antonio-stegues-batista Antonio Batista

Danilo Giordano é um artista plástico em crise sentimental e profissional. Em um passeio pelo campo, ele encontra uma pintura escondida nas ruínas de um casa. Fascinado pela imagem, ele saiu em busca da autora. Mas ela não é uma mulher qualquer. Danilo descobre um segredo horrível e o final da história é ainda mais aterradora.


Horror Horror gótico Todo o público.

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A CABEÇA DA MEDUSA

Tive duas decepções no mesmo dia. O comentário da crítica de arte, Violeta Gilliard, na revista Acrópole, me arrasou. À tarde, Joyce completou a desgraça, quando nos encontramos na cafeteria. Eu estava lá, sentado no nosso canto predileto, relendo o artigo da Gaby, quando ela chegou e nem me deu tempo para pedir um café. Sentou-se e largou a bomba.

─ Acho melhor dar um tempo em nosso relacionamento, Dan.

Fiquei calado por alguns instantes, decifrando a mensagem. ─ Está querendo terminar o nosso relacionamento, porque está gostando de outro homem?

─ Não é nada que você está pensando. Você mudou muito de uns tempos para cá. Não aguento mais!

─ É que eu ando irritado com os comentários da Violeta Gilliard. Veja o que ela escreveu. – abri a revista na página do artigo e li: ─ “Danilo Giordano nos apresentou uma pintura completamente insipida, medíocre. Suas obras parecem rabiscos de criança, sem formas, sem nem mesmo uma linguagem figurativa. Danilo Giordano regrediu ao primitivismo “. É claro que não gostei dessa crítica e até estou pensando em parar de pintar, tamanho é o meu desgosto.

─ Não, não! Há tempos que você mudou. De romântico, sereno, atencioso, foi se tornando rude, irritado e violento...

─ Nunca fui violento com você, Joyce!

Ela se levantou, empurrando a cadeira para trás. ─ Vamos dar um tempo. Eu vou viajar.

─ Viajar? Sozinha? Para onde?

Joyce simplesmente meneou a cabeça e foi embora. Fiquei lá, olhando para a porta por onde ela desapareceu, sem forças e coragem para ir atrás. Mesmo que eu fosse, não iria adiantar. Quando Joyce tomava uma decisão, não tem nada nesse mundo que a faça desistir.

***

O barulho de carros e pessoas na rua, atravessava as paredes. Martelava meu cérebro. A cabeça doía, pulsava. Me levantei da cama, fui ao banheiro pegar um analgésico no estojo. Não queria pensar em Joyce, tampouco me preocupar com a crítica destrutiva de Violeta. Naquele instante decidi me mudar para um lugar tranquilo. Aluguei uma cabana no meio de um bosque, achando que em contato com a natureza, pudesse ter boas inspirações para pintar e esquecer Joyce.

Era um lugar sossegado onde eu ficava sentado na varanda, escutando o farfalhar das folhas sacudidas pelo vento e dos galhos estalando lá no alto. Ocasionalmente um pássaro cantava. Descansava algum tempo, bebericando meu Martini e depois voltava ao trabalho. Pintei uma série de telas inspirado na mata e seus sons, imaginando seres fantásticos nos recantos sombrios, personagens noturnos vagando por trilhas escuras. Tentei construir uma linguagem figurativa de que tanto Violeta falava.

Telefonei para Douglas Barney, proprietário da galeria de artes, Cosmos Arte e mandei uma foto das obras. Douglas ficou entusiasmado com as pinturas, ele era um expert, sabia reconhecer um bom trabalho, sabia quando podia ganhar uma boa porcentagem. Afirmou que uma exposição seria bastante lucrativa. Disse para nos reunirmos no escritório dele para tratarmos de todos os detalhes da exposição.

Antes de encaixotar os quadros e leva-los para a cidade, resolvi dar uma caminhada de manhã cedo, como fazia todos os dias. Naquele dia algo estranho aconteceu. Caminhava eu por uma trilha, quando avistei alguém entre as árvores. Era uma mulher jovem, usando um vestido bege e uma correntinha com uma pedra verde, no pescoço. Cumprimentei-a.

- Olá! Bom dia!

Ela esboçou um sorriso, acenou com a mão, pedindo que a seguisse. Fiquei meio desconfiado, achando que estava para cair numa armadilha. Com cautela a segui. Ao chegar naquele ponto, procurando por ela, avistei as ruinas de uma habitação numa clareira. As paredes fuliginosas que restavam em pé, indicavam que houve um incêndio no local. O teto havia desabado com o fogo. Como não vi mais a mulher, resolvi voltar e foi quando notei algo brilhante numa fenda entre a lareira e a parede.

Era uma correntinha de ouro, com um pingente verde. Havia algo mais na fenda. Meti o braço e puxei devagar. Era uma pasta de couro marrom, coberta de poeira e teias de aranha. Dentro, havia dois quadros pintados à óleo, uma era de uma mulher jovem, muito bonita, os cabelos presos num coque com alguns fios soltos, emoldurando o rosto. Usava no pescoço aquela mesma corrente com a pedra verde. E era a mesma mulher que eu vi na mata ainda há pouco.

Fiquei intrigado. Seria o fantasma da mulher que me guiou até ali para encontrar aqueles objetos? O nome da autora no canto direito das duas telas, era o de Isadora Rochester. Na segunda tela, a figura, completamente o oposto em termos de estética, era a Medusa, personagem da mitologia grega. A autora usou uma técnica diferente, iniciou com pincelas leves e imprecisas, progredindo em traços fortes, compactando-se para o centro, para o rosto da criatura, os olhos como brasas vivas, as serpentes em sua cabeça se agitando ameaçadoras.

***

Naquela noite pesquisando na internet, informações sobre Isadora Rochester. Ela nasceu na França. Aos 25 anos, casou-se com Felipe Danglars, um comerciante de arte. Felipe morreu no ano seguinte, num incêndio ocorrido na casa onde moravam. Dizia-se que o casal pertencia a uma sociedade secreta, uns achando que era os Illuminati, outros, que era uma associação de magos e feiticeiros. Isadora escapou do incêndio por milagre, com alguns ferimentos apenas. Depois da morte do marido ela mudou-se para o Brasil. Parou de pintar em 1998, quando ocorreu um incêndio em sua mansão. Incapacitada, sofrendo com o mal de Alzheimer, seus bens passaram a serem administrados pela sua sobrinha, Gabriela Souza Aguiar da Silva.

Uma pergunta me ocorreu. Seria Isadora, a mulher que eu vi na mata? Em carne e osso ou seu espírito. Já haviam se passado muito tempo desde que ela chegou ao Brasil. Seria uma idosa, agora.

Resolvendo entregar os pertences a ela, telefonei para a sobrinha.

─ Alô?

─ Valéria Souza Mainardi?

─ Sim.

─ Aqui é Danilo Giordano. Achei alguns objetos valiosos na antiga propriedade em que Isadora Rochester, morou.

─ Pelo que eu sei, a casa pegou fogo e não sobrou nada lá.

─ Tinha uma coisa escondida. Eu aluguei uma cabana lá perto e foi por acaso que a encontrei. Eu queria marcar um dia para ir aí entregar os objetos.

─ Pode vir amanhã à tarde? Depois das 16 horas. Isadora costuma dormir um pouco depois do almoço.

─ Combinado.

***

Valéria morava num condomínio fechado. Me identifiquei na portaria logo depois fui autorizado a entrar. Minutos depois, bati na porta da casa, uma construção luxuosa de dois pisos.

A porta se abriu e eu fiquei surpreso ao ver diante de mim, Violeta Gilliard. Ao perceber meu espanto, ela esboçou um sorriso. ─ Violeta Gilliard é um pseudônimo.

Me senti desconfortável. Ela deveria saber que eu comecei a detestá-la depois daquela opinião negativa sobre minhas obras. Fez um gesto para eu entrar. Entrei e fui logo me sentando num sofá. Coloquei a pasta ao lado enquanto ela se acomodava em outro assento.

─ Danilo Giordano. Eu fiz críticas pesadas sobre as suas obras. Espero que não esteja ressentido.

─ Fiquei sim, um pouco magoado, mas aquilo me incentivou a aperfeiçoar o meu trabalho. Pintei alguns quadros e recebi uma opinião positiva de Douglas Barney. Ele vai me colocar numa exposição da bienal desse ano. Ele disse que vai convidar apenas conhecidos para a vernissage. Lamento dizer que você vai ficar de fora ─ procurei ser o mais arrogante possível, mas Valéria não se perturbou.

─ Que ótimo! Parabéns. De qualquer forma, eu queria escrever um artigo sobre você, para exaltar essa sua nova fase. Depois da bienal, é claro.

─ Tudo bem.

─ O que você trouxe para minha tia?

─ Posso conversar com ela?

Valéria saiu da sala e voltou logo depois com uma idosa numa cadeira de rodas. ─ Você deve saber que ela está com amnésia, provavelmente Alzheimer e talvez permaneça calada e alheia a qualquer coisa que você diga.

Não me surpreendi com a aparência da mulher, pois já haviam se passados muitos anos desde a época em que a tela foi pintada. Olhando para seu rosto, via resquícios da antiga beleza retratada na pintura. Os cabelos, agora grisalhos, opacos e secos caindo sobre os ombros, o rosto enrugado precocemente, lhe davam uma aparência de mais idade. As mãos pousadas sobre o cobertor que cobria suas pernas tinham cicatrizes, talvez provocado pelo incêndio. Ela permanecia de olhos fechados, a cabeça recostada no encosto. Notei manchas roxas nos braços e numa das faces. Fiquei desconfiado que a sobrinha batia na tia.

Valéria inclinou-se, falando suavemente.

─ Tia, tem alguém que quer conversar com a senhora. O nome dele é Danilo Giordano. Ele também é pintor. Ele disse que tem uma coisa para devolver à senhora.

Isadora abriu os olhos e ao ver a sobrinha, soltou um gemido e ergueu os braços como que para se defender.

─ Calma tia. Foi apenas um sonho. A senhora tem visita.

Dizer que a tia teve um sonho, não me convenceu. De qualquer forma, peguei a pasta, tirei as duas telas e as exibi. Isadora permaneceu olhando para a sobrinha. Valéria examinou as pinturas com admiração e assombro.

─ Essa é ela? Isadora pintou um autorretrato? Eu não tinha conhecimento disso! Conheci todas as obras dela, mas esses duas não estão na relação. Essas telas superam tudo que ela fez. Onde estavam?

─ Escondidas numa parede. Por isso escaparam do incêndio.

A mulher tirou dois quadros da parede, pendurou as pinturas no lugar e ficou admirando o contraste visual entre as duas obras. De um lado, a beleza, a harmonia das formas e cores, do outro, a beleza rude do horror.

Enquanto ela observava as telas, coloquei nas mãos de Isadora, a correntinha de ouro com a pedra de esmeralda verde. Gaby voltou-se, com um meio sorriso no rosto.

─ Vou pedir a um perito examinar a autenticidade dos quadros. Se são obras mesmo de Isadora, e não falsificações, naturalmente eu lhe darei uma boa recompensa. Além, é claro, de exaltar a sua nova fase, o que anula praticamente aquele comentário negativo que eu fiz. É isso que você quer, não é? Em troca dos quadros?

Como curadora de Isadora, Valéria seria a única beneficiada com a venda dos quadros. Percebi na expressão dela, a cobiça, o triunfo. Eu não podia fazer nada quanto a isso. O que sentia era o dever, a necessidade de devolver aqueles pertences a Isadora Rochester. Mas como eu comecei a desconfiar que Gaby maltratava Isadora, decidi reter os quadros.

─ Que manchas são essas nos braços de sua tia?

Valéria mudou de atitude. O sorriso desapareceu.

─ Ela fica agitada às vezes e se machuca.

─ Tive a impressão que ela tem medo de você. Acho que vou ficar com os quadros por enquanto. Mandarei um médico vir examinar Isadora.

Valéria ficou rígida. Percebi um rubor em suas faces.

─ Com licença – disse ela e levou Isadora para dentro.

Alguns minutos depois, voltou com algo numa das mãos. Era uma pistola. Me encolhi no sofá quando ela apontou a arma para mim.

─ Vou matar você e depois chamarei a polícia. Direi que você veio aqui para me matar.

─ Por que eu iria querer te matar?

─ Por causa daquele artigo, onde falei que és um péssimo pintor. Meu motivo é simples. Você se tornou uma ameaça. Os quadros de Isadora agora são meus e não quero você atrapalhando meus planos.

─ Você é louca!

─ Pare com isso, Valéria! ─ disse Isadora, surgindo na sala. Valéria voltou-se e ficou espantada ao ver que a idosa havia rejuvenescido como que por um passe de mágica. Voltou a ser a mesma jovem do tempo em que havia pintado o seu autorretrato. Do mesmo jeito que eu a vi no bosque. Trazia no peito a pedra de esmeralda, fonte da sua juventude, que eu, por algum motivo inexplicável, coloquei nas mãos dela.

─ Você é um monstro, Valéria! ─ exclamou Isadora. ─ Me tratou mal esse tempo todo. Você não presta, minha sobrinha.

O rosto de Isadora adquiriu uma expressão de fúria. Seus cabelos se agitaram, se enrolando transformando-se em serpentes e de seus olhos saíram raios flamejantes que atingiram o peito da sobrinha. Ela soltou um grito de dor, o corpo ficando em chamas. Mesmo assim, conseguiu apertar o gatilho, disparando sobre Isadora. As duas caíram ao mesmo tempo, as chamas se espalharam pelo ambiente, subindo pelas cortinas. Por um momento fiquei em choque, depois corri para Isadora, para tentar salvá-la, mas o calor era muito forte. Me vi cercado pelo fogo, a fumaça começou a me sufocar, meus olhos nublaram, ouvi o meu rosto chiar e caí na escuridão.

***

Quando recuperei os sentidos, me vi num quarto de hospital deitado numa cama, envolto em ataduras. A enfermeira surgiu em meu campo de visão. Tentei falar e um ronco estranho saiu de minha garganta seca. A mulher se aproximou.

─ Fique calmo, senhor Danilo. O senhor sofreu queimaduras de segundo grau. Não corre perigo de vida, mas vai precisar ficar alguns dias no hospital.

Assim, permaneci internado, a espera de uma cirurgia plástica. Com o tempo, consegui me sentar numa cadeira de rodas, ainda sem poder andar direito. O médico disse que eu precisaria de muita fisioterapia para recuperar os movimentos das mãos e das pernas. Talvez não pudesse mais agarrar um pincel para pintar. Depois de retirar as ataduras, eu tinha até medo de me olhar no espelho. Um dos olhos estava quase que completamente fechado pela pálpebra caída. Dos cabelos restavam apenas alguns tufos. As faces com cicatrizes me davam uma aparência horrenda.

Fiquei sabendo que Joyce havia ido me visitar, enquanto eu estava inconsciente. Disseram que ela chorou, ficou poucos minutos, depois foi embora, e nunca mais apareceu. Foi melhor assim. Eu já não tinha esperança de nada. Achava que eu passaria o resto de minha vida numa cadeira de rodas. Ficava assim, o dia todo olhando para as paredes, sem coragem de ver o sol.

Um dia um dos enfermeiros tocou no meu ombro e me acordou.

─ Danilo! Acorde. O senhor tem uma visita.

Mal pude abrir os olhos. Via tudo nublado. Percebi que a visita era uma mulher. Achei que fosse Joyce. Ela me deu um beijo na testa, enfiou algo entre meus dedos e depois foi embora. Senti que era uma correntinha, com uma pedra facetada. A imagem surgiu em minha mente; o colar de Isadora! Será que era ela? Coloquei o colar no pescoço. E logo me senti revigorar. As cicatrizes sumiram, os cabelos voltaram, me senti forte e bem-disposto.

Me levantei e fui ao banheiro, me olhar no espelho. Fiquei feliz em me ver sem ferimentos. Estava normal novamente, os olhos, apenas um pouco vermelhos e a cabeça dolorida. Passei a mão pelos cabelos e senti os calombos. Alguma coisa estava nascendo em minha cabeça...

8 de Setembro de 2020 às 15:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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