u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Em 1938, o bando de Lampião tombou para os soldados do governo. Chegava ao fim a Era do Cangaço. Mas, para alguns, o término seria mais longo... Em troca de anistia e pensões, um grupo de cangaceiros foi destacado pelo governo Vargas para cumprir missões de alto risco na Itália, após a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Arriscando-se atrás das linhas inimigas, esse grupo de calejados bandoleiros do sertão acabará mudando os rumos do conflito, e os de suas próprias vidas, para sempre. Esta é a história da ascensão, apogeu e queda do cangaceiro Zé de Deus e seu bando, denominado pelo governo brasileiro, em aspecto confidencial, “Os Doze Conjurados”. Doze fantasmas de uma época que não mais existe ainda a vagar sobre a terra...


De Época Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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I

Os Doze Conjurados


I


Meteu os joelhos na neve gelada e ergueu a cabeça para o alto do mastro.

No topo do esguio tronco de árvore, encimado por galhos retorcidos e sem folhas, todos salpicados de branco, João-de-Barro havia colocado respeitosamente o quadro com moldura de Nossa Senhora, após Touro brincar que o rapaz acabaria construindo uma casa lá em cima – fazendo jus ao apelido – caso demorasse mais um pouco na tarefa.

Tinham encontrado a pintura nos escombros de uma casa cujo teto desabara devido a um bombardeio, situada na última vila pela qual haviam passado, deserta como as anteriores. Muitos deviam ter atravessado as ruínas e ignorado a santa jogada em meio a móveis e peças de roupa, sinal de como aquela terra perdera a devoção. Ou quiçá o próprio Deus a abandonara.

Sentia ser irônico justo eles – homens endurecidos pelo calor, seca e sangue, conhecidos por abrirem a garganta de centenas com suas lâminas – acabarem os únicos a se importar com a figura da Virgem, tomando-a consigo para realizarem suas preces matinais. O "ofício", referindo-se com mais respeito.

Outrora no ardor da caatinga, quando todos eles tinham outra vida – e, desde então, parecia ter se passado mesmo todo o tempo de uma – ajoelhavam-se daquele mesmo modo diante da figura de Maria ou de seu Filho santíssimo, rogando por proteção e sucesso em suas incursões. Quando mais novo, e imaturo, Zé de Deus acreditava nas histórias que ouvia desde criança sobre os cangaceiros, muito antes de se juntar a eles, e pedia que Nossa Senhora lhe fechasse o corpo para que as balas dos volantes jamais o ferissem. Diziam ser o segredo da invencibilidade de Lampião, só não sabendo se lhe era concedido realmente por Deus ou pelo Diabo.

Zé de Deus tivera de aprender da pior maneira que não era nem por um – reverenciado em sua alcunha, devido à conhecida devoção que o levava a andar por toda parte com as contas do rosário em volta do pescoço – nem por outro que os cangaceiros se tornavam invencíveis, mas sim por seu próprio cuidado e a fama que construíram. O fiapo de fé que poderia ainda possuir na proteção divina à sua gente se extinguira quando Lampião, com seu bando, fora emboscado e morto no sertão.

Se ainda rezava tanto, era pedindo perdão tanto por seus pecados quanto os de seus companheiros – ajoelhados em linha ao seu lado.

Finda a prece, todos se levantaram e checaram seus bornais. Os sobretudos cedidos pelo Exército ainda acomodavam-se mal sobre seus corpos, parecendo inchados sobre todo o amontado de cantis, cartucheiras e bolsas presos aos seus troncos pelas cintas cruzadas sobre o peito. Aqueles casacos fechavam-se até seus pescoços e com isso também cobriam os lenços que insistiam em usar, dando a impressão de cada um ter uma papada enorme embaixo do queixo. Os "pracinhas" com os quais tinham cruzado, como eram chamados os volantes recrutados agora para dar cabo dos alemães ao invés deles, haviam por isso os apelidado como "Galos de Briga".

Zé de Deus, no entanto, preferia a denominação que o general Mascarenhas de Morais lhes dera quando pousou seus olhos sobre eles em seu gabinete...

"Os Doze Conjurados".

Tão logo Lampião e Maria Bonita tombaram para a emboscada dos volantes na fazenda Angicos, assim como alguns de seus melhores pares como Elétrico e Mergulhão – ceifados pelas mesmas metralhadoras que se tornaram carrascas do cangaço e que agora os alemães também usavam contra eles, entocados em seus esconderijos feito tatus – a situação ficara clara: os tempos dos fora-da-lei no sertão tinham chegado ao fim. Ou os cangaceiros se entregavam às autoridades de livre vontade, pelo que até receberiam perdão por seus crimes, ou continuariam a ser caçados feito bichos – como ocorrera com Corisco, em quem alguns ainda depositavam a esperança de ser um novo Lampião, emboscado nos confins da Bahia. Entre a cruz e a espada também se encontrara o bando de Zé de Deus, com seus outros onze cangaceiros...

...acampados, no dia fatídico da morte de Virgulino, a poucos quilômetros da fazenda Angico, onde Zé de Deus pretendera se encontrar com o lendário cangaceiro naquela mesma manhã, se não houvessem sido impedidos pelo ataque dos volantes.

Teria, ao menos uma vez, Deus realmente fechado os olhos para as faltas de seu bando e os livrado da perdição?

Embora muitos dos companheiros jurassem que acabarem poupados do massacre era prova suficiente para afirmar ser Zé mesmo "de Deus", tinha consigo que o Criador reservara a eles a pior provação...

Vagaram pela caatinga durante meses, estado a estado, decidindo o que fazer. Cogitaram resistir como Corisco, não ceder ao governo e aos volantes, porém tinham os corpos já quebrados e as almas caminhando para a mesma condição a cada passo de suas sandálias pela terra ressequida. Foi na capital alagoana que se entregaram, humilhados pelo destacamento policial entre injúrias e cuspidas, embora nenhum homem fardado ousasse lhes encostar a mão.

E foi desses mesmos homens fardados, embora com mais divisas no uniforme, que descobriram que no caso deles a simples rendição às autoridades não bastaria.

Enquanto os cangaceiros travavam sua própria guerra no sertão, alheios a tudo que ocorria para além das fronteiras daquele mundo seco e ríspido que habitavam, o restante da humanidade também se entrincheirava em bandos e cobrava dívidas de sangue...

Um político nervoso de bigode curto tomou o poder na Alemanha e se declarou superior a todos os homens da Terra, lembrando a Zé de Deus o caixeiro-viajante loiro que se tornou seu padrasto quando criança e que não queria ver menino preto dentro de casa, fazendo a própria mãe abandoná-lo. Do mesmo modo o povo alemão acreditara na conversa de seu novo líder e começara a atacar outros países, inclusive afundando navios do Brasil com submarinos, barcos que navegam ocultos embaixo d'água – prodígio milagroso que o Magnânimo, cangaceiro mais velho de seu bando, vinha querendo ver desde que dele lhe falaram pela primeira vez, e ainda não tinha conseguido mesmo depois de viajarem à Europa.

Frente os ataques dos alemães, o mundo se organizou. Os Estados Unidos – um dos poucos países de fora do qual se ouvia falar no sertão, tanto pelas bugigangas dele importadas nas capitais, quanto por seus filmes e suas armas – quem diria, veio à caatinga e construiu uma base ao lado de Natal, onde poderiam pousar seus aviões carregados de bombas e soldados antes de sobrevoarem o mar até a guerra. Se um dia uma cidade potiguar chamada Mossoró, mais ao norte, resistira ao bando de Lampião, o mesmo povo não conseguira resistir à vontade dos tais americanos...

Acontece que, como os homens fardados lhes explicaram junto às suas celas, o Brasil não se comprometera apenas a permitir a tal base para os americanos. Eles enviariam soldados para o outro lado do mar, na Europa, que ajudariam os americanos a bater os alemães. E, sabendo da fama violenta dos cangaceiros, queriam alguns deles participando da guerra em ataques difíceis demais para os soldados comuns, degolando os inimigos da pátria ao invés dos volantes e moradores da caatinga. Em troca ganhariam a desejada "anistia", o perdão do governo; e gordas pensões em dinheiro até o resto de suas vidas. Tudo assinado em papéis oficiais pelo próprio presidente do país, a quem chamavam "Pai dos Pobres", tão logo pisassem de volta no Brasil depois do dever cumprido na terra estrangeira.

Caso recusassem a oferta, teriam o mesmo fim que Corisco.

Após a viagem de semanas num navio, quando pela primeira vez a água tomou o lugar da terra árida naquilo que os cercava de todos os lados até se perder de vista, chegaram à Itália. Deram-lhes sobretudos para resistirem ao inverno europeu, os quais aceitaram – embora Zé de Deus imaginasse se a rigidez de seus corpos, adquirida em anos de cangaço, não seria suficiente para lidarem tanto com o Céu quanto com o Inferno. Quiseram armá-los com rifles novos dos americanos, os tais "M1 Garand", mas mantiveram suas carabinas Mauser, infalíveis em suas mãos por mais que lhes insistissem serem do século passado. Tentaram substituir seus chapéus de couro e testeiras por capacetes de soldados, alegando segurança; porém se recusaram a entrar em combate sem as medalhas e estrelas neles costuradas, devotos de sua própria superstição. Só não tinham tentado impor sobre eles algum tipo de disciplina ou código que não cabia aos cangaceiros. Soltos atrás das linhas inimigas, os governantes do Brasil queriam que fizessem aquilo que sabiam de melhor. A violência do agreste sem dúvida era conveniente se não direcionada contra si mesmos...

E Zé de Deus, dia após dia, questionava-se se valia mesmo a pena continuar praticando-a, por mais que fosse a última vez.

Regato, que havia se afastado do bando após a oração, fez um sinal aos demais da borda do penhasco cercado de pinheiros de onde se podia ter uma visão ampla dos arredores. Zé de Deus e mais alguns caminharam até o companheiro, botas afundando na neve enquanto os olhos se perdiam na imensidão branca, vagas lembranças em mente dos dias em que suas perneiras conseguiam protegê-los dos espinhos das plantas da caatinga –suficientes para abrir caminho sobre a terra rachada, porém firme, do sertão.

Ao fim do trajeto de passos em falso e cobertura escorregadia, Zé de Deus, tendo Touro de um lado e Alazão do outro, viu Regato apontar para uma fileira de pequenos pontos percorrendo o lençol de neve sobre uma colina próxima, tendo acabado de deixar um braço de floresta e se esgueirando por entre as árvores. Pareciam formigas entrando num saco vazado de açúcar, torcendo para não serem pegas.

- Tinha perdido o rastro deles na noite passada, mas lá estão... – o batedor do bando afirmou orgulhoso, a visão mais aguçada do que qualquer binóculo poderia proporcionar.

Zé de Deus assentiu e sorriu. A patrulha alemã que espreitavam há dias por aqueles arredores, os soldados inimigos esfarrapados andando em círculos enquanto aguardavam resgate sem saber estarem sendo seguidos – feito um destacamento de volantes que nunca antes havia pisado no agreste. A cada hora ficavam mais exaustos e lentos, facilitando uma emboscada por parte dos cangaceiros.

A dita patrulha que possuía a informação que o comando de guerra tanto queria.

- Fiquem preparados – Zé de Deus apanhou sua carabina passando a alça por cima do sobretudo e da cabeça, já levando a outra mão instintivamente às cartucheiras em torno da barriga. – Vamos cercá-los naquela estradinha de terra ali embaixo, que vimos ontem.

Qualquer homem temente e conhecedor da Bíblia, no sertão ou na cidade, sabia o quão vingativo Deus podia ser contra seus filhos, ainda mais quando se desviavam de seus caminhos.

Tendo o Todo-Poderoso em seu nome, Zé de Deus esperava poder ao menos aplicar uma pequena parte de sua justiça sobre os alemães, tão logo surgissem diante da mira de sua Mauser.

16 de Junho de 2020 às 01:15 0 Denunciar Insira Seguir história
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