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Os dias passam-se, porém o peso no peito de Rosa permanece. Uma dor. Não, uma perda. A sensação de acordar todos os dias ao ter perdido aquilo que mais amava. As memórias, antes tão doces, se transformando em fantasmas. Um conto que narra as manhãs de uma jovem a qual está tentando se desvencilhar de seu passado. Mostrando o sofrimento universal da perda.


Conto Todo o público.

#romance #luto #memórias #passado
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(A)manhã

Três vasinhos de plantas estavam enfileirados no parapeito da janela. A iluminação batia contra suas folhas e fazia uma singela, uma suave, sombra na mesa. Os pássaros ao longe piavam. Rosa sentia o frio da madrugada ainda em suas mãos. O escritório estava gelado, como se ainda não estivesse adaptado ao mais débil calor das seis horas da manhã. Por trás da vidraça nuvens rosas em tons de ameixa cobriam o céu elevando os pequenos riscos cintilantes a qual anunciavam que o sol estava por acordar. Rosa, no entanto, já estava em pé fazia um bocado de tempo.

Um miúdo Sabiá-Laranjeira pousou entre os vasinhos. A pelugem castanha avermelhada em seu torso. Rosa olhou aquele ser miúdo que a encarava de volta com os olhos esbugalhados. Ela sorriu, ergueu as mãos em direção ao pássaro. O sol tocou-lhe os dedos, e aquele instante, Rosa sentiu-se como Adão encostando em Deus.


O sol havia morrido. Despencado de órbita. O negrume denso do céu a sufocava. O teto de seu quarto, preto como carvão, a sufocava. Sentia nas costas um arrepio que percorria toda espinha. Era a solidão, espinhosa, opressora. Como poderia aquele mesmo lugar ter sido palco de tempos tão felizes? Fechava os olhos, via as memórias transbordando os pensamentos. Memórias vibrantes, flutuando por seu corpo, escorrendo pelos olhos lágrimas saudosistas. Escorriam por sua bochecha uma ou duas gotas, densas, silenciosas. Uma garoa fina, rápida, onde o céu tomado por nuvens de papel envelhecido permanece cinzento pelo resto do dia.

Rosa despejou a água fervente no filtro de café. Viu o vapor rodopiar em orla. Apoiou-se na bancada, encarou as meias surradas em seus pés. O relógio apontava para às sete e meia e ela ainda estava com o pijama quente. Uma moldura de vidro contornava o retrato de Felipe. Ela também estava na foto, ao lado dele, encarando-o com um sorriso que fazia sua face reluzir. Com os olhos em uma meia lua deitada, as bochechas saltadas, vermelhas. Ele com o divertimento estampado, sereno. Lembrava do cheiro amargo de cravo que exalava. Gel de cabelo, pasta de menta. Rosa tinha em mente cada aroma dele.

O tempo passou, o ponteiro do relógio girando entre os números. Rodando como uma roleta traiçoeira.

Já eram oito e quarenta.

Ela estava encolhida na cadeira na cozinha. A xícara de café morno entre os dedos. O telefone berrava em uma tentativa de a despertar. O celular vibrava em cima da mesa. Na telinha reluzia a imagem de Luiza. Era uma boa amiga, ao menos estava tentando. Mas Rosa, Rosa não queria. Não queria ligações, não desejava as palavras de reconforto, os abraços. Então ela só deixava que tocasse. Depois pediria desculpas, prometeu a si mesma. Depois inventaria alguma coisa. Ela só precisava... só precisava... afogar-se no que a transbordava. Perder-se entre o vazio. Sumir.


Parecia que sua pálpebra superior estava colada na inferior quando ela abriu os olhos naquela manhã. A luz adentrava pelas frestas da veneziana de madeira, criava uma mancha luminosa no teto pálido. O coração ressoava no peito com batidas sincronizadas, lentas. Sentiu a leve tensão em seus ombros. Ainda havia em si aquela sensação estranha de quando se acorda de um sonho revelador. Qual era o sonho? Ela não se lembrava mais. No lado direito da cama havia o resto das cobertas amassadas e emboladas, nada além disso. As memórias pareciam mais desfocadas naquele dia, a machucavam menos. Era uma manhã ensolarada de Sexta. Caso ela se apressasse, poderia chegar à feira a tempo de apanhar bons cachos de uva, ou um peixe para fazer de almoço. Encarou o próprio armário. Viu sua bolsa pendurada no cabideiro. Observou a luz em seu teto. Era só se levantar. Respirou o ar viciado de seu quarto. Só bastava mexer seus pés, enfiar-se em qualquer roupa e ir. Era fácil, já havia feito isso antes milhares de vezes.

Mesmo que nessas outras milhares de vezes sempre perguntava para Felipe o que ele iria querer da feira. E ele sempre insistia em ir com ela.

Os lençóis a imergiram. Pareciam tão calorosos, longe da vida, longe de tudo. Precisava se manter ali, segura, com ele, com as imagens dele.

Não, precisava ir embora.

A feira acabaria em duas horas, seu trabalho iniciaria daqui três. Mas como? Como faria para levantar se seus músculos não obedeciam aos comandos? Como se suas pernas pareciam congeladas? Ela nunca conseguiria ir embora. Nunca conseguiria deixar ir. O peso em seu peito se manteria lá, para sempre, pressionando-a até o limite. Ele nunca mais estaria aqui. As cobertas se agarravam a ela, puxavam-na pelo pescoço. Era impossível respirar. O tsunami, as memórias se arremessando contra ela como ondas colossais. As lágrimas por toda sua face, o nariz entupido, a garganta sufocada.

Rosa encarou o guarda-roupa. Viu as roupas que variavam entre as paletas de cinza e marrom, todas enfileiradas na pequena arara. Assou o nariz na própria mão e passou-a na calça de moletom. Os olhos ardiam, inchados, dolorosos. Sentia a cabeça pulsar, os nervos entrando em fricção. A dor martelava sua testa, um martelo pesado sendo arremessado contra seu rosto. O catarro, por Deus, estava por toda parte, fazia as bochechas despencarem. Encarou o guarda-roupa. As roupas enfileiradas em uma tristonha paleta de cinza a marrom. Sentou-se na beirada da cama. As molas afundaram, fizeram um rangido agudo. Encarou o guarda-roupa. Por que ele não a olhava como ela o via? Não, continuava ali, estático, zombando dela. Todas aquelas roupas, velhas, cheirando a mofo, surradas, fedendo ao defunto do que um dia ela já foi. Jogou todas no chão. Uma por uma, tirou do cabide e jogou no chão. Pegou um saco de lixo na cozinha e as enfiou lá dentro como se fossem baratas asquerosas demais para ficar na mão, como se pudessem fugir e se esconder debaixo da cama. Fechou o saco com dois nós. Abriu as gavetas, lá no fundo estavam elas: as roupas de Felipe exalando passado. Ela nem sequer pensou duas vezes. As lágrimas rodopiaram em seus olhos, mas não deixou que caíssem. Pegou outro saco de lixo e as meteu lá, só que dessa vez com uma certeza mais incerta de seu ato. Pegou outro saco, enfiou as cobertas e o lençol. Pegou outros dois, ensacou todos os retratos na casa. Pegou uma caixa de papelão que tinha guardada, colocou lá os livros dele. Pegou uma sacola menor, jogou todos seus arquivos de trabalhos. Pegou outra sacola de lixo – elas estavam acabando, todos os desenhos de Felipe foram para lá. Todas as memórias, ensacolou. Pegou outra, e outra, e outra, e outra, e outra. Pegou mais uma caixa, e outra e outra. Enfiou, chorou, deu nó, quis berrar, deu outro nó. No fim, sua casa inteira estava disposta em sacos de lixo e caixas de papelão.

O celular tocou e se remexeu na mesa da cabeceira. Eram oito e quarenta e dois. Daquela vez ela atendeu. Com a voz tremula, disse:

’Luiza, pode vir me ajudar de tarde? Vou me mudar.’’

FIM.

2 de Julho de 2020 às 23:02 0 Denunciar Insira Seguir história
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