u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Em sua realidade difícil, os livros de História da precária escola pública ao sopé da favela eram como uma Biblioteca de Alexandria, dando asas a seus sonhos como a Ícaro, levando-o a mundos passados que já haviam se tornado íntimos seus. Às suas costas, Paraisópolis desenhava-se como os subúrbios da Roma Antiga, os casebres e barracos em madeira constituintes de um império, tal como hoje, que preferia fingir não existirem enquanto almejava ser dono do mundo...


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo Único

Cidade dos Muros


Inspirado na fotografia "Morumbi e Paraisópolis", de Tuca Vieira. 20/01/2004.


Esperava sua princesa debruçado sobre o muro como um navegador no topo de um mastro pelo Atlântico desbravando mares desconhecidos.

Em sua realidade difícil, os livros de História da precária escola pública ao sopé da favela eram como uma Biblioteca de Alexandria, dando asas a seus sonhos como a Ícaro, levando-o a mundos passados que já haviam se tornado íntimos seus.

Às suas costas, Paraisópolis desenhava-se como os subúrbios da Roma Antiga, os casebres e barracos em madeira constituintes de um império, tal como hoje, que preferia fingir não existirem enquanto almejava ser dono do mundo. O Morumbi, diante de sua visão e oposto à favela, revelava em seu esplendor os Jardins Suspensos da Babilônia com seus condomínios de exuberantes canteiros em degraus, verdadeiros palácios de Nabucodonosores.

O muro que separava as duas realidades, mais cruel e irredutível que o de Berlim. Pior que o obstáculo de tijolos, a barreira invisível dilacerava esperanças.

Dois mundos tão próximos e tão distantes.

Mas lá estava ele, desafiando moinhos e gigantes para ver sua princesa.

O carro sedan da família adentrou a garagem feito o Cadillac dos Kennedy – e o preconceito demonstrado pelo olhar do porteiro em sua direção, infelizmente, fazia-o pensar que o garoto estava no muro para alvejá-lo tal qual o assassino de outrora.

No entanto, só seria capaz de disparar rosas – e beijos – para a amada que sequer sabia de sua existência.

As portas se abriram e eles desceram. O pai, de terno amarrotado e gravata desalinhada, aturdido ao celular feito um Howard Hughes prestes a perder sua fortuna. A mãe, trazendo as sacolas com o logotipo de lojas famosas, era a rainha-mãe de uma França ou Inglaterra chegando com novas joias ao tesouro real. E foi do banco de trás que ela surgiu, os cabelos loiros iluminados pelo sol como se quisesse fazê-la transbordar do resplendor natural que já trazia.

Aquela pequena Maria Antonieta tinha uma beleza muito além de suas roupas de grife, unhas pintadas e óculos escuros caríssimos – os quais, infelizmente, cobriam seus olhos azuis que só raramente podiam ser vislumbrados. Assim como a histórica rainha da França, aparentava ter, por trás de seu luxo, um temperamento meigo e bondoso, esbanjando sorrisos e simpatia enquanto cumprimentava o porteiro ou agradava os cães no pátio do condomínio – embora, dando razão aos iluministas, ignorasse qualquer um que vivesse além do muro de sua Versalhes, até mesmo seu maior admirador.

Ela contornou o carro, apressando-se em ajudar a mãe a carregar as sacolas de marca. Ao virar-se, o olhar para a rainha-mãe acabou encontrando, atrás dela, o menino no muro – e a existência deste foi finalmente descoberta assim como Galileu revelando mundos com seu telescópio; uma nova e inesperada estrela gravada em seu céu, mais perto do que poderia imaginar.

Foi o suficiente para a garota abaixar os óculos, dando ao menino o encanto de seu olhar cor-do-Mediterrâneo. Eles se encararam através do pátio feito o primeiro espanhol na América observando o mais velho nativo, com o contraste de que era o garoto quem buscava ouro na paixão correspondida pela adolescente. Estáticos, mutuamente admirados – e assim continuariam se a rainha-mãe não quebrasse o momento puxando sua princesa violentamente pelo braço, levando-a ao interior seguro do castelo daquele feudo.

O combate à exposição da família real não foi suficiente para banir seu mais fiel súdito. Dia após dia, ao menos agora percebido, ele se apoiava no muro, cabeça sobre os braços, para admirar o cortejo de sua amada da carruagem às dependências do palácio. A Cleópatra dourada demonstrava carinho por seu Júlio César despojado, lançando a ele sorrisinhos, acenos. A República romana composta por seu pai e sua mãe, no entanto, já planejava um complô contra o menino, uma ameaça à segurança de sua filha. Negro, favelado, potencial estuprador. Só podia estar metido com o tráfico. Um cristão capaz de atear fogo à cidade eterna que, sob o auspício de homens de bem como Nero, haviam se esforçado tanto em construir...

Os dias passaram como eras da humanidade. Logo sua princesa desapareceu, desembarcando da escola ou dos passeios com a família pelo outro lado do edifício – sua figura oculta do mundo como uma vestal. O garoto permaneceu junto ao muro, triste, ansiando por tempos de liberdade. De amor realizado.

Pela janela do décimo quarto andar, Howard Hughes, em sua Torre de Babel, seguia acompanhando os movimentos do plebeu no solo – falando ao celular enquanto tratava, agora, de outro tipo de negócio...

Como um Plano Cohen o contrato foi acertado, longe dos olhos marejados do pequeno já há tempos longe daquela com quem tanto sonhava, as lágrimas suficientes para encher um Tigre e um Eufrates.

Foi num final de tarde, quando o sol já se punha – embora ainda tivesse calor o bastante para derreter asas de cera – que o menino, deixando o muro como de costume após horas frustradas na expectativa de ver sua princesa, foi encurralado junto a um barraco.

O amigo policial do rei meteu-lhe três tiros feito um capitão do mato.

O corpo do menino foi resgatado como estatística. Fizeram-se suposições sobre estar envolvido em alguma encrenca com serpentes tentadoras de Paraisópolis, banido do Éden com aquelas balas após provar do fruto proibido do conhecimento. Os livros de História tirados de seu casebre passaram por mil mãos, até serem queimados numa fogueira para alívio de uma noite fria.

A vida no Morumbi continuou inalterada para quem dela desfrutava. Maria Antonieta não mais viu seu querido, os pais contando ter sido recolhido numa Bastilha para menores. De coração leve, ela imaginou qual poderia ser o destino dele depois que saísse da instituição, enquanto no verão banhava-se nas piscinas do condomínio – os moradores, embora não percebessem, estando mergulhados na água do Nilo convertida em sangue num tempo distante...

23 de Junho de 2020 às 02:37 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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