Contagem regressiva para a Copa dos Autores 2020. Registre-se agora e tenha a chance de ganhar prêmios!. Leia mais.
manu_mayu Manu Mayu

Lorenna Wolf já estava cansada de sua vida nem um pouco emocionante. Afinal, morar longe da cidade e de qualquer possibilidade de ter amigos não é agradável para ninguém. Após seu pai lhe arranjar um casamento sem seu consentimento, ela resolve fugir para a floresta que ficava nos arredores de sua casa e encontra um estranho que poderia lhe ser mais familiar do que ela imaginava. Castiel Fosterlin morava sozinho em uma clareira desde que sua mãe resolveu se mudar para outra cidade. Vivia como um caçador, mas jamais usou armas para matar um animal. Sua vida nunca fora tão agitada, até o dia em que encontrou uma pessoa que ele não cogitaria voltar a ver algum dia.


Romance Suspense romântico Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#drama #bruxa #227 #lobisomens
1
861 VISUALIZAÇÕES
Em progresso - Novo capítulo A cada 30 dias
tempo de leitura
AA Compartilhar

Fuga

Quando acordou para iniciar mais um dia de sua rotina, Lorenna não imaginava que já era tão tarde. Os pássaros dançavam no ar e ela podia ouvir o rouxinol cantar em algum lugar que ela não conseguia ver da janela de seu quarto.

Seus olhos esverdeados, herdados de seu pai, estavam inchados, assim como seus braços e rosto estavam repletos de marcas deixadas pelos lençóis e travesseiros. Apesar de não ser algo muito bonito de se ver, já era normal e ela nem estranhava.

Ao se olhar no espelho, Lorenna viu que seu estado era mais deplorável do que ela imaginava. Um filete de baba já seca fazia um caminho de sua boca até metade do seu queixo. Um ninho de pássaros era arrumado até demais para ser comparado ao desastre que estavam seus cabelos cor de amêndoas. Porém, nada que um bom banho e, nem tão bons, momentos de sofrimento com o pente não ajudassem.

Depois de finalmente estar com uma aparência aceitável, Lorenna desceu até a sala de refeições, encontrando seu pai sentado à mesa e um cheiro de café que se intensificava a cada passo que dava.

O aroma vinha do fogão, onde Liara preparava o desjejum. Seu pai lia um livro de capa dura na qual podia se ler, em letras douradas, Caninos Brancos.

— Bom dia, papai. — Cumprimentou Lorenna ao sentar-se em uma das cadeiras acolchoadas.

— Bom dia, minha querida. — Ele pousou o livro sobre a mesa e curvou os lábios levemente, de forma que revelava suas covinhas.

Apesar de não aparentar ter mais de quarenta anos, seu olhar era deveras cansado e com leves rugas modelando seus olhos verdes, quase âmbar, que possuíam um brilho que parecia ter sido esquecido lá dentro. Ao redor de sua boca, podiam-se ver marcas que ficaram para lembrar dos dias felizes que lhes renderam muitos sorrisos. Suas sobrancelhas eram grossas e expressivas. Tão negras que contrastavam com os cabelos amendoados de quem a filha herdara, porém com as raízes em tons de cinza, o que lhe dava certo charme.

Sloan Wolf poderia ser considerado o sonho de qualquer mulher, principalmente pela sua gentileza e o modo carinhoso que agia. Seu sorriso era encantador e fazia qualquer pessoa se sentir confortável e feliz, porém seus lábios faziam isso tão raramente que chegava a ser desolador. Era exatamente assim que ele se sentia. Desolado.

Há três anos, Sloan poderia ser considerado o homem mais feliz do mundo. Ele tinha a mulher que tanto amava ao seu lado e sua filha tão querida. Com a morte de Luana, Sloan se fechou e passou a ficar mais tempo em seu escritório do que ao lado de sua filha.

Lorenna, devido ao grande trauma, teve a memória anterior aos catorze anos completamente apagada por seu próprio cérebro, um meio de se privar de tamanho sofrimento, disse-lhe o médico.

— Que cheiro maravilhoso!

— Liara está me torturando há séculos! — Exclamou Sloan. — Nunca vi pessoa tão cruel.

— Mas não faz nem dez minutos que eu comecei a preparar a comida! — Liara surgiu da cozinha com um sorriso no rosto e dois pratos na mão.

Lorenna e seu pai riram enquanto Liara os servia. Porém, após Liara voltar para a cozinha para pegar o café, Sloan ficou sério e receoso. Sua filha percebeu e se compadeceu pelo pai. Ela pensava que o motivo era sua mãe.

— Papai, aconteceu algo com o senhor? — Inquiriu ela. — Por que está assim?

Sloan parou de cortar os ovos e seus ombros caíram, como se um grande peso estivesse sobre eles. Ele expirou de forma lenta o ar que reprimia em seus pulmões.

— Bem, é bastante complicado lhe dizer isso. — Ele a encarou e depois retornou o olhar para a comida. — Eu não sei nem as palavras certas para usar.

— O que foi? — Ela tocou a mão dele delicadamente. — Sabe que pode me contar qualquer coisa.

— Filha, você terá de se casar. — Soltou de uma vez, pois nunca gostara de muitos rodeios.

A mão que estava sobre a dele, foi retirada em um movimento pequeno, porém rápido. Lorenna baixou o olhar sobre a mesa e retraiu seu braço devagar para pousar suas mãos sobre suas coxas.

— Que... — Gaguejou. — Do que está falando?

Ela não acreditava que aquilo era verdade. Casamentos arranjados pelos pais eram algo comum, mas seu pai disse que jamais faria isso com ela. Eles tinham feito um acordo. Ela se casaria com quem escolhesse. Sloan sempre lhe dera o livre arbítrio de tomar suas próprias decisões e nunca decidia nada por ela. Era, segundo ele, o mínimo que ele podia fazer por sua filha. Principalmente porque se sentia culpado pelo modo como as mulheres eram inferiorizadas pela sociedade. Nunca quis que Lorenna dependesse de homem algum.

— Filha, eu sei que não deveria fazer isso, mas era algo que... — Ele nunca terminou essa frase, pois Lorenna logo o interrompeu.

— Papai... — Ela fechou os olhos, tentando permanecer calma e não desrespeitá-lo. — Você sempre me deixou escolher. Eu não poderia reclamar da sua bondade e da forma maravilhosa como me criou, mas, mesmo que o senhor arranjasse um casamento para mim, eu gostaria ao menos que o senhor tivesse me dito antes de me arranjar um marido. Seria menos doloroso se eu fosse informada com antecedência.

Ela falava baixo, tentando formular as frases para que não fossem rudes. Lorenna não estava com raiva. Estava decepcionada. Confiava em seu pai, mas se sentia traída.

— Filha...

— Eu vou para o meu quarto. — Ela o interrompeu novamente e se levantou lentamente.

Sloan ficou sem reação. Ela simplesmente colocou a cadeira de volta no lugar e se retirou. Liara estava saindo da cozinha quando viu a jovem sair. Encarou Sloan e pediu que ele tivesse paciência com sua filha. Depois, foi até ele e serviu-lhe uma xícara de café.

Liara tinha pouco mais de vinte anos e começou a trabalhar na residência dos Wolf após o falecimento da senhora da casa. Ela e Lorenna ficaram muito próximas. Eram como irmãs. Sloan sentia-se feliz com essa relação, pois considerava Liara como alguém da família.

Lorenna trancou a porta e deixou seu corpo tombar sobre a cama, ficando de bruços. Puxou o travesseiro e o apertou contra o rosto, bagunçando a cama que tinha arrumado há pouco tempo. Nunca deixava Liara arrumar seu quarto. Achava a casa grande demais e não queria dar mais trabalho para sua melhor, e única, amiga.

Ela estava bem triste, pois achava que seu pai já não a queria mais. Anos atrás, ele lhe dissera que só arranjaria-lhe um casamento quando já não a quisesse por perto. Na época, soou como uma brincadeira, mas agora isso lhe feria. Ela só pensava no pior e algumas lágrimas ameaçaram cair, porém as impediu quando ouviu alguém bater na porta levemente. Era Liara. Lorenna sabia. Reconheceria o toque delicado dela em qualquer lugar, momento ou situação.

— Como você está? — Perguntou assim que a jovem abriu a porta.

Estava com uma bandeja nas mãos. Não gostava quando Lorenna pulava as refeições, pois sempre se sentia mal e começava a tremer e ter tonturas.

— Triste, talvez? — Ela tentou dar um sorriso e depois largou a porta, voltando para a cama.

Liara colocou a bandeja na mesa de cabeceira e foi até a porta para trancá-la.

— Isso é ruim? — Tentou brincar.

— Claro que não... — Lorenna pegou um dos biscoitos e só voltou a falar depois de engoli-lo. — Você sabia de algo sobre isso?

— Bom, saber eu não sabia. — Respondeu. — A única coisa que vi foi um senhor vir aqui para tratar de negócios com o senhor Sloan. Eu nunca o vi antes.

— Será que esse é o tal noivo? — Comeu mais um dos biscoitos. — Então quer dizer que, além de ter me arranjado um casamento, foi com um homem décadas mais velho que eu?

— Eu não posso lhe garantir isso. Só estou dizendo-lhe o que eu vi.

Lorenna respirou fundo e voltou a comer os biscoitos e bebeu um pouco do suco de groselha. Comeu o mais rápido que pôde, pois queria que Liara ficasse despreocupada. Enquanto isso, ela tentava fazer com que a jovem se sentisse melhor.

— Pode me deixar sozinha? — Pediu ao terminar de comer.

— Claro. — Liara sorriu docemente e afagou os cabelos de Lorenna antes de pegar a bandeja e se retirar.

Lorenna sentiu-se satisfeita com a solidão. Ela geralmente não gostava de ficar sozinha, mas estava tão mal que achava melhor que não tivesse ninguém por perto. Não queria falar bobagens das quais se arrependeria depois apenas para descarregar sua revolta.

Em um ímpeto de rebeldia, decidiu que não iria deixar que a vontade de seu pai fosse feita. Se ele não a queria por perto, não iria ter. Porém, não seria um casamento que a afastaria. Ela mesma iria embora. Com suas próprias pernas.

Começou a andar de um lado para o outro do quarto, ansiosa por causa da decisão que havia tomado. Decidiu que iria fugir até a floresta. Era o local mais perto e mais fácil de se esconder sem que seu pai a encontrasse. Talvez encontrasse algum lugar onde pudesse passar a noite e, se tivesse sorte, iria para a cidade. Passou longos minutos planejando como faria isso, mas o tempo não era algo com o qual ela precisava preocupar-se.

Pegou um lenço e foi até a cozinha. Seu pai estava trabalhando em seu escritório. Liara estava limpando as vidraças da biblioteca. No lenço, colocou algumas frutas e biscoitos que achou. Também partiu fatias de bolo que Liara havia feito há poucos minutos e depois o amarrou. Não era muita coisa, mas serviria ao menos por dois ou três dias.

Voltou para seu quarto sem que ninguém a visse e abriu seu armário. Pegou seus arco e aljava e colocou sobre a cama junto da comida. Vestidos e roupas eram desnecessários. Não fariam falta e só iriam ser mais peso para se carregar.

Esperou, ainda trancada em seu quarto, que seu pai saísse. Era o mesmo de sempre. Ele ia à cidade para trabalhar, visto que moravam em uma área campestre, e Liara ficava limpando, lavando e cozinhando. Ela costumava ler, estudar, treinava sua pontaria com arco e flechas e, algumas vezes, ajudava Liara com os afazeres. Porém, hoje seria diferente.

Liara estava cuidando do jardim quando Lorenna saiu pela porta da frente sem que fosse notada. Correu até a floresta sem sequer olhar para trás. Adentrou a mata espessa, com as árvores frondosas lhe fazendo sombra. Já estivera ali diversas vezes antes de sua mãe falecer. Sabia disso. Apesar de não lembrar dos caminhos e como andar pela floresta, continuou mesmo assim, na esperança de que, talvez, sua memória retornasse e ela pudesse encontrar algum abrigo.

Ia cada vez mais longe, entretanto parecia sempre estar no mesmo lugar. Nada mudava. Eram apenas árvores e mais árvores. Seus pés começaram a latejar por causa das sapatilhas e do terreno irregular. Estava cansada e não lembrara de levar água para que pudesse livrar-se da sede. Pensou em voltar. Talvez casar-se com alguém mais velho fosse melhor do que fugir. Mas como o faria? Já não sabia mais como voltar para casa. Não sabia onde estava.

Tentando manter-se calma, sentou na raiz saliente de uma árvore e se recostou nela. Tirou as sapatilhas e seus pés sentiram o alívio da liberdade. Colocou o arco e a aljava de lado e pôs o lenço sobre o colo para que pudesse descansar e comer. Apesar disso, estava alerta.

Depois de se alimentar, deu novamente um nó no lenço e o colocou de lado, decidindo que iria esperar um pouco para continuar sua caminhada. Entretanto, não percebeu quando seus olhos pesaram mais que seu corpo e ela caiu em um sono profundo. Dormiu e dormiu por algumas horas, porém sobressaltou-se quando foi acordada por um barulho.

Olhou ao redor enquanto pegava seu arco e posicionava uma flecha nele. Calçou suas sapatilhas quando se levantou. Manteve-se calma e atenta. Ouviu novamente o barulho. As folhas de um arbusto movimentavam-se vagarosamente. Talvez fosse apenas o vento, mas Lorenna apontou a flecha naquela direção da mesma maneira. Ela não podia baixar a guarda. Encaixou o nock da flecha na corda do arco e a esticou até que as rêmiges encostassem em sua bochecha direita. Ficou com os dois olhos abertos, esperando ter um alvo para que pudesse fechar um deles e mirar.

Um barulho mais longo do remexer de folhas foi ouvido. A luz não a ajudava muito. Era fim de tarde e logo o sol iria se pôr. Além disso, as árvores faziam sombra onde ela estava. Lorenna escutou passos que pareciam chegar cada vez mais perto. E logo ela avistou seu alvo. Quase atirou a flecha, porém se conteve ao ver que não era uma fera.

De trás dos arbustos saiu um jovem aparentemente mais velho que ela. Tinha cabelos avermelhados como sangue que lhe caíam sobre os olhos e quase tocavam os ombros de tão longos. Ele também era mais alto que Lorenna, fazendo com que ela levantasse um pouco a cabeça para que pudesse ver seu rosto. A observava com seu olhar negro e profundo enquanto Lorenna tentava entender como um estranho poderia lhe parecer tão familiar.

Seu olhar sobre ela não parava e Lorenna chegou a ficar desconcertada, pois nunca alguém a observara durante tanto tempo sem desviar para outro lugar. Ele encarava-lhe principalmente os olhos. Parecia que conseguiria ver sua alma dentro do corpo.

— O que uma garotinha está fazendo sozinha na floresta? — Perguntou com desdém, mas sua voz era tão suave que Lorenna sentiu-se acariciada por nuvens.

— Isso não é algo que lhe interessa.

— Não me diga que está perdida... — Ele ergueu uma das sobrancelhas enquanto seus lábios formavam um sorriso discreto.

E tinha razão. Ela não fazia ideia de onde poderia estar. Não queria que ele soubesse disso, mas suas bochechas coradas já haviam a entregado sem que percebesse.

— Eu não estou. — Depositou tanta confiança em sua fala que ela mesma poderia acreditar nelas.

— Você está. — Rebateu. — Precisa de ajuda?

— Não preciso da ajuda de estranhos.

— Ah, perdão. — Ele passou a língua nos lábios. — Meu nome é Castiel.

— Não preciso de sua ajuda, Castiel. Mas obrigada.

Ele quis rir, mas se conteve. Ela lhe parecia ser bastante teimosa. Sabia que se divertiria se passasse mais tempo ao seu lado. Aquilo era muito familiar.

— Ao menos tem um lugar para ficar?

— Tenho. — Lorenna ainda estava na mesma posição. Apertando ainda mais a empunhadura de seu arco. — Não é algo com o qual precise se preocupar.

Aparentemente, não conseguiu passar tanta confiança dessa vez, pois viu Castiel negar lentamente com a cabeça enquanto expirava forte por sua boca.

— Você não tem. — Concluiu ele.

— Como pode ter tanta certeza? — Dessa vez era ela quem arqueava a sobrancelha, começando a ficar irritada com as palavras dele.

— Eu não tinha, mas você acabou de me dar. — E sorriu. — Só... É fácil de saber quando as pessoas estão mentindo. — Deu de ombros e seus olhos pareceram mais amigáveis. — Se quiser, tem um lugar em que você pode ficar.

— Não. Obrigada.

— Está bem. Desejo-lhe sorte em sua... jornada? — Suas sobrancelhas se uniram. Depois de analisá-la, levantou a cabeça para ver o céu. — Já vai anoitecer. Cuidado com os lobos.

Ele virou-se na direção de onde surgira e começou a ir embora. Lorenna se amaldiçoou internamente por ser tão boba ao ponto de estar naquela situação. Hesitou antes de começar a seguir Castiel. Ela não sabia se devia, e podia, confiar nele. Porém, sentia uma sensação boa com ele ao lado dela. Então decidiu andar cautelosamente atrás dele, ainda apontando a flecha em sua direção. E deixou seu lenço para trás. Talvez a comida servisse para alimentar algum animal faminto.

— Você é muito ingênua.

— Por que diz isso? — Ela tentou parecer indiferente, entretanto sua voz soou afetada. Ele lhe havia ferido o ego.

— Eu poderia ser um assassino ou, não sei, um homem horrível que se aproveita de jovens inocentes. — Fez uma pausa, como se ainda não acreditasse no que ela estava fazendo; mas também estava se divertindo internamente com isso. — E você fica vindo atrás de mim.

— Mas foi você quem me ofereceu ajuda.

— Não. Eu disse que você está perdida. Quando ofereci ajuda, você a recusou. Não pode usar isso como desculpa.

Castiel sequer parava para olhá-la. Imaginava exatamente como ela deveria estar agora. Encarando suas costas em dúvida e ansiedade, tentando escolher as palavras certas para não demonstrar sua inocência.

— De qualquer forma, eu sei me defender muito bem. — Retrucou Lorenna. — Não tenho medo de você.

Ao ouvir isso, Castiel virou-se abruptamente e segurou os arco e flecha que Lorenna segurava. Seu movimento foi tão rápido e inesperado que que ela fechou os olhos com força e apertou suas mãos ao redor dos objetos de madeira a ponto de seus dedos ficarem brancos.

— Pois deveria ter ao menos um pouco. — Seus olhos se encontraram e ela quase se afogou na profundidade do olhar dele. — Ou deveria ter mais amor à sua vida.

— Você não me assusta. — Ela disse baixo, pois sabia que soaria mais confiante assim.

O jovem deu um pequeno sorriso ladino, se afastou devagar e voltou a caminhar na direção oposta. E só aí Lorenna percebeu que suas pernas tremiam. Esperava que ele não tivesse percebido, pois seu vestido cobria grande parte de suas pernas. Tentou estabilizar sua respiração, coisa que ela havia parado de fazer quando Castiel a surpreendeu.

— Pare de apontar isso para mim, por favor. — Ele falou ao parar por alguns segundos.

Ainda estava parada, mas pareceu acordar nesse momento e voltou a andar, guardando a flecha de volta na aljava e encaixando o arco no braço.

O resto do caminho foi em silêncio, mas Castiel se pronunciou assim que chegaram em uma clareira.

— Chegamos. — Disse e caminhou até o calor do sol tocar seu corpo. Olhou para o céu e cessou seus passos para admirar a bela visão.

Lorenna parou, ainda perto das árvores. O céu contrastava em tons de rosa, roxo e um laranja-amarelado. O sol estava tocando a linha do horizonte e já começava a querer sumir. O lago que dividia as árvores do gramado exposto, brilhava ao refletir os últimos raios de sol. A grama era bem verdinha e cheia de flores que lhe faziam companhia. Lírios, tulipas e margaridas coloriam e contrastavam com a aquarela do céu. No meio de tudo aquilo, que parecia um quadro, havia uma casinha de madeira. Era alta e tinha uma escada que levava até a porta de entrada e também servia para subir até a varanda.

A calidez solar tocou o rosto de Lorenna quando saiu das sombras, tirando suas sapatilhas para sentir o gramado fresco em seus pés. Também colocou a aljava e o arco no chão para sentir-se mais leve. O ar era bem puro e ela respirou fundo para tentar relaxar. O vento era forte e quase soltou seus cabelos, que estavam presos em um coque desgrenhado. Sentia-se bem, como nunca mais havia sentido. Queria deitar naquela grama e aproveitar a vista.

Castiel agora estava parado na varanda, debruçado sobre a cerca de madeira que a delimitava. Estava a esperando. Não queria incomodá-lo, então recolheu suas coisas e foi até ele.

— Desculpe.

— Não tem problema. — Ele sorriu. — Eu estava admirando a beleza também. Você ficou bonita com esse fundo esverdeado.

Castiel abriu a porta e deixou que ela entrasse antes dele. Acendeu a lareira. Ao crepitar do fogo, o recinto ficou iluminado, aquecido e mais aconchegante. Era um cômodo contíguo, o que era estranho para Lorenna. A sala de estar e a cozinha separavam-se apenas por uma pequena parede que chegava à altura de sua barriga. Havia uma escada do lado direito que dava para o andar superior. Abaixo dela tinha uma porta, que Lorenna presumiu ser a entrada para o porão. Era como se a casa fosse compacta.

— Pode ficar à vontade. — Disse Castiel. — Quer que eu guarde suas coisas?

— Não precisa.

— Tem um banheiro lá em cima, caso queira tomar banho.

— Esta é sua casa? — Ele aquiesceu. — E onde está sua família?

— Eu moro sozinho.

Lorenna teve compaixão dele. Era difícil ver um homem morando sozinho sendo tão novo. Imaginou que ele deveria ser muito solitário e que, talvez, tivesse perdido seus pais. A cidade ficava longe dali. Ele não devia ter amigos, assim como ela. Porém, a situação dele era mais triste.

— Sua casa é bem bonita e arrumada. — Observou, tentando agir normalmente.

— Não tem razão para que não seja.

Ela anuiu.

— A propósito, sim. Eu gostaria de um banho, mas eu não trouxe roupas.

— Eu posso lhe dar uma minha.

Ela não deveria aceitar. Não era correto uma jovem usar roupas masculinas, principalmente se fosse de um homem. Mas Lorenna já havia se rebelado o bastante para que isso não tivesse mais importância alguma.

— Tudo bem. — Concordou. — Onde fica o banheiro?

— Dentro do quarto, na segunda porta à esquerda. — Explicou, indo para a parte da cozinha para analisar os armários. — Vou deixar a roupa em cima da cama e depois poderemos jantar.

— Está bem. — Ela se aproximou da escada, mas parou no primeiro degrau para olhá-lo. — Castiel — Ele a encarou. —, obrigada por me deixar ficar aqui. Não quero incomodá-lo. Amanhã mesmo irei embora.

— Tudo bem. Pode ficar o tempo que desejar. — Fechou os armários. — Às vezes, é bom ter companhia.

Um sorriso brotou nos lábios dela, como uma flor que desabrochava ao alvorecer.

— Aliás, desculpe não ter me apresentado. Meu nome é Lorenna.

— É bonito. — Ele sorriu. — Combina com você.

— Obrigada. — Ela retribuiu o sorriso e logo pôs-se a subir os degraus, levantando a barra do vestido para não tropeçar.

Entrou no quarto que Castiel lhe dissera. Havia apenas uma cama, uma mesa próxima a ela e um armário. Colocou suas coisas em cima dos lençóis e as sapatilhas no chão. A lua iluminava o quarto através da janela. Conseguiu ver uma lamparina e fósforos em cima da mesa. A acendeu e foi até a outra porta, onde ficava o banheiro. Era pequeno, mas tinha uma banheira enorme que tomava metade do aposento. Lorenna colocou a lamparina sobre a pia e tirou as camadas de roupa que cobriam seu corpo.


¦ »🌹« ¦


Quando Lorenna subiu, Castiel organizou algumas coisas na cozinha para que pudesse preparar algo para comer. Deixou os ingredientes que usaria em cima da mesa e lembrou-se de que precisava pegar uma roupa para ela. Subiu até seu quarto e procurou em seu armário. Suas camisas eram grandes o suficiente para cobrir Lorenna até os joelhos, já que ela era baixinha. Pegou uma branca e uma calça que achava que não serviria nela por causa de sua cintura fina, mas teve receio de que a jovem sentisse frio.

Saiu de seu quarto e já iria bater na porta quando Lorenna a abriu. Interrompeu sua mão pouco antes de acertar a cabeça dela. Ela havia se sobressaltado um pouco, mas ficou parada. Estava enrolada na toalha, com os cabelos, agora soltos e molhados, grudando em seu rosto úmido. As bochechas dela adquiriram um tom avermelhado e, em um movimento rápido, Lorenna apenas pegou as roupas da mão de Castiel e fechou a porta antes que algo saísse da boca dele.

— Desculpe-me. — Castiel disse alto o suficiente para que Lorenna o ouvisse de dentro do quarto.

Castiel voltou para o quarto dele e também tomou um banho. Colocou roupas confortáveis, mas que cobriam todo o seu corpo. Não queria que Lorenna achasse que ele era um aproveitador. Em seguida, desceu para preparar o jantar. Fez panquecas de mirtilo e espremeu algumas laranjas para fazer suco. Não demorou para que ela também descesse, trajando apenas sua camisa.

— Sente-se — Ele deu um sorriso enviesado e puxou a cadeira para a jovem sentar antes de servi-la. — Desculpe-me, eu não queria ter causado aquela confusão.

— Tudo bem. A culpa foi minha. — Ela pegou o copo e bebeu um pouco do suco, tentando eliminar o bolo que se formara em sua garganta por conta da vergonha. — Eu achei que lhe havia ocorrido algum incidente, já que estava demorando.

— Nesse caso, eu realmente sou o culpado. Não deveria ter demorado tanto. — Ele começou a comer. — Por que não vestiu as calças?

— Não couberam. — Deu de ombros.

— Imaginei. — Sorriu minimamente. — O que achou das panquecas?

— Estão deliciosas. — Cobriu a boca com a mão para falar, já que estava mastigando. — Panquecas de mirtilo são meu prato predileto.

— Fico feliz de tê-la agradado.

Lorenna sorriu. A conversa fluía bem, sem que faltasse assunto. Ela não comentou sobre sua vida com Castiel. Ele também não. Ambos descobriram bastante coisas sobre o outro. Apenas gostos, desgostos e manias eram discutidos. Não queriam se envolver demais um pelo outro, pois sabiam que era algo passageiro. Ela não pretendia passar o resto da vida com ele. Não queria ser-lhe um estorvo.

Depois de risadas e olhares, Lorenna ajudou Castiel com a louça. Já era tarde quando ele apagou a lareira para que fossem dormir. Eles não haviam percebido o passar das horas. Esperou que ela entrasse no quarto de hóspedes para poder se recolher no seu. Aprontaram-se para dormir e deitaram-se em suas camas, cada um em seu respectivo quarto.

Lorenna apagou a lamparina que deixara acesa quando saiu do quarto e fechou os olhos. Tudo era estranho, mas tão libertador. Estava ainda um pouco ressentida pelos acontecimentos recentes, mas reconheceu que não se arrependia do feito. Fechou os olhos e tentou relaxar, aninhando-se mais na cama. E não demorou muito para que começasse a sonhar.

Um casal de crianças ria enquanto um corria atrás do outro sobre a grama verde em um dia ensolarado. Estavam brincando e se divertindo muito. Não era possível ver seus rostos. Estavam de costas, se afastando cada vez mais. Os cabelos brancos da menina e os vermelhos do menino esvoaçavam com o vento. Ele estava quase a alcançando quando ela tropeçou e caiu. O gramado fofinho amorteceu sua queda, mas não impediu que a menina ralasse o joelho. Um grito de palavras que não conseguira identificar ecoou antes do menino abaixar-se ao seu lado.

— Você está bem? — Perguntou ele, preocupado.

Ela sentou-se e mostrou-lhe o joelho ferido. Em poucos segundos, a ferida foi se fechando até que já não houvesse sequer uma cicatriz. A menina limpou o resquício de sangue que ficara ali e sorriu.

— É claro que estou bem, seu bobo! — O empurrou e ele também se desequilibrou, caindo com o traseiro na grama.

A menina levantou-se rapidamente e voltou a correr. Não demorou muito para que ele também se levantasse e corresse atrás dela para continuar a brincadeira de antes. Ela ria dele enquanto seu amigo corria, irritado e envergonhado, com as bochechas tão avermelhadas quanto seus cabelos.

Lorenna acordou-se. Passaram-se alguns segundos até que ela recobrasse as memórias de seu sonho. Era tão estranho que não conseguiu voltar a dormir quando se remexeu na cama. Ficou pensando e pensando o motivo de ter sonhado com algo que não tinha nenhum sentido para ela. Por horas e horas ficou trocando de posição, tentando voltar a dormir. Não obteve sucesso até o momento em que o sol já começava a despontar no horizonte e iluminar o quarto através da janela. Quando finalmente conseguiu adormecer, não teve mais sonhos e conseguiu descansar de forma calma e pesada.

4 de Agosto de 2020 às 22:32 1 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo Lago

Comentar algo

Publique!
Davi Morais Davi Morais
E então, veremos o que o Sasori fará a seguir... Kkkk, acho que a única coisa que eu realmente achei esquisito foi uma casa tão compacta ter 2 quartos e 2 banheiros
August 05, 2020, 23:52
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 2 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!