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Amelia Silva


Anna Akinawa não está vivendo, está apenas existindo. A cada dia que passa, ela se vê ficando para trás diante das conquistas do irmão mais novo e de seus próprios fracassos. Tudo muda quando Anna descobre uma loja esquisita debaixo de uma estação do metrô de São Paulo - administrada por um dono mais esquisito ainda - onde todos os itens à venda foram perdidos por seus donos originais, e que por conta disso, eram muito mais que meras tralhas largadas. O preço por eles não era dinheiro, entretanto, mas sim algo muito mais sinistro. Ao conseguir seu primeiro objeto peculiar, a garota começa a notar certas mudanças à sua volta, as quais incluem mas não estão limitadas à: portais para um mundo desconhecido, magia zoada, uma cidade embaixo de uma cidade, um governo opressor, fanatismo religioso, profecias místicas, Revolução Industrial e é claro, uma gama de pessoas estranhas que levarão Anna para a fuga da sua realidade mundana que ela sempre sonhou. Uma profecia estranha dita que somente Anna poderá encontrar os 4 preciosos frascos do antigo elixir chamado 'Sangue do Silencioso', e com eles prevenir que a cidade de Amaiera - e todo o continente de O Outro Lado (ou Olarys, para os cultos) - sejam destruídos pela Fé Silenciosa em nome de um renascimento mais puro para seu mundo pecador. Mas afinal, o que pode dar errado em aceitar coisas de estranhos?


Fantasia Épico Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Prólogo

Como dizia o sábio escritor russo Nikolai Leskov, 'não confie em demônios do mesmo jeito que não se deve confiar em pessoas'. Ou sei lá como era a frase. Minha cabeça não anda muito bem.

Escrevo diretamente do velho continente, mais especificamente de Sófia, na Bulgária. Não estou aqui por passeio com o fim de visitar o lar ancestral de meus antepassados (embora essa tenha sido uma das desculpas que dei para conseguir vir até aqui), mas sim porque recebi uma bolsa de estudos um tanto quanto suspeita para estudar na universidade mais prestigiada no ramo da música de toda a Bulgária - a Национална музикална академия (ou, no idioma de Machado de Assis: Academia Nacional de Música)- o que seria um problema em si só por conta do fato de que eu nem falo búlgaro, porém eu sou uma garota com alguns truques na manga.

Além da bolsa de estudos misteriosa de um patrono desconhecido, também fui informada (por um grupo tão chato quanto Testemunhas de Jeová no domingo de manhã) que em algum lugar aqui na Europa existe uma sociedade de pessoas iguais a mim, porém tudo que recebi aquela carta não se passava de uma charada idiota para saber se eu era 'especial' o suficiente. Enfim, acho que eu deveria estar no norte da Espanha e não aqui. Paciência, depois resolvo esse pequeno empecilho.

Mas isso aqui não é lugar para escrever sobre o meu futuro, mas sim sobre o meu passado.

É ridículo pensar que o meu legado para esse mundo será esse diário e ¼ da minha alma.

Não foi uma grande perda, evidentemente, porque minha alma nem vale um pão com ovo da padaria da esquina, ou o equivalente da sua região. Se eu tivesse inventado de vender minha alma para o diabo – ele mesmo, Lúcifer, Rei da Escuridão, Estrela da Manhã, chame do que preferir – e não um demônio qualquer, o diabo provavelmente ia me devolver minha alma pois ela o faria se sentir triste.

É claro que eu perdi muito mais que minha alma e dignidade. Perdi amigos, e claro, Alistair. Ah, aquele joalheiro idiota, como sinto sua falta. Porém eu não os culpo pelo que aconteceu, de verdade, se fosse eu naquela situação eu faria a mesma coisa. Eu costumo guardar bastante rancor, deixando-o maturar como um bom vinho, mas dessa vez me contive, principalmente por conta da saudade.

De qualquer forma, não dá pra confiar em pessoas, isso é fato, até porque contei para algumas em quem confiava sobre o que de fato aconteceu comigo durante toda aquela confusão e adivinha? Ninguém acreditou em mim. Olha, nem é tão difícil acreditar em portais para outro mundo, magia, criaturas sombrias, fundamentalismo religioso e um governo opressor, já que esse é o enredo de basicamente todas as histórias para jovens adultos hoje em dia. A única coisa que faltou na minha história foi um triângulo amoroso sem pé nem cabeça.

Como ninguém do meu círculo social (círculo não, até porque eu nunca tive muitos amigos, meu 'círculo' está mais para triangulo) acreditou no meu relato, pensei em escrever minhas memórias nesse diário, e ao fazê-lo, talvez eu consiga perceber onde foi que eu errei e o quão estupida eu fui em acreditar em tudo que acreditei, e, quem sabe, usar o criticismo construtivo para melhorar a minha pessoa.

Assim como resoluções de fim de ano, vou ficar animada em escrever esse troço nos primeiros cinco minutos e usar a reflexão para mudar aspectos ruins da minha pessoa, mas tenho certeza que lá pelo meio da história vou tacar o foda-se e continuar sendo eu mesma.

Chega de lenga-lenga, até porque eu tenho certeza que se alguém está lendo isso é porque meu diário chegou num museu dedicado à objetos amaldiçoados de doentes mentais (afinal, é disso que sou taxada ao afirmar com toda a convicção do meu ser que eu vi com meus próprios olhos míopes uma nau navegar em um mar de grama) e todos nós temos mais coisas que fazer, por exemplo assistir Meninas Malvadas ou brigar com estranhos na internet.

Devo começar, então, contando sobre como eu aceitei objetos mágicos aqui mesmo no metrô de São Paulo, e por conta disso 'vendi' ¾ da minha alma à uma entidade desconhecida em troca de uma aventura e porque – francamente - eu achei que seria legal.

Você, leitor, deve estar pensando 'nossa que menina burra, quem daria ¾ da alma de propósito?'. Primeiramente a questão não é sobre a minha inteligência, mas sim o fato de que sou péssima em matemática e eu estava em uma fase péssima da minha vida onde a luz do fim do túnel era na verdade um trem. E de verdade, quem não iria querer viver uma aventura e deixar toda a vida mundana de vestibulanda de medicina para trás? E depois, se eu soubesse que me restaria menos da metade da minha alma, eu teria vendido tudo, com certeza.

Mas o que eu ganhei com essa transação? Uma história boa demais para ser verdade, uns objetos mágicos que me ajudaram em alguns momentos n'Outro Lado e fora dele, uma aventura, aprendi muito sobre tudo, meu primeiro amor e, aparentemente, uma bolsa de estudos na Bulgária? É, foi basicamente isso. Valeu a pena? Não muito. Me arrependi? Claro que não.

Por onde devo começar?? Tantas etapas legais para começar! Que tal aquela vez que- não, espera. Talvez começar pelo básico? Sabe, exatamente igual a como as pessoas se conhecem na vida real. Bem, meu nome é (imagine isso na voz do James Bond) Akinawa- Anna Akinawa. Legal, não é? Eu também sei fazer referência à cultura pop atual! Sou natural da cidade de São Paulo, onde uma boa parte dessa desventura se passa.

'Mas Anna,' ouço vocês falarem, 'você não faz nada da vida?'. Sim e não. Se você considerar ir para o cursinho de manhã cedo, pegar a Linha 3 Vermelha do metrô lotada e voltar só a noite e nem ter vontade de jantar é fazer algo da vida, então eu fazia algo, sim. Não que eu levasse muito à sério o cursinho, já que eu nem estava mais vivendo, estava apenas existindo. Quando você está a três anos tentando entrar em uma faculdade de medicina, fazendo listas de exercício, redações, tendo pressão absurda em casa e os caralhos, você acaba perdendo sua essência (não do jeito que eu perdi, é claro, mas figurativamente é isso que acontece e pode ser tão ruim quanto).

Quem eu estou tentando enganar? Foi horrível. Perder a alma foi melhor do que aquilo, até porque lá eu... não vou contar spoilers porque sei que são horríveis. Spoilers para um diário que só serve para me fazer passar raiva.

Chega de enrolação. Não é porque eu detalharei minha vida e intimidades nesse diário que posso ficar desperdiçando folhas à toa – cadernos e canetas estão extremamente caros hoje em dia... pra ser sincera, o que não está caro hoje em dia? O tio do churros em frente ao meu cursinho aumentou o preço em 3 reais desde que eu comecei lá. Socialismo já.

Olha eu aqui de novo falando (ou melhor, escrevendo) pelos cotovelos. Vamos ao que interessa, ou como diria meu capitão preferido: 'Ninguém quer ficar a ver navios!'.

Definitivamente não vim aqui ficar me fazendo de coitada, até porque no fim da minha aventura eu consegui uma coisa que fazia muito tempo que não tinha: vontade de viver, de continuar. Engraçado que só consegui isso depois que virei uma (quase) literalmente desalmada.

Fico pensando em como esse pequeno detalhe vai afetar o resto da minha vida. Eu não faço a menor ideia, mas por enquanto, é melhor manter uma certa distância de crianças e animaizinhos fofos.

Bom, toda história precisa de um começo, e esse é o meu. Não foi glamouroso como uma festa de 111 anos do seu tio hobbit ou um funeral de um funcionário público na Rússia czarista, mas foi exatamente como eu: ordinário.

De qualquer forma, vamos começar nossa fábula, onde – spoiler, a moral da história é 'não vendam a alma'- porém só no próximo capítulo pois o guardanapo de papel aqui do café onde estou está acabando e estou com vergonha de pedir mais. O quê? Eu escrevo a mão mesmo. Ai, estou com cãibra agora. Que merda.

~*~

28 de Junho de 2020 às 15:12 0 Denunciar Insira Seguir história
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