shinia Bar-t-t-tender

Fukami adentrava as profundezas de sua própria consciência, se perguntando aonde encontraria o fundo daquele mar frio e escuro. Houve o dia que encontrou, finalmente, e ele sorriu, sabendo que seria o fim. O mar não sorriu de volta, mas ele tentou guardar no peito o último lampejo de gentileza. Ironicamente, o único que permitiu a si mesmo em tantos anos de existência.


Fanfiction Jogos Para maiores de 18 apenas.

#mogeko #fukami #samekichi #deepseaprisioner #funamusea #okegom #wadanohara-e-o-grande-mar-azul
0
596 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Silenciosamente, Fukami se foi

Aquele quarto era escuro mesmo ou as paredes pretas apenas davam a impressão? Não havia tempo para pensar. A prateleira com a foto pequena e as flores estavam visíveis, mas não pareciam exatamente iluminadas por uma luz. Pensando bem, o quarto todo se sustentava assim.

E eles estavam lá dentro. Chorando. Wadanohara em especial. E ela até se esforçava para conter os soluços, mas simplesmente não conseguia. Dos outros, só se ouvia uns poucos murmúrios escapando pelos corpos estáticos fitando a caixa de madeira à frente. Ela nem a olhava, entretanto. Mantinha os olhos no chão, quando não cobertos pelas mãos pequenas. A cerâmica escura distorcia seu reflexo, ela toda se pintava de preto como o resto da sala. Fundia-se ao negrume, o mais barulhento entre eles.

Ninguém a julgava. Entretanto, ela sempre fora a pior juíza de si mesma. Tinha culpa nisso, e mais culpa ainda agora, por pensar na própria tristeza diante aquela caixa escura onde o corpo de um amigo descansava, finalmente.

O descanso que não pôde ter em vida, por culpa do descaso vindo de si e talvez de uns outros, mas principalmente, de si. Era a bruxa do mar. Tinha como trabalho zelar pelo bem-estar de todos, afinal.

Pois bem, não conseguiu nem cuidar dos próximos. Era uma imbecil com mania de grandeza, no fim.

Uma mão grande e quente pousou em seu ombro. Ela a conhecia. Pela primeira vez, dirigiu o olhar para cima.

Samekichi. Ele tinha a expressão pesada e olhos cheios d’água, entretanto, não chorava. Era melhor que ela.

— Você quer sair um pouco, Wada?

Não queria, mas estava claro que seu sofrimento o machucava também. Era sempre assim. Nunca conseguia se afundar sozinha. Sempre levava tantos outros consigo.

Buscou a mão dele. Era grande, meio áspera, boa de pegar. Retiraram-se sem maiores cerimônias. Ninguém falou nada, não houveram olhares de julgamento. Ela sentiu como se o abandonasse de novo.

Sentaram na calçada, meio longe da porta da frente. Algas começavam a crescer naquela parte, Samekichi pisou em algumas sem querer.

— Nós podemos ir para casa, se você quiser. — Propôs. Eles moravam juntos desde o começo daquele ano. Do antigo grupo, só Memoca e Dolphi continuavam morando juntas.

— Não... eu quero ver isso. É o mínimo.

Ele não disse nada. A trouxe para mais perto, só. Era tudo que podia ser feito agora.

É. Fukami estava morto. Estirado dentro de um caixão grande, mais mesmo assim, ainda pequeno demais para ele. Como fizeram para encaixar os tentáculos lá dentro? Samekichi não queria saber. Pensava que deviam tê-lo deixado sem maquiagem. Faziam aquilo para dar ao morto uma aparência de vivo, e isso já era mórbido o suficiente. Ele sempre foi muito pálido, meio cinzento. Ficou tosco, de modo que ninguém aguentava olhar por muito tempo.

Dez minutos depois, Cherry Blond apareceu.

— Vão levar o caixão. — Disse, simplesmente. Ele não era próximo do defunto. Compareceu por respeito ao grupo, apenas.

Samekichi não soltou a mão da esposa em nenhum momento. Ela precisava de ajuda para se manter ali.

Foi uma caminhada rápida, apesar de feita a passos lentos. Já estavam perto do cemitério, mesmo.

Quando a bruxa tirou os olhos do chão, a caixa preta já havia sido fechada. Ela nem o tinha visto no último momento. Teria somente as fotos agora, a maioria de um tempo passado há muito. Compartilhadas com outras pessoas, só uma ou duas dele sozinho. O cabelo curto ainda, roupas claras e rosto com traços ainda em desenvolvimento, tornando-se um homem adulto, apesar da maturidade alcançada desde cedo.

Ela nunca havia questionado o porquê daquele jeito quieto, o falar sem palavras típico somente dele. Pensava ser jeito de nascença, sem a menor relação com algum fator externo. Ele era gentil, mas o tipo de gentileza que esperava as cortinas se fecharem para ser mostrada. Bonito. A maior parte das pessoas se esconde também, mas fazem com as partes ruins, como uma armadilha.

Ela fazia o mesmo. Era falsa também.

A mão de Samekichi a apertou com mais força, como se pedisse calma.

Começaram a jogar terra no buraco recém-aberto. Em breve, não veriam mais nem a caixa que guardava o corpo do amigo. As flores iam de acordo com cada pá de terra. Brancas, amarelas, azuis. Não havia coroas, tais decorações chamativas não faziam o gosto do defunto.

— Eu sinto muito, Wadanohara. — Os visitantes (não poderiam ser tratados por outros nomes. Não nutriam sentimento nenhum pelo morto, estavam lá pelos vivos) falavam com voz comedida. Suas palavras entravam e saíam sem causar efeito algum. Entretanto ela os respondia como se o fizessem. Era ótima em fingir bons sentimentos.

Quando a terra remexida foi assentada, poucos restavam por lá. O coveiro tirou o chapéu, disse o de sempre e se foi também. A noite descia no mar, e as lâmpadas de esponja começavam a exibir seu brilho prateado.

— Deixe o resto da burocracia conosco, Wada. — Dolphi disse. Ela era a mais nova do antigo grupo, e já começava a se transformar em uma mulher crescida. Era especialmente sensível. Tinha os olhos inchados, o rosto marcado pelo choro. — Tente ficar bem.

— Não foi culpa de ninguém, Wada. — Memoca. A mão dela se agarrava na da outra. Tremia um pouco, mas mal se percebia.

A bruxa fechou os olhos por um momento. Não sabia o que dizer.

Mas também não precisou. O marido tomou a fala.

— ... Obrigado. Eu estou disponível, caso precisem de ajuda com os documentos. E tentem ficar bem, por favor.

Memoca deu um soquinho fraco no braço do tubarão. Não falavam mais nada. Um “boa noite” seria ainda mais inadequado para a situação.

Samekichi colocou o casaco nos ombros da bruxa. A mão por cima do tecido. Podia-se ouvir o barulho dos peixes nadando ao longe, graças ao silêncio próprio do local.

Ela ainda tinha uma flor em mãos. Foi até lá, deixou sobre a terra. Era de um branco feio, meio cinzento. Pequena. Fukami não era pequeno. Quando olhava para ele, pensava que se estendia até o céu.

Passou as mãos no rosto. Os olhos ardiam.

— Vamos embora, Samekichi. — Disse baixinho. Não queria incomodar o sono dos antigos.

— Você quer mesmo?

— Sim.

Deram as mãos. Estavam frias. O caminho até em casa era longo, moravam quase no outro extremo da cidade. O grupo estava distante agora, apesar das falsas impressões adquiridas em tardes de café cada vez mais difíceis de marcar.

— Adeus, Fukami. — Despediu-se, finalmente. Antes de ir, olhou uma última vez o espaço levemente iluminado pelas lâmpadas da rua.

Não havia nada por lá.




Notas
De acordo com a wikia, o nome “Fukami” significa “Profundidade”, quis fazer um “trocadilho” de muito mau gosto na sinopse. Creio que consegui.
Eee então, vai ser uma shortfic de uns cinco capítulos, eu acho. Finalizei há um tempo e preciso passar do caderno para o computador e fazer as devidas correções. Ela vai ser narrada de trás para frente, ou seja, em um tempo normal, esse capítulo seria o último e o último capítulo seria o primeiro. Deu para entender? Bem, se não, você vai conseguir entender com o passar da história, caso decida acompanhar. De qualquer forma, não se preocupe.
4 de Junho de 2020 às 20:25 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo Despedida sincera de um colega

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 3 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!

Mais histórias

Photograph Photograph
A linguagem das flores A linguagem das flores
Protect your e-mail Protect your e-mail