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Tiago Falcão


Historinha rápida de uma família em um ponto de ônibus


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Família


Assim, em meados de fevereiro, próximo do carnaval, passa uma moça no ponto de ônibus, e se passam seu irmão, sua irmã, sua colega, sua outra irmã e outra colega, por quê, não sei, só sei que foi assim. Ademais, sou eu que conto essa história.

Desmedida foi a preocupação da moça mais velha quando viu o irremediável acontecer. Digo moça pois já tinha sangrado, mas não podia possuir mais do que seus 16 anos. Forte e troncuda ela tinha um queixo reto e ombros largos, e agia com ares de ditadora do bando que comandava. Fora isso, nada mais era do que uma babá para todas as crianças que a acompanhavam. Falando abria seus braços largos e dizia com ênfase, principalmente quando ia brigar com os pequenos. Por isso, lhe garanto o nome de Elizabete. E foi num destes momentos no qual ela bradou, cale sua boca!

Nenhum acontecimento requereu ou recebeu a mínima atenção de dois colegas enamorados, aconchegados em seu canto, apoiados na árvore, que, como eu, eram espectadores. Me agrada a ideia de que são felizes amantes até hoje. Então lhes dou o nome de Julieta e seu Romeu.

As pequenas são espécimes peculiares, como são todas as crianças, mas essas eram algo extra, fascinantes que eram, traziam em seu espírito uma vontade e teimosia, grande perseverança que desvanece com o tempo. A mais nova vestia um vestido rosa, não ligava para que os outros diziam e fazia o que dava na telha, ela, pequena cara de cavalo, possuía olhos verdes e pele amarela com cabelos muito bem penteados em marias-chiquinhas, e a esquerda maior que a direita o que a fazia balançar a cabeça, tentando esconder a falha. Emília, por assim dizer.

O irmão tinha uma cara oval, muito simplório no seu corpo magro e mortificado no momento, seus trejeitos femininos não me surpreenderam, pois havia ouvido ele conversar com a irmã de modo extremamente exagerado e barulhento, com uma voz estridente e seca, mas quando sua irmã gritou ele entrou em transe. Seu nome é William. Seja por influência demônica ou ato como tal, a sua face de negra se tornou branca como leite aguado, um momento de fluidez contornou a cara de cavalo da menina mais nova e fúria apareceu claríssima na alma da pequena mais velha.

Algo havia acontecido, mas não tive como dizer o quê exatamente, em poucos segundos já via a segunda pequena correr para longe dos irmãos naquela rua suja e sob os olhares tenebrosos dos idosos esperando no ponto de ônibus. Ela corria e corria e logo vinha a irmã atrás, suas pesadas pernas, não pareceram hábeis o suficiente para seguir o passo da outra que correu, chorou, esperneou, tropeçou, caiu, rolou e sentiu a força da irmã na sua cara sob os olhares de todos os presentes.

A menina chorava e a moça gritava, sons guturais ao se curvar e apertar mais forte o braço da menina que chorava e chorava. Os outros não se movimentaram um centímetro, a raiva da maior era avassaladora e calou a todos, desse e do outro lado da rua, pois as duas eram família, certamente a maior saberia e teria alguma consciência do que estava fazendo.

Elas voltavam para junto dos irmãos, uma chorava e a outra com uma carranca. Elizabete voltou a conversar com William sob o cajueiro, mais de junto dos namorados. O ônibus chegava e William acenou para ele parar, no meio segundo que a maior não prestou atenção na menor ela correu para o meio da rua. Até hoje não sei se havia ou não visto o ônibus chegar.

7 de Agosto de 2020 às 14:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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