antonio-stegues-batista Antonio Batista

Aristeu Alves não gostava do próprio nome. Precisava escrever um livro, mas estava sem inspiração. Saindo para espairecer, ele encontra um amigo dos tempos de adolescente no Café Olimpo. O encontro não é nada agradável. Os amigos caçoam dele e para se vingar, Aristeu oferece um jantar especial. Um jantar para os deuses do Olimpo.


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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O ESCRITOR MALDITO

São Paulo- 1957

Bloqueio Criativo

Aristeu Alves arrancou a folha de papel da máquina de escrever, amassou e jogou no cesto do lixo. Recostando-se para trás, cruzou os dedos atrás da cabeça e fechou os olhos com força, tentando buscar inspiração, mas nada emergia daquele lago de águas turvas que era a sua imaginação. O bloqueio criativo continuava. Ele havia escrito aquela introdução do seu novo livro há duas semanas e desde então, a história ficou interrompida.

Abrindo os olhos, olhou para a janela. Observou o desenho da praça com um campo relvado e sob a copa de uma árvore, um banco de madeira. Sua cabeça estava vazia tanto quanto aquele banco vazio onde ninguém sentava. Ele não queria ser autor de um livro só.

****

Os Amigos

Aristeu Alves passou a não gostar do primeiro nome, desde que um amigo de infância começou a zombar dele. Logo que o via, Dorival Coutinho gritava; “Aristeu! Quem foi que te comeu”?

Dorival infernizou sua vida na época do Ginásio. Felizmente o Amigo da Onça e a família mudaram-se do bairro e ele nunca mais o viu. Foi depois dos vinte anos, quando começou a trabalhar no jornal como cronista, é que ele resolveu mudar de nome, passou a usar o pseudônimo de Ari Alves.

Ari frequentava o café Olimpo. Com mesas redondas de jacarandá e cadeiras de palinha, o café era frequentado por escritores, artistas plásticos, jornalistas, além de cantores famosos. Ari e seus três amigos, os escritores Edgar Mourão Januário Casali e o pintor Alvarenga Matos, se reuniam toda quarta-feira para tomar um café e conversar.

Naquele dia, Ari encontrou apenas Alvarenga e Edgar, Januário ainda não tinha chegado. Uma nuvem de fumaça de cigarros flutuava junto ao forro, nublando ainda mais a débil luz das lâmpadas sujas com titicas de moscas.

Como sempre a algazarra era grande. Alguns intelectuais eram arrogantes, gostavam de falar alto, de pavonear-se, exibir-se, coisa que Ari detestava. Ele preferia a humildade e discrição. Quando possível, procurava passar desapercebido e até anônimo, mas isso era raro acontecer.

Ao vê-lo, Alvarenga exclamou: - Ah! Cá está o nosso Alves que vem nos socorrer! Só ele pode resolver esse terrível dilema.

Edgar, que era advogado, além de escritor, levantou-se e puxou uma cadeira para ele sentar-se. – Sente-se aqui e diga-nos a verdade, nada mais do que a verdade.

Com uma caneca de café na mão, Alvarenga inclinou-se para frente, debruçando-se na mesa. – Nós estamos aqui discursando o poder da palavra sobre o paladar.

Edgar fez um gesto com a mão, erguendo o rosto.- As descrições do preparo e sabor de qualquer comida, atiça minhas glândulas salivares.

Alvarenga tocou o peito de Ari com a ponta do dedo.- Você que sabe tudo, nos diga quem foi o autor da seguinte frase: Se o escritor deixar de apreciar um bom prato de comida, sua obra literária se tornará pobre.

Ari fez uma pausa, procurando se lembrar.

Edgar olhou-o de baixo para cima, observando. – Você me perece bem magro! Tem se alimentado bem?

Ari não gostou da inquirição. Tinha um tom de provocação, mas ele não disse nada.

Alisando o bigodinho, Alvarenga disse, com ar satisfeito: - Hoje comi no restaurante Fragata, salmão ao molho de alho-porro com batatas assadas e um excelente vinho branco.

Edgar ajuntou; - E eu, almocei na casa da minha madrinha. Ela me convidou para experimentar uma nova receita de costelinha de porco com creme de moranga, berinjela frita e aipim.

Desinteressado por aquele assunto, Ari perguntou: - E Januário?

- Deve estar chegando.- respondeu Alvarenga.- Mas, você não respondeu à pergunta. Quem foi que disse a tal frase?

- Honoré de Balzac. – respondeu Ari depois de breve hesitação.

Edgar bateu no ombro de Alvarenga. - Eu estava certo!

- Eu sabia, mas não lembrava.

A conversa foi interrompida pela chegada de Januário. Ele vinha acompanhado de um homem de terno e chapéu.

- Olá amigos! Este é Dorival Coutinho, meu colega da Alfândega.

Ari olhou com surpresa para o antigo e detestável amigo de infância. Januário fez as apresentações e Dorival abraçou Ari com exagerada alegria. Ao contrário, Ari manteve-se sorridente apenas para ser educado e participativo.

- Que surpresa! Fomos colegas de colégio! Esse é um grande amigo!

- O mundo é mesmo pequeno.- observou Januário.

- O assunto hoje é sobre comida. – anunciou Edgar. Dorival sentou-se ao lado de Januário. O garçom serviu mais uma rodada de café e acepipes. Edgar temperou o dele com umas gotas de rum. Alvarenga acendeu um charuto Suerdieck. Dorival inclinou-se para Januário e disse-lhe algo ao ouvido. Januário olhou para Ari e deu uma risadinha. Depois ele passou a informação para Edgar, que por sua vez sussurrou ao ouvido de Alvarenga.

Ari levantou-se. - Tenho um compromisso. Preciso ir.

- É tão urgente assim? – perguntou Edgar.

Dorival reclamou.- Agora que cheguei! Vamos conversar sobre os velhos tempos!

Mas, Ari não cedeu aos rogos dos amigos. Há já algum tempo tinha-os como “Amigo da Onça”. Antes de sair pela porta, ele ainda ouviu a injúria; Aristeu quem foi que te comeu?

Ari sentou-se em frente à sua máquina de escrever Remington e pôs-se e a datilografar.

“Bairro Bom Fim- 1949. Em uma manhã nevoenta de uma segunda-feira, a senhora Eleonora de Figueiredo seguia com sua filha Carolina de oito anos pela calçada rumo ao colégio onde a menina estudava. A rua estava deserta àquela hora da manhã. Os passos de mãe e filha ressoavam nas pedras úmidas pelo orvalho.

Ao passar por um terreno baldio, a atenção da senhora Eleonora foi despertada pelo vulto de uma mulher nua estendia no chão. Ela parou, preocupada achando que talvez a pessoa estivesse ferida e precisando de ajuda. Largou a mão de Carol e pediu para que a menina a esperasse na calçada. Dona Eleonora deu alguns passos para dentro do terreno e estacou, horrorizada quando viu finalmente, que a mulher estava morta, cortada em duas partes, o tronco separado da pélvis e membros inferiores. No lugar da cabeça haviam costurado uma cabeça de porco. A senhora Eleonora soltou um gemido de angustia, deu meia volta e saiu correndo. Sempre segurando a menina pela mão, ela seguiu pela rua, até que encontrou um telefone e ligou para a polícia”.

Ari parou de escrever. Ele queria escrever uma história baseada no assassinato de Elisabeth Ann Short, a Dália Negra, mas a inspiração novamente se esvaiu. Sentia-se magoado, derrotado. Aquilo era uma tortura.

Pegou um lápis, levantou-se e dirigiu-se para a janela. Desenhou um homem enforcado pendurado por uma corda num dos galhos da árvore na praça. Depois, com raiva, rasgou o papel. Antigamente ele podia ver a praça ali da janela, mas em nome do progresso alguém a destruiu para construir um bazar. Havia uma parede cinzenta, bem em frente da sua janela, obstruindo a visão.

Aristeu Alves sentia-se cada vez mais sufocado.

****

Jantar Para os Deuses do Olimpo

Na quarta-feira de tarde, Ari mandou um recado para Alvarenga, Edgar e Januário, convidando-os para jantar com ele no apartamento. Disse que era o seu aniversário e ele resolveu fazer um jantar especial. Os amigos aceitaram o convite.

O apartamento era pequeno, mas Ari conseguiu arranjar lugar e cadeiras para todos. A mesa estava muito bem decorada. Havia uma travessa com macarrão salpicado com queijo ralado e uma forma com carne assada. Os três convidados chegaram juntos. Cada um deu um abraço em Ari entregando-lhe os presentes.

- Achei que o seu aniversário era em março. – disse Edgar.

Ari foi colocando os pacotes sobre uma cômoda. - É que meu pai demorou alguns dias para me registrar no cartório e o escrivão não colocou a data certa.

- Não vai olhar os presentes? – indagou Alvarenga.

- Depois. Não vamos deixar a comida esfriar.

- Você convidou o Dorival? – perguntou Januário.

- Sim, ele disse que viria.

- O cheiro está gostoso! – comentou Alvarenga, sentando-se.

- Minha tia Eleonora me deu a receita.

Ari colocou uma garrafa de vinho do porto sobre a mesa e tirou a tampa da forma. Uma pequena nuvem de vapor escapou para o ar e os três homens salivaram ao sentir o cheiro da carne assada. - Lombo de javali com molho de mostarda e especiarias.

- Vai ter bolo? – perguntou Edgar enchendo o cálice de vinho.

- Claro! Torta de pêssegos, que minha tia fez. Está na geladeira.

- É a que mais gosto! – exclamou Alvarenga, cortando um naco de carne.

****

O jantar estava acabando. Na forma não restava mais nada, a garrafa de vinho ficou vazia. A conversa esmoreceu. Os três homens estavam sonolentos. Edgar queria levantar-se para ir ao banheiro, mas não conseguiu.

- Estou zonzo!

Ari tinha comido apenas o macarrão e nem tocou no vinho. Levantou-se.

- Então, vocês gostaram da comida?

- Muito boa. Os cogumelos estavam gostosos. – respondeu Alvarenga com a língua meio enrolada.

- Agora vou lhes trazer a sobremesa.

- Não consigo comer mais nada. – queixou-se Januário, as pálpebras caídas, a cabeça meio pendida para o lado. ­- O que você colocou nessa comida?

Ari foi à cozinha e logo voltou com uma bandeja que ele colocou no meio da mesa. Na bandeja estava a cabeça de Dorival Coutinho.

- Como vocês podem ver, o Dorival foi o primeiro a chegar. Aliás, o que vocês comeram não foi lombo de javali, foram as nádegas e os culhões dele, assados no forno com alho e cebola.

Edgar revirou os olhos, tentou se levantar e vomitou sobre a mesa. Januário caiu para trás inconsciente e Alvarenga tombou o rosto sobre o prato com restos do molho.

****

Roedores Famintos

Quando Edgar recuperou os sentidos, viu-se sem roupas, deitado no chão com pés e mãos amarrados e a boca amordaçada. De um lado estava Januário e do outro, Alvarenga. Todos os três também despidos, amarrados e lambuzados com molho do assado. Ari Alves estava parado na porta da cozinha. Aos seus pés havia uma caixa de madeira e da caixa saiam sons estranhos. Ele esperou os outros dois amigos acordarem.

Edgar ergueu a cabeça para olhá-lo. Aristeu Alves disse:

- Vocês estão se perguntando por que estou fazendo isso. Porque vocês são traiçoeiros. Porque são pedantes, presunçosos e fingidos. Dorival era o pior de todos os amigos que eu tive. Ele não me respeitava. E vocês acharam graça do que ele dizia a meu respeito.

Ari deu um pontapé na tranca que mantinha a tampa da caixa fechada. A tampa tombou para frente e ele encaminhou-se para a porta. Antes de sair, pegou uma câmara fotográfica Leica, que estava sobre a cômoda, voltou-se e ficou olhando as dezenas de ratos saírem da caixa e se espalharem por todos os cantos. Alguns deles sentiram o cheiro almiscarado espalhados pelo corpo nu dos três homens.

Seus gritos foram abafados pela mordaça. Quando os primeiros ratos começaram a roê-los, Ari tirou algumas fotos e depois saiu, trancando a porta. Sentou-se na escada e acendeu um dos charutos de Alvarenga. Em seguida pegou uma fotografia do bolso do paletó. Na foto, estava Dorival Coutinho. Sem roupas, ele estava coberto por formigas cabo-verde, sentado no chão e apoiado numa parede da velha fábrica de sabão. No lugar da cabeça dele, Ari havia costurado uma cabeça de porco.

Aristeu Alves, aliás, Ari Alves desistiu de ser escritor para ser fotógrafo profissional. Imaginou suas fotografias surrealistas sendo expostas numa galeria de arte. Inspiração e ideias para compor as fotos não faltava. Soltou uma baforada de fumaça do charuto e sorriu, satisfeito.

FIM

9 de Setembro de 2020 às 16:10 0 Denunciar Insira Seguir história
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