dissecando Edison Oliveira

Após ser quase morto em um atropelamento, um homem decide iniciar uma terapia alternativa movida a dor e ódio.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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TERAPIA



Dos 206 ossos existentes no corpo humano, Adílson quebrara quase cem. Terrivelmente, todos de uma única vez. Aquele acidente fora tenebroso, em meados de janeiro durante sua caminhada diária no final de tarde. Tudo que era capaz de recordar após acordar de um coma que durara dois longos meses, era do barulho. Dos freios do automóvel e da pancada que o atingira por trás. Tinha pequenos lapsos que se desenhavam automaticamente em sua cabeça, e eles formavam algumas imagens do dia e até mesmo do momento do atropelamento. Às vezes, estas imagens se fundiam e acabavam se perdendo no espaço e no tempo, e Adílson já não era mais capaz de distinguir quando elas ocorreram exatamente.

Isso o deixava frustrado, irritado consigo mesmo e o mundo. Houve ocasiões em que se culpou por tudo que havia acontecido; que se tivesse deixado o seu ego de lado uma única vez na vida, largado os tênis de corrida e a garrafinha de água enfiada no refrigerador, aquilo tudo não teria acontecido. Então lembrava-se da situação como um todo, de como a vida adorava pregar peças e dar rasteiras na gente, e que como seguidas vezes algum desgraçado cruzava o nosso caminho e destruía nossos sonhos como se eles fossem feitos de vidro. Quando pensava nisso, sua frustração imediatamente tornava-se ódio.

Este ódio queimava por dentro, causava incômodo, uma ardência que fazia com que seus ossos quebrados latejassem por debaixo do gesso. A sensação era de completa impotência sobre aquela cama de hospital, incapaz de erguer qualquer um dos braços, pois ambos estavam fraturados (com o esquerdo em dois lugares, inclusive) e Adílson adoraria ter gritado e colocado o demônio para fora, e teria feito isso se seu maxilar possuísse condições; ele também estava destruído, e naquela altura um pino de metal já havia sido colocado na região.

Ficara daquela maneira desumana por mais dois meses após acordar e ganhar alguma consciência, e mais um longo período frequentando dolorosas terapias em uma clínica especializada ao norte do Estado, onde seu irmão Régis se disponibilizou generosamente em levá-lo. Eles conversavam sobre suas vidas, filmes e mulheres durante o trajeto (uma viagem um tanto longa que durava quase duas horas), e foi em uma dessas conversas que Adílson percebeu que apenas cuidar de seu corpo quebrado não seria o suficiente.



Seu psicológico estava um caos. Tinha receio de andar pela calçada utilizando de suas muletas, seu olhar ficava agitado e por vezes perdido. Quando escutava (com certa dificuldade, pois, o estribo, o menor osso do corpo humano que fica localizado na orelha, quebrou-se no momento do atropelamento), algum motor de automóvel roncando próximo de si, Adílson se desequilibrava e quase ia ao chão.

Se uma buzina rompesse o silêncio de seus pensamentos, Adílson deixava-se cair e procurava atordoado ao redor. Já estava recuperando-se bem dos traumas físicos, e com a ajuda de alguns comprimidos, suas dores começavam a abandonar o corpo aos poucos.

Seu irmão sugeriu que talvez fosse o momento de pensar no futuro, procurar ajuda psicológica para tratar o problema da mente já que o do corpo estava indo bem. Ele falou isso enquanto retornavam da terapia em uma quinta-feira nublada e com jeito de chuva, e o fez com o máximo de cautela possível. Régis sabia que o irmão detestava qualquer coisa que envolvesse psicologia. Para Adílson, só o fato de sentar-se diante de um sujeito disposto a anotar os seus problemas, já era uma situação desagradável.

— Não gosto desse tipo de coisa, — falou, enquanto observava o conjunto de nuvens negras que se formavam no horizonte. — Isso é para gente doida. E eu não me encaixo nesse gênero.

Régis sorriu, despreocupado.

— Não é apenas isso. Esses profissionais tratam de todo tipo de problema psicológico. Não significa que, se você for até lá, será tachado como biruta.

— Ok. E em que isso poderá me… Cuide o carro mais a frente, sim?

— Exatamente com isso. Estamos bem distantes do carro, e você já está me pedindo para ter cuidado. Está traumatizado, irmão. Precisa cuidar disso. Ou por acaso acha que já não vi suas quedas pela rua?

Adílson ficou quieto. Os olhos que antes acompanhavam as nuvens, agora fitavam o automóvel a duzentos metros de distância. Em sua cabeça, aquele cenário poderia mudar bastante depressa. Bastava o irmão acelerar um pouco mais e o motorista da frente frear bruscamente, que tudo se tornaria um mar de metal contorcido. Estava perdido nas próprias tragédias quando ouviu apenas o final de alguma pergunta feita pelo irmão.

— Como é?

— Perguntei se posso marcar uma consulta psicológica para você? — repetiu Régis, agora ultrapassando o veículo da frente e deixando Adílson encolhido a seu lado.

— Bem, sim, vamos ver. Eu acho.

— Isso é um sim?

Adílson espiava o automóvel que ficara para trás pelo espelho a seu lado.

— É, — disse, sentindo as mãos ficarem suadas. — Marque essa porra logo.




O nome dele era Leonardo, mas em sua mesa havia uma placa retangular em que se lia DOUTOR SWARZER, e Adílson o conhecia assim.

Eles já estavam na quinta consulta, e apesar de Adílson se limitar a chamá-lo apenas de doutor, já nutria por ele um sentimento bastante próximo da amizade. O doutor era um sujeito de idade, talvez na casa dos sessenta, e Adílson o escutava e o interpretava do mesmo modo que faria com seu pai, se tivesse um. Eles passavam uma hora por dia naquele consultório, toda terça-feira, das três às quatro da tarde, com Adílson desabafando seus problemas pós-atropelamento enquanto o doutor Swarzer anotava e anotava. Ele fazia aquilo com tremenda habilidade, Adílson achava, por mais ridícula que aquela afirmação parecesse.

Durante aquela consulta onde a hora parecia estar correndo mais depressa, Adílson conseguiu falar um pouco mais sobre o dia do acidente. Falou outra vez sobre o estrondo assustador que escutou antes do mundo escurecer, da mentira que era o fato de ver a vida passar diante dos olhos no instante em que acha que vai morrer, e acrescentou uma novidade. Para tal, o doutor anotou e circulou em volta da palavra ÓDIO.

— Fale um pouco mais sobre este sentimento, Adílson. Por que, exatamente, nutre esse tipo de sentimento?

Adílson remexeu-se na cadeira. O fêmur, ainda dolorido e em constante recuperação, esquentou a sua perna esquerda.

— Bem, parece bem óbvio para mim, doutor. Mas já que precisa da informação mais claramente possível, posso lhe dizer que, basicamente, a raiva que sinto é pelo fato de estar até hoje sentindo dores e constantemente preocupado, enquanto um filho da puta está por aí como se nada tivesse acontecido.

Mais algumas anotações, e o doutor prosseguiu.

— Certo. Sabe quem era o motorista? Se houve algum inquérito, alguma prisão, algum culpado?

Um sorriso debochadamente caprichado surgiu nos lábios de Adílson.

— Já viu em que país estamos? Tudo que sei é o que a imprensa divulgou. Que um pedestre que fazia exercícios foi brutalmente atropelado, que tudo foi tão rápido que ninguém entendeu ao certo o que houve, e que o motorista fugiu sem prestar socorro.

— Há alguma investigação em andamento?

Adílson sacudiu a cabeça, despretensioso.

— Se há, nem estou sabendo. Vivo fazendo terapias, doutor. Para o corpo e para a mente. Não perco meu tempo com esperanças.

Aquela parte, o doutor preferiu não anotar. Era muito comum que a impunidade afetasse o psicológico de todo ser humano, e que lidar com ela era algo trabalhoso e de longo prazo. Os pacientes do doutor Swarzer eram, em sua maioria, esquizofrênicos ou dependentes químicos, sujeitos que a sociedade de modo geral ignorava e deixava sempre pela margem. Adílson (que tinha idade para ser seu filho), era exatamente o oposto; ele era uma vítima criada pelo próprio homem, alguém que adorava cuidar da própria saúde e em uma fração de segundos acabou sendo punido por isso. Aconselhou-lhe a procurar ajuda em si mesmo, cavar na própria cabeça, encontrar um modo de transformar aquele ódio em esperança ou em qualquer coisa que fosse positiva.

Adílson sorriu, timidamente, e disse que o doutor era um bom homem e que tinha boa intenção, mas que era afetado cegamente pela própria profissão.

Foi a vez do doutor abrir um sorriso.

— Minha função aqui é ser o mais racional possível. Procurar o melhor, nas piores situações. Ou acha que seria melhor eu simplesmente aconselhar as pessoas a seguirem o mais perigoso dos instintos?

Adílson refletiu brevemente, então levantou-se.

— O que houve?

— Já são quatro horas, — falou, apontando para o relógio na parede. — Isso foi tudo por hoje.

Naquela sessão, foi a vez do doutor Swarzer perder a noção do tempo.



Régis já havia organizado suas últimas malas e as colocado na parte traseira da caminhonete.

Estava hospedado na casa que era de seus avós e que agora era do único irmão desde que o mesmo deixara o hospital para trás, e tem dado um duro danado para ajudar no que pode e ainda viajar alguns quilômetros a mais até o emprego no centro. Ele já estava parado diante da porta, escorado com o traseiro e acompanhando o irmão surgir no meio da varanda segurando um copo de leite e mancando com uma das pernas. A perna esquerda havia sido bastante prejudicada no atropelamento, e na época um dos médicos sugeriu que talvez acontecesse algum efeito colateral futuramente. O efeito até então eram mancadas leves, quase imperceptíveis, mas certamente incômodas para Adílson.

Ver o irmão andando até ele lhe causava uma alegria dos céus, visto que meses atrás tudo que Adílson era capaz de fazer era movimentar os olhos e alguns dedos das mãos. Vê-lo atravessar a casa inteira, descer os degraus da varanda e fazer uma careta sempre que a perna dava uma fisgada, era uma visão abençoada.

— Tem certeza que posso mesmo partir? — perguntou, a ideia de ver o irmão despencando pela casa ainda o perturbando.

— Claro. Já me sinto bastante confiante. E, além disso, acho que você já limpou a minha bunda demais ultimamente.

Os dois sorriram e Régis se despediu com um abraço. Adílson acompanhou a caminhonete se afastar até virar a curva em forma de S e desparecer na vegetação. O sol brilhava para além das colinas e não estava frio.

Adílson sentiu uma espécie de vazio, algo que costumava sentir muito antes do acidente. Ele agora vivia em uma bela casa rodeada por colinas, sem vizinhos ou a agitação da cidade grande, o oposto de sua antiga moradia, com pessoas conversando alto e apontando, buzinas e sirenes o tempo todo e aviões zunindo pelos céus. A ideia de ficar na antiga casa dos avós fora de Régis. Ali era calmo e aquilo era tudo que Adílson precisava no momento. As consultas com o doutor Swarzer aconteceriam só dali um mês, quando o tratamento físico em estágio final de Adílson se encerraria e ele poderia realizar as viagens sem mais dores e perturbações. Honestamente, achava aquilo uma droga. Gostava de conversar sobre outras coisas com o doutor que não fossem relacionadas às suas consultas. Sentia-se alguém mentalmente normal quando isso acontecia. Havia a possibilidade de bater esse tipo de papo pelo telefone, mas Adílson rejeitou a ideia. Disse ao doutor que logo ele teria alguém para conversar e se sentir uma pessoa sã, e lhe deu até logo com um aperto de mão honesto.

Sozinho em casa há quase duas semanas, Adílson não fazia outra coisa senão assistir televisão e conversar esporadicamente com o irmão. Eles falavam do tratamento com as pílulas azuis e rosas, do emprego de Régis (uma droga cansativa em uma mecânica do centro) e sobre como era sufocante sentir raiva de alguém sem rosto ou nome.

— Dizem que estão investigando o acidente, — falava Régis do outro lado da linha, mas sem passar confiança alguma nas próprias palavras.

— Estão é?

— Essas coisas demoram mesmo, irmão. Além do mais, ninguém conseguiu ver a placa do carro, nem mesmo a cor dele foi dita com clareza. Uns falaram ser um veículo preto, outros, verde. A polícia nem sabe o que está procurando.

Daí um silêncio surgia e permanecia ali até um dos dois se despedir, com um até mais e um fique bem.

Assim seguiam os dias incômodos de Adílson, que fazia caminhadas regulares de sua varanda até a porteira de entrada, e mais duas voltas em torno da casa enquanto escutava os pássaros e suas pegadas cada vez mais firmes no cascalho. Sua perna esquerda ainda era um problema, ela fisgava e mancar era a única solução. Começava a achar que aquela dor jamais passaria, e que teria de conviver com ela de um modo crônico, assim como sua mente provavelmente faria mesmo com o tratamento eficaz do doutor Swarzer. Ele era um bom médico da cuca, tinha um nome forte no meio e sorria sempre que percebia que Adílson tinha razão. O que causava desconforto em Adílson, era sua própria mentalidade; nada parecia fazer diferença, importar de fato. Ele já falara sobre o dia do acidente, de como foi infernal ter de lidar com as dores de seu corpo quebrado, de ter de engolir o fato de ter se tornado um fardo para o irmão durante alguns meses e ainda assim nada fazia com que se sentisse melhor. E, além disso tudo, havia o medo. Uma coisa azeda que descia por sua garganta toda vez que precisava andar até a rua.

Não pensava em tirar a própria vida, pois achava que a paranoia, de certa forma, era uma espécie de suicídio mental. Começou então a acordar mais cedo. O sono já não era mais um aliado, e ver o nascer do sol era revigorante e até que bonito, como diziam boa parte das pessoas.

Substituiu o leite por café; a cafeína lhe dava energia e era gostosa, mas às vezes lhe causava enxaqueca. Ignorava aquela dor, arrastava ela para a “prateleira de dores do Adílson”, um cantinho bastante utilizado por ele. Passou a ouvir rádio ao invés de assistir televisão, e sua audição prejudicada em uma das orelhas causava zumbidos longos e que foram se tornando comuns com o passar dos dias.

A rotina de Adílson tornou-se cada vez mais diferenciada (exceto por suas caminhadas que eram úteis e necessárias), e em algum destes momentos ele até foi capaz de apreciar o seu desempenho. Ainda estava longe, a quilômetros de sua saúde ideal, mas sentia-se bem e um tanto satisfeito. Aumentara de duas para três voltas completas em torno da casa, e estava justamente na terceira quando o celular vibrou em seu bolso e ele atendeu a chamada do irmão.

— Seja rápido que estou prestes a pular da cadeira com a corda no pescoço, — brincou, e Régis pareceu não escutar.

— Ouça, você não vai acreditar. Está aqui, na oficina.

— Que é que está dizendo, afinal?

— O carro que atropelou você, irmão. Estou olhando para ele aqui na mecânica.

Com a cabeça começando a girar, Adílson Cruz precisou apoiar-se na parede da casa para não cair.




Fez com que o irmão viesse buscá-lo quase que imediatamente. Enquanto aguardava, suas mãos suavam e ardiam. Aquela era a primeira pista sobre o autor do atropelamento em quase um ano, e Adilson não tinha outra alternativa senão acreditar na palavra do irmão. Régis era um bom mecânico, trabalhava fixamente naquela espelunca há quase oito anos e entendia exatamente como os carros funcionavam. Sabia quanto eles possuíam de quilometragem em uma rápida olhada panorâmica, o ano de sua produção e em média quanto valiam no mercado. Adilson só não fazia ideia como ele sabia que aquele veículo estacionado dentro da oficina era o tal carro misterioso.

Perguntou isso para o irmão assim que subiu na caminhonete, afivelou o cinto e sentiu um leve incômodo dentro do corpo. Era assim sempre que entrava em uma coisa com rodas e motores.

Régis passou uma das mãos pelo rosto e começou a dirigir.

— O meu chefe, o velho Manoel — começou Régis, ainda tentando controlar as palavras. — É um tremendo vigarista. Ele sabe das coisas, entende? E por saber das coisas, é também bom em guardar segredos. Muita gente perigosa vai até ele para pedir favores. Alguém mata ou trafica alguma coisa, utiliza algum automóvel para isso e escondem a ferramenta de uso nos fundos da mecânica. Fazem isso até a poeira baixar. Assim o velho Manoel adquire respeito e fica livre de problemas com esse pessoal.

Adilson concordou com a cabeça.

— Então o tal carro é o brinquedinho de algum destes caras, — afirmou.

— Não, na verdade, não. Esses caras podem matar e traficar pela região, mas não atropelam ninguém ao acaso. Este carro é só serviço limpo.

— Serviço limpo?

— É assim que chamamos os automóveis que vão até lá de forma natural, sem serem frios.

Eles agora estavam na autoestrada, andando em velocidade razoável e com Adilson ainda tentando compreender. Apesar disso tudo, seus olhos permaneciam atentos no velocímetro da caminhonete. Eles pulavam do painel da caminhonete para a estrada o tempo todo, uma forma de fazer com que se sentisse seguro. Sua perna esquerda começava a doer (saíram tão depressa que esquecera de engolir seus comprimidos), e Adilson já a massageava com a palma da mão.

— Ainda não me explicou como sabe que o carro é o mesmo que me atropelou, — falou ele, secamente.

— Como já disse, Manoel sabe de todas as merdas. Quando cheguei no trabalho hoje cedo, vi que havia um veículo dentro da oficina. Nunca tinha visto aquele Clio por ali, e sabe que de carro eu entendo. Perguntei para o velho de quem era, e ele disse apenas que era de um garoto. Precisava de uma revisão no motor e uma geral no escapamento. Falei para ele que sairia caro, e Manoel me disse que sairia de graça. Sabe por quê?

— Fala de uma vez.

— Porque o garoto tem apenas dezesseis anos e já fez muita merda. Ele é neto do velho.

Os olhos de Adilson saíram pela primeira vez do velocímetro e da estrada. Caíram imediatamente sobre o irmão, e só então que enxergou o receio encobrindo o rosto dele como uma maquiagem feia e borrada.

— Isso é uma merda, — disse.

— Sem dúvida. Comecei a conversar com ele sobre as cagadas do neto, já que sei do coração mole que o velho tem pela família. Ele me contou o histórico de criminoso mirim do garoto, desde o uso de maconha, pequenos furtos e até suspeitas de coisas mais graves. Então veio a grande revelação. Creio que já sabe essa parte.

Sabia e aquilo fazia com que seu coração doesse. A dor era crescente, aumentava os batimentos cardíacos e Adilson chegava até a esquecer das dores na perna. Descobriu que o ódio era um ótimo remédio para o corpo, mesmo que parecesse venenoso para a alma. As doses diárias que vinha ingerindo de fúria eram extremamente altas, algo que o fazia quase correr ao invés de apenas andar ao redor da residência. Não havia uma contra indicação, e o doutor Swarzer não estava a par de sua terapia pessoal. Achava então que estava indo bem, evoluindo fisicamente e deixando a dor e o receio apenas para a mente.

Escutou atentamente o irmão continuar a sua história, de como um garoto de dezesseis anos quase o matou com um carro que certamente era do pai ou da mãe, deixando-o quase inválido e com dores descomunais até os dias de hoje. Ignorou quase todos os detalhes já sabidos (como o fato de que foi arremessado a duzentos metros da batida e de que o automóvel seguiu como se tivesse atingido um cão), e focou apenas nas partes onde o irmão revelava que o garoto contava ao avô sobre a enrascada em que havia se metido.

— E este menino, ele tem pai ou mãe? — quis saber Adilson.

— Se tem, o Manoel não contou. Disse apenas que vez que outra o neto aparece e ele sabe que só o faz quando acontece alguma merda.

— Escute, tem certeza que este é o carro e o motorista?

— Sim. O garoto disse até o nome da rua onde atropelou você. Não há coincidências aqui, irmão.

Doze minutos de silêncio depois, os irmãos estacionaram diante da oficina mecânica.



O Clio era vermelho, surrado e com pneus quase carecas. Tinha um adesivo onde se lia BUZINE SE FOR UM IMBECIL colado no vidro traseiro, e nada mais de fato marcante.

Adilson circulou o automóvel como se fosse um comprador, avaliou cada pedaço dele e imaginou onde sua bacia foi atingida e destruída naquela tarde confusa. Enquanto avaliava, reparou que havia um penduricalho pendendo no retrovisor. Dali, lembrava algum símbolo, mas após forçar a vista Adilson descobriu que se tratava de uma imitação da planta da maconha. Os faróis dianteiros estavam em bom estado, e um dos números da placa era apenas um borrão.

De repente, um velho calvo e barrigudo surgiu do lado oposto da oficina e se dirigiu a Régis.

— Conseguiu resolver o seu assunto?

— É, consegui, sim. Senhor Manoel, este aqui é…

— Um comprador, — interrompeu Adilson, atraindo um olhar confuso do irmão.

O velho Manoel estendeu-lhe a mão e os dois se cumprimentaram. Em seguida, o velho pigarreou e cuspiu uma bolota de catarro no piso.

— Pelo que notei, está de olho nessa belezinha — falou, olhando diretamente para o Clio.

— Não o chamaria assim, mas me referia a ele. Estou procurando um carro usado que não saia muito caro.

— Entendo. O problema é que este aqui não é meu. Está apenas na reforma. É de um cliente. Mas posso lhe indicar uma boa revendedora aqui perto.

Adilson repousou uma das mãos sobre o capô do automóvel (ali onde ele provavelmente foi atingido e apagou) e olhou para ele com um semblante distante e até mesmo tristonho.

— Na verdade, é este que eu quero. Preciso dele. É igual com as mulheres, sabe? Amor a primeira vista.

Manoel sorriu exibindo dentes sujos e olhou para Régis, que seguia calado e confuso.

— Ouviu esta, Régis? O homem é mesmo um apaixonado.

Régis sorriu e olhou disfarçadamente para o irmão, um olhar sorrateiro e preocupado que dizia: que porra acha que está fazendo?

Adilson insistiu.

— Onde posso encontrar o dono deste carro? Gostaria de falar com ele e fazer uma proposta.

O sorriso no rosto de Manoel morreu.

— Não posso dar informações sobre os clientes. Mas repito que, se quiser, lhe indico uma ótima revendedora. — Olhou mais uma vez para Régis. — Por que diabos trouxe um comprador até aqui?

— Olha, senhor, eu não sabia que…

— Ofereço trinta mil pelo carro, — anunciou Adilson, fazendo seu irmão se calar e o velho Manoel abrir a boca de surpresa. — É o que estou disposto a pagar. Claro, se o dono aceitar.

O velho coçou o queixo, desconfiado.

— Quem daria trinta pacotes por um caco destes? E assim, de repente? Isso é coisa de polícia.

— Trinta e cinco.

Manoel engoliu a seco, os olhos saltando de Régis para o sujeito maluco a sua frente.

— Isso não está cheirando bem, disso eu sei. Ou você é uma espécie de homem da lei, ou um completo biruta.

— Que se foda. Quarenta. Nem um centavo a mais.

Agora o sorriso retornou para os lábios do velho que, sem argumentar coisa alguma, estendeu a mão suja de graxa para Adilson.

— É todo seu. Vou lá atrás buscar a papelada.

Saiu arrastando os pés e assim que sumiu de vista, Régis se aproximou do irmão e segurou-lhe pelo braço.

— Que porra foi essa?

— Preciso do carro.

— O quê? Por Deus, essa coisa quase matou você e agora quer pagar quarenta mil por ela?

— Não vou explicar. Talvez nem consiga. Só sinto que preciso do carro.

— Mas que… — Régis cobriu os olhos por um instante, depois segurou o irmão pelos ombros. Não queria acreditar que Adilson estava enlouquecido, talvez por viver sozinho e com dor, mas não sabia o que de fato pensar.

Aquela parecia uma má ideia, algo que certamente um maluco pensaria, e a aflição de saber que aquilo partira de seu irmão o incomodava. Arrependeu-se imediatamente de deixá-lo naquela casa isolada, vivendo com seus pesadelos e traumas. Quis lhe pedir desculpas, dizer para ele abandonar aquela ideia e até mesmo cogitou contar para o velho Manoel a verdade, fosse ela qual fosse. No entanto, disse apenas isso:

— Espero que saiba o que está fazendo.

Adilson desviou os olhos para a lata velha a seu lado.

— Também espero.



O Clio foi trazido por Régis no dia seguinte. Adilson suspeitava que o velho Manoel teve de explicar para o neto o negócio que fizera; quarenta mil por um lixo usado que não valia nem dois. Era um bom negócio para ele, no fim das contas, e o dinheiro que antes estava guardado em um cofre na residência dos avós agora descansava no bolso surrado de um velho mecânico. Tal dinheiro havia sido conseguido após a venda de sua picape, dois meses antes, em uma decisão conjunta com seu irmão. Adilson sentia o corpo tremer quando colocava os pés diretamente na rua, e entrar na picape era algo fora de qualquer cogitação.

Assim que o Clio surgiu por detrás da vegetação e seu vidro dianteiro brilhou na curva em S, Adílson foi invadido por uma sensação esquisita, algo que só sentira em algum natal de anos atrás enquanto aguardava abrirem os presentes.

Ele deixara a porteira aberta, jogada para os lados, e Régis entrou devagar e com o rosto preocupado atrás do volante. Estacionou diante da varanda, desligou o motor barulhento e saiu no cascalho fino.

— Até que não levou muito tempo, — disse Adílson, olhando para o Clio.

— Sinceramente não faço ideia do que passa em sua cabeça. Comprar essa porcaria por aquele valor absurdo, ainda mais sabendo de onde isso veio e o que fez com você. Não foi para isso que lhe contei sobre o carro ou o seu motorista.

— Não é apenas um carro, Régis. É um símbolo.

— Só se for da sua paranoia, — falou, começando a andar na direção do interior da casa. Estava com sede, aborrecido e sentindo-se sujo. Dirigira por muito tempo e por estradas quase desertas, sentado atrás do mesmo volante que um adolescente sentara meses atrás e quase matara seu irmão. Era como andar em cima de uma bala perdida, uma coisa ruim que fizera algo ainda pior.

Quando Régis subiu o último degrau da varanda, parou e virou-se na direção do irmão, que seguia olhando para o Clio.

— Falei dele para você unicamente para que seu trauma ganhasse um rosto. Para que o autor, ou parte dele, se tornasse visível. Jamais imaginei que fosse fazer o que fez.

— Nem eu, irmão — disse Adílson, alisando o capô do automóvel. Falava como se estivesse em outra sintonia.

Aborrecido, Régis limpou os sapatos no despacho e entrou na velha residência.



Seu irmão fora embora apenas na manhã seguinte, depois que o velho mecânico buzinou diante da porteira e o levou para o trabalho e sua vida tediosa. Antes de partir, Régis o abraçou e pediu-lhe para se manter firme. Adílson disse que faria aquilo, que não havia necessidade para preocupações e até sorriu antes de dizer até logo.

Mais ou menos duas horas depois da despedida, ele foi até o celeiro que servia como garagem e ficou diante do Clio, olhando para ele como se o seduzisse, avaliando suas curvas e seu poder de destruição. Imaginava que o veículo retribuía aquele olhar, aquela atenção, mas não era capaz de demonstrar. Dez minutos se passaram sem que absolutamente nada acontecesse, até que Adílson pareceu pensar em alguma coisa. A expressão em seu rosto ganhou um brilho diferente, e instantes depois ele se dirigiu até o painel de ferramentas e voltou de lá empunhando uma marreta. Ficou segurando-a com as duas mãos, parado diante do Clio e com algo gelado percorrendo a extensão de seu corpo ainda fraco. Em seu olhar não havia nada, apenas uma sala vazia sem luz e sem cor.

— Finalmente sei quem você é. Nada mais justo que eu me apresente. Sou o cara que você quebrou em pedaços! — E ergueu a marreta o máximo que pôde, deixando-a cair sobre o capô com toda sua força e peso.

Um som metálico retumbou por todo celeiro, e alguns pássaros que estavam descansando sobre a calha saíram voando de forma espalhafatosa.

Os braços de Adílson chacoalharam e os nervos doeram. A marreta escorregou de suas mãos e caiu no chão coberto de palha. Uma fisionomia de dor surgiu em seu rosto, e mesmo sabendo que seria dolorido e trabalhoso se erguer novamente, deixou-se cair de joelhos. Seus olhos ficaram na altura do capô, agora com um leve afundamento circulado por ranhuras.

Observou o próprio feito por um breve instante antes de concluir que, apesar da dor, estava sentindo-se bem.

Foi como fazer o mesmo (em proporções muito menores) que o carro fizera com ele. Queria ficar logo de pé, tomar a marreta em mãos e desferir um golpe pesado atrás do outro, esmurrar aquele veículo até seu vidros quebrarem e as rodas murcharem, mas ainda não era capaz. Seu corpo já estava resmungando, implorando por pílulas e descanso, e assim que tentou colocar-se de pé, seus ossos estalaram e Adílson gritou. As pernas tornaram-se moles, e ele preferiu permanecer ali, deitado ao lado do Clio. Acabou pegando no sono e só foi acordar duas horas depois, sentindo-se péssimo, como se tivesse levado uma surra ou sido novamente atropelado. Procurou a marreta em volta, encontrou-a e a puxou pelo cabo de madeira. Usou-a como apoio, ficou de pé e involuntariamente acertou o capô do automóvel mais três vezes, provocando barulho e uma euforia alucinada dentro de si.

Sorriu e em seguida gargalhou olhando para a frente do Clio já ficando destruída. O vidro já estava trincado, com uma rachadura principal que ia de um extremo ao outro. Adílson achava aquilo divertido e revigorante, percebendo que os nervos de um de seus braços já não doía tanto assim.

— Você me quebrou, agora quebro você! — berrou, ergueu a marreta e a desceu com tudo, atingindo em cheio no centro do capô.

Após aquele golpe, Adílson tornou a cair de joelhos, gargalhando e por fim chorando, tudo ao mesmo tempo, sentindo alegria, tristeza e um alívio que nem as melhores sessões com o doutor Swarzer foram capazes de lhe causar.

Estava com o corpo suado, a camisa com círculos úmidos nas costas, peito e axilas. Seguiu atingido o Clio por mais duas horas, em locais diferentes, quebrando, arranhando e afundando a lataria e os vidros, até que olhou em volta e viu que o sol já estava se pondo. Pensou em entrar e tomar um banho, tirar o cheiro do ódio que impregnava o seu corpo. Largou a marreta ao lado do carro e começou a andar na direção da casa, se enfiou no banheiro e deixou que a água fria do chuveiro levasse sua ira pelo ralo. Deitou-se nu sobre a cama, molhado, e ficou surpreso ao perceber que nada em seu corpo doía.



Funcionava como uma sessão qualquer. Tinha de entrar no celeiro (consultório), deixar sua raiva aflorar e em seguida colocar tudo para fora, expor a face dos problemas.

O Clio seguia firme, apesar de estar parcialmente destruído após uma semana de terapia. Adílson já sentia os braços e as mãos mais firmes, e sua perna esquerda já não fisgava e mancar não era mais algo necessário.

Ele seguia bebendo café ao invés de leite, escutando rádio e negligenciando a televisão. Durante os finais de tarde, seu celular sempre tocava e era o irmão do outro lado da linha, parecendo preocupado e também interessado. Eles mantinham longas conversas que duravam até o jantar ficar pronto, e Régis nunca deixava de comentar como o irmão parecia mais alegre a cada final de ligação.

Adílson até que concordava, mas sabia que aquilo não tinha nada a ver com alegria, e sim com alívio. Estava finalmente fazendo algo que lhe trazia resultados, tanto físicos quanto mentais, por isso decidiu estender as suas sessões até a madrugada, após jantar e se despedir de Régis. Ele já estava naquela nova rotina há três cansativos e barulhentos dias, atingindo o Clio cada vez com mais força, até que em uma madrugada, após desferir um golpe duro e potente, percebeu que havia sangue em torno da marreta.



Por um instante nebuloso e tenso, Adílson cogitou que aquele sangue poderia ser seu.

Talvez estivesse exagerando com sua terapia, forçando o corpo além dos limites. Olhou agitado para o próprio corpo, procurou sinais avermelhados nas mãos e nos braços, calças e camisa. Não encontrou nada além de fiapos de palha e marcas de terra. Aquilo deixou-lhe aliviado e logo depois temeroso; ergueu a parte pesada da marreta, olhou bem de perto os resquícios daquele líquido vermelho e afastou a ideia de que poderia ser a tinta descascada do Clio.

Aproximou-se novamente do automóvel (agora apenas um enorme amontoado de metal com três pneus cheios e um ainda murcho), e espiou lá para dentro à procura de respostas. Conseguiu enxergar um volante pequeno, um painel parcialmente destruído, bancos com o couro rasgado deixando esponjas amareladas amostra e atrás, no banco traseiro, um vulto. Assustado, afastou-se e recolheu a marreta do chão. Dali onde estava conseguia ver uma apenas uma silhueta contorcida através da janela. Mais uma vez espichou o pescoço e espiou. Viu que o vulto era um homem, ou o que sobrara de um; a figura tinha braços e pernas, e todos estavam quebrados. Dava para ver o fêmur de umas das pernas cuspido para fora, uma ponta afiada e branca.

Adílson achou sua visão repugnante e imediatamente agarrou a maçaneta da porta e a abriu com um único puxão. Não fazia ideia do que estava acontecendo, e sua primeira reação, além do pavor, foi tentar socorrer o sujeito quebrado que de alguma forma fora parar dentro do Clio.

Logo que esticou os braços para puxá-lo, o vulto falou e fez com que Adílson saltasse para trás e batesse com o cocuruto no teto do carro.

— Ainda não estou pronto para sair, — a voz sussurrou do escuro. Ela era arrastada, quase um gemido.

— Quer me dizer que porra está fazendo aí dentro?

— Estou preso aqui. E só vou conseguir sair se você fazer a coisa certa.

— Merda! Por que não gritou antes que eu começasse a destruir o carro? Era só ter feito isso que…

— Não escutei quando o carro se aproximou, — disse a voz de repente, fazendo com que Adílson parasse de imediato.

Lembrava-se de ter falado exatamente aquilo quando despertou do coma, ainda com o maxilar quebrado e o irmão sentado a seu lado. Foi como retornar meses no tempo, recuar semanas por um caminho feito de ossos quebrados e dor, mas não qualquer dor, pois aquela era esmagadora, tirava o ar e nem gritar era possível. Adílson sentiu um impulso guiá-lo para dentro do Clio, e, com metade do corpo enfiado lá dentro, agarrou o vulto pelos ombros frágeis e o puxou na direção da luz. Um rosto abominável e familiar surgiu das sombras, com o maxilar rachado ao meio, a língua avermelhada e mole pendendo para fora.

— Surpreso consigo mesmo? — falou o Adílson destruído e tentou sorrir, mas tudo que conseguiu, foi exibir uma rachadura sangrenta.



Ele já estava em claro durante duas noites, se alimentando mal e espiando na direção do celeiro sempre que aquilo gemia lá de dentro. Não sentia mais arrepio algum, apenas não gostava de se ouvir. Imaginou se fora assim que seu irmão se sentira em relação a ele alguns meses atrás, gemendo de dor e dependente de favores.

A terapia seguia como de costume, só que agora, além do barulho metálico do Clio sendo atingido, havia também a constante fala pastosa do ser atropelado lá dentro. Ele passava maior parte do tempo apenas resmungando, agindo como uma lembrança ruim, falando coisas que o tempo fizera questão de apagar. Isso provocava uma fúria crescente no Adílson recuperado, que ensandecido, usava a marreta durante horas e não parava nem para beber água. Seus braços às vezes doíam, mas apenas por seu esforço e não pelo acidente.

Suspeitava que também estava perdendo peso, pois sentia as calças folgadas na cintura e via o rosto mais fino quando se olhava no espelho.

O automóvel lembrava bastante um ninho de ferro, e ainda assim, a voz do Adílson destruído surgia de algum lugar daquela escuridão, falando e falando, deixando claro que ainda faltava alguma coisa. Essa coisa já começava a se desenhar na cabeça de Adílson, e enquanto conversava com o irmão durante uma noite em que chovia demais, ele o deixou aguardando na linha por quase vinte segundos antes de falar outra vez.

— Desculpe, o que foi mesmo que disse?

— A ligação deve estar mesmo ruim, — falou Régis, pacientemente. — Perguntei como vão as coisas por aí? Se… Bem, se você está indo bem.

— Claro, sim, está tudo certo. Estou melhorando bastante. Às vezes é como se pudesse ver como fiquei e como estou agora.

— Nossa, isso parece ótimo.

Dali em diante Adílson anulou o que estava acontecendo, o que era que o irmão dizia do outro lado da linha e só era capaz de ouvir o outro Adílson, gritando do celeiro. Mesmo com a forte chuva e os trovões, conseguia escutá-lo.

Disse para o irmão que precisava desligar e saiu andando pela casa, não fazendo ideia se se despediu ou não. Chegou a varanda, desceu as escadas e foi atingido pela chuva, que de tão intensa, molhou-o instantaneamente. Dirigiu-se com os pés descalços até o celeiro, viu o ninho de ferro e preferiu não pegar a marreta. Parou diante da carcaça do Clio e avaliou a sua obra, o que o ódio impulsionado pelas lembranças fora capaz de fazer.

— Vou tirar você daí, — disse, e um trovão iluminou a noite lá fora.



O número particular do velho Manoel estava em algum lugar no meio daquela papelada. Havia de tudo por ali; endereço, valor pago pelo carro, números de documentos e todo tipo de informação sobre o veículo vendido na ocasião.

A chuva havia dado uma trégua, e agora apenas os grilos compunham o ritmo da noite. Adílson estava sentado no chão, escorado na própria cama, diante de um leque embaralhado de papéis. Mexia naquelas coisas há quase meia hora, sentindo o corpo cansado e os olhos arderem. Estava começando a sentir sono, e já bocejara mais de uma vez. Afastou um pequeno punhado de folhas (documentos antigos de seus avós e dados referentes a casa), quando enxergou uma numeração escrita a mão sobre um bilhete esverdeado. Ali havia um número e o nome de Manoel dentro de um círculo.

Agitado, tirou o celular do bolso, digitou o número e esperou. Após chamar umas quatro vezes, a voz do velho mecânico surgiu sonolenta ao seu ouvido.

— Alô?

— Boa noite, é Manoel, o mecânico?

— Porra, quem liga uma hora dessas para alguém?

— Não ligaria se não fosse nada sério, — falou Adílson, agora de pé diante da janela, encarando o celeiro. — Comprei um carro do senhor umas semanas atrás e, hoje mais cedo, encontrei umas coisinhas dentro dele que devem ser de seu interesse.

— Coisinhas? Ouça, me ligue amanhã e falamos sobre isso.

— São documentos de um garoto, eu acho. Há drogas também. Quer dizer, não sei muito sobre o assunto, mas reconheço maconha quando vejo.

Após um breve silêncio, a voz de Manoel ressurgiu.

— O carro era do meu neto. Essas coisas provavelmente são dele. Faça o seguinte: jogue essa merda fora e esqueça.

— Não posso fazer isso. Lembra das suspeitas que o senhor tinha sobre eu ser da polícia?

Mais uma vez o silêncio. Então, Manoel pareceu recuperar os pensamentos.

— Isso não me parece algo que um policial faria. Não está certo, se é que me entende.

— Estou investigando sua oficina há alguns meses, senhor Manoel. Sei que ela serve como esconderijo temporário para carros roubados. Sei também que o senhor recebe imunidade de gente perigosa para fazer estes serviços. Estou a cargo de todas essas investigações, incluindo a de um atropelamento, ocorrido quase um ano atrás.

— Meu neto não queria fugir do local, ele apenas ficou assustado, como todo garoto.

Adílson sentiu o sangue ferver e apertou o celular contra a orelha.

— A coisa está funcionando assim: o pessoal está no encalço do seu neto. Ainda não sabem quem ele é, e devo lhe dizer que ele já deve isso a mim. O sujeito que ele atropelou faleceu na noite passada, após meses em coma. Se pegarem ele, será condenado, mesmo sendo menor de idade. O carro que me vendeu está sob minha custódia, ele é uma prova indiscutível que precisamos. Como vê, seu neto está enrascado.

Um ruído que pareceu de choro a Adílson foi escutado, e em seguida o velho mecânico falou com cautela.

— O senhor vai prendê-lo?

— Preciso ter certeza dos fatos. E só terei essa certeza depois de falar com ele. O senhor poderia me informar onde posso encontrá-lo?

— Esse menino está cada dia num lugar, vivendo de favores em casas de amigos. Mas tenho o número dele. Vou ligar e dizer o que está acontecendo.

— Faça isso imediatamente e entre em contato, — falou Adílson, encerrando a ligação em seguida e despencando sobre a cama.

Estava nervoso, ansioso, com a adrenalina fervendo pelo que acabara de fazer. Até ter sido feito, duvidava de si mesmo que o faria. Agitado, deixou o quarto e dirigiu-se até o celeiro, onde se deitou sobre a palha ao lado do Clio destruído e dormiu por algumas horas.



O garoto era muito menor do que ele e estava no local combinado. O velho Manoel retornara a ligação quando o sol já estava nascendo, e Adílson despertou ao lado do Clio com a vibração do celular em seu bolso. Acabara passando a noite no celeiro e ao contrário do que imaginava, não estava sentindo dores. A palha que cobria boa parte do chão de terra amortecera suas costas.

Ele vestiu-se rapidamente em seu quarto, analisando meticulosamente qual de suas roupas o fariam parecer um homem da lei. Após colocar uma calça jeans e uma jaqueta escura, acreditou que tinha feito a escolha certa. Pulou a etapa do café e caminhou apressado até a porteira de sua casa, onde trinta minutos depois o Uber surgira e ele embarcara rumo a uma estrada onde Adílson não imaginava onde era. Passou pela sua cabeça que poderia estar a caminho de uma armadilha, mas quando completou quarenta minutos sentado ao lado do simpático motorista, este pensamento se foi e Adílson procurou relaxar.

O motorista conversava bastante e queixava-se constantemente de alguns buracos na estrada, e Adílson ignorava e apenas perguntava se ainda faltava muito. Nove minutos depois de sua última pergunta, eles entraram em uma rua estreita de paralelepípedo e Adílson enxergou um garoto franzino sentado no meio fio. Ele usava uma camisa vermelha e sem estampas, boné e bermuda, assim como o velho dissera que ele estaria vestido. Adílson pediu para o motorista encostar. Ele obedeceu e o garoto olhou em sua direção, a cem metros de distância. Ele tinha uma cabeça pequena e o rosto chupado, braços finos e frágeis. Adílson achava que poderia matá-lo com um único soco. Aproximou-se dele tentando não demonstrar o nervosismo que estava sentindo e escondeu as mãos nos bolsos da jaqueta. Tentou caminhar como um policial, se é que aquele andar existia. Permaneceu com o semblante fechado, olhando para o garoto e também a sua volta. Quando chegou diante dele, perguntou o que certamente um policial perguntaria.

— Você é Kevin Duarte?

O magricelo fez que sim com a cabeça e ficou de pé. Era menor que Adílson imaginava. O topo de sua cabeça não chegava na altura dos ombros de Adílson.

— Sou o policial Garcia e o homem naquele carro é o meu parceiro Soares. Viemos até aqui para fazer umas perguntas.

— Estou encrencado?

— Se eu gostar de suas respostas, não. Agora vamos.

Os dois caminharam juntos e Adílson pediu para o garoto entrar no banco traseiro, e antes que ele obedecesse, fez-lhe um sinal de silêncio com o indicador diante dos lábios.

Eles seguiram a viagem inteira sem trocar uma palavra sequer, e Adílson só esperava que o motorista do Uber não dissesse nenhuma besteira que estragasse tudo. Enquanto retornavam, percebeu que havia escapado de ser descoberto ainda no local de encontro, caso o delinquente tivesse a ousadia de lhe pedir para ver seu distintivo. Agora que pensava naquilo tudo, Adílson até esquecia de seu medo ainda existente de estar viajando em uma estrada. Suas mãos suavam como antes, e seu fêmur insistia em latejar. Acreditava que logo aquilo ficaria para trás, pois, sua última sessão de terapia estava a caminho de acontecer.



Assim que chegaram diante da porteira, Adílson desceu e pediu para o garoto fazer o mesmo. Em seguida, apontou para a varanda e disse que o aguardasse nos degraus da escada.

O garoto obedeceu e, assustado, nem percebeu que o homem atrás de si, estava pagando o motorista e agradecendo pela corrida. Olhou cauteloso ao redor e ficou admirado com a solidão daquele lugar. Parou diante dos degraus da varanda e ouviu o cascalho chiar com os passos do homem que se aproximava. Virou-se para ele e o achou ansioso por alguma razão.

— Pensei que fossemos para uma delegacia, — confessou o rapaz.

Adílson passou por ele e pediu que o acompanhasse. Os dois seguiram por um caminho de cascalho e grama, Adílson na frente, andando apressado e olhando sobre o ombro de vez em quando. O garoto já enxergava um enorme barracão, com a pintura gasta pelo tempo. Já havia visto coisas como aquela na televisão, em filmes ou reportagens sobre vacas.

Queria fazer outra pergunta para o policial, mas logo eles chegaram diante da porta dupla do celeiro e Adílson retirou as correntes que a fechavam.

— Aqui, venha, — pediu firmemente, e quando o garoto passou por ele, viu a perplexidade na fisionomia do rapaz ao enxergar o Clio parcialmente destruído.

— Mas… Que houve com o carro?

— Está quebrado, — falou Adílson, e logo em seguida acertou as costas do garoto com a marreta.




Ele só abriu os olhos minutos depois, atordoado, procurando por alguma explicação no meio do caos que eram os seus pensamentos.

Adílson permanecia de frente para ele, em pé, segurando a marreta e ouvindo o resmungo que vinha de dentro do Clio. O resmungo agora não era mais do Adílson destruído, e sim de um adolescente tomado pelo pavor e pela dor. O garoto ainda não sabia, mas estava enfiado dentro de um automóvel moído, com um dos braços quebrado em diversas partes e uma das rótulas do joelho completamente inutilizável. A dor o estava amortecendo, e Adílson supunha que ele não conseguiria gritar se quisesse.

— O que fez… Comigo? — balbuciou o rapaz, sentindo gosto de sangue na boca.

— Nada. Só retribuí. — A marreta subiu e desceu depressa, atingido o Clio violentamente. O estrondo fez o garoto estremecer.

Adílson estava certo quando supôs que ele seria incapaz de gritar; o medo era o melhor criador de silêncios.

Sua última sessão de terapia parecia de fato tranquilizadora, uma espécie de fuga dos tempos turbulentos para uma época nova e promissora. Ele ainda teve tempo de correr na direção do Clio e acertá-lo mais algumas vezes, impressionado por ter corrido e começando a sorrir de um modo alucinado e verdadeiro.

Seu peito estava quente, os braços fortes e firmes. Passou boa parte da manhã esmurrando aquele carro até deixá-lo praticamente achatado. Não se importou com o sangue que escorria pelos beirais da porta.

Levou outros vinte minutos para tomar um banho e enfim ligar para o antigo caseiro de seus avós, um sujeito calmo e bondoso, que não se importou em vir até a fazenda e abrir um enorme buraco com sua retroescavadeira, jogar um amontoado de metal lá dentro e cobri-lo com terra. Ele chegou a perguntar se aquilo era um carro, e Adílson disse que sim. Depois, quis saber se havia acontecido algum acidente, e então Adílson resmungou que fora sim uma espécie de transtorno. Satisfeito, o sujeito pegou seu pagamento e desejou-lhe um ótimo dia.

Adílson então retornou para dentro de casa, sentindo como se tivesse feito a coisa certa, mas do modo errado. Um sentimento de culpa de repente alojou-se em sua cabeça, e abatido, deitou e tentou dormir.

Acordou menos de uma hora depois, convencido de que aquilo que havia lhe causado receio não tinha sido culpa, mas sim a estranha sensação de liberdade.



A sessão com o doutor Swarzer estava dez minutos atrasada para iniciar, e Adílson não tinha pressa.

Seu irmão o havia trazido instantes atrás, e durante a viagem ele insistira em falar sobre o velho Manoel e uma porção de problemas. Ele dissera que o chefe havia lhe interrogado sobre o sujeito que lhe comprara o Clio e sobre a possibilidade dele ser policial. Régis negou ter algum tipo de envolvimento, e ainda se prontificou a ajudar nas buscas pelo neto desaparecido do patrão.

Perguntou para Adílson o que diabos ele tinha feito, fez isso mais de uma vez durante a viagem, e tudo que o irmão lhe respondera fora que provavelmente o velho Manoel estava caducando e o confundindo com outra pessoa. Régis ainda dissera que fora com o chefe até a casa nas colinas, e lá não encontraram nada além de um lugar vazio e com uma enorme plantação de milho ao lado do celeiro. Adílson voltara para sua casa na cidade dois dias depois de encerrar suas sessões na fazenda, deixando para trás seus traumas e suas dores. Ele agora estava sentado na sala de espera do consultório do doutor Swarzer, com as pernas cruzadas e sentido o corpo leve. Com alguns minutos de atraso, foi chamado e liberado pela recepcionista para entrar.

O fez com um sorriso no rosto e um aperto de mãos, e o doutor logo pediu que se sentasse.

— Sua aparência está ótima, — elogiou o doutor, visivelmente satisfeito. — Lembro muito bem de nossa última consulta, um mês atrás, e nela você estava muito mais ansioso e tenso. Ombros caídos, peso no corpo e na mente.

— É verdade.

O doutor então abriu seu bloco de anotações e segurou a caneta sobre ele.

— Me fale. Como estão as coisas, hoje?

— Melhores, — respondeu Adílson, aliviado por poder dizer aquilo pela primeira vez desde o acidente.

— Seus traumas deram uma trégua?

— Posso dizer que sim, — e um sorriso lhe escapou pelo canto dos lábios. — Foi como me libertar de uma prisão de ferro, de um lugar onde só o meu corpo destruído ainda existia.


26 de Junho de 2020 às 15:32 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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