kalastrias Kalastrias

"Perder alguém que amamos é doloroso. Agonizante ainda na morte. Os japoneses chamam isso de takotsubo: uma corrente triste de ondas elétricas anormais que fazem com que seu coração se esvazie e se contorça até parecer um balde de pesca. Oco e frio. Um recipiente vazio no fundo de um mar abismal." - Blacklist


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#morte #luto #depressão #canon-divergence #mahoutsukai-no-yome #elias-chise #elias-ainsworth #Elias-Ainsworth-Chise-Hatori #Heavy-Angst #Chise-Hatori #Non-canon
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Hurts Like Hell

— Você não está tendo problemas lidando com isso tudo sozinha, Chise? — Simon perguntava da janela enquanto esperava a garota pegar o seu remédio.

— Nenhum, Simon. Eu já fazia isso antes lembra?

— Sim, mas-

— Simon. Estou bem. — Chise disse, lhe entregando o remédio.

Simon curvou as sobrancelhas, sabendo que ela não estava falando a verdade. Se despediu, deixando a garota sozinha.

Chise se sentou abaixo da janela, jogando todo seu peso no chão. Colocou as mãos no rosto, sentindo o nariz doer com a sensação de choro que começava. Era injusto. Era tão injusto que ele a tivesse abandonado.

Não… Ele não havia lhe abandonado. Era injusto pensar isso de seu sacrifício. Tirou as mãos do rosto e observou seu braço esquerdo, totalmente normal e sem maldição alguma. Sentiu as primeiras lágrimas caírem enquanto a visão de Elias sendo consumido pela maldição do dragão passava em sua cabeça.

Como último recurso para salvar Chise da maldição ele mesmo a havia absorvido para si. Convenceu a garota de que daria certo, e que provavelmente seu corpo não sentiria o efeito da maldição, devido a sua natureza híbrida. Chise observou seu corpo entrar em colapso, a maldição consumir sua carne e depois se desfazer em milhares de vinhas negras. Não pode fazer nada, não sabia o que fazer. Apenas o observou sofrer com a dor até o fim.

Havia ficado catatônica no lugar por um tempo que não conseguia se lembrar. Observava fixamente o lugar onde ele estava, sua mente se recusando fortemente a aceitar aquela realidade. Sua mente ficou tão devastada que ela entrou em colapso sem perceber, caindo no chão pesadamente, sem sentir os braços de Ruth envolta de si. Nem tinha consciência de alguém ou algo em volta de si, sua visão estava tão fixa na imagem a sua frente que era a única coisa que se lembrava.

Havia acordado não sabia quantos dias depois, não havia sonhado. Apenas um sono escuro e vazio. Abriu os olhos devagar, olhando para o teto. A lembrança veio a sua mente como um tapa em sua cara, mas ela veio vaga e embaçada, como se fosse algo muito antigo ou uma memória de um sonho. Havia levantado da cama o rápido que suas pernas permitiam.

Seu primeiro alvo foi o quarto de Elias, abriu sem bater observando a cama arrumada. Correu pelo corredor, abrindo todas as portas que haviam no segundo andar. Quando não o achou ali começou a chamar por seu nome, de forma desesperada e entrecortada. Sentindo seu peito arder e sua cabeça latejar. Ruth corria atrás dela, mas Chise não o estava escutando. Correu as escadas, procurando em cada cômodo da casa a presença dele, esperando, desejando, que aquela memória fosse apenas um pesadelo muito ruim.

Conseguiu ouvir seu familiar gritando para ela parar quando saiu para o jardim, correndo descalço ainda de pijama pela grama. Correu todo jardim, e como não achou manchas no lugar onde sua mente se lembrava, adentrou a floresta. Seu peito ardia com a falta de ar por estar correndo há muito tempo, suas pernas formigavam com o recente exercício, seus pés acumulavam cortes por pisar em pedras e galhos com os pés descalços. Ignorava os gritos de Ruth ao seu lado, correndo junto dela.

Chise alcançou o lago que uma vez viu Elias deitado para recuperar o equilíbrio de seu corpo. Queria passar pela árvore e ver o corpo dele adormecido, mas não foi o que aconteceu. Foi a única chance que Ruth teve para se comunicar com ela, Chise havia ficado paralisada, sem saber onde procurar agora.

“Chise.” Escutou seu familiar falar ao seu lado.

Quando ela deu a entender que voltaria a correr, Ruth tomou sua forma de garoto e abraçou a garota para impedir que ela continuasse fugindo. Chise se debateu, gritando que precisava encontrá-lo, até as lágrimas irromperem de seus olhos e fazer suas pernas ficarem bambas. Ruth a colocou ajoelhada no chão e a soltou, sabendo que ela não voltaria a correr. Chise firmou as palmas no rosto com força, com raiva de si mesma, com raiva desse mundo injusto. Seu choro virou uma tosse e depois virou um grito, até sua garganta arder de tanto gritar e ela perder a voz. Por mais ela chorasse com toda a força de seus pulmões, nenhuma fada se atreveu a chegar perto.

Ruth não sabia o que fazer. Mesmo que a maioria das vezes as emoções de Chise, ele apenas estava ciente delas, dessa vez o que ela sentia era tão profundo e tão absurdo que o familiar replicava as lágrimas dela, como ela havia feito um dia com as emoções do dragão. Ele ficou ao lado dela até o choro dela ser apenas um soluço mínimo, sentindo ela agarrar com força seus braços, até ela desmaiar em seu colo.

Quando Chise voltou a acordar, ela não havia saído correndo em desespero. Ela apenas virou na cama e abraçou o urso de pelúcia. Sentindo seu coração mais vazio do que havia se sentido em toda sua vida. Não tinha forças para levantar da cama, e não tinha vontade nenhuma de reunir essa força. Ela não queria estar ali, ela não…

“Chise.” Ruth estava novamente a seu lado. “Você precisa comer.”

Com um vago aceno de cabeça, Chise dispensou a comida. Não sentia fome, não sentia nada. Não queria sentir nada. Queria apenas fechar os olhos e voltar para escuridão do sonho. Não queria sonhar, porque isso seria mais doloroso. Queria apenas o conforto da inconsciente escuridão.

“Eu não tenho mais razões para viver.”

Ruth escutou esse pensamento da garota. Isso o assustou mais que qualquer coisa que já houvesse presenciado em toda sua curta existência. Ele teve ciência de que se não fizesse nada, Chise morreria naquela cama de inanição.

Por dias ele tentou de tudo que pode para tentar fazer a garota comer ou beber água. Chise apenas alternava entre dormindo e virada na cama. Ruth começou a carregá-la e colocá-la na sala, mas Chise não parecia observar nada a sua volta. Até dava banhos na garota e penteava seu cabelo. Ela não expressava nada, nem mesmo proferia uma única palavra.

Chise começou a perder peso drasticamente, até o ponto de começar a afetar Ruth. Em uma das últimas tentativas dele para fazê-la comer algo, ele havia dito de forma muito baixa e fraca.

“Chise, por favor. Ele me fez prometer que cuidaria de você.”

A atenção de Chise foi atraída pela fala do familiar e pelo baque surdo que escutou no pé de sua cama. Abriu os olhos e viu o familiar em sua forma de garoto caído no chão. Se sentiu ainda mais culpada, se vendo causar a morte de outra pessoa perto de si. Curvou as sobrancelhas, sem saber o que fazer.

“Eu não posso deixá-lo morrer por minha culpa também.”

Contra sua vontade, ela se sentou na cama com dificuldade pela falta de força em seus braços e começou a comer a comida pastosa que Silky havia preparado. Se forçou a engolir a comida, até se descobrir faminta até os ossos. Não tinha forças para levantar, então tentou acordar seu familiar desmaiado.

Ruth acordou atordoado, cansado e dolorido, mas sentiu sua mestra. Uma ponta de diferença em sua mestra. Chise mostrou o prato vazio e pediu por mais. Ruth tentou ser o mais rápido que pode, sentindo a fraqueza afetar a velocidade de seus membros. Mas ela estava comendo, pelo menos ela estava comendo. Sondaria os pensamentos dela mais tarde para descobrir os motivos, o que não o animaram nada.

Não enxergava propósito na própria existência, mas não faria seu familiar sofrer. Ruth imaginou o que teria acontecido se não estivesse com ela, afastando as possibilidades o mais rápido que sua mente permitiu.

Depois que havia decidido não causar dor a seu familiar, Chise se sentia em um vazio ainda maior. Tentava não culpar Ruth por fazê-la viver nesse mundo cruel, e isso a deixava pior. Não queria pensar isso do único companheiro que tinha agora. Bem, não estava contando Silky, mas… Ruth entendia melhor que ela mesma esse dilema interno, então não a questionava.

Após se restabelecer fisicamente ela soube que havia recebido visitas de Simon e Angelica, mas Silky os proibia de entrar. Soube que todos já sabiam o que havia acontecido. Chise se deixou chorar, descobrindo que às vezes aliviava a dor constante em seu peito. Mas ainda se sentia incapaz de sonhar, e seus sonhos se dobravam na sua vontade de passar a noite no escuro silencioso da inconsciência.

Chise ficou sabendo por alto que a vila estava precisando dos remédios que preparava, e tentou voltar a sua função. Achou uma grande distração nos encantos e magias, por mais que às vezes escutava a voz de Elias no fundo de sua mente citando instruções e sermões - e isso a fazia se afundar no vazio de seu peito -, mas às vezes sua mente ficava em branco e ela se concentrava apenas no que estava fazendo.

Ruth não sabia dizer se isso era saudável ou não para o corpo dela, mas vendo que ela por poucas horas se esquecia de tudo e se focava em algo que não fosse se sentar e chorar até dormir, decidiu deixar como estava.

Lidava com todos os pedidos, passando a permanecer a maior parte do tempo na forma de garoto por causa disso. Chise não queria ser sociável - apesar de trocar poucas palavras quando entregava as encomendas - e passava o tempo enfurnada em seu quarto ou na biblioteca, rejeitava qualquer visita de conhecidos. Sabiam sobre o que queriam falar, e ela não queria conversar sobre. Sempre que sentia que ela estava mal, parava tudo o que estivesse fazendo e ia até ela, se sentava ao seu lado na forma de cão e deixava que ela o abraçasse até se cansar.

Por mais que Chise tivesse voltado a trabalhar com os remédios, não era sempre ela acordava com vontade de fazer algo. Muitas das vezes Ruth a via se forçando a fazer algo e a parava. A saúde mental da garota estava aos pedaços, mas mesmo assim ela se esforçava para não causar dor a ele.

A pergunta de Simon havia feito o peito da garota se apertar até ela se sentir incapaz de permanecer em pé. Chise apertou as mãos nos olhos tentando suprimir as memórias. O choro se transformou em soluço e logo Ruth estava ao seu lado. Apertou os pelos dele quando passou os braços pelo torso do cachorro. Depois de longos minutos, Chise se forçou a cair no sono.

Por se forçar a cair no sono dessa vez, não tinha sido capaz de bloquear os sonhos. Uma única imagem do sonho ficou na sua mente, imagem essa que passou a assombrar o resto de seus dias, os deixando cada vez mais difíceis, fazendo a culpa em seu peito aumentar cada vez mais. A fazendo se perguntar incontáveis vezes se isso poderia ter sido real.

A imagem consistia em Elias dormindo em sua posição usual, e dormindo deitado em cima de suas costas havia um pequeno garoto de cabelos avermelhados.




2 de Junho de 2020 às 05:16 0 Denunciar Insira Seguir história
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Leia o próximo capítulo I Have To Be There... For Him.

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