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thi-cardeal1594856848 Thi Cardeal

Sonhar alto é mais do que querer realizá-lo. É entender qual o nosso propósito neste mundo. É também o que nos mantém vivos, o motivo pelo qual nos fazem lutar contra adversidades e provações. Clara atravessa todos os obstáculos de sua vida mesmo que isso a consuma. A pequena bailarina mostra que a arte não é fácil como as pessoas pensam. Por trás das cortinas dos palcos há choro, dor, lamentos, revolta e insegurança. Todo esse desafio faz dela e de todas as bailarinas do mundo verdadeiras guerreiras.


Histórias da vida Todo o público.

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OLHANDO PARA TRÁS

Uma das coisas mais difíceis é aceitar certas condições que a vida nos proporciona. Ser pego de surpresa com notícias desagradáveis pode ser uma experiência traumática para alguém.

Clara passou por isso ao estar diante de um médico com o laudo em mãos. Prestes a abrir, Clara olhava fixamente para o envelope imaginando o que poderia estar escrito em seu conteúdo. Sua mãe, por sua vez, estava tão nervosa quanto, nunca pensou que um dia teria de levar sua filha a um neurologista.

Dr. Fábio retirou os exames do envelope e conferiu, página por página, lentamente, parecia até que estava fazendo propositalmente.

A ansiedade de Clara a fez questionar:

-E então, doutor, o que diz aí?

-Bom... Seu caso de enxaqueca é bem grave. Além disso, você está com anemia e hipoglicemia, por isso anda tendo tonturas, perdas de visão e muitas dores na região da cabeça.

-E quanto à labirintite? - perguntou Ana, mãe de Clara.

-Os sintomas da hipoglicemia incluem desmaios, dores de cabeça, confusão mental e tonturas, coisas que você apresenta. São sintomas parecidos com os da labirintite. Pra chegar a uma conclusão precisa, é necessária uma outra bateria de exames.

-Ah, que ótimo, então vou me entupir de remédios sem saber o que eu tenho?!

-É que esses sintomas que você apresenta se misturam e mascaram outras evidências. Uma segunda bateria de exames pode nos responder. Enquanto isso, terei de dobrar sua receita...

O doutor é interrompido com a fúria de Clara:

-Eu NÃO QUERO remédios!!! Eu quero uma resposta!!! Quero saber quando poderei viver minha vida normalmente!!!

-Quanto a isso, Clara, os exames são absolutos. Vai ser difícil você voltar a competir no mesmo nível de antes. Já pensou se você tem um mal súbito, desmaia no palco e bate com a cabeça? Seu ritmo de vida é frenético demais e você mal tem tempo de comer. Pelo menos, por enquanto, seria bom você se alimentar, tomar vitaminas pra tratar sua anemia e dar um tempo da dança.

Clara não se contém e começa a chorar. Indiferente na sua expressão, o doutor tenta falar algumas palavras de conforto:

-Eu sei o quanto é difícil ouvir tudo isso em 15 minutos...

-Não, você não sabe! É a minha vida sendo jogada fora!

Ana, de coração partido, abraça sua filha e a consola:

-Não fale assim, filha. Estamos nós duas desoladas. Nada do que dissermos aqui vai resolver. Em casa você chora, grita, se afunda no travesseiro, mas, por enquanto, vamos ouvir o doutor.

-Eu não quero ouvir mais ninguém. Vamos embora! - diz Clara pegando as chaves do carro e levantando irritada da cadeira totalmente desacreditada.

-Filha...! - disse Ana tentando segurá-la, em vão. - Me desculpe, doutor.

-Não se desculpe. Não é fácil abandonar o que mais se ama. Isso vai mexer muito com a Clara daqui pra frente. Pegue a receita e voltem daqui a três meses.

Enquanto Ana marcava o retorno, Clara esperava dentro do carro, ainda aos prantos. Até então, a garota de 17 anos tinha esperança de não ser nada demais, apenas crises de enxaqueca que são normais pra alguém que estuda, dá aulas, ensaia e se apresenta praticamente o mês inteiro. Seu avô sempre a encorajou a seguir carreira de bailarina. Desde criança Clara dava seus primeiros passos, para encanto da sua família. Como uma mini-dançarina, ela acompanhava seus DVD's infantis e ainda fazia reverência na frente da TV. Não tinha como negar que aquela garotinha tinha um futuro promissor.

Viajando pelo seu passado, Clara nem se deu conta de que sua mãe já estava dentro do carro.

-Filha... - disse Ana com a voz embargada.

-Mãe... Por que o vovô teve que ir embora? - disse Clara com os olhos lacrimejantes. - Ele que sempre me incentivava, sempre me dava conselhos... Agora que eu mais preciso dele...

-Oh filha, eu também sinto falta dele. - Ana começa a chorar, também. - Seu avô foi... Ainda é... Seu maior conselheiro... Desculpe se às vezes não sei o que dizer pra você.

-Não, mãe. Não foi isso que quis dizer... Na verdade, nem sei o que eu quis dizer... Me desculpa, é claro que você está sempre do meu lado.

-Vamos pra casa. Vou te mostrar umas coisas.

Depois de um bom banho relaxante, Clara foi deitar-se para descansar. Enquanto isso, Ana procurava em seu guarda-roupas caixas com fotografias. Havia dezenas de álbuns de fotos. Ana selecionou conforme eventos e datas. É bem provável que Clara nunca as tenha visto, mas com certeza não se lembra de as ter tirado.

Emocionada, dirigiu-se ao quarto de Clara e bateu na porta.

-Entra.

-Lembra que disse que te mostraria umas coisas? Aqui estão.

Clara olhou para os álbuns e brincou com sua mãe:

-O que é isso? Isso ainda existe?

-Há, há, muito engraçado. Saiba que você não é tão novinha assim. Nós ainda revelávamos fotos na sua infância. É uma pena que hoje vocês só tirem foto pra guardar em álbuns de redes sociais.

-Vai me dizer que aí tem fotos minhas?

-Melhor que dizer, vou mostrar. Olha só essa, - disse Rosa enquanto abria o álbum certinho na página que havia marcado -, reconhece?

-Quer dizer que "isso" aí sou eu? - disse Clara envergonhada.

-"Isso" aí era a bailarina mais linda daquela noite de apresentação! Você arrasou naquela palco, foi aplaudida de pé por mais de 400 pessoas. - Ana exaltava sua filha como qualquer mamãe coruja. Mas, era verdade.

-400?? E eu fiquei nervosa?

-Ta brincando? Você tava tão ansiosa pra entrar no palco que quase atropelou as outras bailarinas! Tivemos que segurar você antes que derrubasse todo o cenário! Tudo isso com 7 anos.

-E nessa outra foto?

-Ah sim, haha... - ria Ana enquanto lembrava da situação - Aqui era um aniversário do seu primo. Você ficou irritadíssima nessa hora! Tá vendo esse menino chorando, aqui? Ele é um primo do seu primo. Quando ele tentou te tirar pra dançar você empurrou ele!

Clara riu, incrédula:

-Mentira! Jura que eu fiz isso??

-Com 3 anos... Claro que a mãe dele veio brigar com a gente e depois foram embora. Mas, ainda bem que deu tempo de tirar essa foto.

Depois de quase uma hora vendo aqueles álbuns, rindo e relembrando as histórias, Ana buscou palavras do fundo do seu coração.

-Clara... Você é a menina mais geniosa que eu conheço. Nunca vi nada te abalar. Essa sua personalidade acompanha nossa família desde sempre. É também a pessoa mais determinada e corajosa que já vi. Você é verdadeira. Chora quando tem que chorar, ri quando tem que rir, responde à altura quando algo te incomoda, mas sempre com educação. Me orgulho da filha que tenho.

Antes de responder sua mãe, Clara olha pra cada foto sua retirada dos álbuns. Mesmo lembrando pouca coisa ou nada, ela sabia que não poderia acabar assim.

-O que será de mim, mãe? Dediquei minha vida inteira... E tudo pra quê?

-Nada é em vão, filha. Você foi abençoada com um dom maravilhoso. Temos que ter fé, daqui pra frente.

-Eu era tão feliz. Pensei que passaria minha vida inteira fazendo o que amo. Por que as coisas têm que mudar assim? Vou sentir saudade das viagens e das minhas alunas. De dar à elas esperança de serem estrelinhas num palco.

-A vida pega a gente se surpresa, mas não é o fim. Lembre-se que nunca carregamos uma cruz maior do que podemos aguentar. Eu tenho um orgulho tão grande por você, filha... - disse Ana secando as lágrimas - Eu me lembro do seu primeiro ensaio quando te colocamos na escolinha de balé. Você achava que no primeiro dia já poderia ir se apresentar. - Riram as duas. - Mas, eu também ficava pensando quando seria sua primeira apresentação. De qualquer forma, se algum dia eu falhei com você ou não pude estar presente, peço que me perdoe.

-Claro que não! Você e o papai sempre estiveram do meu lado. Eu não seria nada sem vocês.

-Sabe de uma coisa? Você é a bailarina mais linda de todas!

-Hum... Diz isso porque sou sua filha... Não vale.

-Ora, claro que vale! Quer melhor motivo que esse?

Um abraço apertado e risadas entre mãe e filha são capazes de fazer milagres. Clara e Ana nunca estiveram tão unidas como nesse dia. Contudo, sempre que a jovem fica sozinha, vem a tristeza, desilusão e falta de esperança.

Clara entrou numa profunda depressão. Não saía mais de seu quarto e muito menos comia, perdendo mais de três quilos em menos de um mês. Seus pesadelos a assombram quase todas as noites e, na maioria das vezes, a faz acordar suando frio, chorando e tremendo.

Seus pais conversam todo dia sobre o assunto, ligam para os amigos de Clara, mas nenhum deles aparecem para visitá-la. Uns dizem que estão viajando, outros dizem que tem muita coisa pra estudar e outros não conseguem arrumar uma desculpa, despertando o ódio dos pais de Clara. A última coisa que eles farão é deixar de pensar em alguma solução, mesmo que ela esteja ali, diante de seus olhos. Eles sabem o que deve ser feito, porém têm medo de que Clara os julgue mal e acabe piorando a situação. É um preconceito antigo que deve ser combatido.

-Cada dia que passa meu coração aperta mais. - lamenta Ana com Alcides seu marido. - Se você visse a forma que ela saiu do consultório aquele dia... Já devia imaginar que isso abalaria demais com a cabeça dela.

-Faz tempo que nossa casa não é mais a mesma. Com nossa menina pulando pra lá e pra cá ouvindo aquelas músicas engraçadas. Ela dançava por horas, lembra? Aah, e lembra daquela bonequinha que ela tinha? Ela não largava dela um só minuto. Sem falar que sempre a levava em suas apresentações. Dizia que era seu amuleto. - Alcides recordava com carinho de sua filha.

-É mesmo. A bonequinha... Agora que você mencionou, eu lembrei. As duas eram inseparáveis.

Ambos ficaram em silêncio. Pareciam que tinham pensado na mesma coisa.

-Fizemos tudo que os pais poderiam fazer. - disse Ana. - Acho que não temos mais opção...

- ... Devemos marcar um psicólogo pra ela. - completou Alcides.

Clara apareceu de repente na cozinha, onde seus pais estavam conversando.

-Ah pronto, agora eu estou louca? - questionou.

-Claro que não, meu amor. Mas, ele é o único que poderá te ajudar, agora.

-Além de tudo, ainda terei que contar minha vida pra um estranho?

-Justamente por ser um estranho. Uma pessoa neutra é tudo que você precisa. Ainda mais sendo profissional.

-Psicólogo, mãe? Pai? É sério isso?

-Olha, filha, eu já fiz terapia muitos e muitos anos e digo pra você, me arrependo de ter parado e me acomodado. - disse Ana.

-E ainda afirmo: todo mundo deveria fazer terapia. É uma forma de se amar.

-Vocês têm medo que eu possa enlouquecer?

-Enlouquecer não é a palavra certa. Temos medo que sua situação se agrave e você perca o controle de sua vida.

Clara respirou fundo e sentiu confiança no que seus pais disseram. Quer dizer, não custa nada passar em duas ou três sessões, se não gostar, não precisa continuar.

-Certo. Eu aceito. Acho que podemos tentar.

Os pais de Clara estranharam a "facilidade" com que ela aceitou. Afinal, o tabu no tocante psicólogos ainda precisa ser quebrado, muito quebrado.

16 de Julho de 2020 às 06:25 0 Denunciar Insira Seguir história
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