lyubi Lyubi

Uma brasileira no Quênia rememora um amigo querido enquanto vivencia o luto. “A morte borrou meus olhos do céu cinza e caiu na minha blusa. Eu estava de novo em Garissa e ele não estava ali. Onde ele estava?”


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#esquadrãodaescrita #esquadrão #drama #Quênia #luto
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Capítulo Único


Notas:

Escrito por moi! Não plagie, por obséquio.

Conto escrito para o desafio de Ago/2020 do Esquadrão da Escrita. O desafio era escrever com a ambientação de um país sorteado; saí com o Quênia.

Vocabulário:

Orthanc: na mitologia criada por Tolkien em “O Senhor dos Anéis”, é uma torre construída pelo povo Númenor de um material escuro e muito duro. A torre foi entregue a Saruman pelo Regente de Gondor. Orthanc na língua dos elfos significa "Monte Presa", mas na língua antiga de Rohan quer dizer "Mente Esperta".

Barbárvore: é o mais velho da raça Ent – pastores de árvores. Fisicamente é parecido com uma árvore e possui pensamento, língua e trejeitos muito lentos; sábio. Todos os Ents no universo de Tolkien são machos, pois as fêmeas (chamadas Entesposas) se retiraram para uma nova terra. Barbárvore tem esperança de ainda encontrar uma Entesposa para que sua raça não morra.

Boa leitura! ♥




Capítulo Único


Parece que vai chover. É quatro da tarde e o sol está tímido, mas o dia passou abafado e agora venta. Venta como se quisesse levantar o telhado e dar uma espiada. Venta tanto que as roupas no varal chicoteiam o ar. Chicotes de cores vivas. O céu está limpo pros lados de trás da casa, mas o firmamento é dum azul escurinho meio cinza. Pra cá da casa há um maciço de nuvem cinza claro na maior parte. Mas sei que vai chover o mundo. Por dois segundos. Depois para. O terreiro vai enlamear tudo. Melhor tirar as roupas. O cheiro de sabão é bom. O gelado do pano úmido nos braços também. As galinhas espertas já entraram no pequeno celeiro. Só umas poucas andavam de fora, como que pagando pra ver. Tudo recolhido. Ia secar na bacia e ficar amarrotado. Paciência. Limpo tava.

Sentei na mureta da varandinha. Pernas cruzadas no tornozelo. O vento às vezes vinha e quase me derrubava. Fazia tanto silêncio. E era ruidoso o vento nas árvores e na cerca de arame e os grilos e sapos e as folhas no chão e o mugir de uma vaca lá longe, e era o rio aquele borbulhar constante, baixinho?

Quando vim aqui pela primeira vez era só barulho e risaiada. Gente entrando e saindo da casa minúscula, gente chegando e saindo de carro, correndo pra matar uma cabra, pra comprar um refresco, pra chamar o vizinho. Era um grande evento. O filho prodígio de Nasra estava em casa. Tinha voltado do Brasil. Universitário. Um engenheiro.

O calor me enjoava, os mosquitos cercavam como se a gente fosse bicho. Acho que nunca me senti tão bicho. Um bicho que ria e sorria. Ria do chão de terra batida, ria das roupas simples e muito coloridas, ria do riso, da mãe, da avó, das crianças, ria e ria e ria. Ria de felicidade pura e genuína. Tão feliz. Eu era tão nova. Nunca mais senti aquela emoção. Aquela intensidade e plenitude. Nunca mais. Nunca mais fui aquela menina. Pequena até entre as mulheres pequenas da família. A minha altura não mudou, mas toda eu mudei. Toda eu mudei. Toda eu.

Os primeiros pingos caem como pequenos cometas líquidos. O som é como de tiros no telhado de lata. Quero me encolher a cada pingo. No quintal, eles afundam no chão de terra levantando a poeira fina. Logo os poucos pingos se tornam muitos e meus ouvidos acostumam ao ataque uniforme. Vejo-os vir na diagonal. O beiral da varanda me protege por enquanto. O silêncio ruidoso cresce e se assenta. O cheiro é de terra lavada e algo mais profundo, talvez seja o cheiro da chuva na floresta logo aqui do lado.

Não me lembro do cheiro dele. Lembro que não usava perfume. Um dia perguntei. Homens cheiram forte debaixo do braço. Sem embaraço ele me falou da receita caseira da avó e no outro dia me entregou uma folha com a receita transcrita. Disse que eu acharia os ingredientes complicados na Liberdade. Se eu queria que ele me levasse lá? Não, mas é claro que sim. Por que muito antes de virar a bacia de boca pra baixo eu a já a tinha tombado com o pé. Tão novinha.

Não era tímida, mas tinha uma coisa em não conseguir olhar no rosto dos outros. Dava-me coceira quando me olhavam por muito tempo. Um dia falei isso pra ele. Ele riu. Ameacei dar-lhe um soco. Riu de novo. Ele disse que eu era encantadora. Quem falava para outra pessoa que ela era encantadora? Nem quem inventou a palavra teria coragem de atirar assim à queima roupa. Perguntou se eu aguentava olhar pra mão dele. Olhei. Tinha unhas lindas. Falei. A pele dum tom tão escuro que parecia preto se olhasse rápido. A mão era longa, grande e o osso próximo ao dedão bem marcado, a palma era clara, muito branca, gordinha abaixo do polegar e na outra extremidade também. Estávamos no refeitório da faculdade. Ele estava livre e eu cabulando uma aula. Fiquei um tempão, a cabeça deitada na mesa olhando sua mão pousada especialmente para mim. Com a outra ele lia um livro do obtuso curso de arquitetura.

Sempre imaginei que arquitetura era para desenhistas, mas desenho propriamente dito não o interessava tanto. Ele gostava de formas e da construção, fazia engenharia, mas pretendia cursar uma segunda graduação em breve. Ah, as unhas! Naquela mão negra de dedos longos e uniformes as unhas pareciam um novo tipo de inseto. Eram esbranquiçadas, meio azuladas na raiz e tinham uma forma longa e curva tão bonita. Como a casca de um besourinho achatado. Ele as cortava rentes, mas com uma margem perfeita. Muito asseado como sempre.

A chuva se acalmou, mas não diminuiu. Continua caindo e caindo e vez ou outra o vento sopra pra cá e faz uma goteira da calha vir bater na minha testa. A tarde escureceu por causa da chuva e esfriou. Os pelinhos dos meus braços estão competindo pra ver quem aguenta ficar mais em pé, não sei quem está ganhando.

Sei que a casa está vazia a não ser pela mãe Nasra que chorou muito e agarrou a roupa do morto e caiu no chão numa cena de uivo e ranho. Aí o irmão doutor medicou e mandou alguém levar para casa. A filha mais velha dirigiu. Vim pra que ela pudesse voltar. Olhou-me com o olho cheio. E pensar que era a que menos me gostava e fazia gracinha pro irmão morrendo de ciúme da namorada branca e nunca falava inglês comigo só suaíli por que sabia que eu não entendia e brigava com todo mundo por minha causa.

Mas eu era tão jovem e sentia tanto de não conseguir agrada-la... Ele amava tanto a irmã, então eu a amava demais também e sofria como namorado rejeitado quando ela me rejeitava. Mas agora ela está velha e mais mulher e mais mãe. E ele não ama mais ela. Nem eu. Então posso finalmente ser um ser na frente dela. Não preciso ser amável. E ela me ama. E amo a mãe que agora dorme de remédio. E estendi as roupas no varal mesmo sabendo que ia chover só pra não ficar mais tão sozinha numa casa que não é minha nem me traz nada de volta.

O céu está tão cinza. Achei que ia parar de chover. Chuva de verão. Mas por mais que pareça o Brasil, aqui não é o Brasil. E a chuva de cá não tem obrigação de passar logo só por que é de verão.

Nenhum carro vem.

A mão virou braço num dia. Longo antebraço. Veias saltadas. Na época me deu água na boca e não entendi. Cotovelo ossudo. Braço longo, músculos longos. Ombros largos. Peito forte. Pescoço longo. Pele de alabastro. Orthanc*. Um dia disse a ele que ele devia ser feito do mesmo material que a torre de Saruman. Mas eu ainda não tinha olhado em seus olhos então não sabia. Não sabia que ele era como Barbárvore*. Foi só muito tempo depois, quando percebi todas as coisas, que percebi isso também. Aquele homem longo e quieto de riso fácil e fala lenta era um guerreiro africano que guardava a Sol e criava raízes e era as raízes e as tornava únicas e as libertava como filhotinhas nos corações dos homens com quem falava, tocava, cruzava. Guerreiro da Sol. Estávamos em São Paulo, para mim por que a capital é sempre mais evoluída e para ele por que outro país era sempre mais evoluído, e éramos tão jovens.

Eu era tão triste. Mais triste ainda por que não conhecia minha tristeza. E ele era tão manso como sol que te banha de manhã e te lambe a face e te fustiga as costas e te beija o corpo. Quando me dei conta, seus olhos Entianos olhavam para mim e me viam toda. Viam todo meu caminho sôfrego até sua mandíbula proeminente e seus lábios grossos e seu nariz achatado e seus olhos felinos e suas pestanas e as sobrancelhas grossas que quase sumiam na cara preta e seu rosto quadrado e seu cabelo raspado e sua orelha grande com brinco de argola. Quando consegui olhar nos seus olhos escuros e profundos vi dentro de mim aquilo que me deixou louca de vergonha e prazer e surpresa. E sabia que ele via tanto quanto eu. E que talvez tivesse visto tudo muito tempo antes da mão. Ele sempre soube aquilo que eu nem tinha imaginado ainda. Ele soube inclusive quando ia morrer.

A morte borrou meus olhos do céu cinza e caiu na minha blusa. Eu estava de novo em Garissa e ele não estava ali. Onde ele estava? Voando, claro. A resposta idiota vinha sempre antes de mim. Era idiota por que não era verdade. Bom, a verdade é que pessoas não voam. Pessoas vivas não voam então talvez a verdade seja que pessoas mortas voassem.

A viagem foi uma loucura, mal tínhamos dinheiro para as passagens, mas minha mãe fez questão... Tão estranho que ela tenha gostado dele... Afinal o português era péssimo, mas eles passaram horas conversando na cozinha de casa lá no meu interior querido. E ela gostou dele; educado, manso, bravo. Mesmo uma cristã ferrenha, aceitou outra família meio islâmica meio mística.

Então pousamos em Nairóbi, Quênia. Podíamos ter pegado um voo para Garissa, mas seu tio fez questão de nos buscar de carro. Seis horas de viagem, mas de graça. Saímos do aeroporto às cinco da manhã, tomamos café com o tio num lugar barato, não lembro o gosto, mas lembro que era gostoso. A capital do país nem se comparava a São Paulo. As ruas não tinham calçadas, havia muita gente pobre em contraste com prédios robustos... Sam não parava de falar e falava tão rápido! Mas eu bebia tudo que ele dizia como se fosse água duma cachoeira. Ele que era tão manso estava agitado e alegre. Narrava toda a viagem.

Passava por essa rua quando ia pra Universidade de Nairóbi. Aqui tem um churrasco muito bom, nyama choma. Uma vez fui assaltado ali.

E demoramos a sair do perímetro urbano, muitas casas na beira da estrada. Eu não entendia o que o tio falava mesmo quando ele falava inglês, mas seu rosto era muito expressivo e carismático. Então em Kilimambogo começaram as plantações, eu fiquei mais confortável, pois me lembrava da paisagem nas rodovias paulistas, passamos dentro da cidade de Matuu, a cantilena de Sam se confundindo com a música pop no rádio do carro. Amina, da Sana Tande, é uma tão chiclete que eu conseguia ouvi-la na minha cabeça dias depois. Havia montanhas e morros em alguns momentos. A partir de Mwingi tudo pareceu mais desértico, árido, a cor do mundo mudou pra marrom, mostarda. Passamos por Bangali, Madogo e finalmente Mororo. De Mororo atravessamos a ponte do rio Tana e entramos em Garissa. A mãe mora na entrada da cidade, ao sul do rio, numa área quase rural já que a avó e o tio plantavam e vendiam.

Balanço a cabeça, fungo o nariz, enxugo o rosto com a camisa. A chuva estava passando. Como previsto, o terreiro, um lamaçal. Tiro o tênis e as meias. A água lodosa estava fria e me deu a sensação de que meus órgãos tinham dado cambalhota dentro da minha barriga. Engoli e fui andando para o canto onde tinha um declive enfiando os pés e sentido a maciez do barro. O resto de chuva, meio boba, pingava no meu cocuruto. Mexi os pés cheios de barro e me deixei ficar.

Queria dizer que eu seria a Entesposa perfeita para meu guerreiro Barbárvore, mas eu não era. Era teimosa e esquisita e egoísta. E Samalekt era tão jovem quanto eu e tinha ajudado a criar uma ONG para pessoas carentes. ONG que ganhou seu nome depois da morte por que morrer faz isso. Subtrai nossos pecados e eleva nossas glórias. A morte não é tão ruim. Para quem já morreu. Enquanto estivermos vivos somos apenas um corpo errante que talvez tenha a sorte rara de se sobressair. Talvez não. Mas a morte é cheia de louros para quem vai. Sinto-me tão velha e nem faz dez anos desde a última vez que estive aqui. Mas sei que envelheci. Principalmente o coração.

Respiro fundo e como minha terapeuta ensinou presto atenção ao ar que entra pelas minhas narinas e atravessa minha laringe e infla meus pulmões e minha barriga. Depois esvazio tudo duma vez num grande “A” que dura meio pornográfico até o ar acabar. Não estou triste. Justo hoje. Sinto meus pés afundados na lama que já esquentou com meu próprio calor. E me sinto quase feliz. Por não ser mais aquela menina de oito anos atrás. Por estar viva e estar aqui e estar com um frio gostoso. Pela família ter-se lembrado de mim quando a avó morreu. Lembraram-se de que ela arrastou os olhos quase cegos para o meu rosto e me chamou de Mwezi. Lembraram-se de que ela me aceitou na família e me chamou de guerreira do Lua. Eu me sentia tão brava naquela época, mas por todos os motivos errados. Hoje ainda me sinto brava, mas as cicatrizes tornam-me humana; nada de bronze, nem mármore. Eu sou uma guerreira humana. E o Lua que me guarde, Ele sabe o quanto preciso.

Aquela única vez em que estivemos aqui juntos... Tanta felicidade que parecia pegar fogo no calor úmido do meio-dia. Tantas histórias, tantos rostos, tanto sofrimento, mas tanto amor... Tanta alegria.

Aos poucos o céu parece que vai abrir. Já vejo o firmamento azul escurinho acinzentado. Mas acho que não vou estender as roupas no varal. Se respingar lama nos panos não há entendimento que faça a irmã largar meu pescoço. E ela é mais forte. Fisicamente.

Fisicamente Sam e eu nunca nos conhecemos. Casar-nos-íamos virgens, pois é o costume da avó da avó da avó. E o olhar de Sam me dizia que não precisava descobrir meu corpo quando já tinha todos os segredos da minha alma. Eu não achava certo nem errado. Só nunca tinha desejado ninguém e sabia pelo olhar de Sam que estava tudo bem. Sam me beijava da mesma forma que falava. Lento, suave, brincalhão e respeitoso. Todo ele era respeito e entrelaçar de dedos e unhas de besouro e cheiro limpo e olhar demorado.

Eu não sabia quem eu era. Mas já era insuportável. Menos com ele. Na verdade eu tentava tirá-lo do sério, mas ele me ouvia e ouvia e no final dizia: qual é problema de verdade? E então eu chorava e percebia que a dor era mais profunda do que me permitia mergulhar. Mas ele sabia o quão funda eu era, tinha raízes para isso.

O vento soprou, agora frio de verdade, e eu arrepiei, depois um calafrio me sacudiu e senti o cheiro da folhagem em volta. Cheiro da noite que caminhava devagar nesse pedaço de mundo. Fui até a lateral da casa onde tinha uma torneira e tirei o grosso do pé. Olhei as rosinhas miúdas ali perto. Os sapos voltaram a coaxar e os insetos a grilar. Voltei para dentro da casa. Amanhã de manhã já voltaria para o Brasil.

31 de Agosto de 2020 às 14:00 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lyubi Prazer, Bárbara! Adoro a escrita, a leitura e o conhecimento em geral. Não me considero uma autora, mas gosto de colocar no papel as coisas que me vem à cabeça. Fique à vontade! Também estou no Nyah! https://fanfiction.com.br/u/267748/ E no Spirit https://www.spiritfanfiction.com/perfil/lyubi

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