antonio-stegues-batista Antonio Batista

Roger e Virginia são médicos. Certo dia um paciente chega ao pronto socorro com febre, dor de cabeça e náuseas. Disse que ficou doente depois que um mendigo o mordeu no braço. Ele recebeu medicação, mas não melhorou e com o passar do tempo teve convulsões, mordeu um enfermeiro, que também acabou infectado. Logo o hospital, e a cidade, virou um caos. Pessoas infectadas tomaram as ruas. Roger e Virginia tentaram sair d cidade, mas não conseguiram . Na fuga,Virginia foi mordida. Roger faz de tudo para salvá-la. Será que ele consegue?


Horror Horror zumbi Todo o público.
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AQUELES OLHOS VERDES

- Parece um sonho! – disse Virginia, debruçando-se no parapeito da ponte arqueada sobre o lago, a famosa ponte japonesa que Claude Monet pintou. Das árvores ao redor, flores haviam caído sobre as águas mansas do lago. Formavam um tapete multicolorido. A folhagem filtrando a luz do sol, tornava a paisagem uma imagem etérea. Do mesmo modo nos sentimos leves, como figuras enfumaçadas fazendo parte de uma pintura. Estávamos em Giverny, na França. Era o último dia de nossa Lua-de-Mel. Virginia estava linda, usava um vestido azul claro e as cores de Monet refletiam em seus olhos.

****

Às sete e meia, a emergência do hospital achava-se em plena atividade, inclusive a sala número 5. Era a sala onde eu estava trabalhando naquele primeiro dia, depois das férias. Virginia atendia no outro bloco, na área da pediatria.

O primeiro paciente que eu atendi, era um senegalês chamado Jaineba da Silva, de 34 anos. Chegou queixando-se de dor de cabeça, náuseas e falta de ar. Disse que um mendigo o havia mordido no braço. A ferida não foi muito profunda e eu nem imaginei o que era aquilo. Mandei desinfetar o ferimento e me preocupei com os sintomas. Ele piorava a cada instante. Dei uma olhada no resultado dos exames dele e constatei que os glóbulos brancos diminuíram e as plaquetas aumentaram. Um agente viral estava se formando e se multiplicando com velocidade fora do normal. Mandei darem antibióticos ao doente e mantê-lo sob observação. A temperatura aumentou ligeiramente, assim como a pressão arterial e depois caiu de novo: 80/58.

Logo depois, mais dois pacientes chegaram com os mesmos sintomas. Mandei aplicar o mesmo medicamento e pedi novos exames. Meia hora depois, Jaineba da Silva escarrou sangue e teve convulsões. Caiu da cama e ficou se debatendo no piso de vinil. Gerson, o enfermeiro, agachou-se para colocá-lo de lado e evitar que mordesse a língua, mas Jaineba mordeu foi o enfermeiro, cravou os dentes no pescoço. Gerson soltou um grito de dor, enquanto se desvencilhava do senegalês. Levantou-se cambaleando com o pescoço ensanguentado e se encostou na parede de ladrilho fosco. A enfermeira correu para ajuda-lo, mas Jaineba segurou-a pelo calcanhar. Mari perdeu o equilíbrio, caiu batendo a cabeça na guarda da cama. Rosnando, Jaineba saltou sobre ela.

Enquanto isso os outros dois pacientes também entraram em convulsão.

Houve uma correria na área da emergência, em cinco minutos instalou-se o caos. Jaineba atacou outros enfermeiros, inclusive um segurança. Tentei ajudar o pessoal a prender os pacientes com correias nas macas, mas nesse meio tempo, Gerson e Mari já estavam infectados e se debatiam no chão.

Pessoas infectadas subiam para os outros andares. Quando vi que a situação estava fora de controle, saí correndo para a área em que Virginia trabalhava. Eu precisava tirá-la do hospital enquanto houvesse tempo.

****

Alguns dias depois...

Quando um grupo de infectados começou a perambular por nossa rua, vindos de outros bairros, resolvemos sair da cidade. Moradores do bairro já tinham ido embora, outros permaneciam trancados em suas casas.

Aproveitando que aqueles monstrengos não estavam muito próximos, saímos pela porta dos fundos e entramos na caminhonete ao lado da casa. Liguei o motor, pisei no acelerador e dirigi para a rua, porém, não fomos muito longe. Havia uma barreira com móveis impedindo o tráfego. Quando freei o carro, cinco homens surgiram com paus, facão e taco de basebol. Eles nos ameaçaram, abriram as portas e nos arrancaram do veículo. Um deles sentou-se ao volante, os outros entraram e eles partiram, fazendo o retorno e acelerando, sumiram na outra esquina.

Pensei logo em voltar para a segurança de nossa casa. Segurei a mão de Virginia e disse para ela correr. Alguns zumbis surgiram de um beco e vieram em nossa direção, com seu andar claudicante, fazendo um ruído estranho com a garganta.

Virginia se apavorou e quando procuramos correr mais rápido, tropeçou e caiu. A mão dela escapou da minha. Dei duas passadas de volta e a peguei pelo braço, ajudando-a erguer-se. Mas ela soltou um grito de dor ao ficar de pé. Além de uma esfoladura no joelho, havia torcido o tornozelo. Firmar o corpo com o pé direito, lhe dava dores horríveis.

Nesse breve instante, os zumbis diminuíram a distância que tinham de nós. Mesmo com os músculos das pernas inflamados pela doença, eles conseguiam correr. Um deles já estava sobre Virginia. Consegui derrubá-lo com uma rasteira, mas outro se atirou sobre ela. Dei meia volta e o empurrei com o pé. Quando ele caiu para o lado e tentava se levantar, peguei Virginia, a coloquei sobre os ombros e corri para a segurança de nossa casa. A deitei num sofá e fui buscar o estojo de primeiros socorros.

Quando voltei à sala, Virginia estava olhando para o braço esquerdo. Havia um ferimento no antebraço dela. O zumbi a tinha mordido. Fiquei angustiado, mas ela manteve-se calma. Limpei o ferimento com um desinfetante e passei uma pomada antibacteriana. A mordida não tinha sido muito profunda, mas os dentes do zumbi tinham lacerado a pele. Mesmo depois de limpar e desinfetar o braço, a ferida inflamou em questão de pouco mais de meia hora. O tornozelo direito estava inchado. Coloquei gelo nele e fiz uma atadura.

Virginia permaneceu coerente, lúcida. Sabia que tinha sido infectada e pediu para que eu a matasse caso perdesse a razão e se tornasse um daqueles monstros. Já no primeiro dia ela ficou com febre, com alguns períodos de inconsciência. Começou a delirar. Para que ela não se debatesse com as convulsões, amarrei seus braços e pernas na guarda da cama.

Naquela noite não consegui dormir com seus gritos e gemidos. Para que ela se acalmasse, apliquei em suas veias dois gramas de Pentotal. Ela adormeceu logo em seguida. Coloquei um colchonete no chão, para dormir ao lado dela. Quando amanheceu, a encontrei dormindo. Achei que estivesse melhorando. Retirei a atadura do braço e vi que a ferida estava avermelhada, esbranquiçada no meio e arroxeada nas bordas.

Fui até a janela e olhei para fora. Não vi nenhum infectado. Aproveitei que a rua estava deserta para ir até o hospital. Não era longe, umas cinco quadras. Eu estava acostumado a ir a pé para o trabalho. Ao dirigir-me para lá, avistei um grupo de pessoas, duas quadras adiante, na direção oposta. Achei que eram zumbis e rezei para que não me vissem.

O hospital estava sem médicos e funcionários. As instituições públicas e privadas foram fechadas. Os funcionários abandonaram suas atividades quando os ataques e o desespero das pessoas fugiram do controle das autoridades.

Entrei no saguão do hospital sem encontrar ninguém. Me lembrei dos primeiros dias da epidemia. Não sei como começou, nem onde começou, ninguém sabia. Apareceram algumas pessoas procurando atendimento médico de pronto socorro, por terem sidas atacadas e mordidas, algumas por homens, outras por mulheres aparentemente alucinadas, com hidrofobia, ou o que se pensava que fosse. Até então, as notícias sobre a epidemia não haviam causado pânico nos médicos, enfermeiras e funcionários.

Eu mesmo não tinha nenhuma informação conclusiva sobre aqueles ataques. Continuei a trabalhar normalmente. Mas quando os pacientes contaminados, se transformaram física e mentalmente, e quando passaram a atacar quem estivesse ao seu alcance, o pânico foi geral. Mais e mais contaminados apareceram, e mesmo os mortos voltaram à vida completamente transformados em zumbi.

As notícias sobre a pandemia pelos telejornais eram assustadoras. Em poucos dias tudo parou, todos os serviços essências deixaram de funcionar.

Agora lá estava eu, chegando ao hospital em busca de remédios para salvar Virginia. Ao chegar a um corredor, vi corpos desmembrados pelo chão. Evitando pisar nas poças de sangue coagulado, me dirigi para o laboratório. Peguei antibióticos e kits para injeção e também uma bolsa de sangue O Negativo.

Voltei correndo para a casa e apliquei uma injeção de terramicina em Virginia, mas o remédio não fez nenhum efeito. Dei-lhe uma injeção calmante, para poder fazer a transfusão de sangue. Pendurei a bolsa num prego na parede, coloquei a mangueirinha com a agulha e enfiei a agulha no braço dela. Não foi difícil encontrar a veia, estava bem saliente. O tempo passou e não houve nenhuma melhora.

Virginia continuou inconsciente, mal respirava. Apliquei uma vacina antirrábica, mas sem resultado. Foi no quinto dia depois da mordida que ela abriu os olhos, mas já não era a mesma.

Os cabelos, antes lisos e brilhantes, tornaram-se opacos, secos e emaranhados. A pele sedosa ficou áspera, escamosa, com manchas arroxeadas e feridas purulentas. Os olhos afundaram-se nas orbitas, perderam o brilho e a vida. Antes verdes, me arremetiam a campos ensolarados, agora, o verde se esmaeceu como a folhagem no outono, a íris branca, um campo nevado, morto. Nos cantos da boca o muco se acumula cheio de bactérias. Os lábios antes rosados, escureceu cobertos de fissuras avermelhadas.

Ainda havia força em seus membros, os músculos conservavam o vigor de antes, embora ela tenha se tornado uma morta-viva. Com certeza Virginia teria me atacado e mordido se eu não a tivesse amarrado à cama, antes da transformação.

Sentado na beira do leito, olhava para ela com tristeza e arrependimento. Quando a cidade se tornou um caos por causa da epidemia, achei que a doença seria debelada e que a vida voltaria ao normal. Mas, os dias passaram e tudo piorou.

Eu tinha consciência de que não era mais ela, que era um zumbi que estava ali, na minha frente, mas não podia simplesmente abandoná-la. Uma voz na minha cabeça dizia o contrário, porém, não conseguia deixar de pensar que ela ainda era minha mulher. A mulher que eu ainda amava.

Quando eu entrava no quarto, Virginia ficava agitada, se contorcia tentando de todas as formas levantar-se, o rosto voltado para mim, os dentes arreganhados como um cão raivoso. Resolvi não ficar muito tempo perto dela. Fui para a cozinha preparar uma comida decente, pois até então, eu pouco tinha me alimentado. Por sorte a despensa estava cheia e havia carne no freezer.

O dia findou e com a noite veio a calmaria. Parece que a noite lhes traz letargia, lerdeza e prostração. Seu cérebro ainda funcionava, não o raciocínio, mas o instinto, a parte mecânica, o metabolismo, e dele o sono faz parte. O descanso necessário, a pausa ancestral dos neurônios desde o começo da Vida sobre a terra.

Ela permaneceu imóvel, os olhos fechados, dormindo. Peguei o vidro de esmalte e pintei suas unhas de vermelho. Tentei passar batom em seus lábios, mas ela acordou e quase mordeu meus dedos. Desisti. Sai do quarto e fui chorar, deitado no sofá da sala.

Na manhã seguinte acordei triste e desanimado. Me levantei e como sempre fazia, fui olhar Virginia. Era o oitavo dia e ela continuava na mesma. Logo que me via, tentava se soltar, fazendo um som soturno com a garganta. Se ela se soltasse com certeza me atacaria, morderia meu pescoço e comeria minha carne. Contaminado, no quinto dia depois de febre e convulsões, eu me levantaria e me juntaria ao bando de mortos-vivos que perambulava pelas ruas.

Naquela manhã fiquei pensando no dia em que conheci Virginia. Foi numa festa de aniversário na casa de meu primo André. Virginia era colega de trabalho de Luiza, esposa de André. Já se passaram cinco anos e ainda me lembro da roupa que ela usava naquela ocasião, blusa e saia bege, e sapatos de salto alto, cor salmão. Os cabelos estavam presos num coque. Logo me encantei por aqueles olhos verdes e me apaixonei por ela.

Sentado numa cadeira ao lado do leito, olhava para Virginia. Ela dormia sob o efeito de um sedativo. Permanecia calma. Seus pulsos e tornozelos estavam esfolados pelo atrito nas cordas. Eu já havia desistido da transfusão de sangue, pois não fez nenhum efeito sobre o organismo dela. Não havia nada que eu pudesse fazer para curá-la. Me levantei da cadeira me aproximei dela com uma escova na mão e comecei a escovar com delicadeza seus cabelos emaranhados, secos e quebradiços. Me lembrei que ela gostava que eu penteasse seus cabelos. Eu fazia isso de vez em quando.

Mas era inútil. Cheguei à conclusão de que eu nada poderia fazer por ela, para melhorar sua aparência. O seu estado não podia ser revertido, não havia cura. Larguei a escova sobre o criado-mudo e desatei as cordas que a prendiam. Depois me sentei numa cadeira, esperando ela despertar. Minhas esperanças haviam acabado e eu não tinha mais nenhuma vontade para continuar vivendo.

Não demorou muito, Virginia abriu os olhos, olhos de um verde esmaecido com íris branca. Logo que me viu, ergueu o rosto, cheirando o ar na minha direção.

Com um urro, atirou-se sobre mim. Por instinto, me ergui caindo para trás enquanto segurava os braços dela. Com o rosto próximo do meu, rosnava como um animal furioso tentando morder-me. Eu estava a ponto de fazer sua vontade, quando um braço surgiu acima do meu rosto, a mão empunhando uma pistola.

O som do disparo abalou meus ouvidos e senti o calor do tiro em meu rosto. A cabeça de Virginia foi jogada com violência para trás e ela se afrouxou, desabando ao meu lado. Ergui-me meio tonto, enquanto André me segurava pelo braço.

- Vamos Roger! Vamos embora, ela não é mais a Virginia!

André me arrastou para fora de casa. Abriu a porta traseira do carro e me fez entrar. Na frente, no banco do carona estava Luiza. Ela me olhou admirada talvez com minha aparência. André entrou, bateu a porta, pisou no acelerador, enquanto um grupo de zumbis corriam em nossa direção. André não desviou, passou por cima deles.

O carro seguiu veloz pela rodovia. André e Luiza diziam alguma coisa, mas eu não conseguia entender as palavras.

Caí num sono profundo.

Acordei horas depois num acampamento de refugiados, onde havia um laboratório e médicos em busca de uma vacina para acabar com aquela epidemia. Passei ainda alguns dias abatido pela perda de Virginia, mas depois me empenhei nas pesquisas de laboratório, em busca de uma cura para a praga. O futuro é incerto, mas continuamos lutando.

FIM

11 de Setembro de 2020 às 14:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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