esternw Ester Cabral

O Doutor planejava mais uma vez levar Clara para Las Vegas. Ao contrário da última vez, em que foram parar dentro de um submarino soviético, ao menos estavam no estado certo e na época certa. Não querendo perder viagem e se juntar à diversão que vazava daquela lanchonete, os dois resolveram aproveitar que estavam naquele subúrbio de Sacramento, na Califórnia. Como nada era simples com o Doutor, boatos de uma misteriosa criatura ameaçava a noite de diversão, assombrando os arredores daquela típica lanchonete dos anos 50.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Todo o público.

#aventura #doctor #doctor-who #clara-oswald #Califórnia #anos-50 #11th-doctor
Conto
0
593 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Único

Olá, meu povo!
Bem, eu achei que essa one nunca veria a luz do dia, já que estava no meu drive desde setembro do ano passado, mas nada que umas mudanças não resolvam xD
Boa leitura ;)

XXX

A cabine telefônica materializou-se aos poucos no estacionamento lotado, parando, por um milagre, exatamente em uma das poucas vagas vazias. A mistura de música e risadas altas não deixou ninguém perceber o ruído característico da Tardis. Pouco importava, pois não havia viva alma do lado de fora além de veículos.

A porta da cabine se abriu e Clara colocou o rosto do lado de fora, franzindo as sobrancelhas. Saiu, pondo as mãos na cintura.

— Nós não estamos em Vegas, de novo — reclamou para o Doutor, que acabava de ir para o lado de fora, trancando a porta em seguida.

Ele respirou fundo, torcendo o nariz ao sentir o odor de poluição pelo ar.

— Subúrbio de Sacramento, Califórnia. — Lambeu a ponta do dedo indicador, erguendo-o na direção do vento. — 1955. Acertei o ano dessa vez! — ele comemorou com um sorriso largo e Clara manteve-se de braços cruzados.

Esperando ir para a década de 50, ela acabou optando por um visual da época, utilizando uma combinação de blusa preta e saia acinturada de tweed, alguns centímetros acima dos tornozelos. Os cabelos estavam em um penteado típico, elevados na parte de trás por laquê e adornados com uma tiara da mesma cor da blusa. O Doutor mantinha as mesmas vestimentas de praxe, com o casaco cinza e a gravata borboleta, que nunca poderia faltar.

— Errei a distância por alguns quilômetros — o Doutor se justificou. Não era nada mal, visto seu histórico. Ainda estavam no estado certo!

— Espero que não tenhamos problemas dessa vez — Clara suavizou a postura, descruzando os braços. Apesar da afirmação, sabia que era algo quase impossível, afinal, Doutor e problema era quase uma redundância na mesma frase.

— Ah, vamos lá. — O senhor do tempo passou o braço sobre os ombros da companheira e puseram-se a caminhar por entre os veículos. — Que tal aproveitar um pouco a noite? Dançar, que tal? Vocês jovens não gostam de dançar? — referiu-se à música animada que ficava cada vez mais alta, conforme se aproximavam da lanchonete.

Clara balançou a cabeça e permitiu-se rir. O Doutor empurrou a porta de vidro, deixando que ela entrasse primeiro.

O lado de dentro era uma mistura de um rockabilly agitado, cheiro de cigarro, laquê barato e de corpos mexendo-se sem parar na pequena pista de dança do piso quadriculado do estabelecimento. Para os que preferiam apenas uma conversa, as mesas estavam todas ocupadas por casais e grupos de amigos, deixando poucos lugares vazios no balcão. Pobre das garçonetes, correndo para lá e para cá para atender a todos.

— Parece que eu estou em um daqueles filmes tipo Grease. Meu pai ama esse filme — Clara comentou uma memória, sorrindo encantada enquanto observava todo o ambiente, conforme andavam em direção a um dos lugares vagos do balcão.

— Nunca cheguei a ver esse filme até o final, minhas regenerações passadas sempre dormiam na metade. — Os dois sentaram-se e o Doutor logo pegou o cardápio disponível. — Eles têm milk-shakes! — exclamou com animação e começou a passar os olhos pelo cardápio.

Clara apoiou o rosto sobre a mão espalmada, encarando a pista de dança do lado de trás. Seus pés balançavam no ritmo do teclado que solava por alguns instantes.

— Abacaxi, abacaxi com hortelã, abacaxi com ameixa, açaí, ameixa, amora…

— O que é açaí? — Clara interrompeu a leitura que o Doutor fazia do cardápio, voltando os olhos para o Senhor do Tempo.

— É uma fruta do Brasil. Estranho eles terem isso por aqui… — Ele franziu o cenho, fazendo uma leitura dinâmica pelas quase cem opções diferentes. Era extremamente diverso, para dizer o mínimo, com sabores exóticos para uma lanchonete americana dos anos 50.

— E isso é bom? — Clara questionou, ainda balançando o pé.

— Muito! A primeira vez que eu experimentei foi na minha nona regeneração, quando acabei indo parar no meio de um vilarejo no Pará… — Ele tirou os olhos do cardápio, passando-os para Clara, que o encarava com um sorrisinho no rosto. — Você quer um, não quer? — questionou e teve um aceno de cabeça como resposta. — Não saía daí, volto em um minuto. — Ele levantou-se do banquinho e olhou para trás, vendo como as garçonetes ainda trabalhavam sem parar. — Ou em cinco…

Abaixando os ombros, optou por enfrentar o aglomerado de pessoas ao final do longo balcão. Clara continuou sorrindo enquanto passava os olhos pelo ambiente. Curiosa pelos sabores de milk-shake, puxou o cardápio que o Doutor lia instantes antes.

— Eu estou pedindo, Gary, me leva pra casa, por favor.

Ainda mantendo a atenção no papel, Clara olhou pelo canto de olho para o casal ao lado do banco vazio, onde o Doutor estivera anteriormente. A moça parecia aflita, pelo tom empregado em sua fala.

— Vamos, Phoebe, ainda não é nem nove horas da noite — Gary argumentou, não querendo ceder às súplicas da namorada. — Já ficamos até bem mais tarde na rua. — Ele enlaçou a cintura de Phoebe, que o empurrou, preferindo levantar-se.

— Mas agora está perigoso, você sabe disso! — Cruzando os braços, ela começou a se afastar, sendo seguida por Gary. — Aquele bicho foi avistado aqui por perto…

— Não é possível que você acredita nessa história de bicho brilhante, Phoebe! — O rapaz soltou exasperado e o casal afastou-se demais para ser ouvido por Clara no meio de tanta bagunça.

Olhando para a lateral, ela foi capaz de avistar os namorados, ainda em discussão, saírem do estabelecimento. Ressabiada, passou os olhos pelo lado de dentro da lanchonete, onde todos agiam naturalmente em seus próprios mundos de diversão. Ou não tão natural assim, ela pensou quando sentiu o olhar firme de um desconhecido encostado com as costas na bancada, a alguns poucos metros de distância dela. Não era a roupa de bad boy de filme antigo, com jaqueta de couro e topete, que a incomodavam naquele homem.

— Eles me deram balas de goma como brinde. — Seu campo de visão do estranho foi oculto pela figura alta do Doutor, que voltava para seu lugar de outrora, de posse de um copo de milk-shake em cada mão e um pacote de bala de goma entre os dedos.

— Você voltou rápido — Clara afirmou e pegou o copo com o líquido roxo escuro e gelado que lhe era oferecido. Deu o primeiro gole, saboreando o gosto do açaí. — Hmmm, isso aqui é muito bom.

Mais rápido do que ela, o Doutor havia tomado alguns goles do próprio milk-shake e abandonado o copo sobre o balcão, junto de uma careta.

— Isso não é menta, de jeito nenhum. — Ele continuou com a mesma expressão de quem comeu e não gostou. Péssima escolha o sabor de chocolate com menta. — Bala de goma? — ofereceu e Clara recusou, tomando de seu próprio milk-shake. — O que? O que foi?

Percebendo que o olhar dela estava fixo em um ponto sobre os ombros dele, olhou para trás, vendo apenas as pessoas e seus pedidos no balcão mais ao fundo.

— Nada. — Dando de ombros, ela tentou fingir que o olhar do sujeito estranho não a incomodara minutos antes. Pelo menos não estava mais ali.

Contudo, não apenas Clara seria incomodada por estranhos. Tudo pareceu parar quando um grito feminino cortou a noite de diversão. Os músicos interromperam a canção instantaneamente e os presentes entreolharam-se com confusão e assombro. Sem tempo para nada do tipo, o Doutor e Clara largaram o milk-shake e seus lugares e precipitaram-se para o lado de fora. Algumas pessoas começavam a sair da lanchonete aos poucos, formando uma aglomeração às portas.

Uma dupla isolava-se no vidro lateral da parede, sendo uma das moças a mais assustada, tremendo sem parar e escondendo o rosto no ombro da amiga. Sabendo exatamente para onde deveria ir, o Doutor foi até elas, sendo seguido de perto pela companheira.

— Olá — ele cumprimentou sutil e com um sorriso encorajador para as duas. — O que aconteceu aqui?

A moça loira continuava com o rosto no ombro da amiga, que ergueu a face na direção de quem falava com ela. Vendo o olhar acolhedor que Clara e o Doutor dirigiam para ela, suspirou um pouco aliviada. Logo a aglomeração chegaria até ali.

— Lola, minha amiga. — Apontou com a cabeça para a outra. — Ela diz que viu o ser brilhante aqui no estacionamento.

— Mas eu o vi, Bonnie, eu vi! — Pela primeira vez, Lola manifestou-se com palavras, erguendo o rosto do ombro da outra. Seu olhar era atarantado como nunca. — Aquela fera ia vir pra cima de mim, pra me atacar. Então eu gritei e corri. — Com isso, a jovem conseguiu clarear o ocorrido do lado de fora da lanchonete. O relato deixava um mistério aberto.

— E como você descreveria essa… Fera, Lola? — o Doutor prosseguiu com um questionário, lógico na situação. As duas moças encararam-no desconfiadas. — Estamos aqui para ajudar. — Apontando para si mesmo e para Clara ao seu lado, ergueu uma carteira azul na altura dos olhos das amigas, rapidamente guardando o objeto de volta no bolso.

— Você é da zoonose? — Bonnie inquiriu, aliviando um pouco ao tomar conhecimento das intenções dos dois.

— É, somos da zoonose. — Retirando de novo a carteira do bolso, o Doutor conferiu o escrito. Bem, não era tão ruim assim.

— Então… Essa Fera que você viu no estacionamento, Lola, é o mesmo que andaram comentando por aí? — Clara intrometeu-se no questionário, relembrando da discussão do casal minutos antes.

A última pergunta rendeu um olhar inquisitivo do Doutor para a professora de inglês, sabendo que ele não estava ciente de alguma informação importante. Entretanto, a sessão de perguntas estava no fim, com a multidão finalmente alcançando o quarteto.

— Com licença, com licença. — Alguém abria seu caminho por entre as pessoas, que distribuíam questões a torto e a direito, acuando ainda mais Lola. — Poderiam acompanhar-me, senhoritas? As escoltarei para um lugar mais calmo dentro da lanchonete — ele ofereceu solícito e as amigas entreolharam-se, com um breve diálogo feito em silêncio pelos olhares.

Com um pouco de atenção, Clara reconheceu o rapaz como o tecladista da banda que animava a lanchonete. Podia dar alguma credibilidade para a oferta dele, ela pensou. Com Bonnie apoiando a amiga, as duas começaram a seguir o músico.

— Era a mesma fera que falavam por aí, eu vi! — Lola olhou para trás, lembrando-se da pergunta de Clara e respondendo-a. — Era fosforescente.

Alguns dos presentes riram com a afirmação da moça, crendo não passar de alguém querendo chamar atenção ou que ela deveria estar fora de si. Enquanto todos iam deixando o aglomerado aos poucos, retornando para o estabelecimento ou optando por irem embora, o Senhor do Tempo e a companheira se encararam.

— Nada pode ser tão simples com você, não é? — ela comentou, vendo um sorriso que poderia parecer quase maníaco no rosto do amigo.

— Vamos lá, Clara, você não vai recusar uma aventura como essa, vai? — Ainda manteve o ânimo, com ambos começando a caminhar lado a lado pelo estacionamento, aos poucos se afastando do aglomerado de carros da época.

— Então... Fosforescente? — A professora de inglês começou, os saltos de seus sapatos batendo no concreto. A aglomeração estava toda dispersa àquela altura, deixando praticamente apenas a dupla por ali. — Isso não é coisa daqueles filmes ruins de ficção científica?

— Ora, Clara, não é porque algo é diferente que você precisa chamar de ruim. — O Doutor tomou a frente, a luz esverdeada da chave de fenda sônica apontada em direção ao chão. — Existem seres brilhantes, com bolinhas, degrades...

O Doutor não continuou seu monólogo explicativo, pois um grito por ajuda cortou a noite, pela segunda vez em poucos minutos. Sequer precisando se encarar para saber o que fazer, eles puseram-se a correr pelo campo de esportes em frente à lanchonete, vazio àquela hora da noite.

A dupla não precisou se aproximar para ver a pelagem amarela-neon brilhando a alguns metros de distância. A fera parecia ter o dobro do tamanho de um felino como um leão e estava pronta para dar o bote naquele mesmo homem de jaqueta de couro do qual Clara suspeitara.

— Ei! — O Doutor soltou um assobio agudo, fazendo o ser se virar para eles.

Os dentes pontiagudos deviam ter o tamanho de dois dedos humanos — com dois caninos mais proeminentes do que os demais —, arreganhados em uma boca enorme e olhos escuros como o breu. Em uma fração de segundos, o Doutor apertou a chave de fenda sônica que já estava em punho, emitindo um ruído irritante, que parecia mais amplificado que o normal. O ser grunhiu, rapidamente correndo para longe deles.

— Você está bem? — Clara se aproximou do desconhecido, enquanto o Senhor do Tempo observava por onde a fera desapareceu. Estava fora das suas vistas.

— Obrigado — agradeceu de forma ríspida, erguendo-se do chão e pegando uma pistola estranha a alguns metros de distância.

— Você não é da Terra, não é? — o Doutor questionou, apontando para o objeto na mão do outro.

— Tampouco você — respondeu, vendo um sorriso de canto se formar no rosto do Senhor do Tempo. Ele suspeitava com que tipo de gente estava lidando ali.

— Então... Uma pistola de Kranyen, hein? Sinto em te dizer, mas não é suficiente para um wahasha. — Ele encarou o homem de cima, desafiando-o com o olhar.

— Espera — Clara interrompeu, postando-se no meio dos dois. — Você ia matar aquele wahaha?

— Wahasha — o Doutor corrigiu.

— Wahasha. — Ela continuou, as mãos postas sobre a cintura e esperando por respostas. O Senhor do Tempo colocou uma mão sobre o ombro dela, na intenção de protegê-la. Não gostava nem um pouco daquele desconhecido.

O homem riu sem humor.

— Que bem eu ia querer com uma wahasha morta?

— Um caçador de recompensas... — o Doutor sussurrou, vendo um sorriso escarnecedor brotar no rosto do outro.

— Exatamente — ele confirmou. — Mais do que uma wahasha adulta, os filhotes valem muito mais no Mercado Ilegal...

O Doutor abriu a boca, apontando o dedo para o desconhecido de jaqueta.

— Você não ouse... — Tentou soar ameaçador, baixando o tom da própria voz, a testa franzida. — Esses wahashas podem ser os últimos da espécie!

— E exatamente por isso eles valem muito mais do que o normal. — O sorriso malicioso continuava no rosto do caçador, que apenas deu as costas para a dupla. — Tentem me impedir — zombou, se afastando.

Um rugido cortou a noite outra vez, fazendo com que o desconhecido apresasse o passo para uma corrida.

— Por que ele está fugindo? Ele não quer capturar o wahasha? — Clara questionou, pronta para partir atrás do outro.

O Doutor segurou seu pulso, fazendo com que ela permanecesse onde estava.

— Ele sabe que não tem chances contra a mãe. Não sem um armamento mais pesado — o Senhor do Tempo foi abaixando o tom da voz conforme o rugido ia aumentando de volume, indicando que o ser se aproximava rapidamente. — Fique parada, Clara. Se corrermos, ela corre atrás de nós — advertiu, agora em um sussurro.

A companheira prendeu a respiração, o ser fosforescente se aproximando cada vez mais, assustadora com sua bocarra enorme aberta na direção deles. O Doutor pouco se abalou, mantendo uma movimentação discreta com uma das mãos em seus bolsos, enquanto a outra segurava a mão da professora.

— Shh... — ele pediu para Clara, aproximando-se lentamente da wahasha. — Fique onde está.

Mesmo que estivesse pronta para questionar, a companheira apenas abriu a boca e não emitiu som, vendo o Senhor do Tempo achegar-se para perto da fera com algo estendido em uma das mãos. Justamente o mesmo pacote de balas de goma que ganhou na lanchonete.

O Doutor soltou um breve grunhido, fazendo o ser fechar a boca e farejar o ar, como se o analisasse. Com mais um grunhido, a wahasha tombou a cabeça para o lado, sentando-se no chão e ocupando talvez uns dois metros de largura. O Senhor do Tempo estendeu o braço, vendo a alienígena capturar o pacote de uma só vez e engoli-lo com plástico e tudo.

— Boa garota. — O Doutor quebrou a distância, aproximando-se para um carinho na pelagem brilhante do bicho. Olhando brevemente para trás, sinalizou para a professora que era seguro.

— Mas como... — Ela parou ao lado dele, ainda um pouco ressabiada com o ser enorme.

— Um pouco de açúcar acalma os nervos de qualquer um, independente da espécie, não é mesmo? — dirigiu-se para a wahasha, começando uma série de grunhidos em seguida.

Ela pareceu responder, já que terminara de mastigar o pacote de balas. Clara sentiu o bafo quente do ser próximo de si, segurando a vontade de espirrar enquanto assistia à conversa estranha que se desenrolava à sua frente.

— Então... Você fala a língua dela? — a professora questionou incerta, ainda temerosa com a fera.

Ao contrário do Doutor, que permanecia acariciando o pelo da wahasha.

— A nossa amiga aqui estava assustada, tudo o que ela precisava era de alguém que falasse a própria língua — ele explicou calmamente, incentivando a companheira a se aproximar. Ainda insegura, Clara foi aproximando a mão da wahasha. — Além de ser uma mãe muito brava em busca dos filhos.

— O que explica porque ela atacou aquelas pessoas. — A professora de inglês teve um pouco mais de confiança ao pôr a mão no pelo amarelo fosforescente. Seus dedos afundaram, vendo como era macio e felpudo. — Ela lembra um pouco um tigre dentes de sabre, só que brilhante.

O Senhor do Tempo a encarou com repreensão, franzindo a testa e colocando as mãos na cintura.

— Não insulte a coitada desse jeito, Clara — ele reclamou, gesticulando para a wahasha. — Você tem muita sorte que ela não pode entender a sua língua.

A companheira ergueu as mãos, como se dissesse “não está mais aqui quem falou”. Assim que o carinho acabou, a fera farejou o ar novamente, pondo-se a correr logo em seguida.

— Vamos! — o Doutor incentivou, iniciando uma corrida atrás dela.

— O que está acontecendo? — Clara questionou, segurando uma parte da saia e tentando não tropeçar no calçamento parcialmente escuro com aqueles saltos.

— Ela estava aquele tempo todo seguindo o rastro dos filhotes por aqui — o Senhor do Tempo explanou enquanto ainda tentavam seguir a alienígena a uns bons metros à frente deles. — Vamos segui-la, pra impedir que ela ataque mais gente.

Ambos continuaram tentando manter o passo, atravessando algumas ruas com poucos carros àquela hora. Clara se questionou como ninguém saiu correndo e gritando dessa vez, mas talvez estivessem ocupados demais para prestar atenção no grupo estranho.

O pequeno percurso continuou até uma virada de esquina, quando a wahasha pareceu desaparecer. O Doutor e Clara seguiram o caminho que ela tomou, ouvindo o rugido da mãe antes mesmo de ver o caçador de recompensas em posse de um dos filhotes, segurando-o pelo cangote. Os demais três estavam aos seus pés, puxando seu jeans pela barra e não tendo muito efeito, mesmo com os dentes pontiagudos.

A mãe wahasha rugiu e preparou-se para o bote, porém, tampouco ela e a dupla atrás precisou se mexer, pois o que parecia uma sombra pulou sobre o caçador, derrubando ele e o filhote no chão, que se afastou ganindo.

— É o tecladista da banda! — Clara exclamou, apontando para os dois homens que se engalfinhavam no chão.

Com destreza, o Doutor se aproximou das duas figuras em roupas escuras e pegou a arma do caçador, que estava abandonada no concreto a alguns metros de distância. O caçador perdeu, sendo rendido de cara no concreto.

— Você não é daqui também, certo? — o Senhor do Tempo questionou, rodando a pistola por entre os dedos, despreocupado que aquilo pudesse disparar.

O sujeito que estivera disfarçado de músico tirou um par de algemas do bolso, prendendo o meliante enquanto o segurava no chão.

— Tenho estado em busca desse crápula desde o Brasil — explicou com a respiração entrecortada, devido o esforço físico de anteriormente.

O Doutor e Clara se entreolharam, com o Senhor do Tempo retornando a falar:

— Polícia Intergaláctica?

O sujeito confirmou com a cabeça, levantando-se do chão e erguendo o caçador com uma das mãos, forçando-o a ficar parado.

— Estava transportando essa família de wahasha quando esse daqui — Apertou o braço do caçador com força, — me pegou desprevenido e roubou-os de mim. Mas parece que ele não foi o único a ter problemas e teve que parar por aqui...

O homem de casaco preto resmungou por entre dentes, porém, nenhum dos três se importou com eles. Muito menos os wahashas, mais ocupados em curtir a própria mãe ao lado.

— E você simplesmente resolveu entrar pra uma banda? — Clara questionou incerta, o dedo massageando o queixo enquanto pensava.

— Eles estavam precisando de um tecladista... E é um ótimo lugar para se descobrir coisas.

A professora balançou a cabeça e o Doutor soltou um “rá!”, sua mente trabalhando durante todo aquele diálogo.

— Então foi você quem trouxe o açaí pra lanchonete, não é mesmo? Bem que eu estranhei todos aqueles sabores de milk-shake...

— Eu acabei parando para tomar açaí em um vilarejo no Pará, não era a primeira vez que eu venho à Terra...

— E foi quando os wahashas foram capturados! — o Senhor do Tempo deduziu, estralando os dedos com a sua mente terminando de completar toda aquela história. — Esse vilarejo do Pará é realmente muito acolhedor. Devíamos ir lá qualquer quarta dessas, Clara. — Ele virou o rosto para se dirigir para sua companheira, vendo-a a alguns metros de distância.

— E o que vamos fazer com eles? — ela questionou, abaixando-se para fazer carinho em um dos filhotes. Os pequenos pareciam brilhar ainda mais intensamente do que a mãe, que ainda acariciava alguns com a cabeça.

— Nós podemos cuidar disso — o Senhor do Tempo garantiu, recebendo um olhar desconfiado do policial. — Sou o Doutor — ele se apresentou, estendendo uma mão para um cumprimento, praticamente esquecendo que o outro estava mais ocupado em segurar o criminoso, que, àquela altura, poderia ter se resignado quanto ao seu destino.

— Eu... Realmente não esperava encontrá-lo por aqui, Doutor — o policial soltou junto de um arquejo, ainda surpreso. — Suas histórias são muito famosas pela galáxia afora.

O Senhor do Tempo ajeitou a gravata borboleta, exalando a modéstia que não tinha. Clara apenas riu, ainda acariciando os filhotes.

Dessa forma, ficou acordado entre os três que o policial levaria o caçador para seu departamento, onde seriam tomadas as devidas providências, enquanto a dupla levaria a família de wahashas na Tardis para um santuário de espécies em extinção, em um planeta um pouco distante dali.

— Esse santuário é parecido com os que têm aqui na Terra? — Clara questionou, ambos caminhando em direção à Tardis no estacionamento da lanchonete.

Os dois eram seguidos por uma fileira de filhotes e mãe, deixando um rastro brilhante por onde passavam. Para a sorte deles, já era bem tarde da noite, o que os permitia usar o início da madrugada como disfarce. A professora ainda carregava um dos bebês no colo, tendo impressão que aquele se apegou a ela.

— Existem vários por aí! — o Doutor exclamou, iniciando uma explicação sobre santuários e wahashas.

A dupla adentrou o estacionamento da lanchonete, vendo este completamente vazio e silencioso, pouco lembrando a animação e o barulho de quando chegaram ali.

— Você sabe que eles parecem tigres dente de sabre brilhantes, né? — Clara provocou após o solilóquio sem fim do Senhor do Tempo sobre a espécie.

— Eu já disse que não parecem, Clara! — ele exclamou incomodado, abrindo a porta da Tardis.

A professora riu, mirando a família feliz e fosforescente logo atrás dela.

— Vocês parecem sim — ela disse para eles, mesmo que não fossem capazes de entender o idioma que falava.

— Não parecem! — o Doutor reclamou do interior da Tardis, enquanto todos entravam na cabine telefônica.

Fechando a porta, a Tardis se desmaterializou com seu ruído característico, deixando para trás apenas a única vaga que ainda estava ocupada no estacionamento.

14 de Agosto de 2020 às 01:49 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Fim

Conheça o autor

Ester Cabral Diretamente do interior de São Paulo e com duas décadas de vida nas costas [apesar da carinha de menina], que sequer sabe o que falar sobre ela mesma pra fazer uma descrição interessante por aqui. Amante da música, fã da Fresno, de temperaturas amenas, de gatos, contos e que de vez em quando resolve se aventurar em uma história mais longa. Quer saber que histórias eu ando inventando por aí? Pegue uma xícara da sua bebida favorita e vamos nos aventurar por esse mundão de fics <3

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~