dissecando Edison Oliveira

Um telefone de brinquedo revela a maior descoberta daquela civilização.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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CHAMADA DE LONGA DISTÂNCIA



Aquelas festas na residência de Timothy eram divertidas, com pouca música, mais conversas e um número moderado de bebida, mas era ali, com todos sorrindo e falando e sonhando que a vida fazia sentido.
Nos reuníamos praticamente todas as noites, falávamos de novas descobertas, de nossos maiores temores e de como tudo estava mudando, mesmo que de forma lenta e inconstante. Estava sentado ao lado de minha irmã naquela ocasião. Quando a filha dela, pequenina e sorridente, estendeu-me o telefone de brinquedo, uma coisinha colorida e quadrada.
— É para mim? — perguntei, sorrindo de volta e esticando o braço. A pequenina fez que sim com a cabeça e entregou-me o objeto, resmungando qualquer coisa em seu dialeto de bebê.
— Ela brinca com essa coisa o tempo inteiro, — revelou minha irmã.
— É uma graça, — falei, e nisso levei o brinquedo até uma das orelhas. — Pois não, Ed Norton na escuta.
Os olhinhos da pequenina não saíam de cima de mim, acompanhando, observando, sabendo que logo eu escutaria o que ela vinha escutando desde sempre. Falei mais um pouco de baboseiras enquanto fazia sinal para minha irmã ir até o outro cômodo e me servir mais um copo de bebida. Ela sorriu e levantou-se, saindo e dizendo que logo voltaria. Foi nesse instante que ouvi pela primeira vez; primeiro um ruído estático, depois uma voz, algo assombroso, terrivelmente semelhante a da nossa civilização. Estremeci, afastei o brinquedo da orelha, olhei para ele e em seguida para a pequenina, que ainda me encarava. Os olhos dela pareciam dizer: vá, escute novamente, seu tolo.
Obedeci e levei novamente o brinquedo até a orelha. Nada além de estática foi o que escutei.
— Olá? — disse, sentindo-me definitivamente um tolo.
— Alguém disse algo, — falou a voz, como se contasse aquilo a alguém do seu lado.
Engoli a seco. Não conseguia acreditar em algo como aquilo, mesmo que nosso tempo estivesse se encaminhando para um futuro onde inevitavelmente iríamos nos deparar com seres de outras galáxias. Virei-me e procurei por minha irmã, mas não a encontrei. O corredor seguia vazio, e apenas uma música baixa vinda dos outros cômodos se estendia por ali.
— Como isso é possível? — falei para mim mesmo, e a voz dentro daquele brinquedo respondeu-me:
— Digo o mesmo. Estamos perplexos e assustados aqui. E ainda falam o nosso dialeto, não é impressionante?
— Não sei o que dizer.
— Há tempos tenho escutado apenas resmungos e estática. E hoje, alguém finalmente disse algo.
— É a filha de minha irmã, — falei sem pensar, ainda confuso, imaginando de onde aquela voz estava vindo, de qual galáxia, de qual distância naquele universo infinito e escuro.
— Como disse?
— Os resmungos são da filha de minha irmã, — reiterei, coçando a testa, a cabeça baixa. — Ela é pequena demais. Não sabe falar.
— Inacreditável! — comemorou a voz, e o que veio depois foi uma estática aguda acompanhada do que me pareceu uma risada. O som me fez afastar um pouco o brinquedo, e nisso notei que minha irmã estava retornando com um copo na mão. Agitado, chamei-a através de sinais. Ela se aproximou e estendeu-me o copo. Eu recusei e abaixei o brinquedo.
— Encontrei um sinal, — revelei, claramente emocionado. Os olhos de minha irmã aumentaram nas órbitas.
— Está brincando?
— É uma voz, e tenho certeza que é de outro planeta.
— Espere aí, voz? De onde? Não vai me dizer que… — e ela já estava olhando para o brinquedo repousando em meu colo. — Não posso crer!
— Precisamos contar aos outros.
Fiz menção de se levantar e minha irmã apertou-me o braço.
— Tem certeza? E se enlouquecerem? Uma revelação assim poderia causar danos irreversíveis.
Ela tinha razão; já havia acontecido antes, com a tripulação da Magma naquele ano tenebroso onde quase fomos visitados, por muito pouco, até vimos o objeto estranho circulando pelo espaço. O próprio Timothy andava meio confuso ultimamente, falando sobre guerras, mortes e invasões. Concordo que parte disso se deve aos teores de bebida, mas Timothy sabe bem o que fala, sempre soube, afinal ele é um dos poucos que já visitou outras possibilidades.
Refleti por um tempo e levantei-me.
— Vou chamá-los, — anunciei, sendo contrariado pelo olhar confuso de minha irmã. — Ei, todos vocês, que venham ao aposento nove!
Meu grito ecoou pelo corredor, e mesmo distantes, todos ouviram e instantes depois se amontoavam no aconchegante aposento nove, local onde costumava ficar nas noites festeiras daquelas reuniões.
Como todos presentes, com seus olhares perdidos e um tanto encabulados, mostrei-lhes o telefone de brinquedo. Ergui-o no ar como a um troféu.
— Isto falou comigo, — declarei, e prontamente um murmurinho baixo se iniciou. — É um sinal de vida inteligente, sem dúvida. Como aquele captado tempos atrás, pela tripulação da Magma.
— Isso é um brinquedo! — retrucou uma voz na multidão.
— Se pretende nos ofender, saiba que está conseguindo! — gritou outra, e esta pude identificar. Era Timothy, escorado em uma parede, um copo meio vazio nas mãos.
— Nada disso, — comecei a explicar. — Uma voz, certamente de outra parte do universo, falou diretamente comigo. Através desse aparelho.
— Em nosso dialeto? — questionou Thompson, antigo tripulante da Magma.
— Exatamente.
O murmurinho aumentou, espalhou-se como fogo, crescendo e crescendo.
— Tenho ideia de onde venha esta voz, — prossegui. — E se estiver certo, corremos enorme perigo.
Timothy jogou o copo no chão, com força, silenciando o ambiente. O que ele estava bebendo espalhou-se pelo piso como sangue.
— Tolice! — gritou, enfurecido. — Não há sinais daquela vida há muito, se querem saber. Se é que existem!
— A tripulação da Magma já os viu, todos sabemos — replicou alguém do meio da multidão, serenamente.
— Viram um objeto. Podia bem ser lixo espacial, — disse Timothy, um pouco mais calmo.
— De todo modo, — intervi. — Falaram comigo através disso. Fomos encontrados. Já possuem nossa frequência. É questão de tempo sobrevoarem nosso espaço, reconhecerem o local e então pousarem.
— Vou descansar, — falou Timothy, dando meio volta, abrindo a multidão com os braços.
Ele se foi e a discussão seguiu pelo resto dos dias, onde nervosos, ansiosos e com a estranha sensação de que as coisas se encaminhavam para rumos sem volta, decidimos que o melhor seria se antecipar, reformar a Magma e rumar em direção ao outro planeta.
Timothy foi veementemente contra, dizia que aquilo seria o fim para todos nós, que precisávamos pensar em nosso futuro, em nossos filhos, em vagar para outras direções em busca de um novo lar, mas todos negamos a ideia e partimos quatro noites depois, embarcados na Magma que ainda trepidava demais no espaço.
— Está matando a todos nós, sabia? — resmungou Timothy, sentado na pior poltrona localizada no centro da nave.
— Não tínhamos outra opção, — falei, convicto e orgulhoso por estar no comando daquela expedição. — Se fossemos para outras direções, correríamos o risco de ficar sem combustível ou até mesmo perdidos. Se ficássemos onde estávamos, seríamos encontrados em dias.
— E qual a diferença de irmos até eles? — falou Timothy, contrariado.
— Esperamos estabelecer o contato primeiro. Isso mostra interesse. E viajarmos completamente sem armas, revela nossa intenção de paz.
— Revela nossa tolice, isso sim.
Não falei mais nada nos minutos seguintes, nem quando deixamos a zona quase inexplorada de Júpiter, ou quando avistamos a forma azulada e límpida da terra, tão enorme e convidativa, no painel frontal da Magma. Estávamos próximos daquele planeta desconhecido, onde haviam seres igualmente estranhos, que falavam assustadoramente como nós. Teriam eles a pele acinzentada como a nossa? Pouco mais de um metro e olhos arredondados, escuros, grandes?
A impaciência me consome, me deixa aflito, com pensamentos ruins, coisas que o tolo do Timothy nos avisou, entorpecido ou não, que iriam acontecer, que seríamos exterminados por aquela civilização terráquea. Sem demonstrar meus reais sentimentos, sigo nessa viagem incômoda, mas esperançosa, tentando descobrir enquanto vejo a terra crescer diante de nossos olhos, se esta civilização é tão pacífica quanto a nossa.

11 de Setembro de 2020 às 18:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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