Contagem regressiva para a Copa dos Autores 2020. Registre-se agora e tenha a chance de ganhar prêmios!. Leia mais.
anapaulaclara Ana Paula Clara

Os Presley não podiam ser caracterizados como uma família normal, mas isso não os impedia de tentar levar uma vida tranquila. Tendo em mente que a segurança de seus filhos devia ser levada muito a sério, Amélia e Norberto se mudam com seus filhos, Magnólia e Edgar, para um antigo casarão no alto de uma colina, cercados por um denso bosque. Mas quando você nasce especial, coisas excepcionais acontecem, e, ao buscar por um lar seguro para viver, os Presley sequer podiam imaginar que sua nova casa vinha com sua própria assombração de presente.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#paranormal #sobrenatural #medo #assombração #terror #morte #funeraria #criaturas #vampiro #conto #assombrado #monstro
Conto
1
790 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

A COISA QUE MORA NO TETO


A família Presley mantinha-se num difícil impasse; de um lado, havia Amélia, a matriarca, com os ombros empertigados, braços cruzados sobre o peito, a expressão incisiva de que não sairia daquela sala enquanto não conseguisse um sim unânime para aquela questão. A seu lado, estava Norberto Presley, o patriarca abatido, com os ombros caídos e os braços apoiados nos braços da poltrona de respaldo alto, uma das pernas imobilizada, repousando sobre um puff cor de cobalto, sem realmente se importar com a questão. Queria apenas um alívio para sua dor. Em anos carregando caixões nunca imaginara que certa manhã acabaria por escorregar na escadaria do porão e quebraria uma das pernas enquanto descia à procura de uma garrafa de licor. Se tivesse escorregado e quebrado uma das pernas carregando um caixão, ele entenderia. Ossos do ofício. Mas escorregar na escadaria à procura de uma boa dose de licor? Ele jamais imaginaria. Em sua vergonha, havia dito a Magnólia, sua filha mais velha, que havia se assustado com um rato, perdido o equilíbrio e rolado escada abaixo. Nunca diria a elas que escondia licor no porão. Ainda mais tendo uma esposa de gênio colérico e indomado. Já a pegara bebendo escondido na biblioteca para acalmar os nervos. Ela nunca poderia saber do estoque secreto do porão.

Deitado no chão, lendo um instrutivo livro de cirurgias pulmonares, estava Edgar. Era um menino pálido, esquálido, de cabelo cor de areia molhada e grandes e aquosos olhos azuis. Era um menino bonito, se você gostasse de coisas esquisitas. Embora prestasse atenção na discussão acirrada que ocorria acima dele, não dava importância a quem ia e a quem ficava, afinal de contas, o trabalho dele era o de receber os parentes vivos. Era Magnólia e o pai quem lidavam com os mortos. Embora ele achasse lidar com os vivos muito mais difícil do que lidar com os mortos.

Magnólia mantinha-se agitada ao redor deles. E sua agitação era a única coisa que lhe dava um pouco de cor. Era uma jovem extremamente pálida, e se você acreditasse em vampiros, certamente a confundiria com um. O cabelo era de um preto profundo, como uma noite sem lua, e caíam em ondas pesadas até a cintura. Estava sempre vestida de preto, mais por questões de gosto do que por moda. As jovens da paróquia tingiam-se de rosa flamingo, verde menta, azul anis, mas Magnólia tinha uma coleção inestimável de vestidos pretos. E era nela, nesse conjunto inconfundível de traços e tecidos que os olhos do nosso convidado estavam presos.

Edmundo era claramente um forasteiro para a família Presley. Uma águia no ninho dos corvos. Ou urubus, conforme a boca de quem você ouvisse a história. Era um rapaz alto e forte, acostumado a trabalhar ao ar livre, e sua pele tinha o tom invejável de mel. Os olhos eram um céu sem nuvens, e usava uma imaculada camisa branca debaixo do colete de veludo marrom puído. A boina descansava nas mãos nervosas, imitando inconscientemente a postura de Magnólia, que mantinha-se prostrada diante da porta do salão de cerimônias, as mãos unidas diante do corpo, um alerta de perigo para que Edmundo não achasse que ela era um obstáculo fácil de vencer.

Edmundo era obrigado a admirar a beleza excepcional e incomum de Magnólia, e embora tudo nela remetesse a candura e docilidade, ele também via nela um perigo inestimável. A morte também não era assim, gentil e afável? Os lábios dela eram vermelhos como uma maçã crescendo no alto inverno, como se nela coubesse toda a cor negada ao resto do mundo. E tão vermelho quanto seus lábios era o enorme rubi preso por uma fita a sua garganta frágil e pálida.

Percebendo o olhar do rapaz, Magnólia se enfureceu. Sua pele jamais era tingida por cor, a não ser, em momentos como este, quando a mãe insistia para que trouxesse alguém da paróquia para ajudá-los. Alguém que claramente tinha intenções terríveis.

― A ajuda dele não é necessária, mamãe― embora uma fúria latente despertasse nos olhos da garota, seu tom era calmo e sutil, ponderado. Edmundo admirou-se de sua postura imperturbável.

― Mas é claro que é― rebateu a mulher, a voz elevando-se a cada negativa da filha. ― Você não pode carregar um corpo sozinha. Além disso precisa preparar o cadáver, vesti-lo, colocá-lo no caixão e colocá-lo na carroça para levá-lo até a igreja ou até a floresta, dependendo do cliente. Pode fazer tudo isso sozinha?

Magnólia aquiesceu.

― Bem, Edgar pode me ajudar. Se ele segurar o corpo pelos tornozelos…

― Não é o jeito certo de tratar um morto― arguiu Edgar, querendo fugir da responsabilidade.

― Seu irmão tem razão, querida― foi a primeira vez que Norberto se pronunciou. ― É muito trabalho para uma menina fazer sozinha. E depois dessa noite, a febre virá…― Edmundo engoliu em seco e buscou algo no olhar de Norberto, que se perdeu no ar.

Mas isso foi o bastante para fazer Magnólia ceder.

― Só até o papai ficar bem― concordou Magnólia, mas ela não se moveu. Olhou para Edgar aborrecida, alisou o vestido sem rugas e desapareceu pela entrada do salão, e percebeu Edmundo, que ela levou uma parte das sombras com ela.


***


Como dissera Norberto, a noite veio furiosa e implacável, trazendo uma tempestade terrível, e com ela, a promessa de que levaria algo em troca de toda aquela violência. E com isso, a velha Dursila partiu nos mais profundos terrores noturnos. Fora encontrada pela empregada ao amanhecer, o coração havia parado, assim como um relógio havia decidido não marcar mais as horas.

Edmundo subiu a colina com a carroça da funerária, com dificuldade de guiá-la pela terra enlameada, e com um tremor de susto, ele viu Magnólia o esperar na entrada da funerária, com uma mão segurando a porta para ele, e com a outra, mantendo o tecido negro do vestido junto ao corpo, pois o vento frio o sacudia como uma cortina.

Como era linda, pensou Edmundo. E aquela joia em seu pescoço parecia pulsar como um segundo coração fora do corpo. A morte devia ser mesmo lucrativa, pensou, pois cada um deles parecia carregar consigo algo de inestimável valor.

Magnólia e seu coração de rubi. Amélia tinha uma coleção valiosíssima de diamantes azuis que rodeavam o pescoço como uma cascata de lágrimas. O cachimbo de Norberto e a caixa de rapé eram de ouro cravejado de esmeraldas. Até o desajeitado e manco Edgar tinha uma correntinha fina prateada e longa escondida pela camisa, que certamente mantinha pendurada uma pedra valiosa.

Eles não mereciam aquelas riquezas, não quando lucravam com a morte e a tristeza de outras pessoas. Ele sim, que trabalhava de sol a sol para sustentar a mãe e os irmãos, plantando e colhendo, vendendo a preços miseráveis e padecendo. Mas quando ele vira a esquisita menina que havia se mudado para a mansão da colina, com um coração pulsando no pescoço, ele sabia que aquela era a chance de enriquecer. Pensou em propor compromisso à menina. Beleza não lhe faltava, isso, é claro, se Edmundo estivesse disposto a suportar a estranheza dela; às vezes, ela ficava parada olhando para o nada, como se estivesse ouvindo vozes, outras, ela parecia fazer as sombras ondularem, e em ocasiões ainda mais raras, em que ele se escondera para olhar, ela segurava o rubi com carinho e sorria, olhando para longe, como se esperasse alguém.

O que Edmundo mal podia imaginar fora o preço de cada uma daquelas joias. Amélia ganhara o colar de lágrimas do próprio deus do inverno, quando ela ainda era menina e corria livre pelas matas indomáveis do extremo leste, quando deuses ainda eram adorados e ele em pessoa lhe propôs casamento e ofereceu a ele um colar de suas lágrimas, depois de matar três pretendentes apaixonados que ofereceram a ela um compromisso. Ela o aceitou, mas disse a ele que não poderia se casar com alguém que não amava.

Norberto recebera o cachimbo e a caixa de rapé das mãos da própria Morte, que dissera a ele que enquanto ele carregasse aqueles tesouros, o demônio do inverno não poderia tomar sua vida, isso porque Norberto era um bom homem que havia recebido a simpatia até da própria Morte, que tamanha estima tinha por ele, o deixara viver à soltos séculos. Em agradecimento, ele decidira enviar à ela os mortos em melhores condições, prestando homenagens a ela. A Morte abençoou também os filhos dele.

Edgar certa vez escorregou pelo barranco e caíra numa corredeira, quebrando uma das pernas. Enquanto afundava, uma sereia que havia perdido seu filho o achou e o salvou, dando a ele uma corrente fininha com uma escama brilhante e muito valiosa da cauda de seu filho, e agora Edgar tinha duas mães, uma que corria por florestas congeladas e outra que vivia nas profundezas dos mais frios lagos.

Magnólia e Edgar tinham bênçãos da Morte, portanto, o demônio que amava sua mãe não podia tocá-los, mas isso não impedia que outros não estivessem à espreita. Numa tarde enquanto Magnólia colhia pinhas para decorar a casa para as festividades, ela não percebeu a presença do perigo à sua volta. Ela se sentou ao lado de um lago para descansar e lavar as mãos quando ouviu passos esmagarem a neve, e um lobo imenso apareceu na clareira. Magnólia congelou. O lobo rosnou e saltou em sua direção, e em pleno ar foi atingido por um homem. Fera e homem rolaram na neve, e em desvantagem, o homem recuou, ferido e encurralado. E quando o lobo se preparou para dar o golpe de misericórdia, Magnólia atirou uma pedra no olho da fera, e isso permitiu que o homem pudesse matá-lo. Mas ele estava ferido demais quando o fez, e assim que matou o lobo, caiu inconsciente na neve.

Magnólia o arrastou para seu lado da margem e acendeu uma fogueira sob a proteção de um olmo. Mesmo muito jovem, era muito bela e corajosa. Quando ele acordou, ele a agradeceu por ter salvo sua vida.

― Uma menina não devia estar sozinha na floresta.

― A Morte cuida de mim― ela respondeu firme.

― Bem, você não facilita para ela, enfrentando lobisomens e salvando vampiros. Eu bem que poderia matar você aqui e agora.

Mas não havia censura em sua voz. Magnólia balançou a cabeça, e ele aquiesceu. Ela sabia que ele não a machucaria.

Então ele pegou a neve e a moldou com as mãos até ter a forma de um coração, e sangrou sobre ele, e o gelo solidificou como uma pedra.

― Você ainda é muito jovem, embora seja muito nobre e corajosa. Quando a vi diante do riacho, soube que a vida sorriu para mim e os céus me abençoaram. Mesmo uma criatura como eu talvez tenha o direito de ter alguma felicidade. Então um dia eu voltarei e a pedirei em casamento. Até lá― ele pousou a pedra estranhamente quente e pulsante entre os dedos dela― , cresça forte e ainda mais valente, pois quando voltar, farei de você minha esposa.

― E você sabe se quero me tornar sua esposa?

Ele a olhou, desconcertado.

― Você não quer?

― Eu não conheço você.

Ele apoiou os pulsos sobre os joelhos e entrelaçou os dedos.

― Você pode perguntar o que quiser.

E então ela perguntou, e ele respondeu de forma honesta e visceral. E quando o sol se aproximava do horizonte, ele a pediu em casamento mais uma vez e Magnólia aceitou. Ele deixou a capa sobre os ombros dela e partiu. Magnólia amarrou a pedra na garganta e nunca mais a tirou, esperando pelo retorno de seu noivo.

A pedra não teria valor algum para qualquer pessoa além de Magnólia. Se Edmundo prestasse verdadeira atenção, ele saberia disso. Era uma joia feita de sentimentos, e sentimentos são assim, só se tornam possíveis nas mãos das pessoas certas. E se você tentar tomá-los à força, eles irão se corromper até se transformar em ódio. E a cor do ódio era completamente diferente.

Edmundo entrou na sala de teto alto, cujas janelas estavam sempre abertas para circular o ar. O interior parecia a nave de uma minúscula igreja, ou a sala de um castelo de um lorde decadente. Sem muito cuidado, Edmundo deixou o corpo da senhora sobre a mesa no centro do aposento. Com muito mais graça e precisão, Magnólia afastou o cabelo para trás, expondo o pescoço esguio adornado pela joia. O prendeu com uma fita, amarrou um avental na cintura e arregaçou as mangas do vestido, revelando antebraços feitos de porcelana.

― Pobre mulher― murmurou Edmundo, inaudível.

― Eu não teria tanta certeza― disse Magnólia, que estava tão acostumada com o silêncio que poderia ouvir uma barata passando pelo canto da sala.

Ela ouvia tudo naquela casa. As notas soltas e selvagens murmuradas pela mãe, que ela aprendera no interior frio das florestas ancestrais, o tilintar das garrafas do pai, escondidas com muito cuidado no porão, ocultas pelos frascos de líquidos químicos, ao lado das passagens de ar, as tentativas do irmão de prender a respiração, e também, com uma inquietação crescente, o arranhar de alguma coisa que se movia na escuridão, raspando entre as paredes numa procissão lenta e agonizante. E quando a casa toda se aquietava e só restava ela para ouvir, ela era capaz de escutar os ecos do próprio silêncio.

Magnólia mergulhou uma esponja numa bacia, tirou o excesso de água e pingou óleo perfumado sobre ela.

― Como pode dizer isso? Ela está morta.

― A morte não apaga os pecados das pessoas. Não muda o fato de que foram boas ou más.

― E como sabe disso? Você nem a conheceu.

Mas Magnólia conhecia. Bastava um toque para saber. Quando despiu a mulher e seus dedos tocaram o braço ela, ela soube.

― Eu tenho um sexto sentido para essas coisas. Essa mulher…

― Dursila.

― Dursila. Ela foi uma pessoa má. A Morte não se alegra com oferendas assim…― Magnólia murmurou. ― Ela fica triste.

― Como você sabe disso? Digo, você consegue saber esse tipo de coisa com tudo mundo? ― ele estendeu a mão, ansioso para que ela o tocasse. Queria saber se a pele dela era tão fria quanto parecia.

― Você precisaria estar morto para eu saber― a resposta dela foi breve, mas foi o bastante para desestruturá-lo e fazê-lo puxar a mão depressa.

Edmundo pulou para o lado quando um som seco e perturbador ecoou do canto da sala. Magnólia encarou a parede aborrecida, como se já esperasse aquele som.

― Acho que há ratos por aqui.

― Não acha que é muito grande para ser um rato? Digo, que tipo de rato faz esse barulho? ― Magnólia bufou. ― Nem sempre foi assim― confessou Magnólia. ― Quando nos mudamos, não havia esses sons. Pelo menos, não muito. Era esporádico e eu realmente achava que pudesse ser um rato. Ou um roedor maior. Mas começou a se manifestar sistematicamente, como se correspondesse aos sons da casa.

― Acha que pode ser um animal?

― Não― disse Magnólia simplista. ― Não acho que um animal tenha inteligência o bastante para responder.

Edmundo balançou a cabeça, concordando, mas parou abruptamente.

― Responder?

Magnólia terminou de limpar Dursila e então a vestiu com o vestido que a empregada havia mandado. Era simples, preto, tão puído que Magnólia pensou que a empregada devia desgostar muito da mulher para mandá-la para o outro lado com aquela vestimenta.

― Ponha-a no caixão.

― Não tem que fazer uma prece ou algo parecido?

Magnólia o olhou confusa.

― Eu deveria?

Ele deu de ombros.

― Não sei. Mas você será uma das últimas pessoas a vê-la.

― Bem, acho que você tem razão― Magnólia rodeou o corpo da mulher e tocou as mãos murchas e amareladas unidas sobre o peito. ― A senhora foi uma pessoa ruim em vida, mas agora tem a oportunidade de se redimir. Não A tema, Ela é gentil, se você olhar do ângulo certo.

― Ela? ― Edmundo a interrompeu.

― A Morte.

― Oh, sim, desculpe, continue.

― Seja uma boa pessoa de agora em diante. Vá em paz, Dursila, que você encontre do outro lado o que nunca encontrou aqui.

Então Magnólia se afastou, sentindo-se estranhamente emotiva, exposta diante Edmundo. Magnólia abanou o rosto para dissipar o estranho sentimento de comoção que a atingiu, e pigarreou delicadamente para encontrar o controle dos próprios sentimentos. Quando ele a colocou no caixão, a estranha emoção se foi.

― Você disse algo sobre responder― retomou Edmundo. ― Como assim o animal respondeu?

― Bem, na noite anterior enquanto eu tentava dormir, eu ouvi algo se arrastando no teto. De forma bem consistente. Tem sido assim há algumas noites. Eu estava aborrecida por não conseguir dormir, então joguei minha escova de cabelo no teto. E o que quer que estivesse lá não gostou da minha atitude e bateu de volta, lá de cima.

Edmundo sorriu.

― Está tentando me assustar.

― Juro que não! Eu não brinco com fantasmas. Eles não gostam quando não os levamos a sério.

A cor do rosto de Edmundo escoou; ela soltou a fita do cabelo e o vento adentrou pela janela, furtivo, agitando a massa negra de cabelo, e o cheiro de romã recendeu no ar. Ele recuou, atordoado, enquanto ela tirava o avental e ajeitava as mangas do vestido.

― Leve-a para a igreja. Se houver outro corpo, talvez você saiba primeiro que eu, por estar na paróquia. Mas se algum chegar das redondezas, eu toco o sino do bosque.


***


Magnólia acordou devagar, como uma bruma deslizando pela orla de um lago, os olhos embaçados pelo sono, formando a imagem de uma sombra macilenta e frágil diante os olhos dela. Magnólia não tinha medo de fantasmas. Quando você trabalha numa funerária, tem que se acostumar a ver fantasmas e até a ser simpática com eles, ou eles se zangam e começam a derrubar coisas. Alguns gostam bastante de falar. Mas aquela coisa que havia se embrenhado pelo quarto dela não era um fantasma. Não tinha as bordas desgastadas como um casaco velho, nem aquele brilho sutil perolado que os envolvia como um mosquiteiro.

Aquela coisa era definitivamente uma coisa não fantasmagórica.

E Magnólia não sabia lidar com coisas palpáveis que poderiam machucá-la. Algo em sua imobilidade autoimposta chamou a atenção na coisa que se esgueirava por seu quarto. As unhas rasparam nas paredes e Magnólia fechou os olhos e discretamente moveu a mão até o rubi, envolvendo a pedra quente com os dedos.

Quando ela abriu os olhos de novo, a coisa não estava mais lá.


***


Depois daquela noite, Magnólia se sentia observada. Aonde quer que fosse, parecia que um olho havia brotado na parede e a seguia aonde quer que ela fosse. Magnólia podia ouvir a coisa respirando, movendo-se entre as paredes, arranhando a madeira com as unhas.

Ela não dormiu mais sozinha. Numa noite, pulou para o quarto do irmão, mas visto que ele era tão indefeso quando ela, e que poderia levar a atenção daquela coisa a ele, Magnólia foi para o quarto dos pais, mas o ronco do pai era mais assustador do que a coisa que habitava o teto e então ela partiu em busca de um lugar seguro e tranquilo para dormir.

Então ela passou a dividir a funerária com os mortos; levava alguns cobertores quando todos dormiam, e então ela entrava no armário de vassouras, trancava a porta e se encolhia no canto, perto dos esfregões, e dormia em curtos intervalos até achar que estava segura.

Até que numa noite ela acordou com a sufocante sensação de estar acompanhada. Havia um olho preto e esbugalhado a observando pela fresta da porta. O grito de Magnólia ecoou pela casa e teria levantado os mortos, mas ele apenas tirou sua família da cama, que a encontrou tremendo no armário, com a cabeça coberta pela manta xadrez e velha que ela tinha desde criança.

Sua mãe a abraçou e tentou arrancar palavras dela, mas só balbucios trêmulos deixavam os lábios de Magnólia: olho, maligno, pelos pretos, faminto e não consigo dormir.

Preocupada de que pudesse ser uma brincadeira do demônio do inverno, Amélia foi até o bosque e chamou por ele, que apareceu diante dela feito uma nevasca, para então tornar-se um homem usando um imponente casaco branco e azul, bordado com cristais de gelo e diamantes.

Ele não sabia de nada, e fez um juramento a ela de que se um dia fizesse mal aos filhos dela, ele se transformaria em uma pilha de cinzas e o inverno morreria com ele. Amélia o conhecia o bastante para saber que ele cumpria com suas promessas, e mesmo que ele a amasse, o inverno era necessário e por amor nenhum ele deixaria de existir.

Vasculharam a casa. Morte não sentiu a presença de nada fantasmagórico, e acabou levando os trêmulos fantasmas que gostavam de ficar na funerária. Morte perguntou se algum deles havia visto alguma coisa, e então todos eles se calaram de medo, até que Dursila, que havia ficado ali por mera curiosidade para com a menina que havia lhe dito palavras tão honestas e gentis sobre o pós-morte, confessou:

― Ela veio de lá― apontou Dursila com seu dedo de galho para a parede. ― Era uma coisa tenebrosa, uma massa de tecido e cabelo. Nunca vi demônio mais assustador― estremeceu Dursila. Magnólia empalideceu ao se lembrar do breve vislumbre. ― Era a face do mal e da fome. Certamente é um espírito atormentado que não encontrou paz.

― Não― disse Morte como um vento gélido e uivante. Nem um vislumbre sequer de seu rosto era visível através do capuz. ― Não há nada morto aqui, além de vocês. Nem de maligno. Este lar é protegido por muitas bênçãos. O mal não pode colocar os pés aqui.

Amélia sorriu satisfeita. Norberto olhou para a filha atormentada, que não parecia duvidar das palavras da Morte, mas também não estava tão certa assim sobre o mal não estar ali.

Morte partiu após beijar cada uma das cabeças ali, em especial a de Magnólia, e ela tocou a pedra com um dedo frio, e o coração de rubi pulsou dolorido na garganta da menina. Morte suspirou com tristeza, e então partiu levando as almas consigo.

― Quer dormir? ― Amélia perguntou para Magnólia, que negou veemente. ― Nós vamos velar por seu sono.

Magnólia assentiu, grata. Ela se deitou entre os pais, e pela primeira vez em dias, dormiu em paz.


***


Quando Magnólia desceu, parecendo melhor, mas ainda sim cansada, ela pôde pensar nas palavras de Morte: nada morto ou maligno pairava naquela casa. Se não estava morto, não era um fantasma, mas certamente devia ser um demônio. Mas demônios eram malignos, certo? A pergunta ecoou em sua mente, pois um demônio era apaixonado por sua mãe, e nada maligno poderia ser capaz de amar. E ela amava um homem amaldiçoado cujo muitos chamavam de demônio.

Ela refez seu caminho, subindo as escadas até a cozinha onde preparou pão e vinho. Levou a bandeja para o corredor que dava da funerária à área de serviços, mas era frio e sombrio demais e ninguém o usava. Ela o deixou lá como uma oferta de paz.

E quando foi ver na manhã seguinte, ela encontrou a bandeja quase intacta, se não fosse pelos ratos que se aproximaram demais.

Ratos esses que se encontravam em pedaços ao redor da bandeja. Magnólia engoliu em seco, enojada pelo cheiro e pela cena das vísceras dos ratos espalhadas. Ela cobriu o nariz com o xale e voltou para a funerária, trancando bem a porta ao passar.


***


Um corpo chegou naquela tarde, e ela o preparou distraidamente, cometendo muitos erros no processo. Edmundo a observava silenciosamente a sua mão esbarrou na dela quando ela bateu a mão na bandeja.

― Desculpe― ela murmurou, sobressaltada. Edmundo não soltou sua mão.

― Desculpe se for ousadia tocá-la assim― o olhar dele foi até o busto pálido dela, adornado pela joia. Ela puxou o braço com força, e teve a impressão de ouvir unhas raspando na parede. Magnólia recuou.

― Não me toque― ela disse com a voz rouca, mas sua mente mantinha-se presa na porta trancada do corredor da funerária. Ela teve a impressão de ver uma sombra passando por baixo da porta. ― Não permito.

― Desculpe― disse falsamente constrangido. ― Mas é que você é adorável. Eu sinto muito por ser impertinente, mas se eu pedisse permissão ao seu pai?

Os olhos dele não deixavam a joia. Ela o cobriu com a mão e o encanto se quebrou, e Edmundo finalmente olhou para o rosto dela, e Magnólia odiou ver o que viu nos olhos dele.

― Eu sou noiva.

― É mesmo? ― Edmundo não pareceu convencido. ― Por acaso foi ele quem lhe deu esta joia?

― Sim. Quando me pediu em casamento.

― E onde ele está agora?

A resposta se perdeu, pois ela também não sabia. Magnólia não tinha notícias desde o dia em que ele a deixou sob o olmo. E a expressão de pesar de Morte quando tocou a joia a fez vacilar em sua fé sobre o compromisso ofertado. Os olhos dela se encheram de lágrimas. Ele avançou para tomá-la nos braços e lhe dar conforto, mas neste momento, Edgar, descendo de dois em dois degraus saltou na funerária, assustando-os. Ela olhou para a porta fechada, e a sombra havia recuado.

― Já está pronto?

― Oh, quase― ela se apressou em esconder as lágrimas e terminar de preparar o corpo. Fez uma prece rápida e não ficou para assistir Edmundo colocar o corpo dentro do caixão.


***


Magnólia cochilou na biblioteca, uma parte da casa muito usada por eles. A família tinha um cravo qual Magnólia gostava de tocar para todos, e Edgar até mesmo tirava a cara de seus estudos e parava para ouvi-la tocar. A mãe lia seus romances nada púdicos para eles e Norberto era um adepto de poesia e ciências, mas também apreciava as histórias dos antigos, e quando propunha-se a contar os mitos ancestrais, os dois se sentavam aos pés dele, e Amélia ficava na poltrona ao lado, fingindo não estar completamente capturada pelo tom profundo e melódico do marido com o qual dava vida a suas histórias.

Nas noites em que Magnólia se propunha a praticar sozinha, para tirar alguma canção insistente que costumava rondar pelos bosques de sua mente, ela ouvia as batidas ritmadas do outro lado da parede, fazendo coro à sua música, respondendo a ela. E quando o torpor da música passava, Magnólia era atingida pelo terror de haver algo do outro lado muito consciente de sua presença, e quando isso acontecia, ela fechava o cravo e deixava a biblioteca como se algo de maligno estivesse em seu encalço. E desde que percebera a presença dentre as paredes, deixara de praticar sozinha, e só se atrevia a tocar o instrumento na companhia de sua família.

Ela acordou ao captar um movimento pelo canto dos olhos, e quando olhou para os pés, suprimiu um grito de horror, pois deixado em uma folha de jornal, havia uma família de ratos mortos.

Ela havia deixado uma oferenda para a coisa, e a coisa havia retornado o favor.


***


― Isto está ficando incontrolável! ― sibilou Norberto, que nunca sibilava. ― Esta… esta...coisa é perigosa!

― Mas por que só apareceu para Magnólia? ― murmurou a mãe em igual situação.

― Vai ver ela achou a beleza da Magnólia estonteante― não havia desdém na voz do menino. ― Talvez ele ache que Magnólia seja uma criatura semelhante.

― Edgar! ― ralhou Amélia. O menino deu de ombros, desculpando-se.

― Ela já foi confundida antes. Ela se parece com uma condessa vampiro. Talvez até mesmo uma divindade, se olhar por certos ângulos. E com todas as bênçãos que temos, talvez sejamos mesmo, em menor grau. A coisa até mesmo deixou uma oferenda para ela. É possível que venere Magnólia.

― Então acha que não quer me machucar? ― indagou Magnólia ao irmão.

Ele deu de ombros mais uma vez.

― Se essa coisa quisesse te machucar, já teria feito. Oportunidade não faltou.

― Vendo por esse lado, ele tem razão― disse Amélia, pouco convencida.

― E se eu tentar falar com ela? ― sugeriu Magnólia.

― Eu a proíbo!― disse Norberto. ― Não vou deixar que se arrisque.

― Mas de que outro jeito eu saberei o que a coisa quer? ― perguntou veemente.

― Se eu não tivesse quebrado a perna agora, eu mesmo iria até essa coisa e daria um jeito de atirá-la para fora daqui.

― Querido, acalme-se― Amélia pousou a mão no ombro dele. ― Morte disse que não havia nada maligno aqui.

― Eu não teria tanta certeza― murmurou Magnólia ao ver Edmundo cruzar a estreita estradinha que dava até a entrada do necrotério.

― Vá, queria― disse Norberto. ― Um corpo vai chegar em breve. Pode ajudá-la, Edgar?

O menino suspirou aborrecido, distanciando-se do livro que falava sobre vida marinha.

― Desculpe, querido― disse Amélia pousando a mão no cabelo fino do menino. ― Vai ter que aprender sobre como respirar embaixo d'água depois. Sua irmã precisa de ajuda e sua mãe sereia pode esperar.


***


Edgar não gostava da presença de Edmundo. Achava-o interessado demais nos encantos da irmã.

― Ele precisa mesmo ficar aqui?― sussurrou para Magnólia. Ela manteve a expressão neutra, mas trocaram um breve olhar conspiratório.

― Papai ficará bem em breve.

O menino assentiu.

― Ele não para de olhar para o decote do seu vestido.

Magnólia se encolheu.

― A joia faz isso com as pessoas― ela murmurou com desgosto. ― Foi feita com o sangue de um vampiro. Atrai aqueles que estão famintos.

― Não acho que ele deseje apenas a pedra― sussurrou como uma brisa leve, e ela se arrepiou. ― Vou falar com a mamãe sobre isso.

― A mamãe acredita que ele é necessário e não vai dispensá-lo até que o papai fique bem.

Um brilho gelado se deslocou através das íris aquosas de Edgar.

― Não essa mãe. A outra. Talvez ela o afogue.

Magnólia pressionou os lábios para conter um sorriso cúmplice.

― Falta muito para despachar esse cadáver? ― entoou Edgar, entediado. ― Quero nadar no lago.

Magnólia nada disse sobre estarem no começo do inverno e a água está tão fria a ponto de começar a congelar.

― Já estou acabando― ela respondeu. Tocou as mãos unidas sobre o peito do senhor que havia chegado no começo da manhã. Uma sensação desagradável a atingia toda vez que o tocava, vendo coisas que não queria ver, até que ela não suportou mais. ― Não consigo― ela murmurou, nauseada. ― Pare de tocá-lo― gemeu Magnólia para o irmão. ― Ele fez coisas horríveis com crianças― ela segurou as mãos do irmão e as limpou numa bacia de água limpa. ― Ele é imundo. Não podemos fazer a preparação.

Edmundo se desencostou da parede, descruzando os braços.

― O que eu faço com ele?

― Algum parente reclamou o corpo? ― ela perguntou a Edgar.

― Não. Foi a senhoria do quarto que ele alugava que relatou a morte dele.

Magnólia limpou as mãos antes de soltar o cabelo e tirar o avental, mas não desfez as dobras nos punhos do vestido.

― Devíamos jogá-lo na floresta para que os animais o comam― ela murmurou. ― Talvez nem mesmo as bestas devam comer a carne dele.

Edgar assentiu com desagrado.

A funerária rodou ao redor de Magnólia; direita tornando-se esquerda e o teto e o chão trocaram de lugar. Ela se desequilibrou, vacilante como uma flâmula solta ao vento. O rubi pulsava com o desejo inflamado de Edmundo parado do outro lado da sala, que os observava como um animal à espreita. Mas Edgar estava ocupado demais para perceber o olhar de veneração, luxúria e desprezo que Edmundo reservava para a figura fraca em seus braços.

― Magnólia! ― exclamou o menino, aparando-a em seus braços. Nauseada e com falta de ar, ela chegou até a pia com a ajuda de Edgar, tentando apagar a sensação repugnante que se desgrudava da pele daquele homem. ― Chame a mamãe! ― exclamou o menino para Edmundo. Não tinha forças para carregar Magnólia.

― Eu posso ajudar― prometeu o rapaz.

Edmundo se moveu lentamente até a porta e a trancou. Magnólia levantou a cabeça quando ouviu o clique, que se desdobrou e reverberou no ar até ela. Ela se virou, mas era tarde demais, o peso da mão dele derrubou Edgar por cima de uma mesinha bamba cheia de utensílios.

― Edgar! ― ela se deixou cair até ele, e o virou nos braços, desacordado. Ela ergueu o rosto para Edmundo, mas os olhos dele estavam presos na joia em sua garganta. Ela cobriu o coração. ― Você quer isso?

Então o olhar dele correu pelo corpo dela.

― Você não entende― a voz de Edmundo saiu como um rosnado. ― Trabalhar colheita após colheita, ver o inverno matar o pouco que produzimos, a fome levar minha família estação após estação. Eu tinha uma irmãzinha, Isobel. Ela morreu no inverno passado, de fome e febre. Não tínhamos condições de salvá-la. E antes dela teve Marcos, e antes do Marcos foi a Elise. Meus irmãos morreram nos meus braços!

― Eu sinto muito por tudo de terrível que houve com você. Mas isso não é uma desculpa para ser uma pessoa maligna. Meus pais podem ajudar você.

Ele negou veemente.

― Eles não podem me dar o que eu preciso. Eu preciso da joia. E de você. Você vem comigo.

― Eu não quero ver coisas ruins quando tiver que preparar seu corpo― isso o fez parar e empalidecer, e então se avolumar sobre o próprio corpo, tomado de cólera.

A porta lateral da funerária batia sobre as dobradiças. Edmundo teria percebido se estivesse prestando atenção.

Ele mergulhou a mão forte e a agarrou pela gola do vestido, erguendo-a. Ela foi levantada como uma boneca, e Edgar caiu inerte no chão. Ele a pressionou contra a parede, e ergueu a mão para arrancar a joia dela. Magnólia o apunhalou com uma tesoura no ombro e ele rosnou, jogando-a com brutalidade no chão. Ela caiu, tonta, cega pela massa de cabelo que caiu sobre seu rosto.

Magnólia ouviu o som de pedra raspando e tecido se partindo. Tão próximo que podia sentir a vibração na pele.

E lá estava a coisa; rastejando por um duto de ar, abaixo dos armários suspensos, uma massa de cabelos emaranhados e oleosos, a pele coberta de fuligem e poeira, um par de olhos muito brilhantes, garras se projetando das pontas dos dedos que arranhavam o chão para se lançar para frente, se espremendo por aquele espaço apertado para chegar até ela. A coisa mostrou os dentes e chiou. Magnólia libertou todo o ar num grito de medo, e se jogou para trás, mesmo tonta, acertando uma bandeja com agulhas. A dor disparou como uma bala no crânio e desceu pelo pescoço. Ela sentiu sangue escorrendo pelo couro cabeludo.

O grito assustou Edmundo, que arrancou a tesoura no ombro e o jogou de lado. Ele avançou na direção dela, que tremia, tentando se afastar dele.

― Você só precisa me dar a joia e vir comigo. Não precisa se machucar, é só vir comigo. Nós vamos ser muito felizes, eu prometo.

Mas o olhar dela continuava para além dele, arregalado de medo, os lábios abertos, incapazes de gritar sobre o horror que se elevava atrás dele.

Magnólia a viu em toda sua forma e quis arranhar os próprios olhos para se esquecer daquele horror.

Edmundo a ergueu, e ela não se importou quando a dor correu por seu braço. Mas ela lutou quando Edmundo tentou arrancar o coração dela mais uma vez. Ele pegou uma das agulhas atrás dela e a perfurou na altura do ombro. Ela gritou quando o metal frio espetou fundo em sua carne, arranhado o osso.

A coisa atrás dele sibilou. Só então Edmundo a percebeu, mas era tarde, pois ela estava em pleno ar, ar garras estendidas, os dentes arreganhados, e Magnólia caía livremente. E quando chegou ao chão num baque doloroso, ela recobrou o equilíbrio, vendo a coisa com os dentes presos na garganta de Edmundo. Ele se debateu, o sangue tingindo o rosto da coisa como uma tela nefasta e sombria. E então a luz se apagou nos olhos de Edmundo e ele parou de se debater, caindo inerte no chão, o sangue fresco pingando dos dentes da coisa e formando uma poça sob o corpo dele.

Ela passou o braço pelo rosto, levando parte da sujeira embora, revelando tiras de pele muito clara por baixo, e um par de olhos azuis brilhou na direção dela. A coisa se abaixou, e enfiou a mão no peito de Edmundo, partindo os ossos com um som nauseante e desagradável. Magnólia não conseguiu desviar os olhos quando ela alcançou o coração dele e o tirou do peito.

A coisa o colocou na altura da garganta, e apontou de si mesma para Magnólia, exibindo os dentes num sorriso selvagem e faminto, como se dissesse somos iguais agora.

Com o coração em mãos como se fosse algo muito precioso, a coisa abaixou-se e voltou rastejando pelo duto de ventilação, e quando a porta da funerária foi arrombada pelos pais, ela já tinha ido embora.

Edgar despertou quando a porta bateu contra a parede, e ela permaneceu sentada próxima ao corpo de Edmundo, petrificada.

A coisa que morava no teto não era um demônio.

Era uma menina como ela.


***


Por fim, foram os pais que sumiram com o corpo de Edmundo. Para efeito de conversa, ele havia deixado um bilhete para a família. E como uma forma de recompensar o ocorrido, eles doaram uma quantia generosa para a família de Edmundo, e pelo que souberam anos mais tarde, haviam prosperado no ramo dos nabos e beterrabas e nunca mais padeceram pela fome e doença.

A perna do Norberto se curou e logo os Presley voltaram a sua rotina normal. Edgar continuava lendo em qualquer lugar, fazendo com que às vezes as pessoas tivessem que passar por cima dele e de seus livros sobre biologia marinha. O pai recebia agora a ajuda dos dois filhos, e às vezes descia em segredo para beber licor de cereja e amora e ler seus livros de culinária em paz, um passatempo adquirido durante sua recuperação.

Amélia lidava agora exclusivamente com os vivos, levando em conta que Edgar levava mais jeito com os mortos e passara a ajudar na preparação dos corpos e dividir seu tempo em aprender a ficar o máximo de tempo debaixo d’água para o próximo verão, quando fosse visitar sua mãe sereia.

Isso não a abalava. Não muito.

Magnólia às vezes ia até o bosque e esperava por seu noivo, os dedos firmes ao redor da joia, tentando saber pelas pulsações da joia junto de seu coração se ele estava vivo.

Às vezes, ela ouvia o som de tecido raspando em pedra e esperava pela presença poeirenta da coisa que morava no teto e entre as paredes, e então tudo silenciava. Ela nunca mais a viu, e em parte se sentia aliviada, pois ainda sentia certa apreensão por saber que algo a observava sem ela conseguir ver de volta, e em parte grata por saber que havia alguém que cuidava dela. E de vez em quando, ela deixava presentes para a menina, como fígado cru e vinho, cobertores e roupas. E como agradecimento, Magnólia costumava encontrar ratos e pombos mortos aos pés de sua cama.


***


Esta história foi baseada em um evento verídico.

Magnólia, Edgar, o noivo vampiro, a mãe sereia e o demônio do gelo voltarão em breve.

Se leu até aqui, muito obrigada por seu tempo e dedicação. E se gostou, não custa me deixar um coraçãozinho ou um comentário. Assim vou saber se gostou.

Se não, talvez alguma coisa rasteje no seu teto. Imagine estar dormindo, e do nada alguma coisa rastejar no silêncio e na escuridão? Cruzes, não desejo isso para ninguém.

Tenha uma semana fantástica e que nada te assuste enquanto você dorme :)

Adoro vocês.


3 de Agosto de 2020 às 14:52 0 Denunciar Insira Seguir história
3
Fim

Conheça o autor

Ana Paula Clara Leitora e escritora voraz de histórias fantásticas. Apaixonada por música, palavras e coisas que só fazem sentido na cabeça de quem imagina, encontrou na escrita um lugar onde tudo isso pode existir para tocar e transformar as pessoas.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~