antonio-stegues-batista Antonio Batista

Antes de entrar no cangaço, Olegário da Rosa era auxiliar de marceneiro. Quando conheceu Dorinha, se apaixonou de pronto. Os dois começaram a namorar e logo ficaram noivos com a promessa de se casar no fim do ano. Vaqueiro não conhecia o resto da história, pois naquela ocasião, o chefe resolveu de repente, deixar de remoer o passado e encerrou a conversação. Agora, ele estava com aquela mesma cara de tonto. Será que estava disposto a contar o resto do caso?


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UM CANGACEIRO CHAMADO COTIA

Cotia não queria cometer o mesmo erro que Lampião. Confiar em coiteiro não era boa ideia. A pergunta de Mosquito era impertinente. Ele não gostava nenhum pouco da falta de respeito e do jeito atrevido do homem. Era um bom companheiro, mas às vezes passava dos limites. Era hora de lhe dar um corretivo.

- Cá, as minhas decisão não tem questão que lhe duvide. Sou o comandante deste bando e não admito que desrespeitem minhas ordens, tampouco que me façam questionário de volta.

Mosquito estava há poucos meses no bando, mas tinha em conta que Cotia era um bom comandante, tratava bem os camaradas que lhe eram fiéis, mas não admitia desrespeito e a desobediência, em certos casos era punida com a morte. Ele achou melhor amaciar as palavras.

- Não foi tenção minha questionar sua decisão, mas achamos que...

- Achamos? Quem acha o quê?

- Estão todos cansados. - interveio Vaqueiro, aproximando-se. Ele tirou o chapéu e bateu na perna para espantar a poeira. Olhou para trás e voltou a encarar o chefe. – O senhor mesmo não dorme direito há dois dias. Já estamos fora de perigo e precisamos descansar, principalmente os cavalos que estão com fome e sede.

Cotia olhou para os 23 homens e as 6 mulheres que subiam a ladeira em fila, puxando as montarias pelas rédeas. Ele achou que era melhor dar um descanso. Mandou Vaqueiro dar ordem de parada no topo da colina até a manhã seguinte.

Entardecia e uma das regras do bando era não viajar durante a noite. A trilha se alargava em cima da elevação e ele achou que era um bom lugar para acampar. Dali podia-se ter uma boa visão do caminho. O grupo acomodou-se, estendendo suas esteiras junto às pedras para abrigar-se do vento. Vaqueiro mandou amarrar os cavalos num gramado e destacou três homens para ficarem de guarda no primeiro turno, colocando-os em locais estratégicos. Cotia confiava em Vaqueiro, seu braço direito. Era função dele, preocupar-se com a segurança do grupo. O chefe sentou-se numa pedra na beira do declive, olhando o pôr do sol.

- Amanhã seguimos daqui para o Piaui. - disse ele para Vaqueiro, que voltava da inspeção. O rapaz chegou-se até ele.

- O Piauí ainda está longe.

Cotia surpreendeu-se.

- Longe? Aquele não é o Morro do Cascudo?

- Não senhor, é o Morro das Palmas. Nós estamos no município de Jandaia.

Cotia ficou pensativo por um momento. Vaqueiro esperou com paciência.

- E eu que pensava estar longe das vilas! Então, a vila de Jandaia está perto?

- Sim, senhor, fica depois daquele morro. Conheço bem a região, pois andei muito por essas bandas com meu tio que era mascate.

Olhando para longe, Cotia perguntou;

- Já te falei que eu tive uma noiva?

- Sim, senhor.

Vaqueiro se lembrava. Foi no ano passado, depois de um ataque a um comboio em Juazeiro. As carroças estavam indo para uma feira carregadas de mercadorias e eles resolveram atacar. Mas, numa delas havia soldados da polícia no lugar de farinha e rapadura. O chefe levou um balaço. O grupo desistiu do ataque para salvar seu comandante. Cotia levou um balaço e quase bateu as botas. Felizmente o chumbo varou o ombro e não provocou o falecimento. Depois do ombro tratado com emplastro de babosa, o chefe ficou mais leve, de coração amaciado, tanto que se lembrou do seu antigo amor.

Antes de entrar no cangaço, Olegário da Rosa era auxiliar de marceneiro. Quando conheceu Dorinha, se apaixonou de pronto. Os dois começaram a namorar e logo ficaram noivos com a promessa de se casar no fim do ano. Vaqueiro não conhecia o resto da história, pois naquela ocasião, o chefe resolveu de repente, deixar de remoer o passado e encerrou a conversação. Agora, ele estava com aquela mesma cara de tonto. Será que estava disposto a contar o resto do caso?

Os olhos de Cotia brilharam quando ele apontou um dedo na direção do Morro das Palmas.

- Ela está bem perto. Bem ali!

Vaqueiro sentou-se ao lado dele sem medo de rejeição, pois era íntimo do chefe. Era como seu irmão. Somente a ele Cotia declarava suas coisas íntimas. E ele, como homem honrado e fiel, guardava a sete chaves as confissões do comandante.

- Há dezessete anos saí de Sergipe e andei por esse mundo de Deus. Dei voltas e mais voltas e acabo de chegar ao lugar de onde parti, Jandaia do Norte! Eu e Dorinha, a gente ia casar. Um dia ela foi fazer compras num venda, quando um sujeito começou a dizer besteiras pra ela. Sabe, aquelas coisas do tipo de doidivanas. Quando reclamei dos maus tratos, o sujeito me ofendeu na frente da minha noiva. O sangue subiu para a cabeça, peguei um peso de dois quilos que estava sobre o balcão e bati na cabeça dele. Abriu um valo na cabeça do peste e o homem caiu duro com sangueira. Dorinha ficou apavorada, é claro. Alguém saiu correndo pra chamar a polícia e eu não queria ser preso. Resolvi fugir e nunca mais pude voltar a Jandaia. Me escondi na Bahia e acabei entrando no bando do Cabeleira. Quando ele morreu, tomei o lugar dele.

Cotia abriu as mãos, olhando ao longe.

- Agora, estou aqui. Perto de Jandaia. Será que Dorinha ainda mora lá? Será que se casou? Acho que sim, era uma moça bonita. Sei que gostava de mim, mas não acho que não iria me esperar todo esse tempo. Eu podia ter vindo falar com ela, mas minha vida já estava destruída. Me tornei um assassino.

Cotia calou-se, ficando pensativo. Vaqueiro esperou.

- Amanhã vou a Jandaia.- disse o chefe. Vaqueiro não se surpreendeu. Só estava curioso em saber como ele iria fazer isso.

- Com essa barba e com aquela capa velha, ninguém vai me reconhecer. Já se passaram muitos anos e não tenho nenhum parente lá, para saber quem sou. Todos vão pensar que sou um desgarrado, um pobre coitado sem eira nem beira.

- É um pouco arriscado ir sozinho. Quem sabe, vou junto?

Cotia sacudiu a cabeça.

- Não. Vocês ficam aqui, não entrem na cidade. Si eu ver que pode haver perigo, desisto e vou embora. Diga para os outros que nós vamos atacar Jandaia amanhã e que eu vou dar uma olhada antes para ver quantos macaco tem por lá.

Cotia despiu o gibão de couro, tirou o chapéu da cabeça, entregou as armas para Vaqueiro e enfiou a capa pela cabeça. Neném, a esposa de Vaqueiro, ajudou-o a amarrar o cordão na cintura.

- Que roupa é essa, afinal? - perguntou Mosquito. Cotia ignorou a impertinência.

- Não sei, não! - respondeu Neném.

- Se não me engano é batina, a roupa dos padres. - dsse Zarolho.

- Os padre usam roupa preta e essa aí é marrom. - afirmou Mosquito que, junto com os outros, espiavam o chefe arrumar-se. Caroço, o mais jovem do bando, como estava sobre uma pedra, olhando por sobre o ombro de Mosquito, elevou a voz para ser ouvido.

- O nome é hábito. É a roupa dos monges.

- Nem uma coisa nem outra. - afirmou Cotia. – Essa é a roupa de um esmolambado, um mendigo.

Ele puxou o capuz para a cabeça. Vaqueiro deu-lhe um cajado que ele mesmo cortou do galho de uma goiabeira, tirando-lhe a casca e tostando-a no fogo para que parecesse antiga.

- Para que isso? - perguntou Cotia.

- Todo andarilho usa cajado. O senhor vai parecer Moisés ressuscitando do deserto.

- E esse jagunço, quem era?

- O senhor não leu a bíblia?

- Ah! Moisés! Me lembro que o padre lá da vila onde eu morava falou na missa de domingo, nesse tal santo das pragas. Pessoal, eu espero não demorar na cidade. Só vou saber se lá tem muito macaco. Vou fazer um reconhecimento. Saber se podemos atacar sem perigo e sair da cidade sem um arranhão.

- O senhor não acha melhor mandar outro homem? - indagou Mosquito. Outra vez ele fazia inquirição!

- Temos medo de perder nosso chefe. - ajuntou o velho Sabiá. – O sinhô pode cair numa emboscada.

- Que emboscada, que nada! Ninguém vai saber quem eu sou. Vocês ficam aqui até minha volta. Obedeçam as ordens de Vaqueiro.

Cotia entrou na cidade observando as casas de comércio, armazém, bar, farmácia, lojas de roupas, mercadinho, igreja, prefeitura e uma delegacia. A cidade não mudou muito. Ele passou primeiro diante da casa onde morou com os tios. A velha casa estava abandonada. Os tios se mudaram ou eles morreram.

A casa de Dorinha ficava quase no fim da rua. Passou em frente à delegacia, observando de soslaio o seu interior. Era uma casa de um só piso, talvez com quatro cômodos, sendo um deles provavelmente a cadeia. Ele viu que na sala da frente não havia ninguém. Quantos policiais teria? Não muitos, a cidade era pequena, tranquila. Não precisava de um exército. As autoridades talvez não imaginavam que um dia seriam atacados por cangaceiros.

Cotia seguiu lentamente, acompanhando cada passo com seu bordão apoiado no chão. Estava distraído, já traçando um plano para a invasão, quando ouviu uma voz atrás de si.

- Ei! O senhor aí, pare!

Ele estremeceu, parou e olhou para trás. Ficou apreensivo por ter que fugir e enfrentar a polícia desarmado. Ficou aliviado, quando o soldado ajuntou:

- Padre, precisamos da sua ajuda.

O homem o confundia com um padre. Vestindo o seu tradicional uniforme caqui, e sem cerimônia, o soldado segurou-o pelo braço.

- Padre, tem um homem morrendo e ele precisa da sua extrema-unção.

Cotia segurou-lhe nos dedos e torceu-os para que o largasse. Estava a ponto de derrubá-lo, mas resolveu mudar de ideia. Aquilo poderia auxiliar em seus planos. Quando criança, a mãe o levava junto quando ia a igreja, principalmente aos domingos. Até foi coroinha por algum tempo e por isso, conhecia os deveres dos padres e alguns rituais da igreja católica.

- Lamento meu filho, não sou padre, sou frei.

- Não tem importância, o senhor só diz as palavras.

Palavras? Que palavras? Ele não sabia.

- A vila não tem padre? Tem uma igreja ali.

- O padre viajou para a capital. Vamos frei, antes eu seja tarde e o delegado morra sem o perdão de Deus.

Cotia deixou-se levar. O soldado levou-o para uma casinha ao lado da delegacia. Deitado numa cama rodeado por algumas pessoas, estava Ariovaldo Salgado, dono do armazém onde ele havia matado um homem. Ariovaldo então, era agora o delegado. Seu semblante era de sofrimento, os olhos encovados, faces chupadas, as mãos brancas tremulas sobre os lençóis.

Ao lado dele, sentada numa cadeira, uma mulher com o rosto molhado de lágrimas, inclinou-se para ele. Cotia reconheceu Elvira, esposa de Ariovaldo. Ficou com receio que ela o reconhecesse, mas a mulher mal reparou nele.

- Marido, Josenildo chegou com o padre para te dar a última benção.

O moribundo voltou o rosto e entreabriu os olhos para enxergar o recém-chegado. Cotia jogou o capuz para trás. A mulher ergueu-se, deixando o lugar para ele sentar-se. O moribundo ergueu a mão, murmurando alguma coisa. Cotia sentou-se segurando-lhe a mão. Ariovaldo procurou elevar a voz.

- Deus vai perdoar meus pecados?

Perguntou ele com voz estrangulada e lábios trêmulos. Cotia sabia quais eram os pecados do vendeiro, que agora era delegado. Se lembrava do dia em que foi ao armazém comprar açúcar e encontrou as portas fechadas. Ainda não era noite e Ariovaldo fechou o armazém mais cedo. Ele ouviu gemidos lá dentro e achando que estava acontecendo alguma desgraça, foi até uma fresta olhar. O que viu deixou-o estarrecido. Ariovaldo estava fornicando com a cunhada. Ariovaldo sempre ia à missa aos domingos, era religioso, parecia seguir os mandamentos. Só parecia. Além daqueles atos com Irene, a esposa de seu irmão, que outros pecados ele cometeu e depois foi à igreja pedir perdão? A esposa estava ali, triste e nem sabia das traições do marido. Ela pedia rezando que a alma do marido fosse salva.

- Ariovaldo, te arrependes de teus pecados? - perguntou Cotia.

- Sim. - disse o homem num fio de voz. Cotia fez o sinal da cruz sobre a testa dele e inclinou-se, sussurrando ao seu ouvido;

- Pois, vais queimar no fogo do inferno seu pecador catinguento. Eu não sou padre, entonce não tenho autoridade para pedir por tua alma.

Cotia se afastou um pouco, a cabeça inclinada. O moribundo estremeceu, os lábios roxos tremeram, ele tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. A mulher dele soluçando, debruçando-se sobre o peito do homem que morria com os olhos arregalados.

Cotia saiu rápido da casa. Estava já na rua quando Josenildo correu atrás dele.

- Frei, frei!

Ele parou, aproveitou para olhar a delegacia. Através da porta aberta viu um homem sentado atrás de uma escrivaninha.

- Frei! Tome, dona Elvira mandou lhe dar um regalo.

Josenildo estendeu a mão com duas notas de dinheiro, enroladas.

- Não carece, não.

Como o homem insistiu, ele pegou e guardou no bolso do manto.

- O senhor mora aqui por perto?

Distraído, Cotia respondeu que não.

- Entonce, de onde o senhor conheceu Ariovaldo? O senhor mesmo o chamou pelo nome...

Cotia hesitou. O homem era esperto, observador.

- Não o conheci pessoalmente, mas ouvi de falar na barca, que o delegado Ariovaldo estava doente. E a cidade vai ficar sem chefe de polícia?

- Não, com certeza o prefeito vai nomear outro, no caso, eu que sou o sucessor.

- E não tem outros candidatos? Quantos soldados tem?

- Agora, quatro comigo.

- A prosa está boa mas preciso ir.

Josenildo segurou-o pelo braço. Cotia se conteve para não lhe dar um safanão. Que sujeito atrevido!

- Frei, o senhor não vai encomendar o corpo?

- Já encomendei a alma e o corpo. Não há o que se preocupar. Já vou indo que tenho pressa.

Cotia s se afastou a passos rápidos. Adiante, saiu da estrada e foi em direção onde havia deixado os companheiros. Vaqueiro veio ao seu encontro.

- Como foi? Correu tudo bem?

- Sim. Eles pensaram que eu era um religioso e tive que dar a benção para o delegado que estava morrendo. Só tem quatro soldados na delegacia. Vai ser fácil dominar a vila. Distribua os homens e coloque sentinelas em cada canto, enquanto pegamos dinheiro, comida e munição. Vamos entrar agora.

A vila foi tomada. Os soldados não tiveram tempo de reagir. Estavam juntos com alguns moradores carregando o caixão com o corpo do delegado para o cemitério, quando os cavaleiros surgiram na rua. Cercados, jogaram as armas para longe e se entregaram. Vaqueiro mandou amarrar e levar os soldados para a delegacia. Prenderam-nos na cadeia e jogaram a chave fora. Por ordem de Cotia, Josenildo foi poupado e levado até ele. Cotia estava sentado nos degraus da escada da delegacia, junto com Vaqueiro. Com as mãos amarradas para trás, Josenildo olhou carrancudo para o chefe dos cangaceiros.

- Se ninguém criar problema, ninguém será machucado.- disse Cotia. Fez um gesto, para os companheiros. - Vão cumprir suas ordens enquanto converso com o novo delegado.

Quando os outros se afastaram, ele perguntou:

- Quantos anos tens?

- 35.

- Há 10 anos tinhas então, 25.

- Sim, senhor.

- Já moravas na cidade?

- Sim, senhor. Eu era ajudante de escrivão.

- Conheceu o coronel Aparício Viana Certeiro?

- Sim, era meu padrinho, morreu há cinco anos de um ferimento na barriga. Um touro chifrou ele.

- O coronel Aparício era um homem valente, agarrava touro na unha.

- Eu sei. Eu sempre dizia que aquilo era perigoso. Mas ele gostava de mostrar que era cabra macho.

- Eu por mim, não me preocupo com essas coisas.

Houve uma pausa. Josenildo olhava para o cangaceiro e Cotia percebeu que era um olhar de curiosidade, ou interrogação, de alguém que pensava em alguma coisa.

- Me parece que lhe conheço. - disse o soldado.

- Mas claro, eu estava vestido de frade hoje de manhã.

- O frade! Verdade, mas me parece que lhe conheço de outros tempos.

Cotia procurou mudar de assunto.

-O que tem naquele cofre da delegacia?

Josenildo baixou a cabeça. Olhou para o lado.

- Não sei.

- Não sabe ou não quer dizer?

- Não sei, não senhor.

Cotia fez um sinal e Vaqueiro se aproximou em companhia de Barbicha.

- Levem ele, amarrem numa árvore e fuzilem. O cabra não quer cooperar...

Os dois cangaceiros agarraram o homem pelos braços e o arrastaram em direção a uma árvore na beira da rua.

- Não! - gritou Jesuíno apavorado.- Eu falo.

Cotia aproximou-se dele.

- Fala estrupício.

- Tem dinheiro da prefeitura. É do prefeito.

O chefe dos cangaceiros coçou o queixo coberto por uma barba rala.

- Vaqueiro, traga o prefeito. Barbicha, solta o homem e vê se tem café na cozinha, se não tiver mande fazer, e bolinho de farinha, que eu estou com fome.

Mosquito entrou na delegacia. Cotia agarrou Josenildo pelo colarinho da jaqueta e fê-lo sentar-se no degrau. Sentou-se ao lado dele.

- Conhece a filha do coronel Aparício Viana?

- Conheço. Dona Dorinha, ela mora na segunda casa depois da ponte. Ela...

Josenildo foi interrompido com o som de um disparo. Cotia ergueu-se rápido, pegando a carabina. Os cangaceiros na rua, ficaram alertas. O disparo veio de uma das casas. Sabiá e outros dois correram para lá. Cotia fez um sinal para um dos homens tomar conta de Josenildo e foi investigar. Atravessou a rua a passos lentos. Não queria ser surpreendido por uma emboscada. Sabiá surgiu logo em seguida e explicou o que tinha ocorrido. Um dos moradores, dono da venda, tinha uma arma escondida e tentou fugir pelos fundos. Ele atirou em Carrapicho, um dos vigias que estava em cima do telhado.

- E Carrapicho morreu?

- Que nada! O home é protegido. Foi só de raspão no braço. O vendeiro levou uma coronhada na cabeça e foi dormir.

Vaqueiro surgiu em companhia de um homem vestindo um terno escuro. Pela cara de injuria e o traje, Cotia logo imaginou que era o prefeito.

- Aqui está o doutor prefeito.- anunciou Vaqueiro, acompanhando o homem, mas sem precisar segurá-lo.

- Como se chama? - perguntou o chefe.

- Olinto da Borba Canto. -respondeu o prefeito de peito estufado. Cotia apreciava os homens de coragem até certo ponto. Gostava de um embate de intelecto. Podia zombar deles, principalmente dos políticos de meia-tigela. Ele pediu para o prefeito acompanha-lo até a sala onde estava o cofre, na delegacia.

- Faz o favor de abrir.- pediu o cangaceiro. Olinto olhou para o cofre, voltou a olhar para Cotia.

- Não posso abrir.

- Porque? Esqueceu a combinação?

- Sim, senhor. Não usamos mais esse cofre. Ele está vazio. Não tem dinheiro.

Cotia já contava com a relutância do homem e já tinha resolvido ser paciente. Não queria usar a força sem necessidade. Mas também não queria ir embora sem aquele dinheiro. Queria sair do cangaço, mas para isso precisava ir para terras distantes e viver uma velhice tranquila. Ele segurou firme o prefeito pelo braço e conduziu-o para a calçada. Vaqueiro, Mosquito e Formiga ficavam sempre por perto do chefe, protegendo-o.

- Senta no chão. - ordenou Cotia. Olinto hesitou, não queria sujar o terno de terra. Cotia ergueu o rifle e deu-lhe uma coronhada no rosto. Não usou a força bruta para que o homem não perdesse os sentidos. Olinto vacilou, soltou um gemido levando a mão na cabeça. Um hematoma cinzento surgiu-lhe na fronte. Vaqueiro e Formiga o seguraram pelos braços. Cotia olhou para a igreja, não muito distante.

- Tem gente na igreja? - perguntou ele para Vaqueiro, mas foi Formiga quem respondeu.

- Sim, senhor umas dez pessoas, estavam na missa. Marabá fechou a porta para que eles não saíssem.

- Vá até lá e a cada dez minutos mande sair uma pessoa. Não importa se é homem ou mulher. Se o prefeito não abrir o cofre, vocês vão matando os que saírem. Enquanto isso, eu vou fazer uma visita.

- Se o nome dela for Dora, ou Dorinha mande outra pessoa sair. Dorinha é uma conhecida.

Formiga correu para a igreja e Cotia seguiu caminhando na direção oposta.

Barbicha surgiu na porta da delegacia, gritou:

- Capitão, o café está pronto!

- Deixa na chapa quente que eu já volto.

Logo ele chegou na ponte sobre o córrego. Era uma rua curta, sem saída, com meia dúzia de casas. Dois cangaceiros montavam guarda para que os moradores não saíssem de suas casas. Cotia passou junto a eles. Eram Cebola e Caroço.

- Logo, logo nós já vamos embora. – disse ele. – Só vamos pegar o dinheiro da prefeitura. Eu vou ali, fazer uma visita e já volto.

Um disparo ecoou na vila. Mosquito estava cumprindo as suas ordens.

- Algum problema lá, meu capitão? -perguntou Caroço, apreensivo.

- Nonada. É só uma questão de diálogo. Fiquem firmes até nós ir embora.

Cotia seguiu adiante e entrou no pequeno jardim de um sobrado pintado de azul. Talvez Dorinha estivesse casada, teria filhos. De qualquer forma ele precisava conversar com ela. Explicar algumas coisas, apenas para aliviar a consciência. Como um homem civilizado que era, ele tirou o chapéu, bateu com os nós dos dedos na porta e esperou. A porta se abriu e surgiu uma mulher gorducha, de meia idade. Ao ver que era um dos cangaceiros, ela recuou, assustada.

- Não vou lhe fazer mal. Dorinha Viana mora aqui?

A mulher assentiu, sacudindo a cabeça. Não conseguia falar.

- Como a senhora se chama?

- Eliana. Sou vizinha dela.

- Dona Eliana, nada tema, só vim conversar com Dorinha. Pode me chamar ela?

- Ela está acamada, com febre.

- O que ela tem?

- O médico receitou uma porção de remédios e nada adianta.

Ele resolveu fazer uma pergunta que responderia suas dúvidas.

- Dorinha está com o marido?

- Não, o marido morreu faz cinco anos. Está sozinha.

Cotia entrou, ainda conservando um tom amistoso.

- Posso conversar com ela? Está no quarto?

Ele não esperou pela resposta e entrou no primeiro cômodo que encontrou.

Dorinha estava deitada no leito. O rosto pálido ainda conservava a beleza de outrora. Ela não mudou muito, mas como estava enferma, o mal, qualquer que fosse, havia lhe tirado o vigor, a cor rosada da pele. Cotia aproximou-se e sentou-se na cadeira que estava ao lado, colocando o chapéu no chão. Quando ele tocou com as pontas dos dedos, a mão dela, só então Dorinha abriu os olhos. A princípio ela viu dona Eliana parada na porta e depois, voltou o rosto e viu o visitante estranho, que ela não reconheceu de imediato.

- Como você está? Sente-se melhor?

Nem a voz ela reconheceu. Sua expressão era de curiosidade. Falou em voz baixa, pausada.

- Me sinto muito fraca, com arrepio de frio, dor de cabeça, náuseas.

Ela fez uma pausa, procurando reconhece-lo.

- Não está me reconhecendo, talvez por que envelheci. Sou Olegário. Lembra que nós íamos casar? Já faz algum tempo.

A expressão dela mudou. Esboçou um sorriso. Falou pausadamente.

- Olegário! Há quanto tempo! Como você chegou aqui? Me disseram que a vila foi atacada por cangaceiros.

Ele ficou calado por um momento. Baixou os olhos. Dorinha examinou mais atentamente aquele homem que fora seu noivo e aparecia de repente, justo quando um bando de cangaceiros atacava a vila. Ela viu a adaga enfiada no cinto, os dois cinturões com munições atravessado no peito dele. Só então ela entendeu. Olegário era um dos cangaceiros! Ela fez um esforço para falar. Não só sentia fraqueza, mas desgosto, repúdio.

- Não imaginava que você fizesse parte do bando. Desde quando está nessa vida?

- Desde aquele dia em que fugi por ter matado aquele homem. Eu poderia ter ficado e pagado pelo meu crime, mas não aguentei a ideia de ficar preso por anos a fio. Sempre pensei em vir te procurar, mas desistia da ideia por que eu já não podia mais ficar ao teu lado e constituir família como um homem normal.

- E por que veio me procurar? Eu me casei, tenho uma filha.

- Eu já imaginava isso. Se eu tivesse relegado as ofensas que aquele homem disse a você, hoje nós estaríamos casados.

- Não foram ofensas, Olegário, foram elogios e embora eu não tivesse gostado, você não precisava bater nele a ponto de matá-lo.

- Perdi a cabeça.

Cotia calou-se. Há muito tempo não ouvia alguém pronunciar seu nome. Sentia-se como se fosse outra pessoa. Tornara-se um malfeitor talvez por ser um homem mau. De repente sentiu urgência em ir embora, embrenhar-se sozinho pelo sertão e perder-se no vazio do mundo. Os olhos de Dorinha encheram-se de lágrimas.

- Eu vou morrer.- murmurou ela, num fio de voz. Olegário sentiu uma dor que começou no estomago e subiu para a garganta. Ele segurou a mão dela.

- Não! Você vai melhorar. Vou mandar buscar um médico na cidade.

- Não! Não adianta...

Olegário ergueu-se e aproximou-se de Eliana. Tirou um pacotinho do bolso da jaqueta e deu para ela. Os cangaceiros sempre carregavam remédios caso não fosse possível encontrar na natureza.

- É quinino e terramicina. Coloque uma colher na água dê para ela a cada quatro horas. Vá diminuindo a dosagem até ela melhorar.

A mulher assentiu e foi preparar o remédio. Cotia voltou par junto de Dorinha. Ele relembrou aquele dia fatídico em que matou um desconhecido. Contou como fugiu e como entrou no mundo do crime. Eliana trouxe o remédio. Olegário ajudou Dorinha a erguer a cabeça para que pudesse beber. Depois que ela tomou o remédio, ele continuou a conversar. Disse que não tinha outra opção. Não queria ir para a cadeia, por isso passou todos esses anos fugindo da polícia. Ele fez uma pausa. Agora não adianta nada dizer que estou arrependido.

- Lembra aquele dia, na feira? - perguntou Dorinha.

- Claro, como ia esquecer?

- Eu disse que tinha uma coisa para te contar.

- Sim, eu me lembro. Mas não fale, descanse.

- Não. Eu preciso dizer. Foi Deus que o trouxe aqui. Para ouvir minha confissão.

Dorinha fez uma pausa para respirar fundo. Com voz débil ainda, continuou:

- Eu ia te dizer que eu estava grávida, que você ia ser papai.

Cotia surpreendeu-se com a revelação. Ele era pai de uma criança, mas o que aconteceu? Onde está ela? É menino? Menina?

- O Que aconteceu com a criança?

- Ela nasceu, é claro, e cresceu. Já é uma mocinha. Se chama Bernadete, tem dezessete anos.

O peito de Olegário, o Cotia, encheu-se de alegria.

- E onde está ela?

- Foi na igreja, rezar para que eu fique boa. Ela está demorando...

Na igreja? Não! Dessa vez o peito de Olegário encheu-se de apreensão e dor.

Ele tinha dado ordem para Formiga matar as pessoas que estavam lá, caso o prefeito não falasse. Transtornado, ergueu-se e saiu correndo. Estava sem folego quando chegou na igreja. Cansado pela corrida, com as pernas bambas, deixou-se cair nos degraus. Formiga mantinha guarda na entrada. Olhou para ele, preocupado.

- Aconteceu alguma coisa, capitão?

Cotia ergueu o rosto.

- Esquece a ordem que dei. Não é para matar mais ninguém.

- Não matamos ninguém capitão. Não foi preciso. O prefeito concordou em abrir o cofre. É para senhor ir lá.

- Já vou.

Ele ergueu-se, ainda com as pernas meio bambas, com um frio na barriga, subiu os degraus, empurrou a porta e entrou na igreja.

- Faz tempo que não entro numa igreja. E você, não entre com essa arma, respeite a casa do Senhor.

Caminhou em direção ao púlpito. As pessoas estavam sentadas nos bancos, um pequeno grupo de homens e mulheres que estavam na missa quando ele e seu bando atacou a vila. Entre essas pessoas estava a sua filha. Ali estavam seis homens e cinco mulheres. Ele localizou a mais jovem, sentada entre duas idosas. Logo percebeu que era Bernadete, pois a semelhança com Dorinha era muito grande, inclusive, a pinta em cima e à esquerda do lábio superior. Ele aproximou-se dela e a jovem, evidentemente se retraiu, com medo.

- Nada temam. Não vou lhes fazer mal. Só queria saber, se o nome da jovem é Bernadete.

Ela sacudiu a cabeça.

- Sim, senhor.

Olegário sorriu orgulhoso e feliz.

- A sua mãe vai melhorar. Pode voltar para casa e ficar junto dela.

Cotia fez um gesto.

- Todos podem sair.- disse ele e dirigiu-se para Formiga.

- Deixem todos saírem, reúna o pessoal na praça que nós já vamos embora.

Formiga não tinha costume de fazer perguntas. Saiu e foi cumprir as ordens.

O bando de cangaceiros partiu da vila levando o dinheiro encontrado no cofre. Cotia repartiu o dinheiro em partes iguais e aproveitando que todos estavam reunidos, disse que estava deixando a vida de cangaço.

- Façam bom proveito desse dinheiro. Aconselho a todos deixarem essa vida. Vão para longe, onde ninguém os conheça, comprem um pedaço de terra e refaçam suas vidas. Esse é o conselho que dou a vocês, pois é o que vou fazer. Vou para longe do sertão. Eu disse a vocês que iria deixar o cangaço a qualquer hora e a hora chegou.

- Então é isso! -exclamou Vaqueiro.- Agora é cada um por si. Eu vou comprar uma passagem para São Paulo. Sempre quis morar lá.

Formiga sorriu.

- Eu vou para o Paraná. Vou comprar uma venda de secos e molhados.

Aos poucos, em grupos pequenos, os cangaceiros se despediram e foram embora. Cotia ainda ficou um tempo sentado na pedra, olhando a fogueira quase apagada. Ele pensava em Dorinha e Bernadete. Se ele pedisse que elas o seguisse e fossem morar no Sul? Será que Dorinha e a filha aceitariam viver com ele? Ele sorriu com a possibilidade.

Ainda estava sorrindo depois do disparo e só quando sentiu uma tontura é que percebeu que tinha sido baleado. Caiu de lado, surpreso ao ver Olinto de Borba Canto sair de trás de umas pedras, com um rifle fumegante nas mãos. O prefeito atirou mais uma vez para garantir o serviço.

Fim

10 de Setembro de 2020 às 14:12 0 Denunciar Insira Seguir história
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