stelfs Stefany V.

Ela, uma renomada professora de Línguas Clássicas. Ele, um popstar internacional. Ela, uma linguista amante de Grego e Latim. Ele, um guitarrista francês apaixonado pelo que faz. Ela, uma articulada cheio de rotinas e planejamentos. Ele? Somente alguém que deseja viver da sua música. E o que os dois tinham em comum? Nada. A não ser o amor que cultivavam um pelo outro.


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La muse de la musique

Eu olhei pelo vidro daquele extenso corredor, vendo que Deus parecia estar se despedindo do mundo através de um dilúvio. De novo, diga-se de passagem.

Suspirei levemente e fechei os últimos botões da blusa social, atando ainda mais o cachecol em meu pescoço.

Muitas gotas caíam das copas das árvores, se chocando com violência contra a vidraça e se espalhando em uma simetria ordenada. Eu escutava o barulho contínuo e ininterrupto do temporal que despencava sem pudor sobre as folhas, o teto e o próprio vidro, criando sons de diferentes consistências e brincando com os meus sentidos de uma maneira inigualável.

Subi a alça da minha bolsa em um dos ombros e ajeitei os livros entre meus braços com cuidado e paciência, em um malabarismo que invejaria qualquer artista circense. Ao longe, alguns alunos voltavam para a casa sob suas sombrinhas e a penumbra da noite.

Olhei mais uma vez para aquela cortina vívida e esbranquiçada que se fechava sobre quem quer que seja e imaginei como chegaria ao meu destino sem ser alcançada por ela. Mais um suspiro, enquanto eu atravessava as portas de entrada do campus, ainda protegida pela marquise do lugar, quando eu o vi.

O isqueiro foi apagado com um mover de dedos. E um sorriso enviesado atravessou o canto de seus lábios. Ele tirou o cigarro da boca, enfiando-o de qualquer jeito no bolso.

Encostado na parede de maneira rebelde, ostentava seu jeans rasgado nos joelhos e a jaqueta de couro preta cinturada. Se ergueu, colocando as mãos nos bolsos e vindo em minha direção. A camisa preta de sua banda preferida, contrastava com a xadrez vermelha e aberta que trazia sobre esta. O sorriso, naturalmente atraente, era sustentado em sua boca, à medida em que caminhava em minha direção.

Respondi àquele gesto insistente e voraz com outro, simples e intimidado. Mantive meu olhar sobre o seu, levando meus cabelos para trás da orelha em uma atitude imperceptível e inconsciente.

Tristan.

Esse idiota tinha sempre o poder de me fazer parecer ainda mais idiota do que ele. Se aproximou, devorando o meu olhar com o seu.

— E então, — sua voz grave e vibrante atingiu meus ouvidos e irresistivelmente sorri — Como está minha musa? — Usou o último apelido que havia me dado, tentando pronunciá-lo em um grego arcaico mau feito e eu ri.

Simplesmente adorava quando ele tentava se incluir no meu mundo.

A palavra surgiu entre nós quando em uma derradeira madrugada, Tristan me surpreendera em uma de suas voltas repentinas e eu recitava poemas em grego enquanto apurava minha leitura. A sala se encheu de sua gargalhada rouca e rosnada. E em instantes, fui beijada sem ao menos ter a possibilidade de me defender. Meu exemplar de Homero foi ao chão e nada mais fez sentido depois daquilo.

— Ainda tá traduzindo esses negócios esquisitos? — Olhei para cima, o livro erguido sobre meu rosto com as duas mãos e o encontrei olhando para mim e o exemplar ao mesmo tempo.

Com o braço amparando minha cabeça, ele mexia em meus cabelos automaticamente, enquanto permanecíamos deitados de cabeça para baixo na cama, nus, e sem a mínima vontade de sairmos dali.

— Estou. — Dei-lhe uma resposta curta e satisfatória — E não é um negócio esquisito, é uma língua tanto quanto o seu francês. — Comentei com diversão na voz e um riso solto nos lábios.

— Ah, é? — Ele grasnou com uma gargalhada debochada — Olha só pra isso. — Apontou uma palavra a esmo no meu exemplar e eu o olhei.

— “Muuza”. — Li, entoando toda a fonética que a língua pedia — Musa. — repeti em português, olhando para Tristan novamente — Elas que são responsáveis pela inspiração do poeta. — tentei lhe explicar — Na verdade, são elas que recitam os poe-

Seu braço me estreitou contra ele com uma rapidez incontrolável. E Homero, mais uma vez, foi ignorado. Tristan abriu seu sorriso cheio de segundas intenções.

— “Muza”, hum? — Tentou pronunciar em um sussurrado grave e suspenso, roubando meus lábios.

E desde então, ele a adotara como um vocativo carinhoso.

— Ela passa bem, obrigada. — Respondi à sua pergunta com uma resposta de igual valor e um riso a brincar entre meus lábios — Melhor agora.

O vi vencer a distância que havia entre nós e deslizar seus dedos pelo meu pescoço, emaranhando-os entre as mexas de meus cabelos. Riu desmedidamente, de uma maneira deliciosamente sedutora e me puxou contra seus lábios. Mas o venci, colocando minha mão entre nós. Ele se tornou sério e confuso, olhando-me com estranheza.

— Aqui não... — sussurrei incerta e temerosa, meus olhos ainda recaindo em seu rosto tão perigosamente próximo do meu.

Ele sorriu com escárnio e diversão, tornando o meu desespero concreto e real quando o senti aproximar sua respiração de meu ouvido e dizer em um tom baixo:

— Seus alunos fazem coisas piores, musa. — Tocou meu pescoço com seus lábios, subindo por ele e meu maxilar, encontrando-me em um beijo abrasador.

Esse era Tristan. O homem pelo qual havia me apaixonado e com o qual eu havia me casado.

O caos em meio à minha ordem. O incerto entre as minhas tantas certezas. A impulsividade ante meu retraimento. O furacão das minhas calmarias.

Era ele.

Que me arrancava das minhas estruturas. Das rotinas milimétricas e programadas dos meus dias. Das articulações e planejamentos. Das gramáticas, linguísticas e literaturas. Do meu espaço cômodo e delimitado.

Tristan revirava minha vida. E eu, modéstia parte, não lhe impunha resistências.

Me senti ser solta por ele segundos após aquele enlace apaixonado, agradecendo por ser começo de noite e a escuridão, somada à falta de alunos, não nos deixar ser vistos.

E abri meus olhos, encontrando os seus me fitando. Soltei meus dedos da aba de sua jaqueta, que a agarraram inconscientemente no impacto daquelas emoções misturadas com saudade. Ele sorriu à sua maneira indecente e tirou seus dedos de meus cabelos.

— Vamos pra casa?

Aquela frase ressoou dentro de mim, acalentando minha alma. Tristan era guitarrista em uma banda em ascensão. Dono de uma rotina desequilibrada e um futuro incerto. Viajante na maior parte do tempo, entre shows, turnês e apresentações em outros países, principalmente a França, seu país de origem e da banda.

Eu sorri. O sorriso que costumeiramente havia aprendido a esboçar quando ele retornava. Sorriso idiota e ridículo de uma adolescente em plena paixão.

Mesmo que eu seja uma mulher. Mesmo que eu seja uma classicista e professora universitária. Mesmo que eu seja o que for. Quando estou com ele, nada disso parece interessar.

Entre eu e ele, só cabia aquilo que éramos e nada mais.

Concordei com a cabeça e ele me abraçou pelos ombros, me conduzindo para a cortina densa e violenta que despencava lá fora.

— Você está de carro? — Perguntei, parando em um instante e o olhando desconfiada.

— Não, tô de moto. — Retornou com tamanha tranquilidade que tudo que fiz foi rir de incredulidade.

— E você acha que eu vou andar de moto com você debaixo dessa chuva? — Devolvi impetuosa.

— Tá com medo de molhar, gatinha? — Me provocou daquela maneira que ele sempre faz. E sorriu da forma que sempre me irrita.

— Você só pode estar de brincadeira, não é? — Soltei essa frase irônica — E meus livros? — Questionei imediatamente — Catulo, Plauto, Homero, Cícero? Você acha que isso cust-

E não houve mais palavras.

Senti seus lábios sobre os meus, tomando-me de súbito e susto. Essa era sua maneira mais gentil de me mandar calar a boca. E que, inevitavelmente, eu não conseguia resistir.

De todas as gramáticas que eu poderia ter estudado, a de Tristan fora a mais difícil. Uma língua indescritível e codificada. Extremamente estranha e avessa. Ilógica e bagunçada. Sem teorias. Entretanto, de uma beleza extraordinária e expansiva, livre e autônoma. Beleza escondida dentre seus mecanismos intraduzíveis e incompreensíveis. Para uma classicista como eu, apta a lidar com línguas extraordinárias, Tristan era uma aventura particular.

Ele era como uma nova língua: espanta, surpreende, desinquieta, perturba. Até que você a aprenda, a compreenda, a pratique. A ame. E foi assim.

Ele se separou de mim em instantes. Com um sorriso rebelde no rosto. Seu sorriso travesso e atravessado. Sorriso de quem sabia que havia conseguido o que queria. Arrancou a jaqueta dos ombros, tirando-a por completo e a colocou sobre os livros que eu trazia nas mãos.

— Vou colocar seus livros no bagageiro. — Me explicou momentos depois, me segurando pelo braço e me enfiando sob aquele temporal junto com ele.

Senti as gotas gélidas e pesadas despencarem sobre mim, me atingindo com rapidez. Olhava para a frente, vendo as costas dele entre a cortina de água que caía sobre nós. Sua camisa xadrez que, aos poucos, ia sendo manchada pelos tons escuros. Os cabelos negros sendo grudados em sua nuca e a franja que, com violência, era arremessada para trás por ele.

Sorri com essa cena que tantas vezes presenciei.

Nas noites de insônia e cigarro, em que ele se revirava interiormente, sentado no sofá com um copo de Coca, pensando nas composições que faria com as letras que mantinha em mãos. O bloqueio criativo lhe correndo de aflição e as mãos inquietas e frenéticas, que tiravam os cabelos do rosto preocupado e pensativo. Eram nessas noites em que eu, acordada pelas tosses roucas e altas, vinha interromper seu trabalho com um beijo, terminando em noites perdidas naquele sofá, várias composições prontas e um apelido sugestivo: musa.

Tristan parou ao lado da moto e soltou meu braço, abrindo parcialmente o bagageiro e o indicando com a cabeça.

— Bora. — Me impulsionou com essas palavras e seu sorriso canto de boca.

Fui colocando meus livros, um por um, tomando cuidado para que nenhum molhasse nesse trajeto. Quando terminei de organizá-los de maneira que não amassassem naquele cubículo apertado, levantei a cabeça, o encarando.

Ele me olhava com seu olhar vaidoso. Os cabelos parcialmente longos jogados para trás, totalmente encharcados, escorriam por suas camisas, tornando-as tão molhadas quanto os primeiros.

— Pronto. — Disse com um sorriso satisfeito e dobrei a jaqueta em meus braços.

Ele o fechou, trancando logo em seguida.

— Viu? Nem doeu. — Me provocou egocêntrico, destacando o sorriso em seus lábios.

E enfiou a chave na ignição da moto.

— Obrigada por cuidar dos meus homens. — Respondi de maneira criativa e incitativa.

Ele revirou os olhos, tornando suas expressões carrancudas. Ri com liberdade.

— Está com ciúmes dos meus poetas, hein? — Rebati ante seu silêncio.

Tristan deu uma gargalhada desdenhosa.

— Eu? — Me fitou com o rosto incrivelmente altivo e um riso discretamente soberbo — Claro que não, eu sei que sou melhor que esses caras. — Disse com inabalável certeza e escárnio na voz.

Desenlacei um dos braços que amparava o casaco e segurei a sua camisa xadrez com delicadeza e lentidão, distraindo meus dedos com os botões dela. Ele abaixou o olhar para mim e eu ergui os meus em resposta, me deparando com a vivacidade e expressividade daquele olhar. A impetuosidade dos seus olhos negros. E sorri de forma espontânea. E ele correspondeu.

— Eu sei que você é. — Assenti entre um riso e outro. — E é por isso que eu amo você.

Então minhas mãos chegaram ao seu pescoço, arrastando-o para mim no segundo seguinte. Ele se atrapalhou em um primeiro momento, não esperando meu gesto repentino e desavisado. Mas sorriu. Seu sorriso torto. E charmoso. Que sempre despertara minha atenção. Toquei meus lábios nos seus. Senti, então, suas mãos amparar minha cintura e um sorriso despreocupado se soltou de mim para depois o beijo de Tristan me tomar por completo.

Assim éramos nós: cheios de contrastes e incongruências.

Tantas brigas e desentendimentos. Meus medos e suas irresponsabilidades. Minhas inconstâncias e sua espera. Meus padrões e sua liberdade. Minhas gramáticas e sua música. Meus alunos e suas fãs. Minha saudade e sua distância. Meu país e a sua França. Meus silêncios e sua sinceridade. Minha timidez e sua expressividade. Minha tranquilidade e sua raiva.

Saí dos braços de Tristan, encerrando aquele beijo longo e demorado. Ele acariciou a minha cintura logo após, sustentando seu olhar no meu e me beijou a fronte, se afastando. Tirou a jaqueta de minhas mãos, abrindo-a e a jogando sobre meus ombros.

— Vê se veste essa jaqueta pra não pegar um resfriado. — Me advertiu debochado e eu balancei a cabeça.

— Pode deixar, capitão. — Respondi em seu mesmo tom, abrindo um sorriso divertido, enquanto subia em sua moto e o abraçava pela cintura.

Remexi na cama, soltando um murmúrio baixo e abri os olhos devagar, ao mesmo tempo em que meu cérebro parecia processar todas as informações e memórias da noite passada.

Um sorriso escapou de meus lábios.

Seus cabelos negros se espalhavam pelo travesseiro, entrando em um contraste encantador com as costas alvas à mostra. Toquei seu ombro com a ponta dos meus dedos para não o acordar e os deslizei por seu braço. Observava meu movimento com extrema atenção, reparando as inúmeras pintas distribuídas por suas costas. Trouxe-os novamente, os descendo por ela até chegar em sua cintura, onde os emaranhei sob seu braço com delicadeza, enlaçando sua cintura. E lhe beijei o ombro devagar, respirando fundo, me aconchegando em suas costas.

Senti sua mão tocar meu antebraço e puxá-lo com impetuosidade, me fazendo chocar ainda mais contra ele e fechei os olhos com um sorriso espontâneo e discreto. Minha cautela não havia servido de muita coisa, afinal.

Então, meu celular tocou.

Soltei um resmungo baixo e Tristan, uma pequena risada. Retirei meu braço de sua cintura, me virando com agilidade na cama, escutando o barulho ininterrupto do aparelho. Estendi meu braço, alcançando-o no criado mudo e encarei sua tela. Era meu orientador. Atendi-o de imediato, saindo da cama em um atropelo, enquanto puxava meu hobby do chão, me pondo de pé.

— Bom dia, professor.

Iniciei a conversa e uma caminhada pelo flat, andando sem rumo, ao mesmo tempo em que tentava me cobrir devidamente, falhando ao perceber que parte do ombro ainda ficara descoberto.

Senti o chão gélido sob meus pés descalços, junto com a brisa matinal, que castigava meu corpo, trajado apenas pela fina camada de seda, que cá entre nós, nada ajudava para dispersar o frio.

— Não, não, se preocupe com isso, eu compreendo.

Amparei o aparelho no ombro, juntando meus cabelos com as mãos e os prendendo com desajeitada habilidade. Parei por alguns segundos, enquanto finalizava o penteado em um coque embutido. Me escorei na bancada, tomando novamente o celular em minha mão e cruzando o outro braço no meu suspenso.

— Claro, acredito que eu possa fazer isso.

Lancei um olhar para a cama ao virar meu rosto. Tristan ergueu a cabeça parcialmente, o rosto um tanto confuso e sonolento, voltando a se largar no macio do travesseiro. Tal qual um cachorro carente e abandonado. Dei um risinho engraçado e divertido, colocando a mão em minha testa e voltando a encarar o chão e meus próprios pés.

— Posso tentar começar o mais rápido possível, assim não teremos complicações.

Escutei um barulho vindo da cama e me voltei mais uma vez para lá. Ele caminhava em minha direção, se espreguiçando e passando a mão pelos cabelos. Seus olhos recaíram sobre mim e apenas sorri. Vi seus lábios se espaçarem em seu sorriso cotidiano. Aquele, meia boca e atraente. Ele se aproximou de mim, seus olhos analisando toda a cena e o contexto.

— Claro.

Senti-o tocar minha cintura com uma das mãos, enquanto a outra repousava sobre meu pescoço. Ergui meu olhar e o encarei de maneira tranquilizadora. O enlacei igualmente pela cintura, trazendo-o para ainda mais perto de mim. Ele aproveitou essa deixa para fazer aquilo que faz de melhor:

Me provocar.

E acariciou meu ombro, trazendo junto a seus dedos, os lábios. Olhei para o lado em um olhar assombrado, acompanhando aqueles movimentos. Ele iniciou uma caminhada pelo meu pescoço e o repreendi com severidade, tentando, inutilmente, diga-se de passagem, fazê-lo parar.

— Dominique? — Escutei a voz do outro lado da linha.

— Sim? — Respondi de prontidão, olhando de soslaio para Tristan — Desculpa, estava... conversando com meu esposo.

Quando escutou meus argumentos sutis, Tristan riu divertido e debochado. E me largou. Balancei minha cabeça em desaprovação e ele escancarou seu sorriso com uma satisfação ímpar no olhar. Um beijo rápido me foi dado, entre uma explicação e outra do orientador e o vi se afastar de mim, caminhando na direção do banheiro.

Deitei a cabeça em meus próprios ombros e fechei os olhos, soltando um suspiro rápido.

— Eu compreendo...

Escutei o chuveiro ser ligado. E olhei para o banheiro, percebendo que a porta estava aberta. Um riso divertido se desprendeu dos meus lábios.

— Obrigada por ter ligado e me avisar.

Para Tristan, parecia não existir portas. Nem as interiores, nem a exteriores. Deixava-as todas abertas, escancaradas, em uma liberdade inconfundível e natural.

— Tenha um bom dia também, professor.

Encerrei a ligação. E deixei o celular sobre a bancada. Outro suspiro se desprendeu de mim e instintivamente meus olhos foram até aquela porta aberta. Me desencostei da bancada, iniciando passos lentos e pensativos, caminhando pela sala, indo ao encontro do banheiro. Me aproximei do batente da porta e toquei meus dedos nele.

— Querido? — Chamei com a voz baixa.

— Hum? — Escutei sua voz vinda de dentro.

Amparei minhas costas no batente e encarei o fundo do banheiro.

— Meu orientador me ligou para dizer que minha tese tem alguns pontos que preciso consertar antes de enviá-la para o Congresso. — Disse reticente.

Escutei o barulho do box se abrindo.

— O quê? — Ele rebateu em um tom alto.

Ri com sua impulsividade, abaixando a cabeça e balançando-a com diversão.

— Eu precisarei rever alguns pontos na minha tese hoje antes dela ser enviada para o Congresso. — Repeti a frase.

— Tá. — Me devolveu uma resposta única.

— Está...tudo bem para você? — Perguntei um tanto incerta, olhando para o teto do banheiro e enfiando as mãos sob meus quadris.

— Por que não estaria? — Ele rebateu com sua sutileza que não precisa de respostas.

E escutei o box ser fechado.

Suspirei lentamente e senti o ar se esvaindo de dentro de mim com calmaria e lentidão. Fechei os olhos. A grande verdade era que Tristan voltaria para a França em dois dias.

E por mais que a lógica me empurrasse para meus estudos, sentia as emoções me atirarem contra ele. Me revirava entre o que parecia mais certo e óbvio e o que me era mais desejável e necessário.

A minha vida não sabia parar, mesmo que ele estivesse aqui. Rotina, alunos e dissertação... Grandes malabarismos entre uma aula e outra, os estudos e a pesquisa, as reuniões e o orientador. Ele era o respiro em meio à minha costumeira organização. Que eu amava. Tanto quanto ele. E assim, entre madrugadas perdidas com conversas e risadas, manhãs sonolentas e duchas frias, passeios de motos e almoços, eu havia sobrevivido.

Hoje, deveria ser diferente. Mas, inevitavelmente parecia que não.

— Musa? — Tristan me chamou.

E só então havia percebido que estivera no mesmo lugar todo esse tempo. E nem tinha reparado que o box fora aberto mais uma vez.

— Oi. — Respondi, voltando-me para ele e o encontrei com o rosto para fora.

Um sorriso se formou no canto de seus lábios.

— Vem cá. — E me pediu.

O olhei desconfiada e me desencostei do batente da porta, caminhando em sua direção.

— O que foi? — Parei defronte ao box.

Ele expandiu seu sorriso torto e não houve explicações para os próximos segundos.

Senti meus braços serem puxados com velocidade e meu corpo apenas obedeceu à inércia. Um grito agudo e assustado saiu de meus lábios e fechei os olhos instintivamente.

Ele riu desavergonhado, vendo a água do chuveiro tocar meus cabelos, molhando-os e desfazendo o coque que minutos antes eu tentara tornar firme.

Ela desceu por eles e alcançou o hobby. Abri meus olhos, enquanto via-me inteiramente molhada. Tristan me encarava com um riso divertido nos lábios e nos olhos.

— Qual é o seu problema? — Questionei irritada, ainda mais após contemplar aquelas feições debochadas em seu rosto.

— Você precisava esfriar a cabeça. — Me respondeu com seu olhar dissoluto e o sorriso que parecia não abandonar esses lábios.

Eu o encarei, incrédula.

— Você é um extremo idiota. — Xinguei, perdendo minha compostura e fiz menção de sair do box, quando senti meu braço ser segurado por ele.

Mirei seu rosto em um silêncio. E seus olhos viajaram por meu rosto, tornando-se quietos e foscos. Os lábios perderam o sorriso de outrora. Suas expressões, sérias.

— Não precisa pensar muito. — Ouvi suas palavras — Vai e faz o que você precisa fazer, okay? — Me disse sem delongas com voz firme e o fitei, surpresa.

Tristan.

A imprevisibilidade encarnada.

De poucas e pequenas palavras. Sem muitas explicações. Aparentemente, egoísta e insensível. Senhor de uma vaidade incontrolável e personalidade sarcástica. Entretanto, alguém que sabia tão bem dos meus limites. Das minhas tantas imperfeições, manias e inquietações. Mesmo que parecesse não se importar, preocupava-se.

E isso era o suficiente para mim.

Inevitavelmente, sorri mais que poderia desejar. E lhe dei um beijo, fazendo com que meu hobby fosse despido no próximo instante, descendo pelos meus ombros e caindo no chão encharcado daquele box...

Terminei de colocar a toalha nos cabelos e fui até a mesa redonda onde habitualmente eu deixava meus trabalhos, aulas e livros espalhados. Encarei aquele mar branco e tomei algumas folhas em minhas mãos, lendo-as e percebendo que era parte da minha tese de doutorado, ainda inacabada. Ao lado, as traduções e textos em grego. Mais à frente, os exemplares de Homero e Cícero.

Soltei um suspiro cansado. E coloquei aquelas folhas no mesmo lugar de onde as tirei.

Isso poderia esperar.

Desenrolei a toalha dos cabelos, caminhando pela casa e bagunçando-os com ela, enquanto os enxugava. Pendurei-a na lavanderia e busquei um pente sobre o criado mudo. Comecei a penteá-los, indo até a cozinha e abrindo a porta da pequena adega que mantínhamos sobre a bancada.

Vasculhei as garrafas que descansavam por ali e tirei o último exemplar que Tristan havia trazido da França, colocando-o sobre a bancada. Deixei o pente também por ali e me virei, abrindo o móvel sobre a pia e retirando dele duas taças. Abri também a gaveta e peguei o saca-rolhas, organizando-os ao lado do vinho.

Escutei uma movimentação dentro do banheiro.

Comecei a pressionar o saca-rolhas no vinho, girando-o com força e vendo-o afundar na cortiça.

Então ele apareceu.

— Que estudo interessante esse que você faz. — Foi imediato.

Sorri divertidamente, parando com as minhas ações e sua gargalhada ecoou pelo apartamento.

— Vim dar um tempo — Disse engraçada e espontânea, me deliciando com aquela leveza.

— Ah, é? — Usou de seu tom sarcástico e do sorriso felino e dissimulado.

— Ah, é. — Repeti de uma maneira provocadora.

O vi caminhar à borda, do outro lado da bancada, se aproximando de mim.

— Deixa eu brincar com isso aqui — Me pediu, tomando a garrafa de minhas mãos.

O olhei. E ele devolveu ao meu olhar. Um sorriso encantado. E outro encantador.

— Você se importa se eu colocar o último CD de vocês para tocar? — Enxuguei minhas mãos no pano de prato, observando a agilidade com que Tristan abria a garrafa.

Ele negou com um aceno.

— Tá na minha mala. — Respondeu normalmente, servindo a bebida em nossas taças.

Pendurei o pano de prato em um dos ganchos da cozinha, caminhando por trás da bancada e chegando até nossa cama, onde a mala dele estava indelicadamente jogada ao lado. Me abaixei, revirando-a com cuidado e encontrando o procurado objeto.

Tomei-o em minhas mãos e encarei aquela capa interessante e instigante. Abri-a, olhando o trabalho artístico bem elaborado. E me levantei, retirando o CD e o colocando no aparelho de som sobre o criado mudo. Ele anunciou que havia lido a mídia e deu entrada na música de abertura, me fazendo fechar a capa e apreciar.

Era um hábito meu escutar o último álbum que a banda produzira. Todas as vezes em que Tristan retornava de suas turnês, era quase coagido a trazer um exemplar para mim.

Me virei, encontrando-o sentado em um dos bancos de maneira descontraída e bebendo seu vinho. O encarei, sentindo que o sorriso que me tornava idiota começava a aparecer em meus lábios mais uma vez. Ele ergueu o olhar, acompanhando meus movimentos com eles, enquanto eu retornava com o encarte do CD em mãos.

Pegou a outra taça, que permanecera sobre a bancada todo esse tempo, e a estendeu para mim.

— Sua vez. — Impulsionou com uma piscadela atraente e rebelde, sorrindo de forma atravessada.

Apenas sorri.

E a peguei, levando-a nos lábios. Voltei-a para a bancada, junto com o encarte e subi no encosto do banco de Tristan, me sentando em um impulso também sobre a bancada. Primeiro, me olhou surpreso, mas sorriu abertamente em um instante, degustando mais uma vez sua bebida e repousando a taça ao lado da minha.

— Você tá muito rebelde hoje, mocinha. — Comentou com ironia e um olhar de quem havia gostado.

Ri com largueza, me deixando ser tomada por aquele momento.

— Só um pouco. — Devolvi com meias palavras e um sorriso a brincar em meus lábios sob a taça de vinho.

Ele tocou meu joelho e o acariciou, me fazendo olhá-lo com uma curiosidade inominável. Deixei minha taça ao meu lado e escorei minhas mãos na bancada, inclinando parcialmente meu corpo.

Vi Tristan se equilibrar no encosto do banco, trazendo seus lábios para junto dos meus. Ele enlaçou minha cintura com um de seus braços e o outro entrelaçou sob o meu, se escorando também sobre a bancada. Segurei forte nas costas do seu roupão, ao sentir a instabilidade em que estávamos. Parecia que, a qualquer momento, poderíamos cair daquele lugar.

Assim éramos nós: intensos, instáveis e desequilibrados. Fadados a ruir. Mas que conseguiam driblar as circunstâncias, as personalidades, as intempéries da vida. Que, entre uma insegurança e outra, se agarravam um ao outro para não despencar.

Escutamos o celular de Tristan tocar.

Ele desatou nossos lábios, ainda me segurando pela cintura. E me ajeitou na bancada com um puxão súbito, me fazendo agarrar seu pescoço com o impacto, desatando uma risada frouxa e deliciosa. Ele balançou a cabeça com uma gargalhada, julgando que eu estivesse embriagada pelo excesso de graça e beijou rapidamente meu pescoço, descendo do encosto do banco, me fazendo desenlaçá-lo.

— Cuidado pra não cair daí. — Falou da sua forma debochada, dando alguns tapinhas em meu joelho, antes de ir.

Pegou o celular sobre o aparelho de som, encarando a tela por alguns segundos e o atendeu com um cumprimento em francês e o nome do amigo. Gesticulei e perguntei em um sussurrado se ele não desejava que eu abaixasse o som, mas negou com a cabeça, enquanto conversava em sua língua vernácula.

A sonoridade das palavras entrava por meus ouvidos, fazendo-me perceber o quanto Tristan não havia perdido a naturalidade de suas pronúncias. Eu adorava ouvi-lo falar seu francês. Apesar de não ter tanto gosto com a língua, nos lábios dele, se tornava encantadora e envolvente.

Recordei-me das nossas inúmeras aulas na sua primeira vinda para cá. O sotaque forte e pesado, as palavras ditas por engano, as pronúncias malfeitas e as dificuldades casuais dos iniciados em uma nova língua, me divertia.

Eram tardes de risadas, irritações, brigas e reconciliações. Até que Tristan se apropriou do Português, da mesma forma que se apropriou de mim.

O olhei caminhar na direção da varanda e abrir sua porta, saindo por ela. Ele a encostou, mas ainda conseguia vê-lo através do vidro, andar de um lado para o outro, gesticulando com ansiedade. Provavelmente estariam conversando sobre a banda. Ergui minha taça pela última vez, bebendo o restante do meu vinho. E aproveitei para me concentrar nas músicas que tocavam como fundo para todo aquele cenário.

Olhei a faixa indicada no aparelho de som e abri o encarte, antes folheando-o e contemplando a beleza de algumas letras. Uma nova faixa se iniciou, despertando minha atenção pelo som de piano que dava partida aos solos de guitarra suaves. A vozdele Henry iniciou a letra com um sussurro e acompanhei aquele cantar francês, reconhecendo-a.

Procurei no encarte o número referente à faixa que tocava e qual foi minha surpresa quando li o título em latim.

O mesmo que eu havia dado em um de meus poemas alguns meses atrás.

Escutei aquela melodia harmoniosa e bela, resultado de uma mistura do lírico e o rock, dar corpo aos meus sentimentos deixados naquele papel. Fechei os olhos, apreendendo o som que a minha saudade tinha. A voz que meus escritos tomaram. A expressividade que minhas palavras adquiram. E sorri em uma incredulidade alegre e besta.

O havia escrito em uma noite de insônia.

A primeira em que eu dormi sozinha, após dois meses de estadia de Tristan aqui. Havia me desacostumado há não o ter perto de mim. E me afligia perceber que sobrava espaço naquela cama. Simplesmente não conseguia dormir. E escrevi. Para fugir da saudade entalada em meu peito.

E assim, ele nasceu.

Escutei a porta da varanda ser aberta novamente e abri meus olhos, encontrando-o vindo em minha direção. Largou o celular sobre a cama quando passou por ela. Dei um sorriso instantâneo, levantando o encarte para ele e apontando a canção que tocava com a animação de uma criança. Tristan lançou seu sorriso meia boca ao ver o que eu o mostrava.

— Você vai ficar famosa, musa. — Disse com vaidade, terminando de se aproximar e segurando minha cintura com ambas as mãos.

Ri com descrença.

— É óbvio que não, seu palhaço. — Soltei em um escárnio e deboche.

Ele continuou com seu sorriso soberbo.

— É claro que vai. — Falou com seu tom grave e forte, batendo o dedo em uma parte do encarte, chamando minha atenção.

Meus olhos focaram imediatamente aquele lugar e meu queixo pendeu em um boquiaberto abismado. Lá estava meu nome. Grafado sob a função de letrista. Levantei meu olhar para Castiel, admirada e pasma com tamanha ousadia. Os lábios dele se expandiram em um sorriso exultante e jubiloso.

— Tristan..., eu... — Faltaram-me palavras.

Ele tocou meus lábios com o seus dedos e seu rosto se fez próximo.

Surpresa, mon amour. — As palavras saíram por sua voz baixa e murmurada, misturando-a ao seu francês ainda expressivo e vibrante.

E o sorriso idiota e ridículo de uma adolescente em plena paixão se desprendeu de meus lábios, para serem tomados por ele segundos depois.

Esse era Tristan.

O homem pelo qual eu havia me apaixonado.

Esse idiota tinha sempre o poder de me fazer parecer ainda mais idiota do que ele.

31 de Maio de 2020 às 13:23 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Stefany V. Mineira. 28 anos. Vivendo as desilusões de uma possível vida adulta, enquanto tenta fazer o melhor nesse enredo chamado vida. Sejam bem-vindos, queridos. Entre, sintam -se em casa. Afinal, ela também é sua ;)

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