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Quando Miguel acorda ao lado de Felipe, sua única lembrança é a de ter ido à uma balada, incentivado por seus companheiros de grupo. Mas, pelo estado de ambos, acontecera muito mais do que apenas uma bebedeira. O problema é que ele não se lembra de nada.


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Capítulo 1

Quando Miguel aprenderia que encher a cara daquela forma não o levaria á lugar algum que não uma ressaca infernal? Bom, talvez no momento em que se visse completamente despido, em uma cama que não era a sua e com o braço de alguém rodeando sua cintura. Coisa que estava acontecendo naquele momento.

Ele até mesmo ignorou a dor de cabeça para tentar se localizar, mas cada segundo que passava ficava ainda mais em pânico. O que fazia pelado na cama do Felipe?

- Porra! – exclamou em voz baixa, com muito medo de se virar e encarar a pessoa adormecida. – Kauã, eu juro que vou te matar. – era muito mais fácil colocar a culpa no amigo que lhe convencera a ir até aquela balada. Não se lembrava de nada que não fosse ele lhe estendendo um copo de tequila.

E ele tentou. Realmente tentou lembrar o que tinha feito e como tinha ido parar ali, mas seu cérebro era uma folha em branco depois do segundo copo.

Praguejando baixinho, decidiu que não ficaria ali para explicar sua amnésia alcoólica para o outro. Era melhor ir para casa e tentar descobrir o que tinha acontecido.

Sem pensar duas vezes, caçou suas peças de roupa pelo quarto e se vestiu, agradecendo aos céus por seu celular ainda ter um pouco de bateria.

Miguel ainda olhou a figura adormecida em meio aos lençóis, os cabelos lisos e dourados cobrindo o rosto sereno parcialmente, o corpo esguio e pálido quase que completamente fora dos lençóis, a boca cheia e bem desenhada entreaberta...

Será que Felipe se lembraria? Será que ficaria chateado por acordar sozinho?

Sem querer se prender por mais tempo, Miguel deu as costas e foi embora.

O que tinham feito?

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- Vocês transaram, isso é óbvio. – Kauã nem ao menos pestanejou, ganhando um tapa no braço. – O que?

- Você não tá ajudando. – Pedro respirou fundo, virando para Miguel, que estava com uma cara péssima.

Os três estavam na sala de ensaio que ocupavam vez ou outra, quando tinham alguma coreografia mais complexa para pegar ou quando sabiam que a Vergueiro – ponto de encontro para ensaio dos demais grupos covers de São Paulo – estaria cheia demais para que pudessem arrumar um espaço. Não era sempre que poderiam fazer aquilo, já que desprendia bastante dinheiro e eles eram apenas em três, mas às vezes se davam ao luxo e Miguel agradecia por terem combinado de ensaiar ali naquele sábado.

Na Vergueiro as chances de encontrar com Felipe eram de 100%.

- A gente se beijou, ele me largou pra ficar com o Felipe e eu tenho que ajudar? – ele sabia que Kauã estava brincando, por isso não deu bola para o drama. Era de conhecimento geral a quantidade de vezes que tentara ganhar um único beijo do colega de grupo, mas sempre era rechaçado. Não que estivesse com ciúmes realmente, porque seu interesse era apenas provar que o outro não era tão hétero como insistia em dizer. Era um tipo de prazer pessoal, mas também não podia deixar tão na cara que não ligava de ter sido trocado por outra pessoa no meio de uma ficada. – Eu devia me sentir ofendido por ele nem falar como eu beijo bem.

- Talvez porque você beija mal. – a resposta de Pedro desencadearia uma discussão boba, mas ele não deixou que o outro respondesse, já emendado um questionamento para Miguel. – Você esqueceu tudo? Mesmo?

Ele assentiu. Lembrava de boa parte do dia anterior, mas da noite? Mesmo que forçasse, só conseguia um monte de imagens confusas e sem som. Aquilo o estava deixando louco!

- E o Felipe não tentou falar com você?

- Não... Quer dizer... Eu saí de lá antes dele acordar, então ele não deve nem querer olhar na minha cara. Sem contar que ele é hétero, né?

- Isso até você era antes de ontem. – Kauã riu com gosto.– Mas eu acho que a gente devia é ir ensaiar porque tem apresentação amanhã. Você vai ter tempo pra refrescar a memória ou pra saber o que falar quando for conversar com o Felipe.

Mesmo concordando com as palavras do amigo e indo com ele e Pedro para frente do espelho, Miguel estava longe de estar concentrado. Seu ânimo para o ensaio era quase nulo, sua mente estava uma bagunça, e nem a sua aparência parecia estar ajudando naquele momento, levando em consideração que seus olhos estavam contornados por olheiras.

Para piorar, seus pensamentos se dividiam entre querer ou não lembrar tudo o que tinha acontecido entre ele e o Felipe.

Mentiria se dissesse que curiosidade era tudo o que movia a querer saber sobre a noite anterior. A verdade era que sempre fora louco pelo menino de olhos azuis, sorriso doce e alto demais para ser o mais novo de seus amigos. Era apaixonado desde que ambos eram parte do mesmo grupo, mas nunca tinha dito nada em respeito ao namoro que ele mantinha até pouco tempo, e porque tinha certo problema de aceitar seus próprios sentimentos.

Nunca tinha gostado de um garoto antes e quando acontecia ele era seu amigo e hétero?

Talvez sua amnésia alcoólica fosse uma forma de se proteger, afinal. Talvez fosse o jeito que seu cérebro escolheu de não se apegar a algo que não teria futuro. Então deixaria as coisas como estavam.

Talvez fosse melhor assim.

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- Tá tudo atrasado, pra variar. – Miguel ouviu Bianca falando com o grupo dela e suspirou. Por que ainda se surpreendia?

As apresentações cover já teriam começado se os organizadores do evento não fossem tão incompetentes. Não era uma competição, mas não deixava de ser uma apresentação importante para todos os grupos que foram convidados - era sempre uma responsabilidade enorme abrir o show de um grupo idol – e aquela falta de organização irritava Miguel demais. Ou talvez ele apenas estivesse ansioso e nervoso com a perspectiva de encontrar Felipe e acabava descontando sua frustração em coisas que não tinham nada a ver.

Se segurou para não esfregar os olhos - em claro sinal de cansaço - lembrando-se que tinha acabado de fazer a maquiagem. Se limitou a ocupar uma das poucas cadeiras que ainda estavam livres no camarim e passou a arrumar os próprios cabelos em um penteado que deveria ser igual ao do cantor que ele representaria no palco. Deveria, mas estava longe de parecer, porque n~so conseguia se concentrar o suficiente em colocar os cabelos azuis (e lisos demais, em sua opinião) em uma posição mais rebelde. Por mais gel que passasse, eles acabavam escorrendo em seu rosto e o fazendo praguejar por estar cansado demais para pensar em outra solução.

Não tinham tido ensaio naquele dia, mas ele tinha chegado bem cedo no evento para fazer a passagem de som, então estava exausto. Ainda mais porque mal tinha dormido na noite anterior. Por que ouvia a ideia dos amigos mesmo? Ficar acordado a noite toda jogando quando tinha acabado de sair de uma noite de bebedeira que tinha dado merda... Ele tinha que rever suas amizades.

- Vem cá... Não quer comer alguma coisa? Você não comeu quase nada antes de vir. Vai acabar passando mal. – ok, talvez não... Os meninos eram legais, afinal de contas. Se preocupavam uns com os outros e Miguel sabia que aquela noite de jogo e comida gordurosa tinha sido pra ele afastar a mente de Felipe, mesmo que nenhum dos amigos tivesse dito aquilo em voz alta.

Pedro assumiu a função de terminar de arrumar o cabelo do amigo, que ficou pronto com muito mais facilidade nas mãos alheias. Eles terminaram de se arrumar antes que outro grupo ocupasse quase todo o espaço e os fizesse se afastar dos espelhos para continuar a conversa.

- Não tô com fome. – aquilo era surpreendente? Sim. Miguel sempre estava com fome. Era o típico magro de ruim. – Eu comi pizza antes de sair e algumas meninas me deram chocolate antes de eu vir me arrumar. – os meninos ainda cogitaram retrucar sobre chocolate não ser uma refeição, mas sabiam que seria inútil. Miguel tomou o silêncio deles como concordância e se sentou no chão do camarim, encostando-se à parede e fechando os olhos. Estava tão cansado que nem percebeu quando acabou pegando no sono e pendeu a cabeça para o ombro de quem estava ao seu lado.

E foi assim que Felipe viu Miguel pela primeira vez desde a noite que passaram juntos: dormindo confortavelmente no ombro de Kauã.

Continua...

28 de Junho de 2020 às 20:56 0 Denunciar Insira Seguir história
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