Estamos tendo alguns problemas de lentidão em nosso site. Pedimos desculpas e agradecemos sua paciência enquanto trabalhamos para restaurar a velocidade.
leonardo-janeczko1590198770 Leonardo Janeczko

Monstros vivem escondidos em uma taverna no interior de um pântano, até um civilizado ser encontrado morto dentro do limite de seus territórios, uma misteriosa garota se perde de seu pai e encontra as horrendas criaturas. O que acontecerá com a garota ? Quem será o culpado ?


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#vampiros #preconceito #brasil #reflexão #341 #227 #402 #monstros
Conto
2
1.2mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Um som ecoou pelas árvores retorcidas do pântano, um galope distante aproximou-se rapidamente da tímida construção que se escondia sob os ramos de um chorão. Sua aparência era rústica e as únicas decorações eram dois crânios de crocodilo ao lado da porta, cada um em uma extremidade, uma placa pendurada indicava o nome: "Taverna Mosca Morta". Apesar do cheiro de água podre que pairava, a taverna ainda era aconchegante a seu modo. O coaxar dos sapos era quase música natural. A construção escondia-se como uma criança atrás das pernas dos pais e por isso não era difícil que passasse despercebida.

Elias bateu os pés no degrau antes da porta a fim de retirar um pouco da lama grudada na sola das botas. Dali mesmo onde estava, já conseguia ouvir os gritos de Davri, o ogro, voltou seus pensamentos aos lugares chiques que um dia frequentou, entretanto, teria que contentar-se com o que tinha. Atualmente, esse era o único lugar que aceitava vampiros e outras monstruosidades como ele.

A mobília era tão simples quanto a entrada, uma mesa redonda disposta com quatro cadeiras bem no centro do pequeno salão. A direita, um balcão mal cuidado com algumas bebidas ostentava toda a riqueza do lugar, de qualquer forma, nem todos os clientes conseguiam beber. Portanto, a variedade de bebidas nunca foi problema. O ambiente iluminado pela luz de velas tinha um tom quase romântico, tirando o cheiro de sujeira, lama e suor.

Davri espremia-se na cadeira, enquanto entornava uma garrafa de alguma bebida estranha e berrava suas gloriosas histórias de batalha. Ninguém acreditava no que ele dizia, com exceção talvez do goblin, Pogo, conhecido por ser tão ingênuo quanto uma criança. Elias estava prestes a sentar-se quando Quase Nada, o esqueleto, entrou no recinto e o cumprimentou.

Davri fez um sinal convidando os recém-chegados a se juntarem a ele, porém Elias não estava ali não era para passar o tempo. Ao sentar-se, interrompeu a história do ogro, colocando o cartaz que havia pego mais cedo no centro da mesa, todos se entreolharam e, por um momento, reinou o silêncio. Pogo foi o primeiro que se rendeu à curiosidade de observar o cartaz claramente recente e o que nele estava escrito não deixava dúvidas: "Desaparecido: Tomas Silvano, visto pela última vez indo em direção ao pântano".

Todos ali já foram em algum momento caçados ou procurados, não era isso que preocupava. As regras eram explícitas, não podiam matar ninguém no território do Mosca Morta, seja civilizado ou monstro. Mas, de acordo com que Elias viu, ela havia sido quebrada. Isso colocava o lugar em risco e, sem ele, não haveria mais lugar para chamar de lar. Alguém os havia traído, mas quem e por quê?

Mosca Morta nunca esteve tão vivo quanto naquela noite, enquanto todos ficaram nervosamente em silêncio, a porta se abriu vagarosamente. Para espanto geral, quem entrou foi uma convidada, até então desconhecida. Uma garotinha de cabelos cor de milho, feições angelicais e olhos cor de amêndoa encarou curiosamente a todos, apresentou-se dobrando os joelhos com nobreza, apesar de suja sua compostura era irrepreensível, disse-lhes se chamar Alice e havia se perdido de seu pai, dois dias atrás.

A desconfiança só aumentou quando Elias explicou toda situação, sabiam que muito provavelmente aquela garotinha era filha do homem encontrado morto, portanto, não poderiam deixá-la ir tão facilmente. Ajudá-la estava fora de cogitação, os civilizados e monstros nunca se misturavam, todos sabiam disso. Menos Pogo que correu encantado até a recém chegada e a encheu de perguntas. Em vez de correr assustada com a proximidade de Pogo, Alice apenas sorriu e o olhou com ternura. Com o passar do tempo todos conversaram e se aproximaram da garota como se a conhecessem a anos. Menos Elias que não confiava em civilizados, como ela. Seu sorriso, seu cheiro e seu jeito, tudo nela o incomodava.

A garotinha não demonstrou nenhum medo, ao contrário, parecia ter uma admiração estranha. Era a primeira vez que um civilizado os tratava como iguais, até o brutal Davri se rendeu a simpatia da menina. O vampiro levantou-se bruscamente e interrompeu a pequena reunião, todos sabiam de uma preocupação maior do que a garota no momento. Fato é: foram traídos, e precisavam resolver isso o mais rápido possível. Elias tinha suas desconfianças de Davri, sempre um brutamontes que odiou seguir regras, ou quem sabe Pogo que se escondia atrás daquela máscara de inocência.

-Parem de perder tempo, bastardos! Ignorem essa civilizada inútil. Temos um traidor entre nós. - esbravejou Elias.

-Por que está tão irritado? - questionou Davri.

-Porque vocês estão perdendo tempo com esta garota, enquanto deveríamos achar o culpado. - respondeu, rispidamente.

-Elias tem razão - interrompeu Quase Nada - não há nenhum outro monstro nesta região.

-Estou atrapalhando ? - perguntou timidamente a garota.

-Percebeu apenas agora ? - respondeu o vampiro, sem hesitação.

-Pogo não gosta que Elias seja grosseiro. - retrucou, torcendo os lábios.

-Cale-se, goblin! - vociferou.

-Por que está agindo assim ? Por acaso está escondendo algo ? - quis saber o ogro

-Eu quem deveria lhe perguntar, brutamontes! - refutou Elias, enquanto apontava o dedo na cara da criatura - Todos sabem que é a sua cara perder o controle e fazer burradas.

-Vocês está tirando conclusões precipitadas! - resmungou o esqueleto - Davri teria nos contado se tivesse matado aquele homem.

-De quem vocês estão falando ? - perguntou Alice, com um misto de medo e curiosidade.

-De um idiota que resolveu dar um passeio aos arredores do pântano e ser morto! - respondeu Elias, bufando.

-No pântano, foi onde me perdi do papai... - completou, aflita.

-Você se perdeu do seu pai no pântano ? - perguntou Quase Nada - O que estavam fazendo ? É perigoso zanzar por aí à noite.

-Sim, eu sei...estávamos procurando a mamãe quando me perdi dele - confessou hesitante - Eu espero que ele esteja bem.

-Eu lamento... Mas, talvez, seja seu pai quem achamos morto. - refletiu tristemente o ogro.

-Meu papai está morto ?! Não é possível! - negou Alice, com fervor.

-Se isso for verdade, pelo menos pra algo você vai ser útil. - interrompeu Elias indiferente.

–Se alguém descobrir que estamos com esta garota, podemos ser caçados. E essas coisas sempre terminam em algum monstro morto. E eu não quero morrer! – lastimou o esqueleto, desesperado.

­­­­­­­­­­­­­-Você já está morto! - gargalhou o ogro.

-Chega! - berrou Elias, irritado - Fale, garota. O que pegou seu pai ? Se tem alguém que sabe de algo, esse alguém é você.

-Foi tudo tão rápido... E-Eu estava tão assustada! - disse a garotinha, em lágrimas - Por favor, tenha paciência comigo.

-Ela é só uma garotinha. - interrompeu Davris, com convicção - Você está assustando a menina!

-Pogo não gosta disso. - comentou cerrando os punhos - Pogo quer que pare!

-Não fale assim com ela! - exclamou Quase Nada - Você só esta piorando as coisas.

-Qual o problema de vocês? - indagou Elias, confuso - Vão ficar do lado dela?

-Seu monstro! Você age como se não tivesse feito nada! - berrou Alice, enquanto secava as lágrimas - Como se não tivesse brincado com o papai enquanto o perseguia pelo pântano.

-Do que você está falando ?! - perguntou o vampiro - Eu não fiz isso!

-Sanguessuga traiçoeira. - afirmou Davri, com desprezo - E ainda teve a audácia de dizer que eu era o culpado!

-Elias tem que sofrer castigo! - um sorriso malicioso se formou em seus lábios - Pogo não gosta de traidor.

-Segurem ele. - ordenou o esqueleto - Não o deixem escapar!

-Eu vou acabar com você! - gritou Elias em direção à menina - Saiam do meu caminho, inúteis!

As velas queimaram intensamente, e um cheiro acre se espalhava pelo ambiente. Cada vez que as chamas crepitavam, o local ficava mais abafado, as garrafas vazias em cima do balcão balançavam até finalmente se espatifarem no chão.

O enorme ogro agarrou Elias pelos ombros e o pressionou contra parede, porém, sua atenção não estava fixada em Davri e, sim, naquela garota. Soube desde o primeiro momento que tinha algo errado nela, de onde estava, conseguia ver o sorriso cruel de canto de boca que se formava. Seus companheiros estavam ensandecidos, pareciam acreditar cegamente nas palavras dela.

Alice aproveitou-se da confusão para se esgueirar fora da vista dos demais. Certamente, aquele vampiro era o mais perigoso entre eles, a resistência ao seu encanto a irritava. Concentrou-se por um momento nos barulhos do lado de fora e se questionou se havia conseguido tempo suficiente, o sanguessuga continuava berrando para ela. "Pobrezinho" pensou, era inútil gritar para seus companheiros, agora. Ouviu muitas lendas a respeito dos vampiros e, por isso, nunca pensou que caçar um seria tão fácil.

Do lado de fora, luzes tremulavam entre as árvores mortas. Homens de armas se aproximavam com rapidez da taverna, ao chegarem desceram de seus cavalos e observaram com cuidado a construção, um misto de medo e ansiedade tomou seus corações. O mais velho entre eles deu um passo a frente e levantou a mão em um sinal para que esperassem. Capitão Joaquim, havia caçado monstros antes, mas nunca com a ajuda de uma elfa. Não duvidava de sua capacidade como caçadora, mas tinha medo de que o monstro que enfrentariam esta noite seria diferente.

Elias ouviu os galopes do lado de fora e isso só aumentou sua preocupação. É claro que ela não viria sozinha, os civilizados nunca vinham. Continuava sendo pressionado contra a parede, por mais que não quisesse machucar seus companheiros, se viu obrigado a fazê-lo. Livrou-se de Davri com dificuldade, todos esses anos sem se alimentar haviam o enfraquecido, e seguiu em direção a Alice.

Tentou saltar até a garota, mas foi impedido por Pogo que pulou em suas costas e o deixou desnorteado. Quase Nada aproveitando-se da abertura quebrou uma garrafa em sua cabeça. Elias sentiu seu corpo estremecer com a pancada, sua visão ficou embaçada, seu corpo tornou-se pesado, acabou não aguentando seu próprio peso e desabou no chão. Olhou de relance uma última vez para Alice que agora abria a porta. Conseguiu sentir o cheiro do sangue quente dos homens lá fora, fazia muito tempo que não lidava com esse desejo e cada vez era mais difícil reprimi-lo.

Joaquim ficou aliviado ao ver a Atormentadora, como a chamavam, sair da daquela taverna. Engoliu em seco antes de abaixar a mão e dar a ordem.

-Queimem! - Ordenou com uma voz firme que traía seu coração - Não deixem que sobre nada.

Alice virou-se uma última vez para apreciar a vista. Observou Elias se arrastando para fora enquanto salivava. Sentia um prazer sórdido ao ver o desespero daquele vampiro. Enquanto aquela criatura se arrastava sedenta por sangue, é onde revelava sua verdadeira natureza monstruosa.

Quando as chamas arderam nas paredes do Mosca Morta, Elias sentiu uma súbita explosão de energia e se levantou em um sobressalto. Seus olhos focaram apenas em Alice que o olhava com desprezo. Seu corpo moveu-se por conta própria contra ela, porém, quando pisou alguns metros fora da taverna foi recebido com uma enxurrada de virotes que o acertaram violentamente. Lamentou-se por sua fraqueza quando seu corpo bateu contra o chão, amaldiçoou a si mesmo por não se alimentar.

Os homens cercaram Elias, que sem forças não reagiu. O imobilizaram e amarraram, como um animal, estavam o arrastando para as chamas quando Alice ergueu uma das mãos e se aproximou.

-Veja... - Disse calmamente enquanto acariciava o queixo de Elias - Não é nada pessoal. É apenas a ordem natural das coisas, tenho certeza que você entende.

A visão de Elias estava turva, mas mesmo assim conseguia ver claramente seu rosto. Ao fundo ouvia as chamas estalarem, o cheiro da fumaça misturava-se com o cheiro de carne queimada que invadia suas narinas e o causava náuseas. Lembrou-se de quantas vezes já esteve nessa situação, de quantas vezes sua casa foi queimada simplesmente por existir. Isolou-se no meio de um pântano para que pudesse viver em paz, mas mesmo assim o próprio mundo parecia odiar sua existência. Quando fechou seus olhos ouviu o barulho dos gritos que formavam uma melodia infernal que embalaria o seu sono eterno.

-Maldita seja tu humana... - Proferiu sem forças - Espero que sua alma arda no mais profundo abismo.

-Lamento te desapontar, querido. - Afasta seu cachos revelando sua orelha pontiaguda - Não arderei hoje, talvez, quem sabe amanhã.

Os homens continuaram arrastando Elias, que por um momento só desejou que tudo aquilo acabasse, só gostaria de descansar. Quando o lançaram contra as chamas, olhou a sua volta e viu mais uma vez seu lar destruído, sua paz havia sido arruinada, era essa sua punição por viver. Quando as chamas acariciaram seu corpo, apenas fechou os olhos e tentou se lembrar que em breve talvez pudesse revê-los.

-Ah! Havia me esquecido. Mas minha mãe está morta a alguns anos. Então fica meio complicado procurá-la.

Essa palavras e a risada estridente daquela elfa foram as últimas coisas que ouviu antes que as chamas o engolissem por completo. Morreu menos infeliz ao perceber que os monstros não se escondem apenas nos pântanos.

23 de Julho de 2020 às 19:50 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~