abysswalker Cicero De Souza Júnior

Um forasteiro chega a uma pequena aldeia, ligada ao mundo exterior apenas por uma longa estrada que a corta ao meio. Este homem não está ali por acaso, foi contratado para lidar com um mal que assola as pobres almas que chamam Miretip de lar: uma criatura nefasta que foi regurgitada pela própria terra, movida por um único desejo e necessidade de se alimentar, seja dos vivos ou dos mortos.


Horror Horror gótico Para maiores de 18 apenas.

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I.

– Não há tempo a perder. Me diga apenas se alguém viu a criatura pessoalmente ou apenas vultos.

– Viu sim, sinhô caçador. – O camponês confirma com a cabeça, retirando o chapéu surrado e segurando-o apertando contra o peito – O filho mais novo dos Greblă. O moleque se salvou porque chegamo tudo pra acudir quando ouvimo os grito da família. Mas a casa deles ficava um tanto longe da aldeia e o único que não tinha sido comido foi o pequeno Uscat.

– Teria como trazer ele aqui? – A voz do homem trajado de preto era grave, um tanto intimidadora – A noite logo cairá e o que este garoto tiver para me falar pode fazer toda a diferença na minha caçada.

– Tem sim. O menino tá na nossa casa. Não quis voltar pra casa dele de jeito nenhum. Mas também…

– Acho que o senhor não está entendo a urgência, chefe…

O camponês se levanta rapidamente e sai pela porta dupla da pensão, desaparecendo aldeia afora. O homem com quem conversava permanece sentado, chapéu tricórnio sobre os cabelos negros desalinhados e rosto coberto por uma máscara de couro, costurada a frente do nariz. Mantinha a mão direita sobre a mesa a qual se sentava num canto do salão, com os dedos batendo compassadamente sobre a madeira um tanto velha que a constituía. Não havia muitas pessoas na pensão, como era de se esperar de um lugar que há sete dias havia perdido quase uma família inteira. Os poucos fregueses estavam de passagem, cientes do perigo que corriam ficando naquela vila por muito tempo, pensando apenas em partir o mais rápido possível.

O chefe da aldeia volta em poucos minutos, trazendo pelo braço um garoto franzino e de olhos esbugalhados. Senta-se de frente para o forasteiro e mantém o menino ao seu lado.

– Vamo Uscat. Conta pro sinhô caçador o que viu naquela noite.

– Mas… – O garoto encara o estranho de cima a baixo. As vestes daquele homem eram tão diferentes dos farrapos que estava acostumado a ver na aldeia que logo lhe chamam a atenção. Fixa-se principalmente na casaca preta cruzada por dois cintos enfileirados de pequenas capsulas de pólvora, em um longo punhal cujo cabo despontava de sua cintura, e claro, não consegue deixar de reparar em um grande bacamarte encostado na coxa esquerda do forasteiro.

– Nunca viu um caçador, Uscat? – O homem se inquieta – Não se assuste comigo. Apenas me diga o que viu naquela noite. O que fez aquilo com sua família?

– Bem… Eu num me lembro direito, seu moço. Eu só ouvi os grito… O barulho que parecia o que minha mãe fazia quando cortava a carne dos porco com o facão… Tava tudo escuro. – Cada palavra saía entre soluços e lágrimas amargas.

– Uscat, me chamo Gael. – O caçador abaixa sua máscara, revelando seu rosto de barba negra por fazer, marcada do lado esquerdo do rosto por um grande corte. Seus olhos eram de um castanho claro, em um tom quase amarelado – Vejo que é quase um homem, então vou te tratar como um. Estou aqui para matar quem mutilou e devorou sua família. Eu vou estripar o desgraçado, arrancar cada entranha podre dele e separar sua cabeça de seu corpo profano. Vou arrastá-lo pela perna e queimar bem ali no meio daquela estrada, pra todo mundo ver… – Os olhos de Gael estavam injetados, seus dentes levemente pontiagudos a mostra e a boca escancarada, quase espumando nos cantos. Sua expressão era mais bestial do que humana, o que pareceu gelar o sangue nas veias tanto do garoto quanto o chefe da aldeia.

– E-eu… Eu me lembro duma coisa… Os olho… Era vermelho e briava feito fogo… Era alto e magrelo, seco mesmo, bem mais que o senhor Rahat aqui… E quando o pessoal chegou com as enxada e forcado ele se enfiou na terra. Cavou feito topeira… Deixano a terra do jeito que tava antes de se enfiar nela.

– Muito obrigado. – Gael se endireita na cadeira e puxa a máscara sobre o rosto novamente – Já é o suficiente, Uscat. – O caçador se levanta e pega a arma com a mão esquerda, apoiando o trabuco no ombro e caminhando até a porta da pensão, olhando o sol começando a sumir por detrás das colinas – Me diga, Rahat. Além desta pensão, há mais alguma casa com piso de alvenaria, ou todas são de piso de terra?

– Pelo que eu sei só aqui. O véio Bere fez questão fazer o piso assim por medo de alguma coisa cavucar aqui e se meter no quartinho onde guarda os mantimento da pensão…

– Reúna todos da aldeia aqui esta noite. Vamos minimizar as chances de outras pessoas morrerem ou se ferirem durante meu trabalho. Ande rápido, pois carniçais não costumam levar mais do que uma semana para voltarem a se alimentar, e esta aldeia é um banquete para eles.

– Carniçal? Acha que é isso então que comeu os pai e irmão desse minino? – Rahat se levanta com as pernas bambas – Eu sabia que era alguma coisa ruim, mas não imaginei que pudesse ser um desse… Os antigos falavam dessas coisas… Se num fosse pelo que eu vi naquela casa coberta de sangue e tripa aquela noite, eu num ia acreditar nisso não…

– Você me chamou aqui para ficar conversando ou para resolver o seu problema? – Gael torce o nariz por baixo da máscara, voltando a cadeira onde estava sentado e estica a destra até esta sumir na sombra projeta pela lamparina acima de sua cabeça, presa na parede. Puxa da escuridão um machado, de cabo longo e reto, coberto por tiras de couro, terminado em uma lâmina grande e crescente, levemente irregular e visivelmente afiada, com uma espiga pontiaguda feito uma lança no final de sua cabeça. Rahat agarra o menino pelo braço e corre para a porta da pensão, mandando este ajudá-lo a chamar todos que pudessem antes da penumbra terminar de se instaurar.

21 de Julho de 2020 às 01:57 2 Denunciar Insira Seguir história
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Davi Morais Davi Morais
Ooooo véio chato KKKKKK
August 12, 2020, 17:25

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