dissecando Edison Oliveira

Existência? Um conto de realismo fantástico


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A TOTAL EXISTÊNCIA DE ERICA



Retornei do intervalo atrasado, suando na testa, e agitado corri até o meu lugar. Os olhos de todos estavam apontados para mim, até mesmo aqueles que sentavam mais a frente viraram de costas para me acompanhar. Alguns disfarçavam o sorriso, outros riam sem constrangimento algum.

Imaginei que a senhora Marta deveria estar olhando para mim, sentada atrás de sua mesa, com a lista de chamada em mãos e o cenho franzido, mas logo descobri que nem na sala ela estava. Ajeitei-me na cadeira e abri meu caderno, olhei atentamente pela primeira vez naquela manhã para o quadro negro e então descobri porque estavam rindo de mim.

Havia um coração desenhado no centro do quadro, com meu nome e o nome dela escritos em seu interior. Ela se chamava Erica, e tudo que sabia sobre ela, era que seu nome estava junto ao meu naquele coração.

— Quem fez aquilo? — perguntei para um colega a meu lado. Ele se chamava Felipe, e era o único da turma que já tinha pelos nascendo debaixo do nariz.

— Já estava ali quando cheguei. Deve ter sido a Erica.

— Quem é Erica?

Felipe deu de ombros.

— A garota que está com seu nome naquele coração, palerma.

Cinco minutos depois, a professora Marta entrou na sala segurando sua bolsa com livros e resmungou qualquer coisa sobre senos e cossenos, virou-se para o quadro e contemplou por um instante aquele coração. Depois, olhou para a turma (especialmente para mim), e disse que achava aquilo uma gracinha, mas que éramos jovens demais para pensar em namoro.

Imediatamente, boa parte da turma olhou para mim e uma onda suave de risos se espalhou pela sala. Foi assim que o único relacionamento de minha vida se iniciou.



Não é que não gostava de Erica; é que eu não tinha uma opinião específica sobre ela.

Sempre foi difícil para mim, conviver este nome. Escutá-lo toda vez que visitava a casa de meus pais nas férias da faculdade, e ter de inventar alguma desculpa que encobrisse a sua ausência. Eles sempre queriam saber aonde ela estava, o que fazia da vida e quando em nome de Jesus ela iria lhes presentear com um neto. Aquele tipo de assunto me causava arrepios, e eu apenas sorria e dizia que em breve.

Este breve tornaram-se anos, e após a conclusão de meus estudos em letras, passei a dar aulas em uma escola local que lembrava bastante aonde havia estudado durante a adolescência. Aquilo simplesmente me causava incômodos; fazia-me lembrar da época em que aquele coração surgiu no quadro negro, com meu nome e o de Erica escritos lá dentro, com giz cor de rosa.

Procurava simplesmente afastar os pensamentos enquanto dava minhas aulas. Esquecê-los seria impossível, pois lembranças ruins possuem o péssimo hábito de chegar e nunca mais ir embora. Ensinava português para cinco turmas diferentes, mas com alunos coincidentemente semelhantes, entrava em meu carro horas depois e levava cerca de dez minutos para que finalmente girasse a chave e partisse.

Não queria ir para casa. Torcia para encontrar um trânsito caótico no meio do trajeto, ou até mesmo um acidente que interrompesse o tráfego. Qualquer coisa servia, desde que minha chegada em casa sofresse o maior atraso possível.

Os atrasos jamais aconteceram (exceto uma única vez, onde tive de desviar o caminho graças a obras na pista), e sempre que chegava em casa, a coisa se repetia.

Jogava meus sapatos para o lado, minha pasta repleta de papéis ia para cima do sofá e meu corpo implorava por um banho.

Debaixo do chuveiro, ficava lá o máximo que podia. E assim que saía, escutava a televisão e toda aquela babaquice das novelas. Abria a geladeira, procurava por algo para comer e encontrava apenas o que ela não comia. Irritado, dizia em voz alta que aquilo era um desaforo, e segundos depois a televisão silenciava e a imagem escurecia. Não nego que aquilo me trazia satisfação, e por mais de uma vez sorri escondido. Em noites como aquela, deitava e tentava imaginar como ela seria, como seu rosto ficava quando estava irritada ou feliz, e não conseguia nada além de interrogações. Muito havia passado, e tudo que sabia sobre ela, era que seu nome era Erica.



Tinha de ir ao mercado três vezes por semana, e em todas essas ocasiões, muitos conhecidos do bairro paravam para conversar um pouco. Eles falavam do calor, das chuvas repentinas que vinham, causavam estragos e partiam, ocasionalmente de política e também sobre Erica. Perguntavam como andava o casamento, se ainda tínhamos “a mesma mania de sempre”, e eu dizia que sim, é claro, por que não teríamos?

Daí eles sorriam e falavam que éramos um belo casal, e que logo teríamos filhos, o que me deixava com a sensação de ter engolido uma gilete.

Em um destes encontros semanais, Richard Fuentes quase chocou-se com meu carrinho de compras ao dobrar o corredor e sorriu quando notou que se tratava de mim.

— Não acredito, há quanto tempo! — disse ele, esticando o braço para me cumprimentar.

— É, já fazem uns meses. Ainda brincando de advocacia?

— Ainda. Mas não tenho do que reclamar. Estou ganhando para isso. E você, continua casado?

Instintivamente, respondi que sim.

— Isso é ótimo. Sabe, pretendo realizar um jantar neste fim de semana. Só gente da família e amigos. Sinta-se convidado, você e a… — ele fechou os olhos, tentou encontrar o nome na escuridão e não conseguiu.

— Erica, — completei, chateado por ter de fazê-lo.

— Isso, Erica! Essa mulher fisgou mesmo você, hein? Como ela está, a propósito?

— Ela está bem.

— Continua loira? Pergunto isso porque minha esposa Sílvia tem o hábito de pintar o cabelo todo mês.

— Sim, — falei, surpreso por finalmente saber alguma coisa de Erica que não fosse seu nome. — Ela continua com o mesmo cabelo. Escute, eu preciso ir. Já estou atrasado para…

— Claro, sem problemas — e Richard retirou seu carrinho de compras da frente, perguntando, antes de se despedir, se Erica e eu iríamos a seu jantar.

— Veremos. Falaremos disso assim que chegar.

Nos despedimos e fui para casa, estranhamente satisfeito por descobrir que possuía uma esposa loira.



Alguns dias depois (após preferir ficar em casa do que sair para jantar na casa de Richard), passei meu dia de folga consertando o encanamento do banheiro, com as mãos sujas e pouca paciência.

Algumas coisas estavam diferentes em minha casa, o que me fazia lembrar de que aquela não era apenas a MINHA casa, e sim NOSSA. Minhas roupas se amontoavam na cesta durante a semana, e todo sábado de manhã, quando acordava e descia para tomar o café, reparava que elas estavam todas estendidas no varal. No final da tarde, após cochilar no sofá, as encontrava cheirosas e passadas nos cabides do guarda roupas.

Não achava aquela situação ruim, mas quando lembrava que era ela quem estava realizando aquelas tarefas, sentia-me péssimo, preso em algo que não possuía nada além de um nome e cabelos loiros.

Então, decidia sair para caminhar no parque, olhar as pessoas e tentar descobrir como era de fato possuir alguém a seu lado. Via casais de mãos dadas, sorrindo um para o outro, e tentei imaginar o que eles estariam sentindo. Talvez admiração acompanhada por tamanha felicidade. Não saberia dizer.

Descobri que fazer aquilo apenas me deixava mais confuso e triste, pronto para voltar para casa e aceitar que minha vida não passava de uma realidade confusa, onde todo esforço para entende-la era em vão.

Chegava em casa horas depois, e já dá rua escutava a televisão ligada nas novelas e sentia o cheiro de algo no forno. Geralmente era frango com batatas, e ninguém melhor que uma esposa para saber a comida favorita de um homem.



Aceitei viajar a trabalho meses depois de realizar uma entrevista via telefone. O salário era um pouco maior, e a carga horária razoavelmente menor. A cidade era vizinha, mas os gastos com combustível me fizeram optar por alugar uma residência mais próxima.

Feito isso, estava ciente que aquilo tudo iria durar no máximo um mês, tempo que concordei atuar como professor substituto em uma escola de menor porte. Me alojei em um quarto pequeno de um hotel menor ainda em uma avenida movimentada, um espaço abafado e que parecia possuir o cheiro do inquilino anterior. Era um cubículo escuro, evidentemente para uma única pessoa. Por alguma razão, sabia que estava sozinho e não com ela.

As coisas ficavam diferentes quando Erica não estava por perto. Durante esse período, descobri que ela tinha um cheiro além de um nome e de cabelos loiros; era algo suave, doce e feminino. Por vezes me pegava lembrando daquele aroma, e rapidamente tentava me livrar daqueles pensamentos. Meu modo de agir passou a ser outro, pois podia tomar banho com a porta aberta, mijar o vaso inteiro sem que aquilo me causasse incômodo e até meus jogos de futebol voltaram a me acompanhar nas quartas de televisão. Começava a pensar honestamente em nunca mais voltar. Tentar permanecer fixo na nova escola, esquecer da vida que ficara para trás, dos problemas e também de Erica. Estava sendo fácil apagar todas essas coisas, passar uma borracha em tudo, mas não era possível obter o mesmo sucesso com Erica. Perguntei-me como iria fazer aquilo; esquecer de uma coisa que jamais vi.

Não havia visto, mas havia sentido, e só aquilo bastava para me mostrar que ela existia.

Meu contrato na escola nova terminou exatamente um mês depois, e inquieto, retornei para casa, para minha vida de sempre e para ela. Notei que algo havia mudado assim que adentrei em casa, segurando a mala em uma mão e a chave na outra. Estava tudo quieto demais. A televisão estava apagada, e o único cheiro era o da própria casa vazia. Pensei se aquele silêncio seria o ambiente natural dali, se teria sido sempre assim durante todos aqueles anos e só agora eu teria notado aquilo, mas depois outra coisa me roubou a atenção. O aroma doce também havia sumido. Não quis sentir felicidade (embora uma sensação semelhante começasse a borbulhar em meu peito), e após largar a mala no piso, corri até o quarto e por muito pouco não a chamei pelo nome. Permaneci parado na entrada do quarto, em silêncio. A cama devidamente arrumada, algo que não conseguia lembrar se havia deixado daquela maneira. Apreciei a quietude por mais uns minutos e achei melhor descer para buscar minhas coisas.



Durante minhas compras no dia seguinte, reparei em duas coisas rapidamente; que o preço do tomate havia subido, e que muitos estavam olhando para mim de um jeito estranho. Cumprimentei a todos com um aceno e um sorriso amarelo, até que alguém decidiu fazer mais que apenas olhar e se aproximou devagar. Era a esposa do dono do mercado, uma senhora baixa e gorda chamada Gorete. Ela me deu bom dia, esfregando as mãos de um jeito nervoso. Lhe perguntei como estavam as coisas, e ela pareceu não ouvir.

— Deve ter sido difícil para você, — falou, cautelosamente. — Viajar e não estar presente quando… Quando aconteceu.

— Quando o que aconteceu?

O rosto dela pareceu se espantar, e uma de suas mãos apoiou-se no peito.

— Ora, com Erica. O acidente. — Então, ela baixou a voz e apenas sussurrou. — O suicídio.

Senti meu corpo tremer e tentei demonstrar naturalidade.

— Desculpe, é que ainda estou muito confuso. Cheguei ontem de minha viagem e não sei ao certo o que…

— Por Deus, é claro, nós todos entendemos. Foi uma situação muito triste e difícil para todos que a conhecíamos. A coitadinha deveria estar sofrendo muito. Da última vez que a vi, ela veio fazer compras. Estava abatida, muito mais magra.

Tentei escutar o resto, mas não consegui. Minha cabeça voou para outra direção, confusa, e chocou-se em uma parede onde sobraram apenas pedaços.

Não conseguia sentir absolutamente nada. Foi como ser anestesiado, e tudo que fui capaz de fazer foi agradecer os sentimentos que todos estavam sentindo por mim. Me encaminhei até o caixa onde paguei as compras e fui cumprimentado mais umas vezes, todos muito tristes e tentando me consolar com palavras que não tenho como relatar aqui, pois, acabei esquecendo de todas.

Lembro apenas de alguém lamentando bastante, dizendo que o enterro havia sido muito bonito e com singelas homenagens. Esta pessoa também lamentou-se por eu não estar presente no dia, e tudo que fiz foi agradecer e seguir adiante. Minha confusão seguiu-se por todo final de semana, onde passei entediado e sem saber o que fazer ou como agir. Não estava sentindo alívio, tampouco tristeza. Era como um divórcio, só que sem repartimento de bens. Eu era agora um viúvo, mas não sabia bem como era ser casado.

Procurei manter a minha cabeça funcionando do melhor jeito possível, e assim que a semana iniciou-se, ajeitei minhas coisas e dirigi até a escola para retomar minhas atividades. Não procurei me informar sobre onde ela estava enterrada. Estaria mentindo se dissesse que não pensei no que teriam escrito na lápide de Erica, em seu epitáfio. Essa curiosidade irá me acompanhar e me consumir, e certamente irei atrás de respostas em algum momento futuro. Em meu primeiro dia na escola após o ocorrido, recebi apoio emocional de alguns colegas assim que adentrei na sala de professores. Tapas nas costas e palavras de consolo. Caminhei devagar enquanto pensava se tudo teria sido minha culpa.

Entrei na sala ainda cedo, os alunos todos na rua conversando, sorrindo e paquerando. Sozinho e revisando o conteúdo da aula, larguei o livro e virei-me na direção do quadro negro. Havia um coração desenhado lá.

Estava escrito apenas o meu nome em seu interior.


6 de Julho de 2020 às 20:30 0 Denunciar Insira Seguir história
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