dissecando Edison Oliveira

Este vinil é diferente. Com ele, um pai de luto tentará escutar mais do que uma simples canção.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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VINIL



Enquanto minha irmã apertava o meu braço e chorava com a cabeça apoiada em meu ombro, não sabia qual de meus sentimentos possuía mais peso na balança da alma; se era o alívio ou o sofrimento.
Passei os últimos cinco meses viajando quatro horas por dia, com os olhos vermelhos e o corpo mole por conta dos remédios tarja preta que vinha ingerindo. Sabia que aquilo poderia acabar terrivelmente mal, com meu carro capotando diversas vezes pelo acostamento ou colidindo de frente com outro veículo, mas honestamente não havia preocupação. Viajar naquelas condições me colocava diante da morte, em um túnel escuro e úmido, um túmulo em linha reta onde o final poderia surgir diante de meus olhos a qualquer momento. Era mais ou menos assim que a pequena Natasha deveria se sentir. Ela beijava o meu rosto cada dia com menos força, apenas um sopro e um toque com lábios secos e rachados, e eu chorava e ela sempre queria saber o porquê.
— É porque estou me despedindo, — mentia eu, assim como vinha mentindo desde o início dos exames até o maldito diagnóstico conclusivo.
Minha pequena estava no meio de seu primeiro ano letivo, feliz com todas as novidades que a vida começava a lhe apresentar, quando sentiu a dor mais torturante de sua curta vida, algo que mordia a parte de trás de sua cabeça e fugia como um raio até o lado esquerdo da testa, explodindo logo depois. Essas explosões passaram a ser constantes, até o dia em que ela acabou desmaiando na hora do jantar, caindo para o lado e derrubando o prato de sopa. Foi só então que a doença com C passou a fazer parte da minha lista negra de possibilidades.
Ela estava com vinte e três quilos (o peso ideal de uma criança com sete anos), quando saiu de casa levando sua pequena mochila de roupas e um mundo ilusório de esperanças em sua cabeça doente. Durante os primeiros dias, ela teve pesadelos. Coisas assustadoras que seguravam seus tornozelos e diziam que ela nunca mais voltaria para casa, o que, infelizmente, de fato aconteceria. Aquilo me fazia pensar se os pesadelos tinham mais razão do que os sonhos; se eles sabiam da verdade muito mais do que a esperança. Naqueles dias, os beijos que ela me dava já não tinham a mesma magia, eram secos e por vezes gelados. Dizia que logo tudo ficaria bem, que em breve poderia estar em casa brincando com suas bonecas e dormindo abraçada com seu ursinho Toby, uma coisinha de pelúcia que não a acompanhou até o hospital porque este pai aqui estava tão atordoado que não foi capaz de achá-lo.
— O Toby está bem? — ela perguntava, depois tossia e era uma tosse rouca que arranhava minha alma com garras frias como lâminas.
— Ele está, sim. Ontem perguntou por você.
Minha filhinha exibiu um sorriso fraco de dentes amarelos.
— E você disse onde eu estava?
— Claro, — e meu peito pareceu levar um tiro. — Daí ele sorriu e disse que amanhã virá até você. É um urso muito esperto. E preguiçoso também.
— O Toby não é preguiçoso. É valente e esperto para a idade dele.
— Ele encheu a pança de mel e dormiu o dia todo. Se isso não é ser preguiçoso, então não sei o que é.
Outro sorriso, este um pouco mais entusiasmado. Foi o último sorriso que minha filha me deu.
Encontrei o urso naquela mesma noite, enfiado entre outras bonecas em seu baú de brinquedos. Eram quase duas da madrugada quando o telefone tocou. Não sei como conseguir escutar, já que havia empurrado goela abaixo alguns comprimidos para dormir e bebido uma taça inteira de vinho. Ao telefone me deram a notícia, levantei-me sentindo-me leve, uma pena flutuando pelo ar, alguém completamente fora do corpo e da sintonia com a realidade.
Dirigi outras quatro horas, os olhos turvos, a cabeça incapaz de raciocinar qualquer coisa além daqueles fatos. Acho que quase bati o automóvel naquela ocasião. Duas vezes. Então, só lembro da papelada, do choro contido e de um médico estendendo-me a mão e dizendo que lamentava muito.

O caixão era pequeno, uma coisa linda e brilhante, coberto com a toalha cor de rosa favorita dela. Esta toalha foi retirada com cuidado e entregue a mim, por um padre grisalho que segurava uma versão miniatura de uma bíblia.
Dois sujeitos vestindo macacão azul puseram o caixão sobre uma plataforma, e em seguida começaram a retirar todas as peças de metal que estavam presas à ele. O padre grisalho falou por alguns minutos, palavras tão mentirosas quanto as que tive de dizer para minha filha em vida, depois fez o sinal da cruz e baixou a cabeça quando o caixão começou a se mover na direção do incinerador. Dava para sentir o calor da distância em que estava. Minha irmã apertou ainda mais o meu braço e virou o rosto.
Assim que as chamas engoliram o caixão e a porta do incinerador foi fechada, meu corpo foi consumido pelo mesmo fogo, labaredas enormes e alaranjadas que fizeram a minha vida derreter em poucos segundos. Minha dor ardia como brasa, e meu coração borbulhava como em um caldeirão fervente.
Cerca de uma hora e meia depois, tudo foi encerrado e as cinzas de minha garotinha foram me entregue em mãos em uma urna prateada e em formato de caixinha de música. Não deveria ter mais de duzentos gramas ali dentro. Um pó acinzentado, a forma mais poética de descrever a vida e a morte.
Não iria jogar aquilo no mar, ou guardar no cantinho mais especial para ela na casa, — seu quartinho pintado de rosa e com detalhes de flores nas paredes.
Iria fazer o mesmo que fiz com Magali, o canário e até mesmo nosso pastor alemão, Brutus.

Com minha pequena Natasha, faria algo especial. Algo que minha habilidade sabia ser possível, mas que ainda não havia tentado nem tampouco recebido nenhuma oferta para algo do tipo.
Já havia pintado uma tela inteira se utilizando apenas das cinzas de um homem idoso, um sujeito que jamais conhecera em vida, mas que tive de recriar os traços perfeitamente em um fundo branco a partir de uma foto pouco nítida de seu rosto. A neta do sujeito entrou em contato através de meu site, expliquei para ela como funcionava o meu trabalho e fui devidamente pago pelo serviço e amém. Com minha esposa, Magali, me utilizei de uma ideia que há tempos tinha o desejo de recriar, e com seu consentimento em vida, tive o prazer de poder realizar. Magali sempre soube da minha obsessão pelo próprio trabalho, então não foram poucas as nossas conversas sobre como e o que fazer com as cinzas no dia em que o bom Deus decidisse levá-la. Conversávamos sobre aquilo quase todas as noites, claro que sempre comigo iniciando o assunto, depois de fazermos sexo ou papearmos sobre como havia sido o dia um do outro. Natasha estava com apenas três anos e bem distante de sua doença com C quando a mãe foi surpreendida na saída do trabalho por um adolescente armado. Ele levou sua bolsa, seu colar que havia sido dado por mim em nosso aniversário de dez anos de casamento e sua vida, com um único tiro de pistola no meio da nuca. Como acertado em vida, fiz com as cinzas de Magali uma bela aliança de prata que uso em um de meus dedos da mão esquerda até os dias de hoje.
Ela certamente ficou satisfeita com a nossa decisão, e sinceramente creio ter ficado ainda mais com o resultado obtido. A aliança tem o brilho dos olhos dela, e às vezes sentia como se apertasse o meu dedo em dias em que estava deprimido.
Fomos muito felizes em nosso noivado e depois casamento, sentados na varanda enquanto escutávamos o canto suave de nosso canário, algo inusitado e difícil de entender já que as cinzas dele haviam sido transformadas em um poleiro de sua antiga gaiola. Aquele poleiro era embalado pela brisa, e assobiava sempre que o sol nascia. De início causava arrepios, mas depois era como escutar uma canção matutina, o som inconfundível de algo que já havia deixado nosso mundo para trás. Não sei explicar como era este som. E mesmo que soubesse, você não iria entender.
Existem coisas que simplesmente não podem ser compreendidas. A fascinação de alguém por obras de arte macabras, o canto de um pássaro morto ou o porquê de uma criança com apenas sete anos ser levada por Deus tão repentinamente.
Como vê, alguns questionamentos funcionam muito bem quando não se tem uma resposta clara sobre eles.
Assim como escutar os latidos de meu cão Brutus, morto pela velhice e cremado, transformado em uma bela ornamentaria em formato de osso. É um latido forte e saudável que ecoa pela garagem e se perde na escuridão da noite.

Os dias tem sido lentos, pesados e ainda de incompreensão. Às vezes, me pego parado diante da porta do quartinho dela, olhando ali para dentro e esperando que algo aconteça.
Então nada acontece e o aperto no peito surge, forte e parecendo mortal. Quando isso ocorre, caminho até a minha área de trabalho e fico lá, sentado no chão e chorando agarrado nos joelhos. São dias realmente difíceis, dias onde sinto que posso tocar na dor.
Penso (mais de uma vez), em descer até a adega e me embebedar, cair no piso e dormir até esquecer, acordando um dia depois sentindo o gosto ruim na boca e a cabeça pesando uma tonelada. Então levanto e me dirijo até a sala de estar, coloco o vinil no toca discos e ouço o dia todo, o som do nada, apenas um chiado estático baixinho. Ele fica lá, girando e girando sem parar, um movimento circular que em algum momento irá captar a voz da minha menina, sei que vai, pois, as cinzas dela fazem parte daquele vinil.
Apenas duas colheres, vinte por cento de carbono, mas ainda assim a quantidade certa, sei que é. Foi assim com Magali, o canário e Brutus. Será com ela também. Tudo que preciso é ter paciência, agir com naturalidade e deixar que as coisas aconteçam, pois, elas acontecem o tempo todo para aqueles que acreditam e que de alguma maneira possuem fé. O vinil girava durante o dia e atravessava as noites, deixando a casa com um ruído de estática que causava arrepios, mas aquilo de modo algum me incomodava, pois, era assim que seria dali em diante até que pudesse finalmente escutar.
E sabe, ontem pensei ter escutado. Até deixei um dos talheres cair. A mais bela canção para um pai, é escutar a voz de um filho mais uma vez.

4 de Junho de 2020 às 06:21 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Leandro Severo Leandro Severo
A tônica do conto é tão densa e melancólica que quando chegamos nos parágrafos finais é quase impossível não se emocionar profundamente. Criativo e muito tocante.
June 04, 2020, 17:57
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