u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Em 1817, um plano de apoiadores de Napoleão Bonaparte nos EUA pretendia resgatá-lo da Ilha de Santa Helena e trazê-lo a Pernambuco. Antes disso, em 1801, a Conspiração dos Suassunas havia tentado fundar uma república independente de Portugal no nordeste sob a proteção de Napoleão. E se, num universo alternativo, Napoleão houvesse vencido a Inglaterra e aportado na Bahia em 1808, ao invés de D. João, para nos conceder independência?


De Época Todo o público.

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Capítulo Único

Um Imperador no Pelourinho


As ondas do Atlântico, impetuosas em sua origem no alto-mar, chegavam à praia leves e serenas, como se o clima tropical daquela terra e o belo cenário costeiro imerso em céu azul contribuíssem para amainar sua intensidade. A cidade junto à "Baía de Todos-os-Santos", antiga capital daquela terra, mantinha boa parte de seu esplendor de outrora, esbanjando encanto em sua paisagem. O casario, composto de sobrados e pequenos prédios coloridos à beira-mar – como casinhas de brinquedo de um menino tritão, ali deixadas – compunha linha contínua frente ao oceano; enquanto, atrás de si, erguia-se o segundo nível da cidade, numa contínua elevação – como se Salvador de fato possuísse dois andares, destacando-se dentre os telhados deste último as esguias torrinhas das igrejas.

O povo, com seus fidalgos de perucas empoladas, escravos a serviço de senhores e mascates que ofereciam mercadorias a senhoras, aglomerava-se junto ao cais devido à notícia difundida a partir do Palácio do Rio Branco, local de onde vinham os decretos de seus governantes. Segundo se falava, o monarca viajava há algum tempo, saído da longínqua Europa, até aquelas terras do Brasil, e naquela mesma manhã de vinte e dois de janeiro de 1808, dia de Santo André, aportaria em Salvador. Os baianos, quase todos fora de suas moradas, agora aguardavam a chegada do ilustre visitante, entre gracejos de crianças, hinos das Irmandades – de tantos santos quanto os daquela baía – e rodas de capoeira.

Eis que, quando o sol quase chegava ao meio do céu, um majestoso galeão fez-se ver na orla, do topo de suas velas tremulando faixas em tecido azul, branco e vermelho. Acompanhavam-no embarcações menores, de escolta, ao mesmo tempo em que a população no porto, ainda que visse o navio com certa estranheza, comemorava insuflada pela euforia dominante. Fogos de artifício especialmente preparados para a ocasião passaram a zunir pelos céus de Salvador, junto ao choro de pequenos meninos assustados com suas explosões, encolhendo-se nos colos de suas amas-de-leite. E, contagiados por uma turba que descia da parte alta da cidade em marcha, os populares começaram a balbuciar a letra de uma música de melodia engraçada, cantada numa língua estranha. Alguns riam, achando que o entoar de curiosa pronúncia mais parecia um monte de gemidos, sendo repreendidos por políticos da cidade que, com lágrimas nos olhos, acompanhavam o cântico cheios de incrível devoção. Alguns mais entendidos afirmavam que se chamava "Mar e Tristeza", ao que logo foram corrigidos: era "Marselhesa".

Mais algum tempo transcorreu, com os rojões e a cantoria ecoando pela costa, e o galeão aportou. O povo avançou para o barco, quase empurrando a si próprio para a água. Um bote desceu do navio, sendo conduzido a remo até o cais por um homem careca, de braços fortes. Já era possível admirar o indivíduo que era trazido por ele: um senhor um tanto jovem para sua posição, de impecável farda azul-marinho com calças brancas e botas imponentes. Trazia ao peito uma faixa vermelha e à cabeça um comprido chapéu bicorne. Mantinha uma das mãos enfiadas dentro de seu colete ao peito – gesto magnânimo, mas que provocou risos em algumas das crianças que assistiam, rapidamente reprimidas pelas baianas. Os homens de Salvador, por sua vez, cochichavam entre si se aquele seria o tão falado Napoleão Bonaparte. Ainda que, apesar do nome sugestivo, sua figura, agora vista pelos que conheciam sua fama, remetesse mais a um estadista atarracado do que a um leão – embora ele houvesse abocanhado toda a Europa de lambuja.

Em terra, a guarda da cidade – antes composta por portugueses, agora quase somente por baianos ali nascidos – passou a abrir caminho para que o majestoso imperador pudesse ganhar as ruas. Napoleão, mantendo sua pose, pôs-se a caminhar acompanhado de sua guarda própria e ladeado por seus entusiastas americanos, ainda extasiados com a Marselhesa. Logo surgiram, apressados, os governantes vindos do palácio, para recepcionarem Sua Majestade com um francês arranhado: o médico botânico Manuel Arruda Câmara era só sorrisos e elogios ao monarca, embora as más bocas dissessem que ele queria, na verdade, patrocínio para dar continuidade aos seus estudos em viagens pelo mundo. Os irmãos Suassuna, que dividiam entre si a fidelidade das poderosas famílias dos engenhos desde aquela região até mais ao norte, afirmaram que o ar do imperador não estivera tão triunfante desde sua vitória em Trafalgar – ainda que nem houvessem sequer imaginado presenciar tal ato. Logo também desceram da cidade alta os religiosos bispo Coutinho e padre Miguelinho, que há pouco haviam celebrado uma missa na Sé em honra a Napoleão. Agora o convidavam a acompanhá-los até a mesma igreja, onde o idolatrado corso seria sagrado Imperador do Brasil – senhor daquela terra antes regida pelos vis lusitanos, que já haviam sucumbido para os franceses em sua pátria no além-mar. O imperador aceitou com um gesto da cabeça, seguindo-os ladeira acima.

Durante a subida, o povo, impelido pelas Irmandades, acompanhava Napoleão numa imensa procissão. O conquistador já assumia ali quase o posto de santo, melodias alegres comparando-o a Josué e Xangô. Num dado momento, porém, o invencível general, com a fronte toda suada, tirou seu icônico chapéu e cochichou para Cipriano Barata, que há pouco se juntara à marcha, que era muito custoso vencer a pé aquelas subidas de Salvador. A mente inventiva do monarca chegou até a cogitar um elevador para facilitar o trânsito entre os dois setores da cidade, afirmando haver uma tal família Eiffel na França que poderia dar conta do recado...

O animado cortejo ganhou as vielas do Pelourinho, rumo à Sé. Enfeites anis, alvos e rubros pendiam das janelas; escravos prostravam-se em reverência. Para os anfitriões contagiados pelas "luzes", o fato de o maior expoente da Revolução na Europa agora pisar num local tão marcado pelos castigos impostos à população pelos portugueses era sinal de novos tempos. A turba aumentou de tamanho, Napoleão já quase não conseguindo andar e sofrendo visivelmente com o calor. Percebendo isso, padre Miguelinho recomendou que parassem por um instante sob a sombra de um casarão, pedindo a uma moça vinda do campo para presenciar a cerimônia – chamada Maria Quitéria – que fosse buscar um pouco de água para o senhor imperador. Ela correu até um chafariz e retornou com uma cumbuca de líquido fresco e límpido. Sorrindo, Bonaparte afirmou que a pequena lhe lembrava Joana D'Arc, heroína de sua terra. Refrescou-se e prosseguiram.

A igreja surgiu diante da marcha, suas portas tornando-se pequenas para tanta gente – ainda que um tanto grandes para a figura de Napoleão, retesada em seu uniforme e vermelha como pimenta. Os sinos tocavam e repicavam. Poucos conseguiram se manter dentro do templo, a maior parte da multidão espremendo-se junto às entradas e até escalando as janelas, enquanto os menos afoitos lotavam as ruas lá fora. Conforme conduziam o imperador pelo corredor central até o altar, os Suassunas lhe indicavam a ostentosa decoração em ouro da igreja, símbolo da riqueza em grande parte tirada daquela terra pelos lusitanos e compartilhada com seus terríveis aliados ingleses – e que agora, com Napoleão, tinham a esperança de recuperar. O imperador, por sua vez, começava a mostrar os primeiros sinais de impaciência com toda aquela pompa.

Passaram-se mais alguns instantes até o bispo Coutinho surgir com a coroa que, na cabeça do corso, lhe daria formalmente autoridade sobre a porção da América que havia pertencido aos portugueses. A peça fora forjada com ouro das Minas Gerais, onde anos antes um grupo de revolucionários fora descoberto e desbaratado antes que pudesse agir para tornar a colônia independente – tendo sido executado com crueldade um de seus participantes, Tiradentes. Era, assim, símbolo da luta daquela terra por autonomia, que via agora finalmente na figura de Napoleão alguém digno de usá-la.

Cheio de reverência, o religioso, com todos os olhares voltados para o altar, ergueu a coroa bem alto para lentamente depositá-la na cabeça do monarca... Isto é, se este, impaciente, não a houvesse tomado com naturalidade das mãos do bispo e, com mais rapidez, colocado-a ele mesmo sobre seus cabelos. Mal o fez, no entanto, arregalou bem os olhos como se assustado com algo... e suas pernas bambearam. Cipriano Barata e padre Miguelinho apressaram-se para amparar o imperador, porém só conseguiram evitar que seu corpo expirante se chocasse de costas com o chão da Sé.

O coração revolucionário de Napoleão Bonaparte – tingido de igualdade, liberdade e fraternidade – não pudera resistir aos calores dos trópicos, que lograram fazer o que seus inimigos não haviam conseguido...

16 de Junho de 2020 às 01:54 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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AL Alex Lorenzo
As descrições típicas do cenário na contextualização histórica deram ao enredo um brilho singular. São poucas as narrativas que focam em fatos históricos, no caso, criando um universo alternativo. Particularmente, acho bem desafiador. Parabéns pelo conto.
June 17, 2020, 00:18

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Obrigado pelos elogios. Como professor de História, sou suspeito quanto a inserir contexto do tipo em quase tudo que escrevo, hauahaua! E sim, é difícil e requer pesquisa, bastante às vezes. Mas o resultado acaba compensador. Muito obrigado! June 17, 2020, 00:27
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