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Herança

"Minha felicidade sempre foi e sempre será ver as pessoas ao meu redor rindo, apesar disso parecer altruista, na verdade é um sentimento egoísta", dizia Roberto, ele realmente não é meu paciente mais interessante, mas tenho que admitir que ele sabe me surpreender, "sabe doutor Marcos, eu não faço isso porque quero simplesmente ver os outros rirem, mas sim porque as risadas me fazem bem, no fim eu faço isso por mim... eu sou alguém ruim por pensar assim?".

Depois de tantos anos sendo psicólogo, ainda me assusto com a capacidade de algumas pessoas me pegarem desprevenido com perguntas como a que o comediante fez.

"Roberto, por que isso te faria uma pessoa ruim?", eu perguntei olhando o jovem que a poucos meses tinha estourado na internet com seus vídeos de comédia, continuei, "mesmo que não esteja fazendo isso apenas pensando nos outros você ainda traz alegria para as pessoas com seus vídeos, e, aliás, ninguém vai saber que, no fundo suas intenções são egoístas, então se você ajuda os outros e ainda ajuda a si mesmo por que você seria alguém ruim?".

"Acho que... acho que entendo doutor... o que importa é estar realizado com si mesmo, como o senhor sempre diz", falou Roberto com um sorriso meio sem jeito, finalmente sentia que nossas sessões de terapia estavam gerando resultado, "enfim, acho que deu minha hora, muito obrigado pelo encontro hoje! O pagamento pelo mês já deve ter caído em sua conta, doutor". Quando vi que o jovem ja estava pronto para sair, eu me levantei de minha cadeira e apertei sua mão, assim nos despedimos.

Mais um dia de trabalho acabava, a sensação de poder ir pra casa é impagável, estar com minha esposa, tomar um vinho, escutar musica ou ver um filme, e depois cozinhar, eu não trocaria isso por nada. Enquanto eu me perdia nesses pensamentos catárticos percebo que meu celular estava vibrando no bolso, é uma mensagem de Isabela:

"Amor, vc já ta chegando em casa? Tem um homem aqui dizendo que tem um assunto urgente a tratar com vc, ele parece muito serio e pálido, me lembra um fantasma e até ta me dando calafrios kkk, enfim, vem logooo."

Eu amo como ela é sempre durona com qualquer coisa, mas se aparece algo estranho ou "sobrenatural", a Isabela fica toda assustada, é até fofo. Assim que terminei de ler, prontamente respondi que estava indo o mais rápido possível pra casa, peguei as chaves do carro e saí.

O caminho do consultório até nosso apartamento é sempre muito solitário. Bem, a decisão foi minha de escolher um edifício comercial no centro para trabalhar, e um prédio na parte mais recente e menos populosa da cidade para morar, não que seja perigoso, mas as ruas são tão vazias, sem festas, bares, tendas, restaurantes, só um monte de prédios com essa arquitetura contemporânea sem graça e um monte de pessoas de classe média deprimidas. Refletindo agora, não sei por que me mudei para cá, talvez o preço, talvez me isolar, não sei... meu único medo é que essa depressão coletiva alcance a mim e a Bela.

Da garagem até meu apartamento, não dura nem 1 minuto, apenas caminhar por carpetes e corredores com espelhos até a porra do elevador claustrofóbico que me leva até o 18º andar.

Antes de abrir a porta eu olhei para o apartamento do meu vizinho, Rodrigo, e tudo que vinha a minha cabeça era: "o cara não mereceu tudo que aconteceu com ele... ".

Entrando em casa percebi que havia uma aura densa, um clima mórbido, como quando você acaba de entrar em um velório, talvez minha esposa esteja certa e realmente um fantasma havia vindo nos visitar.

Sentada no sofa com uma xícara de café estava a Isabela, parada, olhando fixa para o líquido negro enquanto alisava seus cachos com os dedos, ela parece hipnotizada ou em estado catatônico, porém, assim que adentrei o cômodo, ela saiu do estado imerso.

"Ah, oi amor, não ouvi você chegando, pensei que viria mais rápido", disse a Bela com o olhar meio perdido, "Acredito que não te apresentei ao senhor Galhardo, aqui Marcos... ", logo que terminou de dizer meu nome ela estendeu a mão dando visão a um homem velho, de pé olhando pela janela, ele era muito alto, com certeza mais que 1,90 metros, e bem magro tambem, sua pele era tão pálida que eu podia ver as veias verdes que saltavam; ele vestia um terno preto muito bem moldado em seu corpo decrépito e esguio, porém a coisa que mais me incomodou foi seu rosto, eu conseguia ver sua face somente pelo reflexo, mas já percebia que ela não era normal, não que ele fosse deformado ou monstruoso, mas era algo diferente... seus olhos, eles eram vazios.

O tal senhor Galhardo se virou para mim e percebi que, em suas mãos, havia uma pequena caixa com um embrulho branco e uma fita dourada. A curiosidade não cabia mais em meu peito.

"Olá, desculpa a indiscrição, mas quem é o senhor? e o que te traz aqui essa hora da noite?", eu perguntei com um semblante confuso e assustado; o velho respondeu com uma voz seca, mas bem firme, "Boa noite, o senhor é Marcos Almeida de Castro, certo?", eu, já morto de curiosidade, respondi: "Sou eu sim, algum parente distante mandou este presente pra mim?" disse de forma meio debochada, pois eu tenho certeza que nenhum familiar iria querer me mandar algum presente, não depois de tudo...

Meus pensamentos foram cortados pelo velho senhor: "Pois bem, meu nome é Eustácio Galhardo, eu sou a pessoa que cuidava de seu pai, o senhor Antônio de Castro, e estou aqui devido a um assunto pendente...", nesse momento meu coração disparou e eu prontamente respondi: "Então o velho sabe onde eu moro! Ótimo, o que ele fez agora e o que ele quer comi-", eu mal havia terminado de falar quando o tal cuidador me interrompeu: "Senhor Marcos, o seu pai morreu noite passada, eu não posso falar muito sobre, mas ele deixou como última tarefa para mim te passar esse presente. Há uma carta dentro dele, leia com atenção, eu não tenho muito tempo, me desculpe... ".

Eu não sei o que deu em mim, mas é como se o tempo tivesse sido apagado pelos próximos minutos, quando me dei conta o velho ja tinha ido embora e eu estava apenas com a caixa na mão, olhando estático, agora entendo porque a Bela estava assim. Eu não conseguia me concentrar em mais nada, era tudo silêncio, apenas eu e a caixa; então eu lentamente levantei minha mão pra retirar o laço quando percebi algo escrito no topo do presente, "HERANÇA".

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Meu primeiro texto aqui, espero que gostem e deem dicas nos comentários!


9 de Agosto de 2020 às 05:40 0 Denunciar Insira Seguir história
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