u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Você conhece a fábula do Gato de Botas? E a Guerra dos Cem Anos? Joana D'Arc? Gilles de Rais, considerado um dos primeiros serial killers da História, ele mesmo tendo sido inspiração a outra fábula, o "Barba Azul"? O que raios isso tudo tem a ver com o Gato de Botas? Bem... E se essa fábula fosse inspirada numa história verdadeira, durante a Guerra dos Cem Anos?


De Época Todo o público.

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Capítulo Único

Le Maître chat


I


Era o Ano do Nosso Senhor de 1429.

A França era posta de joelhos pelos vis invasores ingleses, numa guerra que, como aqueles que viveram depois viriam a registrar, durou mais que os Cem Anos de seu habitual título. Dois terços do território outrora berço do esplendoroso império de Carlos Magno agora, quem diria, reconheciam apenas o monarca das ilhas estrangeiras como legítimo rei. O povo francês, já tão combalido pela fome e pela peste, tinha agora de lidar com o cruel jugo do exército inimigo – enquanto os soldados francos pouco podiam fazer para combatê-lo, já tendo sido batidos numa série de derrotas humilhantes.

Um raio de esperança, no entanto, brilhara naquelas sofridas terras recentemente, como se enviado pelo próprio Deus. E, de fato, a heroína que tanto vinha inspirando os franceses se proclamava realmente uma representante divina, tendo sido instruída pela própria Virgem a guiar seu povo na reação aos invasores. Joana D'Arc, a "Donzela de Orleans". Tendo já vencido várias batalhas e feito os ingleses recuarem, ela seguia em sua gloriosa jornada na condução do Delfim até a sagrada Reims, onde seria coroado rei na catedral. A França finalmente voltaria a ter um soberano!

Apesar da chama de confiança em tempos melhores, a situação do povo ainda não melhorara, e os menos favorecidos – esses pobres esquecidos pela misericórdia divina – eram os mais afetados...

Um deles era o idoso Dennis, vivido artesão que falecera nos arredores do vilarejo de Patay, ao final daquele inverno. Arruinado pela guerra e pela moléstia, pouco pudera deixar de herança aos três filhos – os quais, como era então costume, foram beneficiados por ordem de nascimento.

O mais velho, Amadour, ficou com o moinho da família, no passado intenso produtor de grãos... mas agora construção caindo aos pedaços necessitando urgentemente de um reparo que o rapaz, sozinho, não poderia fornecer. Quanto ao filho do meio, Ignace, recebeu um burro – animal antes forte e robusto – agora mero monte de ossos coberto por uma pele malcheirosa. Vendo que sozinhos não poderiam fazer muito com o que haviam herdado, os dois irmãos se uniram na tentativa de reparar o moinho e nutrir o burro, para que este mais tarde servisse como força motriz ao primeiro. Já o filho caçula. Jules, viu-se em situação ainda mais precária...

A ele o pai Dennis legou um servo. Antigo camponês que lhe devia favores e que, nos últimos anos de sua vida, o auxiliara na oficina agora confiscada por credores. Eram tempos bárbaros aqueles, em que um homem ainda cedia sua vida a outro como se constituísse dele propriedade. O pobre diabo via-se mais magro que o burro deixado a Ignace, vestido em trapos e possuindo várias feridas pelo corpo decorrentes do frio e de maus-tratos sofridos nas mãos de um regimento inglês que passara pelas cercanias. Seus pés, principalmente, eram motivo de pena: esfolados e cobertos de sujeira devido a ter sido obrigado a andar por tanto tempo sem calçado.

- Bonjour – o sofrido agregado apresentou-se a Jules na primeira manhã após o falecimento do pai. – Sou Chat-Mec.

Logo no início o caçula estranhou o incomum nome do servo, que lhe lembrava mais algum tipo de trocadilho de bardo do que qualquer outra coisa. De todo modo, estava convencido de que o novo companheiro só lhe traria desgraça: se naqueles tempos difíceis mal conseguia sustentar a si mesmo, ter uma boca a mais para alimentar poderia ser considerado incrível desgraça. Melhor fosse, talvez, espancar aquele infeliz que insistia em segui-lo, deixando-o a agonizar na beira de alguma estrada. Jules, todavia, acreditava que o Senhor poderia possuir algum desígnio oculto por trás da aparição daquele ajudante. E isso começou a se manifestar quando este, ao acompanhar seu novo dono para longe do povoado de Patay, perguntou-lhe, ao notar seu jeito pensativo:

- Algo o incomoda, senhor?

- Apenas o infortúnio que me atingiu – o filho caçula respondeu, desconsolado. – A meus irmãos foram ao menos legados bens mais úteis... Que farei eu com um ajudante de artesão que mal tem onde cair morto?

- Ora, não fale assim, jovem Jules! – afirmou Chat-Mec, um sorriso branco brotando em sua cara suja. – Posso ser-lhe muito útil, garanto.

- Como? – interessou-se o garoto. – Exige algo em troca?

- Pouco perto do que tenho a lhe oferecer. Pedirei apenas que compre para mim um par de botas para calçar, já que as pedras destes caminhos muito machucam meus já feridos pés. Depois pedirei apenas que aguarde meu retorno. Com certeza virei com boas novas.

Comprar-lhe calçados? Jules possuía apenas algumas últimas economias que guardara para conseguir comida, porém um inesperado surto de confiança o levou a acreditar nas palavras de seu servo. Pararam na primeira cidade que encontraram, onde o rapaz usou suas moedas para adquirir um par de botas surradas destinadas ao antigo ajudante de seu pai – as mesmas tendo sido recém-retiradas do cadáver de um soldado francês morto em combate, que não viria mais a usá-las... Chat-Mec lhe agradeceu, reforçou sua promessa e, após gastar algum tempo pedindo informações a moradores, desapareceu por uma estrada diferente daquela pela qual haviam vindo.

O filho caçula então foi acometido de incômoda suspeita. Não sumiria aquele desgraçado para nunca mais voltar, tendo enganado-o para obter um par de sapatos – na falta de bem mais valioso? Bem, nada poderia fazer a não ser aguardar, e talvez o esforço lhe valesse a pena...


II


É fato que, quando um exército, ainda que invadindo uma terra estrangeira, torna-se confiante demais, por conseqüência também é dominado pela indolência. Essa era uma verdade que muito se aplicava aos inimigos ingleses. Certos de sua vantagem sobre o povo franco, andavam com a guarda baixa, sem ver qualquer francês como real ameaça.

Tal vantagem podia ser aproveitada até por meros camponeses, se fossem espertos, contra o exército de ocupação. O astuto Chat-Mec, dono de uma mente arguta por trás de sua aparência débil, resolveu tirar proveito da situação. Perguntando às pessoas certas de vila em vila, cidade em cidade, descobriu haver, nos arredores de Troyes, um bosque onde soldados ingleses se dedicavam à volúpia. Toda noite, deixando seus postos, entregavam-se a intensas bebedeiras e orgias, abusando de donzelas raptadas das povoações próximas e prestando até culto a deuses pagãos há muito esquecidos – heresia mortal que os colocaria em maus lençóis se descoberta pela Santa Madre Igreja.

Chat-Mec, entretanto, não desejava denunciá-los aos sacerdotes; muito menos tomar parte nas profanas celebrações. Escondendo-se em meio à folhagem da floresta, passou a observar, noite após noite, o descuidado comportamento dos guerreiros invasores. Depois de muito beberem e copularem, costumavam se deitar em pleno relento, totalmente entorpecidos pelo álcool – esse inimigo da pureza – com ou sem as pobres moças que obrigavam a satisfazê-los. Tendo o peso de bigornas em suas cabeças inebriadas, muito precisaria ser feito para conseguir despertá-los de seu sono profundo – quiçá fazer com que se levantassem rapidamente capazes de brandir uma espada com prontidão.

O servo de Jules sentiu certo receio na primeira noite em que decidiu agir, penetrando em meio à clareira em que repousavam os soldados silenciosamente – como verdadeiro felino. Suas mãos tremeram ao apanhar o sabre de um dos ingleses inconscientes, erguê-lo acima de seu pescoço... e abaixá-lo com força, rompendo a garganta do estrangeiro e fazendo-o morrer praticamente sem ruído algum. Mas a sensação de estar vingado da agressão sofrida semanas antes, principalmente ao arrastar o cadáver do combatente para dentro do mato, encheu-o de motivação.

Noite após noite, um a um, alguns dos integrantes do batalhão de soldados fanfarrões foram desaparecendo... sem que os remanescentes notassem, em seu furor por prazer, a ausência dos companheiros.

Passaram-se dias... e finalmente um dos ingleses notou algo estranho na clareira... porém não o desaparecimento de seus colegas. Seu cavalo branco, presente de seu pai quando deixara York acompanhando o exército, fora roubado por algum francês traiçoeiro...

Mal sabia que, já a milhas dali, um sujeito raquítico metido numa armadura inglesa com as insígnias raspadas galopava velozmente num corcel alvo, seguindo uma das margens do rio Loire. Acompanhava, na verdade, os abundantes rastros de um regimento em marcha que ali passara pouco tempo antes. O que diferenciava o misterioso indivíduo de um cavaleiro normal – assustando criancinhas e até homens vividos pelo caminho – era o fato de o animal arrastar atrás de si uma série de cadáveres de soldados ingleses, todos com os pescoços cortados, atados por cordas entre si. A cauda de inimigos derrotados, assim, ia sendo esfolada e sujada de lama ao longo do trajeto, garantindo humilhação para sua descendência e glória ao feroz guerreiro montado no cavalo que, supostamente, aniquilara-os.

Dias mais tarde, o pitoresco cavaleiro conseguiu, através de um atalho, contornar a estrada que seguia, abordando de frente seu objetivo: a comitiva militar da qual tomava parte Joana D'Arc, que conduzia o Delfim até Reims para a coroação. No começo o desconhecido foi quase atacado pela vanguarda franca, devido a usar um traje inimigo, mas o rústico estandarte que portava, possuindo o desenho em pano de uma espada cravada no peito do leão representando o rei inglês, fez com que os franceses resolvessem ao menos conversar. Descendo de seu cavalo que ainda arrastava os corpos dos inimigos, o magro herói pôs-se de joelhos diante da jovial e majestosa figura do Delfim, que tinha ao seu lado a santíssima Joana, resplandecente em sua armadura como assim diziam aqueles que ganhavam o privilégio de fitá-la. E, em profunda reverência, disse a ambos:

- Meu nobre rei a ser coroado e gloriosa enviada da Virgem Maria para a salvação de toda a França... trago em vossa honra as carcaças destes vis soldados ingleses, dos quais ceifei a garganta com o fio de minha espada. Apresento-lhes minha pessoa e coloco à vossa disposição os meus serviços. Sou João Mata-Bretões!


III


Tanto o Delfim quanto Joana D'Arc acharam no mínimo intrigante a figura de João Mata-Bretões. Apesar do porte físico inadequado para um cavaleiro, falava de maneira bem articulada e parecia ser habilidoso nas artes da guerra. O que mais chamava atenção em sua figura, porém – além da armadura inglesa – era o fato de trazer aos pés um par de botas surradas, contrastando com o resto da vestimenta.

- Não desejas o nobre soldado calçados mais adequados para fustigar as tropas inimigas? – inquiriu-lhe a angelical Donzela de Orleans.

- Oh, não, comandante, isso não seria de meu agrado! – respondeu o esperto Chat-Mec, ainda curvado. – Pois estas botas foram gentil presente de meu suserano, o Duque de Cabara!

Os olhos tanto do príncipe quanto de Joana brilharam. Esse primeiro afirmou:

- Se um vassalo de tal nobre já se mostra tão valoroso em combate, degolando uma dúzia de ingleses apenas para atá-los a seu cavalo, imagino do que seu senhor é capaz!

- O grande duque é mesmo cavaleiro admirável. Um de seus antepassados lutou ao lado de Carlos Martel quando este bateu os mouros em Poitiers. Agora enfrenta os ingleses, esses cães que também podem ser considerados inimigos da Fé!

O Delfim achou estranho nunca ter ouvido falar de ninguém da tal Casa de Cabara, ainda mais que houvesse combatido junto a Carlos Martel, mas a verdade era que a França andava em tamanha desordem, que não seria difícil o nome de tão heróico duque ter acabado por ser esquecido. Desejava, porém, tornar tal indivíduo novamente lembrado:

- Onde está esse respeitável senhor? Não quis se juntar ao nosso exército na jornada até Reims?

- Ele está a caminho, vossa majestade – João Mata-Bretões replicou sorrindo. – Creio que nos encontrará a tempo para a coroação. Nesse ínterim, gostaria de saber se eu poderia acompanhar a comitiva.

O pedido foi prontamente atendido, o Delfim acreditando que seria grande honra serem acompanhados pelo vassalo do Duque de Cabara. Assim o servo de Jules – este ainda totalmente ignorante daquela situação – inseriu-se em meio às fileiras francesas, passando nelas vários dias e várias noites.

Em algumas ocasiões, principalmente quando a comitiva se aproximou de Troyes, Chat-Mec se afastava momentaneamente da mesma, alegando ir fazer contato com os mensageiros de seu suserano; e, após mais algumas visitas ao bosque das orgias inglesas, retornava com novos soldados inimigos arrastados por seu cavalo. Apresentava-os ao Delfim como atacantes traiçoeiros que o haviam tentado derrubar no caminho, tendo dado cabo deles sozinho e agora os oferecendo ao príncipe e a Joana D'Arc como presentes do Duque de Cabara.

Os dois líderes do exército francês, maravilhados, aceitavam as belicosas oferendas de bom grado, sempre indagando a João Mata-Bretões a respeito de quando conheceriam seu senhor. O servo, sagaz, respondia que o momento em breve chegaria...


IV


Jules encontrava-se há quase três semanas na mesma cidade, aguardando o retorno ou ao menos alguma notícia de Chat-Mec. Já estava convencido de que o servo o lograra, usando-o apenas para obter um par de botas e então saindo pelo mundo, sem a menor intenção de voltar. Sem mais nenhuma moeda para se sustentar, estava vivendo de favor numa abadia... até que, durante uma manhã de sol, um mensageiro chegou a cavalo ao lugar. E, para surpresa do filho caçula do velho Dennis, ele tinha uma carta para si endereçada pelo sujeito fujão.

Aturdido, o rapaz apanhou a correspondência e leu-a atentamente. Era escrita de forma pomposa, combinando com a fala galante do servo que em nada combinava com sua aparência maltrapilha. Continha poucos dizeres: nela Chat-Mec apenas se desculpava pela demora e pedia que seu senhor, o quanto antes, se dirigisse até um bosque nos arredores de Troyes, as direções exatas tendo sido ali instruídas. A mensagem frisava que, se pudesse, Jules deveria viajar a cavalo – pois o pouco tempo disponível o requeria. Por sorte, o abade lhe forneceu um animal sem custo, e desse modo o jovem partiu em direção ao destino que lhe fora indicado, torcendo para que seu servo houvesse obtido frutos em sua jornada...


X – X – X – X – X


O exército francês se aproximava de Reims, afugentando algumas guarnições inglesas pelo caminho e já se encontrando a poucos dias da cidade. João Mata-Bretões, como de costume, deixara a comitiva para empreender mais uma de suas escaramuças pessoais contra os invasores... até retornar antes que o previsto com uma face aturdida – expressão diferente daquela que costumava predominar em si. Seu corpo até tremia sob a armadura, e seu cavalo não trazia presos a cordas os cadáveres de combatentes inimigos. Abriu caminho por entre as fileiras até alcançar o Delfim e Joana D'Arc. Sem nem ao menos descer de sua montaria, em caráter de urgência, informou-os:

- Meu senhor foi emboscado pelos ingleses nos arredores de Troyes! Ele não conseguirá resistir por muito tempo sozinho! Temos de auxiliá-lo, vossa majestade!

O herdeiro do trono prontamente assentiu, a Donzela de Orleans também anuindo. Ela exerceu sua influência sobre as tropas para convencê-las a retornar cerca de um dia pelos campos. Assim, galopando e caminhando com rapidez, a comitiva pôs-se a retornar.


X – X – X – X – X


O confuso Jules chegou ao bosque indicado por Chat-Mec, perto de Troyes, ao pôr-do-sol de um dia de brisa fria. Vagou sem rumo por entre as árvores, olhos atentos para encontrar a traiçoeira figura de seu servo – e já imaginava se ele não teria na verdade o atraído para uma armadilha, visando furtar o pouco que lhe restava. Por fim atingiu uma clareira, grama até quase os joelhos... E o mau-cheiro prenunciou uma visão que lhe causou calafrios...

Naquele pequeno campo havia, sobre a relva, cerca de quinze soldados ingleses estirados, sem vida, com as gargantas cortadas. Deviam estar mortos já há dias, principalmente se considerando as moscas e outros animais pestilentos que assaltavam seus corpos. Para piorar a mórbida situação, Jules ouviu o som de cavalos e soldados a pé se aproximando. Se fossem mais inimigos, o que era provável, então Chat-Mec realmente o conduzira ao fim. Ao menos morreria lutando, pensamento que fê-lo apanhar uma espada de um dos cadáveres para defender-se. Já estava preparado para a morte, pedindo perdão a Deus por seus pecados, quando teve uma surpresa: eram tropas francesas.

Os recém-chegados se posicionaram em meio à clareira, detendo-se diante de Jules. Ele colocou-se imediatamente de joelhos ao notar a presença do Delfim e da famosa Joana D'Arc, da qual todos vinham falando. Porém, o que realmente mais o espantou foi o fato de ver seu servo, a cavalo, vestindo armadura. Apesar de conservar sua magreza, tinha a pele agora limpa e uma expressão altiva em seu semblante, ainda que mantivesse em seus pés as botas que ganhara de seu senhor. Poderia até julgá-lo uma outra pessoa, mas sim, era ele mesmo.

- Eis ali meu suserano, vossa majestade! – Chat-Mec, ou melhor, João Mata-Bretões, exclamou de repente, apontando para o rapaz que nada compreendia. – O Duque de Cabara!

- Oh, entendo! – o príncipe coçou o queixo. – Deu conta sozinho dos oponentes, antes mesmo de chegarmos! Mostra-se mesmo guerreiro invejável. Mas, se me permite perguntar, por que não usa armadura?

- Meu senhor acredita que armaduras reduzem sua mobilidade ao manusear um sabre, e por isso as evita, vossa majestade! – explicou o servo.

- E ainda assim não sofre um só ferimento por parte dos inimigos! – afirmou Joana. – Admirável!

Cada vez mais confuso, Jules, pálido, fitou Chat-Mec... que deu uma piscadela para si sem que os demais notassem. Pelo visto, o maltrapilho que recebera de herança de seu pai semeara mentiras suficientes entre aquela comitiva para construir uma bela imagem de seu senhor. Bem, se sua situação poderia melhorar por meio daquele teatro, então convinha assumir nele seu papel... Duque de Cabara, certo?

- Que bom que chegaram! – sorriu o garoto, assumindo repentino ar imponente. – Já começava a ficar entediado, sem ter ingleses para derrubar.

- Pois se junte ao nosso exército, meu nobre homem! – a Donzela de Orleans fez o inegável convite. – Unidos poderemos ceifar mais desses invasores pelo caminho até Reims.

Desse modo, suserano e vassalo da Casa de Cabara tomaram parte nas fileiras francesas, Jules arrependendo-se amargamente por ter desconfiado de Chat-Mec...

Dias depois, com grande glória, o Delfim foi coroado rei na Catedral de Reims; cerimônia da qual tomaram parte Jules e seu servo, ambos inseridos entre os mais valorosos nobres do exército francês. E, em meio aos estandartes das várias famílias e territórios que se erguiam por toda a igreja, a rústica bandeira do leão sendo perfurado por uma espada também marcou presença...


V


São imprevisíveis e muitas vezes inoportunos os caminhos que uma guerra segue. Ainda mais uma guerra longa.

No ano seguinte, 1430, ocorreu uma das maiores injustiças já testemunhadas pelo homem: capturada pelos ingleses e seus aliados franceses, vis traidores, Joana D'Arc foi julgada como bruxa e queimada na fogueira. A posteridade ainda a toma por feiticeira, sendo na verdade uma santa que morreu por Deus e sua pátria. Espero sinceramente, um dia, que o nome da Donzela de Orleans seja reabilitado.

O Delfim, agora rei, seguia em sua campanha contra os invasores ingleses. Jules e Chat-Mec, da fictícia Casa de Cabara, continuavam no exército, tomando parte nas vitórias e derrotas francesas. Crescia, no entanto, a desconfiança dos demais soldados em relação aos misteriosos cavaleiros. Qual era sua verdadeira procedência? Por que, apesar dos supostos títulos, não possuíam nada em seu comportamento que remetesse à nobreza?

Tais suspeitas chegaram aos ouvidos do rei. Este, que, apesar de também ter dúvidas quanto à dupla, achava-os soldados de valor, resolveu fazer um teste para pô-los à prova. Chamou, numa certa manhã, Jules para falar consigo a sós. E, num dado momento da conversa, o soberano lhe disse:

- Esta extensa guerra caminha para o fim. Tenho assinado tratados que em breve cessarão as hostilidades contra os ingleses e entre os próprios franceses. Os assuntos de Estado já não exigem tanto de mim como quando assumi a coroa, e assim tenho, e preciso, de mais tempo para repousar. Diga-me, Duque de Cabara... permitiria que eu passasse alguns dias de descanso em seu castelo?

Jules gelou. Como assentiria para aquilo, se não possuía castelo algum? A farsa criada por Chat-Mec seria finalmente revelada, e ambos acabariam mortos. Tornou a amaldiçoar mentalmente seu servo – coisa que já não fazia há bastante tempo. Precisaria, ao menos, comprar algum tempo para sair daquela enrascada. Desse modo, após certa hesitação, replicou ao rei:

- Claro, vossa majestade. Pode ser daqui a um mês? Preciso avisar meus criados para que eles preparem tudo devidamente para vossa estada.

- Perfeito. Daqui um mês, então, partiremos. Tenho certeza de que serão dias de grande conforto em vossa propriedade, nobre amigo.

O monarca se afastou, Jules indo então, desesperado, procurar seu servo.

Retirou-o de uma reunião com outros oficiais do exército para expor-lhe o ocorrido. A situação do filho caçula de Dennis era penosa: estava a ponto de chorar de desespero! Mas Chat-Mec tranqüilizou-o, falando numa voz mansa:

- Acalme-se, meu senhor. Insistirei até o fim para que se convença de que fui o melhor legado que seu pai poderia ter lhe deixado. Permaneça aqui com as tropas. Eu inventarei um motivo para viajar, e cuidarei de tudo.

Jules assentiu com certa relutância, acreditando que ainda valia a pena confiar em seu inteligente ajudante. Dormiu mais tranqüilo aquela noite e, na manhã seguinte, acordou com a partida de Chat-Mec a cavalo, rumo a oeste.


VI


O servo visitou algumas povoações nos dias que se seguiram, procurando obter alguma informação útil entre os camponeses. Sua busca gerou frutos, confirmando algo de que já suspeitava: um boato que vinha correndo dentro do exército e que, mostrando-se verdadeiro, poderia salvar a vida de seu senhor... e a de si próprio.

Ao ter certeza do que procurava e do que teria de ser feito, João Mata-Bretões dirigiu-se a rápido galope rumo à costa oeste francesa... Mais precisamente, em direção a uma fortaleza conhecida como Château de Tiffauges.

Nela residia um indivíduo de nome Gilles de Rais. Desejo dedicar uma história inteira somente a ele, no futuro – sendo que nesta, apesar de seu caráter sombrio, ele constitui importante coadjuvante. Esse senhor muito era valorizado por seus triunfos militares anos antes, tendo inclusive lutado ao lado de Joana D'Arc quando ainda era viva. Agora, todavia, surgiam rumores sobre ele assassinar crianças deliberadamente, trancando-as em seu castelo e abusando de seus corpos em práticas de sodomia antes de arrancar-lhes a vida. Só eram necessárias provas para acusar esse terrível ogro, a serem obtidas provavelmente quando alguém conseguisse entrar na inexpugnável fortaleza e retornar vivo.

E justamente para ela viajava o corajoso e esperto Chat-Mec...

Dias se passaram antes que a soturna construção, parecendo envolvida pelas sombras de seu sinistro morador, surgisse no horizonte numa noite de poucas estrelas. O servo de Jules galopou apressado até os portões, somente para ser detido pela guarda. Informou-a de que era o famoso João Mata-Bretões, do qual de fato haviam ouvido falar, e que desejava testar as habilidades e a coragem do senhor daquelas terras. Os soldados não teriam deixado o estranho entrar somente com tal justificativa, porém Gilles era homem orgulhoso. Sentindo-se ofendido e subestimado, permitiu que seus homens abrissem caminho ao petulante forasteiro que ousara desafiá-lo.

Chat-Mec prosseguiu então pelos tortuosos corredores do castelo, o proprietário recebendo-o num grande salão. Toda a decoração remetia à arte da cavalaria; as espadas, maças e escudos pendurados às paredes evidenciando ser Gilles um homem fascinado pela guerra. Com ar de superioridade, dirigiu-se ao visitante:

- Então quer me testar, infeliz?

- Ouvi falar que fostes o melhor espadachim de todo o exército francês, até mesmo a grande Joana D'Arc tendo sentido inveja de sua perícia. Esse ímpeto, no entanto, era dirigido contra os inimigos, no campo de batalha. Duvido que seja capaz de derrubar e aniquilar em combate um soldado de sua própria guarda...

- Nunca duvide de mim, tolo!

Raivoso, Gilles chamou para o salão um dos vigias da fortaleza. Cedeu a ele uma das espadas que guardava em sua coleção e, sem prévio aviso, atacou-o. Os dois combatentes se digladiaram por alguns instantes, lâmina contra lâmina, mas logo a superioridade do senhor de Tiffauges se manifestou: perfurou, sem dó nem piedade, o peito de seu comandado, chutando então seu cadáver para longe de si. Demonstrara ao forasteiro que não possuía mesmo escrúpulos, tendo eliminado a sangue frio um dos seus e por certo sendo mesmo autor das atrocidades que lhe eram atribuídas.

- Ah, mas isso não é nada! – exclamou Chat-Mec em tom de deboche. – Você matou um leigo! Quero ver se tem coragem para matar com seu sabre um clérigo, um homem da Igreja!

- Não me desafie! Verás que Gilles de Rais nada teme!

Infelizmente, não havia nenhum homem da Igreja no castelo, o que obrigou o nobre, em sua loucura, a sair galopando em plena noite como um espectro amaldiçoado rumo à vila mais próxima. Essa era, no caso, uma povoação chamada Saint-Étienne-de-Mer-Morte. Seus moradores, durante a madrugada, ouviram a gritaria vinda dos arredores da igreja enquanto esta era invadida pelo insano Gilles, que levava consigo à força o padre local.

Enquanto isso, aproveitando-se da desordem instaurada na fortaleza com a morte de um dos sentinelas e a partida repentina do comandante, Chat-Mec obteve acesso aos níveis inferiores da construção. E, nos calabouços sombrios e horripilantes, venceu seus próprios demônios para conseguir encontrar os corpos carbonizados das crianças que Gilles assassinara para obter seus satânicos prazeres.

Quando o proprietário da fortaleza retornou com seu refém, o audacioso desconhecido que queria vê-lo matar o clérigo já havia desaparecido. Sem compreender o que ocorrera, o nobre recolheu-se no castelo disposto a caçar o insolente... até que, dias depois, um enviado do bispo de Nantes vinha informar que Gilles e sua fortaleza estavam sendo colocados sob investigação pela Santa Madre Igreja...


VII


Logo era notícia em toda a França a desgraça de Gilles de Rais, que tivera seus profanos crimes descobertos, estando prestes a ser enforcado e incinerado como punição. Centenas de crianças haviam desaparecido devido ao herege, os corpos irreconhecíveis de algumas tendo sido encontrados em aposentos ocultos de seu castelo e áreas desabitadas em seus arredores. A população não conseguia compreender como um homem que lutara ao lado da santa Joana D'Arc pudera cometer atos tão bárbaros. Ele agora, ao menos, pagaria por eles.

O misterioso cavaleiro que passara pelo Château de Tiffauges na noite em que Gilles começara a ser desmascarado, no entanto, permaneceu envolto em mistério... exceto para alguns poucos privilegiados.

O rei tomou conhecimento do que realmente acontecera. E sabia que um vassalo do Duque de Cabara fora o principal responsável por trazer o insano Gilles de Rais à justiça. No entanto, descobrira a verdade a respeito dos dois: que não passavam de plebeus se passando por nobres, apesar de já terem demonstrado incrível valor servindo à coroa.

Foi assim que, ignorando o fato de ter sido enganado por anos, o soberano francês, um mês depois, passou um período de repouso em Château de Tiffauges... recém-entregue a Jules – recém-nomeado Duque de Cabara, desta vez de verdade – como sendo agora seu castelo. Pouco tempo depois o afortunado filho de Dennis casou-se com uma abastada duquesa castelhana, vivendo em luxo e prestígio até o fim de seus dias...

Quanto a Chat-Mec, tornou-se conselheiro afamado nos domínios de seu senhor, sendo a si delegadas funções importantes na administração destes e desfrutando de uma vida bastante confortável... ainda que se negasse, de qualquer modo, a livrar-se das botas surradas que sempre trazia aos pés...


Post-Scriptum


São incríveis as surpresas que esta vida nos reserva...

Nunca pensei que, no canto mais escuro do porão de minha casa, havia de encontrar manuscritos de dois séculos de idade tratando de alguns antepassados bastante obscuros de minha família. Tal descoberta inclusive me animou a retomar os estudos, e creio que o estímulo que estes relatos deram à minha imaginação fizeram-me ver que possuo boa inclinação a ser um contador de histórias...

Duque de Cabara. É uma ironia do destino apenas agora saber que um de seus netos alterou seu sobrenome para Perrault. Hoje me sinto quase na obrigação de trazer à tona esse ancestral incógnito de minha linhagem, que foi auxiliado por um servo astuto a conseguir tudo que almejava. Aliás, tal servo me parece mais interessante do que seu senhor.

No entanto, não desejo manter o clima pesado da narrativa original, que acabou sendo transmitido na primeira versão da história que acabei transcrevendo. A França passava por tempos sombrios e enormes dificuldades, e um relato situado nesse período, no fausto atual, não atrairia muitos leitores. Devo abrir mão da violência e do barbarismo da Guerra dos Cem Anos para criar um texto que estimule a imaginação daquelas que a têm mais fértil no mundo... as crianças.

Suavizarei e adaptarei a epopéia de meu antepassado. Trocarei nomes, e não a situarei em época definida, para assim torná-la universal. Depois criarei um conto à parte apenas para explorar mais a figura do vil Gilles de Rais, o qual carinhosamente já apelidei de "Barba Azul". Mas, quanto ao dedicado Chat-Mec...

Eu o converterei num gato.

Um feliz e saltitante Gato de Botas...


Charles Perrault, 1693.


X – X – X – X – X


Quem conta um conto...

16 de Junho de 2020 às 01:49 2 Denunciar Insira Seguir história
3
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Uau, uau e aua! Eu realmente amei tudo isso! Que conto impressionante, eu acredito que sua história é até melhor do que a própria história do Gato de Botas e Barba Azul! Ficou tão real, que eu fiquei impressionada. A forma que a sagacidade e a inteligência do servo Chat-Mec foi descrita ficou sensacional! Acredito que ele possa ser até mesmo mais esperto do que o Gato de Botas real. A estrutura e a coesão do seu texto estão impressionantes. Em momento algum você perdeu a linha de raciocínio daquilo que queria passar, proporcionando um texto incrível e que nos prende do começo ao fim. A sinopse também está maravilhos, nela você cita algumas referências que mesmo quem não tem conhecimento sobre tais coisas, consegue entender perfeitamente a sua história. Se eu não me engano, a Guerra dos Cem anos foi um dos maiores conflitos da idade média, em que cerca de quatro ou cinco gerações de reis (me corrija se eu estiver errada) de duas dinastias rivais, lutaram pelo trono do maior reino da Europa Ocidental. E a Joana d'Arc foi uma peça fundamental no conflito que durou cerca de 116 anos. Enfim, eu não tenho um conhecimento tão profundo a respeito, mas mesmo assim, sua história fácil de entender! Quanto aos personagens, não dá para deixar de entender porque Jules ficou apreensivo no começo, apesar de achar que foi o menos afortunado dos irmãos, na verdade descobriu que foi aquele que mais teve sorte ao ter alguém tão astuto ao seu lado como servo. Já Chat-Mec me deixou curiosa sobre o que o fez ser tão leal ao Dennis e depois ao seu filho. Digo, eu entendo que na época eles pagavam com lealdade e a própria vida, mas qual era o história que teve entre Dennis e Chat? Não dá para deixar de se questionar o porque ele devi tais favores. Quanto à gramática, seu texto é expendido, simplesmente maravilhoso, você está super de parabéns e vou procurar ler mais trabalhos seus. Desejo a você muito sucesso e tudo de bom! Abraços.
June 22, 2020, 21:01

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Olá :) Muito obrigado pelos elogios, fico muito contente que tenha gostado do enredo. Como professor de História, eu me sinto tentado a misturar isso a tudo que escrevo, hauahaua! Acho que qualquer narrativa fica mais interessante com um bom contexto histórico embasando-a. É um elogio e tanto ser comparado até aos fabulistas originais, muito obrigado mesmo! Tentei fazer com que o fascínio do conto original e seus personagens aumentasse com essa roupagem nova e mais realista. A contextualização que você deu sobre a Guerra dos Cem Anos está bem acurada, inclusive. É legal saber que o conjunto do texto ficou envolvente e verossímil com a inserção do enredo no conflito. Gostei do questionamento sobre a lealdade do Chat ao Dennis. Isso poderia até render toda uma outra história, baseada em outra fábula, quem sabe, hehe! Você me deu algumas boas ideias :) Grato pelo gentil comentário, fica mesmo o convite a ler outras histórias minhas, e espero que goste delas. Abraços e obrigado novamente. June 22, 2020, 21:24
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