dcsales Danieli Cavalcanti Sales

Ayumi e Hiroto são vizinhos desde a infância, e nutrem sentimentos um pelo outro. Quando apenas o pai de Hiroto retorna da guerra da Manchúria, Ayumi se afasta de Hiroto culpando a família dele pela morte do pai. Tudo muda quando a bomba atômica cai sobre Hiroshima e juntos eles precisam lutar pela sobrevivência.


Romance Romance adulto jovem Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#historia #adolescente #drama #romance #guerra
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Na terra da Rosa


Estava olhando para baixo agora que tudo acabou sem conseguir mexer as costas. Deitada debaixo do céu tempestuoso. Nos escombros das sombras e da tristeza. Me sentindo tão sem esperança perdida abaixo da superfície. As luzes se apagaram e eu não podia ser salva.

Eu ouvia gritos e pedidos de ajuda, milhares estavam presos deixo dos escombros. Quando ouvi a voz de Hiroto chamando por meu nome, meu coração se esvaiu. O vento havia o arremessado para longe de mim, não mais do que ele já estava antes.

Éramos vizinhos desde a infância, Hiroto e eu. Nossos pais lutaram juntos na Manchúria. O Coronel Kenji Sakamoto retornou condecorado, meu pai nunca voltou.

Antes de lutar na Manchúria, meu pai era jardineiro e por diversas vezes brigou com Hiroto e eu por estarmos brincando em meio aos bonzais que cuidava. O nosso jardim antes bonito, jamais voltaria a crescer. Lindas eleandros nasceram e secaram ali por falta de cuidados. Minha mãe desde que meu pai se foi estava quase sempre estava sentada na calçada olhando para o infinito presa a um desmoronamento sem escapatória para a realidade.

Hiroto Sakamoto que em vão por diversas vezes, tentava se aproximar de mim no caminho da escola. Um caminho longo e silencioso que segurava o meu grito contido.

Nos acostumamos a ouvir falar da guerra e de outras cidades japonesas sendo atacadas. No céu aviões de reconhecimento inimigos dividiam espaço com aviões metereológicos. Na minha cabeça eles estavam lutando com tanques e armas, até que um lindo avião prateado com calda branca de fumaça sobrevoava as nossas cabeças.

Uma história que foi preservada em uma árvore próxima da ponte Aioi, onde tantas outras se apagariam pelo sol criado pelo homem, onde juntos escrevemos nossos nomes quando não sabíamos qualquer outra palavra, antes que soubesse que meu pai, Nabu Yamasaki, havia perdido a vida para salvar o pai de Hiroto Sakamoto.

Eu o observava pelo pátio da escola e ouvia sua voz irritante e alegre enquanto meu coração doía em amargura. Havia decidido que Hiroto era meu inimigo e não estava disposta a ceder exceto ao fato de que eu o amava tanto quanto o odiava.

Havia uma linha tênue entre o amor e o ódio, e de onde eu estava, sentia que não podia mudar meus julgamentos e opiniões. Eu não conseguia vencer meu coração triste. Foi necessário o ar quente que provei, a respiração que tatuou a minha alma quando a radiação girou ao redor de mim para realmente conhecer feridas realmente profundas que não vão cicatrizar.

A voz tão próxima ao mesmo tempo tão distante me fez encontrar o desespero naquela manhã de 1945. Meu coração dava pequenos passos, mas meu corpo estava imóvel. Não sei por quanto tempo estava debaixo dos escombros, mas as vozes em formas de pedido de ajuda dos meus colegas de escola foram diminuindo e se apagaram com as chamas.

Uma bolha de ar me mantinha viva eu não sabia por quanto tempo. Hiroto chamava meu nome de tempos em tempos para saber se eu estava viva. Ele me dizia que eu não podia dormir ou poderia nunca mais acordar.

Tudo o que queria dizer é que eu sentia muito pela forma como o tratei por todos aqueles anos, mas tudo o que ouvi do meu vizinho:

- Ayumi-san, não se apegue a palavras não ditas.

Nossas vidas brilhariam como a luz ou terminariam como a escuridão?

Quem sobreviveu, certamente se lembra de onde estava naquela manhã de céu sem nuvens de 6 de Agosto de 1945. Eu me lembro de muitas coisas, em especial de estar limpando em frente a nossa casa, para o caso de haver algum bombardeio, para que o fogo não se alastrasse tão facilmente.

O Coronel Kenji Sakamoto que tomaria o trem das sete da manhã para visitar uma importante fábrica de armas em Nagasaki responsável por tirar muitas vidas em tempos de guerra. Hiroto se curvava em despedida do pai que não veria por alguns dias. O Coronel falou com o filho enquanto de perto me observava varrer a rua e disse:

- Hiroto, cuide bem de Ayumi-san.

Eu me curvei para o Coronel observando minha mãe em silêncio sentada na escada de nossa casa de madeira e telhado de barro. Eu havia perdido meu pai para a guerra e Hiroto a mãe para a peste. Ambos podíamos ser vítimas da guerra, mas eu continuava escolhendo torna-lo meu inimigo.

Enquanto estava presa em minhas amarguras, Hiroto se aproximou e com a voz contida em doce inocência dos meus rancores secretos me lembrou:

- Perdoe-me pela intromissão, mas é nosso dia de limpar a sala de aula e já estamos atrasados.

Uma fagulha do destino, ou uma simetria do acaso, mas havíamos sido designados para limpar a sala de aula juntos. Implorei ao Sensei que me deixasse escolher outro parceiro, mas ele foi irredutível e nem sequer olhou para mim enquanto corrigia nossas provas de matemática. Eu preferia limpar sozinha, mas não tive escolha.

Fechei meus olhos por apenas um instante, queria sonhar com o paraíso, mas até meus sonhos eram dolorosos. Éramos todos cativos dentro sol de escuridão e parece que Hiroto seria o próximo a fechar seus olhos e nunca mais abri-los. Eu o chamava e ele não respondia. Talvez estivesse dormindo, ou seu sono fosse um pouco mais profundo.

Ainda que minhas lágrimas houvessem se secado, eu ainda era capaz de chamá-lo até que minha voz fina e aguda foi capaz de alcançar um soldado que estava na busca por sobreviventes. Ele foi capaz de me retirar dos escombros e me trazer de volta ao mundo em chamas.

Vesti rapidamente o uniforme azul com as meias na altura dos joelhos entendendo que estava atrasada. O céu de Hiroshima estava claro e as nuvens se escondiam do fatídico destino de uma cidade. A ponte Aioi no formato T crucificava o principal rio do centro da cidade.

Esse é o lugar que costumava passar todos os dias antes de chegar a escola, um atalho que somente nós conhecíamos. Todos os dias íamos para a escola juntos, e naquele dia não seria diferente. Um caminho longo e silencioso e Hiroto mais uma vez segurava seu sentimento contido.

No atalho antes da ponte Aioi, em vão tentava se aproximar e dizer algo, mas logo desistia. Por fim parou e encostou a bicicleta em uma árvore. Ele me entregou uma caixa com as duas mãos.

- Há algum tempo venho guardando isso comigo.

Um presente: um relógio infantil, que quase não cabia no meu pulso, afinal eu tinha quase 14 anos e despertou minha curiosidade.

- Hiroto-san, por quanto tempo tem guardado esse relógio?

- Acho que uns oito anos.

Suas bochechas e orelhas estavam vermelhas, afinal ele também era tímido como eu jamais poderia imaginar. Consegui colocar o relógio no pulso acertei o horário percebendo que estávamos atrasados, mas não permitiria que ele comprasse meu afeto.

Antes, naquela manhã, eu me considerava tão fria quanto gostaria de ser, e não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a limpeza da sala de aula. Hiroto certamente queria dizer mais alguma coisa, mas eu não dei qualquer espaço para sua redenção.

- Precisamos chegar a escola o mais rápido possível. Teremos tempo para conversar depois.

O tempo era uma coisa valiosa. Não importa se olhamos a contagem regressiva, ele iria passar. Quando fui removida completamente dos escombros percebi que estava muito quente, muito além de um dia de natsu, o verão quente e úmido do Japão. Éramos todos cativos dentro do sol.

Fora das ruínas, do lado de fora dos escombros eu era pressionada pelo soldado a seguir os seus passos, mas eu ainda precisava encontrar Hiroto e minha mãe. Quando ele percebeu que não venceria a batalha contra a minha determinação, ele soltou bruscamente fazendo meus ferimentos doerem ainda mais e ele partiu. Eu me virei e voltei para os escombros daquela que havia sido minha escola e voltei a chamar por Hiroto na esperança que ele estivesse vivo.

Antes que conseguisse fugir das intenções de Hiroto, paralisei em frente a uma árvore onde dois nomes estavam escritos na casca grossa do tronco da árvore:

Hiroto
Ayumi

Uma declaração de amor da qual eu fingia não me lembrar mais e por algum tempo eu realmente esqueci. Uma árvore que guardou nossas histórias, e agora fazia questão de me lembrar.

Aquilo de alguma forma me levou para fora da realidade antes que soubesse que nós dois, alunos do segundo ano, talvez não sobreviveriam a explosão da bomba. Mas nossa história de amor sim. Talvez debaixo daquela árvore, tivéssemos tido o primeiro beijo, ou talvez tenhamos declarado nosso amor mútuo.

- Você se lembra, Ayumi-san?

- Eu não me lembro de nada - respondi bruscamente.

Meu rosto não demonstrava nenhuma emoção, mas minhas mãos tocavam nossos nomes. Eu me distraí com a possibilidade de não querer que aquele sol não brilhasse em mim.

- Suba na garupa da bicicleta! - pediu Hiroto. - Estamos muito atrasados.

Olhei novamente para o relógio e já era quase oito horas da manhã. Meu coração disparou não sei se com a possibilidade de levar uma bronca do Sensei, ou de estar tão próximo do meu colega de escola. Tentei argumentar:

- Mas e se o guarda nos ver? É proibido duas pessoas andarem na mesma bicicleta.

- Cada um estava cuidando de sua própria vida, preocupado com seus empregos, a escola ou desafetos. Acha mesmo que alguém vai estar preocupado com isso as oito da manhã além de você mesma? Liberte-se de seus medos preconceituosos.

Acho que ele não falava do simples fato de andarmos de bicicleta. Era minha forma de ver a vida e não se entregar a momentos em que precisa perder o controle para seguir em frente, tal como nós escrevemos nossos nomes tantos anos antes. Eu precisava ser livre e embarcar seria meu primeiro passo.

Tentava sem sucesso remover pedaços de madeira dos escombros, não porque estivessem pesados, mas a dor aguda causada pela radiação queimava a minha pele tornando difícil movimentar meu braço. Eu finalmente enxerguei a mão de Hiroto entre os escombros, ele segurava um pequeno Tsuru que mais cedo eu havia feito com um folheto que encontramos na frente da escola.

Um papel, um aviso como tantos outros que vinha do céu. Um pedido para nos escondemos nos abrigos contra bombardeios. Mas o nome de Hiroshima não estava entre as cidades como prováveis alvos, e levavam suas vidas como qualquer outro. Adultos a caminho da escola, crianças da escola incluindo Hiroto e eu que quase me derrubou da bicicleta enquanto tentava parar com o freio que não estava funcionando corretamente.

Levamos uma bronca do Sensei Watanabe por estar sendo carregada na garupa e nos apressou para a limpeza da sala de aula. No chão, no pátio em frente a escola, as letras estavam em inglês, mas era claro o alerta.

- Por favor! Esconda isso ou mesmo jogue fora, Ayumi-san! - implorou Hiroto. - Se o professor Watanabe encontra-la com esse papel, poderemos ficar de castigo depois da aula.

Eu não dei atenção e depois de trocar os sapatos no caminho da sala de aula fiz o pequeno Tsuru que havia aprendido com meus pai e entreguei a Hiroto-san.

- Obrigada pelo presente! Não tenho muito a oferecer, mas essa é minha forma de agradecimento - eu disse me curvando para Hiroto-san. Talvez ele não fosse a pessoa ruim que imaginei que fosse. Ou o que queria acreditar. Eu estava cedendo.

Não! Eu odeio Hiroto-san! Não posso me esquecer disso.

Os olhos de Hiroto brilharam e ele sorriu. Algo que era pouco comum para ele desde que a mãe morreu ou a guerra começou.

Nossa sala de aula estava organizada e não havia muito o que fazer a não ser apagar o quadro negro e varrer o chão, nossa aula de matemática começaria às 8h30 da manhã e ninguém da nossa turma havia chegado.

Hiroto se encarregou apagar o quadro enquanto eu varria o chão e ele prometeu me ajudar assim que terminasse de apagar as anotações da aula do dia anterior. Exatamente as 8h15 da manhã no dia 6 de agosto de 1945, estava em frente às janelas da sala de aula e não muito longe dali próximo da ponte do rio Ota no centro da cidade, eu percebi uma ventania incomum numa manhã quente e enxerguei um clarão que me fez colocar as mãos próximo aos olhos para tentar enxergar alguma coisa, mas a luz tomou conta a ponto de não enxergar mais nada no branco absoluto. Consegui ver os ossos dos meus dedos como se fosse uma imagem semelhante a um negativo de fotografia.

Um cogumelo venenoso. Uma rosa radioativa na visão de um poeta e anos depois declamada por um cantor a Rosa de Hiroshima. Para mim era o sol criado pelo homem que fez pessoas virarem poeira, casas de madeira incendiar-se instantaneamente e Hiroto tentar me esconder debaixo da mesa do professor. Os estilhaços de vidro da janela quebraram-se vindo em nossa direção quando o teto desabou nos protegendo do pior. Um relâmpago de calor tão quente como o núcleo do sol. Uma arma sem ideologia.

Eu queria pedir ajuda, mas não tinha mais a quem recorrer. A minha volta pessoas rastejavam moribundas tentando encontrar uma saída do inferno. Quando removi o último pedaço de madeira do rosto de Hiroto percebi que não o teria reconhecido se não fosse pelo Tsuru. O cabelo dele estava cinza e emaranhado e seu rosto coberto por um pó preto agarrado a pele.

Eu me aproximei do rosto de Hiroto e percebi que ele ainda estava respirando. Tentava sem sucesso tentar acordá-lo. Um zunido forte no meu ouvido e a dor aguda dos cacos de vidro presos a minha pele começaram a incomodar ainda mais.

- Hiroto-san, por favor acorde! Eu sinto muito por ter culpado sua família pela morte do meu pai. Eu me lembro de tudo, de nossas brincadeiras e de escrevermos nossos nomes na árvore.

Atrás do seu rosto chamuscado pude ver os olhos de Hiroto-san se abrirem, como se ele estivesse apenas fingindo estar dormindo.

- Promete que vamos juntos para escola de mãos dadas todos os dias?

Quem pensaria em algo tão idiota em um momento como esse? Hiroto, meu melhor amigo. É verdade que antes da Manchúria, íamos para escola de mãos dadas, por um pedido da minha mãe, mas tudo mudou com a morte do meu pai.

- Você é burro? Olha a nossa volta. Não sobrou escola, não restou cidade e tudo o que amávamos foi destruído por esse bombardeio. Aliás, fingiu que estava dormindo?

- Acho que isso não foi um bombardeio, foi algo muito pior - revelou Hiroto. - Precisamos sair da cidade o mais rápido possível.

Ajudei Hiroto a se levantar, ele não estava tão queimado como eu, ainda assim, também havia sido atingido por cacos de vidro por todo o corpo. Mas ele não conseguia se mexer e pediu que eu os tirasse dos seus braços, pernas e na barriga também.

Delicadamente fui tirando um a um os pedaço de vidro tomando cuidado para não fazer suas feridas doerem ainda mais. Eu tinha medo de me ver outra vez no espelho, a radiação pegou parte direita do meu rosto e podia ver o sangue jorrar. Quando terminei, foi a vez de Hiroto tirar os pedaços de vidro de mim, embora eu tivesse certeza que muitos ainda estivessem escondidos.

- Preciso procurar minha mãe. - Eu estava decidida.

- Eu sinto muito, Ayumi-san! Mas daquele lado somente sobrou fogo e destruição e cinzas. Tem certeza que quer fazer isso?

Caminhamos de volta ao lugar que um dia chamamos de lar. Eu sangrava pela boca e continuava com o zumbido no ouvido direito. Queimaduras pelo corpo faziam cada passo se tornar doloroso. A nossa volta podíamos ver pedaços de roupas desprendida de corpos.

O bonde ainda circulava pela inércia sem freio com as pessoas completamente carbonizadas. Na porta, uma mulher ao lado de sua filha talvez se preparassem para descer, mas não houve tempo.

A cidade estava reduzida a cinzas e no céu se formava uma densa chuva. Cinzas voavam no céu com o vento e crianças nem conseguiam chorar, suas lágrimas viraram cinzas. Quanto mais chegávamos mais próximos do epicentro da explosão, mais corpos que perderam a forma humana e não sabia se eram homens ou mulheres. Aquela passou a ser chamada a Cidade da morte e o rio era um oceano vermelho e em sua volta, toda a cidade queimava.

Os que ainda estavam vivos tinham suas peles descolando e derretendo com o calor. Eu sentia muita sede, mas o rio oto estava abarrotado de corpos e de pessoas que tentavam chegar a ele caminhavam com os braços estirados, talvez essa posição amenizasse a dor causada pelas queimaduras pelo corpo todo. Milhares de pessoas sem ter a quem recorrer para pedir ajuda.

A ponte Aioi em formato de T havia desaparecido. Precisávamos da ponte para chegar em casa, ou o que havia sobrado dela. Na parte mais rasa do rio, nos equilibramos sobre os muitos corpos e pedaços de pedra e concreto no rio Oto que nos deram alguma estabilidade. Eu me segurava em tudo o que parecia seguro, mas quase caí quando uma pedra se desprendeu. Eu tentei e cheguei tão longe, não podia desmoronar agora. Hiroto segurou minhas mãos amargas e esfoladas abaixo das nuvens. Minha pele estaria tatuada para sempre, ou enquanto era capaz de sobreviver.

No final da travessia Hiroto começou a vomitar, aquele era o primeiro sintoma da exposição a radiação. Em mim, bolhas causadas pelas queimaduras no braço e no rosto começaram a aparecer.

Nós passamos por uma árvore caída, seus galhos pareciam olhar para mim. Aquele era o lugar que costumava viver e lar é um lugar que não existe mais.

Eu tinha certeza que minha casa ficava naquele quarteirão. Soltei as mãos de Hiroto e corri em direção a minha casa em chamas. Eu chamava por minha mãe, mas ela não respondia. Olhei para o chão na calçada intacta. O lugar que minha mãe costumava sentar por longas horas e ali havia uma sombra escura no chão. Aquilo foi chamado de sombra atômica e foi o que sobrou da minha mãe. Eu queria chorar, simplesmente não conseguia.

Quando Hiroto finalmente me alcançou, o céu escuro desabou. Não era uma chuva comum, era oleosa como iodo. Percebemos pessoas morrerem instantaneamente ao serem tocadas pela chuva. Talvez o choque térmico, talvez a radiação da chuva invadindo nossos corpos.

- Precisamos nos esconder, algo me diz que essa chuva nos fará muito mal. - pediu Hiroto.

Encontramos abrigo na árvore que ainda permanecia de pé. A mesma que preservou nossos nomes. Estávamos sentado encostando nossas costas no tronco da árvore, quando senti um arrepio no corpo que me obrigou a dizer:

- Hiroto-san! - Eu estava trêmula.

- Estou ouvindo, Ayumi - falou sem usar o honorífico.

- Disse que não queria que eu me apegasse a palavras não ditas. Talvez não estejamos vivos amanhã, então eu quero dizer algo hoje. - Fiz uma pausa por um instante. - Eu quero voltar a ir de mãos dadas para a escola com você.

Hiroto deu um sorriso contido e se aproximou suas mãos das minhas e as segurou. Era o máximo que suportaríamos nos aproximar. Passamos a noite debaixo daquela árvore, e adormecemos sem saber se acordaríamos no dia seguinte. Ao menos, a chuva diminuiu o incêndio, e ainda que tentássemos nos esconder, algumas gotas de chuva caíam em nós.

Quando abri os olhos, Hiroto não estava mais dormindo. Eu sentia meu corpo quente como se estivesse com febre. O cabelo de Hiroto antes farto começou a cair em tufos. Eu não sabia mas ele tentava traçar uma rota para chegarmos a estação de trem.

A estação Koi ficava a oeste de Hiroshima. Por quatro quilômetros andamos pelas ruínas da cidade. O único caminho possível era através de uma ponte de 15 metros acima do rio de onde víamos mais corpos sendo levados pela correnteza, o cheiro era penetrante e peculiar, quase todos os rios de Hiroshima estavam assim.

As treze horas do dia 7 de Agosto de 1945, partimos do trem de evacuação. Uma viagem de 400 quilômetros que levaria um dia inteiro até chegarmos a Nagasaki, onde Kenji Sakamoto estava a trabalho.

A minha febre continuava a piorar e das bolhas começaram a sair pus. Hiroto continuava vomitando. Muitos no trem estavam como nós. Alguns morreram antes de desembarcar do trem. A bomba atômica mudou o rumo da nossa história e no início da noite chegamos ao nosso destino, eu desejava beber água, mas Hiroto dizia não ser uma ideia, pois meu corpo estava muito quente.

Precisávamos de um médico, mas não sabíamos onde ficava o hospital mais próximo, Hiroto agora estava com feridas arroxeadas pelo corpo. As pessoas ao nosso redor nos viam com repulsa e tentavam se afastar.

Facilmente encontramos a fábrica de armas, pois Hiroto já estivera com seu pai ali, mas o tratamento dado a nós era diferente, sem saber que ele era o filho do Coronel.

Ao ver um militar de vigia na entrada da fábrica, acreditamos que poderíamos pedir ajuda, mas ele não acreditou em nós.

Um bombardeio em Kioto era esperado, mas não em Hiroshima. Ele achou que fôssemos mendigos das ruas e que eu estivesse contaminada com lepra e que minha mente começava a enlouquecer.

Ao ver a gravidade dos nossos ferimentos, uma mulher vestida de branco e cabelo curto se aproximou e enfrentou o sarcástico soldado. Ela era enfermeira no hospital da Cruz Vermelha e ao ver nossos ferimentos pareceu chocada, ela já estivera na guerra, mas aquilo era completamente diferente. Seu nome era Naomi, o sobrenome nunca tive a oportunidade de descobrir.

- Naomi-san, preciso de mais um favor. - pediu Hiroto - Encontrar meu pai, o Coronel Kenji Sakamoto, ele deve estar em uma fábrica de armas agora.

- Lutamos para salvar vidas e eles para tirá-las. Sei exatamente onde fica a fábrica da morte. Mas como é seu pai, prometo que irei procurá-lo.

No hospital não houve quem acreditasse que um bombardeio seria capaz de causar ferimentos daquela forma, quanto mais uma única bomba. Ninguém conhecia os efeitos da bomba atômica, somente quem havia testemunhado. Ainda com o zumbido constantemente, pude escutar um dos médicos dizer que já havia tratado vítimas das bombas e as feridas não eram como aquelas.

Ao examinar meu ouvido direito, o médico percebeu que eu jamais voltaria a escutar parcialmente. Comecei a expelir sangue pela boca. A minha febre era cada vez alta e o médico descobriu que eu estava com uma hemorragia interna no estômago causada por algum dos cacos de vidro que penetraram profundamente na minha barriga.

- A menina irá morrer se não fizer a cirurgia. De qualquer forma acho que não irá sobreviver.

Hiroto estava deitado na cama ao lado. Como eu, ele estava tomando soro e algumas medicações. Por trás daquele rosto escuro havia uma expressão de medo. A bomba nos havia afetado de formas diferentes, ainda assim mortíferas.

A enfermeira Naomi entrou no quarto me preparando para a cirurgia, colocou algo em meu soro que começou a me dar sono lentamente.

- Não dê atenção ao Doutor Morte! - Foi o apelido dado ao médico veterano da guerra que em seu rosto escondia cicatrizes dos conflitos armados. - Esse médico pode insensível a dor dos outros, mas é um bom médico e fará tudo para salvá-los.

Por um momento ficamos a sós na enfermaria. Foi quando Hiroto mais uma vez tentou falar dos seu sentimentos.

- Nunca te agradeci por ter me tirado dos escombros da escola e ter arriscado ainda mais a sua vida.

- Sou eu que devo pedir perdão, por tê-lo tratado como se fosse o culpado pela morte do meu pai. Espero morrer em paz sem essa culpa.

Nossos rancores não representam nada quando algo maior nos atingiu. Hiroto era o melhor amigo que eu poderia ter e a guerra me mostrou a verdadeira essência do ser humano.

- Pense em tudo o que passamos para chegar aqui. Não se perca no final dessa jornada. Apenas sobreviva. Se conseguir, terá vencido a guerra.

Embora não soubéssemos o que era, a possível contaminação de Hiroto com radiação também não dava a ele muita perspectiva de vida, e eu temia não voltar a vê-lo quando abrisse meus olhos novamente. Então perguntei, como se simples palavras fossem capaz de garantir uma promessa:

- Estará aqui quando eu acordar?

Hiroto estendeu sua mão e eu estendi a minha e conseguimos tocá-las brevemente. Sabia que ele não podia prometer, mas precisava ouvir Hiroto tentar.

O Coronel Kenji Sakamoto entrou na enfermaria do hospital batendo a porta na parede. E os soldados junto a ele começaram a remover a maca de Hiroto. Ao ouvir o barulho, Naomi entrou novamente no quarto e tentou impedi-lo:

- Coronel, não pode entrar no quarto dessa maneira nem levar o paciente, por favor, não faça isso! Seu filho precisa de cuidados médicos.

A enfermeira foi empurrada pelo Coronel e caiu no chão derrubando sua bandeja com os remédios. Um dos soldados apontou uma arma para ela.

- Pai, porque está fazendo isso? - Perguntou Hiroto assustado com a atitude do Coronel embora seu corpo e sua voz estivessem fracos.

- Nagasaki é o provável alvo dos americanos, precisamos sair daqui. Não há tempo a perder.

- Não podemos pelo menos esperar a cirurgia de Ayumi-san e levá-la conosco?

- Eu sinto muito filho. Ela seria apenas um estorvo como o pai dela foi na guerra e tivemos que deixa-lo para trás.

Velhas feridas de abriram novamente. Talvez meu pai realmente tenha salvo a vida do Coronel Sakamoto e ele o deixou para morrer, isso era a guerra. O inimigo podia não estar do outro lado do campo de batalha.

Como não queria cooperar, Hiroto foi amarrado com cintas e levado pelos soldados. Jogou uma quantia razoável de dinheiro no chão perto da enfermeira e disse:

- Pelas despesas médicas. - Curvou-se e desapareceu levando Hiroto.

A minha mente se esvaiu e eu não consegui ver mais nada, não antes que uma lágrima caísse dos meus olhos. Quando eu os abri novamente, o soro estava vazio e meu sangue subia. A minha volta, paredes desabaram, mas não em cima da minha cama. Ainda doíam, mas as bolhas causadas pelas queimaduras diminuíam. Eu me levantei retirando a agulha do soro. Uma faixa branca em volta de todo o meu tronco escondia a cirurgia bem sucedida e descalça tentei sair do quarto.

O hospital estava vazio, e a rua também. O cenário de destruição era familiar e o cheiro de carne podre e cinzas característico do que já havia visto em Hiroshima. Não sei por quantos dias fiquei desacordada, mas Kenji Sakamoto estava certo, Nagasaki também havia alvo de outra bomba atômica e pela primeira vez eu consegui chorar ao ver o cenário de destruição.

O Japão se rendeu duas semanas após os ataques e a vida se reconstruía em Hiroshima e Nagasaki. Não se acreditava que em 70 anos as áreas verdes voltariam a crescer e os rios se limpariam. Não demorou mais do que um ano até que as duas cidades renascessem. Com o tempo, as marcas da destruição começaram a desaparecer em meu rosto, mas não das minhas lembranças.

Inspirada em Naomi que provavelmente não sobreviveu ao ataque a Nagasaki eu me tornei enfermeira em Tóquio e passei a ajudar pessoas como eu que tentavam fugir das lembranças da guerra. As cirurgias de enxertos de pele era comuns para os sobreviventes na tentativa de se esconderem na multidão e terem uma chance para reconstruir suas vidas. Eu seria mais um deles se Hiroto não tivesse tentado me proteger durante o ataque. Eu ainda me perguntava se ele havia sobrevivido aquilo que agora sabia ser os efeitos da radiação.

Não era apenas o passado, mas o preconceito do presente nos perseguia, os sobreviventes se tornaram conhecidos como hibakushas. As pessoas tinham medo que fossemos contagiosas ou que nossos filhos nascessem deformados.

Uma chama eterna foi acendida em Hiroshima e todos os anos no dia 7 de Agosto às 8h15 da manhã o gongo é tocado. Por 10 anos não quis comparecer a cerimônia de paz, porque não era capaz de perdoar. Mas aos meus 24 anos, depois de muitas sequelas da guerra, entre uma catarata precoce, a surdez de um dos ouvidos e uma anemia profunda eu decidi voltar a Hiroshima, onde passei a infância aprendendo a odiar e a juventude tentando perdoar os verdadeiros inimigos: o egoísmo, a intolerância, o preconceito e a ganância.

Após a cerimônia de paz comecei a caminhar por uma cidade de altos prédios que eu já não reconhecia, exceto pela ponte Aioi que foi reconstruída e as ruínas de um antigo prédio do governo cujas estruturas permaneceram de pé e hoje se tornaram o Parque Memorial da Paz.

Caminhando ainda mais pude ver uma árvore conhecida, a Hibaku jumoku onde ainda se podia ver os nossos nomes, Hiroto e Ayumi, ainda preservados, e em volta dela flores de oleandro floresciam.

Eu tirei da minha bolsa o relógio que ganhei de Hiroto e ainda marcava as 8h15 da manhã. No meu braço ainda havia a marca do relógio com a pele mais clara no pulso onde eu usava o relógio na hora do impacto.

Uma sombra se aproximou naquela manhã quente de Agosto e céu azul. Era um homem de farda e cabelos penteados para trás a quem eu vira presente na cerimônia da paz e percebi que me olhava fixamente. Ele abriu as mão direita e pude ver o Tsuru que havia feito com o papel que havia feito a tantos anos.

- Olá, Ayumi! - Apenas uma pessoa me chamaria assim.

- Hiroto-san!


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15 de Setembro de 2020 às 18:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Danieli Cavalcanti Sales Dani♡ Escritora, leitora e dorameira.

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