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Luíza Ramos


E se você descobrisse que todos os seres mágicos dos livros são reais? O que parecia uma noite de aniversário como qualquer outra para Lily Jones, acaba se tornando uma das noites mais estranhas de sua vida. Um sequestro inusitado acaba jogando a garota no meio de um universo totalmente novo, que parece fantástico, mas também guarda muitos perigos. Em meio à um crime não resolvido, descobertas inusitadas e sentimentos conflitantes, Lily terá que correr contra o tempo para descobrir o que está acontecendo e, o mais importante: quem ela realmente é.


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#crime #inferno #céu #fadas #lobisomens #vampiros #demonios #anjos
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Que os jogos comecem


Meus pés batiam impacientemente no chão e meus olhos se desviavam para o relógio na parede a cada cinco segundos. “Respire”, eu disse para mim mesma, “só continue respirando e tente não surtar”.

- Se eu não estou enganada, - Pigarreei, chamando a atenção da secretária, um pouco distante de mim. - acho que tenho direito a um advogado.

A única pessoa ali além de mim era uma mulher sentada em frente a um computador, alguns metros à minha frente. Ela parou o que estava fazendo, abaixou os óculos até o meio do nariz e me avaliou de cima a baixo. Suas orelhas felinas se mexiam rapidamente e seus olhos em fenda me encaravam de modo clínico.

Ela me lembrava a minha professora de química do primeiro ano, Sra. Petterson. Não que a Sra. Petterson também tivesse orelhas de gato e olhos em fenda, só pra constar. A professora não parecia me odiar, mas sempre me analisava com aquele mesmo tipo de olhar frio e calculista, que a secretária agora dirigia a mim. Como se estivesse pensando em mil e uma maneiras de ferrar com a minha vida em um teste surpresa.

Então a mulher à minha frente sorriu cinicamente e se voltou para o computador, voltando a digitar.

- Você terá seu advogado se o Conselho achar que merece. O que eu não contaria muito se estivesse na sua posição.

- Olha, eu não acho que é isso que diz nos Direitos de Miranda…

- Suas leis mundanas não se aplicam aqui. - A voz dele me interrompeu, surgindo de uma porta lateral. - Vamos, o Conselho vai recebê-la agora.

- Bom saber que aqui vocês super curtem essa de “respeitar as leis”, o que é meio irônico, considerando que…

- Será que você nunca cala a boca? - Ele resmungou, enquanto me puxava até a porta de onde tinha vindo.

- Bem, considerando que minhas mãos estão algemadas e me impedindo de te dar um soco, falar é obviamente o meu único ato de resistência. - Um sorriso irônico brotou em meus lábios. - A menos que você queira que eu cuspa em você, detetive.

O cara me ignorou por completo enquanto passávamos pelo longo corredor, mas eu juro que vi a sombra de um sorriso no canto de sua boca.

O corredor terminava em uma porta dupla de carvalho com o triplo do meu tamanho e cheia de figuras aladas esculpidas na madeira, com detalhes em ouro. Estremeci ao ver o enorme anjo bem no centro, logo na junção entre as duas portas pesadas. Olhos que pareciam ver dentro da minha alma.

- É agora que eu tenho que pedir pra você dizer ao meu pai e irmão que eu os amo? - Arqueei as sobrancelhas para o cara ao meu lado, ainda me puxando pelos pulsos até as portas.

- Se eu fosse você, não ficaria…

- Lilian Jones. - Uma voz masculina extremamente alta e forte, que não parecia nem um pouco humana, reverberou de trás da porta. Me encolhi instintivamente.

Olhei para o detetive, que estava mortalmente sério e nem sequer dirigia o olhar para mim. Então logo voltei a encarar a porta, que parecia maior e mais ameaçadora agora. Me xinguei mentalmente por ter ficado fazendo piada, mesmo ainda não sabendo o que me aguardava.

Engoli em seco e me preparei para entrar, dando dois passos vacilantes a frente. As portas se abriram para dentro diante de mim e meus olhos se arregalaram com a visão que eu tive.

Muitas informações. Muito pouco tempo.

A única coisa que eu conseguia pensar enquanto passava pelo batente enormemente alto era em como eu não podia imaginar que a minha noite terminaria de um jeito tão inusitado.


***


- Ai. Meu. Deus! Se é isso que tem no Paraíso, já podem começar a me chamar de Madre Teresa, porque é para lá que eu vou! - Angie chiou assim que colocou os olhos em mim, logo na esquina onde tínhamos marcado de nos encontrar. - Lils, você está muito sexy! - A loira veio me abraçar, tomando cuidado para não amassar as asas da minha fantasia de anjo.

- Obrigada, Harley Quinn. - Cutuquei uma de suas maria-chiquinhas. - Mas você e eu sabemos que o céu não é o seu lugar, já que lá provavelmente não tem qualquer bebida.

- Nisso você tem razão, anjinha. - E piscou um olho sapeca para mim, antes de se virar para avaliar o meu irmão.

Blake já estava um pouco à nossa frente, provavelmente julgando nosso diálogo enquanto checava o beco de onde vinha uma música bem agitada. Definitivamente o meu tipo de lugar.

Como eu vivia fazendo alguns bicos de DJ em algumas das muitas boates de Nova York que faziam vista grossa para a minha identidade falsa, eu obviamente tinha ouvido falar da boate nova que tinha aberto mês passado, mas que já fazia bastante sucesso por aqui: Hellhound.

O lado ruim é que era uma boate tão exclusiva que você só entrava se fosse convidado. O lado bom? Eu conhecia a filha de um político bem influente no nosso estado. E acontece que essa garota também era minha melhor amiga desde a quarta série, quando ela ainda usava aparelho e meias três-quartos coloridas.

Angie bufou, diminuindo o tom de voz.

- O que ele está fazendo aqui? - Ela questionou.

- Me desculpe, mas meu pai me obrigou a trazê-lo. Ele falou alguma coisa sobre “aumentar os laços fraternos” e blá blá blá. - Rolei os olhos enquanto nos aproximávamos da entrada do beco. - Como se isso fosse acontecer magicamente numa noite de Halloween. De qualquer modo, onde estão os outros?

- Lá dentro. - Ela sorriu de lado e olhou rapidamente para o fim do beco, onde dois guardas brutamontes montavam guarda à porta. - Você vai adorar o lugar, com certeza vai se sentir em casa. Ah, e o mais importante: eu falei com o Trevor. - Ela cantarolou e eu gesticulei rapidamente na direção do meu irmão, mesmo que ela já soubesse que não poderia falar muita coisa perto dele.

Mas tudo bem, porque eu já sabia do que ela estava falando: o dono da boate.

O pai de Angie podia ter muitos contatos, mas a filha até que chegava bem perto. Não era à toa que no ano passado, quando o ano letivo mal tinha começado, ela já tinha garantido sua entrada em Yale, para cursar Relações Internacionais esse ano. O que aquela garota queria, ela conseguia.

- Nós não vamos entrar?

- Sim, nós já vamos, queridinho. - A loira rolou os olhos e se virou para Blake. - Mas eu achei que você não gostava desse tipo de... “ambiente”.

Ela sorriu ironicamente para ele, que só fechou ainda mais a cara.

Tenho que admitir que sua expressão irritada deixou sua fantasia de anime bem mais convincente, seja lá qual fosse. Entre a enorme espada presa às suas costas e o longo manto negro totalmente genérico, eu não fazia ideia do que exatamente ele deveria ser. Mas também não seria a pessoa a perguntar.

- Eu juro que não sei como vocês são irmãos. - Angie comentou, numa expressão em parte confusa e em parte assustada.

- Eu fiquei com todo o senso de humor e diversão. - Dei de ombros e puxei a loira para dentro do beco antes que ela conseguisse irritar de verdade meu irmão.

Não era só na personalidade em que Blake e eu diferíamos. Enquanto a minha pele tinha um tom bem mais pálido e sem graça do que eu gostaria, meu irmão tinha tirado a sorte grande na loteria dos genes e tinha recebido a pele bem mais escura do meu pai.

Novamente mostrando sua sorte ao nascer, Blake tinha herdado lábios fartos e maçãs do rosto bem acentuadas, além de olhos castanhos tão claros que chegavam a ser da cor do mel. Enquanto eu tinha ficado com o combo clássico de lábios mixurucas, estrutura facial nem um pouco memorável e olhos castanho escuros bem comuns. A única coisa que tínhamos parecido era o tom do cabelo. Aquele tom de castanho ordinário, que fica bem entre o castanho claro e o preto. Não que eu achasse uma cor feia, só era bem comum.

Angie se aproximou dos guardas.

- Angie Vanderwall e convidados.

O cara da esquerda abriu um tablet e digitou alguma coisa. Segundos depois já estavam abrindo a grande porta de metal para nós, que dava em uns três lances de escada de metal direto para o subsolo.

- Eles nem pediram qualquer identificação? - Meu irmão franziu as sobrancelhas. - Estranho.

- Olha, Blake, por que você não sorri um pouco? - Angie comentou sem olhar para ele, enquanto descíamos as escadas. - Você ficaria bem mais bonitinho se sorrisse mais.

- Eu só estava dizendo que...

- Cara, só tenta relaxar um pouco! - Ela riu e o cortou com um gesto. - As bebidas hoje são por minha conta e eu prometo que tento achar alguma garota bem séria e chata pra você, ok? - E piscou um olho para mim. Alguma coisa ela com certeza estava armando.

- Vocês não vão beber, certo? Ainda não têm 21 anos. - Ele ergueu a voz e eu rolei os olhos. Ah, tadinho.

- Acho que alguns goles não vão matar ninguém, certo, irmãozinho? - Dei dois tapinhas no braço dele quando chegamos no último degrau. - E tem mais: daqui a algumas horas é meu aniversário. Você podia relaxar um pouco e deixar a gente se divertir.

- Só alguns goles… - Ele mordeu o lábio, provavelmente se perguntando mentalmente se não estava tomando uma péssima decisão. Provavelmente estava.

Ele com certeza sabia que nós já bebíamos pelas costas dele e dos nossos pais, de qualquer modo. Afinal, já estávamos na faculdade há meio semestre e eu não sou do tipo que fica de fora das festas, não que Blake precisasse saber sobre esse assunto.

Mas o que ele podia fazer? Uma noite a mais ou uma noite a menos não faria diferença.

Assim que Angie abriu a porta no final das escadas, All Around The World do R3HAB, pareceu aumentar cem vezes e uma explosão de cores quase me cegou. Um arrepio de excitação correu por minha espinha e eu arfei, surpresa. Aquela era definitivamente a maior boate que eu já tinha ido na vida.

A primeira coisa que eu procurei foi a cabine do DJ, que não foi difícil de encontrar. Era a metade de baixo de um caixa de vidro aberta que ficava bem no centro do local, ligada à passarela que rodeava toda a boate bem no alto por uma única passarela de metal. Devia ter por volta de uns 7 ou 8 metros quadrados, suspensa no teto por cabos em cada um dos quatro lados e equipamentos rodeando cada parede interna. Um sonho, eu sei.

- Impressionada? - Angie praticamente gritou ao meu ouvido.

- Talvez um pouquinho. - Brinquei e logo em seguida abaixei um pouco a voz para um tom mais sério, para que meu irmão não ouvisse. - Você tem que conseguir isso pra mim, Angie.

- Estou trabalhando nisso, querida. - Ela piscou um olho mais uma vez e entrou no lugar, o que era basicamente a deixa para calar a boca e seguí-la.

A boate estava obviamente bem cheia, mas não ao ponto de ser insuportável. A loira nos guiou pela multidão até uma escada lateral que levava até uma das áreas VIPs no que parecia ser um dos seis enormes mezaninos.

O lugar ainda não estava tão cheio, provavelmente só umas 10 ou 15 pessoas em um espaço que parecia caber fácil mais umas 30, porém ainda tinham mais pessoas entrando logo atrás de nós. Isso além dos sofás brancos de couro, mesinhas de centro de vidro e vários baldes com gelo espalhados aqui e ali. Ok, aquilo ali era mais chique do que eu estava acostumada.

- Lilililily! - Um par de braços se ergueu, cantando o meu nome com sílabas demais.

- Jesus, Kay! Você está muito bêbada! - Ri e abracei minha amiga ruiva que parecia estar vestida de bruxa, só que sem o chapéu pontudo. Provavelmente já o tinha perdido. Ela estendeu seu copo com uma bebida de cor suspeita para mim.

- Ah, você não viu nada! - Kate abriu seu típico sorriso de “não sei bem do que eu estou rindo ou do que estamos falando, só continue me trazendo bebida”.

As bochechas coradas contrastavam com a pele muito clara e camuflavam suas sardas. Seu olhar distraído não me dava a certeza se ela estava prestando atenção em tudo ou em nada. Talvez os dois ao mesmo tempo.

Balancei a cabeça rindo. Não poderia dizer que estava surpresa com o estado de Kate, mesmo que a festa só estivesse começando. Aceitei o copo oferecido, lançando um sorriso sapeca para meu irmão antes de tomar o primeiro gole.

- Querida, você acabou de gritar pro pessoal lá embaixo que é a filha perdida do Ron e da Hermione. Você com certeza já bebeu demais. - Um braço passou pelos meus ombros e o garoto de pele cor de chocolate depositou um beijo em minha testa. - Olá, Lils.

- Oi, Derek. - O abracei de lado e depois afastei um pouco a cabeça para analisar sua fantasia. - Jack Sparrow?

- Capitão! - Ele corrigiu, levantando o dedo indicador e me olhando divertido.

- E o capitão já pegou quantos até agora? - Questionei, arqueando as sobrancelhas. - Vamos lá, Smith, não me decepcione!

- Só três. - Ele rolou os olhos e lançou um olhar irritado para Kate. A ruiva parecia mais entretida em perturbar o meu irmão do que em nos ouvir, tentando inutilmente pegar a enorme espada falsa da fantasia em suas costas.

Blake me olhou irritado e em dois segundos já tinha se desvencilhado de Kate e se afastado de nós. Angie eu trocamos um olhar cúmplice e quase não conseguimos conter os sorrisos. A primeira fase do plano, tirar o cão de guarda do meu pai de perto de nós estava concluída. Que os jogos comecem.

- Essa bêbada maluca não me deu uma trégua. - Derek continuou, rolando os olhos para uma Kate com cara de decepcionada que já estava voltando para perto de nós. - Tive que escolher há cinco minutos atrás entre pegar o cara vestido de Duffman ou impedir essa louca de cair daqui de cima.

- Sinto muito por você. - Angie o abraçou do outro lado, rindo junto comigo.

Não sei qual foi a lógica de bêbada que fez com que Kate gritasse um “awwww” e viesse nos abraçar, mas tenho que admitir que foi uma cena fofa. Meus três melhores amigos ali comigo na festa de Halloween de uma das boates mais badaladas de Nova York, comemorando meu aniversário de 18 anos.

Definitivamente o melhor aniversário.

Porém o momento fofo foi cortado quando Derek resolveu que o Drácula que passou ao nosso lado valia mais a pena do que suas melhores amigas. Eu o teria xingado se tivesse tido tempo para isso, já que alguns conhecidos nossos nos abordavam a cada segundo.

A menina prodígio na pintura da turma de Katie na NYU. A líder de torcida da minha turma de botânica. O secundarista da banda da escola que estava na minha aula de biologia avançada no ano passado.

Alguns eu nem lembrava o nome, mas todos pareciam saber o meu. O que não era tão estranho considerando que eu era amiga de Angie Vanderwall desde sempre, então já tinha me acostumado com aquele tipo de coisa.

Eu já estava desconfiando que a minha amiga loira tinha cobrado um “feliz aniversário, Lily” de cada conhecido nosso para quem ela tinha conseguido uma entrada para a Hellhound. Me virei para comentar sobre isso com ela, mas a garota tinha desaparecido. Podia jurar que alguns segundos atrás ela estava bem atrás de mim, mas agora eram só Derek e Kate quem estavam ali.

Os dois estavam discutindo sobre alguma coisa ridícula depois que eu terminei de falar com a garota de um dos grupos de acapella da faculdade quando senti dois braços me agarrando por trás e me erguendo do chão. Eu gritei.

- Olha só quem está aqui! - Reconheci a voz de imediato e quis dar um soco nele. - A aniversariante do dia, pessoal! - O loiro alto e musculoso me colocou sobre um ombro e me virou para as pessoas ao redor.

- Ai meu deus, Josh! - Gritei, não conseguindo controlar o riso e dando tapas nas costas desnudas do garoto, que parecia estar fantasiado de gladiador. - Me coloca no chão, seu idiota!

Mas ele obviamente só riu da minha cara e se virou para os meus amigos, perguntando se eles queriam mais bebida. Bufei irritada e depois de alguns segundos ele finalmente me colocou no chão, me dando um abraço de urso logo em seguida.

- Feliz aniversário, estressadinha. - Ele riu, mordendo o lábio inferior.

Ok, esse cara só podia estar de brincadeira comigo. Não sabia se o beijava ou dava mais alguns tapas, mas resolvi só agradecer com um sorriso cínico. Então ele abaixou a voz para um tom que só eu ouvisse:

- Você está linda, mas acho que uma fantasia de diabinha seria mais apropriada.

- Você nunca muda, Vanderwall. - Dei um soquinho de brincadeira no braço dele. Ok, alguém pelo visto tinha voltado a malhar.

Josh era o irmão mais velho da Angie e tinha sido da turma do meu irmão no colegial. Então já dá pra imaginar que nós quatro sempre convivemos muito, eu indo pra casa da Angie ou ele indo lá pra casa pra ver o meu irmão, e vice-versa. E, bem, o Josh sempre foi bem gatinho…

Sim, bem clichê, eu sei. Mas não é o que você está pensando. Não sou e nunca fui apaixonada por ele ou qualquer coisa do tipo. Nós acabamos ficando uma época, nada sério, mas hoje éramos só bons amigos. Não que isso o impedisse de jogar piadinhas com duplo sentido em cima de mim sempre que podia.

- Você viu a sua irmã por aí? - Derek perguntou, olhando ao redor distraidamente. Só então me lembrei que ele e Kate ainda estavam ali.

- Não, achei que ela estivesse com vocês, na verdade. - Josh deu de ombros, pegando uma latinha de cerveja que ele aparentemente tinha deixado em cima de uma mesinha para me colocar em seus ombros.

- Bem, ela entrou comigo há alguns minutos. - Comentei, franzindo as sobrancelhas e olhando em volta também. - Tenho certeza de que ela estava aqui um segundo atrás.

Abri a boca para falar alguma coisa com os meus amigos e Kate soltou um gritinho agudo, correndo com os braços erguidos na direção de algum conhecido dela que estava entrando no mezanino agora. O garoto quase caiu pelas escadas quando ela pulou em cima dele. Derek encolheu os ombros, resignado, e me lançou um olhar de “o dever chama” antes de ir atrás da Bomba Ruiva.

- Então… - Me virei para Josh, que se apoiou no braço do sofá mais próximo. - Como anda Harvard?

- Tirando o fato de que eu odeio Direito? - Ele riu e eu o acompanhei. - As festas são bem legais, tipo um upgrade das festas do colégio, só que com mais beer pong.

- E menos camadas de roupa. - Comentei, alguns flashes das festas da faculdade passando rapidamente pela minha cabeça.

- Claro, menos roupas também… - Ele riu, estreitando os olhos para mim como se ainda estivesse decidindo se me perguntaria o que eu achava que ele queria perguntar.

“Oh, essa vai ser uma noite interessante”, pensei. E eu nem imaginava o verdadeiro motivo.


***


- Eu juro que nunca fiz isso! Sou uma santa! Olha, eu tenho até uma auréola! - Comecei a rir escandalosamente, apontando para a auréola já meio torta da minha fantasia. Josh também ria, tendo que apoiar seu copo de shot na mesa em frente ao sofá em que estávamos sentados para não derrubar a bebida.

Minha visão estava levemente turva e minhas palavras já estavam saindo mais arrastadas do que o normal. Talvez isso tivesse alguma coisa a ver com a garrafa de vodka já quase vazia no chão ao nosso lado… Mas era realmente um mistério, certo?

Não sei em que momento minhas pernas acabaram indo parar no colo de Josh, mas o loiro obviamente não reclamou e mantinha uma mão subindo e descendo pela minha coxa. Um arrepio percorreu o meu corpo, quando uma de suas mãos subiu até o meu quadril e me trouxe para mais perto dele.

- Eu tenho um presente de aniversário especial para você. - O loiro sussurrou bem perto do meu rosto.

- Ah, é? - Questionei curiosa, dando um toque mais grave e sexy ao meu tom de voz. Eu não estava tão bêbada a ponto de não conseguir notar aonde aquilo levaria. - E que presente é esse?

- Surpresa. - Ele mordeu o lábio inferior, encarando minha boca descaradamente.

Minhas pernas se espremeram num impulso involuntário e ele obviamente notou que estava tendo o efeito esperado. Ah, aquele gostoso maldito.

E então sua cabeça desceu na minha direção, se desviando para o meu pescoço. Tive que segurar um gemido assim que senti sua língua quente passando pela minha pele desprotegida e seus dentes raspando por ali logo em seguida. Eu tinha esquecido que ele conhecia praticamente todos os meus gatilhos, já que tinha sido o meu primeiro.

- Só que pra te dar esse presente... - Ele sussurrou no meu ouvido e puxou meu lóbulo da orelha com os dentes. Agarrei seus ombros por reflexo. Filho da puta. - nós vamos precisar sair daqui.

Quando dei por mim, estava sendo puxada pela mão por Josh até a parede mais distante do mezanino, onde pareciam ter cabines reservadas separadas do resto da área VIP por pesadas cortinas vermelho sangue.

Podia ser só coisa da minha cabeça, ou efeito do jogo de luz junto com o efeito da bebida, sei lá… Mas eu podia jurar que no caminho vi Angie conversando com dois caras que eu nunca tinha visto na vida e que usavam mais couro do que eu teria recomendado. Bem, pra falar a verdade eu nunca tinha visto boa parte das pessoas naquele lugar, mas aqueles caras eram diferentes.

O mais alto e careca tinha os dois braços extremamente brancos e rosados cobertos por músculos e tatuagens tribais. O outro cara era mais de um palmo mais baixo do que o primeiro, tinha a pele bem mais escura e dreads coloridos presos em um rabo de cavalo baixo que ia até o meio das costas, em uma cascata de cores vibrantes quase hipnótica.

Eu não sei como consegui notar tantos detalhes em um segundo ou dois, mas o mundo pareceu desacelerar e focar nos três quando Angie, gesticulando furiosamente na direção da entrada do mezanino, pegou alguma coisa do bolso de sua jaqueta de Harley Quinn. Era algum objeto metálico brilhante que parecia ser mais comprido do que qualquer bolso de jaqueta poderia abrigar. Minha testa se enrugou para aquilo.

Então eu vi aqueles olhos, um azul e um verde, frios como gelo. Brilhando de um modo quase sobrenatural no rosto do cara de dreads, se viraram para mim…

E minha mente se esvaziou.

Quase dei um encontrão com Josh quando paramos a poucos passos de uma das cabines reservadas, a única que mantinha um homem montando guarda.

Franzi as sobrancelhas. Tinha a sensação de que devia me lembrar de alguma coisa, mas não fazia ideia do que. Então somente afastei aquele pensamento da minha cabeça e forcei um sorriso.

- O que você está aprontando, Vanderwall? - Me virei para o loiro, que somente piscou um olho castanho para mim e passou o braço ao redor da minha cintura, me levando até o reservado.

Ele falou alguma coisa em voz baixa com o guarda e o homem puxou um lado da cortina para nós. Assim que entrei me deparei com um cubículo com um sofá em U e uma mesinha redonda no centro dele.

- Espero que você goste do seu presente, Jones. - Sussurrou em meu ouvido, me virando de frente para ele.

Seus lábios vieram de encontro aos meus de um modo faminto, quase violento. Suas mãos desceram até a minha bunda, apertando tão forte que me fez perder completamente qualquer linha de raciocínio. Fomos andando para trás cegamente até eu me ver encostada na mesa redonda e ele deu impulso para que eu me sentasse ali.

Seus dedos já estavam escorregando por baixo da minha saia e direto para a minha calcinha quando ele parou. Congelou no lugar parecendo só ter percebido alguma coisa naquele minuto.

- Espera, você não está muito bêbada, está? Porque você sabe que eu não quero forçar nada e se você quiser que eu pare…

- Não ouse parar. - O interrompi, cuspindo as palavras para fora de um jeito rápido e desajeitado enquanto o puxava para perto de mim novamente.

Com o sorriso mais sacana da noite, o loiro aproximou seus lábios de minha orelha para um último sussurro quente antes de voltar a me beijar:

- Feliz aniversário, Lily.


***


- Ah, você está aí!

Me virei no banquinho ao som daquela voz conhecida, quase derrubando meu copo de Sex On The Beach. Josh tinha me deixado no bar para ir atender um telefonema em algum lugar mais quieto há no máximo cinco minutos e eu só tive tempo de pedir o meu drink até meu irmão aparecer e minha paz acabar.

O manto preto da fantasia estava aberto e um pouco desalinhado, e a blusa branca que ele usava por baixo estava bem amarrotada. Parece que mais alguém ali estava tendo uma ótima noite.

Eu não devia ficar muito surpresa com o fato de que meu irmão parecia estar finalmente aproveitando a noite. Quer dizer, Blake é realmente muito bonito. Do tipo que eu tenho certeza que conseguiria ser modelo se quisesse. Mas simplesmente nada disso era o estilo dele.

Beber, dançar até suar, beijar estranhos… Ah, não. Isso era muito mais o meu cenário do que o do meu irmão nerd e certinho. Tenho certeza de que ele preferia estar em casa com um livro no colo e uma xícara de chá ao seu lado naquele momento, mas ele obviamente tinha que bancar o irmão mais velho.

- Eu estou te procurando há muito tempo! - Ele reclamou, passando a mão nos cabelos de modo aliviado. Mentiroso. - Onde você se meteu?

- Vim pegar uma bebida. - Dei de ombros e recostei os cotovelos na bancada do bar atrás de mim, erguendo as sobrancelhas para ele. - E você, irmãozinho? - Estreitei os olhos e sorri cinicamente. Afastei um pouco a gola da camisa dele para confirmar a visão do pequeno hematoma que eu tive por baixo do tecido claro e fino. - Presumo que você também esteja se divertindo. Eu só achava que você você não curtia esse tipo de… ambiente.

A expressão dele se fechou e afastou a minha mão, tentando ajeitar a gola da camisa para que escondesse a marca vermelha, levemente arroxeada, do que parecia ser um chupão perto da base do pescoço.

- Isso não é… - Ele sacudiu a cabeça, afastando algum pensamento repentino. - Bem, não importa. Angie está te procurando, disse que tem uma surpresa para você.

Então antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele me puxou pela mão, quase me fez tropeçar no meu salto quando levantei do banquinho alto, e começou a me arrastar até a outra ponta da área VIP. Mas nem as grosserias do meu irmão conseguiam tirar o sorriso sacana da minha cara.

É, um bom sexo faz mesmo a diferença no humor de uma pessoa. Acho que Blake devia tentar isso também.

Fui levada até perto do lugar por onde entramos e quase não acreditei quando o enorme bolo entrou em meu campo de visão. Todos os meus amigos estavam ali, batendo palmas e cantando parabéns para mim, enquanto Angie trazia em um carrinho com rodinhas o bolo de três andares com as velinhas do número 18 no topo. Só então me toquei de que já devia ser meia noite, o que queria dizer que agora eu tinha oficialmente 18 anos.

Um arrepio passou pelo meu corpo, frio como gelo. Esquisito.

Kate, Derek e Angie vieram correndo me abraçar, quase me derrubando no chão no processo. Até mesmo Blake me deu um abraço desajeitado, parecendo esquecer completamente qualquer coisa que o estivesse preocupando durante toda a noite.

- Faça um pedido! - Guinchou Angie, praticamente pulando em excitação.

Me aproximei do bolo, encarando o leve crepitar das chamas das velas numa dança lenta e hipnótica. Um milhão de pensamentos passaram em um flash pela minha cabeça, mas um único entrou em foco: os estranhamente vívidos sonhos que eu andava tendo ultimamente.

E que mesmo não me lembrando bem deles, sabia que envolviam a minha mãe. Aquela que eu nem cheguei a conhecer, porque havia me abandonado no hospital com meu pai completamente desesperado e meu irmão de 3 anos chorando copiosamente. Aquela que eu sequer sabia como era o rosto, porque meu pai se recusou a guardar fotos suas.

Como será o rosto dela?

Me abaixei para assoprar as velas quase num movimento mecânico, ainda com aqueles resquícios de sonhos em minha mente. Angie e Blake se encaravam de um modo estranho e pareciam estar cochichando alguma coisa, mas minha mente ainda estava confusa demais para focar naquele detalhe.

Por que ela me abandonou?

Me forcei a pensar em algum pedido simples, como me formar sem repetir qualquer matéria na faculdade, ou conseguir o trabalho de DJ na boate. E assoprei.


***


- Eu juro que amei! - Respondi pela vigésima vez para uma Angie frenética.

A garota não parava de olhar para os lados e para o celular, como se pressentisse que algo de ruim aconteceria em poucos minutos.

- Esse foi o melhor aniversário de todos, eu juro. - Assegurei a ela e coloquei um braço ao redor dos ombros da loira, que pareceu relaxar um pouco.

- Eu sou mesmo uma ótima organizadora de festas, não sou? - Ela sorriu convencida e eu tive que rir.

Estávamos apoiadas na mureta do mezanino, que nos separava do resto da festa muitos metros abaixo. Comecei a observar as várias cenas se desenrolando lá embaixo.

Pessoas dançando, rindo, se beijando, bebendo. Nenhuma delas parecia triste ou sequer entediada. Fechei os olhos e apenas me deixei levar pela batida rápida e ritmada que enchia o lugar, deixando todo o meu corpo relaxado vibrar junto com o remix de algum pop do momento qualquer.

Angie ofegou ao meu lado. Me virei para a loira, que tentou disfarçar seu olhar surpreso e levemente assustado com um riso forçado, mas eu obviamente não comprei. Ela murmurou algo como “acho que deixei meu batom no banheiro” e, antes que eu abrisse a boca para dizer que iria até lá com ela, a garota se virou e sumiu no meio do amontoado de pessoas. Bem estranho.

Voltei a encarar as pessoas lá embaixo na pista de dança, mas dessa vez um ponto vermelho em especial me chamou a atenção.

O cabelo loiro refletia as cores das luzes coloridas que passeavam pela pista aleatoriamente. Ele se movia de um modo tão lento que chegava a ser sensual, quase flutuando, com sua capa vermelho sangue da fantasia de diabo esvoaçando logo atrás. Ele parecia olhar na minha direção, mas eu tinha quase certeza de que era só impressão, principalmente considerando a nossa distância.

- Jones, sua maluca!

A ruiva surgiu, aparentemente das sombras porque eu não fazia ideia de onde ela tinha saido, e começou a me puxar pelo braço.

- Você pretende mesmo passar o seu aniversário só vendo as pessoas se divertirem na melhor boate de Nova York? Vamos dançar, mulher! - Ela exclamava enquanto me dirigia para fora da área VIP e eu tive que rir. Parece que alguém estava ficando sóbria.

Enquanto isso, a minha visão se provou um pouco alterada quando eu tropecei em um degrau descendo a escada do mezanino e quase caí por cima de Kate, que se limitou a xingar alto e continuar me arrastando na direção da pista de dança. Um amor de pessoa. Admito que às vezes preferia ela bêbada.

Assim que chegamos no centro da pista Kate encontrou alguns conhecidos, que ela dessa vez fez o favor de me apresentar, ao invés de simplesmente sair correndo e gritando.

Começamos a dançar com os amigos de Julliard dela, que eram mais legais do que eu esperava e me deram alguns parabéns bem entusiasmados assim que a ruiva disse que era o meu aniversário. Mas eu estava com um mau pressentimento.

Ali em baixo o ar parecia mais quente e sufocante, o que na verdade era meio óbvio considerando que aqui tinha muito mais gente por metro quadrado do que na área VIP. Mas aquela era uma sensação diferente. Eu me sentia mais exposta do que nunca, como se uma camada da minha pele tivesse caído no momento em que eu desci aquela escada. E tenho que admitir que isso me assustou mais do que deveria.

Então muito de repente uma dor aguda em minhas têmporas me pegou desprevenida, subindo e se espalhando por todo o meu couro cabeludo, e eu perdi o fôlego. Kate notou minha expressão estranha e perguntou se eu estava bem. Fiz um gesto com a mão fingindo que não era nada demais e disse que ia pegar água no bar.

Me afastei tão rápido quanto pude com aquela dor começando a irradiar por todo o meu corpo, desde as minhas mãos até meus pés, dificultando até minha locomoção. O que estava acontecendo?

- Uma água. Com muito gelo. - Pedi pro cara do bar enquanto me sentava em um dos banquinhos e respirava fundo. A dor tinha diminuído até uma leve picadinha de agulha em cada lado da minha cabeça, mas eu ainda estava bem assustada. Será que era alguma doença?

Bebi o copo largo em duas grandes goladas e respirei bem fundo mais uma vez. Se eu parasse para prestar atenção ainda podia sentir um formigamento estranho bem onde parecia ser o centro exato do meu cérebro. Incômodo, mas aturável.

Me levantei para voltar para perto de Kate e do resto do pessoal, mas parei antes de conseguir dar o segundo passo, congelada no lugar.

Olhos verde me encaravam há uns dez metros de distância. E agora ele estava se aproximando.

Oito metros. Seis metros. Quatro metros. Dois metros.

Ai meu deus.

- Acho que eu não preciso jogar a boa e velha “quando você caiu do céu…”, certo? - O loiro sorriu de lado, tão perto de mim que a ponta de sua pesada capa vermelho sangue roçou na minha panturrilha quando ele parou à minha frente.

O cara vestido de diabo que eu tinha visto lá de cima. Deus, ele era ainda mais bonito de perto. Seus olhos tinham um brilho divertido, quase sarcástico. Suas sobrancelhas se ergueram em uma pergunta muda e só então eu me dei conta de que ainda não tinha dito uma palavra.

- Não… - Um sorriso escapou de meus lábios quando eu percebi como devia estar parecendo patética parada ali sem palavras. Tentei lembrar como se flertava e meu sorriso se transformou em um malicioso. Ou pelo menos o que eu achei que devia ser um sorriso malicioso. - Mas talvez precise de alguma cantada melhor. Vamos lá, se você se esforçar um pouquinho acho que consegue pensar em alguma coisa.

Cara, eu realmente tinha que aprender a flertar.

Ele sorriu. O loiro abriu um sorriso aberto e um pouco descrente, balançando a cabeça levemente, e eu quase perdi o fôlego de novo, mas não a postura.

“Se controla, Lily. Até parece que você nunca conversou com um cara antes” pensei.

- Gostei de você. - Ele decidiu, estreitando os olhos. - Mas não sou muito bom com cantadas, então acho melhor não desperdiçar mais o seu tempo.

E se virou, me deixando com uma cara de tacho totalmente surpresa. Uma corrente de ar frio passou pelo meu corpo, fazendo meus pelos se arrepiarem. Me ouvi soltar a palavra antes mesmo de ter a consciência de ter pensado nela:

- Espera.

O loiro estancou no lugar, a dois passos de onde eu estava.

“O que você está fazendo?!”, uma voz gritava dentro de mim, sufocada pelos meus impulsos repentinos. Tempos depois eu fui compreender que aquele provavelmente era o meu pobre coitado subconsciente, o único ainda de pé naquele momento.

- O que você pretende fazer até o amanhecer? - As palavras saíam da minha boca por vontade própria e eu não fazia ideia do que estava acontecendo, porque sequer tinha pensado nelas.

Era como se minha boca estivesse funcionando por vontade própria e soltando palavras que meu cérebro não havia autorizado. Aquilo não podia ser o efeito da bebida, podia?

- Dançar com você. - O loiro respondeu e sua mão já estava na minha antes mesmo que eu pudesse falar mais alguma coisa, enquanto ele já me puxava pela pista de dança.

Era como naqueles filmes de espionagem em que uma pessoa pergunta alguma coisa, somente para a outra responder uma frase mecânica e combinada previamente. Uma espécie de senha secreta de espiões. Só que eu definitivamente não conhecia aquele cara e nunca tinha ouvido antes aquela senha.

Mas a minha mente estava enevoada e eu tinha somente uma vaga noção do que estava acontecendo ao meu redor. A única coisa que eu conseguia ver era o loiro vestido de diabo.

Estávamos em algum ponto da pista de dança e eu sabia que devia me lembrar de alguma coisa, de alguém. Mas só conseguia me concentrar no garoto à minha frente, sorrindo para mim. Ele me puxou para perto pela cintura e eu já não conseguia lembrar meu nome.

Talvez fosse só uma coincidência enorme, mas o remix de uma música que eu conhecia bem, com a batida forte e lenta, começou a tocar. Skin da Rihanna? Provavelmente. Mas eu não parei sequer dois segundos para tentar reconhecer a música, o que definitivamente não era típico meu. Só que meus hormônios já estavam dando sinal de vida, e eu lutava para manter a respiração controlada enquanto o ar parecia me sufocar cada vez mais.

Nossos corpos dançavam tão colados que eu podia sentir sua respiração no meu pescoço, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. A única coisa que eu conseguia ouvir era a música e o ruído da minha própria respiração, pesada e entrecortada. Era quase como se estivéssemos em nossa própria bolha de calor e sensualidade.

Tem alguma coisa errada.

Sua mão subiu da minha cintura até a minha nuca e sua boca desceu sobre mim, macia e paciente. Minhas mãos agarraram a frente da sua camisa em um desespero faminto. Eu já não me reconhecia.

“Essa não sou eu”, aquela mesma vozinha gritava dentro de mim. Mas ela estava ficando mais baixa a cada vez que o loiro mordia meu lábio inferior.

Eu queria conseguir parar e respirar. Pensar. Mas era como se eu fosse uma marionete, sendo controlada por cordas invisíveis. E por mais que eu quisesse mesmo estar beijando aquele cara super atraente, tudo parecia errado demais. Alguma coisa não encaixava.

Só notei que estávamos nos movendo quando minhas costas encontraram uma parede. Arfei em surpresa e ele aproveitou para tomar minha boca novamente, de um jeito muito mais feroz dessa vez. Todo o meu corpo estava reagindo a cada mínimo estímulo que ele me dava e aquilo chegava a ser assustador. Minhas pernas foram erguidas do chão e entrelaçadas em volta de sua cintura automaticamente.

Aquilo estava indo longe demais e eu não conseguia comandar meu corpo para fazê-lo parar. Sua boca deslizou pela minha clavícula, pela base do meu pescoço e subiu mais um pouco, puxando levemente o lóbulo da minha orelha com os dentes e sussurrando em seguida:

- Antes de qualquer coisa, eu queria dizer que não é nada pessoal, mas… - O loiro me olhou nos olhos, me apertando ainda mais contra a parede. Jesus, eu definitivamente não esperava por aquilo. Sim, estou falando disso mesmo. - só estou fazendo o meu trabalho.

Franzi as sobrancelhas sem entender e vi ele tirar o celular do bolso, apertar algum botão na lateral e guardá-lo novamente. Então segurou meu queixo com a mão livre, sussurrando mais uma vez bem perto do meu rosto:

- Chega a ser um pecado o fato de um demônio ser tão lindo.

E ele me beijou, mais suave do que todas as outras vezes. Fiquei tonta, perdida na escuridão de meus olhos fechados. Minha consciência parecia se desvanecer e meus sentidos se perdiam enquanto a pressão dos lábios dele sobre os meus ia ficando mais fraca e os sons da boate ao nosso redor iam diminuindo.

Até que tudo finalmente desapareceu.

5 de Julho de 2020 às 22:44 0 Denunciar Insira Seguir história
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