sweet-mary Mary

Pensamentos aleatórios sobre, por pelo menos um dia, não ter de pedir desculpas por existir.


Histórias da vida Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sexualidade #feminismo #homem #mulher #opressão #liberdade #machismo #autobiográfico #carta-desabafo
Conto
0
1.0mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Curitiba, 15 de junho de 2020.

Nunca fui adepta de seguir essas modinhas de Instagram, sempre tive certo receio de me ver como um cara, mas a verdade é que gostei mais de mim na versão masculina e não só porque a brincadeira do aplicativo me foi mais gentil do que o espelho.

Minha mãe sempre teve certeza de que eu seria menina, nunca pensou num nome caso o ultrassom revelasse uma surpresa. Um fato é que eu nunca gostei do meu nome porque não acho a combinação legal, verbalizado, soa reprimenda e não tem apelido fofo. Notem que nenhuma Carolina é chamada de Carolina, é sempre Carol. Gabriela, Gabi. Bruna, Bru. Beatriz, Bia.

Se eu me chamasse Mariana não odiaria meu nome. Mariana é mais bonito que Maria Alice, né? E quem sabe eu tivesse mais sorte na vida...

Uma observação eu faço: ser mulher é um castigo.

Não, não é só porque minha beleza não está nos padrões, não sou a poderosa que escolhe a dedo com quem quer ficar e não posso viver minha sexualidade com liberdade, porque não sou reconhecida como escritora, preciso provar meu valor sempre, pedir licença para existir, ter minhas opiniões — quantas eu calo para ser suportável — e ninguém sabe o quanto é doloroso reprimir meus desejos, saber que nunca poderei andar sozinha na rua de vestido, short, saia, pegar um Uber porque terei medo de não voltar viva, sair à noite é pedir para morrer.

Parece bobagem, mas eu me escondo porque odeio postar uma selfie e já ser abordada por algum macho escroto que nem sei de onde desembocou, acha que só porque estou solteira que sou obrigada a aceitar assédio disfarçado de elogio, sendo que minha arte é tratada como algo que eu não seria capaz de produzir porque seria um conteúdo bom demais para ser criado por uma mulher e não passasse de uma brincadeira boba, algo sem relevância alguma.

Quando eu era criança, amava Mundo da Lua porque eu tenho meu jeito de Lucas, sou filha do meio, geniosa, questiono tudo e vou tirando minhas próprias conclusões. Sou grande, mas volta e meia ainda assisto a série e hoje peço emprestado o gravador do Lucas.

Estimados amigos, vou contar como seria a vida de Edu.

Filho do meio, seria o segundo menino, gostaria de assistir Chaves, tomar sorvete e brincar na água, já seria flamenguista desde o berço e assistiria aos jogos na televisão com o pai, talvez até arriscasse no futebol, não sei se teria a aptidão do progenitor, porém gostaria de acompanhar copa, olimpíada, pan-americano, o que tivesse.

Que boneca da Eliana o quê! Edu amaria um Tamagotchi ou quem sabe um PlayStation, um Super Nintendo, ainda que tivesse de correr sexta-feira bem cedo para pegar as melhores fitas lá na locadora porque do contrário, se chegasse no final da tarde, só teria o jogo do Beethoven.

Ele ajudaria a irmã mais nova a zerar o Super Mario World, jogaria Donkey Kong com ela, lutaria com o mais velho no Street Fighter e no Mortal Kombat, nada como uns bons macetes para aproveitar bem o jogo.

Edu não seria excluído nos grupos de conversa na escola porque não o pressionariam a falar de garotas e perder o BV na quinta série porque estaria ocupado demais completando sua coleção de tazos, curtindo os jogos do Flamengo, passeando de skate na pracinha e curtindo Raimundos, Charlie Brown Jr e não precisaria assistir a novelas infantis para ter assunto no dia seguinte e nem forçar crush por alguma atriz ou personagem do referido folhetim, não se sentiria inferior aos garotos da televisão porque lhe interessaria mais curtir clipes na MTV, filmes de terror, esportes e passaria pelas turbulências da puberdade, porém sem carregar tantas cicatrizes.

Edu não menstruaria nem sentiria cólicas, não sentiria a dor dos seios crescendo, nem a lástima de ser a última a ficar mocinha, ser pressionada a beijar na boca para não levantarem suspeitas sobre a sua sexualidade, nem sofreria por ter de se depilar frequentemente, não se sentiria virado do avesso em virtude das alterações de humor causadas pela TPM. No máximo, teria algum problema até aprender a fazer a barba...

As meninas na escola notariam que Edu era um garoto bonito. Ele seria o galã da turma e seu senso de humor atrairia pessoas porque todos gostariam muito de estar ao lado dele, que seria membro da Turma do Fundão e estaria sempre a brincar, fazer bagunça e conseguiria ser um bom aluno.

Edu cresceria, conheceria seus desejos, os exploraria sem receio do toque porque um garoto se tocar não é motivo para críticas, uma garota que se comporte da mesma forma é censurada.

Você se lembra de quando era criança, tocava na periquita e algum adulto lhe repreendia?

Ainda pequena ouvi coisas que não entendia e, na minha inocência, tudo aquilo passava despercebido porque eu só obedecia, nunca me sentava no colo de outro homem que não fosse meu pai, fechava as pernas porque mocinha tem que ter modos, usava shorts quando saía de vestido, se bem que por boa parte da minha infância usei roupas doadas e a maioria era de menino. Fui precoce em algumas coisas sim, do meu jeito. Por exemplo, quando estava com oito anos lutei muito para convencer meus pais a me deixarem usar batom e eles concordaram porque eu ganhei um cintilante desses de farmácia e me sentia linda, maravilhosa, uma deusa.

Com 10, comecei a usar desodorante e, sim, quis meu primeiro sutiã (porque me iludi com aquele clichê de filme norte-americano de que a adolescência é legal, divertida e tudo termina bem no final), só que meus peitos de verdade cresceram para valer aos 15, antes disso eu era uma tábua.

Hoje tenho discernimento para concluir que o cara era um pedófilo, mas no segundo ano do ensino médio eu não era a gostosa, a preferida dos meninos e passava despercebida, eu reprimia meus pensamentos lésbicos porque nenhuma menina do meu convívio gostava de outras meninas, eu me censurava, embora tenha visto Amigas de colégio e sempre sentisse uma espécie de calorzinho no coração quando via duas meninas juntas, algo raro e tabu em meados da década de 2000.

Se me perguntarem, não, eu não sou a Tita. A personagem mais parecida comigo na adolescência é a Lola, de Um minuto para o fim do mundo.

Agora sim... eu já estava com 15 anos quando choveu no percurso de volta para casa e eu fiquei toda molhada porque estava sem guarda-chuva, nisso passou uma caminhonete e um cara que devia ter uns trinta e poucos anos buzinou e me chamou de delícia porque minha camiseta encharcada ficou grudada no corpo e ressaltou bem meus peitos grandes e a cintura fina. No dia, achei que foi um puta elogio, que se os moleques de merda da minha sala me ignoravam, os mais velhos me chamavam de gostosinha, delicinha, sabiam valorizar quem eu era e por aí vai... eu não sabia que isso era uma forma de assédio e que meu valor não estava atrelado a assobios e buzinadas!

No meu coração nunca houve essa maldade de ver uma criança e pedir para ela me acariciar ou tentar algo com ela porque eu desejo que todas elas tenham o privilégio de serem crianças e felizes também, porém, infelizmente tem pessoas com distúrbios mentais sérios (ou seriam criminosas mesmo?) que machucam seres inocentes sem nenhum remorso, contudo, voltando à questão abordada lá em cima, sobre masturbação, siririca, o nome-que-você-quiser-atribuir... o problema não é a menina se tocar, é preciso ensinar a essa menininha que NINGUÉM pode tocar na genitália dela sem consentimento, NINGUÉM. Temos que parar de alimentar essa cultura de que a guria "estava pedindo".

Por acaso uma menininha de quatro anos que foi molestada pelo padrasto, usando um shortinho da Peppa Pig e uma camisetinha da Minnie Mouse estava "pedindo"? Repense aí...

O CORPO DE UMA MULHER NÃO É A MAÇANETA DE UM BANHEIRO PÚBLICO. Em caixa alta. Frase para estampar outdoor com luz de LED. Não é papo de feminista chata, quiçá pense você, com suas ideias retrógradas, é a realidade. Desde criança a menina é ensinada a temer e o menino não é ordenado a respeitar, tem alguma coisa errada aí...

Fazendo a digressão que certa "crítica" odiará, como um cara pode exigir uma mina quente na cama logo de cara se ele não tem pegada, consideração, carinho, só pensa nos próprios desejos (para não utilizar um linguajar mais chulo)?

Aquela mulher que você reclama de ser fria é uma menina cujos desejos foram castrados logo cedo, que sempre sentiu muito medo deles, que foi ensinada a se guardar por questão de dignidade, como se um pedaço de pele que ninguém vê indicasse a grandeza do caráter de alguém. E se ela for segura dos seus próprios desejos, ainda assim, não será o bastante.

Você deveria ficar mais chocada se um cara estiver batendo punheta vendo sua filhinha pequena. Larga essa vida de fiscal de buceta alheia e cuida da sua. Porque seu julgamento em relação aos homens é sempre diferente e você tenta culpar a mulher por tudo, muitas vezes, você é uma e ainda assim não tem empatia, às vezes até se diz feminista e me parece desconhecer o significado de sororidade. E depois ainda insistem que é vitimismo...

Edu se tocava durante o banho ou quando pensava numa moça muito bonita e nunca sentiu culpa, conversava com os caras de boa sobre isso e ninguém punia ninguém, até porque com certeza a molecada dava um jeito de ver o Cine Privé ou pegar uma Playboy emprestada...

Edu cresceu ainda mais, se tornou um belo rapaz e encontrou uma namorada a quem apresentou para a família e sempre foi normal ela dormir na casa dele (o contrário, nem pensar), os dois compartilharam muitas descobertas e ele teve a prerrogativa de decidir quando perder a virgindade, enlevo esse que muita mulher não tem. Ele faria sua própria hora porque teria o dom da palavra, a graça de escolher, nunca precisaria temer um estupro porque se compreendesse bem o significado da palavra CONSENTIMENTO, teria a empatia de se colocar no lugar da amada e refletir se valeria a pena forçar uma situação que poderia deixar cicatrizes profundas na alma dela.

Uma mulher violada sem consentimento carrega esse espinho no peito. Não importa que o cara tenha sido um namorado. A partir do momento em que ela sinalizou que não desejava seguir em frente, se ele tivesse um pingo de humanidade, recuaria.

Edu, sendo filho do meio, aprendeu desde muito cedo a fazer concessões e atina que não tem a menor graça transar com alguém que não está à vontade, então ficou abraçadinho com ela, dormiram de conchinha, viram muitos filmes, até que num belo dia as coisas transcorreram naturalmente e a experiência foi incrível para ambos e com o passar do tempo, o respeito trouxe um tempero a mais para o relacionamento, a intimidade se tornou agradável e aquele momento era tão bom, tão único, tão deles...

Ou ele poderia ser um escroto que viria com aquela conversa manjada do "eu sou homem, tenho desejos" e a namorada não perceberia de prontidão que foi estuprada, acharia que é normal o cara a invadir e querer coisas as quais ela talvez não tivesse interesse em fazer porque depois de certo tempo, só "papai e mamãe" não bastaria, desculpa perfeita para ter uma filial.

Edu nunca teve medo de estudar à noite porque o que poderia temer seria a abordagem de um noiado raivoso que poderia lhe assaltar, jamais ser seguido por um psicopata, ser estuprado, degolado, esquartejado. Mais, se não tivesse carro ou fosse sair para beber, poderia pegar carona com algum amigo, chamar o Uber de boas que não rolaria pergunta invasiva nem qualquer tipo de atitude que machucasse a dignidade, a menos que ele estivesse acompanhado de amigos negros e/ou homoafetivos que sofressem algum tipo de discriminação.

Se Edu saísse por aí sem camisa num dia quente, ninguém o chamaria de vagabundo, puto, vulgar, lhe diria para "se dar ao respeito porque caras 'para casar' não agem dessa forma.". Nenhuma moça fingiria sentimentos só para ir para a cama com ele e depois sumiria do mapa, ninguém trataria a virgindade dele como um fetiche, tirando-a só para ser a primeira, sem ter intenção nenhuma de um relacionamento sério, de um amor recíproco, nada.

Ele nunca seria abordado por stalkers malucas ao postar uma simples foto e nunca precisaria chegar ao ponto de mentir que é comprometido ou partir para o extremo de bloquear o perfil, ter medo de publicar uma selfie ou compartilhar um momento especial porque no máximo receberia comentários dos amigos tirando onda com ele, bem praxe de rapazes.

Edu seria um cara que escreve novelas e poesias desde moço, tem ideias criativas e um lado sensível que quem lhe é mais íntimo conhece. Ele seria respeitado e aclamado, pois teria assegurada a credibilidade e não precisaria temer agressões, plágios, seus versos livres não seriam ridicularizados, mas interpretados com indulgência, ninguém lhe cobraria sonetos perfeitamente alinhados, ele seria considerado um revolucionário pelo jogo de palavras e pelos protestos bastante incisivos contra uma sociedade podre, hipócrita e falida. As heroínas de suas obras seriam estudadas, idolatradas e ele nunca ouviria que seu livro é futilidade, "coisa de menininha", “para adolescente", "muito menininha". O nome dele no título faria quaisquer julgamentos cessarem.

Edu nunca foi convencional e por isso descartou medicina, direito e engenharia, escolhendo jornalismo, curso no qual se formou. Ainda universitário, conseguiria um bom estágio numa emissora de televisão e graças aos seus talentos, seria convidado para fazer alguns pilotos. Em questão de tempo, chegaria à bancada. Sua ascensão não seria uma ofensa, ninguém o acusaria de ter dormido com algum diretor, poderia tecer comentários ácidos e ainda assim ninguém o puniria. Ele estaria de terno e gravata, teria carta branca dos grandes para se comportar como se fosse o dono da razão.

Se alguém puxasse o tapete de Edu dentro da redação, a idade jamais seria um obstáculo, propostas de trabalho nunca faltariam porque seus anos de estrada estariam atrelados à credibilidade, maturidade, competência. Nunca ficaria desamparado.

No outro extremo, ele poderia ser um jornalista medíocre e sem talento, sem carisma, com uma péssima dicção (a exemplo de tantos por aí e a raiva me faria dar nome aos bois), mas seria mais valorizado do que muitas colegas articuladas, inteligentes e que mereciam mais reconhecimento, mais espaço e não o tendo porque precisam o tempo todo provar seu valor, sua dignidade, se fortalecer interiormente para aprender a lidar com as críticas pesadas dos haters, na maioria das vezes homens frustrados que se sentem afrontados em aceitar que uma mulher pode ser bela, inteligente, talentosa, competente, repleta de atitude e, acima de tudo, independente.

Ele seria o mal necessário utilizado para calá-las.

Pior, nem necessário ele é.

Já é de tempo que as mulheres se deram conta (ao menos, algumas de nós) que NÃO PRECISAM DE HOMENS PARA SEREM COMPLETAS E FELIZES.

Uma mulher verdadeiramente poderosa é a dona do jogo, escreve seu final feliz. Ela inspirará as outras se não for silenciada.

É só perceber o quanto uma mulher de atitude incomoda, repare à sua volta, exemplos não faltarão. Eu poderia citar várias mulheres incríveis em suas áreas, algumas na linha de combate, sofrendo inúmeros ataques e outras tantas preteridas, silenciadas de modo sutil, porque uma mulher ter coragem de não se calar perante a opressão de um mundo que ainda precisa evoluir muito é uma afronta àqueles que desejam submissão ou até tentam fingir que não se sentem incomodados com o empoderamento, almejando um protagonismo que não lhes pertence.

Um homem pode ser contra o machismo e procurar se desconstruir, mas ele nunca será feminista porque nunca saberá o que estar na pele de uma mulher, a responsabilidade de ser uma, a dor de saber que a luta por respeito não acaba nunca e em alguns dias parece estar apenas no princípio.

Edu teria muitos amigos. Se tivesse o coração partido por uma mulher, poderia sair para tomar todas com eles ou chamá-los para beber em casa mesmo porque se traísse, a culpa seria da namorada que não lhe deu o que queria e da amante, como se tudo pudesse ser limitado a uma dicotomia pífia e o livre arbítrio não fosse levado em consideração e se estivesse no papel do traído, a culpa nunca seria atribuída a ele.

Edu poderia até ficar solteiro que não seria pechado de encalhado ou incompetente, ninguém o cobraria que se casasse e tivesse filhos.

Se Edu se descobrisse homossexual, apesar do choque inicial da família, a tolerância seria bem maior porque ele não precisaria "voltar para o armário" e ouvir que o Pe. Fulano de Tal falou que homossexuais são anomalias e vão arder no inferno (sendo que esse padre, se não for gay enrustido que tem casos em off, deve ser algum cara frustrado que tomou toco de mulher e foi se esconder no clero para disseminar o ódio, conheço um). Ele ainda seria amado e acolhido na família, não lhe diriam que "não encontrou a moça certa", que "nem toda mulher é safada e trai", que "não se pode generalizar", que "foi uma ideia que ele colocou na cabeça", então entende por que uma mulher que ama outra mulher precisa se assumir e lutar pelo seu espaço?

Sabe por quê?

Porque ela tem duas escolhas: ou se assume e enfrenta a batalha, por mais que sofra muitas perdas ou volte para o armário, forje uma heterossexualidade compulsória e magoe algum cara que não merece para não destoar a estabilidade da família tradicional brasileira (isso existe?). Vamos combinar que a primeira opção é a mais digna porque inferno é não poder ser quem você realmente é.

Os trinta anos de Edu representaram apenas o princípio de um novo ciclo. Momento de celebrar os grandes avanços na carreira e preparar-se para muitos outros, colher os louros de muito esforço. Ele não será trocado por um "novinho" que tira foto sem camisa em frente ao espelho só para mostrar que tem IPHONE, os braços musculosos e torneados, a barriga cheia de gomos. Os primeiros fios brancos lhe conferem charme, encanto, nunca são motivo de chacota e humilhação, até dizem que muitas mulheres curtem caras grisalhos e se porventura ficar barrigudo, é sinal de que está se alimentando bem, trabalhando tanto que não tem tempo para ser fitness.

É sabido por todos que depois de certa altura, a mulher se sente desconfortável em dizer a própria idade porque a sociedade cria um protótipo bastante cruel e opressor de como deve ser a mulher de trinta. Ela deve ser heterossexual, magra, estar casada, ter filhos, muitos carimbos no passaporte, uma casa maravilhosa e ser bem-sucedida profissionalmente.

E se chegar aos trinta e poucos solteira, muitos caras serão legais até você dizer a idade real, te olharão como se estivesse escrito em LED na sua testa: DESESPERADA PARA ARRANJAR MACHO e eles, os fodões que podem se dar ao luxo de escolher, vão preferir uma de vinte ou quiçá vinte e cinco; os parentes nem sequer te cumprimentam e perguntam se você está bem, vão logo querendo saber quando sai o casamento, sobre “os namorados” e você pode até ser uma profissional exemplar na sua área e não será o bastante porque você está deturpando as regras desse jogo sádico, imagine então ser lésbica...

Pior, lésbica e proibida de sair do armário. Lésbica com orgulho, apesar de saber que colorido é só o arco-íris que simboliza o movimento do qual também não pode levantar bandeira. Não porque foi rejeitada por um cara e sim porque desde sempre nunca gostou de rapazes. E então você não vive de verdade, apenas se cala e consente com essa forma opressora de preconceito porque ela é velada, são aquelas palavras que doem, a de que “você não deve se expor”, “você nem experimentou para saber”, “se me ver agarrada com mulher, separa que é briga” (esse último é bem desnecessário, né?) e “depois que eu morrer, você faz o que quiser, mas enquanto eu estiver viva, não vou deixar, me respeite”... mas, e as suas vontades estão em que patamar da sua lista de prioridades?

Certo, você fica dentro do armário, continua à mercê de caras escrotos, sendo chamada de problemática ao desabafar algo que te incomoda e que outras amigas suas também vivenciam na pele, independentemente da orientação sexual. E você não tem com quem se aconselhar. Seu conforto vem através da literatura, cada vez que você toma conhecimento de alguma personalidade que se assumiu. Ninguém parece te entender.

A palavra do padre tem mais peso do que sua alegria, sua liberdade, seu direito de escolher a quem quer amar, a opinião de parentes distantes (e homofóbicos) também são tidas em alta conta. Não te levam a sério, creem que se trate de pilhéria, de uma fase... e que fase mais demorada, não?

Uma mulher sabe o quanto as costas doem no final do dia por causa do salto, as camadas de maquiagem escondem as olheiras de noites longas e choros testemunhados pelo travesseiro. Se ela aparecer com barriguinha, será chamada de relaxada, terá de dizer que "não, não está grávida", se tiver cabelos brancos precoces e não pintar, será chamada de porca, relaxada, bruxa, dentre tantos adjetivos jocosos.

Pior, se ela decide não ser mãe, acusam-na de egoísmo porque “criança é uma bênção” e “ser mãe é a melhor coisa do mundo”, tudo bem, pode ser, entretanto, quem decide se quer ou não ter um filho é ela, afinal, a criança vai crescer no ventre dela, não no seu. E se ela quiser fazer uma FIV, a tal da produção independente, não vai faltar hipócrita dizendo que é uma crueldade extrema colocar uma criança no mundo que nunca saberá quem é o pai biológico...

Pois bem, amore, então me conte sobre as crianças órfãs de pai vivo, daqueles embustes que abandonam suas namoradas e esposas, que pagam uma merreca de pensão e acham que fizeram a sua parte — isso quando cumprem a determinação da justiça?

Porque eu conheço gente que nem sequer sabe o nome do progenitor, não vivo num mundinho cor-de-rosa.

Deixe o moralismo de lado e grite que o seu problema é um casal homoafetivo manifestar o desejo de adotar, isso te incomoda. Penso que talvez sua sexualidade esteja mal resolvida porque uma pessoa segura de si não se importa se dois rapazes ou duas moças estão se amando, se a vizinha namora uma menina, não é da conta dela, que pode por vários motivos não querer ter experiências com alguém do mesmo sexo, mas não invalida os LGBTS ao seu redor e todas as lutas do movimento por respeito, igualdade, dignidade. Assim como branco não pode falar de racismo, hétero não pode determinar o que é ou não homofobia.

Edu poderia dar de ombros a esse manifesto e limitar todos os sentimentos a uma palavra: VITIMISMO. Quiçá por conta de uma namorada empoderada, se descontruísse e repensasse o quão difícil é ser mulher porque desde a concepção até o último suspiro, a luta pela sobrevivência é constante e não admitimos retrocessos.

Edu veio ao mundo como Maria porque essa revolução não será protagonizada por homens.

Só Maria sabe o que é ser Maria.

É só uma brincadeira que na semana que vem ninguém nem vai se lembrar que fez, mas em toda brincadeira há um fundo de verdade e quando me vi sendo um cara, pensei em toda dor que nunca teria sentido se fosse Edu, que, sim, teria seus próprios calvários, mas em certas situações em que me senti completamente desamparada, indefesa, humilhada e fragilizada, ele não viveria ou sentiria menos o impacto porque sem ser vitimista, os homens são muito mais privilegiados.

A lição que fica da minha simplória reflexão é a de que eu não tenho que me dar ao respeito, você tem que me respeitar, gostando de mim ou não, independentemente da minha genitália, da minha orientação sexual, das minhas ideologias porque, acima de tudo, sou um ser humano.

O texto na íntegra está disponível no meu blog, eliminei meu depoimento para a ideia não ficar extensa, mas no geral, eu teria dito muito mais. Foi uma experiência catártica poder botar para fora tudo que tenho calado para ser suportável, mas entendi que não preciso fazer isso, eu posso ter nascido Mary e não Edu, porém não é porque sou Mary que vou me encolher num canto, chorar e lamentar minha má sorte, eu vou fazer uma limonada, quem está servido?

15 de Junho de 2020 às 23:12 3 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

Comentar algo

Publique!
Antónia Noronha Antónia Noronha
O teu conto descreve-se com uma única palavra: BRUTALÍSSIMO! A forma como demonstras que a educação que recebemos influencia a nossa autoestima, o nosso autoconceito, a forma como nos vemos é simplesmente perfeita! Eu não conseguiria encontrar uma forma tão eloquente e lúcida de descrever o papel da rapariga/mulher na sociedade em pleno século XXI. Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, às vezes parece que alguns direitos que são dados às mulheres é uma forma de tapar o sol com a peneira, ou seja, são dados direitos e vantagens que anteriormente eram somente dos homens. Mas no fundo, algum homem estará sempre à frente das mulheres, independentemente de ele ser melhor ou pior. No fundo não são os homens que são "apanhados" a meio da noite, violados e terem pessoas que digam que eles estavam vestidos para provocar. No fundo ele não será assassinado porque se negou a estar num relacionamento com uma rapariga! Adorei muito o teu conto! Espero poder ler muitas mais histórias tuas! Continua o excelente trabalho!
June 16, 2020, 00:02

  • Mary Mary
    Bem-vinda, querida! Meu dia valeu a pena depois de ler seu comentário porque se pudesse levantar para aplaudir, aplaudiria ou inseriria emojis de aplausos, muito pertinente a sua reflexão. Não imaginei que aquela brincadeira de Instagram me faria escrever tudo isso, mas fui olhando a foto, pensando, pensando, pensando em tudo que fui calando. Eu sempre fui mais liberal em relação à virgindade, por exemplo, acho que a mulher deve perder quando se sentir pronta, não tem idade determinada nem nada, quem decide quando e se quer, é ela, não é a sociedade, o clero ou um homem. É a palavra dela. O corpo é dela. Com o movimento LGBT eu estou aprendendo, na verdade, é muito complicado não ter contato com outras mulheres que sejam bissexuais ou lésbicas para tirar dúvidas, digo sobre aquelas que já se assumiram, para mim é complicado ter que fingir que sou hétero quando eu não sou, ficar ouvindo que vai aparecer um cara legal. Na verdade, eu só fui entender o que era consentimento quando um médico que me atendeu me abusou dentro do consultório e mais tarde me estuprou e fez isso só para tirar a minha virgindade. E eu tive que me calar porque quando eu contei a história e me falaram que era estupro, eu escrevi uma carta aberta, ele descobriu, me ameaçou, fez parecer que eu tive culpa de tudo, conseguiu me coagir e tirar a carta, depois sumiu. Depois disso, eu quis entender não só por que isso me aconteceu, mas o que estava por detrás dessa energia ruim toda... ele se prevaleceu da impunidade, sabe que eu não vou denunciar, então está bem tranquilo. Até entender que não importava a roupa que eu estivesse usando, as más intenções estavam no coração dele. Senti como se tivesse lavado a minha alma de tudo que estava guardando para ser suportável, porém entendi que o silêncio só faz doer mais. Se você gostar das minhas histórias, ficarei muito feliz. June 16, 2020, 00:14
  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Mary, só posso dizer que és uma Mulher com M maiúsculo! É horrível termos a nossa liberdade condicionada ou até mesmo retirada! Ainda para mais uma liberdade sobre o teu corpo que só a ti te diz respeito e que todos deveriam ter respeito! Nós, mulheres, só somos livres na teoria, porque na prática ela não existe na maioria das vezes. Também já me senti na obrigação de tentar ser quem não sou. Vivi uma espécie de vida dupla durante quase 10 anos apenas porque tinha medo do que me poderia acontecer ou do que me poderiam fazer. Eu consigo perceber quando dizes que é sofredor não podermos fazer o que queremos. Por mais que tentemos, em algumas sociedades, as mulheres ainda são cidadãos de segunda ou terceira classe. Ainda há quem pense que pode fazer o que quer connosco ou que por pensarmos de maneira diferente, por não pensarmos em rapazes, em nos vestirmos como meninas e em falar em maquiagem somos bichos diferentes e raros! Às vezes penso que as sociedades deveriam levar um restart para ver se não foi um erro de formatação, tal como acontece com os computadores. lolol Fiquei emocionada ao me contares acerca da tua história de vida. Todos estes infelizes e horrendos acontecimentos que te acompanharam tiveram muita influencia ao nível da tua personalidade e da psique. Mas acredito que continuarás a ser forte para levar este barco da vida em frente! Afinal de contas, és uma mulher, e as mulheres por norma, são mais fortes que a destruição de tsunami! ;) June 16, 2020, 00:31
~