shinia Bar-t-t-tender

Os momentos ao lado de Mikaela traziam paz à alma de Yuuichiro


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#seraph-of-the-end #ons #owari-no-seraph #mikayuu
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— Você é tão chato, Yuu-chan... — Mikaela murmura, de novo, entre uma e outra mordida na minha goiaba. A boca está cheia, meio melecada no canto. Eu me pergunto o que as meninas que babam tanto o ovo dele diriam, se o vissem todo lambuzado, jogado no chão do quarto com as pernas abertas e roupa amassada.

Não que eu seja exemplo, de forma alguma, mas só queria que elas vissem que na competição de quem solta o maior arroto, o príncipe supersensível sempre ganha de mim.

— Eu sou normal. Você que é fresco demais. — Tomo a fruta das mãos dele. Se deixar, ele come tudo e mais um pouco. É um folgado.

Estamos na minha casa, ou na casa dos meus pais, sei lá. A noite é quente, trinta graus, e o vento que entra pela janela é mínimo.

Eu gostaria de estar no quintal.

— Não, não. Você é cha-to. C h a t o, chato. — Ele coloca as pernas em cima das minhas. Eu estou com um mangá aberto apoiado no colo.

Merda, Mika.

— Tá, e por que eu sou chato, mesmo?

— Porque você não quer dançar comigo no São João da escola.

Por um momento, eu quase engasgo. Ele aproveita para pegar a goiaba de volta. Sobrou só um restinho. — Você ainda tá nessa?

— Como assim “ainda tô nessa”? Eu quero dançar com você! Juro que nunca mais falo contigo se você aceitar o convite de outra pessoa. E vou passar uma semana de mal se não aceitar o meu também.

Uma semana? Desde que nos conhecemos, quando tínhamos mais ou menos dez anos, o máximo que conseguimos ficar separados foram três dias. E ele voltou chorando depois.

Eu também, mas isso não vem ao caso.

— Mas Mika, suas amigas... Todo mundo vai ficar falando de você depois.

— Eu não me importo. E vão ficar falando de você também.

Era uma verdade, mas seu sempre fui o cara esquisito do fundo da sala. Já inventaram mil e um boatos sobre mim, e eu não me importei em desmentir nenhum. Mas Mikaela é do tipo famosinho, sei lá, quase como esses filmes adolescentes. Eu não quero manchar a reputação de gostoso dele.

Mas ele tá pedindo desde março, e eu sei que não vou conseguir negar por muito tempo.

Com Mikaela as coisas funcionam assim. Haja paciência.

— Tá bom. Eu penso no seu caso, tá? — Digo. E ele abre um sorriso. Um belo sorriso idiota. — Só não sei o que você tanto vê em mim.

— O Yuu-chan é o Yuu-chan. Eu gosto porque você é você.

E é isso. Eu nunca consigo fazer Mika falar do que exatamente ele vê em mim. Quando se fala nessa suposta parte boa, ele é sempre muito geral.

Às vezes, desconfio que na verdade, não gosta nada de mim, e acaba ficando por pena. Porque eu sempre sou o cara isolado do lugar.

— Ei Yuu-chan, vamos dar uma volta. — Ele convida. Suas pernas se agitam, ainda sobre as minhas. Meu mangá tem mais duas páginas amassadas agora. Desculpa Ranma 1/2, eu sei que você merecia um sono melhor.

— Mas já tá tarde, Mika... — Aponto para o relógio. Ele fica acima da janela envernizada; nove e meia da noite. Eu já estou começando a ficar com sono.

— Mas seus pais não se importam, né? E você precisa de cenários novos para suas histórias. Já não aguento mais ler sobre campos de areia e casas com janelas em cima da pia! — Ele me puxa pelo braço. Tem força, mas não a usa de todo.

— Então não leia?! — Respondo claramente ofendido. — E eu falei sobre o viaduto e uma floresta nos últimos textos.

Mika revira os olhos. Eles são lindos. Merda, ele todo é.

— Eu juro que vou gritar se você não levantar daí e colocar um sorriso nessa cara.

Tudo bem, tudo bem. Eu faço, viu? Sempre acabo cedendo. Não sou eu o chato da história.

— Pra onde você quer ir? — Pergunto. Ele abre um sorrisinho. Talvez eu me ferre depois, mas por enquanto tá tudo bem.

Se der ruim, pelo menos vou ter material para o original. É, eu penso assim.

Saímos do quarto. A casa é minha, quer dizer, dos meus pais, então eu vou na frente. Eles estão na sala assistindo o jornal de domingo. Os professores sempre falam que é bom assistir, principalmente para quem vai fazer ENEM. Ano passado não assisti nenhum dia e tirei nota boa, vamos ver esse ano.

— Mãe, pai, vou sair. — Digo. A sala é escura como a casa inteira. Só a televisão ilumina um tantinho do cômodo.

— Uhum. — Eles nem me olham. Melhor assim. Não lembro de uma única vez que me olharam e algo agradável aconteceu em seguida. São sempre os gritos, as velhas insatisfações.

Eu e Mika ganhamos a rua. Faz menos calor do lado de fora. Meu suor esfria quando o vento bate. É fresco, de alguma forma.

— Vem comigo, Yuu-chan. — Ele pega minha mão e puxa sem esperar nenhuma resposta.

Nós não vamos muito longe; descemos a rua, dobramos a esquina. Mika para por lá.

Na calçada alta de uma budega antiga, na rua mais esburacada do bairro. A lâmpada de fora fica acesa, apesar de o local estar fechado. Ela é fraca e amarelada. Mal ilumina os anúncios de refrigerante na parede.

— Você lembra da noite que a gente passou um tempão correndo por aqui com os outros, Yuu-chan? A gente devia ter uns oito anos, no máximo. — Ele sorri como sempre. Eu não lembro muito bem. Quer dizer, lembro de todo mundo, e da sensação, mas não lembro dele. Mas, é, devia estar lá, também. — Eu nunca te vi escrever sobre isso.

— Algum dia, Mika. Algum dia...

A sirene do vigia começa a tocar lá na esquina. Já é tarde, mesmo. A essa hora, não tem mais ninguém na rua.

— Eu quero ver algum preá. — Mika diz. Ainda não largou do meu pulso, e isso é bom. O toque dele é meio frio, faz bem.

Os paralelepípedos não vão muito longe. Terminam no fim da outra rua. Depois disso, só há estrada de terra e batida e mato. Uma cobra se arrasta lá na frente. Da boca da rua, esperamos ela passar. Dizem que falar alto as espanta, mas nunca tentei. Não tem sentido tentar assustar as bichinhas na casa delas.

— Mika eu acho muito difícil a gente ver preá num escuro desses...

— A lua tá cheia. A gente vai ver se algum passar.

Eu dou de ombros. Sei lá porque ele quer ver isso agora. Mikaela é meio estranho. Um estranho bom. Também tenho essas viagens de vez em quando, então não posso reclamar.

— Você já pensou no meu convite?

— Não.

— Aah Yuu-chan...

— Não me amola, tá? Eu tenho até mês que vem pra responder.

Mika suspira. Solta a minha mão pela primeira vez. Estamos numa encruzilhada. Não sei para onde a estrada da direita vai, mas não é como se pudesse dar em um lugar tão diferente assim. Daqui pra frente, o resto da cidade é só mato.

Ele pega num galho de quebra-pedra, não percebe e se fura com os espinhos. Eu me aproximo, vejo. Não é nada. Uma gota de sangue cai e pronto.

— Acho que é hora de voltar. — Digo. A noite começa a esfriar, e as folhas balançam com mais força. Um par de olhos vermelhos nos observa da janela da casa abandonada. Só não sei se é um gato ou o Boitatá.

— Eu queria ficar... — Ele fala com os olhos no céu. Sabe que não vou sem ele. Seria mau amigo se fizesse assim.

O cenário ao redor é calmo, frio e pintado em tons de azul prateado e cinza. Parece meio mágico. Nem sei se o vivo de verdade.

— Talvez eu escreva sobre isso depois. — Digo, meio envergonhado. Eu me envergonho com essas idiotices.

— Se não fosse por mim, você não teria passado da metade da primeira história.

— Ora não exagere. — Respondo, mas tremi o lábio no começo, então perdi o argumento. — Talvez. Só um pouquinho de verdade nisso aí...

Ele sorri. Não é um sorriso aberto. É de canto, sutil. Os olhos trazem a maior parte da sensação de felicidade, e ele não desvia o olhar de mim. É assim que sei quando Mika está feliz de verdade; ele sorri pequeno e não desvia o olhar.

Eu sempre fico com um frio na espinha. Um incômodo. Não quero que me olhem. Não mereço.

É uma coisa que me perturba a tempos, mas não escrevo sobre. Mikaela pode perceber e se magoar. Ele sabe muito desse lado feio de mim. Já revisamos inúmeras vezes os meus pontos ruins, tentando buscar uma solução para cada.

Entretanto, a gente parece compartilhar da mesma dificuldade para procurar por algum ponto positivo. Eu não cobro isso dele também.

— Eu amo a forma como seus olhos mudam de cor com o passar do dia. — Digo. Faço questão de pegar na mão dele agora, porque eu tenho um amigo e quero senti-lo.

Mas ele escorrega por entre meus dedos, se aproxima, quase cola corpo com corpo. Suas mãos vão até meu rosto. Tudo que posso ver são seus olhos agora, e não é a imagem que me incomoda, Mikaela é lindo e continuaria mesmo se o virassem do avesso, mas eu me incomodo com o que está à frente dos olhos dele. Assim, tão próxima, aquela visão me faz querer chorar.

Talvez se eu pegasse ainda mais pesado na dieta, estudasse mais e escrevesse como uma pessoa decente, o sentimento mudasse. Mas no momento, física me deprime, minha escrita continua se transformando em algo que eu nem consigo mais classificar e eu tenho medo de subir na balança do banheiro e ver que ainda estou com os mesmos 58 quilos.

Ele quer me abraçar, e eu deixo. Mikaela quer ficar perto, e só isso já é como numa grande fantasia.

— A gente pode tentar dançar aqui. — Ele diz. Começa a balançar meu corpo e o dele enquanto isso.

— Pode ser. — respondo. Porque apesar da minha cabeça fudida, ele é tudo o que eu sempre sonhei.

Mika coloca a mão na minha cintura, e eu deixo as minhas em seus ombros. Não sei o que fazer. Só dancei no arraiá do ensino fundamental um, acho, e me culpo até hoje.

Eu era uma criança idiota. Cresci e agora sou um cara idiota, também.

Não valho o papel que gasto. É, ser escritor não é para mim.

Ele cheira meu cabelo. É uns bons centímetros mais alto, pode fazer isso sem problemas. Não sei que cheiro tenho, provavelmente cheiro de nada. Exceto no fim da aula de educação física, mas aí, quem não?

Tenho vergonha mesmo assim. Parei de fazer por isso.

Idiota.

— Eu gostei daquele livro que você me emprestou. — Diz. E nós ainda nos balançamos, começamos a girar lentamente também. O barulho da chinela arrastando a areia me é agradável.

Em algum lugar nas estrelas? É, a história é agradável. Mas acho que a autora quis se esquivar de algumas discussões com aquela página de perguntas e respostas.

— Não fez muito sentido pra mim também.

Coloco a cabeça no ombro dele. Aquilo tudo ainda me incomoda, mas estou começando a mandar ás favas.

Vou chorar no banho de qualquer jeito depois. Melhor aproveitar tudo por agora.

— Olha, Yuu-chan, uma muçurana! — Ele quase grita. Eu me descolo dele, olho. Essa não é tão grande. Está no meio da estrada, indo embora, talvez.

Pouco à frente, no caminho antes da encruzilhada, o mato farfalha, e uma família de preás corre de um lado para o outro, sumindo no meio da vegetação. Os olhos de Mikaela brilham. Ele ama aqueles bichos.

— Quer correr atrás deles? — Pergunto. Talvez seja bom. Não lembro qual foi a última vez que saímos assim, correndo atrás de bichos no meio do mato.

— Não. Prefiro ficar aqui. — Ele volta a apertar minha cintura. Me olha bem, parece todo bobo enquanto isso. Eu também gostaria de estar leve assim.

Vai se aproximando, lento. Eu paro de tentar recuar. O nariz dele quase encosta no meu. Ele cheira a uma noite de quinta, e é bom.

— Yuu-chan...

Drácula cai com tudo no chão. O barulho é curto, mas forte. Caiu da banquinha, eu o empurrei sem querer. A capa é preta, parece um livro antigo. Eu odeio quando um livro novo tem esse aspecto envelhecido. O homem de giz está na minha cabeceira e sempre acho que ele está sujo quando, na verdade, é só a porcaria do detalhe da capa.

O sol já se pôs há muito tempo, e o quarto se mantém escuro.

Acabei dormindo acordado de novo. Acontece. Ponho a cabeça para fora da porta. Só saí na parte da manhã para fazer minhas obrigações. O ambiente ainda parece hostil.

Volto para dentro. Me sinto vazio de tudo, menos da tristeza. Sento no canto do quarto, no chão mesmo. Mal consigo me ver no breu, e isso é bom. Encosto a cabeça na parede. Quero voltar a viver coisas com gente que nunca existiu.

12 de Julho de 2020 às 18:55 0 Denunciar Insira Seguir história
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