cherrycookie Cherry Cookie

"Quando havia se deixado submeter às rainhas de copas da vida, se perder por entre as portas de suas escolhas e diminuir em meio ao falso espetáculo da vida das pessoas grandes?" Nada como um coração partido para ensinar à Alice as dores de adultescer.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#378 #romance #lésbico #wonderland #país-das-maravilhas #alice
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Adultescer

Não acreditava no que via. Queria jamais ter testemunhado tal.

Correu com lágrimas nos olhos até a macieira mais próxima, não se importando em sujar o longo vestido verde com terra e grama e rasgar seus babados e rendas nos galhos secos jogados em meio ao campo.

Com os polegares, secava as gotas de tristeza e remorso que escorriam de seus olhos, esquecendo-se da maquiagem que lhe cobria a cara, borrando ali o pó cor de pêssego em sua pele e o blush cor de morango que lhe coravam as maçãs do rosto.

Nada mais importava. Não queria ser bonita e muito menos uma dama. Queria morrer.

Recostou-se ao velho tronco sujo da árvore e colocou as mãos no rosto, em plena angústia. Ainda não aceitava, ainda forçava sua mente a apagar aquela cena de sua memória. Já possuía lembranças dolorosas demais em sua cabeça, por que o mundo queria somar mais uma a estas?

Porém, mesmo com os esforços, ainda podia enxergar vividamente o ocorrido a sua frente: Havia visto seu único amor de toda a vida beijar outra pessoa.

Seu coração doía.

Agora tinha certeza: Não importava o quanto esta cuidasse do cabelo, nem que vestisse as roupas mais belas e caras, e muito menos que caprichasse no batom de cereja, de nada iria adiantar.

O coração de sua amada jamais seria seu.

Alice jamais seria capaz de beijar os doces lábios de Helena, ou de entrelaçar seus dedos em meio aos fios negros da garota, desfazendo seu típico coque.

Os olhos cor de mel esverdeado da garota já pertenciam a outra pessoa: Um rapaz.

Helena gostava de garotos.

Alice gostava de Helena.

Aqueles fatos lhe doíam o coração.

Chorou até que não sobrassem mais forças em seus olhos azuis e até que as lágrimas manchassem seu vestido de algodão.

Queria jogar-se do precipício mais alto, e de preferência, cair em meio a pedras pontiagudas.

Quando a sua vida havia se tornado aquilo? Se transformado em um jogo de cartas da qual sempre saía perdedora?

A culpa não era sua, no fim das contas. Tinha problemas com copas e valetes desde o dia em que um exército a havia ameaçado cortar a cabeça. Talvez não os soldados, mas a rainha furiosa e vermelha que os comandava.

Quando havia se deixado submeter às rainhas de copas da vida, se perder por entre as portas de suas escolhas e diminuir em meio ao falso espetáculo da vida das pessoas grandes?

Quando havia deixado sua própria carta de coração desmanchar em meio às lágrimas da Alice gigante e adulta?

Queria voltar a ser criança, para sonhar com céus cor de algodão doce e gatos risonhos de pelo brilhante, com quem podia conversar sobre personagens imaginários sem se preocupar com as dores do “adultescer”.

Será que Helena também pensava daquela forma? Será que ela também queria se perder em um mundo imaginativo e glorioso, e brilhar em meio às rosas brancas como leite do castelo? (Se bem que seria ela quem iluminaria as tais com sua pele de caramelo.)

Nunca saberia responder, assim como Helena jamais conheceria o país de maravilhas que Alice lhe poderia proporcionar, nunca podendo ser capaz de dançar a doce valsa maluca sobre os pisos impecáveis de mármore.

Mas Alice sim. Alice poderia visitar aquele mundo quantas vezes quisesse, quando quisesse.

O mundo era seu, e os riscos também.

Levantou-se e caminhou, até que chegasse a uma grande e morta árvore, que se encontrava distante de qualquer outro humano.

Olhou para o buraco cheio de raízes no chão, arrepiando-se ao sentir o cheiro de jasmim e de chá de canela no ar.

Sorriu. Sabia que ele já estava sentado à enorme mesa, rindo enquanto bebericava da xícara de porcelana e brincava com os cubos de açúcar que se encontravam a sua frente, apenas a esperar a garota, para que pudessem trocar gargalhadas e abraços.

Sem pensar duas vezes, pulou.

Sentiu seu corpo doer em formigamento à medida que este se transformava em inúmeras pétalas de uma flor vermelha como sangue, em uma cena digna de uma obra expressionista. Desta vez, sabia que não mais voltaria ao fétido e podre mundo real.

Pela primeira vez, não partiu atrasada, mas sim, cedo demais.

25 de Agosto de 2020 às 22:29 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Cherry Cookie A menina que ama aliens e histórias de terror. Odeio escrever bio.

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