Foi quando ela viu uma médium saltar à altura do teto e ser arremessada de costas contra parede, fazendo o barro cair tamanha a força do impacto. A mulher ficou desacordada. Diante do acontecido, seu Biu de Lira e os outros médiuns acudiram a mulher e passaram a cantar músicas da Jurema Sagrada, encerrando a primeira sessão.

Minha mãe, depois do ocorrido com a mulher, foi proibida pela minha avó de presenciar as seções. Minha avó Luzia ia sozinha acompanhando os médiuns e seu Biu de Lira; depois relatava ao meu avô os acontecimentos do dia. Foram vários os encontros na casa do Vigia e de dona Mazé, até que um dia, seu Biu de Lira foi informado por seus guias do perigo de uma entidade que estava para descer.

- Eu vou ser o cavalo dessa entidade. – Ele anunciou no centro da mesa. – É muito perigosa para que vocês recebam. E vou fazer um pedido: deixem ele à vontade, mas não deixem que me leve para o açude.

Ele tirou o crucifixo do pescoço, o colocando em cima da mesa. Nesse momento ele caiu de costas no chão e levantou-se rapidamente. Seu Biu de Lira, incorporado, tomou uma trave de madeira que o Vigia usava para travar a porta da casa e a atravessou sobre os ombros. Depois, se emaranhou à trave como se fosse uma bola e começou a rolar pelo meio da casa, indo em direção à frente dela.

Ao lado da casa tinha um barranco de aproximadamente três metros e, abaixo dele, estava o açude. Seu Biu de Lira embolava em direção ao açude, acompanhado pelos médiuns; um deles carregava seu crucifixo. Ele caiu do barranco e, faltando pouco mais de um metro para entrar no açude, um médium pôs o crucifixo em seu pescoço, o fazendo seu Biu de Lira tornar a si.

Mais uma vez eles voltaram à mesa e encerraram a sessão. Em cada sessão acontecia uma manifestação diferente, mas nenhuma tão grave quanto a que tentou matar seu Biu de Lira.

Numa determinada sessão, seu Biu de Lira descobriu que aquele local em que a casa foi construída era, há muito tempo, morada indígena. Era um local sagrado, mas acabou sendo maculado pela ganância do homem branco e tendo seu povo exterminado. As almas massacradas dos índios se agarraram àquela terra, em nome da sacralidade que eles respeitavam.

- Maria e dona Mazé veem esses índios, que não têm sossego na outra vida. Elas pegam as energias. – Disse seu Biu de Lira na sessão, cansado.

Foi instruído, então, que elas começassem a trabalhar sua mediunidade, para que elas controlassem as forças ocultas dos olhos materialistas dos homens. Maria e dona Mazé passaram a frequentar o terreiro da Jurema Sagrada de seu Biu de Lira. Por ser menor de idade, com doze anos, Maria abria as seções e se retirava para o quarto. Ela só retornava para fechar a mesa.

Os fenômenos foram diminuindo ao ponto de não ocorrerem mais, pois ali, os espíritos dos índios os reconheciam como amigos e não mais os atormentavam.

Isso aconteceu entre 1962 e 1963, no município de Escada.

16 de Setembro de 2020 às 15:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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