zuzuomelete Júlia Fincatti

No entanto, se Gohan desconhecia que aqueles tempos seriam tempos de saudade e de carinho, memórias distantes de infância, ele também parecia não saber que o dia em questão seria igualmente especial.


Fanfiction Anime/Mangá Todo o público.

#dragon #day #goku #gohan #zuzuomelete #ball #rainy #julia #fincatti
Conto
0
686 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Certeza

Quando sua prima Pan vinha da cidade grande, ela sempre lhe dizia que aquele fim de mundo era chato. Que não havia nada de legal para se fazer.


Mas Gohan sabia que Pan mentia, aquilo não era verdade.


Nos campos verdejantes do máximo interior japonês, tudo era possível. Desde correr por entre o orvalho dos campos de arroz, quanto brincar na lama, quanto caçar insetos.


Haviam inúmeras e deliciosas comidas cujos aromas ficariam para sempre gravados em sua mente, apesar de o pequeno ainda não saber disso.


Os únicos dias tediosos de fato, eram os dias de chuva. Mas mesmo assim Son Gohan nunca se deixava abater.


De dentro da casa quente em que morava, ele gostava de apreciar as gotinhas que escorriam vagarosas pela janela, naquela eterna corrida sem vencedor. As folhas verdes das árvores destoavam contra o cinza mais escuro do céu, cheias de glória. Hortaliças cresciam no ritmo lento da natureza, aguardando ansiosamente pelos animaizinhos silvestres loucos para saboreá-las.


Todas essas pequenas coisas não eram desapercebidas pelos seus olhos atentos, mesmo ninguém mais dando valor a elas.


No entanto, se Gohan desconhecia que aqueles tempos seriam tempos de saudade e de carinho, memórias distantes de infância, ele também parecia não saber que o dia em questão seria igualmente especial.


Após o lanche costumeiro que a mãe preparava em todas as chuvas – um delicioso e tradicional udon frio – o pai se pôs a vestir sua grossa capa. Calçou as galochas vermelhas e em seguida sorriu para o filho:


— Hey, Gohan. — chamou — As chuva já está quase passando, vamos dar uma volta!


— Mas... otousan! — surpreendeu-se — E se a chuva voltar?


Ele não queria preocupar a mãe e nem tomar para si um resfriado.


— Ah, filho... confie em mim! — alargou o sorriso — Veja, o céu não está mais cinza. A chuva está indo embora.


— Hm...


Gohan não confiava nos instintos dos adultos. Uma vez, quando visitava sua mais preciosa amiga, a Videl, o pai dela havia dito o mesmo para os dois, e errara feio. A chuva de outrora retornou em uma tempestade colossal. Mas seu próprio pai, o que o chamava ansioso, nunca pareceu errar.


— Venha! Calce logo suas galochas! — o homem ia abrindo a porta.


— Vá, Gohan-chan! Mas vista seu casaco, também. Não quero você doente quando voltar. — a mãe incentivou.


Com um sorriso no olhar, o menino aprumou-se em um passe de mágica. Um pouco de ajuda para subir na garupa da velha bicicleta da família. Gritou um até logo, abriu o guarda-chuva de bambu. Lá se foram eles.


A bicicleta deslizava pela terra batida, para lá e para cá, como uma nuvem na imensidão azul do céu. Os passarinhos cantavam, era como se pai e filho pudessem voar. Livres.


Livres, voavam pelos campos. Cortavam o vento, os arrozais os quintais de vizinhos mau humorados. Gohan até chegou a escutar a doce trilha sonora da alegria dentro de sua cabecinha, mais leve do que nunca. Respirou fundo o ar puro e fechou os olhos.


Goku – pois este, afinal, era o nome do pai – acelerou na descida do morro. O infinito era o limite, mas não era para lá que iriam. Sorriu, sabendo que mesmo o infinito sendo e parecendo muitíssimo mais fantástico, não era tão bom assim. Certamente Gohan o sonhava à noite.


O menino, por sua vez, só queria curtir aquela singela aventura como jamais curtira antes – e conseguia. Não sabia para onde o destino os levava, mas também não tinha medo. Seu otousan estava ali com ele, seu grande herói Son Goku o protegeria com unhas e dentes, como o gorila feroz que poderia ser.


A brisa suave interrompeu-se bruscamente, a subida chegara. As pedaladas tornaram-se difíceis, mas aquilo iria passar. Tudo passava. Porém, quando se tinha uma criança em pé na garupa enferrujada de uma Caloi tudo passava a ser mais difícil:


Gambare! Vamos, otousan! Você consegue! — gargalhou feliz.


Goku respirou todo o ar da atmosfera, determinado. Sim, ele conseguiria! As forças vieram, o suor descendo pela testa!


Conseguiu. E o que os aguardava no topo, aquele lugar que tanto queria mostrar, era lindo.


Assim que os olhos de Gohan avistaram o pequeno casebre, o riacho e a floresta de bambus, seu coração aqueceu de amor. Ele não conhecia aquele paraíso, mas já o havia adorado.


Ofegante após tamanha distância, o pai anunciou orgulhoso:


— Aqui, Gohan, é onde eu cresci. — suspirou faltando ar — Aqui é a casa do vovô Gohan, do seu avô Gohan.


— Sério?


— Sim, meu filho. — sorriu — Vá lá. Não tenha medo!


O garotinho obedeceu. Tímido, afastou-se de Goku, indo para mais perto da cabana. Na porta ainda jazia o selo que espantava os espíritos youkais, a mobília de anos atrás.


Seu pai o acompanhava de longe, marejando de saudade. Não sabia o que sentia, mas era bom, nostálgico...


Puro.


— Então, você morava aqui, otousan? — perguntou um Gohan curioso.


— Morava. — sorriu singelo — Morávamos eu e seu avô, até...


O sorriso murchou.


— Até que o que? — a ansiedade transparecia por sua voz.


Goku respirou fundo, espantando as más lembranças que insistiam em arruinar aquele momento sublime.


— Um dia Gohan, vovô se foi. Para um lugar muito distante...


— E por que você não foi atrás dele? — piscou confuso — Você não sentiu saudades, otousan?


— Claro que sim, filho. Mas este lugar é tão longe que ninguém pode ir até lá antes da hora. — ponderou bem a próxima fala — A hora de vovô chegou primeiro, mas um dia a minha chegará também. E quando for este dia, eu finalmente poderei visitar o vovô Gohan.


Uma lágrima rebelde escorreu discreta dos olhos do pai.


— Quer dizer que... q-quando este dia chegar... eu não vou poder te ver o-otousan? — começou a chorar.


Goku o abraçou, fazendo o cafuné gostoso que tanto amava bagunçar os cabelos negros do filho, ainda muito jovem para entender o lado trágico da vida.


Nakanaide, Gohan! — dava tapinhas em suas costas — Nakanaide... calma, meu filho!


Gohan soluçava desesperado.


— Eu ainda tenho muito tempo até visitar o vovô. — tentou tranquilizar — Até lá, você verá o otousan tantas vezes... nós vamos brincar juntos, eu te verei crescer grande como o tio Raditz. Você vai se casar, ter filhinhos lindos... ainda há tanto tempo!


Os tapinhas nas costas continuaram por mais alguns minutos. O menininho aos poucos ia se acalmando no colo protetor do pai.


Quando o choro cessou, a única coisa restante foram os olhinhos ternos e vermelhos de Gohan.


Decidiram ir embora, deixando a cada quilômetro que passava, a brisa, o casebre, o guarda chuva de bambu e a aventura. Mas nada daquilo os deixaria, sabiam disso.


Pela primeira vez, Son Gohan teve a certeza de que o mundo era realmente belo, a vida mesmo bonita. Que otousan e okaasan o amavam mais do que tudo. Sim...


Que o homem com quem compartilhava grande parte de sua história, o primeiro Son Gohan protegia seu netinho de sabe-se-lá onde estivesse. Que um dia iriam se encontrar.

5 de Agosto de 2020 às 13:03 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Júlia Fincatti Preguiça de escrever uma bio decente! XD Posto fanfics de Dragon Ball!

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~