lara-one Lara One

Um dia como esse. Esses dias comuns, sem nenhum Arquivo X. Apenas a rotina do dia a dia. A família, amigos, convivência, os problemas, desafios, alegrias, pensamentos, planos, sonhos... Personagens em suas intimidades. A vida apenas sendo vivida, escrita pelas mãos de cada um deles.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

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07#04 - ON A DAY LIKE TODAY

Clipe: On a day like today - Bryan Adams



NOTA: Tem uma brincadeira do Bryan Adams, espalhada em dicas durante o clipe. - Tradução dela: Escolha um número entre 2 e 9, mas não diga em voz alta. Realmente, escolha um número entre 2 e 9. Multiplique seu número por 9. Esse novo número é de dois dígitos (ex: 36). Some esses dois dígitos juntos (Ex: 3+6). Pegue esse número e subtraia por 5. Encontre a letra correspondente a esse número. Encontre um país que comece com essa letra (nome do país em inglês!). No nome do país pegue a segunda letra. Agora um animal (em inglês) começando com essa segunda letra. Pense na cor dele. - Se você fez certo, o animal aparece no fim do clipe.



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Auditório 3 - Universidade de Lexington - Kentucky - 7:38 P.M.

Auditório quase lotado de estudantes, pessoas da comunidade e curiosos. No palco, o professor Harley na esquerda da bancada, ajeita os óculos olhando para o telão, que mostra a foto de Baba em pé numa sala e um homem em roupas antigas sentado numa poltrona a observando.

PROF. HARLEY: - Isso é fascinante. Dra. Scully, consegue achar uma explicação para esses fenômenos?

Mulder e Scully sentados à bancada. Scully fala ao microfone.

SCULLY: - Ficou impressionado com o fantasma? Pois não é verdadeiro.

Todos riem. Mulder sorri.

SCULLY: - Na verdade essa foto é uma montagem que fizemos propositalmente para mostrar o quanto podemos ser enganados com supostas provas paranormais. Há muito disso na internet e com talento e conhecimento de programas de manipulação de imagens, você coloca o fantasma que quiser na sua foto. Esse fantasma aí é o nosso câmera man, o Langly e ele mesmo foi quem fez a manipulação. Ele está bem vivo, garanto pra vocês. Contudo, as pessoas ficam impressionadas e distribuem a foto pela internet e logo o seu fantasma vira comentário na web, espalhado por sites sobre o assunto, listas de discussões, redes sociais. E temos um fantasma "real" com uma história "real", pessoas comentando e gente assustada acreditando numa mentira.

MULDER: - A foto verdadeira é essa.

Mulder toca no notebook. Aparece a mesma foto de Baba no telão, mas agora tem uma mulher sentada na poltrona, com a boca aberta e o rosto desfigurado. Barulho na plateia.

MULDER: - Captamos por sorte. Nunca descobrimos quem é. Eu trouxe a análise da foto assinada pelo perito do laboratório com a confirmação de que não houve manipulação ou fraude.

SCULLY: - Muitas dessas aparições podem ser explicadas pelo fato de que o cérebro humano está programado para reconhecer rostos e formas, mesmo aonde eles estão apenas sugeridos, um fenômeno chamadopareidolia. Como a brincadeira de ver animais e formas nas nuvens. Eu estava lá e não vi realmente essa mulher sentada na poltrona, nem meu esposo, nem a paranormal da foto e nem o Langly. Quando Mulder foi tirar as fotos para o computador é que vimos a pessoa.

MULDER: - E se notarem, as cortinas estão fechadas e o ambiente está iluminado pela lâmpada da sala, o que exclui a hipótese de efeito de luzes ou pareidolia. Se repararem bem, verão que as sombras estão aonde deveriam estar, a sombra da Baba no chão, dos objetos e móveis, mas não há a sombra dessa mulher. Minha esposa teve que aceitar o fato de que não havia explicação pra isso.

PROF. HARLEY: - Impressionante! E como livraram a casa desse espírito? Ou ela ainda está lá?

MULDER: - Nossa médium conversou com o espírito para que fizesse sua passagem, fez alguns rituais antigos. Incentivou os proprietários a mandarem o espírito ir embora. Levou uns três dias e acabaram as manifestações dentro da casa. Eu não posso explicar porque essas coisas funcionam, o que sei é que funcionam.

PROF. HARLEY: - As pessoas que lidam com esses fenômenos geralmente dizem que se é um fantasma bom, não há com o que se preocupar, pode continuar na casa. Esse era bom?

MULDER: -Nesse caso, não havia interação entre o espírito e os moradores, eles apenas sentiam a presença de alguém os observando, barulhos e vultos. O que nossos colegas poderiam dizer que é um fantasma do bem, pois não fez nada contra as pessoas. Mas eu não gosto desse conceito de fantasma bom ou mau, professor Harley. O lugar dele não é mais aqui. Sempre aconselho que as pessoas se livrem da entidade, tanto pela entidade quanto por elas mesmas. Não convém esse tipo de energia dentro da sua casa, em hipótese alguma. E não aconselho interação com elas.

PROF. HARLEY: - Como tábuas ouijas por exemplo?

MULDER: - Copos, canetas, cartas... Invocações. Pouco ou quase nada sabemos da natureza da vida e da morte. O que chamamos muitas vezes de fantasmas podem não ser espíritos de natureza humana. Algumas vezes temos a certeza quando pegamos um caso demoníaco. Mas em muitas vezes, eu me pergunto se realmente algumas pessoas vagam aqui sem descanso ou se isso tem outra explicação. Por muito tempo eu acreditei em doutrinas espirituais, mas hoje eu tenho um certo cuidado depois de tudo o que já vi.

PROF. HARLEY: - Vocês falaram que existem pessoas que os contratam tentando enganá-los. Pessoas que armam uma mentira paranormal com intuito de aparecerem na imprensa ou provar que o que vocês fazem é uma mentira. Alguém já foi bem sucedido nisso? Sejam sinceros.

MULDER: - Não, porque não mentimos. Quando a nossa médium sente algo, ela diz. E quando não sente, também. Ela é a nossa base, tudo depende dela. Primeiramente ela vai até o cliente colher informações sobre o caso e sentir a energia do lugar, da pessoa... Sendo um caso mentiroso, vamos com a equipe de filmagem e filmamos tudo como prova. Investigamos cada canto em busca da mentira. Se for real ou suspeito, mandamos a equipe de filmagem. A nossa equipe de filmagem também é nerd, ou seja, eles entendem de tudo um pouco e me passam suas impressões. Depois Scully e eu entramos em ação. Certa vez um deles me disse que as portas da cozinha e dos armários abriam sozinhas e a cozinha passava uma sensação de tontura. Ele notou que os armários estavam tortos. Então pegou um nível de pedreiro e colocou no chão.

SCULLY: -Frohike é bem cético, até mais que eu. Eles mantém uma revista aonde combatem mentiras e conspirações do governo. Então eles adoram passar as informações do que veem para seus assinantes.

MULDER: - Os Pistoleiros Solitários. Eles são pessoas idôneas, temos até um jornalista entre eles. Frohike descobriu que havia um desnível enorme na construção. Por isso as portas abriam sozinhas e os armários também e as pessoas sentiam-se tontas no ambiente. Nem precisamos ir. Não era um caso para nós, mas para um engenheiro. Algo totalmente científico. A família resolveu o problema e acabaram os "fenômenos".

PROF. HARLEY: - O casamento de vocês deve se bem interessante, acho que mais interessante do que foi o casamento de Ed e Lorraine Warren, que concordavam em tudo. Pelo menos não é monótono e provavelmente as brigas são entre ciência e pseudo-ciência. Ganha quem teve razão no caso?

A plateia ri. Scully olha pra Mulder e sorri.

MULDER: - (DEBOCHADO) Bom, na maior parte das vezes eu ganho a briga, mas ganhar não significa não sair perdendo. O sofá sabe bem disso.

A plateia ri. Scully ergue os olhos, acenando negativamente com a cabeça.

PROF. HARLEY: - Essa foto é bem intrigante. Vocês foram agentes do FBI, portanto, isso me dá uma certa credibilidade. São pessoas sérias, peritos no ofício da investigação, coleta, análise de provas e não se deixariam enganar por truques mesmo que mais elaborados. Quantas vezes em suas investigações já conseguiram explicar cientificamente o que viram?

SCULLY: - Poucas vezes, admito. Sou cientista, posso dizer que existem muitos fenômenos que ainda não compreendemos. Não estou dizendo que todos são de natureza paranormal, embora eu esteja aberta a aceitar a paranormalidade, porque acredito que definimos como paranormal o que a nossa ciência ainda não compreenda. Nós desconhecemos muito da natureza das coisas. Vou dar um exemplo, estávamos investigando um caso demoníaco em Rock Valley, na Georgia. Numa parte da cidade, bem afastada, as pessoas viam vultos em seus quintais. Todos relatavam um certo incômodo na presença dos vultos, que passaram a chamar de Os Demônios de Rock Valley.

MULDER: - Tonturas, vômitos e confusão mental... A imprensa chegou lá empolgada, o bairro da cidadezinha acabou virando atração turística para curiosos e os moradores perderam a paz. Aí o prefeito nos chamou pra investigar o caso, porque ele também viu. Os moradores já estavam colocando suas casas à venda por qualquer ninharia e o pânico se instalou.

SCULLY: - Toda a nossa equipe viu os vultos, incluindo Mulder e eu mesma. Mulder e eu discutimos nossas teorias todas até que percebemos que, os moradores, mesmo não saindo mais pra fora de casa, pelo medo de ver vultos em seus quintais, ainda permaneciam com os sintomas "diabólicos", enquanto que nós que não morávamos ali e estávamos hospedados no centro da cidade, nada mais sofremos quando afastados do local.

MULDER: - Eu disse pra ela que os demônios não tinham ido atrás da gente. Alguém tem que começar a briga, é regra.

SCULLY: - E eu já estava acreditando que dessa vez ele tinha razão. Em síntese, acabamos descobrindo que o problema não era demoníaco, graças ao gravador do Mulder. Eu não tenho como explicar isso cientificamente para vocês, mas a cidade havia sido construída em cima de um solo com alta concentração de minérios e esses emitiam sons o tempo todo, infrassons, imperceptíveis ao ouvido humano, o que causava tonturas, vômitos, confusão mental e afetavam a visão. Existe muito pouco estudo sobre o assunto, já sabemos dos efeitos colaterais de muitos minérios quando estamos expostos a eles, mas não sabemos todos os fenômenos naturais que acontecem e que por isso, atribuímos erroneamente como paranormais.

MULDER: - Concordo, explicamos cientificamente esse caso. Contudo, vamos entrar na coisa das aparições de ÓVNIS nessa mesma região, que apesar de se concentrarem nos céus desse bairro, o Estado inteiro viu. Então, provavelmente, esses minérios chamem a atenção deles, o que justificaria tantos vídeos feito por moradores.

SCULLY: - Quer dormir no sofá essa noite, não é mesmo, Mulder?

A plateia ri.

MULDER: - Viram o que eu disse?

VINHETA DE ABERTURA: ON A DAY LIKE TODAY...


BLOCO 1:

Residência dos Mulder - 9:11 P.M.

Chuva. As folhas coloridas das árvores balançam com o vento, caindo pelo pátio.

Sótão. A vitrola velha tocando um disco.

[Som:Bill Withers - Ain't no Sunshine]

Victoria, de pijamas e pantufas, dormindo no velho sofá de couro. Mulder sentado à escrivaninha, digitando no notebook. Mulder para. Vira-se para trás, olhando pra filha. Sorri. Se levanta e pega uma manta, colocando sobre ela. Dá um beijo em sua testa, tira-lhe o cabelo do rosto. Volta a sentar-se. Se espreguiça, olhando pra tela.

A porta se abre, Scully espia. Entra com a caneca de café.

SCULLY: - Café para o meu escritor favorito.

Mulder sorri e pega a caneca.

MULDER: - Estou tentando.

SCULLY: - Bloqueio?

MULDER: - Falta de concentração. Estou pensando em boletos.

Scully senta-se no colo dele.

SCULLY: - Pois pare de pensar, já resolvi tudo e até paguei.

MULDER: - Como pagou? Fez o que eu disse pra não fazer, né? Pegou dinheiro do café para colocar na agência.

SCULLY: - Mulder, por favor! Não vamos começar. Esse mês foi complicado na agência, mas em compensação foi lucrativo na cafeteria.

MULDER: - Scully, eu preciso de você gerenciando a coisa toda. Admito, contabilidade não é o meu forte. Eu me empolgo com os casos e nem penso se vamos gastar em passagens aéreas, hotéis e aluguel de carros. Isso que estou tentando me limitar a áreas próximas da Virgínia, mas... Você me conhece.

SCULLY: - Mulder, e eu sei que quando a pessoa não tem dinheiro, você vai mesmo assim. Admiro sua vontade em ajudar, mas isso não vai pagar nossas despesas, certo? Temos um negócio. Pagamos aluguel, a Baba, o tempo dos rapazes. Investimos em equipamentos eletrônicos. Tudo sai da agência. Faça caridade, mas limite-se a uma por mês, por enquanto.

MULDER: - Você tem razão. E algumas vezes nem é nada, é tentativa de enganação pra conseguir manchete em jornal... Isso sim aborrece. Tempo e dinheiro desperdiçados.

SCULLY: - Então? E eu sei que não devemos misturar negócios, mas era tirar dinheiro da cafeteria ou afundar em juros desnecessários. Hum? Resolvido. Agora termina esse livro, fique famoso e depois me leva pra conhecer o Caribe.

MULDER: - (SORRI) A fim de sol, Dana Scully?

SCULLY: - Mulder, nem queira saber do que ando a fim.

MULDER: - Agora fiquei curioso. Desejo? O que o nosso moleque quer?

SCULLY: - Ele nada. A mãe dele quer fugir com o pai dele. Estamos novamente no eterno trajeto casa-trabalho-casa. Filme, pipoca e sofá. E você tá com medinho de encarar aquele restaurante cubano que a Barbara frequenta, porque sabe que Krycek vai mandar bem numa salsa e você vai ficar sentado a noite inteira invejando que não sabe dançar.

MULDER: - Não vou perder para o Rato. E eu não tenho inveja dele! O máximo seria ele virar tema das minhas piadas.

SCULLY: - Vocês dois vivem nessa disputa infantil e nas apostinhas, nesse jogo de ego masculino, quem é o melhor, quem tem o maior. Eu se fosse você aceitava o convite agora, porque tem a desculpa de "não posso dançar salsa porque ela está grávida".

MULDER: - Quem sabe um cinema? Parque?

SCULLY: - Não sei. Pensarei em alguma. Victoria também está precisando tomar um ar. Quando não está na escola fica presa em casa... (SORRI) Ela gosta de fazer companhia pra você.

MULDER: - (SORRI) Quando terminar aqui, eu a levo pra cama.

Scully se levanta.

MULDER: - Obrigado pelo café.

SCULLY: - Não é de graça. Custa uma saída com a sua esposa.

Scully sai, fechando a porta. Mulder sorri e volta a escrever.


Delegacia de Polícia - Virgínia - 9:31 P.M.

Krycek sentado na cadeira, com os pés na mesa, segurando uma pasta aberta. Chambers e Peter dando risadas altas.

CHAMBERS: - (RINDO) Aí o Sanders disse: Cala a boca, eu sei que você tem um presunto escondido lá atrás. Vamos revirar essa lanchonete agora. Acenou para os policiais e adentrou uns dez caras atrás dele e do Checov em direção ao freezer.

KRYCEK: - (RINDO) Eu lembro dessa.

CHAMBERS: - Aí reviraram o freezer todo do italiano e tudo o que acharam foi porco e mais porco. Presunto errado!

Os três riem. O policial bate na porta aberta, meio sem jeito.

POLICIAL: - Detetive Checov? Posso falar em particular com você?

Krycek se levanta e vai até a porta. Coloca as mãos nos bolsos da jaqueta, olhando para o crachá do policial.

KRYCEK: - Pode falar, policial Jones.

POLICIAL: - Ouvi falar que você tem um amigo policial que lida com coisas paranormais, e...

KRYCEK: - Tenho.

POLICIAL: - Sabe aquela empresa nova de software que se instalou naquele prédio vermelho no fim da rua River?

KRYCEK: - Sim. No meio do nada, perto do rio Potomak.

POLICIAL: - Isso. Dá a dica pra ele. Há mais de um mês o alarme do porão aciona, umas quatro a cinco vezes na semana. Eu vou até lá checar com a viatura e nunca tem nada. Nem foi vento, nem animal, nem tentativa de arrombamento. Pedi que trocassem o aparelho do porão. Já trocaram duas vezes e continua soando nas madrugadas. Eu não sei se você acredita, mas talvez seja outra coisa, entende?

KRYCEK: - Sugeriu isso para os donos?

POLICIAL: - Comentei e um dos sócios me disse que realmente não gosta de ficar naquele prédio sozinho à noite, sente que tem mais alguém com ele, mas não sabia a quem recorrer pra resolver isso, de forma sigilosa sem alarde.Aquele prédio foi um manicômio na época da guerra civil, ninguém gosta de atender chamados vindos de lá.

KRYCEK: - Obrigado pela dica.

POLICIAL: - Agradeça a ele. Vai poupar meu tempo em rondas desnecessárias.

O policial sai, quase esbarrando no negro alto e bem vestido, de uns 40 anos, que vem entrando na sala.

BISHOP: - Homicídios?

Os três olham pra ele.

BISHOP: - Detetive Alex Krycek?

Chambers aponta pra Krycek.

CHAMBERS: - Checov tá requisitado hoje.

PETER: - É a jaqueta. Atrai até a corregedoria!

BISHOP: - (SORRI) Não sou da corregedoria.

Eles riem. Krycek faz careta pra eles. Bishop estende a mão para Krycek.

BISHOP: - Sou Tomas Bishop, seu novo parceiro.

Chambers e Peter se entreolham, voltando aos afazeres, bem quietos. Krycek não o cumprimenta e senta-se. Abre a gaveta, tira uma embalagem de goma de mascar e coloca uma na boca, contrariado.

KRYCEK: - Pode pegar qualquer mesa, exceto aquela ali, o Sanders não gosta que mexam na mesa dele.

Bishop senta-se na cadeira em frente a mesa de Krycek.

BISHOP: - Então... Pode me por a par dos casos que está investigando?

Krycek aponta paras duas pastas sobre a mesa.

KRYCEK: - Pode ler.

Bishop sorri. Encara Krycek.

BISHOP: - Olha, eu sei o que é perder um parceiro. Sei que confiança é algo que se adquire com o tempo, principalmente quando precisa confiar sua vida a um desconhecido, pouco importa se ele use ou não um distintivo. Sei que não gosta de mim e nem precisa gostar. Mas eu preciso desse trabalho. E pode fazer o que quiser que eu não vou sair daqui. Estamos entendidos?

KRYCEK: - Não me atrapalhe, não tente ser meu amigo, não finja ser o que não é. E se tiver que discordar do meu ponto de vista numa investigação, fale na minha cara e nunca pelas minhas costas. Estamos entendidos?

BISHOP: - De acordo.

Bishop se levanta e pega as duas pastas. Vai para uma mesa vazia. Chambers faz um gesto de "qual é?" para Krycek.

KRYCEK: - Minha mulher tá estranha.

CHAMBERS: - Mulher é um bicho estranho.

KRYCEK: - Hoje escolheu minha roupa pra trabalhar. Vocês que são casados, elas fazem isso?

PETER: - Comigo nunca...

CHAMBERS: - É, camiseta branca, jeans preto... Sua jaqueta de couro preta... Se colocar uma toca preta na cabeça, os caras lá fora podem entrar aqui e jogarem você numa cela! Até explicar que focinho de rato não é tomada...

Eles riem alto. Bishop disfarça o riso, lendo os papéis. O telefone toca. Chambers atende.

CHAMBERS: - (AO TELEFONE) Homicídios, detetive Chambers... (TODO SORRISO) Oi! ... Estou bem e você? ... Cada vez mais linda... Eu sei, vejo você toda a noite...

Peter e Krycek olham curiosos pra Chambers.

CHAMBERS: - (AO TELEFONE) Ah... Ele está sim, mas hoje incorporou o Ben, o rato assassino e quer morder todo mundo...

Krycek põe a mão no rosto. Chambers leva o telefone ao peito.

CHAMBERS: - Ô "Ratoncito", sua gata jornalista na linha dois. Deve estar dando uma incerta pra ver se você tá trabalhando mesmo ou anda pelos esgotos da cidade.

Chambers e Peters caem na gargalhada. Krycek ergue o dedo médio pra eles e atende o telefone, gira a cadeira ficando de costas pra eles e falando baixo.

KRYCEK: - (AO TELEFONE/ BAIXINHO) Os caras tão me tirando desde o dia que você foi me chamar de Ratoncito no telefone... Por que não liga no meu celular? ... Sério?

Krycek pega o celular.

KRYCEK: - (AO TELEFONE/ BAIXINHO) Verdade. Esqueci de carregar, de novo, estou me contaminando com o seu esquecimento... Malyshka, por que colocou minhas luvas de couro e aquele gorro no meu bolso, não estamos no inverno! ... Como sem perguntas? Você tá estranha hoje, sabia? Primeiro escolhe minha roupa pra vir ao trabalho e agora... (RINDO) Mas não mesmo! Se eu chegar assim e com luvas de couro e um gorro preto na cabeça você vai me acertar a frigideira pensando que sou um ladrão! ... Tá, tá... Prometo, mas tô curioso! ... Ok... Também te amo.

Krycek desliga, pensativo. Chambers abre a gaveta e tira algo. Joga em Krycek, que leva um susto, erguendo o camundongo de plástico que caiu em seu colo. Eles riem.

CHAMBERS: - Fala sério, Checov! Como um rato feio como você conseguiu uma gata famosa como a Barbara Wallace? É muita mulher para o seu caminhão!

PETER: - É a jaqueta. O Sanders tinha razão.

KRYCEK: - Vocês não vão parar de me sacanear com essa coisa de rato, né?

PETER: - Não é rato, é "Meu Ratoncito está"?

Eles riem mais ainda.

KRYCEK: - O turno de vocês não acabou ainda? Vão ficar me zoando a noite toda?

CHAMBERS: - Não, estamos matando tempo aqui pra pegar um cara. Até lá, vamos comer rosquinhas, tomar café e zoar a sua cara.

PETER: - Acho que vou buscar sanduíches. Ô Bishop, quer?

BISHOP: - Obrigado, mas não.

CHAMBERS: - Traz um triplo de queijo pro "Ratoncito" melhorar o humor.

A policial entra.

POLICIAL MULHER: - Checov, os policiais encontraram um corpo na fábrica de papel. Parece que é o cara desaparecido desde a semana passada. Pediram apoio.

Krycek se levanta. Coloca o celular no bolso. Bishop se levanta.

KRYCEK: - O funcionário desaparecido?

POLICIAL MULHER: -Ele mesmo. Esvaziaram o tanque de celulose e não foi uma boa visão, já que além de celulose e produtos químicos existe uma hélice enorme lá embaixo pra triturar a pasta. Já chamei a perícia.

PETER: - Pelo amor de Deus! Quanto jornal feito com carne humana a gente leu essa semana?

Krycek sai. Bishop vai atrás dele.


Residência dos Mulder - 5:20 A.M.

Scully dormindo de costas pra Mulder, que a envolve com o braço. Mulder abre os olhos. Fica olhando pra ela, bobo e apaixonado. Beija a nuca de Scully. Ela sorri de olhos fechados.

SCULLY: - Perdeu o sono?

MULDER: - Não tá hora de acordar a Pinguinho pra escola? Hoje é o meu dia.

Scully olha pro relógio.

SCULLY: - Mulder, nem raiou o sol! São 5:20 da manhã. E depois Victoria não tem aula hoje por causa da reunião dos professores. Pode voltar a dormir.

Mulder boceja. Fecha os olhos e se ajeita contra o corpo dela.

SCULLY: - ... A não ser que esteja sem sono. Hum?

Scully esfrega o traseiro contra ele. Mulder sorri sacana, de olhos fechados.

SCULLY: - Mas tem que ser assim, de ladinho.

MULDER: - Não. Vamos dormir, Scully. Para de me molestar.

SCULLY: - Mulder, não começa. Não quer fazer amor comigo ou é porque você ainda duvida que sexo na gravidez seja liberado?

MULDER: - Não sei a quantas anda a sua situação, Scully. Você não pegou seus exames e não quero correr riscos por nada.

SCULLY: - Mulder, por favor! Eu sou médica! Transar comigo não vai machucar seu filho, mas como você é paranoico!

MULDER: - Não. Eu me aguento.

SCULLY: - Sério? Eu ainda tenho quatro meses pela frente. E eu não me aguento!

MULDER: - Vai dormir, Scully. Conte carneirinhos e pense no Carter. Isso broxa qualquer um.

Scully faz beiço.

SCULLY: - Entendi... Não estou mais atraente e sexy pra você... Tudo bem. Você perdeu o tesão por mim.

MULDER: - Scully, não começa. Isso é chantagem emocional.

SCULLY: - Só uma rapidinha? Hum? Assim de ladinho? A gente já tá até na posição, se o seu problema for preguiça.

Mulder sorri, de olhos fechados.

MULDER: -Preguiça pra sexo? Eu? Posso ter preguiça até pra trabalhar, mas pra sexo nunca! Scully, você não sabe o que é não?

SCULLY: - Não. (BEIÇO) Quero fazer coisinhas. É desejo.

MULDER: - Ah, sim, desejo. Sei. Nunca ouvi falar de grávidas que tenham desejo por qualquer coisa que não seja comida.

SCULLY: - Com certeza. E eu tô com fome de raposo.

MULDER: - (RINDO) Para, Scully!

SCULLY: - Morrendo de fome... Hum... Vontade de sentir você dentro de mim.

MULDER: - (DEBOCHADO) Já me sentiu demais, agora tá sofrendo as consequências.

SCULLY: - Mulder, como você é mau. Vai me deixar na secura? Puxa vida, isso é cruel, principalmente com uma grávida. Não se nega nada pra uma mulher na minha situação.

MULDER: - (RINDO) Scully, para de se roçar em mim!

SCULLY: - (BEIÇO) Não... Tô com fome de Mulder.

MULDER: - Se eu ceder, você promete me deixar dormir depois?

SCULLY: - Acho que eu é quem deveria fazer essa pergunta! Tá com tanto sono assim, ou tá querendo arrumar desculpa pra...

Mulder se ajeita por baixo do edredom. Scully pega a almofada rapidamente e põe na boca, mordendo. Revira os olhos em êxtase.

MULDER: - (DEBOCHADO) Técnica nova para minimizar a "empolgação"?

SCULLY: - (MURMURA) Hum... Cala a boca, Mulder! Não acorde a Victoria!


Residência de Barbara Wallace - 6:04 A.M.

Krycek entra em casa, de jaqueta de couro, gorro preto e luvas. Penumbra. Apenas a luz da varanda adentra no ambiente. Ele estranha. Aciona o alarme. As luzes se acendem.

BARBARA: - (GRITA)Mãos pra cima, seu ladrão cretino!

Krycek toma um susto.

KRYCEK: - Eu disse que se chegasse assim você ia...

Krycek se vira. Arregala os olhos. Barbara se aproxima sensualmente com um quepe de policial, apontando uma pistola de água, vestindo uma camisa aberta e amarrada embaixo dos seios, com um distintivo, minissaia azul plissada e saltos altos pretos, olhando séria pra ele.

BARBARA: - Cala a boca, seu marginal! Mãos pra cima e cara na parede! Anda! Não estou brincando, eu atiro em você!

Krycek inclina a cabeça para o lado, devorando Barbara com os olhos, dos pés à cabeça. Abre um sorriso sacana, levanta os braços e se vira pra parede.

KRYCEK: - Você é louca... Então era isso...

BARBARA: - Você não me viu louca ainda, seu meliante! Se deu mal, né? Entrou na casa de uma policial! Pensou que pegaria uma frágil garota indefesa? Eu vou te ensinar a não entrar sorrateiro na casa dos outros!

Barbara se aproxima e tira o coldre da cintura dele, colocando sobre a mesa.

BARBARA: - Armado né? Vou revistar você, seu canalha!

Krycek segura o riso. Ela coloca a pistola entre os seios, vem por trás dele e leva as mãos por baixo da jaqueta, apalpando o peito dele por sobre a camiseta. Depois coloca as mãos por baixo da camiseta, as deslizando. Krycek fecha os olhos.

BARBARA: - E fica bem quietinho! Não se mexa!

KRYCEK: - (RINDO) Juro que não vou reagir!

Ela leva a mão ao traseiro dele, apalpando e agarrando. Puxa as algemas do bolso das calças dele.

BARBARA: - Ahá! Queria me algemar? Além de me roubar, o que pretendia?

KRYCEK: - Quero meu advogado.

Barbara empurra ele contra a parede, num supetão.

BARBARA: - Cala a boca! Coloca as mãos atrás da cabeça! Abre as pernas! Anda!

Ele afasta as pernas, rindo, colocando as mãos atrás da cabeça. Ela se agacha revistando as pernas dele e finalizando com a mão agarrando-lhe as partes íntimas. Ele pula, num susto.

BARBARA: - Mãos pra trás, agora!

Ele obedece, ela o algema. O agarra pela jaqueta e o empurra contra a parede.

BARBARA: - Está preso. Tem o direito de permanecer calado. E aconselho que fique.

KRYCEK: - Sim senhora.

BARBARA: - Seus dias de crimes acabaram. Vou levar você de volta pra onde nunca deveria ter saído, seu rato safado! Vou dar uma lição em você que jamais vai esquecer! Anda!

Ela o agarra pela jaqueta o empurrando em direção às escadas. Krycek quase rindo.

BARBARA: - Vou levar você pra minha cama de interrogatório, depois quero suas digitais e amostra de saliva nos meus peitos e por fim quero seu DNA misturado com o meu!


Residência dos Mulder - 10:21 A.M.

Mulder com as mãos nos bolsos das calças, parado na varanda e observando o quintal. Na casa ao lado, Isaac acena pra ele, entrando em casa. Mulder acena de volta. Victoria sai da cozinha.

VICTORIA: - Eu posso ir brincar com o Darius?

MULDER: - Claro.

VICTORIA: - Legal!

Victoria sai correndo e vai para a casa ao lado, entrando na varanda dos fundos. Mulder continua observando o quintal. Scully sai da casa.

SCULLY: - Não vamos pra agência hoje?

MULDER: - Só se a Baba ligar dizendo que tem cliente. Acho que vou cortar a grama.

Scully dá de ombros e volta pra dentro. Mulder vai pra garagem e ergue a porta.

Som de tesoura de podar.

Mulder discretamente olha para o lado. Nancy está podando as trepadeiras na cerca que divide os quintais. Mulder sorri maléfico. Volta pra dentro de casa. Scully retira coisas de geladeira.

SCULLY: - Estou sem ideias pra cozinhar. Alguma sugestão?

MULDER: - Peça comida pronta. Vou trocar de roupa.

SCULLY: - Não ia cortar a grama? Agora vai sair?

MULDER: - Não vou sair. Vou lavar o carro.

Mulder vai pra sala.

SCULLY: - E precisa trocar de roupa pra lavar o carro? Eu hein?

Scully observa as verduras e legumes no balcão. Suspira.

SCULLY: - Hum... Podia fazer um suflê... É rápido, todo mundo gosta... Uma salada... Arroz... Bifes! Pronto, bifes e ninguém reclama que estou colocando todo mundo na "dieta".

Cookie entra na cozinha e se deita perto da porta, quase num suspiro.

SCULLY: - O que foi filhinho? Também tá entendiado? Mamãe vai fazer um bifinho pra você. Bem do jeito que você gosta.

Scully abre a gaveta e pega uma faca. Pega uma panela.

SCULLY: - Dia normal e perfeito. Comum a todos os mortais nesse planeta... Filha brincando, marido fazendo tarefas da casa, eu na cozinha falando sozinha... Um dia como esse, é assim que eu gosto.

Mulder entra na cozinha com calças jeans rasgadas e camiseta regata colada no corpo. Scully cerra o cenho, acompanhando com os olhos, o marido que sai pela porta dos fundos.

SCULLY: - (DESCONFIADA)Hum... Ele vai lavar o carro ou sensualizar?

Scully ergue os ombros. Observa o carro parando quase em frente a janela da cozinha. Mulder desce. Scully curiosa fica na ponta dos pés e olha pela janela. Vê Nancy. Scully suspira.

SCULLY: - Pronto! Acabou a tranquilidade. Mulder vai começar a irritar a vizinhança!

Mulder passa pela janela com um pano no ombro e carregando um balde, assoviando tranquilo. Nancy o observa com o rabo dos olhos, cortando as trepadeiras. Mulder abre a porta do carro e se inclina pra dentro. Scully observa, curiosa.

[Som: Queen - I Want to Break Free]

O som bem alto. Scully suspira.

SCULLY: - Começou a guerra...

Mulder fecha a porta do carro. Nancy desconfiada. Mulder pega a esponja, mergulha no balde e começa a esfregar o capô do carro, sensualmente, como se desse banho em alguém. Nancy arregala os olhos.

Do outro lado da rua, Krycek, com cara de sono, abre a janela indignado, ainda com a algema presa numa das mãos. Espia Mulder dançando, esfregando o carro. Percebe Nancy observando.

BARBARA: - (MEIO DORMINDO) Quem é o vizinho filho da mãe que tá ouvindo Queen a essa altura? Volta pra cama, Ratoncito!

KRYCEK: - (ABRE UM SORRISO)Ah, mas não mesmo! Essa eu não vou perder! Mulder tá lavando o carro e finalmente se vingando da megera!

Barbara pula da cama, pega a câmera de vídeo e vai pra janela, empolgada.

BARBARA: - Essa eu vou filmar porque se contar, ninguém vai acreditar!

Mulder volta puxando a mangueira, cantando e dançando como Fred Mercury, como se a mangueira fosse um microfone. Nancy observa, incrédula, por entre as trepadeiras. Mulder liga a mangueira. Fica com a mangueira entre as pernas enquanto molha o carro, fazendo insinuações sexuais. Nancy arregala os olhos.

MULDER: - (CANTANDO) God knows! God knows I want to break free!!!

Mulder massageia a mangueira, fazendo caras e bocas. Nancy fica catatônica, segurando a tesoura, sem conseguir cortar mais nada. Mulder vira-se de costas, esfrega o carro com o traseiro bem lentamente, de olhos fechados e rebolando. Scully espia pela janela da cozinha, mordendo os lábios quase rindo. Mulder recosta o traseiro no capô, reclinando o corpo pra trás, sensualmente, se molhando com a mangueira. Nancy incrédula. Mulder circula o dedo no mamilo, por cima da camiseta molhada. Leva o dedo na boca. Scully tem um acesso de riso e desiste de fazer o almoço.

Mulder fazendo caras e bocas, erguendo e baixando os quadris no ritmo da música, como se tivesse transando com alguém em cima dele. Nancy deixa a tesoura cair no meio dos arbustos.

Isaac sai pelos fundos da casa, curioso. Olha pra cena e sinaliza aos risos pra esposa. Marjorie vem ver. Os dois riem.

Mulder leva a mangueira dentro das calças. Expressão de prazer. Nancy leva as mãos aos olhos, escandalizada, mas abre os dedos espiando. Mulder larga a mangueira, dança mais um pouco, passa as mãos pelo corpo molhado e agarra as partes íntimas, imitando o "Michael Jackson". Nancy abre a boca, assustada. Mulder passa as mãos suavemente sobre o capô do carro, o acariciando. Então firma as mãos no capô, começa a se mover contra o carro, com firmeza e gemendo alto olhando pra Nancy.

Nancy sai correndo pra dentro de casa, com as mãos na cabeça, aos gritos.

NANCY: - Geooooooooorrrrrrrgeeeeeeeeee!!!!!!! O taradão tá se insinuando pra mim!!!!!!!!!!!!


11:22 A.M.

Scully desliga o celular e coloca sobre a mesa. Mulder entra todo molhado na cozinha, deixando um rastro. Scully coloca as mãos na cintura, se fazendo de séria.

SCULLY: - Conseguiu o que queria? Krycek já ligou agradecendo o show, Isaac ligou perguntando se na América lavamos os carros de maneira diferente... Você foi eleito oficialmente o palhaço da rua. Satisfeito?

MULDER: - Diga que vou me candidatar a presidente da associação dos moradores. Peçam pra votarem em mim.

SCULLY: - (SEGURA O RISO) Mulder...

Mulder olha pra ela, todo molhado. Scully tem um acesso de riso. Mulder abaixa a cabeça, rindo.

SCULLY: - Mulder... Eu te amo. São essas coisas que fizeram eu me apaixonar por você. Você é doidinho da cabeça, meu amor. Esse senso de humor, sem medo do ridículo... Você me faz rir, torna a vida mais leve, Mulder. E isso é tão bom!

Mulder se aproxima, agarrando Scully.

SCULLY: - (RINDO) Mulder, para! Sai! Você tá me molhando e molhando a cozinha toda! Vá tomar um banho, antes que pegue um resfriado!

MULDER: - (DEBOCHADO) Quer lavar minhas orelhinhas? Hum?

Mulder a aperta mais, passando o nariz e os lábios no pescoço dela.

SCULLY: - (RINDO) Mulder, não! Eu já atrasei o almoço por sua causa! Me solta, Mulder!!!!

MULDER: - Não tô com fome... Prefiro comer você.

SCULLY: - (RINDO) Mas Victoria precisa almoçar!

MULDER: - A gente chama a tele-entrega, hum? Victoria tá na vizinha... Você e eu sozinhos... Água quentinha, hum? Sabonete cremoso, esponja... Sabe que eu sei lavar muito bem.

SCULLY: - (RINDO) Mulder, você não sabe lavar nem o carro! E eu tô virada num botijão de gás!

MULDER: - É o botijão de gás mais sexy que eu já conheci. Ô Scully, eu transei com o carro, posso transar com o botijão de gás!

Scully ri alto. Mulder a pega nos braços, debochado.

MULDER: - Vou lavar suas orelhinhas, bem devagarzinho, sem pressa...

SCULLY: - Hum, Mulder, você não tem jeito mesmo!


2:41 P.M.

Scully pega a bolsa e sai pela porta da frente. A picape de Krycek estacionada. Barbara no volante. Scully entra no carona, Barbara a ajuda.

SCULLY: - Desculpe a demora.

BARBARA: - Desculpe esse caminhão, que precisa de impulso pra subir.

Barbara liga o carro. Toma a estrada.

BARBARA: - Preciso comprar um carro pra baixinha. Pensei numa coisa pequena. Algo tipo um Fiat 500. Pequeno, bonito, discreto, cabe em qualquer lugar, prático e nanico como eu!

SCULLY: - Desculpe a perturbação hoje de manhã.

BARBARA: - Que nada! Filmei tudo pra posteridade. Alex e eu rimos tanto! Viu a cara da falsa moralista? Escandalizada, mas sem desgrudar os olhos do seu marido! Se ela quer falar, dê motivos pra falar. Concordo com o Mulder. É melhor que bater boca na cerca. É tapa com luva de pelica.

SCULLY: - Juro que tô curiosa. Como foi a noite?

BARBARA: - Prendi um ladrão safado com direito a algemas. Dei uma lição nele. Tá lá acabado e dormindo.

Scully começa a rir.

BARBARA: - Scully, aquela nossa conversa sobre apimentar a relação foi o que me faltava pra criar coragem. Achava sinceramente que eu era maluca por ter fetiches, nunca falei disso com ninguém, achava vergonhoso. Ainda tive que escrever um artigo sobre o assunto pra aquela revista masculina... Aí você alimentou a mostrinha aqui...

SCULLY: - Como eu disse, é normal. Muitas mulheres têm. Isso não é exclusividade dos homens. E ele? Como reagiu?

BARBARA: - Meio assustado, depois entrou na brincadeira. Acredita que ele me disse que nunca fez esse tipo de coisa?

SCULLY: - Acredito. Porque isso implica intimidade. E nem todos os casais têm essa intimidade, por incrível que pareça, para conversarem sobre o que gostam em matéria de sexo.

BARBARA: - (FELIZ) Meu ego foi nas alturas, fui a primeira! E acredito que fui mesmo, porque eu sei quando ele mente. A cara dele de surpresa foi tudo! Alex é muito tímido pra falar em sexo. Me senti bem melhor deixando ele entender que eu topo coisas diferentes. E claro que ele gostou.

SCULLY: - Tenho saudades das minhas loucuras com o Mulder...

BARBARA: - Calma. Logo o bebê nasce e a loucura volta. Então, vamos primeiro no shopping e depois na manicure?

SCULLY: - Pode ser. Eu fiquei doida por aquele abajur para o bebê.

BARBARA: - Também achei uma gracinha. A gente devia ter comprado daquela vez.

SCULLY: - Ando me sentindo um trapo.

BARBARA: - Impressão sua, você continua bonita. Eu preciso arrumar o cabelo, dar um corte... Quem sabe você aproveita, eu sei que não quer pintar por causa da gravidez, mas podia fazer uma hidratação, lavagem, escova, tirar as pontas... Sei lá, parece que quando a gente arruma o cabelo se sente mais pra cima, se acha mais bonita.

SCULLY: - Verdade.

BARBARA: - (DEBOCHADA) Quer dar uma passadinha no sex shop?

SCULLY: - Ah sim, imagina eu com essa barriga enorme dentro de um sex shop? O que vão pensar de mim?

As duas riem.


3:41 P.M.

Mulder entra na cozinha. Abre a geladeira pegando a embalagem de suco. O celular toca.

MULDER: - (AO CELULAR) Fala, Rato... Não, as duas foram às compras e acho que ao salão de beleza... Claro que demora, é como esperar chapeação e pintura na oficina! ... Hum? ... Que problema? ... Claro que posso ajudar, o que você precisa? ... Alicate de corte? Tenho, pode vir pegar... Eu ir até aí? ... Como assim você tá preso em casa? ... Tá, eu vou... Eu não vou rir de nada, eu nem sei o que tá pegando, mas agora não vou se não me contar! ... (SEGURA O RISO) Ah! Algemas... (DEBOCHADO) Sério, "amorzinho", você nunca me disse que curtia essas paradas... Claro que sei, eu já passei por isso num motel e paguei mico pro Skinner, agora você vai pagar mico pra mim!... Não sei se vou soltar você, a Barbara pode não gostar... (SACANA) Pensando bem, acho que não vou agora, vou esperar mais um tempo... Não adianta me xingar em russo, eu não tenho culpa se você é um pervertido, essa é a grande revelação do ano! Nunca pensei que você fosse chegado em algemas, mas bem desconfiei quando daquela vez você ficou algemado sem resmungar na varanda do Skinner... Eu não disse que você adora apanhar de um homem? ... (RINDO ALTO) Talvez eu vá. Aproveita que tá preso na cama e assiste televisão, "Ratoncito", relaxa e descansa... Podia ser pior, poderia estar com o rabo preso numa ratoeira...

Mulder afasta o celular da orelha, rindo. Ouvimos palavras altas em russo. Mulder desliga.

MULDER: - Impressionante, depois eu que levo a fama de tarado! Queria ser uma mosca pra ver e relatar o que esse povo x faz entre quatro paredes, com certeza me deixariam no chinelo! Os mais quietos são sempre os mais sacanas...


Delegacia de Polícia - 10:03 P.M.

Krycek entra na sala, calças jeans e camisa social. Vem puxando as mangas da camisa pra disfarçar as marcas das algemas nos pulsos. Bishop calado em sua mesa, lendo papéis. Peter e Chambers segurando o riso, fingindo trabalharem. Krycek se aproxima da mesa e percebe o camundongo morto na ratoeira. Krycek pega a ratoeira com a ponta dos dedos e ergue. Eles começam a rir.

KRYCEK: - Hoje é o meu dia! Vocês não tiveram infância?

Norris entra na sala. Olha pra Krycek.

NORRIS: - Mataram o seu parente? Investigue esse assassinato agora! Peça a necropsia dessa pobre vítima, faça o DNA, tire as digitais da ratoeira e procure se o culpado está no sistema.

Eles riem mais ainda. Krycek coloca a jaqueta na cadeira.

KRYCEK: - Vou colocar essa porcaria no lixo. Me aguardem!

CHAMBERS: - Tem mais de onde saiu esse. Tá cheio no porão. A delegacia tá infestada de ratos.

PETER: - Um virou até detetive!

Eles riem. Krycek, debochado, joga na lixeira. Norris vai pra sala dele, batendo a porta.

BISHOP: - Vocês sabem por que a namorada chama o detetive Krycek de rato?

PETER: - Porque como policial, ele anda pelos esgotos da cidade feito um rato.

BISHOP: - Não. Porque o sobrenome dele soa como a palavra rato em russo.

Eles se calam, impressionados. Krycek senta-se, olhando curioso para Bishop.

CHAMBERS: - Temos um intelectual na homicídios agora?

BISHOP: - Não sou intelectual. Gosto de ler e aprender coisas novas. Toda cultura me interessa.

PETER: - Você não é novato. Veio da onde?

BISHOP: - Filadélfia, Pensilvânia, terceiro distrito, divisão de entorpecentes. Tenho quinze anos de polícia.

KRYCEK: - Pediu transferência ou foi transferido?

BISHOP: - Precisei ser transferido. Fizemos uma batida, desmantelamos um cartel colombiano, apreendemos mais de duas toneladas de drogas, meu parceiro morreu numa troca de tiros e os traficantes me juraram de morte.

KRYCEK: - Lamento por isso.

PETERS: - Veio com a família?

BISHOP: - Pra sorte da minha família, eu não tenho família.

CHAMBERS: - Já arrumou lugar pra ficar?

BISHOP: - A polícia me arrumou um apartamento.

O telefone toca. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO TELEFONE) Homicídios, detetive Krycek... Ok, estamos indo.

Krycek desliga. Pega a jaqueta.

KRYCEK: - Vamos, Bishop. Encontraram um corpo dentro de uma caixa no Potomak. A noite apenas começou e já está prometendo.

Bishop se levanta e sai com Krycek. Norris sai da sala.

NORRIS: - E aí? Checov tá fazendo amizade com o novato?

CHAMBERS: - Acho que eles vão se entender. Tem coisas em comum...

Norris suspira. Volta pra dentro, batendo a porta.


Residência dos Mulder - 10:19 P.M.

No sótão, Mulder sentado na escrivaninha digitando no notebook. Victoria organizando os CD's na estante. Scully entra com uma bandeja. Coloca a caneca na frente de Mulder e entrega um copo pra Victoria.

VICTORIA: - (BEIÇO) Ah, eu também queria café.

SCULLY: - Leite. Está em fase de crescimento. E já está na hora de dormir, tem escola amanhã cedo. Deixa pra ajudar seu pai outro dia.

Scully sai. Victoria olha pro copo, aborrecida. Mulder vai até ela com a cadeira, pega o copo de Victoria, toma um pouco do leite e despeja um pouco de café nele.

MULDER: - Pronto, café com leite.

VICTORIA: - Mas o seu é preto!

MULDER: - (DEBOCHADO) Com leite. Eu bebi o leite antes, agora vou tomar o café.

Victoria sorri e leva o copo à boca.

VICTORIA: - Por que a gente precisa dormir quando não tá com sono, papai?

MULDER: - Porque precisamos ter horários, seguir uma rotina. Isso é bom pra saúde, Pinguinho.

VICTORIA: - Tá, mas por que a gente tem que dormir?

MULDER: - Porque o sono é necessário ao organismo. Precisa desligar, descansar a mente e o corpo.

VICTORIA: - Mas eu não tô cansada. Eu não tenho sono!

MULDER: - Que tal uma historinha? Hum? Conto uma história e você dorme.

VICTORIA: - Tá! Pode ser de terror? Conta um caso que você e mamãe resolveram, daqueles bem assustadores!

MULDER: - Termina o seu café com leite, enquanto penso num caso...

Victoria bebe tudo às pressas. Coloca o copo na escrivaninha. Mulder se levanta e a pega nos braços.

MULDER: - Vou contar sobre Eugene Tooms. Ele foi um pesadelo.

VICTORIA: - Sério? Por quê?

MULDER: - Ele comia fígados humanos!

VICTORIA: - Que nojo! Ele não tinha comida em casa?

MULDER: - Ele não comia comida de gente normal. Ele conseguia se esticar todo e passar por qualquer buraco para entrar na casa das vítimas. Ele tinha um ninho aonde hibernava, feito de papel, saliva e bílis.

VICTORIA: - O que é bílis?

MULDER: - É um fluído produzido pelo fígado que auxilia na digestão dos alimentos.

Mulder abre a porta.

VICTORIA: - Nossa! Conta mais, conta!!!! Você pegou ele?

MULDER: - Claro que peguei ele. O resto eu conto quando estiver na cama.

11:18 P.M.

Scully na cama, já deitada e lendo um livro. Mulder entra, fechando a porta.

MULDER: - Ainda bem que meu estoque de Arquivos X é enorme. Acho que vai render até ela entrar na fase de não querer mais ouvir histórias.

SCULLY: - (SORRI) Ela adora suas histórias, Mulder. As minhas ela atura.

MULDER: - Ciúmes?

SCULLY: - Como posso ter ciúmes da cópia? Ela faz jus ao original!

Mulder tira a camiseta e se deita. Beija a barriga de Scully.

MULDER: - Posso ligar a televisão?

SCULLY: - À vontade. Só vou terminar essa página e dormir.

MULDER: - Gostei do seu cabelo, tá diferente.

SCULLY: - Pensei que não tinha notado. Só dei uma aparadinha e lavei.

MULDER: - Essas unhas vermelhas...

Scully desiste e fecha o livro. Mulder liga a TV.

SCULLY: - O que tem de bom?

MULDER: - Aquele programa sobre alienígenas.

SCULLY: - Boa noite, Mulder!

Scully se ajeita e vira-se de costas pra ele. Mulder vira-se a abraçando.

SCULLY: - Não vai ver os alienígenas?

MULDER: - Não. Só escutar. Tô cansado.

SCULLY: - Imagino! O dia foi cheio.

MULDER: - Não debocha, Scully. Não fui trabalhar e tô começando a achar que ficar em casa é muito divertido. Lavei o carro, lavei você, tive que abrir as algemas do Rato, que estava em pânico preso na cama... Por sorte achei as chaves. Queria filmar a cena, mas ele ameaçou me colocar na internet mostrando como se lava um carro...

Scully começa a rir.

SCULLY: - Quando chegamos no shopping é que a Barbara se lembrou de que deixou o Krycek preso na cama.

MULDER: - É. Vocês inventam e a gente paga o mico e o papel de taradão. Sei bem como é... Toda baixinha é tarada.

SCULLY: - Hum, meu taradão... Me esquenta que eu tô com frio.

Mulder se aninha mais contra ela. Scully apaga o abajur.


Residência de Barbara Wallace - 6:03 A.M.

Barbara, só de camiseta e calcinha, desliga os alarmes. Vai pra cozinha e serve uma caneca de café. A TV ligada. Barbara presta atenção na televisão.

ENTREVISTADO (OFF): - E quem vai acreditar nisso? É um tipo de programa forçado, você percebe que tudo é uma armação combinada. Olha lá, eu vi uma sombra! Só ele viu, porque o público não vê nada, correto? E no final, ninguém encontra fantasma algum. Não são pessoas sérias, são gente comum bancando caça-fantasmas, cheios dos aparelhinhos com luzes e toda uma parafernália para impressionar o público.

Barbara pega a bolsa e retira as pílulas. Tira uma e coloca sobre o balcão. Olhos grudados na televisão.

REPÓRTER (OFF): - E o senhor acredita que possa haver algum perito no assunto para...

BARBARA: - Mulder!

Barbara toma um gole de café e coloca a caneca em cima da pílula, sem perceber. Pega o celular às pressas. Procura alguém na agenda e liga. Fica aguardando, empolgada.

BARBARA: - (AO CELULAR) Oi, é Barbara Wallace, repórter do Pensilvânia News. Posso deixar um recado para o produtor do programa Fatos do Além? Eu tenho uma indicação pra ele, é um especialista de renome em paranormalidade... Aguardo.

Barbara leva a caneca à boca. A pílula grudada embaixo da caneca. Ela procura a pílula no balcão. Não acha.

BARBARA: - Será que já tomei o anticoncepcional? Eu peguei, depois pensei em arrumar um lance pro Mulder...

Ela procura, até pelo chão, mas nada de achar.

BARBARA: - (AO CELULAR) Ah, desculpe, sim, Barbara Wallace... O nome dele é Fox Mulder, ele foi agente do FBI, é uma pessoa especializada nesses assuntos, vou te passar o número dele...

Krycek entra pela porta dos fundos. Aciona os alarmes. Observa Barbara falando ao telefone, enquanto tira a jaqueta e pendura no cabide.

BARBARA: - (AO CELULAR) Sim, pode ligar. Ele tem uma agência de investigação paranormal... (SORRI) Sério! Eu acho que vocês vão aumentar a audiência com o tema, levando um especialista na área para entrevistar... Não por isso, somos colegas. Bom dia pra você também.

Barbara desliga e corre pulando em cima de Krycek. Os dois trocam um beijo.

KRYCEK: - Conseguindo entrevista pro Mulder?

BARBARA: - Vai ser bom pra eles aparecerem na televisão. Vai chamar clientes... Como foi sua noite, Ratoncito?

KRYCEK: - Como sempre, feito um abutre catando defuntos. E a sua, Malyshka?

BARBARA: - Foi tranquila. Já deixei nosso almoço pronto. Quer tomar café da manhã?

KRYCEK: - Não. Quero um banho e cama. E nada de algemas. Você é muito desatenta, Malyshka. Quer fazer um monte de coisas ao mesmo tempo e acaba esquecendo alguma.

Barbara ri. Krycek aproxima-se da parede, segurando Barbara, grudada nele. Ela leva a mão ao interruptor e desliga. Krycek sai da cozinha, a levando agarrada nele enquanto sobe as escadas.

KRYCEK: - (RINDO) Não é grandinha demais pra querer colo?

BARBARA: - Não mesmo! Você fica gostoso de camisa social, sabia?

KRYCEK: - É, vou mudar meu visual assim que cair a ficha de que não sou mais um garotão.

BARBARA: - Você vai ser meu eterno garotão, Ratoncito... Mesmo com esses grisalhinhos aparecendo aos poucos. Tá ficando charmoso...

KRYCEK: - Respeite os meus cabelos brancos, garota.

Krycek entra no quarto.

BARBARA: - Hum... Não precisa de banho, adoro seu cheiro...

KRYCEK: - Ah preciso sim.

Krycek coloca ela na cama. Senta-se na poltrona, tirando as botas. Barbara desfaz a cama.

KRYCEK: - Não dormiu nenhum pouquinho?

BARBARA: - Não. Aproveitei pra adiantar umas reportagens. Ruim é conseguir falar com os contatos na madrugada... Mas pelo menos fiz um portfólio legal para o Mulder. Mandei pra uns amigos jornalistas. As pessoas sempre procuram os jornalistas quando não sabem aonde recorrer.

KRYCEK: - Norris azedou a noite toda na delegacia. A mulher botou ele pra fora de casa. Sei lá, as pessoas casam, passam uma vida inteira juntos, tem filhos e quando envelhecem, que é onde precisam mais ainda de alguém, aí querem o divórcio!

BARBARA: - Norris traiu a mulher?

KRYCEK: - Não. Não o Norris. Mais família que ele só o Mulder. Norris devia estar aposentado, mas não sabe viver longe da delegacia e acho que é isso o que incomoda a mulher dele. Mas se ele ficar em casa, aposentado e sem nada pra fazer, ela também vai dizer que ele incomoda. Vá entender as mulheres...

Krycek se levanta, rindo e abrindo a camisa. Vai pro banheiro.

BARBARA: - Pensa o inverso, o homem dentro de casa e a mulher trabalhando fora a vida inteira. Aí ela se aposenta. Um intrusa dando ordens no seu ambiente controlado por uma vida toda! Matuta na sua cacholinha. Agora me diz, Ratoncito. Dá pra aguentar velho aposentado zanzando dentro de casa e reclamando de tudo?

KRYCEK: - Me avise quando eu virar um velho chato!

Barbara vai pro banheiro. Senta-se no vaso e estende a perna em direção do box, abrindo a porta. Krycek tomando banho olha pra ela.

KRYCEK: -Não se tem privacidade?

BARBARA: - Não...

KRYCEK: - Quer entrar aqui?

BARBARA: - Não, mas só pra não estragar a minha chapinha, passei horas no cabeleireiro... (RINDO) Amor, pegou o xampu certo dessa vez? Não é o meu sabonete líquido, viu?

KRYCEK: - Peguei. Bom, pelo menos não fiquei careca.

Barbara solta uma gargalhada.

BARBARA: - Se sabonete íntimo deixasse careca, eu não pagava mais depilação! Ai, Ratoncito... Confundir sabonete íntimo com xampu... Só você!

KRYCEK: - Eu não tô acostumado a viver com uma mulher. Não sabia que teria de ler rótulos quando vou tomar banho... Tem mais alguma coisa feminina aqui que eu precise de aviso?

BARBARA: - Não... Adoro essas pernas grossas... Esses braços... Vontade de morder esse traseiro... Se seco já é gostoso, imagina molhadinho... Tô ficando com água na boca.

Krycek segura o riso.

BARBARA: - Ratoncito... Será que todos os casais do mundo se divertem juntos assim, na privacidade? Eu fico pensando, sabe? É gostoso essa coisa de ter alguém. Não tem graça viver sozinho.

KRYCEK: - Eu concordo com você. E não sei dizer se todos os casais se divertem juntos. Será que isso continua depois de muitos anos?

BARBARA: - Aí que tá. Me pergunto também. Será que com o tempo a gente vai perder a graça um pro outro? Como o Norris e a esposa? Vou perguntar pra Scully. Ela é a minha especialista no assunto.

Krycek desliga o chuveiro e enrola a toalha na cintura.

KRYCEK: - Você e a Scully juntas... Tenho até medo do que conversam!

BARBARA: - Nada demais. Coisas de mulher.

KRYCEK: - Coisas de mulher? Isso é o que me assusta! Tô começando a achar que era bem menos perigoso quando vocês se detestavam. Aliadas me soa um perigo iminente. Pensa que não percebi que quando você sai, Scully fica de olho em mim? E que quando ela sai, você fica de olho no Mulder? Agora arrumamos cães de guarda pra nos vigiarem? Entregam relatório completo uma pra outra?

BARBARA: - Impressão sua. Confiamos em nossos homens.

KRYCEK: - Sei... Com um olho aberto. Tenta uma vaga de detetive com o Mulder.

BARBARA: - Só se eu puder ser policial em tempo integral na nossa cama... Hum? Meu canalha gostosão!

Barbara se levanta, rindo. Puxa ele pela toalha. Fica na ponta dos pés, passando o nariz pelo peito dele.

BARBARA: - Hum... Cheirinho gostoso... É pra abrir meu apetite?

Krycek a agarra, a levantando do chão. Ela ri alto. Ele cheira o pescoço dela. Ela se arrepia.

KRYCEK: - (SÉRIO) Perdi o sono, Malyshka. Hoje quem abriu o apetite fui eu.

BARBARA: - Hum... Ratoncito canalha... Me gusta así!!! Habla malas palabras en ruso en mi oído, me vuelve loca!!!

KRYCEK: - Mas sem algemas dessa vez.

Os dois vão pro quarto, a risadas altas.


Residência dos Mulder - 11:11 A.M.

Mulder e Scully na cozinha, preparando o almoço.

SCULLY: - E eu acho que tudo já está encaminhado. Mulder, agora precisamos conversar sobre o parto.

MULDER: - Eu coloquei aí dentro, eu vou tirar. Já fiz um parto, posso fazer outro. Não quero você em hospital, sabe o medo que eu tenho de tomarem nosso filho.

SCULLY: - Eu sei e concordo, Mulder. Não sabemos o que Coin planeja e nem aqueles zumbis do sindicato.

MULDER: - Eles não são zumbis, Scully, mas nem sei como definir... Possessão? Mas não há possessão de cadáveres.Estão mais pra invasores de corpos.

Risadas altas de Victoria na sala.

SCULLY: - (SORRI) Hum, tem alguém se divertindo muito por aqui.

MULDER: - Qual será a piada?

Mulder seca as mãos no pano de prato e vai pra sala. Volta rindo.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nós somos o motivo da piada. Pinguinho está vendo álbuns de fotos.

VICTORIA: - Que cabelinho sem vergonha papai!!!

MULDER: - (DEBOCHADO) Tá vendo? Crescem e começam a tirar sarro da sua cara... Anos 80 minha filha, ninguém escapou de ser ridículo! Olha a foto da sua mãe!

Scully faz careta pra Mulder. Victoria dá uma risada alta.

VICTORIA: - Tá pior ainda!!! Mamãe parece que viu um fantasma!

SCULLY: - Gel era moda!E ainda tinha o laquê!

Victoria entra com o álbum aberto nas mãos.

VICTORIA: - Mamãe você tá muito engraçada com o papai nessa foto! As roupas de vocês são enormes!

MULDER: - Anos 90.

Scully olha pra foto, enquanto lambe o dedo sujo de molho.

SCULLY: - Hum... Isso foi nos Arquivos X ainda. Foi pouco depois de conhecer o seu pai.

VICTORIA: - Vocês eram colegas no FBI, né? E pela foto não se gostavam muito!

SCULLY: - Bom, ainda não. Foram tempos difíceis... Novatos nunca são bem recebidos, precisam conquistar seu espaço e seu valor...

Victoria senta-se à mesa, olhando o álbum.

VICTORIA: - Nossa! Mamãe você tá linda nessa com a vovó. O papai tá com cara aquela cara!

MULDER: - (PÂNICO) Eu não tô com aquela cara não.

Victoria aponta pra Mulder e ri. Mulder dá um beijo estalado na bochecha dela.

SCULLY: - Tá sim. Essa foto foi no meu aniversário, quando seu pai apareceu de surpresa na casa da vovó. Tio Bill estava de olho nele. Ninguém sabia que a gente já estava namorando.

MULDER: - Namorando? Acho que a gente namorou sete anos naquele porão, Scully. Quando nos declaramos já pulamos direto pro viver juntos, você não saía do meu apartamento!

SCULLY: - Eu? Você que vivia correndo batendo na minha porta com "Scully eu tô sofrendo".

Victoria ri alto.

VICTORIA: - O papai de barba! Que horror!!!

MULDER: - O que tem eu de barba? Hum? Continuo um gato lindo.

VICTORIA: - Nah! Você fica melhor sem barba. De barba parece um daqueles procurados da polícia.

Mulder faz cara de pânico. Scully começa a rir.

SCULLY: - Concordo, filha. Fica um neandertal.

MULDER: - (DEBOCHADO) As duas tiraram o dia pra folgar em mim?

VICTORIA: - Ah, aqui papai tá lindo. Sabia que vocês dois são lindos? Olha essa foto! Parecem dois artistas de cinema! Vocês combinam tanto!

Scully ergue a sobrancelha e olha pra Mulder debochado. Os dois riem.

MULDER: - Opinião da nossa filha.

O celular de Mulder toca. Scully fica atrás de Victoria, olhando o álbum com ela. Mulder atende.

MULDER: - (AO CELULAR) Alô? ... Sim, é ele... Sim... Sim, eu e minha esposa... Bom... (OLHA PRA SCULLY) Me dá só um momentinho?

Mulder toca em Scully, que vira-se pra ele. Victoria tira a atenção do álbum e fica atenta aos pais.

MULDER: - (COCHICHA) Querem que a gente faça uma palestra sobre paranormalidade e ciência no Kentucky.

Victoria sorri.

SCULLY: - (SORRI) Sério?

MULDER: - (AO CELULAR) Alô? Sim, desculpe. Continue... Como soube da gente? (OLHANDO PRA SCULLY) Ah, um amigo jornalista... Sim... Ah, na universidade, nessa sexta...

Scully faz sinal de positivo, empolgada.

MULDER: - (AO CELULAR) Se a nossa agenda está lotada?

Scully leva a mão à boca, rindo.

MULDER: - (AO CELULAR) É, está mas... Deixa eu ver aqui...

Mulder abaixa o celular e olha debochado pras duas. Victoria coloca as mãos na boca, rindo com Scully. Mulder leva o celular de volta a orelha.

MULDER: - (AO CELULAR) É... Eu posso encaixar... Ah, sobre valores...

Scully ergue a sobrancelha. Mulder olha pra ela fazendo sinal e perguntando com os olhos. Scully gesticula que nem faz ideia.

MULDER: - (AO CELULAR) ... Sim, eu entendo que vocês têm orçamentos para isso e não podem ultrapassar... (ARREGALA OS OLHOS) Mil dólares?

Scully olha impressionada pra Victoria que faz positivo pra ela.

MULDER: - (AO CELULAR) Tudo bem, a gente vai por mil dólares... Sim, então aguardo seu e-mail, professor Harley... Sim, ficamos combinados, estou colocando agora na minha agenda...

Scully segura o riso.

MULDER: - (AO CELULAR) Certo. Vou aguardar.

Mulder desliga.

MULDER: - Vão pagar mil dólares pra gente falar do que gosta por duas horas?

SCULLY: - É... Acho que sair do FBI foi muito bom!

MULDER: - Aposto que tem dedo da Barbara nisso. Ela tá se empenhando mesmo em nos ajudar.

SCULLY: - Ela está é maluca pra transformar você num escritor e ser a sua agente literária.

VICTORIA: - Posso ir junto com vocês? Ai, diz que sim papaizinho lindo, mamãezinha linda...

Victoria faz cara de cachorrinho pidão. Os dois olham pra ela, debochados.

MULDER: - O que a gente faz com a "maria-gasolina", Scully? Chama a Baba?

VICTORIA: - (BEIÇO) Nah.

SCULLY: - Hum... Acho que Victoria tem se comportado, faz os deveres direitinho, está bem na escola...

Victoria afirma com a cabeça, olhos arregalados e sorrindo.

SCULLY: - (SEGURA O RISO) É, Mulder. Nossa filha precisa de ar fresco.

Victoria pula da cadeira, abraçando-se nos dois.


12:11 P.M.

Scully termina de servir a mesa. Victoria já sentada.

SCULLY: - Mulder!!! Vem almoçar!!!

Scully senta-se ao lado da filha. Serve o prato pra Victoria.

SCULLY: - Estive na escola ontem, conversando com o professor Serling.

VICTORIA: - Ele reclamou alguma coisa?

SCULLY: - Ele tem motivos pra reclamar?

VICTORIA: - Nah!

Mulder entra na cozinha. Senta-se à mesa.

MULDER: - Qual o assunto, família?

SCULLY: - Victoria versus escola.

Scully entrega o prato pra Victoria. Serve o prato pra Mulder.

MULDER: - Então, Pinguinho? Tá gostando da escola?

VICTORIA: - Agora sim! O professor Serling sugeriu um monte de atividades pra gente fazer. A escola toda votou. Nossas séries ficaram com a horta, eu queria tanto o jardim, mas até foi melhor. A senhorita O'Neill nos ensinou a plantar legumes e verduras, cada um tem seu canteirinho pra cuidar.

SCULLY: - (SORRI) E o que você plantou no seu canteirinho?

VICTORIA: - Cenouras, beterrabas e alface. Na semana que vem a gente vai aprender a plantar tomates! Quero colocar tomates no meu canteirinho.

MULDER: - É... Geração consciente... O máximo que a minha geração plantou foi bananeira na sala de aula só pra incomodar os professores.

VICTORIA: - A gente podia fazer um canteirinho no quintal.

SCULLY: - Boa! Você vai com a mamãe, vamos comprar terra, mudas e seu pai faz as estacas.

MULDER: - Sou ótimo em fazer estacas, vamos matar vampiros?

Victoria começa a rir. Scully entrega o prato pra Mulder.

MULDER: - Agora você resolveu servir meu prato. Desconfio que estamos em dieta, pelo monte de salada e esse frango grelhado com anemia profunda...

Victoria ri mais ainda. Scully serve seu prato.

SCULLY: - Mulder, precisamos cuidar da saúde. Você come muita bobagem. Estou de olho em você. Coloca azeite de oliva nesse prato.

MULDER: - O que tem minha barriga? É sexy!

SCULLY: - Se continuar a comer porcarias, em breve estará competindo com a minha barriga, e eu tenho um bebê aqui dentro.

MULDER: - Uau! Será que eu tenho um também?

Mulder levanta a camiseta, infla a barriga e a examina. Victoria começa a rir.

VICTORIA: - Papai, meninos não têm bebês!!!

MULDER: - Ufa! Levei um susto agora!

Victoria ri. Mulder pisca pra Scully.

MULDER: - Então, fora a horta... O que mais estão fazendo?

VICTORIA: - Eu leio pra turma. Eles ainda não sabem ler direito e eu ajudo a professora a ensinar eles a lerem e a escrever. A Megan já tá conseguindo ler, mas ela erra muito quando escreve. O Darius já escreve melhor.

Mulder olha orgulhoso pra filha.

MULDER: - Então temos amigos?

VICTORIA: - Sim, Megan e Darius são meus melhores amigos. A gente divide o lanche, brinca juntos, eu ajudo eles na escola e eles me ajudam também. Ah! O Darius e eu tivemos a ideia de pegar nossas minhoquinhas e fazer adubo pra horta.

SCULLY: - Húmus.

VICTORIA: - Isso! Colocamos todas as sobras de verduras e as crianças da jardinagem nos dão as folhinhas secas. As minhocas estão adorando! Estamos com muitas minhocas agora e todo mundo que ajudar a cuidar delas.

Scully sorri orgulhosa.

MULDER: - Scully, minha única ressalva você sabe qual é.

SCULLY: - Mulder, a menina não tem culpa de ser filha de quem é, ok? Ele nem aparece nas reuniões, a avó dela é quem vai e ela pouco fala a nossa língua. Mas é uma senhora gentil.

MULDER: - Eu sei, já falei com ela, esqueceu? Mas não quero contato com o Robinson, sabe porquê. Moeda, entendeu?

VICTORIA: - Megan é legal, papai. Tadinha, ela não tem mãe. Deve ser muito triste a gente não ter mãe. Ela disse pra mim que a mãe dela não liga pra ela. Foi embora.

SCULLY: - Megan não tem mãe, mas tem uma grande amiga. Não é?

VICTORIA: - Eu disse que empresto a minha mãe quando ela precisar.

Mulder olha apaixonado pra filha. Scully sorri.

SCULLY: - Quem sabe você convida a Megan e a avó dela pra tomarem um café com a gente? Nós fizemos um bolo bem gostoso, você me ajuda?

VICTORIA: - Claro que sim! A gente pode convidar a vovó também?

SCULLY: - Claro. Por falar na sua avó, faz tempo que ela não aparece.

MULDER: - Anda perdida nos bingos da vida com aquelas amigas dela... Ou tá namorando.

SCULLY: - Mulder, deixa mamãe em paz!

VICTORIA: - Mamãe, a vovó não tem marido?

SCULLY: - Vovó é viúva, meu pai, seu avô Will Scully, faleceu bem antes de você nascer.

VICTORIA: - Ah, tá... Papai, e quem é a sua mãe e o seu pai?

MULDER: - Sua avó morreu antes de você nascer, ela se chamava Teena. Seu avô também, ele se chamava Bill. Meus pais não conheceram você.

VICTORIA: - Mas e aquele vovô que fuma?

Mulder olha pra Scully.

SCULLY: - É, Mulder... Sabíamos que um dia as perguntas viriam...

MULDER: - Ele também é meu pai.

VICTORIA: - Você teve dois pais? Foi adotado?

Scully sorri da inocência.

MULDER: - Não, é difícil você entender agora, mas eu tive dois pais. Quando crescer mais, eu explico.

VICTORIA: - Então por que o vovô não vem aqui em casa? A vovó vem!

Mulder perde os olhos no nada. Scully percebe.

SCULLY: - Quem sabe chega de perguntas e vamos comer antes que esfrie? Hum?

MULDER: - Ela precisa saber. Tem direito de saber e tem inteligência pra entender. Pinguinho, ele é meu pai, mas nunca me criou, nem conviveu comigo. Quem me criou foi o outro. Ele não é uma pessoa legal.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Eu vou falar a verdade pra minha filha.

Victoria olha para os dois, curiosa.

MULDER: - Ele nunca virá aqui. Não se depender de mim. Muitas das coisas ruins que aconteceram na vida da sua mãe e da minha, tiveram o dedo dele por trás disso.

VICTORIA: - Ele era um dos homens maus?

MULDER: - O líder deles. Agora não é mais, sumiu do mapa feito cachorro assustado. E isso é bom, muito bom. Admito, algumas vezes ele me salvou, mas outras vezes virou as costas pra mim e até tentou me matar.

VICTORIA: - Entendi. Mas mesmo assim você o perdoou e o ama.

MULDER: - (ABAIXA A CABEÇA) ...

VICTORIA: - Eu sei que sim. Mas não fica triste porque ele ama você também. Do jeito dele. Tem pessoas que não sabem o que é amor porque nunca tiveram quem lhes ensinasse amor.

Mulder olha pra filha, emocionado. Victoria fica olhando pra Mulder, como que o analisando nos olhos.

VICTORIA: - Mas existem outras que, mesmo crescendo sem ter amor, elas sabem o valor do amor e dão todo o seu coração quando encontram quem o queira. Esse é um amor puro.

Scully olha incrédula pra Victoria. Mulder também.

VICTORIA: - Você não teve sorte e nem exemplo, mas aprendeu sozinho a ser pai. E pra mim você é o melhor pai do mundo!

MULDER: - (SORRI SEM GRAÇA) ... Você não sabe o orgulho que eu tenho de você, Pinguinho.

VICTORIA: - Deve ser o mesmo que eu tenho de você e da mamãe.

Scully solta o garfo e agarra Victoria, dando um beijo demorado na bochecha dela. Victoria sorri.

MULDER: - Sexta-feira vamos de carro até o Kentucky, nós três... Ops, nós quatro, ou o Campeão vai se sentir excluído.

VICTORIA: - Bryan conta só meio.

SCULLY: - Mas e quem disse que o nome dele vai ser Bryan?

VICTORIA: - (BEIÇO) ... Gosto de Bryan. Ele também gosta, né, maninho?

Victoria beija a barriga de Scully. Mulder começa a rir. Scully segura o riso.

MULDER: - Sua mãe e eu vamos palestrar na Universidade de Lexington. E vamos arrumar uma cabana numa cidade pacata nos arredores e passar o final de semana em meio a natureza.

Scully e Victoria sorriem.

MULDER: - Vamos pescar, caminhar, passear, tomar banho de riacho... Ando cansado da cidade.

SCULLY: - Preciso disso. Da última vez que você prometeu paz num lugar em meio a natureza, acabou que Barbara e eu quase perdemos os maridos.

MULDER: - Sem investigação de nada, prometo. Só curtir e relaxar. Que tal Pinguinho?

VICTORIA: - Adorei!

MULDER: - Liga pra Meg. Quem sabe ela quer ir junto? Ninguém leva sua mãe pra passear. A pobre da velha fica entocada dentro de casa e todo mundo sai pra viajar e se divertir. Só lembram dela pra cuidar de neto ou pedir dinheiro emprestado. Se eu tivesse mãe, não ia deixar ela abandonada em casa.

SCULLY: - Mulder, ela não está abandonada em casa! Eu posso ligar, mas já sei que mamãe vai estar ocupada. Esse final de semana é campeonato de bridge da terceira idade na igreja.

MULDER: - Mas a minha sogra tá mergulhada na jogatina agora? E arrastando o padre junto?

SCULLY: - (RINDO) Mulder, deixa a mamãe em paz!

MULDER: - Eu levo um baralho. Pronto. Vou ensinar Victoria a jogar.

VICTORIA: - Oba!!!!

SCULLY: - ... Se não concordar comigo, fale. Mas pensei em um casal que adoraria esse programa. E você tá em débito com eles. Bem alto. Prometeu um final de semana em meio a natureza e terminou com polícia. E ainda por cima... Mentiu pra ele. E ela tem arrumado clientes e dinheiro pra gente. Estamos indo pra essa viagem porque ela nos conseguiu isso.

MULDER: - A Barbara e o Rato? Você se importaria?

SCULLY: - Nenhum pouco. Quando você começar a procurar o Pé-Grande, o que certamente vai acontecer, leva o Krycek pra ouvir suas teorias e sair em busca da criatura, porque eu vou ficar tomando limonada numa rede bem tranquila e longe de coisas malucas!

MULDER: - Por que você faz esse péssimo juízo de mim, mulher? Eu não vou sair atrás de Arquivo-X! Vou passar um final de semana com a família e os amigos!

SCULLY: - Docinho, grave bem na sua memória o que seu pai acabou de falar, você é minha testemunha.

VICTORIA: - Papai, você vai procurar o Pé-Grande mesmo? Posso ir junto? Me conta tudo o que sabe, as suas teorias... Porque é chato ficar na rede tomando limonada.

Scully olha incrédula pra Victoria. Mulder começa a rir.

MULDER: - Aguenta, Dana Scully! Scullyzinha nada, essa é uma Mulderzinha legítima! Yes!!! Posso não ter acertado esse tiro, mas a genética acertou por mim!

Scully faz careta pra Mulder. Afaga a barriga.

SCULLY: - Você faz companhia pra mamãe, né bebê? Você é um Scully. Prefere limonada e rede, mesmo que seu pai tenha acertado esse tiro, a genética vai me fazer justiça.

MULDER: - Vamos ver, deixa ele sair daí pra se manifestar.

SCULLY: - Eu vou rir muito de você se der empate, Mulder!

MULDER: - Não vai dar. Meu garoto vai sair da sua barriga já perguntando "cadê o Arquivo-X"?


Residência de Barbara Wallace - 2:30 P.M.

Barbara, vestida só de robe, entra na cozinha, bocejando. Liga a cafeteira. Pega o controle e liga a TV. Pega a caneca de cima do balcão e coloca dentro da pia. Abre a torneira pra lavar a caneca. Então percebe a pílula do anticoncepcional que cai na pia. Barbara arregala os olhos, tenta pegar a pílula, mas ela cai no ralo. Ela leva a mão ao peito, em pânico.

BARBARA: - Ai... meu... Deus! Fica calma, Barbara. Fica calma. Não vai dar nada. Respira, respira...

Ela tenta respirar fundo, mas está em pânico. Krycek entra na cozinha. Barbara vira-se de costas pra pia, olhos arregalados. Krycek se aproxima e dá um beijo nela.

KRYCEK: - Boa tarde... O que foi?

BARBARA: - (SORRI SEM GRAÇA) Nada... Tudo tranquilo... Vou fazer seu chá.

KRYCEK: - Eu mesmo posso fazer o meu chá.

Barbara vira-se rapidamente pra pia, olhando em pânico para o ralo.

KRYCEK: - Você está estranha. Aconteceu alguma coisa?

BARBARA: - Espero que não ou o apocalipse vai começar... Ah! Lembrei que tenho roupa pra lavar.

Ela dispara da cozinha. Krycek acena negativamente com a cabeça, enquanto coloca água na chaleira.

KRYCEK: - Malyshka, não vai tomar café primeiro? O que deu nessa maluca?


10:01 P.M.

No quarto, a TV ligada. Scully, dormindo, se revira procurando uma posição melhor pra barriga. Mulder, sorrateiro, se levanta da cama, coloca o travesseiro no lugar dele e sai de fininho do quarto. Desce as escadas. A TV na sala ligada.

MULDER: - As crianças já dormiram. O que tá passando de bom aí?

Victoria atirada no sofá, comendo pipocas.

VICTORIA: - Papai vai começar um filmão de terror!

Mulder se atira no sofá. Coloca os pés sobre a mesa de centro. Pega pipocas.

MULDER: - Ainda bem que você aprendeu a mexer no microondas.

VICTORIA: - Papai, eu já tenho quase sete anos, neh?

MULDER: - Caramba! É um clássico da Hammer!

VICTORIA: - Que é Hammer?

MULDER: - Um estúdio britânico que só fazia filmes de terror. Esse cara aí é o Peter Cushing e o outro o Christopher Lee.

VICTORIA: - Adoro filme de terror!

MULDER: - Olha aqui, se depois você começar a chorar com medo de dormir sozinha, acabou a nossa festa pra sempre, ok? Sua mãe vai me matar! (IMITANDO A VOZ DE SCULLY) Mulder, você não tem juízo, deixar uma criança de seis anos assistir filme de terror!

VICTORIA: - Eu não vou chorar! Por que eu iria chorar? É um filme, papai. Vê se você também não vai chorar de medo porque a mamãe vai ficar uma fera com a gente.

MULDER: - Engraçadinha. Eu sou o adulto aqui.

VICTORIA: - Tem certeza?

Mulder acerta a almofada nela.

VICTORIA: - Tá vendo? Já começou a fazer bagunça, criança!

MULDER: - Me dá essa pipoca aí. E vamos assistir apenas um filme, porque você tem escola amanhã e eu tenho que trabalhar.

Mulder rouba pipocas e aumenta o volume da TV.

MULDER: - Buuu... Um vampiro se aproxima na escuridão, sedento pelo sangue de um pescoço humano...

Mulder ataca Victoria, fingindo morder o pescoço dela. Victoria começa a rir.

VICTORIA: - Desista, papai. Isso não é lógico!

MULDER: - Fala sério, onde tá o botão Scully em você, quero desligar! Chata!

VICTORIA: - Buuu... E lá atrás vem Fox Mulder segurando uma cruz e achando que isso vai afastar o mal.

MULDER: - Claro que afasta! Vampiros tem medo da cruz.

VICTORIA: - Tá certo... Deixa a criança acreditar nos seus mitos.

MULDER: - Victoria Mulder, já notou que está com um vocabulário adulto demais pra sua idade? Não devia estar gaguejando, trocando letras e tentando se fazer entender?

VICTORIA: - Quer que eu coloque fogo na casa, entre com pés sujos de lama e fique feito uma retardada na frente da televisão? Coloque fogo nos seus livros e pode ser que eu volte a ser uma criança estúpida.

Mulder olha incrédulo pra ela.

MULDER: - Você sabe que tem livros lá em cima que não são pra sua idade. São assuntos diversos e alguns com assuntos proibidos pra você ainda. Não quero que pegue os livros sem perguntar primeiro pra mim ou pra sua mãe. Como filmes. É a mesma regra.

VICTORIA: - Tá bom...

MULDER: - Filha... Precisamos conversar. Esse final de semana vai servir bem pra isso. Por hora vou emprestar um livro que você vai gostar. O Pequeno Príncipe. É um livro legal que você pode ler. É que papai quer que você aproveite sua infância. É tão curta. Depois vai ter saudades.

VICTORIA: - Mas eu tô aproveitando a minha infância. Só que eu quero aprender as coisas. Tenho fominha disso.

MULDER: - Não prefere fominha de pipocas e histórias legais? Você tem seis anos, com sorte, tem mais seis pra ser criança. E uma vida toda pra ser adulta. Deixa as teorias do mundo pra mais tarde, pra quando você tiver mais experiência da vida e poder verificar se elas são verdadeiras ou falsas, hum? Você parece amadurecer um ano em um mês! E agora na escola, a coisa ficou pior. Vamos devagar, ok? Promete pra mim? Que tal brincar mais e pensar menos?

Victoria fica olhando pra Mulder, o analisando nos olhos.

MULDER: - Pinguinho, quando foi que seu pai mentiu pra você? Ahn?

VICTORIA: - Nunca. Nem que você quisesse.

MULDER: - Então acredite no que estou falando. Aproveita a infância. É a melhor parte da vida.

VICTORIA: - Tá bom, papai. Eu prometo brincar mais e pensar menos.

Mulder envolve o braço nela.

MULDER: - Hum... Acho que o vampiro tá escondido atrás da cortina.

VICTORIA: - Legal!!! Se você ficar com medo, pode dormir na minha cama comigo. Eu protejo você.

Mulder sorri, revira o cabelo dela e a beija na cabeça.

MULDER: - Minha parceirinha... Pedaço de mim. Amor eterno.

VICTORIA: - Até você me trocar pelo Bryan. O seu garoto.

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Você tá com ciúmes, sabia? Eu não vou trocar você pelo Bryan. Tem lugar para os dois. Cabe sua mãe, você, o Bryan... No seu coração não cabe um monte de gente?

VICTORIA: - Cabe.

MULDER: - Então? Você é a minha garotinha. Minha eterna princesinha. Mora aqui no meu coração. Amo você, pedaço de mim. Se soubesse tudo o que fiz pra você nascer... Eu já amava você bem antes de você pensar em existir.

VICTORIA: - Eu sei. Só tenho medo que você se esqueça de mim.

MULDER: - Mas como vou me esquecer do motivo que eu tenho pra viver? Hum?

Victoria se abraça nele, num suspiro. Mulder sorri. Faz carinhos nos cabelos dela.



BLOCO 2:

2:21 A.M.

Mulder entra na penumbra do quarto e se deita na cama.

SCULLY: - Só quero ver ela acordar cedo amanhã.

MULDER: - Ela acorda. Preciso ter momentos com a minha filha.

SCULLY: - Tente ter mais momentos durante o dia, Mulder.

MULDER: - Escola, trabalho, dever de casa, jantar e cama? Se não abro exceções fica difícil. Scully, o que foi aquilo no almoço?

SCULLY: - Estou martelando até agora na cabeça, Mulder. Não sei. Juro que nunca falei nada sobre seus problemas de família na frente dela.

MULDER: - Posso parecer idiota?

SCULLY: - E desde quando precisa da minha permissão pra isso, Mulder?

MULDER: - Engraçadinha... Victoria lê mentes.

Scully vira-se pra ele.

MULDER: - Não me soa novidade, mas hoje vi na prática. Quando comecei a falar dos meus pais, todas as coisas ruins vieram na minha cabeça. Lembranças que machucam. Ela captou. Por isso disse aquelas coisas e não perguntou mais nada, como se já tivesse todas as respostas que precisava. O mesmo aconteceu agora à noite, quando eu disse que ela precisava aproveitar a infância. Me olhava, parecendo ler o que eu estava pensando: que eu não aproveitei a minha e isso me aborreceu. Então depois concordou de imediato em fazer o que pedi.

SCULLY: - ... E devemos permitir isso?

MULDER: - Claro que não. Mas vamos fazer um jogo pra saber se realmente ela lê mentes. Faça parede de tijolos mentalmente na frente dela. Lembra disso? Era a única coisa que funcionava comigo. Se Victoria perceber isso, certamente vai ficar mais curiosa, até perguntar por que estamos fazendo isso. E teremos a confirmação.

SCULLY: - Não acha melhor perguntar pra ela?

MULDER: - Podemos perguntar, mas ela sabe que só ela faz isso? E eu não quero ter que contar coisas sobre a natureza dela. Não agora. Lembra quando você disse pra ela não ligar a TV com a mente, e ela perguntou "mas por quê se todo mundo faz isso". Ela acha que muito dos talentos que tem são normais a todos. E temos outro problema. Ela está deixando de ser criança muito rápido. Vai ser ótimo ter um irmão. Acho que quando o bebê nascer, ela vai ter outra criança aqui pra se ocupar e vamos conseguir segurar um pouco essa maturidade precoce.

SCULLY: - A curiosidade dela é algo além da conta, Mulder. Vamos ter que saber como dar esse espaço, mas puxar a corda quando for demais, entende?

MULDER: - Claro. Vai ser bom tirar esse fim de semana. Vou conversar mais com ela... Scully, incentive Victoria a trazer os amigos aqui. Isso vai ajudar também a segurar a infância dela. Acho que vou comprar uma bicicleta e ensiná-la a andar.

SCULLY: - Mulder, ela vai adorar isso! Como não pensamos numa bicicleta antes?

MULDER: - Tem vezes que me esqueço de como é ser criança, Scully. Eu também não pude ser criança por muito tempo. Aconselhei ela a ser criança, porque a infância passa rápido.

SCULLY: - Nossa parabólica é mais esperta do que a gente pensa.

Mulder beija Scully. Depois beija a barriga dela. Scully sorri, vira-se de costas pra ele. Mulder a envolve com o braço.

MULDER: - Boa noite, Scully.

SCULLY: - Boa noite, Mulder.

MULDER: - Boa noite, Bryan.

SCULLY: - (RINDO) É, parece que eu não vou mesmo escolher o nome desse menino!

MULDER: - (DEBOCHADO) Se faz de maluca, Dana Scully. Eu sei que você gostou. Mas se ele nascer cantando, quero exame de DNA. E você vai cobrar pensão do seu cantor canadense.

Scully começa a rir.

SCULLY: - Mulder, como você é bobo! Deixa o Bryan Adams em paz!


Residência de Barbara Wallace - 6:03 A.M.

Barbara fecha o notebook sobre a mesa. Olha para o relógio. Vai até a cozinha, pega um copo de água. Abre a bolsa. Tira a pílula da cartela. O celular toca. Barbara olha pro celular e atende correndo, colocando a pílula no balcão.

BARBARA: - (AO CELULAR) Mulder? Aconteceu alguma coisa? ... Ah, levei um susto!

Barbara pega o copo e toma um gole de água. Krycek entra em casa, olha pra ela e liga o alarme.

BARBARA: - (AO CELULAR) Ele tá chegando, já passo pra ele... Sim, claro que sim. Por mim...

Krycek olha pra Barbara, a questionando com os olhos. Barbara afasta o celular.

BARBARA: - É o Mulder.

KRYCEK: - Ah!

BARBARA: - (AO CELULAR) E ele não disse o nome do jornalista? ... Bom, mandei sim seu portfólio para um amigo no Kentucky, só pode ter sido isso. Nossa Mulder, fico muito feliz!

Krycek passa por Barbara, tirando a jaqueta. A manga da jaqueta pega na pílula, que cai pra baixo do balcão. Krycek abre a geladeira e pega uma embalagem de suco. Serve um copo.

BARBARA: - (AO CELULAR) Sério? ... Acho que é um ótimo valor, Mulder! Agora vê se termina logo aquele livro com a Scully pra gente publicar... Claro! E não esqueça da sua amiga aqui. Se você ficar bem de grana, eu fico também! (RINDO) Tá, vou passar pro "amorzinho".

Krycek pega o celular. Vai pra varanda com o copo. Barbara sorri. Vai pegar a pílula.

BARBARA: - Cadê?

Barbara procura pelo balcão, revirando tudo. Ergue a caneca. Se agacha, olha no chão, no tapete, mas não vê que está bem escondida atrás do pé do balcão. Ela continua de quatro no chão, pensativa.

BARBARA: - Eu peguei, tirei da cartela... Atendi o Mulder... Eu tomei água. Será que tomei a pílula junto? Devo ter tomado, isso não ia voar do balcão.

Krycek entra na cozinha e coloca o celular no balcão. Olha pra Barbara de quatro. Inclina a cabeça pro lado, num sorriso sacana.

KRYCEK: - Posso saber o que está fazendo de quatro nesse chão? Provocando um roedor?

BARBARA: - Não, tô procurando uma coisa.

KRYCEK: - Que coisa? Quer ajuda?

BARBARA: - Não. Deixa pra lá. Eu tô ficando doida. Você tem razão, preciso fazer uma coisa de cada vez, porque ando muito avoada das idéias! O Mulder tá atrapalhando a minha concentração, pela segunda vez!

Barbara se levanta.

KRYCEK: - Doido estou eu. Bem doido hoje. Não vai pular em mim?

Barbara pula nele, enlaçando as pernas, num sorriso. Envolve os braços no pescoço dele.

BARBARA: - Uau! O que aconteceu essa madrugada? Prendeu todos os bandidos da cidade ao mesmo tempo?

KRYCEK: - (SORRI) Não. Amanhã tô de folga e em duas semanas estarei de férias. Hoje comprei as passagens.

BARBARA: - Oba!!! Quer dizer que vamos ter mais tempo juntos?

KRYCEK: - Quer dizer que vamos aproveitar cada minuto. Vamos viajar, dançar, cantar, beber, pular, gritar, rir e tudo o que temos direito! Ah, Mulder nos convidou pra um fim de semana em meio a natureza. Vamos ou acha que é outra cilada e ele vai me levar pra um hotel gay de novo?

Ela passa a mão no peito dele.

BARBARA: - (SORRI) Que tal a gente subir e você me mostrar a sua masculinidade?

KRYCEK: - Sério, Malyshka. Passei a noite toda pensando em você. Tá virando vício. Tá ficando insuportável. Vamos subir? Preciso de um banho. Tô maluco pra fazer amor com você.

BARBARA: - Quem diria... Eu que tinha que ficar dando indireta pra você tomar coragem... Agora você tá bem direto mesmo!

KRYCEK: - Quer o canalha ou não? Ainda dá tempo de chutar porta à fora.

BARBARA: - Eu não quero chutar meu rato pra fora. Já foi um trabalhão colocar ele pra dentro!

Krycek devora os lábios dela num beijo, que ela corresponde.

BARBARA: - (SÉRIA) Ratoncito... A gente tem que conversar uma coisa primeiro, eu esqueci de...

KRYCEK: - A gente conversa lá em cima, minha jornalista tagarela.


Residência dos Mulder - 6:11 A.M.

Mulder sobe as escadas com uma caneca de café. Olha para a cama no quarto, vazia. Curioso vai até o banheiro.

MULDER: - Scully?

Nenhuma resposta. Mulder sai do quarto. Passa pelo quarto de Victoria. Espia pela porta entreaberta. Victoria dormindo agarrada em Cookie. Mulder sorri. Percebe as luzes do quarto ao lado acesas. Se aproxima em silêncio e olha pra dentro.

O quarto todo decorado em azul com bichinhos astronautas. Berço montado e arrumado, móbile, um abajur em forma de lua com um astronauta segurando a bandeira americana. Scully dobra as roupinhas do bebê, num sorriso de felicidade, guardando na gaveta. Mulder recosta-se na porta, admirando Scully. Ela não percebe. Ergue uma roupinha de marinheiro. Sorri.

MULDER: - Vou tornar a repetir. A maternidade lhe cai bem.

SCULLY: - Imagina ele usando essa roupinha?

MULDER: - Bom, ele vai gostar de se vestir de marinheiro, tem sangue Scully.

SCULLY: - (DERRUBA LÁGRIMAS) Estou tão feliz que tenho deixado você de lado.

MULDER: - Não me sinto deixado de lado.

Scully seca as lágrimas e continua dobrando as roupinhas. Mulder coloca a caneca sobre a cômoda e a envolve por trás, pela cintura, apoiando o queixo no ombro dela.

SCULLY: - Não acompanho mais você nos Arquivos X...

MULDER: - Tem gente pra fazer isso. Logicamente com você toda a investigação é mais interessante, somos uma dupla, mas isso não importa agora. O que mais o moleque tem aí pra vestir?

Scully ergue uma pequena camiseta com uma seta de mouse escrita "PASTE Ctrl + V". Mulder sorri.

SCULLY: - Presente do Langly. É pra combinar com a sua camiseta "COPY Crtl + C". Criativo, não?

MULDER: - E se ele não for minha cópia?

SCULLY: - Aí terei que comprar uma camiseta igual pra Victoria porque ela é.

Mulder sorri, beijando o ombro dela. Scully ergue um macacão cheio de desenhos de aliens.

SCULLY: - Barbara nos deu esse, fez a vendedora buscar o tamanho certo no estoque... Ai Deus, tô louca pra que ele nasça, mas ao mesmo tempo é tão bom curtir essa barriga!

MULDER: - Bom... Agora podemos curtir muitas barrigas.

Scully se vira olhando debochada pra ele. Mulder abaixa a cabeça e ri.

SCULLY: - Nunca mais verei meus pés, é isso o que está insinuando, Fox Mulder?

MULDER: - Eu não insinuo nada. Eu vou direto ao ponto.

SCULLY: - Não sei, Mulder. Não sou mais menina. Já passei dos 40 e estou na idade de risco. Até essa gravidez me preocupa.

MULDER: - Mas estamos fazendo todos os exames direitinho. Não coloca minhoca na cabeça. Nosso moleque tá bem, Scully. Você também. Pena que a natureza seja ingrata com as mulheres.

SCULLY: - Prazo de validade. Vocês estão livres disso.

MULDER: - Não tô não. Meu prazo de validade termina com o seu.

SCULLY: - Poderia achar uma mulher mais nova e ter todos os filhos que quisesse.

MULDER: - Eu quero é você e já tenho todos os filhos que eu quero. Eu tenho uma família só minha. Posso querer mais da vida?

Os dois trocam um beijo apaixonado. Scully se abraça nele, Mulder a abraça.

SCULLY: - Mulder... Você é feliz?

MULDER: - O homem mais feliz do mundo. E você, é feliz?

SCULLY: - A mulher mais feliz do mundo!

Os dois percebem Victoria parada na porta, de pijamas e pés descalços. Victoria corre e se abraça neles.

VICTORIA: - E eu sou a menina mais feliz do mundo!

SCULLY: - Bom, estando todos felizes... E acordados... Que tal umas panquecas?

VICTORIA: - Com geleia de morango da vovó?

MULDER: - A gente vai ficar mais feliz ainda!

Os dois trocam um beijo. Victoria sorri.

VICTORIA: - De novo!

Mulder a pega no colo, rindo.

MULDER: - Sua beijoqueira!

Mulder troca um selinho com ela.

MULDER: - Vamos pra cozinha ajudar sua mãe. Depois escola.

VICTORIA: - Não posso ficar com vocês hoje?

MULDER: - Escola. Papai vai trabalhar e a mamãe tem muito o que fazer. Não esquece, sexta-feira a gente vai viajar. Já vai perder aula.

VICTORIA: - Eu aprendo rápido. Posso perder muitas aulas.

Scully ri.

MULDER: - É, eu sei que aprende rápido. Já aprendeu até chantagem com seus pais. Vamos, Pinguinho, sem negociações.

Os dois saem do quarto. Scully fecha a gaveta num sorriso. Olha pra sua barriga e passa as mãos.

SCULLY: - Só falta você pra comer panquecas nessa casa, meu amor. E a minha felicidade vai ficar completa.


Residência de Barbara Wallace - 6:27 A.M.

Krycek, com os cabelos molhados, só com as calças do pijama, se deita em cima de Barbara, trocando um beijo faminto. Os dois rolam pela cama, em carícias. Krycek leva os lábios ao pescoço dela.

BARBARA: - Ratoncito... É sério... Vamos conversar sobre uma coisa que...

Krycek a cala em outro beijo, dessa vez de língua. Procura as mãos dela com as suas. Barbara solta os lábios, excitada, mas ainda em dúvida.

BARBARA: - Ratoncito, me escuta, você tá muito empolgado, tô adorando isso, mas acontece que eu esqueci... (ARREGALA OS OLHOS) Uouououou!!!!!!!! Au, Ratoncito!!!! Dios mío, hombre!!! Qué te pasó hoy que está en llamas???

Ele se move contra ela, lentamente, erguendo o corpo, ofegante. Barbara se entrega.


Residência dos Mulder - 3:47 P.M.

Scully entra pela porta dos fundos com um saco de compras. Coloca sobre a mesa. Victoria entra correndo pela porta dos fundos. Darius vem atrás dela.

VICTORIA: - Mamãe, o Darius pode brincar comigo?

SCULLY: - Oi, Darius!

DARIUS: - Oi, senhora Mulder!

SCULLY: - Pode sim, mas cadê o beijo na sua mãe? Chega da escola e nem me beija?

Victoria dá um beijo nela. Angela bate na porta aberta.

ANGELA: - Scully? Desculpe entrar assim.

SCULLY: - (SORRI) Entra, Angela.

ANGELA: - Scully, acabo de pegar nossos filhos e o meu mais velho já me arruma outra saída. Vou ter que levar o Chris pra comprar um tênis pro basquete. Você se importa em dar uma olhadinha no Darius? É jogo rápido!

SCULLY: - Pode ir tranquila!

Darius e Victoria começam a pular felizes.

ANGELA: - Obrigada. Devo essa.

SCULLY: - Deve nada.

Angela sai. Scully olha para Darius e Victoria.

SCULLY: - Podem ir brincar. Eu vou preparar um lanche pra vocês.

VICTORIA: - Legal!

Victoria sai porta à fora. Darius vai sair e dá de cara com Mulder chegando. Mulder olha sério pra ele. Darius ergue a cabeça, olhando pra Mulder.

DARIUS: - Oi seu Mulder.

MULDER: - O que tá fazendo com a minha filha, Bob Marley?

DARIUS: - Brincando!

Scully segura o riso. Mulder encara sério o garoto.

MULDER: - É? Não foi o que eu soube. Me disseram por aí que você é o namorado dela.

DARIUS: - (ASSUSTADO) Não sei quem disse isso, mas eu juro que não sou! Eu nem tenho idade pra namorar! Só tenho sete anos! Minha mãe vai tirar meu videogame se essa mentira chegar aos ouvidos dela!

Mulder segura o riso.

MULDER: - Tô de olho em você, malandro. Fica esperto. Eu sou policial e ando armado.

Mulder sai da frente. Darius corre pra fora, assustado.

SCULLY: - (RINDO) Mulder, você assustou o menino! Victoria já não tem amigos e você ainda coloca pra correr o único que mora perto?

MULDER: - Adoro assustar a molecada! E aí, tem lanchinho pra mim?

SCULLY: - Comprei pão de centeio. Vou fazer um sanduíche natural com cenoura e alface.

MULDER: - Scully, por que você não me deixa ser feliz? Hum? O coelho nessa casa não sou eu, é uma branquinha que tá lá fora no quintal. Ela se chama Nine e adora cenouras e alfaces!

SCULLY: - (OLHA DEBOCHADA PRA ELE) Comprou?

MULDER: - Comprei. Acho que Victoria vai adorar a bicicleta. Tem um cestinho, cor de rosa, cheio de fitinhas coloridas, bem menina mesmo.

SCULLY: - Vou fazer o lanche deles e vamos começar a arrumar tudo o que vamos levar para a palestra.

MULDER: - Sério, vou tomar um banho e ensinar minha filha a andar de bicicleta. Depois vou comer alguma coisa, pegar um café e subir pro sótão. Tem muita coisa pra fazer. Pensei em preparar uma apresentação. Acho que vou ter que incomodar a Barbara novamente.A melhor hora pra pegá-la acordada é antes do Krycek chegar ou depois dele sair pro trabalho, eles combinam horários. Essa hora eles devem estar dormindo.

SCULLY: - Com certeza. Eu faço um lanche pra você, suba agora e tome seu banho.

MULDER: - Já disse que te amo?

Mulder dá um beijo estalado na bochecha de Scully, que sorri boba.


Residência de Barbara Wallace - 4:23 P.M.

Barbara sai do box, enrolada numa toalha. Vai pro quarto. Krycek dormindo na cama. Barbara olha pra ele preocupada. Vai para o closet. Krycek se vira na cama, procurando por ela. Permanece de olhos fechados.

KRYCEK: - Malyshka? O que você queria conversar?

BARBARA: - Esquece. Agora é tarde demais! Você não me deu tempo!

Krycek dorme de novo. Barbara sai do closet ajeitando o vestido.

BARBARA: - Agora não sei, desregulou tudo! Já que eu esqueci um dia, vou parar, deixar descer e começar de novo. Uma eu sei que esqueci, a outra tô na dúvida. E pra ajudar, você chegou hoje num fogo só. Nem me deu folga, seu Ratoncito safado. Acho que a palavra férias deixou você empolgado.

Krycek dormindo.

BARBARA: - Ah, cansou é? Também pudera! Não sei o que anda bebendo esse homem, que anda impossível. Quer acabar com a nanica espremida no colchão!

Barbara se aproxima, ajeita o lençol sobre ele e beija-o na testa.

BARBARA: - Amo você, meu Ratoncito. Durma... Você merece.

Barbara sai do quarto.


5:23 P.M.

[Som: Bryan Adams - On a Day Like Today]

Na frente da garagem, Victoria com o capacete e joelheiras, sentada na bicicleta com rodinhas de segurança. Sorri, empolgada. Mulder segura a bicicleta. Scully espia os dois pela janela da cozinha, enquanto lava a louça.

VICTORIA: - Vamos papai!!!

MULDER: - Ok, vou empurrar. Preparada?

VICTORIA: - Sim! E não me solta, por favor!!!

MULDER: - Eu não vou soltar você. Confia ou não no seu pai?

VICTORIA: - Confio.

MULDER: - E como eu falei, tem essas rodinhas que não vão deixar você cair. Quando se sentir segura, eu tiro as rodinhas. Tá pronta?

VICTORIA: - Sim!

Mulder empurra a bicicleta. Victoria começa a rir.

VICTORIA: - (EMPOLGADA) Que legal!!! Mais papai!!! Vamos mais longe!!!

MULDER: - Mantenha os pés nos pedais e a atenção no guidão. Ele é seu volante. Vamos até a calçada e voltamos.

VICTORIA: - (RINDO)Que maneiro! Adorei isso!

MULDER: - Agora faz a volta... Isso, devagar, não precisa ter medo.

VICTORIA: - (RINDO) Acertei!!!

MULDER: - É, para um piloto de primeira viagem você tá muito bem.

VICTORIA: - Depois que eu aprender bicicleta, você me ensina a dirigir o carro?

Scully começa a rir.

MULDER: - (DEBOCHADO) Até chegar no carro vai ter muito cereal pra comer. Vamos, pedala. Coloca força nessas pernas... Isso.

Ela acelera e Mulder correndo segurando a bicicleta.

MULDER: - Quer tentar sozinha?

VICTORIA: - Não!!!! Não me solta! Papai, tô chegando na porta da garagem!!!

MULDER: - Ok, agora aperta devagar o freio. Vamos tentar parar pra você ver.

Victoria não consegue frear, Mulder segura a bicicleta.

VICTORIA: - Consegui, né?

MULDER: - (RINDO) É. Tá chegando lá... Vamos fazer a volta e tentar de novo. Ou sua mãe não vai assinar a sua licença para dirigir bicicleta.


6:34 P.M.

Barbara na mesa de jantar digitando uma matéria no computador. Bebe um gole de café. O celular toca.

BARBARA: - (AO CELULAR) Fala Mulder... Não, você não tá me incomodando, a gente não combinou que eu vou ajudar você? ... Sim, eu ando louca pra entrar no mercado editorial, o Byers me colocou pilha e depois de publicar o livro do pai do Alex, fiquei mais empolgada em publicar o seu, dá um jeito de terminar logo... Sim, eu sei fazer... Mulder, fica calmo. Pega os casos mais interessantes que vocês investigaram, separa as fotos... Melhor ainda que tudo está digitalizado!

Krycek entra, olhos pesados de tanto dormir.

BARBARA: - (AO CELULAR) Isso, junta com alguns tópicos que você e Scully vão falar e me manda por e-mail... Não, deixa que eu faço, porque você não sabe mexer nesse programa e vai ficar mais legal projetar isso no telão... Outro dia te dou umas aulas particulares e você aprende... Tá... Vou esperar então.

Barbara desliga. Krycek dá um beijo no rosto dela.

BARBARA: - Eu juro que fiquei com pena de acordar você pra almoçar. Tava dormindo tão gostoso...

KRYCEK: - Obrigado por não ter me acordado. Eu precisava dormir... Que aulas particulares você vai dar pro Mulder?

BARBARA: - (DEBOCHADA) De sexo. Mulder tá querendo aprender como se faz um bom "bate-estaca".

KRYCEK: - Sério? Eu vou dar a minha estaca pra ele bater...

Barbara começa a rir. Krycek vai pra cozinha e serve um café.

BARBARA: - Vou pedir pizza. Não fiz janta.

KRYCEK: - Nem tô com fome agora... Se quiser eu faço blini pra você. Aquelas panquequinhas russas recheadas que você gosta.

BARBARA: - Eu quero. Pode fazer doce e salgada? Gosto das duas. Mas não precisa fazer agora, também tô sem fome. Quero entregar essa matéria hoje, amanhã vamos para o Kentucky. Amor, como vai ser? Você trabalha amanhã à noite!

KRYCEK: - O Peter trocou de turno comigo.

BARBARA: - Alex... E o seu novo parceiro? Ou ele fugiu como os outros, quando você fez sua cara de malvado?

KRYCEK: - Esse não fugiu. Carl Bishop. Tem quinze anos de polícia, veio da Narcóticos da Filadélfia... Não é um novato saído da academia, me espremendo regrinhas policiais na cara a cada passo que eu dou. O cara tem experiência de ruas, é esforçado, interessado, inteligente... Pelo menos não é chato, pedante e entediante. Mas é todo certinho de terno e gravata. Não sei se vai rolar.

BARBARA: - Espero que finalmente você volte a ter um parceiro. Dá uma chance pro Bishop. Hum? Todo mundo é novato um dia.

Krycek senta-se à mesa.

KRYCEK: - Antes que você comece a trabalhar na sua matéria, eu quero dizer que além de comprar as passagens, já confirmei o hotel, a gente vai descer em Moscou, passamos uns dias por lá pra resolver os meus problemas. Enquanto isso vamos andar bastante pela Praça Vermelha, tirar fotos do Kremlin e da Catedral de São Basílio, tem o Mausoléu de Lênin, os museus históricos e dos cosmonautas, parques, conventos, catedrais e vamos andar de metrô, porque o metrô russo é de outro mundo e vamos assistir algum espetáculo no Teatro Bolshoi. E tem o búnquer 42, se quiser visitar, com 60 metros de profundidade.

BARBARA: - (SORRI EMPOLGADA) Uau!!! Jura??? Vou levar minha câmera nova. Vou filmar, tirar fotos... Mas o que tem o metrô russo de tão especial?

KRYCEK: - Coisas que você adora. Lojas, lanchonetes, obras de arte, é outra cidade lá embaixo.

BARBARA: - Sério?

KRYCEK: - Sério, é diferente daqui. Depois vamos pegar um trem e fazer um passeio pelas margens do Rio Volga, parando nas cidades mais legais, como Samara, aonde você vai ver um legítimo foguete russo que virou um monumento e conhecer o búnquer do Stalin, há 37 metros debaixo da terra. E vamos namorar um pouquinho às margens do rio sagrado dos russos, bebendo uma boa vodka e vendo dançarinos cossacos em trajes e danças típicas. Hum?

BARBARA: - (EMPOLGADA) Uhu!!! Nem acredito que vou conhecer a Rússia!!!

KRYCEK: - (SORRI) Depois de ver o búnquer do Stalin, você vai achar que temos é uma porcaria debaixo da casa. Vamos de trem pela transiberiana, descemos em Yekaterimburgo, só pra matar o seu desejo de conhecer a Sibéria e sentir frio rachando os ossos, já que o inverno daqui não tem neve o suficiente pra você. Vamos pra essa cidade porque é turística, grande e segura, algumas cidades na Sibéria não são bons lugares para turistas desavisados, só aconselho a ir com um russo que conhece bem a língua e aonde você não deve se meter.

BARBARA: - Como certas cidades no Alasca?

KRYCEK: - Exatamente. Em muitas cidades e povoados tem todo o tipo de gente que não quer ser encontrada e não exercem atividades legais, forasteiros não são bem vistos e podem ser assaltados ou mortos. Yekaterimburgo faz divisa com a Ásia, você vai poder colocar um pé na Europa e o outro na Ásia, ao mesmo tempo. Vai conhecer a casa aonde executaram os Romanov, e vai entender que sua princesa Anastásia não tem uma história tão glamourosa. E vamos finalizar em São Petersburgo, curtindo a história, a arte e molhar os pés no Mar Báltico. E durante toda a viagem você vai se fartar provando da culinária. Chega? Posso arrumar mais programas. Um banho russo, quem sabe?

BARBARA: - Hum... Fiquei curiosa com o banho russo. E onde entra o fazer amor?

KRYCEK: - Todas as horas e em todos os lugares que você quiser.

Barbara se levanta, senta-se no colo dele e o abraça. Krycek envolve os braços nela.

BARBARA: - Você não imagina o quanto eu queria conhecer a Rússia. Você tá realizando o meu sonho, sabia? Desde pequena eu sonho com isso, Ratoncito. E com você, que fala o idioma nativo, com certeza será uma experiência inesquecível!

KRYCEK: - Posso entender sua obsessão pela Rússia, é realmente um país lindo, cheio de história, do qual sou filho e vou amar pra sempre essa mãe desnaturada, mesmo que tenha lembranças terríveis, mas é minha pátria, sempre será. O que não entendo é a sua obsessão pelo guia turístico.

BARBARA: - Começou com um informante da voz sexy que só de falar no meu ouvido já me deixava molhadinha. E não bastasse ainda era russo, filho de um país do qual sou fascinada. Aí quando finalmente descobri a cara do sujeito, de sacana, safado, bandido, malvado e sem-vergonha... Amoleci as pernas. E aquela jaqueta de couro, a arma escondida... Hum... Continuo?

KRYCEK: - (SORRI)Você é louca mesmo. Pra minha sorte!

Os dois trocam um beijo. Barbara recosta a cabeça no ombro dele. Krycek a envolve nos braços. Ela se aninha contra ele.

BARBARA: - Vamos ficar assim um pouquinho? Tá tão bom esse colinho... Amor, sério. Não briga comigo me chamando de desatenta que faz tudo ao mesmo tempo e acaba fazendo errado alguma coisa. Eu acho que fiz confusão nas pílulas. Você vai ter que usar preservativo.

KRYCEK: - Se todo o problema do mundo fosse usar preservativo...

BARBARA: - Acho que todo o problema do mundo é não usar preservativo!

Ela fecha os olhos. Krycek sorri. Beija os cabelos dela. Fecha os olhos.

KRYCEK: - Tá gostoso mesmo... Não saia nunca mais daqui.

BARBARA: - Não quero. Só quando der câimbras. Gatinha aninhada e feliz, quase ronronando de tanta felicidade.

KRYCEK: - (SORRI) Eu te amo, minha gatinha.

BARBARA: - (SORRI) Eu também te amo, meu ratinho.

KRYCEK: - Vou ter que arrumar toda a minha tralha de pesca. Mulder tá me desafiando. Ele não sabe que vai se dar mal.

BARBARA: - (RINDO) E desde quando o Mulder pesca?

KRYCEK: - Bom, ele foi criado perto do mar, numa ilha, em Martha's Vineyard, Massachusetts. Ele sabe alguma coisa com certeza.

BARBARA: - Não sabia disso! Quem diria!

KRYCEK: - É, mas ele que me aguarde. Anos de experiência pescando no Volga com meu pai. Quando a fome tava demais a gente tentava a sorte. E é engraçado, mas quando você precisa do peixe pra comer, aí que ele não aparece. Tenta pesca esportiva pra ver se não pega um monte!

BARBARA: - Gosto de pescaria, sabia? Eu era a parceira do meu pai e dos meus tios nisso.

KRYCEK: - (SORRI) Sério? A minha moleca pescava?

BARBARA: - Bom, pegava alguma coisa não muito grande. Mas eu era moleca. Daquelas de rolar na lama, subir em árvores e fazer guerrinha de bolotas.

KRYCEK: - Malyshka, eu quero ir pra Cuba com você, mas eu tô meio assustado.

BARBARA: - Por que ainda somos comunistas?

KRYCEK: - Comunismo vai ser fichinha perto de encarar sua família. E se eles não gostarem de mim?

BARBARA: - Problema deles! Quem tem que gostar sou eu!

KRYCEK: - Você não contou sobre o meu passado para os seus pais...

BARBARA: - Não acho que precise contar. Eles vão amar você, Ratoncito, sabe por quê?

KRYCEK: - Por que sou russo?

BARBARA: - Não, porque desencalhou a caçula deles!

KRYCEK: - (RINDO) Como se isso fosse um milagre! Você não teve alguém antes porque não quis. Candidato não faltava.

BARBARA: - É, mas eles sempre acharam que mulher que se dedica à carreira é porque não arrumou um homem que a quisesse. Os latinos são muito machistas, Ratoncito.

KRYCEK: - Russos também são, Malyshka. Muitos povos são. Até aqui na América, o país livre, você vai encontrar machista.

Barbara troca um beijo e sai do colo dele. Senta-se na frente do notebook.

BARBARA: - Preciso terminar a matéria.

KRYCEK: - Termine. Vou pra garagem juntar a tralha de pesca e colocar na picape. Será que o Mulder tem cooler? Acho melhor levar o meu... Melhor, vou combinar com ele o que vamos levar. Mas tarde eu faço o nosso jantar.

BARBARA: - E depois cairia bem um filme.

KRYCEK: - Faz tempo que a gente não assiste um filme juntos. E quando a gente for viajar, o seu trabalho como fica? Falou com o Calvin?

BARBARA: - Sim, ele me liberou em troca de vídeos, fotos e uma boa matéria sobre o seu pai e a Rússia.

KRYCEK: - Você vai pra Rússia trabalhar? Eu não acredito nisso!

BARBARA: - Vou nada! Vou me divertir e partilhar a experiência. Vantagens do ofício.

Krycek sai rindo. Ela volta a atenção para o notebook.


Proximidades de Lexington - Kentucky - 4:57 P.M.

O carro de Mulder para em frente a cabana no meio da floresta. Krycek estaciona a picape ao lado.

Victoria desce correndo, aos pulos, admirando o lugar. Cookie sai atrás dela, cheirando tudo. Scully desce, mãos nas costas, se esticando toda. Mulder desce do carro, olhando pra cabana.

MULDER: - É, a foto não mentiu.

Krycek e Barbara se aproximam.

KRYCEK: - Lugar legal. Como descobriu?

MULDER: - (DEBOCHADO) Google?

Krycek olha assustado pra ele.

MULDER: - (RINDO) Indicação do professor Harley. Então, bem vindos a Lexington, a Terra dos Cavalos.

KRYCEK: - É, você deve estar se sentindo em casa.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu faço a cesta de três pontos agora ou depois?

KRYCEK: - Me esquece!

Krycek dá as costas, rindo e vai tirar as coisas da picape.

VICTORIA: - Mamãe!!! Tem um rio lá adiante!!! Posso ir até lá?

SCULLY: - Ok. Vamos esticar as pernas. Barbara?

BARBARA: - Tô nessa!

As três saem pelo meio da floresta em frente a casa, em direção ao rio. Cookie sai correndo atrás de Victoria, que vai correndo na frente delas.

Mulder sobe as escadas da varanda, tirando a chave do bolso. Krycek vem com duas malas. Mulder olha debochado pra ele.

KRYCEK: - Acredite, eu soquei as minhas coisas na metade de uma. O resto é "artigo de primeira necessidade, Ratoncito"!

MULDER: - Você não viu o que a Scully trouxe. Parece que vamos ficar um mês!

Mulder abre a casa. Os dois entram. É um chalé confortável e bem decorado ao estilo campo, sala dividida com a cozinha, lareira e uma escada de madeira que leva aos quartos.

KRYCEK: - Juro que ainda vou me dar ao luxo de comprar um chalé no meio do mato ou um mini motorhome para trilha. Preciso fugir nos finais de semanas e feriados.

Os dois se atiram nas poltronas, fechando os olhos.

MULDER: - Existe motorhome para trilha? Não é aquela picape com suporte que você coloca a barraca em cima...

KRYCEK: - Não, aquilo é um transtorno! Tem uma empresa no Colorado que faz adaptando picapes da Ford. O cara que inventou é trilheiro. Ampliou o chassi, cortou a divisória da cabine e você já dirige dentro de casa. Sala, cozinha, banheiro e uma cama de casal na parte de cima. Porta do lado pra não entrar lama, chuveiro externo pra limpar os pés. Bom, depende da grana que você tá a fim de gastar, da picape que quer, cabine dupla ou simples... O cara coloca até mais uma cama. Não tem trilha ruim com um desses. Encara neve, chuva, atoleiro...

MULDER: - Será que cabe uma família?

KRYCEK: - Quatro?Claro que cabe! Pensando em fazer trilha?

MULDER: - Pensando que preciso arrumar diversão com os filhos. O problema é que a Scully odeia aperto. E um motorhome além de uma fortuna é um monstro em tamanho. Vou estacionar aonde?

KRYCEK: - Não vale o custo. Vai ter que pagar estacionamento. Já um desses cabe na garagem e tem motor e pneu pra encarar todo terreno. E custa bem menos. Podemos fazer um orçamento, que tal? Você seria parceiro pra trilhas?

MULDER: - Sei nada disso, mas quero aprender. Acho legal sair sem rumo por aí e encarar umas aventuras. E a moto?

KRYCEK: - Teria vindo com ela, mas com tanto apetrecho pra trazer... Os motociclistas lá do beco onde eu morava já me deram até uma jaqueta e me incluíram no clube deles. Fazem viagens uma vez por mês. E levam namorada, mulher, filho, barraca... Cara, é uma diversão! Pensei que os caras eram barra pesada e são todos família!

Mulder sorri.

MULDER: - É isso que sinto falta na vida. Mas se comprar uma moto, Scully vai fazer uma tragédia grega.

KRYCEK: - Fala nada pra Scully, que eu não falo nada pra Barbara, porque se uma sabe, vai logo contar pra outra. Vamos ver o lance do motorhome pra trilhas. Gosto da moto, mas pra certas aventuras não dá. Fora que acaba com a coisa de levar barraca e tralheira pra acampar, você já leva junto os seus confortos: TV, internet, colchão, chuveiro quente... A Scully vai mudar de ideia rapidinho se souber que a Barbara gosta disso e que terá todo o conforto.

MULDER: - É. Admito que sua mulher tá fazendo a Scully voltar a ser aventureira... Fala se isso não é vida? Longe da loucura da cidade grande.

KRYCEK: - Com conforto de cidade grande... Longe de gente e shoppings lotados.

MULDER: - Passarinhos acordando você de manhã cedo. Ar puro...

KRYCEK: - Tocar violão na varanda no fim da tarde...

MULDER: - Cervejinha gelada...

KRYCEK: - Um peixinho frito...

Os dois suspiram, de olhos fechados.

KRYCEK: - É, irmão... Isso sim é uma vida boa!

MULDER: - Um mês num lugar desses e eu terminava meu livro empacado. Scully já terminou a parte dela. Eu ando sem tempo. A agência me consome. Mas não vou reclamar.

KRYCEK: - Mulder, se conselho fosse bom, ninguém dava. Mas eu vou dar um conselho pra você.

Krycek se ajeita na poltrona, olhando pra Mulder.

KRYCEK: - Faz o que tem que fazer até uma certa idade. Depois, se dedique a escrever. Faça uma investigação quando for preciso assunto, embora você tenha assunto pra gerações! E vai curtir sua vida.

MULDER: - Tá pensando nisso também?

KRYCEK: - Muito. Eu gosto de ser policial. Gosto da rotina da delegacia. Gosto de ação. Pelo menos agora tenho ação sem causar danos aos outros. Mas sinceramente, quando me aposentar, eu quero mais é tranquilidade. Curtir minha garota e aproveitar a vida.

MULDER: - Eu achava que saindo do FBI eu teria mais tempo pra minha família. Engano, Rato. Tudo passa por mim na agência. E se não corro atrás de trabalho, não pago as contas. Não tem dinheiro fixo no final do mês. Aquele salário certo que você conta. Pedi pra Scully segurar a parte contábil, porque eu sou um desastre. Fico me empolgando com os casos e esqueço que eles custam dinheiro, não tem FBI bancando nada, tudo é do meu bolso.

KRYCEK: - Sei como é. Você tem liberdade, mas rala pra conseguir o sustento. Mulder, sabe que se precisar de grana, conta comigo...

MULDER: - Não, tá tranquilo. Minha mulher tá num ramo melhor de negócios do que eu... Rato, sou eu quem devia pagar pelo seu tempo quando me ajuda...

KRYCEK: - Tá maluco? Trabalhar com você é meu hobby.

MULDER: - E eu não me arrependi de ter saído do FBI. Pensei que me arrependeria, que não conseguiria deixar de ser agente federal, sentiria falta... Não. Sinto falta sinceramente do carteiraço que facilita as investigações, detetive particular não tem muito mérito nisso.

KRYCEK: - Eu sou seu carteiraço agora, Mulder. Sabe que se precisar eu vou junto metendo o distintivo na cara do ignorante. Sabe que se Scully precisar fazer necropsia, não tem legista à noite na delegacia. Agora temos um departamento de necropsia, tem espaço pra isso. Sabe que o que eu puder fazer pra ajudar, farei. A união faz a força.

MULDER: - Eu sei, Rato. Mas Scully já me disse nas entrelinhas que assim que o bebê nascer, ela vai fazer doutorado. Acho que é questão de tempo pra Scully deixar a agência. Pra ela é um hobby agora. Ela tem sonhos que não realizou. Sei que no fundo, a paixão da minha mulher é a medicina legal. Ela gosta de ensinar. Já a vi pesquisando na internet sobre a carreira de professor em universidade.

KRYCEK: - Acha que Scully quer lecionar?

MULDER: - Eu acho que ela se dedicaria a passar seu conhecimento aos outros. E admito, seria bem melhor pra ela depois de uma certa idade. A gente vai envelhecer, isso é fato. E vamos cansar. Os filhos vão crescer, tomar o rumo deles... É a vida.

KRYCEK: - Passa rápido, né, Mulder? Mas não na cabeça da gente. Eu ainda acho que sou jovem, mas quando tenho que correr atrás de um filho da mãe, aí eu sinto a maldade do corpo. Lembro quando a gente brigava, um correndo atrás do outro... Hoje eu não fugiria de você tão fácil!

MULDER: - É, Rato, nem eu ia te alcançar fácil... Por mais exercícios e botox, ninguém engana a velhice. Os cinquenta tão chegando, ainda rendemos. Mas logo vem os sessenta, já não vai ser igual... E quando piscou os olhos já tem setenta velinhas no seu bolo. É bom fazer planos mesmo.

KRYCEK: - Eu tenho medo, Mulder. Tenho uma mulher dez anos mais nova. Agora não faz diferença. Mas um dia vai fazer. Pela lei da vida, eu vou antes dela. Não sei se teremos filhos, mas sabe como ela quer muito isso. E quando eu for, ela pode encontrar outra pessoa depois, não acho justo que ela passe a velhice sozinha. Quero deixá-la bem, tô trabalhando pra isso, já fiz até dois seguros de vida.

MULDER: - Scully também é alguns anos mais nova do que eu. Bom, nossas viúvas vão ter a companhia uma da outra. E nossos seguros de vida pra gastar...

Krycek se levanta.

KRYCEK: - Vamos tirar aquelas tralhas dos carros. Pensaremos na morte quando ela estiver mais perto, porque agora eu pretendo morrer de velhice.

MULDER: - Eu também, mas antes de usar fraldas e esquecer o nome dos meus filhos.

KRYCEK: - (RINDO) Com certeza.


6:07 P.M.

O carro parado na frente do chalé. Scully toda arrumada, sentada no carona. Mulder no volante, de terno e gravata. Scully desce o vidro e olha pra fora.

SCULLY: - Tem certeza?

Victoria parada na frente de Barbara que faz tranças nos cabelos dela.

VICTORIA: - Eu não vou incomodar a tia Barbie!

BARBARA: - (RINDO) Vai tranquila, Scully. A gente vai no supermercado, vamos nos divertir. Boa sorte na palestra!

Scully fecha o vidro. Mulder liga o carro e toma a estrada. Victoria e Barbara acenam pra eles. Krycek sai da cabana.

KRYCEK: - Ok, moças bonitas. Vamos ao mercado?

BARBARA: - O que vamos fazer pro jantar?

KRYCEK: - Não sei, mas sei que vou comprar umas coisas porque amanhã vou fazer churrasco russo pra Scully. Surpresa pra ela.

BARBARA: - Acho bom, porque ela vive falando desse tal churrasco e mulher grávida a gente não deixa no desejo. É crueldade isso... O que seus pais curtem no jantar?

VICTORIA: - Mamãe tá com mania de dieta no papai, mas ela come muita besteira escondida.

Krycek e Barbara riem.

KRYCEK: - A sinceridade é uma coisa linda.

BARBARA: - Bom, a gente também pega leve na janta... Panquecas?

KRYCEK: - As suas? Enormes e recheadas com carne e molho por cima? Isso é pegar leve?

VICTORIA: - Hum... Adoro essas panquecas da tia Barbie!

BARBARA: - Ai, Ratoncito, eu nasci com fome! Eu adoro comer! Viu, Victoria quer!

VICTORIA: -A gente faz salada pra compensar, tio Tchek!

BARBARA: - Isso, saladinha diminui a culpa.

KRYCEK: - É, meu destino é ser um velho gordo mesmo.

Victoria começa a rir.

BARBARA: - (RINDO) Coloco recheio de frango. Hum? Faço algumas com recheio de legumes. Menos calórico, mais saudável. Fugimos da carne vermelha.

KRYCEK: - Aí entra o "mas panqueca de frango precisa de molho e a de legumes pede um molho branco"... Tira a carne vermelha e entra o molho branco na jogada... Droga, já tô começando a salivar. Vamos embora! Não quero saber de dieta no final de semana. Aonde está o cachorro?

VICTORIA: - Deixei ele dentro da cabana.

Krycek fecha a porta e vai pra picape. Barbara e Victoria riem, batendo as palmas das mãos.


7:51 P.M.

Barbara na cozinha com Victoria, que a ajuda a preparar o jantar.

VICTORIA: - Só isso?

BARBARA: - Só. Pode colocar leite, mas eu acho mais gostosa com água. As americanas ficam melhor com leite.

VICTORIA: - Legal! Agora já sei fazer suas panquecas. Vou ensinar pra mamãe.

BARBARA: - Aonde foi o tio Tchek?

VICTORIA: - Tá lá fora, jogando bolinha pro Cookie.

BARBARA: - Eu quero um cachorro ou um gato. Preciso de companhia naquela casa quando estou sozinha. Alguma coisa que ande pela casa e faça barulho pra eu saber que tem mais alguém comigo.

VICTORIA: - Tem medo de ficar sozinha, tia Barbie?

BARBARA: - Não tenho medo, mas não gosto.

Barbara começa a picar os legumes.

VICTORIA: - É chato ficar sozinha. Mas não vai ser por muito tempo.

BARBARA: - É, se eu achar um cachorro ou um gato...

VICTORIA: - (RINDO) Ou um ratinho? Não gosta de ratinhos?

BARBARA: - Boa ideia! Podia ter um ratinho. Já tenho um ratão!

VICTORIA: - (SEGURANDO O RISO) É. Um ratinho vai ser bem legal pra você e pro Ratão.

Krycek entra com Cookie, deixando a porta aberta.

KRYCEK: - Victoria, você conhece vaga-lumes?

VICTORIA: - Só pela TV.

KRYCEK: - Dá uma olhada lá fora.

Victoria sai correndo empolgada. Desce as escadas olhando admirada para os vaga-lumes que voam. Barbara e Krycek se aproximam.

VICTORIA: - Que lindos!!! Nunca vi uma coisa tão linda assim!!!

BARBARA: - Adoro esses bichinhos! Fazia anos que não via um!

KRYCEK: - Eu também...Aqui tá cheio deles. Pensei que estivessem extintos.

Victoria abre os braços, estendendo as mãos. Os vaga-lumes pousam, enchendo os braços dela. Krycek e Barbara se entreolham, espantados.

VICTORIA: - (RINDO) Eles fazem cócegas!!!

Victoria agita os braços e eles voam, fazendo uma coreografia de pontos verdes contrastando na escuridão.

VICTORIA: - Tão lindos!

BARBARA: - Sim, como toda a natureza. Perfeita.

Krycek envolve o braço na cintura de Barbara. Ela se recosta nele. Ficam admirando os vaga-lumes. Victoria corre atrás deles e pula, tentando tocá-los.

KRYCEK: - O pai foi acampar com o filho. Garoto, você precisa passar repelente porque os mosquitos daqui são enormes e espertos. Então o garoto alegou que era mais esperto e não precisava de repelente. Quando chegou a noite, o garoto viu os vaga-lumes e entrou correndo na barraca, assustado: Pai, você tem razão, os mosquitos daqui são enormes e mais espertos, tão lá fora e com lanternas!

Barbara e Victoria riem.


9:23 P.M.

Todos sentados à mesa. Barbara serve a sobremesa. Mulder passa a mão na barriga.

MULDER: - Ah, mas eu vou achar espaço pra isso...

SCULLY: - Mulder, você já exagerou, não acha?

MULDER: - E você?

SCULLY: - Eu posso. Como por dois, esqueceu?

MULDER: - Ah! Na hora dos problemas é "estamos" grávidos. Na hora do bem bom...

BARBARA: - E como foi a palestra?

SCULLY: - Melhor do que eu pensava. Achei que teria meia dúzia de pessoas e gente rindo do assunto, mas pra minha surpresa tava quase lotado e muitos fizeram perguntas bem interessantes.

MULDER: - Bom, acabei com meus cartões de visita. Algumas pessoas vieram conversar, trocar experiências e até teve uma senhora pedindo pra irmos na casa dela. Agora o melhor da noite... Sério, eu tô animado, emocionado...

KRYCEK: - O que foi? Pediram autógrafo?

SCULLY: - (RINDO) Não. Tinha alguém na plateia que veio nos cumprimentar e nos convidou pra ir até a casa dela trocar ideias.

BARBARA: - Quem?

MULDER: - (OLHOS BRILHANDO) Lorraine Warren!

BARBARA: - (EMPOLGADA) Não brinca!!! Ai, Mulder, me deixa ir junto!!! Eu quero ver a Annabelle de perto!

Krycek olha incrédulo pra Barbara.

KRYCEK: - Tá maluca, né?

VICTORIA: - Quem é Annabelle?

SCULLY: - Ninguém, coma sua sobremesa.

VICTORIA: - Por quê? Por que não posso saber quem é a Annabelle?

MULDER: - Annabelle é uma boneca de pano amaldiçoada. Lorraine Warren e seu falecido marido Ed têm um museu em casa com objetos amaldiçoados que eles retiraram dos casos que investigaram.

VICTORIA: - Legal! E você vai fazer um museu assim na nossa casa, papai?

Scully arregala os olhos e olha pra Victoria a censurando. Barbara começa a rir.

SCULLY: - Só quando as vacas voarem e as galinhas criarem dentes!

MULDER: - (RINDO) Não, Pinguinho. Eles são pesquisadores do paranormal, mas Ed era exorcista. Papai e mamãe só investigam, quando a coisa fica feia a gente chama a Baba, algum padre... E por falar nisso, é ótimo ter Lorraine Warren como contato, ela pode nos indicar pessoas aptas para resolverem os problemas que encontramos.

VICTORIA: - Mas eu pensei que vocês também resolvessem os problemas das pessoas!

MULDER: - A gente descobre o que está acontecendo, mas papai e mamãe não tem nenhum dom como a Baba tem, por exemplo. Não somos videntes, sensitivos e menos ainda exorcistas. Nós investigamos e se há alguma força paranormal agindo, nós indicamos especialistas para as pessoas.

VICTORIA: - Vocês que pensam... Mamãe vê coisas e você só não bota o diabo pra correr porque não tem fé ainda.

Os quatro olham curiosos pra Victoria. Ela pega a colher e come a sobremesa.

BARBARA: - Bom... Ahn... Acho que é rumo certo. Quanto mais vocês aparecerem, melhor será. O programa de vocês vai estrear na próxima semana. A gente não vai estar aqui, mas pode ter certeza que o Calvin vai ligar pra passar os números da audiência. Avisem a família pra assistir. Agora só falta o livro de vocês.

SCULLY: - Quando vão para a Rússia?

KRYCEK: - Na próxima sexta-feira.

MULDER: - Rato, não vai dar uma passadinha nos Urais? Tipo... Yekaterimburgo, a antiga Sverdlovsk?

KRYCEK: - Vamos, a Barbara quer conhecer a Sibéria.

MULDER: - ... E você vai chegar perto da Passagem de Dyatlov?

KRYCEK: - Prefiro ir acampar em Chernobyl!

MULDER: - A gente bem podia fazer uma viagem pra lá. Você fala russo, o que facilitaria...

KRYCEK: - Mulder, não! Aquele lugar não!

BARBARA: - É legal? O que tem de bom lá?

MULDER: - Em 1959, um grupo de nove estudantes e o seu guia foram para uma excursão de esqui na montanha... Não vou saber pronunciar isso.

KRYCEK: - Kholat Syakhl.

MULDER: - Isso, mais conhecida pelos locais, o povo Mansis, como a Montanha dos Mortos.

Victoria arregala os olhos, curiosa. Barbara apoia os cotovelos na mesa, interessada no assunto.

KRYCEK: - Um lugar sagrado que nem os Mansis pisam porque têm medo. E não falta placa de aviso pra quem chega na aldeia.

MULDER: - No meio do caminho, um deles ficou doente e voltou. Os outros montaram acampamento para passar a noite, ainda a 10 quilômetros da montanha. Seus corpos foram encontrados semanas depois, em datas diferentes, fora das barracas e distantes uns dos outros. Uma barraca estava rasgada a partir de dentro e a maioria dos jovens estava vestida parcialmente, alguns sem sapatos, outros com roupas que não eram deles, como se tivessem saído às pressas. Quem sairia de pés descalços e quase sem roupas no meio da neve siberiana se não estivesse fugindo desesperadamente de alguma coisa?

KRYCEK: - O resgate do exército russo recolheu câmeras e um diário. Uma das fotos mostrava algo que parecia uma esfera gigante.

MULDER: - Os investigadores concluíram que três morreram por espancamento "causado por uma grande força". Os outros, de "hipotermia". O governo russo encerrou o caso sem maiores explicações e manteve o local fechado por três anos. Até hoje ninguém explica o que causou a morte dos garotos, o túmulo deles está no cemitério de Yekaterimburgo.

BARBARA: - O que acham que aconteceu?

MULDER: - Yeti? Aliens?

SCULLY: - Beberam muita vodka, ficaram doidões e se mataram?

MULDER: - Não, as evidências não apontam pra isso, Scully. Duas vítimas apresentavam o crânio fraturado e duas tinham costelas partidas. Uma das duas garotas do grupo estava sem a língua. E as roupas de alguns deles tinham doses de radiação duas vezes mais altas do que o habitual. Eles fugiam de alguma coisa. A fisionomia dos cadáveres era de pavor. Eles foram atacados e mortos por alguma coisa que desconheciam. É um Arquivo X.

KRYCEK: - O maior da Russia, até hoje. Mulder, eu não piso naquele lugar, mas nem por todo o ouro do mundo. Aquela montanha, a floresta, tudo ali é amaldiçoado. Os Mansis dizem que podem ouvir a voz do que habita na montanha. Diz que arrepia os pelos quando se escuta. Mas quer a minha teoria? Era regime comunista, guerra-fria. O governo russo fazia experiências secretas com radiação naquela área porque era bem isolada. Isso explica tudo. Sabe o impacto que causa uma explosão atômica no corpo de uma pessoa?

SCULLY: - Verdade. Se estiver muito perto, são lesões traumáticas que podem ser confundidas com espancamento. E justificaria a presença de radiação.

MULDER: - Pode ser, mas eu acho que o que há naquele lugar é a prova da existência do Yeti, ou mais conhecido como "Abominável Homem das Neves". E ele pode ter relação com vida extraterrestre.

VICTORIA: - E como ele seria?

MULDER: - Tipo o Pé-Grande, mas de pelos brancos pra se ocultar na neve.

BARBARA: - Uau! Sério, eu iria! Imagina que matéria isso daria!!! Acompanhar uma investigação sobre um mistério tão antigo!

VICTORIA: - Eu também quero ir!

Scully e Krycek se entreolham num suspiro.

BARBARA: - Ah, mas mesmo que você não queira esquiar, Ratoncito, pelo menos quero ver o túmulo desses garotos e conseguir mais informações. Já vamos estar na cidade mesmo!

SCULLY: - Mulder, muda de assunto. Depois Victoria vai ter pesadelos...

VICTORIA: - Não vou não. Papai, um dia vamos pra lá investigar isso? Tio Tchek?

KRYCEK: - Estou ferrado! Já basta o pai me metendo em furada, agora a filha. E quem consegue dizer não pra essa garotinha?

Victoria sorri.

KRYCEK: - Sério, é perigoso demais, Scullyzinha. Frio demais, neve demais, florestas densas e com ou sem Yeti, você corre o risco de morrer por uma avalanche, hipotermia, é um local perigoso demais. Nem os russos gostam de ir lá. Só malucos como o seu pai!

MULDER: - Pensei que você fosse um rato. Agora vejo que é um frangote medroso.

Mulder mexe os braços imitando uma galinha. Victoria começa a rir.

MULDER: - E quem vai me ajudar? Eu não falo russo!

VICTORIA: - Ya uchu russky yazyk. (Eu estou aprendendo a língua russa)

Todos olham incrédulos pra Victoria.

KRYCEK: - Kak vas zovut? (Qual o seu nome?)

VICTORIA: - ... Victoria Mulder.

KRYCEK: - Ne mogli by vy povtorit'? (Pode repetir o que disse?)

VICTORIA: - Da. Victoria Mulder.

Krycek começa a rir.

MULDER: - Ok, Rato, pelo menos teve tempo de ensinar alguma coisa pra ela hoje.

KRYCEK: - Não! Juro que não!

BARBARA: - Mulder, sou testemunha que Alex não ensinou nada pra ela.

SCULLY: - Victoria, como você sabe russo?

VICTORIA: - Eu não sei. Eu tô aprendendo no livro.

MULDER: - Que livro?

VICTORIA: - Aquele que eu leio quando fico na casa da tia Barbie.

BARBARA: - Você tá estudando o meu curso de russo? Eu pensei que você ficava olhando curiosa para aquela escrita diferente. Como pode entender?

VICTORIA: - Eu não sei. Só entendo.

Mulder fica fascinado. Scully assustada.

SCULLY: - Ok, mocinha. Me ajuda a tirar a mesa. Chega de surpresas!

Scully se levanta, pegando alguns pratos e indo pra cozinha. Victoria vai atrás dela, ajudando. Barbara também.

MULDER: - Rato... E só tem seis anos.

KRYCEK: - Como explica isso, Mulder?

MULDER: - Vamos lá fora, preciso conversar longe da Scully.

Corte.


Mulder sentado à mesa na varanda, embaralhando as cartas. Krycek se aproxima, colocando duas garrafas de cerveja. Senta-se.

MULDER: - Se considerar a Bíblia como um livro histórico, e aos poucos a ciência está confirmando isso... Antes daquela confusão na Torre de Babel, todos falavam a mesma língua.

KRYCEK: - É. Então diz que três dos pedreiros de Babel estavam um ao lado do outro, quando um deles perguntou: What the fuck? O outro respondeu: No te entiendo. E o terceiro espirrou e inventou o alemão.

Mulder começa a rir.

KRYCEK: - Acha que dentro da nossa memória genética ficou arquivado a língua mãe?

MULDER: - Acho. E acho que ela consegue acessar isso. E não vai me surpreender se depois do russo ela começar a entender espanhol, francês, português, alemão e sei lá mais quantas línguas. O que me preocupa, é que ela está deixando de curtir a infância, com a fome de conhecimento que tem.

KRYCEK: - Scully disse que a diferença entre nós e Victoria é que ela tem partes ativadas do cérebro que nós não temos. De acordo com as coisas que você leu do seu avô, com os contatos que teve com Gabriel, o quanto da raça anjo tem ativado em Victoria?

MULDER: - Eu não faço ideia, Rato. Porque se eu soubesse como é a genética angelical, eu poderia dizer uma porcentagem. Ela é bem mais que eu. Que sou mais que meu pai, que era mais que meu avô.

KRYCEK: - E isso veio dos Mulder, não do DNA fumacento. Erro do extinto Sindicato.

MULDER: - Dúvida que eles tinham, por isso a experiência FOX usou dois pais. Não sabiam quem havia sido modificado pelos anjos na segunda-guerra, se o Dr. Mulder ou Spender, o assistente dele.

KRYCEK: - E você já considerou a hipótese de que Victoria não seja pura? Seja apenas mais evoluída que você, mas não totalmente anjo?

MULDER: - É o que eu acho, Krycek. Tem algo humano nela. Algumas vezes esse humano vem pra fora com força. Ela brinca, ela fala besteiras de criança, se diverte como uma. Outras vezes isso não tem graça e ela se isola em livros, música, filmes, como quem quer absorver todo o conhecimento da raça humana.

KRYCEK: - Um computador?

MULDER: - Exato. Como um computador faminto por dados para armazenar. O que fará com esses dados é o que eu não sei.

KRYCEK: - Mulder, supondo que hoje fosse o final do mundo. Uma catástrofe atômica, natural, sei lá. Acabou tudo. Sobreviveriam alguns. Que com o tempo, se procriariam. O que restaria da nossa civilização para que os futuros humanos soubessem do seu passado?

MULDER: - Pouco ou quase nada. Acha que é isso o que ela está fazendo?

KRYCEK: - Ela nem deve saber que faz isso. Ela é como um computador vivo armazenando informações para um futuro incerto da raça humana.

MULDER: - Faz sentido. Isso dá uma importância para que continuassem permitindo a descendência mutada Mulder.

Mulder distribui as cartas.

MULDER: - O problema é que os contatos com a raça deles são poucos. Quando aquele anjo aparece, não me diz nada sobre isso e nem responde minhas perguntas. Só diz que precisa ser assim. Isso não me alenta, porque vivo na dúvida se devo ou não incentivar Victoria a ser anjo ou a ser humana. E o que me assusta é que ela está crescendo, percebendo cada vez mais que é diferente dos outros e uma hora vai me perguntar e não terei respostas para dar.

KRYCEK: - Ele não disse "siga seu coração"? Continue seguindo. Se eles acharem que não, vão dizer alguma coisa. Faça sua parte. Acredito que se confiaram isso à vocês, é porque sabem que farão o certo.

MULDER: - Victoria é muito sentimental. E isso pra mim é muito humano. Não creio que raças superiores sejam tão sentimentais. Devem ser mais lógicas.

KRYCEK: - É o que pensamos, mas quem vai nos dizer a verdade?

MULDER: - Só eles sabem a verdade. E dizem que não estamos preparados pra isso.

KRYCEK: - E vai culpá-los? Eles têm razão. Olha pro mundo a sua volta. Parecemos neandertais ainda, brigando entre nós mesmos, destruindo tudo, usando o conhecimento contra a própria espécie. Lúcifer nos chama de macacos. Até faz sentido! Diante deles, somos macacos mesmo.

MULDER: - Ele anda quieto. E isso não me deixa tranquilo. Ainda mais que Scully está grávida.

KRYCEK: - Não descobri mais nada da Ordem dos Treze. Mulder, se você acha que não consegue segurar as pontas sozinho, eu desisto da viagem. A segurança das nossas famílias vem em primeiro lugar.

MULDER: - De jeito nenhum, Rato. Vai viajar, você e a Barbara precisam dar um tempo dessa loucura. Faz bem pro casal. Ainda faltam quatro meses pro meu filho nascer. E eu vou fazer o parto. Pelo menos tenho a certeza de que o Sindicato não vai intervir, porque você acabou com eles. Só espero que dessa vez os Greys não apareçam de novo, acionados agora pela Coin. Porque não tenho mais armas contra eles. Apenas conto com a "intervenção divina".

KRYCEK: - Acho que seu filho está bem seguro, Mulder. Nada como a "intervenção divina". Até o Moedinha teme.

MULDER: - Sou como Tomé, só acredito vendo. Não tenho essa segurança chamada fé. Essa confiança cega que os religiosos tem. Nisso eu sou cético. Confio nessa raça desconfiando, embora já tenha levado muitas lições por causa disso e tenha visto coisas que me abalaram profundamente. Quero mudar isso em mim, Rato. Viu o que a minha filha falou.

KRYCEK: - Mulder, isso leva tempo, porque você aprendeu a não confiar em ninguém. Quanto tempo você levou pra confiar em mim? Se pode confiar em mim, humano, que tanto ferrei você, por que não pode confiar na raça que nos criou?

MULDER: - Porque não sei por qual motivo nos criaram. E essa é a pergunta que me faço todo o dia. Qual o motivo dessa criação? Experiência? Diversão? Victor Frankenstein?

KRYCEK: - Mulder, nisso você difere de mim. Eu não duvido das boas intenções deles. Talvez essa raça, esse Deus, tenha se auto-intitulado nas escrituras como pai, usando uma figura que é do nosso entendimento, para que compreendamos a noção correta do que Ele é, e assim possamos confiar.

MULDER: - Acho que por isso mesmo eu não confio.

KRYCEK: - E acho que por isso mesmo, Ele não culpe você.


11:15 P.M.

Mulder e Krycek jogando cartas. Victoria sentada, apoiando a cabeça nas mãos e os cotovelos na mesa, observando curiosa. Scully sentada na cadeira de balanço, afagando a barriga.

MULDER: - Bati!

Mulder coloca as cartas na mesa. Krycek olha incrédulo.

KRYCEK: - Você tá roubando, raposa espertalhona!

MULDER: - Não tenho culpa se você é um rato azarado. Me deve outro grão de arroz.

SCULLY: - Meu Deus, vão brigar até por grãos de arroz?

Krycek pega um grão de arroz do montinho e entrega pra Mulder que tem um montinho maior.

MULDER: - Vou fazer estoque de arroz às suas custas!

VICTORIA: - Papai, posso jogar agora? Já entendi. Vou tirar todo o arroz de vocês dois e a mamãe vai fazer um panelão amanhã.

Scully começa a rir.

SCULLY: - Isso mesmo, Docinho! Tira todo o arroz desses bobos e dá uma lição neles.

MULDER: - Tem certeza? Vai perder.

VICTORIA: - Passem as cartas. Menina contra meninos.

Barbara se aproxima. Senta-se à mesa.

BARBARA: - Meninas contra meninos. Anda, Mulder, dá essas cartas.

KRYCEK: - Mulder, vamos ganhar mais arroz que japonês em restaurante!

VICTORIA: - Deixa o tio Tchek falar, tia Barbie. Vamos fazer um risoto às custas deles!

Scully começa a rir.

SCULLY: - E não deixem um grão, meninas! Não tenham piedade!

Corte.


Mulder e Krycek atiram as cartas na mesa. Victoria e Barbara com um montão de arroz. Eles sem nada.

MULDER: - Isso foi sorte de principiante, Pinguinho.

KRYCEK: - Bom, estamos fora. Ficamos sem arroz. Scullyzinha levou tudo!

BARBARA: - E eu vou guardar tudinho e amanhã nós vamos comer. Menos vocês dois. Perderam o direito ao arroz.

KRYCEK: - Vou fazer churrasco e não vou dividir.

SCULLY: - E quando meu filho nascer, com cheiro de molho barbecue? Hum?

MULDER: - Aí eu vou atrás do açougueiro e vamos conversar de pertinho sobre entregas...

Mulder sai da mesa. Senta-se na rede.

MULDER: - Scully, que tal uma rede? Não era o que você queria?

SCULLY: - E isso vai aguentar três?

MULDER: - Claro! Vem.

Mulder se ajeita na rede, ajudando Scully. Ela senta entre as pernas dele.

SCULLY: - Só não balança muito, posso vomitar. Ainda sinto alguns enjoos de vez em quando.

MULDER: - Nada de balanço. Porque você enjoa e quem vomita sou eu. A parte ruim da gravidez fica toda comigo, sempre!

Barbara olha pra eles, num sorriso.

VICTORIA: - Posso ler o Pequeno Príncipe?

MULDER: - Agora? Não tá com sono?

VICTORIA: - Não. E nem tem escola amanhã e a gente veio pra se divertir!

MULDER: - Ok, não vou argumentar contra uma mulher da família Scully. Sempre saio lascado quando faço isso.

Victoria sorri e entra correndo no chalé. Krycek guarda as cartas. Barbara olha pra ele.

BARBARA: - Deixa aí, depois a gente arruma.

MULDER: - É Rato, relaxa essa dona de casa virginiana que tem dentro de você!

KRYCEK: - Você fala, mas se eu relaxo... Moro com uma bagunceira.

BARBARA: - Você? Não! Eu que moro com um perfeccionista!

KRYCEK: - Não me culpe. Eu morava num depósito bagunçado e revirado. Agora moro numa casa decente. Vai continuar decente. Quando eu morava no meu apartamento, tudo era arrumadinho.

Krycek senta-se na cadeira de balanço.

KRYCEK: - Vou comprar uma dessas cadeiras pra mim em dez anos.

BARBARA: - Quanto exagero! Em trinta anos talvez.

Barbara senta-se no colo dele.

KRYCEK: - Pronto... Lá vem a sanguessuga. Sempre colada.

Scully começa a rir. Krycek envolve Barbara nos braços. Ela dobra as pernas e se aninha contra ele.

BARBARA: - Não quer, Grandão? Arrumo outro pra me dar colo o dia todo. E arrumo rapidinho! Um de trinta, quem sabe?

KRYCEK: - Caras nessa idade se não estão casados são gays.

BARBARA: - Nossa, amor! Sério? Você então chegou até aqui sendo gay? Porque casado você nunca foi.

Mulder começa a rir.

MULDER: - Pelo jeito não sou o único a fazer cesta no russo!

KRYCEK: - Você não faz nada em mim, sai fora, Mulder!

MULDER: - Amanhã cedo vamos pescar. Aposto que você não vai pegar nem resfriado naquele rio!

KRYCEK: - Ha ha ha. Aposto um fardo de cerveja! Você que vai ficar molhando minhoca!

MULDER: - Minhoca? Eu não pego em minhoca, quem curte pegar minhoca é você, "amorzinho".

KRYCEK: - Verdade, "amorzinho"! Seu negócio é cobra cega e segurar firme na vara!

BARBARA: - Scully, sabe a Guerra-Fria entre Estados Unidos e Rússia? Alguém esqueceu de avisar os dois que acabou!

Scully dá uma risada alta.

SCULLY: - É míssil de um lado pra outro... Mulder, você já falou pra esses dois?

MULDER: - O quê?

SCULLY: - Mulder, eu não acredito! Então eu conto. Quando houve aquela retaliação em que a gente estava viajando e vocês tomaram conta da Victoria, e depois quando desaparecemos e a nossa filha ficou com a mamãe e a Baba...

MULDER: - É. Se acontecesse alguma coisa comigo e com a Scully, se a gente morresse...

BARBARA: - Ai credo! Bate na madeira!

SCULLY: - Sério, Barbara. A gente nunca sabe o dia de amanhã. Minha mãe tadinha já tá velha, quero mais que aproveite a vida ao máximo. Mulder e eu comentamos que Victoria pelo menos tem Ellen e Skinner como padrinhos. Pessoas em quem confiaríamos para criar nossa filha, caso algo nos acontecesse. E aí estávamos comentando sobre o Bryan.

BARBARA: - O nome dele é Bryan? Adorei!!!

SCULLY: - Então a gente pensou que devíamos achar padrinhos de confiança...

MULDER: - Não enrola, Scully. Nós queremos que vocês sejam os padrinhos do moleque.

Barbara olha num sorriso quase em lágrimas pra Scully.

BARBARA: - Eu nunca tive um afilhado... Nossa! Tô sem palavras! Obrigada mesmo pela consideração, isso é bastante responsabilidade. (SECA AS LÁGRIMAS) Obrigada pela confiança... Ai, tô emocionada! Acho que borrei até a maquiagem!

SCULLY: - (SORRI) Eu não disse, Mulder? E depois quem é que me atura, me levando ao shopping pra comprar roupinhas e coisinhas de bebês? Me leva ao cabeleireiro, manicure...

Barbara sorri, limpando com o dedo o lápis dos olhos. Krycek calado, olhar ao longe.

MULDER: - E aí, Rato? Já que não pensa em ser pai, que tal ser padrinho? É bem mais fácil. Eu fico com as fraldas sujas e você com a diversão.

KRYCEK: - ... Eu não mereço essa honra que vocês estão me dando, praticamente me colocando na família de vocês que eu ajudei a destruir. Seu perdão já tá de bom tamanho, Mulder, mais que isso nem posso desejar, nem sua amizade eu sonhava.

MULDER: - Pronto, vai começar. Lá vem Krycek lembrar do passado!

KRYCEK: - Mulder, você sabe que nunca vou esquecer as coisas que eu fiz. Posso passar por cima, mas essas coisas sempre voltarão na minha cabeça, principalmente a morte do seu pai. Como vou ser o segundo pai do seu filho, uma criança que não vai conhecer o avô porque eu o matei? Pensa. Se coloca no meu lugar, eu me sinto envergonhado!

MULDER: - Krycek, só me responde uma coisa: Se meu pai estivesse vivo hoje, o Sindicato ainda existisse e você ainda estivesse com eles e não fosse meu amigo. Você o mataria se eles mandassem?

KRYCEK: - Claro que não! Depois de tudo o que descobri, nem preciso pensar muito nisso. Não mataria ele nunca.

MULDER: - Por quê?

KRYCEK: - Porque seu pai era nada em vista daqueles canalhas. Seu pai não era o problema, ele era a solução, ele ia poupar toda a sua busca pela verdade contando a verdade pra você e provavelmente pra mim se eu o apertasse. Por isso queriam ele morto.

MULDER: - Ok, disse tudo. Scully, ele aceita.

SCULLY: - Alex, todos nós, de uma forma ou de outra, fomos usados. Cometemos erros.

KRYCEK: - Eu sei, além de matar Bill Mulder ainda entreguei você pra eles abduzirem e lhe darem um câncer e esterilidade. Eu não posso aceitar o filho de vocês como afilhado, porque eu não sou digno, eu não contribuí pra essa felicidade de vocês hoje, muito pelo contrário.

MULDER: - Você não sabia o que eles iam fazer com a Scully.

KRYCEK: - Mas eu devia ter desconfiado que coisa boa não era! Mesmo sem saber direito sobre a Scully, sobre você... Eu achei que eles a pegariam pra dar um susto em você, pra fazer você desistir da verdade e depois a devolveriam, foi o que o fumacento me disse... Eu queria voltar no tempo e desfazer todas as merdas que eu fiz! Eu deveria ter descido daquela limusine quando pisei a primeira vez em Nova Iorque, pegado o dinheiro que me deram adiantado e dado o fora! Deveria ter sumido e passado a perna neles! Você não pode ter palavra com gente que não tem caráter! Você acaba ficando sem caráter como eles!

Barbara observa, calada.

KRYCEK: - Sinceramente, eu nem sei como vocês puderam me perdoar. Porque eu não me perdoo por ter passado anos da minha vida achando que vocês eram os inimigos. E depois de descobrir que vocês eram os mocinhos da história, ainda assim não confiava em você pra fazer uma aliança contra eles, Mulder. Confiaria na Scully, mas não em você. E como Scully andava com você, não dava pra confiar nela.

MULDER: - E por que não confiava?

KRYCEK: - Quando você fingiu que estava morrendo de câncer, eu juro que pensei: Finalmente Mulder mostrou o que eu pensava que faria. Admitir sua genética fumacenta e sentar na cadeira do Sindicato, levar adiante o legado do velho. Eu achava que você era tonto demais, manipulável, que pra descobrir a verdade sobre aliens venderia até a alma. Como eu fiz. E com a Scully desaparecida, pior ainda! Eu fazia mal juízo de você porque não o conhecia bem. O que sabia de você era o que o Sindicato me falava. E aquele safado fumacento mentiu tudo o que podia pra esconder a paternidade dele e proteger você.

MULDER: - E pensou que eu sentaria no Sindicato para agradar o meu pai?

KRYCEK: - Pensei sim, e que a culpa disso era minha por ser um idiota, que pra escapar da tortura na prisão russa e mudar de vida aceitou trabalhar pra canalhas. Nessa hora tive a certeza de que havia matado o pai errado.

SCULLY: - Alex, nenhum de nós se conhecia intimamente. Como Mulder falou, nos jogaram no tabuleiro do jogo deles, éramos peças idiotas num jogo que nem imaginávamos até aonde iria. Mulder custou a confiar em mim. Eu me sentia desconfortável naquele porão.

MULDER: - Verdade. Porque Scully foi colocada lá pra me espionar, usando a ciência dela e os relatórios. Ela nem desconfiava disso, mas eu achava que ela trabalhava pra eles. Eles sabiam tudo o que eu fazia porque ela me dedurava nos relatórios sem desconfiar.

SCULLY: - Como fizeram com você. Colocaram você pra espionar o Mulder, mas você estava ciente do que fazia, só não estava ciente de que Mulder não era o problema. Eu só penso que anos se passaram, muita coisa aconteceu de bom entre a gente, que nos aliamos, agora nos conhecemos melhor e voltar ao passado não vai nos fazer felizes. Todos nós erramos e cometemos erros. Se formos pensar no que não deveríamos ter feito, eu vou começar dizendo que jamais deveria ter ido pro FBI. Pelo menos não teria dado tanto desgosto ao meu pai e certamente estaria com ele em seu leito de morte. Melissa estaria viva. Teria poupado muita coisa de ruim pra mim mesma e para o Mulder. Nem estaria aqui esperando um filho dele, nem minha filha teria nascido.

MULDER: - E eu jamais deveria ter pego os Arquivos X quando Diana e eu os descobrimos. Eu devia ter ignorado e ficado na Seção de Crimes Violentos com o Don. E hoje eu ainda estaria lá dentro, como chefe de departamento. Não teria conhecido a Scully, provavelmente ainda moraria naquele apartamento e nunca teria encontrado a minha irmã. Teria Bill ainda vivo, mas jamais ele me contaria que eu era uma experiência. Eu viveria na mentira.

BARBARA: - Eu sei que cheguei quando a história entre vocês já estava concluída. Eu só acho normal que pensemos no que podíamos ter feito e não fizemos, eu faço isso algumas vezes. Todos nós paramos em alguns momentos da vida e olhamos para trás questionando as escolhas que tomamos e se hoje poderia ser melhor e diferente. Vivemos no eterno dilema das escolhas. Mas se cada um de nós olhar para trás, verá que naquele momento, era a melhor escolha a ser feita. Porque hoje você também tem escolhas e sabe que vai escolher o melhor pra você. No passado, sua decisão também se baseou nisso, mesmo que você não lembre.

SCULLY: - Você tem razão, Barbara, eu concordo com você. Eu poderia ter ido pra carreira médica ou para o FBI. Decidi o FBI porque eu achava que poderia ser melhor pra mim, mesmo que meu pai não concordasse. O FBI me abriria portas de conhecimento, que sendo uma médica comum, eu não teria.

MULDER: - E eu briguei pra criarem o departamento de Arquivos X alegando que alguém tinha que dar respostas para aquelas pessoas, que precisávamos ressuscitar o arquivo morto e que eu não me importava de ir para o porão. No fundo eu sabia que só assim para encontrar minha irmã e descobrir a verdade.

KRYCEK: - ... Eu escolhi vir pra América, sonho do meu pai, mesmo sem saber o que esperar dos caras que me propuseram trabalho, mas era melhor estar vivo que morrer espancado e torturado numa prisão russa.

Eles ficam em silêncio. Barbara suspira. Eles não percebem Victoria que estava na porta, ouvindo toda a conversa, segurando um livro.

MULDER: - ... Rato. Só pensa. Scully e eu vamos entender se disser não. Mas eu vou ficar chateado porque não sei quem poderia ser melhor padrinho para o meu filho. Quem o defenderia com unhas e dentes. E com balas se preciso fosse.

BARBARA: - Eu aceito. Se ele não aceitar, problema dele. Eu quero um afilhado pra encher de mimo! Scully, o chá de fralda. Eu pago as lembrancinhas. Vamos fazer um chá de fralda pra ficar na história.

SCULLY: - Só quero dar pra ele o que não pude dar pra Victoria. Tudo era medo, tudo escondido, eu trancada em casa, tudo para proteger minha filhinha. Eu não quero ter mais medo.

KRYCEK: - Não precisa ter medo, Scully. Matei aqueles filhos da mãe. E mato qualquer um que chegar perto da sua barriga, tem minha palavra. Mulder não vai precisar se virar em dois pra defender você. Quando ele não estiver, estarei eu. Prometo pra você.

MULDER: - Aí, tá vendo? Concorda que existe outro padrinho pro moleque? A não ser que você não queira outro Mulder enchendo seu saco, aí até entendo.

KRYCEK: - Se todo o problema do mundo fosse aturar você, Mulder...

BARBARA: - Acredite, Mulder, aturar o Alex é pior!

Krycek faz careta pra ela. Scully e Barbara riem. Scully tenta sair da rede. Começa a rir.

SCULLY: - Ai, entalei aqui!!!

Mulder tenta empurrá-la, Krycek se levanta e a ajuda a sair. Scully leva as mãos às costas.

SCULLY: - Boa noite pra vocês. Preciso me deitar. Minhas costas estão me matando. E quero massagem. E quero ser bem mimada.

Mulder sai da rede.

MULDER: - Já entendi... Boa noite pra vocês.

Mulder e Scully entram no chalé. Victoria sentada no sofá, disfarça estar lendo.

SCULLY: - Filha, não vai dormir? Amanhã cedo seu pai vai pescar com o tio Tchek. Não quer ir junto?

VICTORIA: - Quero. Vou subir com vocês. Mamãe, posso passar óleo na sua barriga?

SCULLY: - Claro que pode! Quero muita massagem hoje.

MULDER: - É, Pinguinho... Vamos ter que mimar sua mãe.

VICTORIA: - Ela merece.

Victoria dá os braços pra Mulder que a pega no colo. Eles sobem as escadas.


12:35 A.M.

Krycek sentado nas escadas da varanda, olhando para o céu. Tudo escuro ao redor, apenas as luzes da varanda acesas. Alguns vaga-lumes voam. Barbara se aproxima e senta-se ao lado dele, enfiando o braço no braço dele e recostando a cabeça no ombro de Krycek.

KRYCEK: - Queria me livrar dessa culpa. Queria enterrar as memórias do passado bem no fundo, jogar concreto em cima e nunca mais lembrar. Nunca duvidei que merecesse punição pelo que fiz de errado na vida. Mas é um peso tão grande na alma.

BARBARA: - Não acha que já teve punição demais na vida? Já foi punido por coisas que nem fez. Amor, precisa mesmo se perdoar. Eles perdoaram você. Por que não se perdoa?

KRYCEK: - Eu não consigo.

BARBARA: - Sabe por quê? Porque tem um coração aí dentro desse peito. Se não tivesse, não sentiria culpa. Alex, você esconde suas emoções. Aprendeu a fazer isso pra sobreviver. Não precisa mais, deixa suas emoções saírem pra fora. Amor, é uma nova fase na sua vida. Há seis anos você está livre do que planejaram pra você, entende? Você pode escolher, e não é escolher entre o pior e o menos pior, mas escolher entre o melhor e o melhor ainda.

KRYCEK: - Estrago a felicidade porque não sei lidar com ela. Me é ainda uma desconhecida. Só queria ser mais solto, sabe? Sem ficar pensando que não tenho direito de ser feliz.

BARBARA: - Por que se detém nos anos terríveis da sua vida? Por que não lembra daquele garotinho cheio de sonhos e pula direto para esse garotão que precisa ter sonhos?

KRYCEK: - Não tenho sonhos na vida, Barbara. A única coisa que eu desejo realmente é fazer você feliz e nem isso eu consigo.

BARBARA: - Quem disse que não consegue? Quem disse que não tem sonhos? Hum? Publicar os escritos desconhecidos do seu pai já foi um sonho, hoje é realidade. A viagem pra Rússia já é um sonho conquistado. Você quer voltar pra lá, quer brigar pelos direitos autorais do seu pai, quer dar um descanso eterno merecido pra ele ao lado da sua mãe e fazer justiça a um poeta que a Rússia esqueceu. Estou com você nisso. É um sonho, uma meta. Já é um começo.

KRYCEK: - ...

BARBARA: - Você está inconscientemente tentando consertar o passado, Alex. E isso é ótimo! Você está voltando para a casa, quer ajeitar as coisas todas, quer reencontrar as raízes daquele garotinho que hoje é um homem, e resolver as pendências todas como um homem faria.

KRYCEK: - Barbara, eu só quero ter coragem de ir até o túmulo da minha mãe. E quero ter coragem pra fazer o que você sabe que preciso fazer.

BARBARA: - Amor, você vai ter coragem, eu sei. E estarei do seu lado o tempo todo. Você não precisa estar lá quando abrirem a sepultura do seu pai. E Deus vai ajudar que é seu pai quem está naquela cova anônima. Você vai poder colocá-los juntos finalmente.

KRYCEK: - E se não for ele? E se os registros estiverem errados? Sabe a bagunça que era o sistema. Executavam os traidores do regime e enterravam sem direito a nome. Eu nunca pude buscar os ossos do meu pai durante a minha vida, porque meu nome não podia aparecer, e depois se tornou um dos mais procurados. Mesmo com a abertura. De certa forma, devo isso a Vassily Pescow, que limpou meu nome que o Sindicato sujou na Rússia. Como exigir uma exumação se você nem pode dizer que é parente? Que juiz daria isso a um estranho? Agora que eu consegui, não sei se tenho coragem suficiente.

BARBARA: - Tem sim. Você vai fazer essa justiça ao seu pai, o governo russo deve isso a ele. Vai colocá-lo junto da sua mãe, os dois merecem estar juntos, eles se amavam. E vamos restaurar a memória do velho Mikhail Krycek. Vou contar a história dele na TV. Sabe que vou. E isso vai atrair outras emissoras e até emissoras russas. As coisas mudaram, amor. O mundo pode estar cruel, mas pelo menos tem mais liberdade.

KRYCEK: - Não quero que vá pra lá trabalhar. Eu sei que vai querer chafurdar os arquivos abertos do comunismo, que vai catar tudo o que puder pra limpar a memória do meu pai, conversar com quem ele conhecia e eu verei novamente rostos que achei que nunca mais veria na vida.

BARBARA: - Temos um mês pra ficar lá. Vamos passear, nos divertir e vamos resolver essas pendências. E caso não dê tempo, eu ligo pro Calvin. Ele tá babando por essa matéria. Se você tiver que voltar, eu brigo com o Norris.

KRYCEK: - Acho melhor a gente dormir. Amanhã o Mulder tá esperando pela pescaria. Viemos nos divertir, não quero mais pensar em problemas.

Krycek se levanta, estende a mão pra ela.


7:21 A.M.

Scully serve as panquecas pra Victoria sentada à mesa.

SCULLY: - Eu não disse que os pescadores iam dormir mais que a cama?

VICTORIA: - (RINDO) Verdade!

SCULLY: - Se a gente depender de peixe daqueles dois, vamos é morrer de fome!

VICTORIA: - Ainda bem que ganhei todo o arroz!

As duas riem. Scully senta-se. Pega a cobertura de morango e desenha um coração na panqueca de Victoria.

VICTORIA: - Adoro quando faz isso, mamãe!

SCULLY: - É panqueca com amor de mãe.

VICTORIA: - Eu te amo, mamãe.

SCULLY: - Eu também te amo, filhotinha minha.

As duas se beijam num selinho.

VICTORIA: - Posso tomar café?

SCULLY: - Pode, mas só se colocar leite.

VICTORIA: - Tá bom. É que não gosto muito desses achocolatados e nem de leite puro.

SCULLY: - Mas precisa porque está em fase de crescimento. E eu quero que você cresça mais que eu. É chato ser nanica. Precisa pegar cadeira pra alcançar os armários, pedir pra funcionários pegarem coisas na prateleira do mercado... O mundo não foi feito pras baixinhas.

VICTORIA: - Papai discorda.

SCULLY: - Se ele fosse baixinho ia concordar. Pergunte ao Frohike se ele não concorda comigo.

Barbara desce as escadas.

BARBARA: - Bom dia!

VICTORIA: - Bom dia!

SCULLY: - Bom dia! O seu pescador está dormindo? Porque o meu está roncando e babando no travesseiro. Parece que não dorme há décadas!

Barbara senta-se à mesa.

BARBARA: - Pois pensei em acordar o meu pescador, mas fiquei com pena. Os peixes não vão fugir do rio. Eles podem pagar mico mais tarde.

Barbara serve um café.

BARBARA: - Conversei com ele ontem. Ele aceita. Só tá com vergonha, culpa...

SCULLY: - Eu entendo. Também sofri culpa por anos. Não é fácil se perdoar.

BARBARA: - Ele gosta de crianças. Precisava ver a frustração dele quando sua mãe disse que levaria Victoria daquela vez... Acho que se pudesse, ele a sequestrava.

Victoria sorri.

VICTORIA: - Verdade, mamãe. E ontem tio Tchek me deixou comprar tudo o que eu queria.

BARBARA: - E você não quis nada, sua boba!

VICTORIA: - Não é legal abusar.

SCULLY: - Abusar não é mesmo, Docinho. Mas aceitar um presentinho seria educado. Ok?

VICTORIA: - Vou pedir desculpas pra ele então.

BARBARA: - Gente, eu trouxe uma câmera digital. Quero testar e preciso de modelos. Vamos fazer umas fotos de mamãe e filhinha? Hum? Vamos registrar essa gravidez e esse fim de semana?

SCULLY: - O que acha, filha?

VICTORIA: - Eu quero!!!

BARBARA: - Ok, vamos fazer umas fotos bem legais.


11:23 A.M.

Krycek de avental na frente da churrasqueira. Mulder sai da cabana, cabelos revirados, cara de sono.

MULDER: - Cadê as baixinhas?

KRYCEK: - Nos deixaram panquecas, café e um bilhete dizendo que foram tirar fotos.

MULDER: - Quer ajuda?

KRYCEK: - Tá tranquilo.

Mulder volta pra dentro da cabana. Cookie se aproxima, senta-se aos pés de Krycek, abanando o rabo.

KRYCEK: - Entendi. Quer o seu bem passado, mal passado ou ao ponto?

Mulder sai da cabana com uma caneca de café. Senta-se no banco da mesa.

MULDER: - Dormi demais. Victoria queria que eu lesse pra ela, fui até tarde... Rato, sobre aquele lance da Rússia, sem palhaçada. Se precisar que eu vá pra ajudar, eu vou.

KRYCEK: - Não esquenta, Mulder. Eu preciso mesmo enterrar meu pai como ele merece. Tem coisas que um homem precisa fazer sozinho.

MULDER: - É, eu sei. E nem sempre é fácil. Acha que demora muito?

KRYCEK: - Tô planejando ficar uma semana em Moscou. Se eles demorarem muito com a coisa legal, eu pego a Barbara e vamos continuar a viagem até resolverem a coisa toda. Já tô preparado pra isso.

MULDER: - Quando fui pra Auschwitz... Juro que procurei tudo que pudesse ser dos nossos avós, qualquer objeto que o Rabino pudesse encontrar, só pra você ter uma lembrança do seu avô. Mas nada, e existem muitos catálogos de objetos e se você não sabe o que está procurando ou não tem um nome no objeto... Rato, aquilo cheira a morte. Eu passei mal lá dentro, Scully também. Quando chegamos em Berlim, o Rabino disse que até hoje eles desenterram ossos de vários locais, existem muitas covas coletivas espalhadas pela Europa, fora as que os arqueólogos ainda não descobriram. São tantas ossadas pra fazer DNA, eles levarão séculos pra fazer isso.

KRYCEK: - Eu só espero que a humanidade tenha aprendido a lição. Tudo bem, Mulder. Pelo menos eu sei mais do meu avô do que meu pai sabia, por causa do diário do seu avô.

MULDER: - Talvez eu tenha que voltar a Berlim esse ano. Por causa do processo contra o Estado. Sinceramente, dinheiro não é o meu foco. Eu só quero que devolvam aos Mulder o que tiraram deles, o que não é fácil, porque muitas coisas como obras de arte, jóias, isso sumiu pelo mundo, vendido ou leiloado, ou está em posse de herdeiros de nazistas. Falei com o Rabino sobre isso, ele está como meu procurador. Se eu resgatar uma propriedade que seja, acho que daria um bom museu em memória ao meu avô e as vítimas do holocausto. E certamente, Rato, vai ter um espaço dedicado aos Krycek. Não fosse o seu avô, o meu teria desistido da vida.

KRYCEK: - A família Strughold ferrou com os Mulder, os Krycek e os Spender. Juro que não me arrependo de ter acabado com a raça daquele nazista desgraçado. O problema é que ele tem dois filhos, que tiveram filhos. E espero sinceramente que não se envolvam em conspirações e mexam com a gente. Acabaram as experiências. Eu servi de cobaia também e o filho da mãe era tão maldito e desgraçado que mesmo pegando as células do Barnett e conseguindo regenerar membros, ele escondeu tão bem seus registros pra não dividir isso com a humanidade. Pensa, Mulder. Quantas pessoas, que perderam ou tiveram que amputar membros, poderiam hoje ter seus membros de volta?

MULDER: - Aposto que ele deixou o segredo pra família. Isso vale dinheiro, como toda cura. Também não entendo tanto egoísmo e maldade. É nessas horas que eu relevo o Spender. Foi criado pelos Strughold como um nada, sem direito a nada como filho, tratado como um nada, um empregado, tudo porque o pai dele o vendeu ao Strughold sênior. Conrad Júnior nunca o tratou como irmão, enfiaram ele na CIA sem direito a escolher o que queria na vida, que era escrever.

KRYCEK: - Ele fez a mesma coisa comigo, Mulder. Eu vim pra cá fugindo pra fazer serviços de agente duplo trocando informações entre os dois países e pensando que depois de ter um bom dinheiro pra me garantir, eu poderia desistir e ir atrás dos meus sonhos de cantor de ópera. Não apertei o gatilho na cabeça dele aquele dia, só porque eu não mataria o seu outro pai. Também não posso culpar o velho por muitas coisas, mas por outras... Ele ferrou a minha vida direitinho, ferrou a sua e o pior de tudo é que algumas vezes ele também salvou os nossos rabos.

MULDER: - Rato... Você já pensou por que escolheram você para trabalhar pro Sindicato? Porque sempre que tinham que me ferrar, era você que eles chamavam entre tantos outros que trabalhavam pra eles? Será que confiavam tanto assim em você pra fazer o serviço? Você não foi contratado como carteiro de informações entre EUA e Rússia? Porque começaram a colocar você nessas missões? Nunca se perguntou?

KRYCEK: - Como assim, Mulder? Eu fui contrato pra uma coisa, mas o Fumacinha disse que eu trabalharia em outras também... Mas sim, tinha outros caras até mais aptos que eu para o serviço.

MULDER: - Ando refletindo muito esse passado, as coisas que meu avô escreveu, essa coisa toda da Segunda Guerra porque estou escrevendo um livro sobre isso... Acho que posso estar maluco, mas... Com tantos caras na Rússia, por que escolheram você? Vassily Pescow sabia o passado da sua família?

KRYCEK: - Pescow conheceu meus pais, minha mãe costurava roupas pra esposa dele e ele lia os livros do meu pai. Só isso.

MULDER: - Mas ele disse que Spender conhecia a família Krycek?

Krycek fica pensativo.

KRYCEK: - Não, e ele me diria, porque ao contrário do que acontece entre vocês americanos, nós russos somos bem mais unidos... Mas Mulder, o Fumacinha não conhecia minha família. Eu fui sugerido por Pescow pra eles.

MULDER: -Tem certeza? Porque Strughold certamente conhecia. Seu avô aprontou muitas naquele campo de concentração, defendeu meu avô muitas vezes e provavelmente ambos tenham sido assunto de conversas na mesa da família Strughold. De pai para filho e filho adotivo. Hum? Sendo assim, Spender e Strughold sabiam sobre uma família russa de nome Krycek. Porque quando tocavam no nome Mulder, com certeza tocavam no nome Krycek.

Krycek olha assustado pra Mulder.

KRYCEK: - Está querendo dizer que eles me escolheram por causa do meu avô? Porque eu era um Krycek?

MULDER: - Estou aventando a possibilidade.

KRYCEK: - Mas por quê? Meu avô era irrelevante. Ele ficava na mesma cela que o seu e não teve contato com nenhum alienígena.

MULDER: - Ok, mas e se o motivo de quererem um Krycek no jogo novamente... Foi outro?

KRYCEK: - Mas que outro motivo teriam? Nosso DNA não servia pra eles!

MULDER: - O prazer mórbido nazista de usar a descendência do Major Yuri que tanta dor de cabeça deu ao Strughold sênior? O filho queria se vingar pelo pai? Ou acredita realmente em destino?

KRYCEK: - Acha então que Strughold me escolheu? Pra se vingar do meu avô? Descobriu aonde eu estava, mexeu os pauzinhos com o fumacento e esse passou meu perfil como se fosse o que queriam para que Pescow me escolhesse? Mulder, isso é diabólico, e você me deixou com medo!

MULDER: - Tenho pensado nisso, Rato. Muita coincidência, entende? Com tantos caras, porque você pra me ferrar? Hum? Um Krycek e um Mulder novamente, que coincidência do destino! Quer maior prazer pra um nazista do que colocar dois caras que são descendentes de dois amigos como inimigos? Pra um ferrar o outro? Que diversão maravilhosa! Que vingança!

Krycek senta-se, chocado, colocando as mãos no rosto.

KRYCEK: -Mulder... E-eu nem sei o que pensar. Mas faz muito sentido.

MULDER: - E nem Pescow sabia disso. Acho que foi planejado.

KRYCEK: - E eu matei o filho da puta sem antes espremer tudo o que ele sabia!

MULDER: - Poderia espremer até ele explodir, Rato. Strughold jamais diria qualquer coisa. Pensa nisso. Porque eu ando muito desconfiado que tem coisa aí. Mas ainda temos uma chance de descobrir essa verdade: O Fumacinha.

KRYCEK: - Ele nunca vai dizer nada.

MULDER: - Ah vai... Pode apostar que sai limonada quando eu espremer esse limão. Só quero saber se você quer beber.

KRYCEK: - Com certeza, Mulder, porque agora quem ficou paranoico fui eu!

MULDER: - Você vai pra Rússia. Revira tudo o que puder, nem que precise visitar Pescow e tomar chá com ele. Tenta descobrir coisas sobre isso. Barbara vai com você e ela é ótima em arrancar segredos. Porque eu vou apertar o Spender. Essa é mais uma verdade que precisamos descobrir. Sempre me perguntei porque eu. Quando descobri foi um alívio. Agora você precisa saber porquê você. E acho que a resposta vai tirar uma culpa enorme das suas costas.

KRYCEK: - Tantas mentiras, Mulder... Tantas mortes, tantas separações de famílias... Desde a Segunda Guerra. Você tem razão, tem coisa aí. Eu vou atrás disso. Meu pai nunca quis ir atrás das lembranças, ele achava que o pai dele não tinha voltado da guerra porque fugiu. Nunca soube que o pai dele tinha morrido num campo de concentração. Nunca conheceu o pai, ele partiu com a guerra deixando a mulher com o filho na barriga e duas meninas pequenas pra criar.

MULDER: - ... Lamento, Rato. Então você tem duas tias?

KRYCEK: - Não. As duas morreram crianças ainda. Na Batalha de Moscou, contra os nazistas. Hitler tentou tomar Moscou, mas os civis começaram a reagir.Operários, mulheres e crianças passaram a cavar valas e montar defesas e armadilhas. Minhas tias morreram alvos de nazistas. Minha avó criou o meu pai sozinha, num quarto, sala e banheiro dentro da casa dos pais do meu avô. Eles moravam nessas três peças, da mansão que tinham. Ele nunca voltou da guerra, nunca soube que a deixou grávida. Ela nunca mais se casou e morreu aos 40 anos de desgosto da vida.

MULDER: - Como assim moravam em três peças?

KRYCEK: -Mulder, antes da revolução comunista de 1917, nossa família era rica. Quando os Bolcheviques tomaram o poder, começaram a desapropriar os "ricos". Casas com muitos cômodos eram divididas e colocavam famílias lá dentro. Sobrou pra eles apenas três peças da casa, o resto foi desapropriado e dado a outras pessoas.

MULDER: - Então por isso seu pai acabou morando num cortiço?

KRYCEK: - Exato. Ele saiu da casa deles quando se casou, que não era mais deles, e optou por viver num cortiço com mamãe.

MULDER: - Agora entendo a revolta dele! Vocês podiam ter uma casa boa, uma vida boa, mas o governo confiscou tudo o que vocês tinham!

KRYCEK: - Entende o comunismo? Vamos dividir tudo e transformar todos em pobres ao contrário de vamos adquirir riquezas e transformar todos em ricos.

MULDER: - Rato, que merda! Mas depois da reabertura? Nunca tentou recuperar a propriedade e os bens da sua família?

KRYCEK: - Mulder, bens foram levados por famílias que se apropriaram deles. A casa... A casa terminou num cortiço. Não creio que exista e se ainda existe, certamente as gerações que ficaram por lá se acham no direito delas. Com o passar do tempo, devem ter repartido o terreno, construído outras casas e demolido a mansão. Eu não vou brigar por isso.

MULDER: - Eu brigaria. Eles não tem culpa? Não. Mas você menos ainda. Sua família lutou pra ter alguma coisa e foi roubada. Ah, Rato, eu processava o governo russo e pegava o que é dos meus de volta. Pegava um advogado bem ferrado e fazia a justiça para os meus antepassados. Não é o dinheiro. É a memória que tiraram dos seus. As raízes de vocês. Condenaram até mesmo você a viver uma vida miserável. Ao destino que teve. Você tem ódio do que passou, e em partes, foi tudo culpa do governo. Sua mãe morreu de fome. Seu pai sentia a dor de não poder ajudar mais dentro de casa. Eu não deixava isso barato não.

KRYCEK: - ... Mulder... Eu sei, mas... Eu sou o último Krycek. Vale a pena? A família toda termina e morre em mim.

MULDER: - Lembra do que falamos naquele hotel desgraçado àquela noite? Entende agora? Pensa no assunto.

KRYCEK: - ... Não tô pronto pra isso. É um mundo cruel demais pra se colocar um filho nele. Mas podia brigar e deixar pra alguma instituição de caridade pra crianças.

MULDER: -Será uma longa briga, mas boa e muito justa, igual a que estou tendo com o governo alemão. Eu vou ligar pro Rabino Yareah. Provavelmente ele conhece um advogado dos bons em Moscou, já que ele tem contatos legais por toda a Europa por causa do trabalho que ele faz tentando justiça para os descendentes de judeus. Vai adiante, Rato.

KRYCEK: - Valeu, Mulder... Acho que eu tenho a obrigação de filho de restaurar a memória dos Krycek, porque graças à você, eu sei a verdade que minha família nunca soube. E vou descobrir mais ainda. Pode apostar que vou trazer mais material pro seu livro.



BLOCO 3:

1:31 P.M.

Todos à mesa no quintal. Victoria subindo e descendo uma barranco, brincando com Cookie. Scully é única comendo ainda. Mulder olha debochado pra ela.

MULDER: - Aonde cabe tanta comida nesse corpo pequeno?

SCULLY: - Larga do meu pé, Mulder. Eu quero outra abobrinha e um pouquinho desse molho de romã.

MULDER: - (DEBOCHADO)Vocês acham que se eu levar a Scully para passear nas cataratas do Niágara, vão me prender por estar de posse de um barril?

BARBARA: - Vocês homens são insensíveis mesmo! Deixa ela comer em paz, ela tá "embarazada".

MULDER: - "Embaraçado" tô eu com a situação!

BARBARA: - Muito em forma que você está!

MULDER: - Ô nanica jornaleira, você tá me chamando de gordo?

SCULLY: - Viu? Depois não quer fazer dieta.

KRYCEK: - Agora vou ter que defender o Mulder. Ele não tá gordo.

MULDER: - É, isso é uma pequena saliência de cerveja.

BARBARA: - É, e você também tá indo pro mesmo caminho, Ratoncito.

KRYCEK: - Fala sério, eu sou russo, nós temos o hábito de comer saudavelmente. Aí vem você com pãozinho tostado na manteiga, panqueca com molho disso e daquilo, e aqueles sanduíches cubanos hiper-mega-temperados!

MULDER: - Esqueceu da mandioca frita.

KRYCEK: - É. E aquela mandioca frita. Que cai bem com cerveja.

SCULLY: - Hum... Adoro aquela mandioca frita!

MULDER: - (DEBOCHADO) Você gosta de mandioca de qualquer jeito, Scully. Tá embuchada de comer mandioca!

SCULLY: - Mulder, eu juro que vou chutar sua canela por baixo da mesa!

BARBARA: - Vocês dois não iam pescar? Ahn? O que estão fazendo aqui ainda, empestando o ambiente? Andale, andale, andale!!! Vão pegar na vara e molhar minhoca!

Mulder se levanta rindo. Krycek se levanta.

KRYCEK: - Vou pegar minha tralha de pesca. Vem, Mulder, não somos compreendidos mesmo.

BARBARA: - E tragam um peixe ao menos! E podem ter certeza de que eu saberei se pegarem o carro e irem comprar peixe no mercado! Esse truque é velho.

KRYCEK: - Pois prepare seus temperos todos, porque vai comer o melhor peixe da sua vida.

Victoria vem correndo.

VICTORIA: - Mamãe, posso ir pescar com o papai?

SCULLY: - Pergunta pro seu pai.

VICTORIA: - Posso, papai?

MULDER: - Pode. Mas se começar a protestar pelas pobres minhocas no anzol, eu atiro você no rio.

SCULLY: - Mulder!!! E Docinho, não entre na água que está fria, já estamos no outono. E Mulder, passe repelente nessa menina! Tem muito mosquito nesse lugar!

VICTORIA: - Eu não vou protestar. Quero aprender!

KRYCEK: - Então vem com o tio Tchek, porque seu pai não pesca nem bota velha no fundo daquele rio.

MULDER: - Um fardo de cerveja. Eu vou pegar o maior!

KRYCEK: - Vai nada! Se pegar um pneu velho tá no lucro!

Os dois se afastam discutindo. Victoria vai atrás deles, rindo.

BARBARA: - Pronto! Enfim sós! Bob Esponja e Patrick deram um tempo pra nossa cabeça! Acho que vou lavar a louça pra amolecer as cutículas e depois pegar minha necessaire e fazer as unhas.

SCULLY: - Eu te ajudo. O Mulder me paga. Pode deixar. Nós mulheres sempre temos como revidar na calada da noite.

BARBARA: - Por falar em calada da noite, depois você vai comigo na cidade? Esqueci de comprar absorvente.

SCULLY: - Tá naqueles dias? Meu Deus, nem sei mais o que é isso, mas em breve vou lembrar...

BARBARA: - Não ainda, mas parei as pílulas, vou deixar descer e começar de novo. Esqueci de tomar um dia. Troquei horários, bagunçou tudo! Scully, você que é médica. Um dia esquecido é perigoso?

SCULLY: - (RINDO) Sério?

BARBARA: - Ai, Scully, eu tô numa pilha, não me assusta!

SCULLY: - Dizem que sim, mas eu acho que depende se você tomava direto sem pausa, depende da saúde do seu garotão... Depende de muita coisa, até da sorte.

BARBARA: - Você nem brinca comigo, eu já tô apavorada!O pior é que não tenho certeza se tomei no outro dia também!

SCULLY: - (RINDO) Oba! Vou ganhar um afilhado também? Você prometeu!

BARBARA: - Scully, olha pra mim, estou tremendo! Não brinca com isso.

SCULLY: - Quantos dias faz que você parou de tomar?

BARBARA: - Esqueci um dia, o outro acho que tomei e no outro eu parei. Hoje é sábado. Dois dias hoje. E culpe seu marido por isso. Esqueci porque me empolguei em arrumar uma entrevista pra ele, depois não sei se tomei ou não, porque ele me ligou na hora...

SCULLY: - (RINDO) Ah certo, e o Mulder forçou vocês dois a brincarem é? Dois dias e ainda não desceu? Você tomava pílula direto?

BARBARA: - Sim. Por quê? É por isso né?

SCULLY: - Talvez. Mas nesse dia certo e no incerto vocês dois...

BARBARA: - Sim. Eu não sabia que tinha esquecido, só no outro dia é que vi a pílula cair do fundo da caneca pra dentro do ralo da pia! Eu devo ter colocado a caneca em cima enquanto estava ao telefone e a porcaria colou no fundo! Por isso pensei que tinha tomado, não vi a bendita!

Scully começa a rir.

BARBARA: - E no dia incerto, eu queria falar pra ele se prevenir, mas o homem chegou que nem queria assunto! Ele diz que eu falo demais! Nem deu tempo!

Scully ri mais ainda. Barbara segura o riso.

SCULLY: - Sabia que quando as mulheres estão no período fértil, os homens sentem o cheiro e ficam mais empolgados?

BARBARA: - Isso é sério?

SCULLY: - Somos humanos, mas somos animais, Barbara. Animais exalam feromônios. Nós também, é imperceptível, mas os homens captam mesmo sem saber. É da natureza, é instinto, não depende da razão. Se tudo em nós dependesse da razão, nossa espécie não se procriaria.

BARBARA: - Sério, Scully. Eu tô nervosa. Se essa menstruação não descer, o apocalipse vai acontecer na frente da sua casa, do outro lado da rua.

SCULLY: - Não falo mais nada, mas se eu fosse você comprava um teste de gravidez, pra ficar mais tranquila... Ou aproveita a chance e mente que continua tomando e realiza seu sonho.

BARBARA: - Ai não, isso é mentira, não posso trair a confiança dele. Não é justo, é golpe baixo. Ele ficaria uma fera comigo! Iria parecer que quero segurar ele com barriga e eu não sou mulher disso. A outra lá já fez, lembra?

SCULLY: - Estou brincando, Barbara. Mas qual é o medo do Alex? A parte pior sempre é da mulher! Pra eles é fácil!

BARBARA: - Alex acha que é um mundo cruel demais pra colocar uma criança nele. Ainda diz que não está pronto pra pensar no assunto...

SCULLY: - Falou com ele sobre isso, finalmente?

BARBARA: - Diversas vezes, achei melhor parar o assunto pra não aumentar o atrito. Ele é ótimo, mas não fale em filhos. Perde o homem rapidinho. Vaza pela tangente. Aí argumentei que a outra que ele tinha engravidou e ele aceitou.

SCULLY: - Sério? E ele?

BARBARA: - Ele disse que não tava nos planos, que ia assumir a criança, mas não sabe se ficaria com Marita... Entendeu? Aí quem morre de medo sou eu! Por que eu não quero perdê-lo. Mas lógico, pra ele tá tranquilo, tem até o fim da vida pra voltar atrás e ter um filho. Agora eu... Meu relógio biológico tá avançando.

SCULLY: - Barbara, Krycek está fazendo você chegar num ponto perigoso, sabia? Uma hora você cansa e vai ter que decidir por ele ou por um filho, já que as duas coisas são impossíveis.

BARBARA: - Por que todo príncipe sempre tem um sapo dentro dele? A gente se dá bem, a gente se ama, ele é tudo o que eu sempre quis num homem, mas...

SCULLY: - O "mas" não é só com você, Barbara. Meu príncipe também tem os sapos dentro dele. E me acredite, já teve mais. Tive que pegar uma redinha e sair pelo pântano dele catando um por um. E quando eu penso que é o último sapo, sempre aparece outro!

As duas riem.

SCULLY: - Aprenda a fazer e degustar fritada de sapos.

BARBARA: - Que droga gostar de homem complicado!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não, nós que somos complicadas. Sempre as mulheres são complicadas, eles não... Quer saber? Vou pegar as chaves do Mulder. Você dirige porque minha barriga tá me atrapalhando. Vamos dar uma volta na cidade, comprar seus absorventes, ver artesanatos locais e distrair a cabeça tomando um sorvete longe dos olhos críticos. Vou só colocar a louça na pia.

BARBARA: -Vou pegar a bolsa.


4:36 P.M.

Krycek sentado na cadeira, olhando para o rio. A carretilha presa entre as pedras. Victoria sentada nas pedras, com os pés na água.

VICTORIA: - Aí o peixinho morde a isca e isso aqui mexe?

KRYCEK: - Sim. Você vai perceber a linha se movendo, ele tenta levar a isca pra longe e puxa.

VICTORIA: - Tio Tchek, há quanto tempo você é amigo do meu pai?

KRYCEK: - Ficamos amigos pouco depois de você nascer.

VICTORIA: - Como vocês se conheceram?

KRYCEK: - ... É uma história triste, Scullyzinha. Nem sempre fomos amigos. Mas eu gosto muito do seu pai. Sempre gostei dele.

Victoria fica olhando pra Krycek, o estudando.

VICTORIA: - Verdade... Você sempre gostou dele... Tio Tchek, eu ouvi a conversa de vocês ontem. Não foi por querer.

KRYCEK: - Que conversa?

VICTORIA: - Sobre o passado de vocês e que você trabalhava para aquelas pessoas malvadas.

Krycek fecha os olhos. Respira fundo. Olha pra Victoria.

KRYCEK: - É verdade. Tudo o que falamos é verdade.

VICTORIA: - Então era isso o que você queria dizer quando me disse que esperava que eu não odiasse você algum dia?

Krycek abaixa a cabeça, desconcertado.

KRYCEK: - É, Victoria. Era isso.

VICTORIA: - Tudo bem, Tio Tchek. Eu não odeio você. Eu posso saber o que fez, mas eu também sei que nunca mais fará. Se soubesse o que eu sei, você não ficaria triste nunca mais.

Krycek olha para o outro lado da margem, tentando conter as lágrimas.

KRYCEK: - E pode me dizer o que sabe para que eu não fique triste nunca mais?

VICTORIA: - Eu quero, mas tem coisas que uma voz diz que não posso falar. Sabe a Lei da Não-Interferência de Star Trek? Pois então... Mas eu posso dizer uma coisa pra você nunca mais ficar triste.

KRYCEK: - Então me diga. Porque eu preciso ouvir.

VICTORIA: - Você vai proteger amigos que eu amo em um momento em que eu não poderei proteger. Não sei o que é, nem quando será, mas é o que sinto.E obrigada por isso.

Krycek olha pra ela.

KRYCEK: - Fico feliz de poder fazer alguma coisa por você algum dia. Sabe que você é como a sobrinha que eu não tenho. Você é filha de um sujeito que me devolveu a vida. Eu sei que ama seu pai, e o ame mesmo, seja motivo de orgulho pra ele, porque ele é um bom homem e merece ser feliz. E você não nega que é filha do Mulder quando demonstra o caráter que herdou dele.

Victoria sorri. Olha pra Krycek.

VICTORIA: - Não precisa. Eu não preciso perdoar você. Eu nunca odiei você.

Krycek olha incrédulo pra ela.

KRYCEK: - Você lê pensamentos?

VICTORIA: - Claro! Você não?

KRYCEK: - (SORRI) Não. Isso é um dom. Você o tem.

VICTORIA: - Sério? Pensei que todo mundo fizesse isso!

KRYCEK: - Fala com seu pai sobre esse dom. Se eu o tivesse, teria feito menos besteira na vida. Por isso as pessoas fazem besteiras, elas não podem saber as intenções dos outros.

A linha treme. Victoria sorri. Krycek pega a carretilha. Se levanta.

KRYCEK: - Agora você vai enrolando a linha, sentindo se ele tá fisgado... Isso, ele tá, vamos trazer pra nós...

VICTORIA: - Acha que ele é grandão?

KRYCEK: - Acho que pequeno não é... Tá relutando, gosta de brigar.

Victoria fica prestando atenção. Krycek enrola rapidamente a linha, puxando a vara algumas vezes.

KRYCEK: - Ele é esperto. Vamos, cara, essa você perdeu.

Krycek consegue puxar e vemos a enorme carpa. Krycek segura o peixe e a linha.

VICTORIA: - Nossa!!! Ele é grandão!

KRYCEK: - Scullyzinha, me dá o alicate. Vamos tirar o anzol.

Victoria entrega o alicate, ele tira o anzol do peixe.

VICTORIA: - Isso machuca?

KRYCEK: - Ele cicatriza rápido. Aí você tira com cuidado. Quer segurá-lo?

VICTORIA: - Eu quero!

Krycek entrega pra ela. Victoria tenta segurar o peixe que tenta escapar.

VICTORIA: - (SORRI) Ele é pesado e gosmento!

KRYCEK: - (RINDO) Segura firme.

VICTORIA: - Que bonitinho!

KRYCEK: - Essa é uma carpa asiática. Agora coloca ela na água.

VICTORIA: - Sério? Não vamos comer?

KRYCEK: - Quer comê-la?

VICTORIA: - Nah! Prefiro deixar viva.

Krycek revira os cabelos dela, sorrindo. Victoria se agacha e coloca o peixe na água. Ele sai nadando, ela abre um sorriso.

KRYCEK: - Esse peixe não é nativo do país. Na verdade, ele é considerado um inimigo a ser extinto.

VICTORIA: - Por quê?

Krycek coloca outra isca no anzol e arremessa novamente a linha. Fixa a vara nas pedras e senta-se.

KRYCEK: - Introduziram a carpa asiática pra acabar com as algas e resíduos de poluentes no rio Mississipi, só não imaginaram que esses peixes acabariam com as espécies nativas e se espalhariam pelos rios e lagos da América. Os americanos não gostam de comer carpas, porque elas comem qualquer porcaria, então virou uma praga e um problema ecológico. Estão fazendo barreiras para limitarem a invasão, permitindo a pesca em massa para transformarem elas em adubo e também as matando com barreiras de choque-elétrico.

VICTORIA: - Sério? Tadinhas, mas elas não têm culpa! Não estão na casa delas! Só querem sobreviver!

KRYCEK: - É o homem fazendo besteira e achando que domina a natureza. Nem era pra ter carpa asiática nesse trecho do Mississipi. Acho que pegamos uma fujona que furou o bloqueio.

Victoria senta-se nas pedras. Krycek observa o rio.

KRYCEK: - As pessoas querem conforto. Trabalham pra isso. Foram ensinadas a consumir, e quanto mais você consome, mais você cria lixo e estraga o planeta. Quanta sujeira a gente já tirou do rio?

VICTORIA: - Verdade! Tinha latas e até um pneu enterrado na margem. Quando você era pequeno, os rios eram transparentes e limpos?

KRYCEK: - Não, já eram sujos. Mas existem alguns lugares mais afastados em que você encontra as nascentes dos rios, limpas e claras. Dá pra ver os peixes neles.

VICTORIA: - Queria ver isso.

KRYCEK: - Vou combinar com seu pai pra gente ir pro Canadá num feriado. Existem uns lugares muito lindos e remotos, aonde você encontra rios e lagos mais limpos. Você enxerga os peixinhos nadando.

VICTORIA: - A gente tá fazendo uma hortinha na escola, sabia? Pra comer coisas sem veneno.

KRYCEK: - Nossa! Isso é muito legal! Sabia que a tia Barbie tá arrumando um cantinho pra fazer horta? Acho que ela tá atrapalhada.

VICTORIA: - Ah, mas eu posso ajudar a tia Barbie e vamos fazer uma horta bonita! Mamãe deixou fazer uma horta lá em casa.

KRYCEK: - Não sei se você gosta de berinjelas. Mas é uma planta muito bonita pra se ter numa horta.

VICTORIA: - Gosto sim, são apimentadas. Você tem sementinha de berinjelas?

KRYCEK: - Eu arrumo umas mudas prontas pra você. Não sabe fazer mudinhas?

Victoria acena que não com a cabeça.

VICTORIA: - Só de feijão!

KRYCEK: - (SORRI) É fácil. Só tem que saber como a planta se procria. Batatas, por exemplo. Já viu semente na batata?

VICTORIA: - Não! Como ela nasce então?

KRYCEK: - Vamos dizer que a batata é a própria semente. Você pega uma batata, enterra e ela vai brotar e criar lindas ramas de batata. Fica lindo até pro jardim, parece uma folhagem.

VICTORIA: - Mas e as batatas nascem penduradas?

KRYCEK: - Não, elas nascem debaixo da terra. Depois do tempo certo, você vai cavar e encontrar suas batatas.

VICTORIA: - Que legal!

KRYCEK: - Amendoim também é assim. Como as cenouras e beterrabas.

VICTORIA: - Verdade! Umas nascem dentro da terra e outras em cima. As abóboras. Vamos plantar abóboras pro Halloween.

KRYCEK: - E você gosta de Halloween?

VICTORIA: - Quer saber, tio Tchek? Acho uma besteira perigosa e imprudente das pessoas. Elas brincam com o que não conhecem. Mas igual vou plantar minhas abóboras pra comer, porque adoro abóbora.

Krycek ri.

VICTORIA: - Guarda um segredo?

KRYCEK: - Claro.

VICTORIA: - Sabe aquela besteira de coelho da páscoa e papai noel? Deixa meus pais se divertirem achando que eu acredito. Eles precisam disso.

Krycek olha curioso pra ela.

KRYCEK: - Não acredita? Alguém contou algo pra você...

VICTORIA: - Não. Mas todos na escola acreditam, e como papai me ensinou, a gente tem que ficar calada pra não arrumar confusão porque a verdade não é pra todos. Não é lógico um coelho botar ovo, menos ainda de chocolate! Os coelhinhos geram filhotinhos como as mulheres. E onde já se viu, um senhor idoso viver séculos? E ainda barrigudo, como vai passar por uma chaminé? E as renas não voam, elas não têm asas!

Krycek começa a rir.

VICTORIA: - Aí fui procurar nos livros. Eu sabia que estava certa.

Mulder se aproxima com um cooler e uma sacola. Cookie ao lado dele.

MULDER: - Precisa ver o trabalho pra colocar o gelo nessa coisa, aquelas nanicas entupiram o freezer de comida e deixaram o gelo lá embaixo. E aí, sobre o que conversavam?

KRYCEK: - Sobre a natureza das coisas.

MULDER: - Filosofia em meio a natureza? Ah, isso é bom!

Mulder senta-se. Tira um refrigerante e entrega pra Victoria. Abre a sacola e tira um pacote de salgadinhos e dá pra filha.

MULDER: - E não diga pra sua mãe. Quero que você seja criança. Aproveita enquanto pode.

Victoria sorri. Mulder entrega uma cerveja pra Krycek.

MULDER: - Fisgou alguma coisa? Morderam minha isca?

KRYCEK: - Acho melhor checar sua isca, não vejo movimento desde que saiu. Fisguei uma carpa asiática.

MULDER: - Espero que tenha outros peixes aqui. Isso é uma praga. Queria pegar um boca-de-jacaré pra Victoria conhecer.

KRYCEK: - Vamos combinar de ir pro Canadá na época dos salmões?

MULDER: - Boa! Mas nossas licenças de pesca valem por lá?

KRYCEK: - Tranquilo. Victoria quer ver águas limpas. Vamos levá-la pra região dos lagos em British Columbia. Tenho um camarada que mora lá e tem cabana de caça num lugar bem isolado na natureza.

MULDER: - E tem Pé-Grande?

KRYCEK: - Serve o meu?

Victoria começa a rir.

MULDER: - Não, o seu tem chulé.

KRYCEK: - Tem não, quer cheirar?

Victoria ri mais ainda. Mulder recolhe a linha.

MULDER: - Mas são uns malandros, comeram minha isca! Vou colocar outra bem apetitosa pra eles.

Mulder abre a caixa de anzóis e iscas e retira uma em forma de peixinho.

KRYCEK: - Vai tentar as artificiais?

MULDER: - Vou. Quero um boca-de-jacaré.

KRYCEK: - Uma vez eu estava em Uganda, na África. Os caras pescam bagres com pedaços de sabão, acredita?

MULDER: - Isso é sério?

KRYCEK: - É sério. Eu fiquei olhando porque não acreditei. E pescam mesmo!

MULDER: - Victoria, atira uns miolinhos de pão na água pra chamar os peixes.

Victoria empolgada abre a sacola e começa a partir pedaços de pão.

MULDER: - Isso, mais pequenos ainda.

VICTORIA: - Eles gostam de pão?

MULDER: - Lógico! Quem não gosta de pão? Acha que os peixes são bobos? Se eles pudessem abririam uma padaria!

Victoria acha graça.

KRYCEK: - As pessoas acham que os peixes são inofensivos. Já parou pra pensar que ninguém pensa muito nos peixes como animais selvagens?

MULDER: - Eu sei lá, sempre adorei ter um peixe no aquário. Domesticado, logicamente. Peixes me acalmam.

KRYCEK: - Peixes são como qualquer outro animal. Tem os predadores e as presas. E tem peixe que pode matar um ser humano.

VICTORIA: - O tubarão!

KRYCEK: - Sim, o tubarão, mas nos rios também tem peixes perigosos.

MULDER: - E tem o baiacu que os japoneses gostam de comer. Um peixe venenoso. Eles sabem preparar, mas eu não me arrisco.

KRYCEK: - Na Amazônia tem o pirarucu que pode chegar a dois metros e meio e oitenta quilos. Imagina um bicho desses acertando você? Deve ser como uma chuva de carpas asiáticas. Scullyzinha, sabia que elas pulam em bandos na água quando você faz barulho? Elas ficam assustadas e praticamente voam na sua cara, já soube de pescadores que caíram do barco desmaiados e morreram afogados, depois de levar uma carpa na cabeça.

VICTORIA: - Nossa!

MULDER: - Nem fala. E dizem que o comportamento delas mudou aqui. Na ásia elas não pulam. Quando eu era criança, um vizinho morreu por causa de um marlim.

KRYCEK: - Esse é o bicho que eu sonho em fisgar. Isso sim é uma luta de igual pra igual.

MULDER: - Não me convide. Vamos então pegar um atum. Uma luta dura e cruel, mas sem riscos desnecessários. Ou você quer empalhar e colocar na parede?

KRYCEK: - Não! Vou devolver o bicho pro mar. É só pela sensação de pescar um marlim.

VICTORIA: - Mas o que tem esse tal marlim?

MULDER: - Ele é grandão, rápido, forte e ainda tem um bico enorme e pontiagudo. Quando fisgado ele luta, pula e pode até saltar no barco. E foi assim que acertou o meu vizinho furando a jugular dele. O cara sangrou até a morte. Tava sozinho no barco. Que idiota sai sozinho num barco para encarar o alto mar e pegar um marlim? Pescador veterano. Sei lá o que deu na cabeça do cara. Deve ter bebido. Acharam o barco à deriva e o cara morto com um marlim enorme ao lado dele.

VICTORIA: - Tô curtindo essa coisa de pescaria.

MULDER: - Vou arrumar uma vara de pesca pra você.

KRYCEK: - Pesca com mosca, Mulder. É melhor pra ela começar.

VICTORIA: - Eca! Mosca? Como vou colocar a mosca no anzol? Ou melhor, como vou pegar a mosca primeiro?

Os dois riem.

MULDER: - Filha, não é mosca de verdade. É uma isca artificial que tem o nome de mosca porque parece um inseto. Você pega peixes pequenos com ela. Geralmente.

KRYCEK: - Já vi caras pegarem trutas com mosca. Vai da habilidade. E tem quem acha ridículo esse tipo de pesca, coisa de principiante, mas tem muito veterano que pesca assim.

VICTORIA: - Papai, sua linha tá mexendo.

MULDER: - Eu tô enferrujado mesmo! Só pago mico pra Scully. Segura aqui, filha. Eu te ajudo.

Mulder ajuda Victoria a segurar a vara de pesca.

MULDER: - Sentiu? Ele tá lá.

VICTORIA: - Ele é pesado, papai!

MULDER: - Enrola a linha... Isso. Eu ajudo você a segurar. Vem enrolando mais...

VICTORIA: - Vamos peixinho, não foge!

MULDER: - É peixinho, não foge... Vem... Isso... Vem dar oi pra Victoria.

Victoria sorri. Krycek admira os dois.

MULDER: - Tá vendo, ele tá se mexendo... (SORRI) É um boca-de-jacaré!

VICTORIA: - Ele vai morder a gente se tem boca de jacaré!

MULDER: - (RINDO) Não vai não. Isso, agora vamos erguer.

Mulder e Victoria tiram o peixe da água. Victoria olha assustada.

VICTORIA: - Papai, isso é peixe ou um filhote de jacaré?

MULDER: - Isso é peixe e ele não é agressivo, só tem um bico que parece com a boca do jacaré.

Victoria alcança o alicate e se agacha ao lado de Mulder, curiosa. Mulder tira o anzol do peixe. Krycek observa curioso.

KRYCEK: - Esse eu nunca tinha visto com meus próprios olhos, ao vivo e a cores. Que bicho lindo!

MULDER: - Ele chegou à beira da extinção porque as pessoas achavam que ele comia seres humanos, pois se parece com jacaré. Matavam em larga escala e nem comiam.

VICTORIA: - Tadinho! Posso segurar?

MULDER: - Pode, só não vai se machucar com os dentes dele. Eu te ajudo a segurar. Ele é um peixe nativo, e talvez o único predador que possa acabar com as carpas asiáticas... Algumas pessoas os criam em cativeiro e os soltam no rio para aumentar a população deles... Tá vendo? Esse aqui tem um chip de identidade. Ele é protegido. Vamos colocá-lo na água...

VICTORIA: - Tchau, boca-de-jacaré! Tenha muitos filhinhos!!!


7:48 P.M.

Mulder termina de fazer uma fogueira no quintal. Victoria empolgada, agachada e curiosa, observando o fogo. Krycek se aproxima colocando uma pilha de galhos ao lado e sentando-se no chão. Scully vem com um pacote de marshmallows e entrega pra Mulder.

SCULLY: - Será que posso me sentar aí? Preciso de ajuda.

Mulder estende os braços pra ela. Victoria se levanta ajudando Scully que senta ao lado de Mulder, no lugar em que ela estava. Victoria põe as mãos na cintura.

VICTORIA: - Qual é, mamãe? Divide o papai aí, eu tenho meus direitos!

Mulder rindo, bate no chão ao lado dele. Victoria senta-se do outro lado e se agarra no pai. Scully abre o pacote de marshmallows. Krycek passa um graveto. Mulder espeta o marshmallow e segura sobre o fogo. Victoria fica olhando, mais curiosa.

VICTORIA: - Por que tá fazendo isso?

MULDER: - Porque isso é muito gostoso.

VICTORIA: - Assado?

MULDER: - Você não lembra, mas quando era pequenina, eu fazia isso no fogão e você comia até lambuzar a cara inteira. E os fiapos de cabelos!

VICTORIA: -(RINDO) Nah!!! Eu quero!!! Tio Tchek me dá um galhozinho desses?

KRYCEK: - "Nah"! Troco por um marshmallow.

Victoria sorri e pega um marshmallow entregando pra Krycek que lhe dá um galho. Victoria espeta o marshmallow, imitando o pai. Scully a observa, num sorriso.

VICTORIA: - Mamãe, a gente pescou um boca-de-jacaré, mas ele não é um jacaré de verdade, ele só parece com um. E a gente pescou carpa asiática, bagre e... Qual o nome daquele outro que você pescou, papai?

MULDER: - Truta do pântano.

VICTORIA: - Isso! Mamãe, cada peixe mais legal que o outro!

SCULLY: - E quem pegou mais peixe, seu pai ou o tio Tchek?

VICTORIA: - Eu não contei! Era pra contar?

Eles riem.

SCULLY: - Então você dá sorte pro seu pai, porque da última vez que participamos de uma pescaria, você ainda tava na minha barriga e se eu não pegasse os peixes, teríamos morrido de fome.

Mulder disfarça. Krycek começa a rir.Barbara se aproxima e senta-se entre as pernas de Krycek, já pegando as mãos dele e as trazendo para abraçá-la.

KRYCEK: - (SORRI) Fala sério, minha sanguessuga. Não enjoou ainda?

BARBARA: - Quando eu enjoar, você será o último a saber, como reza a tradição sobre cornos.

Scully solta uma gargalhada incontida.

SCULLY: - Toma!

MULDER: - Essas mulheres não sabem brincar, Rato.

KRYCEK: - Eu concordo com você, não sei aonde cabe tanto ciúme em corpos tão compactos!

MULDER: - Praticamente dividindo espaço com o mal humor.

SCULLY: - Falam um monte, mas não ficam longe da gente.

BARBARA: - E tem gente aqui que me chama de sanguessuga, mas chega em casa e fica esperando eu pular nele. E se não faço isso, fica completamente perdido sem entender nada, parado e olhando pra minha cara com ar de "que foi que eu fiz"?

MULDER: - (RINDO) Ah, eu vivi pra ouvir isso!

KRYCEK: - Vai rindo. Pode rir.

MULDER: - (RINDO) Mas claro que vou rir! Eu mereço rir muito!

KRYCEK: - O culpado disso é você, Mulder! Eu tava quieto no meu esconderijo, mas você... Você tinha que invejar minha liberdade de solteirão convicto!

MULDER: - Mas claro! Se eu não sou mais solteiro, quem disse que você merecia ser?

SCULLY: - Do jeito que falam, parece que somos o castigo deles!

BARBARA: - Aham. Pergunta: Quem veio pra cima de mim me agarrando no meu apartamento? Quem veio se declarar querendo uma chance?

SCULLY: - É. Faço a mesmas perguntas: Quem veio pra cima de mim me agarrando num chalé? Quem veio se declarar querendo uma chance?

Os dois abaixam a cabeça, se fazendo de pobrezinhos. As duas riem. Até Victoria acha graça.

BARBARA: - Ok, o gesto encerra a resposta.

SCULLY: - Então, quem ganhou o desafio da pesca?

KRYCEK: - Não tem ganhador dessa vez, deu empate.Vamos dividir as cervejas. Ele é bom pescador, só estava enferrujado. Vamos começar a pescar juntos nos finais de semana. O que acha, Mulder? Você e eu, sozinhos.

BARBARA: - Aham, mas nem que eu estivesse louca das ideias! Você sozinho com o Mulder no meio do mato? Isso me cheira a pesca de piranhas!

SCULLY: - E essa espécie é nativa em qualquer região do planeta!

Mulder e Krycek disfarçam o riso.

VICTORIA: - O que é piranha?

MULDER: - Um peixe carnívoro. Ele se alimenta de outros peixes e até animais. E pode atacar os seres humanos.

VICTORIA: - Nossa! Tipo o tubarão?

MULDER: - Sim, mas bem menor e vive nos rios.

VICTORIA: - Podemos pescar uma piranha?

MULDER: - Só existem na América do Sul. Muito longe daqui. Lá aonde o Kevin mora.

VICTORIA: - Mas a mamãe disse que é espécie nativa...

MULDER: - (DEBOCHADO) Sua mãe sabe nada desses peixes.

SCULLY: - E você é bem entendido nesse peixe, não é mesmo, Mulder?

MULDER: - (DEBOCHADO) Bem menos que o Krycek, ele é o especialista no assunto.

Barbara olha pra Krycek, o fuzilando com os olhos.

KRYCEK: - Sei de nada! Ele quem tá falando!

MULDER: - (RINDO) Claro que sabe, Rato! Você é um defensor ecológico da espécie naquela delegacia! Todo mundo sabe disso!

Barbara segura o riso.

KRYCEK: - Mulder, que amigo você é, seu dedo duro!

BARBARA: - Olha aqui, Ratoncito, pode defender a espécie, mas no momento em que começar a virar predador dela, lembre-se de que a fiscal do seu meio ambiente sou eu!

SCULLY: - Aplica multa e prende. Com algemas.

Eles riem, Krycek abaixa a cabeça envergonhado, mas acaba rindo junto.

SCULLY: - Ouviu, Mulder? O mesmo serve pra você. E me passa esse pacote de marshmallow. Não sabe dividir?

MULDER: - Você é quem não sabe "dividir".

SCULLY: - Ah, mas isso eu não sei mesmo! Não divido com ninguém!

BARBARA: - Eu dividiria o Ratoncito, na boa.

Krycek olha incrédulo.

MULDER: - Sério?

BARBARA: - Sério. Dividiria em partes e esconderia no freezer do porão.

SCULLY: - (RINDO) Boa ideia!

Mulder olha em pânico. Krycek acena negativamente com a cabeça.

KRYCEK: - Até parece! Nem tem freezer no porão!

BARBARA: - E eu preciso comprar um? Ahn? É só dizer. Compro agora por telefone.

Scully começa a rir. Victoria se abraça em Mulder. Ele envolve o braço na filha.

VICTORIA: - Papai, esse final de semana tá tão divertido. Eu não queria que terminasse.

MULDER: - Podemos ter outros finais de semana tão bons quanto esse. Hum?

VICTORIA: - Legal! Eu gosto muito de ficar na natureza.

MULDER: - Eu também. Acho que vamos ter mais momentos na natureza, pescarias, trilhas... Umas aventuras legais, que tal?

VICTORIA: - Eu ia adorar! A gente podia ir pra muitos lugares legais!

MULDER: - Ô Rato, vamos checar aquela sua "informação" lá no Colorado.

Krycek faz positivo pra Mulder. Scully se recosta em Mulder. Victoria puxa mais o pai pra perto. Scully segura o riso.

SCULLY: - Fase do complexo de Electra?

MULDER: - Normal pra idade.

VICTORIA: - Tão falando de mim, né?

Eles riem.

VICTORIA: - Que negócio de Electra é esse? Se não contarem, eu descubro.

SCULLY: - Meu Deus, tem gente que reclama que os filhos não leem. Eu reclamo que a minha lê demais!

MULDER: - É um termo da psicanálise. Meninas e meninos da sua idade passam por uma fase de apego emocional muito grande. Meninos pela mãe e meninas pelo pai.

VICTORIA: - Por quê?

Scully suspira. Barbara começa a rir.

MULDER: - Porque é da natureza humana. Eu passei, mamãe passou, tia Barbie e tio Tchek também.

VICTORIA: - Mas por quê? Isso é ruim?

MULDER: - Não é ruim, é normal.

BARBARA: - As crianças ficam tão engraçadinhas na fase dos porquês.

VICTORIA: - Eu tô nessa fase também?

MULDER: - (RINDO) Tá. Você agora quer descobrir o porquê das coisas. Assim você aprende, essa curiosidade é boa.

SCULLY: - Alex, me alcança uns gravetos?

Krycek escolhe e alcança pra ela.

SCULLY: - Docinho, vamos assar mais marshmallows? Tô carente de filha. Você só quer o seu pai!

VICTORIA: - Nah! Eu amo você também!

MULDER: - Fogueira e marshmallows pedem histórias de terror.

VICTORIA: - Oba!!!!!! Conta, papai, conta!!!

SCULLY: - E se você não dormir à noite? Hum?

VICTORIA: - Por que não dormiria?

SCULLY: - Porque terror é pra assustar?

VICTORIA: - Eu não tenho medo de nada! Sou uma Mulder!

Mulder sorri, bobo. Scully suspira. Agora quem ri é Krycek.

KRYCEK: - É, Scully... Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes...

SCULLY: - Seis anos... Só seis anos!!! Imagina o que me espera...

MULDER: -Então? Quem vai contar uma boa história de terror?

BARBARA: - Você começa!

MULDER: - Era uma noite, numa floresta como essa aí atrás... Escura, fria e úmida.

Victoria prestando atenção.

MULDER: - Só se ouvia o barulho dos grilos e o pio de uma velha coruja... De repente, tudo ficou no silêncio.

Barbara se recosta mais em Krycek, olhos arregalados, olhando pra floresta. Krycek a envolve nos braços, segurando o riso. Scully afaga a barriga, despreocupada. Mulder leva a mão à orelha.

MULDER: - Silêncio total... Assim como agora.

Victoria arregala os olhos. Scully segura o riso.

MULDER: - De repente começou um vento muito forte. Balançava as árvores todas na floresta, fazendo as folhas caírem e até alguns galhos. Então se ouviu um grito de pavor.

Mulder dá um grito. Victoria se assusta num pulo. Scully começa a rir.

VICTORIA: - Quem gritou? Por que gritou? O que aconteceu?

MULDER: - Calma... O grito ecoou pela floresta. Ele corria, corria muito. Algumas vezes olhava para trás, tropeçava, caía e se levantava. Continuava correndo, apavorado. Fugia de alguma coisa assustadora!

VICTORIA: - Que coisa?

MULDER: - Calma filhote de Scully curiosa, deixa eu desenvolver o suspense.

Barbara começa a rir. Victoria tensa, curiosa.

MULDER: - O suor escorria do rosto dele. O medo estampado nos seus olhos arregalados. Ele correu tanto que já estava perdido na escuridão da floresta. Parou por um instante para recuperar o fôlego, mal respirava, o pavor tomava conta dele.

Victoria atenta.

MULDER: - Pensou que tivesse escapado daquele monstro horrível. Nunca tinha sentido tanto medo na vida, quando viu a face do monstro. Então, de repente...

Mulder agarra Victoria que dá um berro. Scully começa rir. Krycek recosta a cabeça em Barbara, segurando o riso.

SCULLY: - Até que enfim se assustou uma vez na vida!

VICTORIA: - (BEIÇO) Sem graça, mamãe. Continua papai... O que houve? O monstro agarrou ele?

MULDER: - Agarrou forte. O sacudiu. Ele já estava quase desmaiando de pavor quando ouviu a voz que disse: Mulder, sou eu, a Scully! Apenas troquei o creme de beleza!

Eles riem alto. Victoria chega a gargalhar. Scully cerra o o cenho, encarando Mulder, que olha pra ela num deboche.


8:32 P.M.

Krycek coloca mais madeira na fogueira. Barbara toma uma cerveja. Scully recostada em Mulder, Victoria deitada com a cabeça nas pernas dele, quase dormindo. Mulder faz carinhos nos cabelos da filha.

MULDER: - Roswell foi em 1947. Kapustin Yar em 1948.

BARBARA: - Nem sabia disso! Roswell sim, mas na Rússia?

KRYCEK: - Foi apelidado de Roswell Russo.

MULDER: - Um objeto voador não-identificado de formato cilíndrico sobrevoou a secreta base aérea russa e caças foram enviados para interceptá-lo. O piloto disparou um míssil e derrubou a nave. Ao contrário de Roswell, o incidente russo não foi noticiado pela imprensa. Foi a primeira captura de uma nave espacial para os soviéticos, com direito a corpos dos tripulantes. Levaram para o subsolo da base e a partir daí o programa espacial russo começou.

KRYCEK: - Kapustin Yar é a Área 51 russa.

MULDER: - Nisso os russos foram mais espertos e adiantados. Ocultaram bem o caso e começaram a investir muito em recursos e pessoal, começando a corrida espacial que os americanos entraram depois. Chegamos na lua antes que os russos, em 1969, mas os projetos espaciais começaram em 1958 com o Projeto Mercury. Depois vieram os projetos Gemini e Apollo. Os russos conseguiram isso com Gagarin na Vostok 1 em 1961.

KRYCEK: - Vocês começaram em 1958, mas em 1957 nós russos estávamos lançando no espaço o Sputnik-1, o primeiro satélite do planeta. Nós mandamos a cadela Laika em 1957, enquanto vocês mandaram o macaco Sam em 1959.

VICTORIA: - Tadinhos!!!

Scully sorri.

MULDER: - Vocês foram os pioneiros. O primeiro homem no espaço, a primeira mulher, a primeira caminhada, o primeiro veículo a entrar em órbita solar, o primeiro impacto na Lua, a primeira imagem do lado escuro da Lua, o primeiro pouso suave na Lua em 1966, o primeiro Rover na Lua, a primeira estação espacial e a primeira sonda interplanetária a atingir a superfície de outro planeta. Então se a gente pensar, toda a corrida espacial e a curiosidade sobre o que havia lá em cima começou por causa de duas quedas de Óvnis. O que reforça que nossos governos sabem da existência de alienígenas há muito tempo ou não teriam começado a perscrutar os céus e investir tanto dinheiro e ciência em missões fora do planeta.

KRYCEK: - Todo mundo pensa que a colaboração Rússia-EUA começou com a missão Apollo–Soyuz, mas isso é mentira. Durante toda a Guerra-Fria existia um tratado de colaboração entre americanos e soviéticos sobre Óvnis. E extra-oficialmente, isso já vinha desde a Segunda-Guerra.

MULDER: - Quando começaram os avistamentos de Foo-Fighters.

KRYCEK: - Mas já foi a Era de Ouro, Mulder. O programa espacial russo vai mal das pernas há muito tempo e sofre com a falta de recursos desde o colapso da antiga União Soviética.

SCULLY: - O que eu não entendo é como seres tão avançados tecnologicamente viajam de tão longe pra cair aqui na Terra! Não são superiores a nós? Como caem?

KRYCEK: - Nós abatemos um. Agora Roswell foi queda mesmo.

MULDER: - Tecnologia não é infalível, Scully. E depois tem uma teoria de que os antigos astronautas deixaram mecanismos de defesa no planeta contra visitantes indesejados. Eu já acredito que pode haver algo ou alguém lá em cima controlando o que cai aqui. Depois do que vi, quando abduziram Victoria e eu... Pra mim eles têm alguma nave, algum tipo de base, não sei, mas que fiscaliza as fronteiras da Terra. Como guardas, abatendo o que tenta entrar com más intenções.

KRYCEK: - Mulder, lembra das duas sondas russas, Phobos I e II? Uma deu pane e a outra quase conseguiu o objetivo, que era viajar até Marte, orbitar Fobus, uma das luas marcianas e pousar na superfície pra coletar amostras do solo.

MULDER: - E a sonda simplesmente "explodiu".

BARBARA: - Como assim, "explodiu"?

KRYCEK: - Os russos acusaram os americanos de usar interferência HAARP, os americanos provaram que não o fizeram, os russos admitiram terem comprados circuitos ruins e o assunto nunca ficou esclarecido.

MULDER: - O mistério só aumentou quando vazaram uma foto tirada pela Phobos II pouco antes da explosão, onde se vê uma espécie de raio saindo de Fobus e uma gigantesca nave em forma de charuto. Os caras atribuíram isso como falha na telemetria da sonda.

BARBARA: - Impressionante! É todo um esforço pra ocultar que existem outras raças bem mais desenvolvidas que a nossa! Talvez não quisessem que metêssemos nosso nariz por lá.

MULDER: - Dizem que Gene Roddenberry fez parte do Grupo dos Nove. Um grupo que se reunia para realizar sessões mediúnicas e que fazia contato com entidades alienígenas.

Scully segura o riso.

MULDER: - Conta a lenda que foi assim de onde ele tirou o enredo de Star Trek.

BARBARA: - Então existiria mesmo uma federação intergalática, de várias raças...

KRYCEK: - Chega de cerveja pra você, Malyshka.

Scully começa a rir.

BARBARA: - Ratoncito, o assunto é sério!

MULDER: - Tudo é especulação, Barbara. Entrar nessa parte religiosa-ufológica sempre é perigoso porque existem os crédulos e os espertalhões, entende? Ufologia mística é um perigo completo. Existem seitas, existem defensores ferrenhos do espiritismo-ufológico, Ashtar Sheran e outros comandantes que supostamente fazem contatos...

BARBARA: - Que história é essa, Mulder? Eu sou curiosa.

Krycek boceja. Scully ri. Victoria já dormiu.

MULDER: - Ashtar Sheran ascendeu ao etéreo por sua iluminação psíquica e se comunica assim com a raça humana, para nos proteger de nós mesmos e de ameaças externas. Ele é um dos exilados do planeta Kapel Ha, que se destruiu em ganância e degradação moral, por isso ele e seu pai querem impedir que o mesmo aconteça conosco. Ele é defensor das sociedades galáticas e tem por função manter seu equilíbrio. Ashtar Sheran é um alienígena loiro e alto, de olhos azuis, da raça que chamam de "nórdicos", usa um macacão prateado e é o grande mito dos adeptos da ufologia mística. Ele seria o presidente da ONU intergaláctica, na qual Jesus, ou Lord Sananda, é o representante da Terra.

SCULLY: - Mulder, pelo amor de Deus! Você não acredita nisso, não é mesmo?

MULDER: - Estou respondendo pra Barbara, não quer dizer que eu acredite nisso. Na verdade, eu acho muito perigoso qualquer tipo de crença religiosa e adoração a alienígenas. Eu não acredito em contatos espíritas com esses seres, acredito em contatos físicos. Não se deve atribuir a eles esse endeusamento, as pessoas não têm discernimento das coisas, elas precisam acreditar em algo e nessa busca acabam nos engôdos. Se Deus é extraterrestre? É. Ele não veio da Terra. E acho que Jesus tem mais o que fazer do que enviar representantes em sessões mediúnicas para falar de paz e amor quando Ele mesmo já veio aqui dizer isso pessoalmente.

KRYCEK: - Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia...

MULDER: - Com certeza Shakespeare estava certo nisso. Mas depois de duas garrafas de vodca, você pode inventar alguma história bem interessante que muita gente vai acreditar sem questionar. Eu nunca disse que acreditava em nada. Eu sempre disse que queria acreditar. E sei que quando a gente quer acreditar, acaba tomando muito na cara e sendo enganado. E eu só não fui mais enganado porque tinha essa baixinha aqui me jogando ciência na cara.

Scully sorri. Mulder dá um beijo nela.

MULDER: - Por isso eu me pergunto todos os dias: A humanidade está pronta para um primeiro contato? A resposta é não. E sendo assim, continuo achando asqueroso que os governos mintam sobre vida extraterrestre, mas posso entender porque fazem isso.


9:20 P.M.

Krycek, Barbara e Scully perto da fogueira.

SCULLY: - (RINDO) Aí o Mulder pegou duas baguetes e fez uma cruz!

Krycek se revira de rir. Barbara rindo sem parar.

SCULLY: - O que logicamente não afastou nenhum vampiro.

Mulder se aproxima e senta-se.

MULDER: - Qual é a graça?

KRYCEK: - (RINDO) Você usando pão pra afastar vampiro!

SCULLY: - Estou contando daquela vez do vampiro.

MULDER: - Ah! E do delegado feioso que você achou lindo, contou pra eles?

SCULLY: - Ele não era feioso! Ele era lindo!

MULDER: - Tinha dentes tortos!

SCULLY: - Mulder, deixa de ser mentiroso! Você estava com ciúmes, admita!

BARBARA: - Meu Deus! Vocês são uma comédia! Eu tô falando, tem que escrever uns livros e contar essas coisas!

MULDER: - Minha vida já dá um livro. A da Scully mais um. E nós dois juntos dá uma enciclopédia.

KRYCEK: - E o tal Morris Fletcher... Eu conheci a figura.

MULDER: - Sério? Quero matar aquele babaca.

KRYCEK: - Ele é um filho da mãe sacana! Mantenha ele longe da sua mulher.

MULDER: - Deveria ter me avisado antes. Ainda me deixou uma porcaria de colchão d'água que furou e inundou meu quarto! O filho da mãe se passou por mim, arrumou toda a minha amada bagunça, se instalou no meu apartamento e comprou um colchão pra dormir com a minha mulher?

SCULLY: - Espera aí! Eu não era sua mulher ainda!

MULDER: - Não era na prática, mas na teoria, dentro da minha cabeça você já era.

KRYCEK: -Você é lento, Mulder! E depois fica rindo e me zoando, mas não fui eu quem levou sete anos pra tomar coragem e se declarar pra uma mulher.

BARBARA: - É, mas não fica aí se orgulhando todo, porque não levou sete anos, mas que é um lerdo também é! E pode apostar que levaria dez anos se eu não apurasse as coisas!

Scully começa a rir. Krycek faz careta pra Barbara.

MULDER: - É, sua mulher tem razão. Até eu tive que dar um empurrãozinho! Se eu não banco o cupido, você estaria até agora naquele depósito com cara de pateta e se lamentando "ai, ela me deu um tapa"...

Eles riem. Krycek faz careta pra Mulder.

MULDER: - Não pode dizer que não sou seu amigo. Espero que quando olhar pro filé que eu arrumei pra você, pelo menos se lembre de mim.

KRYCEK: - Tá maluco? Quer me broxar?

Elas riem.

BARBARA: - Ratoncito... A noite está tão bonita, que tal dar uma voltinha na floresta? Hum? Quero te mostrar a toca da coruja.

Mulder começa a rir.

KRYCEK: - Que coruja? E lá eu quero saber de coruja?

Scully e Mulder se olham e soltam uma gargalhada. Barbara se levanta, rindo. Estende a mão pra ele.

BARBARA: - (RINDO) Vem, Ratoncito, vem ver a coruja.

MULDER: - (DEBOCHADO) Depois eu que sou lerdo!

KRYCEK: - Eu não quero saber de coruja. Sou um rato, corujas comem ratos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Dãm! Sério?

Krycek fica pensativo, depois entende e fica corado. Eles riem mais ainda. Krycek se levanta, dá a mão pra Barbara.

KRYCEK: - Também vocês inventam cada analogia! Eu vou ter que criar um manual de verbetes sexuais para consultas posteriores... Tá, me leva pra ver a toca da coruja.

SCULLY: - (RINDO) Vão pela sombra!

MULDER: - (RINDO) Ô Rato, cuidado com o apetite da coruja!

Os dois saem de mãos dadas, rindo, Barbara puxando Krycek. Scully deita a cabeça nas pernas de Mulder, espichando o corpo na grama. Estende a mão em direção da fogueira.

SCULLY: - Calor gostoso... Victoria dormiu rápido?

MULDER: - Nem quis histórias hoje, cansou de histórias de terror e pescaria. Já deitou na cama com os olhinhos fechando. Cookie não quis sair, se enfiou pra baixo do cobertor. Deixei pra não acordá-la.

SCULLY: - Mulder, nossa filha é o melhor presente que você já me deu. Agora vou ganhar mais um presente maravilhoso. E tenho você, o presente da vida. Posso ser mais feliz do que já sou?

Os dois ficam em silêncio.

[Som: Lighthouse Family - High]

Mulder leva a mão entre os cabelos dela, passando os dedos pelos fios, olhando pra ela num sorriso.

MULDER: - Como você pode ser tão linda?

SCULLY: - (SORRI) ...

MULDER: - Quanto mais o tempo passa, mais linda. E eu mais apaixonado. Quero morrer bem velhinho do seu lado. Eu sei que quando fechar meus olhos para sempre, verei que por sua causa, a vida valeu a pena. Tudo o que tenho, você me deu. Tudo o que sou hoje, você me ajudou a ser.

Scully fecha os olhos, num sorriso. Mulder brinca com os dedos, fazendo-os "caminhar" e subir pela barriga de Scully.

MULDER: - Hum, temos um morrinho aqui. Bem redondinho.

Ela ri.

MULDER: - Nossa, que subida cansativa...

Scully olha apaixonada pra ele.

MULDER: - Cheguei ao topo! Vamos ver a paisagem daqui...

SCULLY: - (RINDO) Você não teve infância?

MULDER: - (SORRI) Não. Agora vamos descer...

Scully olha para os dedos dele.

MULDER: - E agora? Tem dois montes, vou passar no meio dos dois.

Scully começa a rir. Mulder ri com ela.

SCULLY: - Só quero saber aonde esse passeio vai terminar.

Mulder leva o indicar aos lábios dela.

MULDER: - Aqui. Bem aqui. Aonde eu morreria feliz.

Scully se ergue, olhando pra ele. Os dois se admiram com os olhos exalando sentimento. Mulder leva os lábios, ela fecha os olhos e eles trocam um beijo suave. Mulder leva a mão ao rosto dela, olhando nos olhos dela.

MULDER: - "Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade".

SCULLY: - (SORRI) Dom Quixote? Se me chamar de "Sancho Pança"...

MULDER: - (SORRI) Não pensei nessa analogia, tô ficando lento como o Rato. Cesta pra você!

SCULLY: - (SORRI) Hum, meu Dom Quixote... Quando se sonha juntos, não há limites pra sonhar... Eu te amo tanto, Mulder... (SUSPIRA) Tanto... Cada dia parece o primeiro. A magia não vai embora, o corpo parece flutuar e a cabeça fica nas nuvens. Você me deixa voando tão alto.

Scully num olhar bobo e apaixonado pra ele. Mulder sorri igualmente bobo e apaixonado. Scully vira-se de costas pra ele. Mulder a abraça por trás, beija o ombro dela e apoia o queixo, soltando um suspiro. Scully observa o céu estrelado.

SCULLY: - O céu nos uniu de todas as formas. Começou nele e terminará nele. Sua busca se tornou a minha busca. Apenas buscamos o mesmo céu com visões diferentes.

MULDER: - E criamos o nosso próprio paraíso... Você tá com frio? Não quer entrar?

SCULLY: - (RINDO) Só se for pra mostrar a toca da raposa pra você.

MULDER: - (SORRI) Só quero se for pra adorar você, sem pressa e à luz de velas.

SCULLY: - (SORRI/ OLHOS FECHADOS) Hum... Prometo me comportar pra não acordar a nossa filha.

Mulder se levanta. Pega Scully nos braços. Ela ri.

MULDER: - Uh! Pesadinha! Agora sim dá pra levantar peso e malhar um pouco.

SCULLY: - Ah sim, virei aparelho de musculação?

MULDER: - (DEBOCHADO) Scully, você é meu tudo. Até aparelho de musculação.

Scully ri. Mulder a leva nos braços pra cabana.


6:01 A.M.

Barbara fazendo café na cozinha. Krycek desce as escadas. Se aproxima dela, dando-lhe um beijo no rosto.

KRYCEK: - Bom dia, Malyshka. Você perdeu o sono.

BARBARA: - Bom dia, Ratoncito. Estou tão acostumada a trocar o dia pela noite que apenas cochilei. Não quis acordar você...

KRYCEK: - Eu também só cochilei. Vi você levantando toda hora.

BARBARA: - Quer chá?

KRYCEK: - Não, aceito seu café, se dividir a caneca comigo.

Barbara sorri e serve a caneca, coloca açúcar. Krycek abre a porta dos fundos e sai pra varanda. Se espreguiça. Barbara se aproxima.

BARBARA: - O dia vai ser lindo!Quero ver o nascer do sol.

Barbara senta-se no degrau da varanda. Krycek senta-se ao lado dela. Barbara toma um gole de café.

KRYCEK: - Amanhã é segunda... Uma pena deixar esse lugar.

BARBARA: - A gente anda cansado, amor. Suas férias serão as minhas férias. Vamos aproveitar bastante.

Barbara entrega a caneca pra ele.

KRYCEK: - Bishop me mandou uma mensagem agora cedo. Disse que prendeu um dos suspeitos do caso do assassinato na fábrica de papel.

BARBARA: - Isso é bom. Ele tem senso de comunicação com o parceiro. Amor, você precisa socializar. Dá uma chance pra ele.

KRYCEK: - Pelo menos não é chato como os outros. Aqueles caras cheios de regrinhas da academia, uns babacas. E pelo menos me avisou e me pôs a par do que está acontecendo na minha ausência.

BARBARA: - Amor, ninguém é substituível, apesar do mundo dizer que sim. Nunca haverá outro Sanders. Não espere por isso.

Krycek entrega a caneca pra ela.

KRYCEK: - Eu sei. É que o Sanders era divertido, confiável, parceirão mesmo. E não ficava me humilhando com apostilas da academia de polícia. A gente conversava sobre tudo, fazia piada... Não era uma competição. (SORRI SAUDOSO) Ele trazia coisas que a esposa cozinhava e eu também, a gente trocava e ficava brincando qual era a melhor cozinheira, você ou a Amanda.

BARBARA: - (SORRI) E quem vencia?

KRYCEK: - Terminava sempre em empate.

BARBARA: - Ratoncito, quando humilharem você com apostilas da academia de polícia, humilhe com apostilas da academia do FBI. Ok? Você pode não ter nunca sentado o traseiro em Quântico, mas estudou tudo sobre como ser um agente federal, sobre as leis desse país, sobre investigação policial e não importa o motivo pelo qual fez, hoje isso serviu para uma coisa boa, para você ter um profissão. Aposto que se tivesse diploma de nível superior e fizesse concurso, você entrava no FBI na mesma hora. Só não pode fazer isso pela falta de um diploma.

Barbara entrega a caneca pra ele.

KRYCEK: - É. Sempre fui um burro esforçado.

BARBARA: - Você não é burro, você não tem é diplomas. Sabe, na faculdade eu vi muita gente que só decorou coisas para conseguir um diploma. Diploma não é conhecimento. Tem muito doutorzinho por aí que sabe porcaria nenhuma, fica arrotando discurso egocêntrico de títulos acadêmicos e na hora do pega pra capar, incompetência completa. E você ainda tem a experiência da coisa toda. Você sabe entrar na cabeça da bandidagem, você sabe como funciona, já esteve do outro lado. Você saca o cara na hora, só pela experiência! E mesmo assim, você faz os cursos de atualização que eles exigem e sempre sai com notas altas.

KRYCEK: - ... É, você tem razão. O Mulder que é um especialista, uma cara estudado e inteligente nunca me humilhou. Nem a Scully.

BARBARA: - E eles gostam de trabalhar com você. Mulder não vive elogiando você como detetive? Então? Vai dar ouvidos a babacas pedantes? Manda se foderem quando começarem a falar de regrinhas de apostilas. A prática de toda a profissão é diferente da teoria. Acha que a minha profissão cumpre a risca a teoria que aprendi? Mas não mesmo! Tudo é lindo no papel, mas vai encarar a coisa. Parece fácil pegar um microfone e sair entrevistando gente, ou sentar numa bancada e apresentar um telejornal. Você tem que fazer as perguntas certas. Tem pessoas de todos os tipos que humilham você. Gente que odeia a imprensa e nos agride. Gente que nega informação. Também tem egocêntricos briguentos nos bastidores que se acham o último biscoito do pacote. De certa forma somos como os policiais, sempre investigando a verdade, correndo atrás de fatos e apontando nossas armas, uma caneta ou uma câmera. Eu amo o que eu faço, como sei que você ama o que faz. Então dane-se os outros.

Krycek entrega a caneca pra ela.

KRYCEK: - Queria ser light como você é.

BARBARA: - Muito light que sou. Estou sentada aqui pensando no meu pãozinho na chapa com manteiga.

Os dois riem. Mulder sai da cabana com uma caneca de café.

MULDER: - Ouvi pãozinho na chapa com manteiga? Será que sobra um pra mim?

BARBARA: - Não, isso é coisa de cubano. Vá comer seus cereais, panquecas, bacon e ovos mexidos. Minha nossa, vocês não tomam café da manhã, vocês almoçam!

MULDER: - Troco pelo pãozinho na chapa com manteiga. Estou dieta. Vai ser menos calórico.

Mulder senta-se ao lado de Barbara.

BARBARA: - Mulder, não entenda a dieta da Scully como se fosse emagrecimento, você tá ótimo. É apenas por questões de saúde. Ela te ama, preocupa-se com você. Sabe né? Colesterol, diabetes, melhor prevenir que remediar. Vocês estão ficando velhinhos e acabados.

Krycek e Mulder olham incrédulos. Ela no meio deles, leva a caneca à boca, e segura o riso. Mulder abre a boca.

KRYCEK: - Não, Mulder, pode ficar quieto que eu vou fazer essa cesta agora. Quer dizer que estou ficando velho, garota? Mas não sou eu quem anda fugindo pela tangente na calada da noite. Me convida pra ver a toca da coruja e depois sai correndo reclamando que tem formiga no chão, que a água tá fria, que as árvores doem as costas... Aham...

Mulder solta uma gargalhada. Os dois trocam um cumprimento com as mãos.

BARBARA: - Estou sem minha parceira, portanto, em desvantagem. Não vou revidar.

MULDER: - Tá vendo, Rato? Ainda culpa a mãe natureza!

KRYCEK: - Na próxima vez me convida pra ver a toca do rato no quarto. Vai ter muito conforto e quero ver a desculpa que vai dar.

Barbara entrega a caneca pra Krycek. Pega a mão dele.

BARBARA: - Quero ver que desculpa você vai dar, pra estar andando com essas unhas desse jeito. E ainda quer me agarrar com essas mãos ásperas? Mas nem ferrando!

KRYCEK: - Ah, não... Nem vem...

Ela se levanta e entra na cabana.

KRYCEK: - Pronto! Dia de manicure. Pode isso?

MULDER: - (RINDO) É bom. Também não curtia, mas agora gosto tanto que vou uma vez por mês no salão.

Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - Tá me tirando, né?

MULDER: - Não. É sério. Pega a minha mão.

KRYCEK: - Que vou pegar sua mão! Tá me estranhando, amorzinho? Virou metrossexual?

MULDER: - Rato, deixa de ser idiota e machista. Eu também pensava assim, até a Scully inventar o "dia da beleza" lá em casa. No início fiquei irritado, mas acabei gostando. Você vai num salão masculino e são mulheres que atendem você. Já fiz até limpeza de pele. Manicure, pedicure, hidratação... Tá, eu pinto o cabelo também, há tempos.

KRYCEK: - Sério? Não dá pra notar.

MULDER: - Claro, é uma coloração diferente. Elas curtem, Rato. Não adianta andar bem vestido e perfumado, elas piram mesmo é em pele macia e principalmente mãos macias. Entendeu?

KRYCEK: - Saquei. Quando for, marca hora pra mim também. Vamos juntos. Mas não conta isso pra ninguém, ou os caras na delegacia vão folgar até o fim da minha vida!

MULDER: - E de vez em quando, peça pra ela fazer pra você. Mulher adora arrumar seu homem. Elas ficam orgulhosas em exibir você pras outras. Aquela coisa da inveja feminina.

KRYCEK: - E qual a vantagem disso?

MULDER: - (SORRI SACANA) Confia em mim. Faz e veja. Depois me conta.

Barbara sai da cabana com uma necessaire grande. Krycek arregala os olhos. Ela senta-se ao lado dele.

KRYCEK: - Isso vai doer?

BARBARA: - Vai se não ficar quieto. Porque vou acertar na sua cabeça. Dá essa mão aqui. Que horror um policial com uma mão dessas!

Mulder se levanta rindo. Dá de cara com Scully.

SCULLY: - Hum, dia de beleza? Gostei da ideia. Mulder, não quer pintar minhas unhas?

Krycek encara Mulder num deboche.

KRYCEK: - Aham. Esqueceu de me avisar que algumas vezes o tiro sai pela culatra.

MULDER: - Igual é um bom tiro. Pode apostar nisso. O cuidado mútuo é tudo numa relação.

KRYCEK: - Malyshka, depois que eu passar pela seção de tortura... Posso pintar suas unhas?

BARBARA: - Mulder, eu te amo! Por favor, pode começar a ministrar um curso sobre como domesticar homens selvagens. Vai ficar rico rapidinho!

KRYCEK: - Barbara, é sério. Eu nunca vivi com uma mulher antes. Eu não sei como agradar. Eu comprei uma besteirinha e você adorou, então aprendi que você gosta de receber mimos. Mas de resto, não sei nada. Me ensina então o que posso fazer pra agradar você.

Scully olha com ternura pra Krycek. Mulder cerra o cenho e encara Scully.

MULDER: - Não quer pintar as unhas? Hum? Vai pegar os esmaltes.

SCULLY: - Esquece o curso, Barbara, porque o sapo já se revelou. Mulder, seja cavalheiro e suba as escadas e pegue a minha necessaire, já que eu estou com uma barriga enorme carregando o seu filho! Custa muito?

Mulder entra na cabana, emburrado. Scully senta-se numa cadeira.

SCULLY: - Parece uma criança crescida.

BARBARA: - Depois quero tirar umas fotos de vocês dois. Vou fazer um álbum pro meu afilhadinho.

KRYCEK: - Scully vai ter que comprar um depósito do jeito que você adora tirar foto. Ai!

BARBARA: - Para de manha, Ratoncito! Depois vou passar essa base nas suas unhas.

KRYCEK: - Tá maluca? Eu tenho que trabalhar amanhã! E essa coisa é rosa!

BARBARA: - É rosa sim, mas não fica rosa. Fica transparente. Você não combina com rosa, meu amor. Não ia ficar bonitinho de jaqueta de couro com unhas rosas.

Scully solta uma gargalhada.

SCULLY: - (RINDO) Meu Deus, visualizei a cena!

Krycek acena negativamente com a cabeça. Barbara ri.

SCULLY: - Mas você me deu uma ideia...

KRYCEK: - Pobre do Mulder... Au, Barbara! Isso dói!

BARBARA: - Meu Deus, estou lixando suas unhas, desde quando isso dói?

SCULLY: - Pobre do Mulder nada, você não sabe o que estou matutando... Barbara, você assistiu um filme em que o Antonio Banderas está com as unhas pintadas de preto? Não lembro o nome, mas nossa... Aquilo ficou sexy.

BARBARA: - Não vi isso! Ainda bem, porque Antonio Banderas é aquela coisa máscula, imagina com unhas pretas? Eu daria pra ele na mesma hora até me acabar!

As duas riem. Krycek encara Barbara. Mulder sai da cabana com a necessaire.

SCULLY: - Mulder, eu mudei de ideia. Vou arrumar as suas unhas primeiro.

Krycek começa a rir. Mulder entrega a necessaire pra Scully e senta-se ao lado dela. Scully procura os esmaltes.

SCULLY: - Alex, eu não riria se fosse você. Nem sabe o que te aguarda.

BARBARA: - (RINDO) Fica quieta, Scully!!!

As duas riem. Mulder e Krycek mais desconfiados.

MULDER: - O que tá pegando?

KRYCEK: - Você sabe que elas são loucas, né? Barbara Wallace, pinta minhas unhas de rosa e você vai ver um rato furioso.

BARBARA: - (RINDO) Eu não vou pintar suas unhas! Juro! Pelo menos hoje não.

MULDER: - (RINDO) Pinta! Rosa vai ficar uma gracinha nele!

KRYCEK: - (RINDO) Vamos ver quem vai terminar a manhã de hoje rindo.

MULDER: - Aposto um pacote de cervejas que sou eu!

KRYCEK: - (RINDO) Apostado!

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Não aposte.

Scully mostra o esmalte preto. Mulder faz cara de pânico.

MULDER: - Isso é pra me sacanear por causa da história de terror ontem?

SCULLY: - Não, isso é fetiche de Scully. E sabe como termina os fetiches da Scully, hum?

MULDER: - (EMPOLGADO) Pinta até as unhas dos pés, mulher, eu não ligo!!!

KRYCEK: - Me ferrei. Perdi um pacote de cerveja agora.

2:23 P.M.

Krycek deitado na rede, quase cochilando na varanda. Victoria lendo, sentada num degrau da escada. Mulder se aproxima furtivamente pelo lado da casa segurando uma mangueira. Victoria olha pra ele. Mulder leva o indicador aos lábios, pedindo silêncio. Victoria segura o riso. Mulder mira a mangueira em Krycek e aperta o gatilho espirrando água nele. Krycek quase cai da rede, se embolando todo, assustado. Mulder começa a rir e sai correndo. Victoria ri alto.

KRYCEK: - Ah seu filho da mãe!

Krycek entra na cabana, todo molhado. Barbara e Scully sentadas à mesa, param de conversar olhando pra ele.

BARBARA: - Tá chovendo, Ratoncito?

Krycek indignado procura alguma coisa na cozinha. Acha um balde. Coloca na pia e começa a encher de água. Victoria entra rindo.

KRYCEK: - Scullyzinha, me dá a localização do meliante.

VICTORIA: - (RINDO) Ok!

Victoria sai pelos fundos. Scully e Barbara observam sem entender nada. Krycek pega o balde cheio e sai pela porta dos fundos. Victoria aponta para o lado da casa. Krycek vai sorrateiro, segurando o balde, bem devagar. Espia. Mulder ao vê-lo sai correndo, Krycek atira a água, pegando nas costas de Mulder que começa a pisotear o chão.

MULDER: - Isso tá gelado, seu filho da mãe!

Mulder pega a mangueira. Krycek sai correndo, levando água nas costas. Victoria tem um acesso de riso. Krycek e Mulder brigam pela mangueira.

KRYCEK: - Me dá isso aqui!!!

MULDER: - Não mesmo!!!

KRYCEK: - Solta, Mulder!!!

MULDER: - Solta você!!!

Scully e Barbara se levantam rapidamente.

BARBARA: - Meu Deus, eles estão brigando?

SCULLY: - Era o que faltava! O que aconteceu?

Os dois continuam disputando a mangueira, criando lama no chão com tanta água. A água espirra em Victoria na varanda. Victoria olha pra si toda molhada e ri mais ainda. Scully e Barbara saem assustadas pra fora. Scully cruza os braços, indignada.

SCULLY: -É, os moleques estão brigando. Por uma mangueira.

Barbara leva a mão à boca, rindo. Krycek arranca a mangueira e empurra Mulder, que tenta correr, mas Krycek o puxa pela camiseta e mete a mangueira dentro das calças dele.

MULDER: - Seu miserável, congelou a minha bunda! Agora você me paga!

Krycek tenta correr, Mulder acerta um jato de água na cabeça dele. Victoria se revira de rir. Krycek escorrega na lama e cai de costas. Mulder mete água na cara dele, que tenta se defender com os braços. Krycek dá uma rasteira em Mulder, que cai sentado na lama, espirrando água em Barbara e Scully.

SCULLY: - Mulder!!!!!

Mulder solta a mangueira, mordendo os lábios. Barbara com os cabelos molhados, segura uma mecha, entristecida.

BARBARA: - Minha chapinha!

Barbara arregaça as mangas.

BARBARA: - Agora vocês dois me pagam!

Krycek se levanta, Mulder também. Barbara agarra a mangueira e sai atrás dos dois, que somem rapidinho pelo lado da casa. Scully começa a rir.

BARBARA: - Seus moleques crescidos!!! Voltem aqui, covardes!!!

Mulder sai pelo outro lado da casa. Victoria aponta. Barbara se vira e acerta água em Mulder, que escorrega e cai sentado na lama.

VICTORIA: - Tia Barbie, cuidado!

Barbara se vira e Krycek a segura, disputando a mangueira.

KRYCEK: - Solta, nanica!

BARBARA: - Solta você!!!

Krycek puxa a mangueira, resvala, cai na lama e leva Barbara junto com ele. A mangueira se estica e derruba Victoria que cai na lama ao lado de Mulder. Scully põe as mãos na cabeça. Mulder começa a rir. Barbara senta-se na poça de lama, quase chorando.

BARBARA: - Minha chapinha... Minha roupa...

KRYCEK: - Lama faz bem pra pele.

BARBARA: - Ratoncito, eu vou arrancar a sua pele!!!

Krycek segura os pulsos dela, que tenta inutilmente bater nele até cansar. Ela desiste. Krycek se levanta e estende a mão, a ajudando a se levantar. Victoria senta-se na lama ao lado de Mulder. Os dois completamente enlameados. Scully se aproxima e encara Mulder.

SCULLY: - Quem começou?

Victoria aponta pra Mulder. Scully suspira.

SCULLY: - E eu ainda pergunto! Mulder, meu porquinho travesso... Sai agora daí e tire nossa filha desse lamaçal!

Mulder faz cara de pidão. Victoria também. Scully segura o riso. Krycek pega a mangueira e limpa Barbara. Mulder se levanta, ajudando Victoria a se erguer.

SCULLY: - Não bastava um, agora tenho dois porquinhos travessos... Vão tirar essa lama com a mangueira e os dois já pro banheiro e sem sujar a casa, estão entendendo? E vocês dois aí também!

Scully entra na cabana. Mulder e Victoria se olham. Barbara arranca a mangueira de Krycek e mete água nele sem piedade.

KRYCEK: - Para, tá frio!!!

BARBARA: - É pra gelar mesmo! Até o saco!

MULDER: - Se ferrou, Rato!

Barbara vira a mangueira e acerta Mulder no rosto com a água.

BARBARA: - E você também! Os dois que começaram essa lambança toda! Vocês não tiveram infância não?

MULDER: - Não!

KRYCEK: - (PIDÃO) Eu tive, mas não tive irmão pra brincar.

Barbara solta a mangueira e o abraça, comovida. Krycek apoia o queixo no ombro dela, enquanto ela afaga seus cabelos.

BARBARA: - Pobrezinho do meu Ratoncito... Não teve um irmão, isso é tão triste e solitário...

Krycek pisca o olho pra Mulder, rindo.

MULDER: - (INCRÉDULO) Seu Rato russo sacana! Vive me criticando e agora aprendeu as vantagens da cara de cachorro abandonado? Eu não ensino mais nada pra você!



BLOCO 4:

3:46 P.M.

Scully carregando roupas entra no banheiro do quarto. Victoria debaixo do chuveiro, fazendo festa, Mulder sem camisa do lado de fora, esfregando os cabelos da filha.

SCULLY: - E se eu encontrar um grão de areia nessa cabeça, os dois vão ficar sem chocolate quente hoje à noite.

MULDER: - Pinguinho, enxágua bem esses cabelos ou a gente vai ficar de castigo.

Victoria entra debaixo do chuveiro, esfregando a cabeça.

SCULLY: - E passa condicionador pra não embaraçar!

VICTORIA: - Sim senhora!

Scully tira a roupa.

SCULLY: - E abre espaço porque eu vou tomar um banho quentinho, vocês me molharam toda. Bryan tá congelando na minha barriga.

Victoria ri. Scully entra no box. Ajuda Victoria a enxaguar os cabelos. Mulder se aproxima da pia, abre a necessaire.

MULDER: - Enquanto minhas garotas ficam cheirosas pra me agarrar, vou fazer a barba pra ficar digno das duas.

VICTORIA: - Acho bom, porque quando vai me beijar, já tá pinicando o meu rosto! Você barbudo não fica bonito. Mas adorei suas unhas pretas!

MULDER: - É, eu viro um procurado da polícia, de acordo com o conceito da filha das minhas entranhas. E as unhas pretas... Deixa pra lá, amanhã eu me entendo com o removedor de esmaltes...

Mulder passa o creme de barbear, se olhando no espelho.

VICTORIA: - Mamãe, porque você tem seios grandes e eu não tenho?

Mulder vira o rosto rindo baixinho.

SCULLY: - Porque você é criança. Quando crescer vai ter seios. Agora sai debaixo da água, vamos passar condicionador ou não vamos conseguir desembaraçar esses cabelos!

Mulder leva o barbeador ao rosto.

VICTORIA: - Mamãe, por que você tem pelos aí e eu não tenho?

Mulder para, abaixa a cabeça rindo baixinho.

SCULLY: - Porque ainda é muito nova. Quando crescer também vai ter pelos. E vai ser uma mulher muito bonita.

VICTORIA: - Mas por que a gente tem pelos aí?

SCULLY: - Ô santa idade dos porquês! Os pelos são defesas do corpo para não pegar microrganismos, doenças. Crescem também debaixo dos braços.

VICTORIA: - Então por que você tira os pelos debaixo do braço, das pernas e daí?

Mulder se revira de rir, em silêncio.

SCULLY: - Por estética, pra ficar bonita. Meninas peludas não ficam bonitas. Imagina eu com as pernas cabeludas usando saia? O que você acha?

VICTORIA: - Vai ficar esquisito. Então meninos só fazem a barba, mas as meninas tem todo esse trabalhão pra ficarem bonitas?

SCULLY: - É verdade, filha... Passa o xampu pra mamãe?

VICTORIA: - Claro... Mamãe, sabia que você é bonita?

SCULLY: - Hum... Você acha?

VICTORIA: - Eu acho. Gosto de ver você lavando os cabelos. Seus cabelos são bonitos. Mamãe, o Bryan sabe que tá tomando banho?

SCULLY: - Não, o Bryan tá dormindo. Quer sentir?

VICTORIA: - ... É, ele tá quietinho. Nossa mamãe, como pode caber um bebê aí dentro? Sua barriga tá esticada, parece que vai explodir.

Mulder sorri.

SCULLY: - As mulheres foram feitas pra isso. A pele estica, o neném vai crescendo e empurrando seus órgãos pra se acomodar. É a natureza, Docinho.

VICTORIA: - Mamãe, mas como é que ele vai sair daí? Vão cortar sua barriga?

SCULLY: - Passa o condicionador? Hum?

Mulder ri. Lava o rosto.

VICTORIA: - Você não sabe como ele vai sair? Como eu saí?

SCULLY: - O que importa é que ele vai sair né? E eu preciso que você me ajude a organizar um chá de fralda com a tia Barbie.

VICTORIA: - Mamãe, mas chá de fralda é bom? Eu prefiro de maçã.

Mulder solta uma gargalhada.

VICTORIA: - Ih, falei besteira, papai tá rindo!

SCULLY: - (SORRI) Chamamos de chá de fralda porque é uma comemoração pelo bebê que está chegando, filha. Geralmente servimos chá. Não é que fazemos chá com as fraldas. As pessoas trazem presentes, a gente comemora com torta e chá do sabor que quiser. Sabor fraldas não! Eca!

VICTORIA: - Eu queria tanto que a tia Barbie fosse minha madrinha... Eu gosto da tia Ellen, mas ela não tá perto, não faz lanchinho pra mim e nem brinca comigo.

SCULLY: - É que a tia Ellen tá trabalhando muito pra dar dinheiro pra nós. Mamãe tem o café com ela, muitas pessoas estão encomendando tortas e a tia Ellen vive ocupada. Mas logo as coisas vão se acomodar. Tia Ellen é amiga de infância da mamãe, sabia?

VICTORIA: - Como a Megan?

SCULLY: - É. E o tio Skinner era chefe da mamãe e do papai. Ele que juntou seu pai e eu.

VICTORIA: - Ah, entendi!

Mulder pega a toalha.

MULDER: - Ok, maria das perguntas. Hora de cair fora!

Mulder enrola a toalha em Victoria e a toma nos braços. Scully desliga o chuveiro e se enrola na toalha. Mulder solta Victoria no chão. Ela corre pro quarto.

SCULLY: - (RINDO) Meu Deus! Acabo de sair de um interrogatório!

MULDER: - Admita, ela leva jeito.

Os dois riem. Mulder tira as calças. Scully vai pro quarto. Victoria fica em pé na cama. Scully senta-se.

SCULLY: - Vamos secar essa menina e vestir uma roupa. Depois vamos secar os cabelos com o secador pra não pegar um resfriado. E não vai pra rua até eu dizer que pode.

VICTORIA: - Tá. Mamãe, eu tô com fome.

SCULLY: - Então vamos ser rápidas, descer e fazer aquele lanchinho gostoso.

MULDER: - (GRITA) Oba!!! Ouvi falar em lanchinho gostoso?

VICTORIA: - (GRITA) Apura papai! Eu vou secar e pentear os cabelos da mamãe e depois eu seco os seus!!!


3:58 P.M.

Krycek dentro da banheira, esfregando os cabelos de Barbara, sentada entre as pernas dele.

BARBARA: - Será que as roupas de inverno que eu tenho servem pra viagem?

KRYCEK: - Quando chegarmos em Moscou, vamos comprar roupas.

BARBARA: - Adoro quando você coloca esse moleque pra fora, sabia? Nunca vi você se divertir tanto. Parecia um garotinho brincando com o irmão.

KRYCEK: - Mulder abriu a porta, ele que espere a revanche.

BARBARA: - (RINDO) Sem água e lama, por favor!

KRYCEK: - Preciso de um batom que você não goste muito. Ele vai ter que cochilar uma hora...

Barbara ri. Afunda na banheira, depois volta à tona, secando os olhos. Leva os cabelos pra trás.

BARBARA: - Victoria fez uma festa com vocês dois. Ainda ajudou na bagunça.

KRYCEK: - Criança adora bagunça. Eu adorava quando era pequeno. Ainda gosto.

Ela se vira de frente pra ele, se esticando de bruços na banheira. Fica passando os dedos nos pelos do peito de Krycek.

BARBARA: - Quer fazer uma bagunça nessa banheira?

KRYCEK: - E podemos?

BARBARA: - Esqueci... Então fora da banheira?

KRYCEK: - Na banheira é por sua conta e risco. Fora dela eu posso me precaver.

BARBARA: - (TRISTE) ... Fora dela, então.

KRYCEK: - Malyshka, não me olha assim frustrada. Eu não odeio crianças. Só não quero ter uma. Não tá nos meus planos ainda, sabe o que penso sobre isso.

BARBARA: - Eu sei. Tudo bem.

KRYCEK: - Não tá tudo bem. Estou vendo nos seus olhos que não está tudo bem.

BARBARA: - Alex, quando vai admitir pra si mesmo que não quer ter um filho porque acha que não merece isso? Ahm? Ou porque acha que seu filho seguirá o caminho que você seguiu um dia? Ou porque, por ser filho de Alex Krycek, as pessoas irão olhar com desprezo pra ele e fazê-lo sofrer e ele odiará você por isso? Ou seu maior temor é que ele seja uma pessoa ruim? Você foi um pessoa ruim porque está nos seus genes?

KRYCEK: - Barbara, não é nada disso...

Ela sai da banheira e se enrola na toalha.

BARBARA: - Alex, não mente pra mim. Estamos juntos há seis anos, eu conheço você até pelo olhar. Não vou brigar com você e estragar esse final de semana maravilhoso que nossos amigos nos proporcionaram. Eu só quero que pense sobre os reais motivos de você não querer ter um filho. Porque amor, eu sou como a Scully nesse aspecto. Eu quero ser mãe... Olha pra Victoria. Você não se diverte com ela? Não é gostoso ter uma criança em casa? Eu fico olhando você com ela, vendo o quanto você gosta de criança, o quanto isso faz bem pra você e só você não percebe isso, "tio Tchek"?

Barbara senta-se no vaso, olhos em lágrimas. Krycek fica cabisbaixo, brincando nervosamente com a esponja.

BARBARA: - Amor da minha vida, eu não quero perder você. Só eu sei o homem maravilhoso que você é, debaixo dessa carapuça de machão sério e cara de malvado. Você é romântico, sabe tratar, amar e agradar uma mulher. Tem um lado sensível que esconde das pessoas, mas não consegue esconder dessa garota aqui. Lá fora você é uma coisa. Na nossa intimidade você é sua essência real. Você não precisa provar nada pra ninguém. Eu sei quem é Alex Krycek verdadeiramente. Você rala naquela delegacia, muitas vezes tendo que sair de casa fora de hora, não deixa faltar nada pra mim e mesmo com aquela fortuna no cofre que você juntou nos tempos de serviço sujo, você nunca pegou nada daquilo pra você, sempre tentando ajudar os outros. Poderia levar uma vida melhor, cheia de luxo, solteirão, na farra, cheio de mulheres, nem precisava trabalhar nunca mais! Mas o que escolheu quando finalmente pode escolher? Ser o homem dessa jornalista aqui. Ser um trabalhador honesto. Uma pessoa simples. Viver com o salário de um policial, arriscando sua vida. Eu sei você, Alex. Ninguém mais sabe. E eu tenho orgulho de você.

Krycek morde os lábios.

BARBARA: - E é do lado desse homem que eu quero envelhecer, mas eu quero um filho. Não quero um filho de qualquer um. Eu quero um filho do meu Ratoncito, entende? Quero o meu ratinho, aqui, dentro da minha barriga. Filho do meu homem maravilhoso. Que certamente será tão ou mais maravilhoso que o pai dele. É só o que peço pra você. Pensa no assunto. Pensa mesmo, porque eu não tenho muito tempo pra ter um bebê. Você tem a vida toda pra decidir, eu não posso me dar ao luxo do tempo, eu sou mulher, o tempo só torna tudo mais difícil e perigoso.

KRYCEK: - Espero que saiba que você é a minha alma gêmea. Que eu nunca amei alguém como amo você, a ponto de me tornar o homem que sou agora. Você sabe que decidi mudar de vida, mas sabe também que sem sua ajuda nesse processo, eu teria acabado com tudo. Barbara, não me abandona. Eu não sei mais viver sem você. Eu desaprendi a solidão. Não faz isso comigo, por favor.

BARBARA: - Eu não vou desistir de você nunca. É mais fácil você desistir de mim. Alex, os piores homens da história deixaram sua descendência. E você não é o pior dos homens. Filhos são a sorte de um homem, são sua chance de redenção. Sabe o pensamento: Escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. O livro pode terminar empoeirado numa estante. A árvore pode um dia ser cortada. Mas o filho... Ele vai ter filhos, que terão filhos e que terão filhos. Essa é a sua imortalidade, Alex. Essa é a bênção da vida. Eu quero essa bênção. Mas só se for com você.

Barbara vai para o quarto, cabisbaixa. Krycek suspira. Barbara volta.

BARBARA: - Outra coisa. Concordo com o motorhome. Pega daquele dinheiro e compra um pra nós e outro pro Mulder, porque o motivo é legítimo e honesto. Vai ser um presente de aniversário incrível pra ele, e eles merecem, vamos nos divertir juntos. Mulder vai aceitar na marra, porque se não aceitar, enfio no rabo dele, eu juro! E você me conhece. E ele também.

Barbara volta pro quarto. Krycek põe as mãos no rosto. Mergulha na banheira.

4:21 P.M.

Na cozinha, Scully passando manteiga de amendoim e geleia no pão. Victoria sentada à mesa, aguardando. Mulder atirado no sofá, quase cochilando.

SCULLY: - Hum, nossos amigos estão demorando no banho.

MULDER: - (SORRI) Muita lama pra tirar.

Scully sorri. Entrega o pão para Victoria. Senta-se à mesa. Serve um copo de leite e coloca na frente da filha.

SCULLY: - Mulder, não quer café?

MULDER: - Não... Aquele banho quente me deixou numa preguiça...

SCULLY: - Esfriou de repente. Não acho uma boa fazer programas do lado de fora. Melhor ficarmos aqui e assistir filmes com chocolate quente e pipocas.

VICTORIA: - Oba!

SCULLY: - E você, Docinho, vai assistir um filme e depois cama. Adultos precisam de espaço. Crianças também.

VICTORIA: - Quero terminar de ler meu livro, depois do filme vou pro meu quarto. Mamãe, você empresta o celular pra eu jogar?

SCULLY: - Vou pensar no assunto.

MULDER: - Boa, filha! Vamos comprar um videogame.

SCULLY: - Quem sabe Victoria pede ao Papai Noel?

Victoria suspira.

VICTORIA: - Vou ter que esperar até o natal pra jogar? Papai resolve essa, por favor. É tempo demais pra esperar. Que bobeira!

MULDER: - (RINDO) É, Scully. Não precisa esperar natal. Que bobeira!

SCULLY: - Ok, então compre, mas desde que não fiquem horas na frente dele. Existe vida lá fora e é bem mais interessante que o mundo virtual.

Barbara desce as escadas.

BARBARA: - Senti cheirinho de café fresco. Tenho faro pra café.

Scully sorri. Barbara senta-se, servindo café.

SCULLY: - Aproveitando o fim de semana?

BARBARA: - É, mas não do jeito que pensa. Tive uma conversa séria sobre aquilo. E dessa vez foi definitiva. Não vou mais tocar no assunto. Vou esperar que ele pense e se decida.

Krycek desce as escadas, com as mãos nos bolsos.

SCULLY: - Alex, quer um café? Senta.

KRYCEK: - Só um café puro.

Krycek senta-se à mesa, ao lado de Barbara. Scully serve café para Krycek. Victoria se levanta e senta-se ao lado de Krycek. Barbara percebe e sorri.

KRYCEK: - Obrigado.

VICTORIA: - Também quero!

SCULLY: - O que conversamos sobre café? Hum? Vai ter muito tempo pra tomar café na vida. Agora é leite ou achocolatado.

VICTORIA: - (BEIÇO) E café com leite, pode?

SCULLY: - Maria cafeína. Ok!

Victoria sorri. Scully prepara o café pra ela, colocando mais leite que café. Coloca uma colher de açúcar. Entrega pra Victoria que toma um gole.

VICTORIA: - Mamãe, isso tá sem açúcar!

SCULLY: - Victoria, por favor! Açúcar em excesso não faz bem.

VICTORIA: - Mas eu amo açúcar!

SCULLY: - Também amo o seu pai e nem por isso vivo pendurada no pescoço dele!

VICTORIA: - Que mentira!

Barbara e Krycek riem. Scully olha pra Victoria, a censurando. Victoria abaixa a cabeça. Barbara olha pra Krycek.

BARBARA: - Um pãozinho?

KRYCEK: - Não. Só café.

BARBARA: - Ratoncito, precisa se alimentar.

VICTORIA: - É, tio Tchek, precisa comer ou não vai crescer e ficar forte. Eu faço um pãozinho pra você do jeito que eu gosto, você vai gostar.

Victoria se levanta, pega um pão e começa a colocar bastante manteiga de amendoim. Scully segura o riso. Krycek arregala os olhos. Barbara observa a cena, encantada. Victoria coloca geleia. Coloca outra fatia de pão. Entrega pra Krycek.

VICTORIA: - Pra você.

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) Obrigado, Scullyzinha.

VICTORIA: - Prova.

Victoria senta-se, olhando pra Krycek em expectativa. Ele dá uma mordida, mastiga, faz cara de suspense.

VICTORIA: - Então? Não é gostoso?

KRYCEK: - Bom mesmo! Você é uma ótima cozinheira.

Victoria sorri. Barbara recosta a testa na testa de Krycek. Scully se levanta e abre a geladeira. Victoria percebe que ninguém está olhando e mete mais quatro colheres de açúcar no café. Scully senta-se. Victoria bebe o café.

SCULLY: - Mulder, vem pelo menos fazer companhia pra gente!

Nenhuma resposta. Krycek se levanta da cadeira. Espia. Mulder dormindo. Krycek tira o batom do bolso e abre. Scully observa, segurando o riso. Barbara acena negativamente com a cabeça. Victoria se ergue pra ver, mas não consegue. Krycek furtivamente caminha até Mulder.


7:31 P.M.

Mulder se acorda. Senta-se no sofá. Coça a cabeça. Nariz e boca pintados de batom vermelho e um coração desenhado na bochecha. Mulder se levanta e vai até a cozinha servir café. Vê o bilhete na geladeira. Puxa e lê.

MULDER: - ... Missa? Foram na missa? Até o Rato?

Mulder solta o bilhete, serve café. Olha pela janela da cozinha, o vento balança as árvores.

MULDER: - Tempo maluco, parece que vai chover!

Mulder pega a caneca e um pacote de biscoitos e senta-se no sofá. Liga a TV. Cookie pula no sofá, ficando ao lado dele, encarando Mulder, virando a cabeça pro lado, como quem tenta entender porque ele está com a cara pintada.

MULDER: - Aí, pulguento, por que tá me encarando? Eu sei que sou bonito. Quer biscoito?

Mulder dá um biscoito pro cachorro. Leva outro à boca. A porta se abre. Scully entra, puxando o casaco, tiritando de frio. Barbara e Victoria entram, depois Krycek que fecha a porta. Victoria olha pra Mulder, tentando não rir. Eles disfarçam.

SCULLY: - Fomos à igreja, Mulder. Tem uma capela tão bonitinha na entrada da área rural...

MULDER: - Confessaram os pecados todos? Ou enlouqueceram o padre?

Victoria olha pra Mulder e ri. Scully vai pra cozinha, rindo. Barbara vai atrás dela. Krycek senta-se na poltrona. Olha pra Mulder, debochado.

MULDER: - Até tu Brutus? Me deixou abandonado aqui com o cachorro?

KRYCEK: - Alguém precisava ser cavalheiro e levar as donzelas à igreja. Sabe que não frequento muito, mas eu acredito. Gosto de ir de vez em quando. O padre falou umas coisas bem interessantes. E depois, eu ia ficar aqui olhando pra sua cara feia enquanto duas mulheres bonitas exigiam minha presença?

MULDER: - (DESCONFIADO) Por que tá com essa cara pra mim?

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Que cara?

MULDER: - Você tá me olhando esquisito.

KRYCEK: - Estou admirando você, "amorzinho". Não posso?

MULDER: - Eu hein? Vai admirar sua mulher!

Krycek segura o riso. Victoria fica olhando pra Mulder.

MULDER: - O que foi, Pinguinho? Vem sentar aqui comigo.

VICTORIA: - Nah! Você vai me borrar!

Eles caem na risada. Mulder desconfia e vai pro banheiro. Barbara põe a mão na boca, rindo baixinho. Mulder dá um grito no banheiro. Eles riem mais ainda.

MULDER: - Rato filho da boa mãe russa!!! Por isso o cachorro tava me encarando!!!

Mulder sai correndo do banheiro em direção à Krycek, que pula o sofá fugindo dele.

KRYCEK: - (RINDO) Calma, sai em 48 horas!!! E combina com seu esmalte preto!!! Você tá uma gracinha, "Muldinha"!!! Pronta pra noite!!! Só falta a peruca!!!

MULDER: - (PÂNICO) Você vai ver, "Muldinha"! Eu vou te matar!!!

Mulder pula o sofá. Krycek pula de volta. Mulder pula atrás dele. Os dois correm pra cozinha, ficam tentando se pegar, ao redor da mesa. Scully se recosta na parede, a risadas altas.

SCULLY: - Mentira, Mulder, meu palhacinho! Não é batom de longa-duração!

MULDER: - Fala sério! Você ajudou nisso?

SCULLY: - Eu não sabia o que fazer com o batom velho!

VICTORIA: - Gostou do coração? Fui eu quem fiz. Tio Tchek pintou seu nariz e boca.

MULDER: - Vem cá, amorzinho!

Krycek tenta escapar, Mulder o agarra, dando um beijo no rosto dele, deixando a marca.

KRYCEK: - Sai fora, Mulder!!! Me larga!!!

MULDER: - Se for longa duração vai ser motivo de piada amanhã na delegacia! E agora você!

Mulder corre atrás de Victoria, que sai correndo a risadas altas. Ele a agarra e enche de beijos. Depois a solta no chão. Então vai atrás de Scully, que não tem chance de correr por causa da barriga. Agarra Scully enchendo ela de beijos.

SCULLY: - (RINDO) Sai, seu palhaço!!! Vai me borrar toda!!!!


8:11 P.M.

Chuva e vento lá fora. Mulder e Krycek escolhem os filmes na estante. Barbara faz pipocas e Scully chocolate quente.

SCULLY: - Como está frio!

KRYCEK: - Acendo a lareira?

SCULLY: - Alex, faça esse favor pra nós.

Krycek vai acender a lareira. Mulder se atira no sofá.

MULDER: - A mulher tava no bem bom com o amante na cama, quando escuta o marido chegando...

Scully revira os olhos. Barbara ri. Krycek acende a lareira e senta-se na poltrona.

MULDER: - O cara apavorado entra no guarda-roupas. Fica quietinho. Então leva um susto, quando vê um moleque sentado ali dentro no escuro. O moleque fala: Tá escuro aqui, né tio? ... Ô moleque, o que você tá fazendo aqui dentro?

Krycek prestando atenção.

MULDER: - Quer comprar minha raquete de pingue-pongue?... E eu lá quero saber de raquete, garoto? Aí o moleque lascou: Olha que eu chamo o meu pai, ele é bravo e tá aí fora!

Krycek ri.

MULDER: - O cara assustado concordou. "Tá, quanto é essa raquete?" "Trezentos dólares". "Tá maluco, garoto? Trezentos dólares por uma raquete de pingue-pongue?" "Olha que eu chamo o meu pai, ele tá aí fora"! O cara puxa trezentos da carteira e dá pro garoto ficar quieto. Aí o garoto: "Quer comprar a bolinha de pingue-pongue?" "Não mesmo, moleque"! "Olha que eu chamo o meu pai, ele tá aí fora"! "Tá, quanto é a bolinha"? "Trezentos dólares. Olha que eu chamo o meu pai"...

KRYCEK: - (RINDO) Que moleque do inferno!

MULDER: - O cara pagou. Aí o moleque de novo: "Quatrocentos e leva a rede". "Eu não quero rede, garoto, você tá de sacanagem comigo"! "Olha que eu chamo o meu pai, ele tá aí fora"! O cara pagou os quatrocentos pelo silêncio. No outro dia, o pai vai acordar o filho pra escola e vê mil dólares na cômoda do moleque. "Menino, da onde você tirou esse dinheiro todo?" "Papai eu vendi minha raquete, bolinha e rede de pingue-pongue". "Mas aquilo não vale tanto dinheiro, você passou a perna em alguém e isso é muito feito! Levanta agora daí, você vai aprender a não sacanear as pessoas".

Scully cruza os braços prestando atenção.

MULDER: - O pai, todo honesto, estaciona o carro na frente da igreja e puxa o moleque pela orelha. Aponta pro confessionário. O moleque entra no confessionário. Depois de um silêncio no escuro, o moleque comenta: Tá escuro aqui, né tio? Aí o padre: Você não vai começar com essa putaria de novo não, garoto!!!

Eles caem na risada. Scully põe as mãos no rosto.

SCULLY: - Nem padre escapa das piadas do Mulder...


10:11 P.M.

Barbara de moletom sentada na poltrona. Scully deitada no sofá. Krycek senta-se no tapete, de costas pra poltrona de Barbara. Pega os pés dela com meias e puxa as pernas dela por sobre seus ombros.

BARBARA: - Ah! Depois eu que sou a sanguessuga que não desgruda nunca!

Scully ri. Mulder desce as escadas.

MULDER: - Ok, o anjinho dormiu. Agora é diversão pra adultos.

SCULLY: - Filme de ação?

BARBARA: - Que dúvida, Scully! Romance que não é.

KRYCEK: - Pela cara do Mulder, ele quer rever Priscilla, a Rainha do Deserto.

MULDER: - (DEBOCHADO) Pensei em colocar algum pornô...

BARBARA: - Sem graça, Mulder. É como você ficaria!

Krycek começa a rir sem parar. Barbara disfarça.

MULDER: - Do que ele tá rindo?

BARBARA: - É que ele nunca viu narração de filme pornô, até eu apresentar isso pra ele.

KRYCEK: - (RINDO) Essa maluca fica narrando filme pornô.

Mulder começa a rir.

SCULLY: - Tenho até medo de perguntar como descobriram isso!

KRYCEK: - Sério. Uma noite, acho que... Dois dias depois da gente ter decidido namorar, essa maluca foi dormir no meu esconderijo. Eu tava trocando de canais e aí tava passando um pornô.

BARBARA: - E o tontinho aqui todo envergonhado e sem jeito, mudou rapidinho de canal!

KRYCEK: - E ela já gritou: Deixa lá Ratoncito. E eu já fiquei empolgado, né, pensando, nossa, que garota liberal... Hoje a coisa vai render.Aí ela pede pra eu baixar o volume e começa a narrar as cenas em espanhol. E eu olhando pra ela, sem entender nada do que ela tava falando, e ela bancando a tecla sap do meu lado!

Mulder e Scully riem.

KRYCEK: - Então me toquei da palhaçada e comecei a narrar em russo.

BARBARA: - Por fim, narramos o filme todo e nem transamos! Em compensação aprendemos algumas palavras bem calientes ou zharko.

Mulder e Scully riem.

BARBARA: - Vamos de ação? Tem um ótimo ali.

SCULLY: - Isso!

MULDER: - Vocês dois não vão bancar a tecla sap né?

Barbara e Krycek riem. Mulder pega o DVD.

MULDER: - As mulheres querem assistir filme de ação assim, de repente?

BARBARA: - Adoro filme de ação!

Barbara pisca pra Scully que segura o riso.

SCULLY: - Eu também!

MULDER: - Mentirosas! Vocês querem é ver o Christian Bale!

KRYCEK: - Mulder, não liga. Somos mais que esse cara.

BARBARA: - Uh! Tá se achando, né Ratoncito?

MULDER: - Ele só tá falando a verdade. Nós somos muito mais bonitos.

SCULLY: - Deixa eles acreditarem, Barbara...

BARBARA: - É. Tão se achando o último biscoito do pacote.

SCULLY: - Mas estão mais pra última fatia do pão de forma!

As duas caem na gargalhada. Mulder e Krycek se entreolham.

MULDER: - Amorzinho, quem sabe a gente sai pra caçar hoje? Hum? Eu cansei de pescar, agora quero caçar.

KRYCEK: - Boa Mulder! Deve ter muita caça por aí com fome de pão de forma.

SCULLY: - Ótimo! Podem sair pra caçar. Ainda bem que trouxe minha maleta médica.

BARBARA: - Depois me empresta o bisturi, Scully. O estrago será grande!

Krycek dá uma mordiscada na perna de Barbara, que ri. Mulder coloca o DVD. Senta-se no sofá. Scully deita a cabeça nas pernas dele, se ajeitando.

MULDER: - O que quer com a última fatia do pão de forma, Scully? Hum?

SCULLY: - (RINDO) Depois eu vou amaciar essa fatia, Mulder.

BARBARA: - Se ele não dormir antes. Aí vai ser pão dormido!

Elas riem.

MULDER: - Vocês mulheres são interesseiras. Casam com o pão pensando na linguiça!

KRYCEK: - Fato!

O celular de Krycek toca. Krycek se levanta.

KRYCEK: - É o meu, desculpem. Não posso desligar por causa do trabalho.

MULDER: - Eu dou pausa. Atende. Deve ser importante.

Krycek vai pra cozinha e atende o celular.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Fala, Bishop... Não, ainda tô no Kentucky... Hum... Sim, pode falar com ele... Sim, eu sei que ele mentiu no depoimento, porque a vizinha viu ele saindo de casa e retornando dentro da janela de tempo em que o assassinato da ex-mulher dele aconteceu... Tá legal, ele tentou sair da cidade, já é mais suspeito... Eu não vou dizer o que tem que fazer porque você sabe, mas segura o filho da mãe por obstrução da justiça que amanhã eu tô aí e vou apertar ele direitinho... Sim, porque ele mentiu no depoimento, acusa ele disso pra não tirarem o filho da puta da cadeia... Enrola, Bishop, enrola que só vai achar advogado amanhã, porque hoje é domingo à noite e não tem advogado disponível... Segura até eu chegar aí, antes do advogado... Não, eu não tenho provas concretas, apenas circunstanciais, eu preciso de uma confissão. Ele vai piar direitinho na minha frente, pode deixar... Boa noite.

Krycek desliga. Volta pra sala e senta-se em seu lugar. Barbara coloca as pernas por sobre os ombros dele.

MULDER: - Problemas?

KRYCEK: - Sabe a máxima do "depois das primeiras 48 horas tudo fica pior pra resolver"? Tem malandro que sabe disso. O cara matou a ex em algum lugar que não sabemos, provavelmente porque tá numa merda financeira e queria o seguro de vida dela. Colocou a mulher em pedaços em algum freezer. Depois de três dias, colocou os pedaços congelados dela dentro de uma caixa de papelão, lacrada com muita fita adesiva e atirou no Potomak.

BARBARA: - Jesus!

MULDER: - Que idiota! A caixa flutuou.

KRYCEK: - Ele nem deve ter notado, acredito que atirou da ponte. Um casal fazendo caminhada encontrou a caixa na beira do rio e nos chamou. Eu sei que foi ele, mas não tenho provas. Nenhum DNA pode ser encontrado no corpo, porque descongelou e a água levou. A mulher deve ter morrido dormindo, porque nada tem debaixo das unhas e nem sinais de que lutou. Agora o cretino foi preso tentando sair da cidade. Ah, vamos ver o filme. Amanhã ele me paga! Vou dar meu tratamento vip pra ele.

MULDER: - Esse cara já foi preso? Tem passagem na polícia?

KRYCEK: - Não.

MULDER: - Rato, posso dar uma sugestão pra você? Um truque que aprendi por casualidade na vida policial.

KRYCEK: - Claro, Mulder.

MULDER: - Coloca um terno e gravata. Se arruma bem. Chega na sala de interrogatório calado. Sente-se e olha pra ele, sem dizer uma palavra. E torce pra que ele olhe pra sua beca toda e pense que você é o advogado que o Estado designou pra ele e comece a confessar até o que faz sozinho no banheiro.

KRYCEK: - (RINDO) Isso é piada, né?

MULDER: - Não. Eu ainda estava na crimes violentos quando a polícia pegou um sacana que estuprava mulheres, mas não as matava. Ele levava uma das orelhas como troféu. Não tinha ficha, nunca entrou numa delegacia. Quando entrei na sala de interrogatório, ele me olhou de cima a baixo. Começou a confessar. E eu ali parado, calado, olhando incrédulo pro cara me confessando aquilo tudo sem ao menos me dar tempo de mostrar a credencial do FBI e dizer que ele tinha o direito de ficar calado. Mas fiquei quieto, sem entender nada. Aí depois de confessar, o cara olha pra mim e pergunta: - E aí, doutor? O que o senhor pode fazer pra me safar da cadeia e do tribunal? Quanto o senhor cobra por hora pra me defender?

Eles riem.

MULDER: - Nunca consegui uma confissão tão fácil na vida!


9:31 A.M.

[Som: Bryan Adams - On a Day Like Today]

Krycek e Barbara se aproximam da picape.

KRYCEK: - Tem certeza? Eu não me importo.

BARBARA: - Não é justo eu ficar aqui me divertindo e você trabalhando. E depois não vou ficar segurando vela quando Victoria dormir. Scully já pintou as unhas do Mulder ontem, imagina o que vem na noite com eles sozinhos aqui!

Krycek começa a rir. Mulder e Scully se aproximam, Mulder vai até Krycek, Scully puxa Barbara pra um canto e conversa com ela.

MULDER: - Desculpe furar o combinado. Vai ter que voltar sozinho. Sabe o caminho?

KRYCEK: - Eu me acho. Ligou para a proprietária?

MULDER: - Ela não se importou, vai ganhar mais umas diárias. Victoria está se divertindo tanto que me sinto na obrigação de estender mais uns dois dias aqui. E o tempo ontem estragou a diversão dela ao ar livre.

KRYCEK: - Fica tranquilo. Se a Baba precisar de apoio na agência, estarei lá. Vai curtir sua família, Mulder. A vida passa muito rápido e eles crescem muito rápido.

Scully entrega as chaves pra Barbara.

SCULLY: - Coelha, dois agapórnis e um peixe. Vai dar conta?

BARBARA: - Pode deixar. Vou cuidar dos bichinhos da Victoria.

SCULLY: - Não quer ficar mesmo?

BARBARA: - Não. Vocês dois precisam se divertir. E fico com pena de deixar aquela criatura russa sozinha em casa. Meu trabalho sempre anda comigo, já o dele não.

SCULLY: - (SORRI) Se precisar de algemas...

BARBARA: - (RINDO) Vou esperar um pouco pra assustar novamente o Rato. Minha menstruação ainda não desceu e fazê-lo usar preservativo seria broxante.

SCULLY: - Barbara, sério. Faz o teste que compramos. Pelo menos vai ficar mais tranquila. E qualquer coisa me liga.

Victoria vem correndo com uma flor entregando pra Barbara.

VICTORIA: - Pra você!

BARBARA: - Ai, amor da tia Barbie! Obrigada!

Barbara a abraça e dá um beijo estalado na bochecha de Victoria.

BARBARA: - E ajuda sua mamãe, tá? Não deixa ela se cansar muito.

Victoria afirma com a cabeça. Barbara e Krycek entram na picape. Acenam pra eles, Krycek toma a estrada. Mulder envolve o braço em Scully.

MULDER: - Perdi o parceiro de pesca.

SCULLY: - Bom, tem uma novata, a sua puxa-saca, querendo uma chance.

Mulder sorri e beija Scully na testa. Victoria se abraça neles.

VICTORIA: - O que vamos fazer agora? Posso tomar banho no rio?

SCULLY: - Nem pensar! Além de não ser época pra isso, aquele rio não é dos mais limpos. Não quero ter que correr com você pra um hospital toda cheia de alergia ou resfriada.

VICTORIA: - Mas você é médica, conserta as pessoas!

SCULLY: - Isso não é motivo pra você abusar da sorte, né?

MULDER: - Que tal lambuzar essa menina de repelente e darmos uma caminhada por aí? Ahm? Se você cansar, a gente para. Não precisamos ir longe. Vamos seguir aquela trilha que não tem nenhuma elevação pra subir.

SCULLY: - Vou colocar meus tênis. Victoria, vai buscar o repelente, tá no quarto da mamãe, em cima da cômoda. Pode trazer os tênis e um casaco pra mamãe?

Victoria sai correndo.

MULDER: - Nunca vi essa menina tão empolgada. Seria um pecado cortar a alegria dela.

SCULLY: - Também acho. E depois está tão gostoso ficar aqui... Depois vou ligar pro Serling avisando que ela vai perder dois dias de aula. É por uma boa causa.

MULDER: - Nosso gêniozinho aí recupera o conhecimento bem rápido. Isso se já não souber antecipadamente o que vão ensinar.

SCULLY: - Mulder, vou deixar você falar com ela sobre isso. Estarei junto, mas você puxa o assunto.

MULDER: - Tudo bem. O Rato disse que ela pensava que todo mundo lia mentes. Faz sentido. Ela deve pensar que todo mundo pode fazer as mesmas coisas que ela. É a realidade dela, Victoria não sabe o quanto é diferente. Essa conversa vai ser bem complicada.

SCULLY: - Eu sei, por isso vou deixar um especialista puxar o assunto. Ficarei no apoio.


6:25 P.M.

Mulder serve a mesa. Scully e Victoria descem as escadas, em pijamas iguais.

MULDER: - Hum, mulheres limpinhas e cheirosas!

Mulder senta-se à mesa.

MULDER: - Scully, sua sopa ainda não ficou pronta.

SCULLY: - (PISCA O OLHO) Eu cuido agora, Mulder.

Victoria senta-se à mesa, ao lado de Mulder.

VICTORIA: - Adoro a sopinha da mamãe! Com pãozinho então...

MULDER: - E está esfriando, cai muito bem...

VICTORIA: - Papai, gostei das suas unhas pretas. Sabia que os anjos também pintam as unhas?

MULDER: - É, já vi Gabriel com unhas pretas, azuis... Deve ser moda no céu.

VICTORIA: - Deve ser. Anjos gostam de ficar bonitos.

MULDER: - Pinguinho, papai e mamãe querem conversar com você. Vamos ter uma reunião de família.

VICTORIA: - Eu fiz alguma coisa errada, papai?

SCULLY: - Filha, pare de se preocupar se fez coisa errada. Não fez. E mesmo que fizesse, somos seus pais, seus amigos. Estamos sempre prontos pra conversar e ajudar.

VICTORIA: - Eu sei, mas não quero fazer coisa errada e magoar vocês.

Mulder puxa o nariz dela, traz a mão fechada e coloca o polegar entre o indicador e o dedo médio, mexendo a ponta do polegar e erguendo a mão.

MULDER: - Scully, arranquei o nariz da Victoria, tá até se mexendo no meio dos meus dedos, olha!

Victoria solta uma gargalhada. Scully ri, mexendo a sopa.

VICTORIA: - Não me pega mais nessa, papai. É o seu dedo aí!

MULDER: - Ok, espertinha... Pinguinho, lembra quando a gente disse pra você não fazer suas mágicas na frente das pessoas e tentar não fazê-las em casa, mas fazer as coisas do mesmo jeito que a gente faz?

VICTORIA: - Sim. E juro que tô ligando a TV e mudando os canais pelo controle remoto, eu pego com as mãos as frutinhas e não tô fazendo mágica na frente dos outros.

MULDER: - Eu sei, confiamos em você. Pinguinho, você consegue ler o que papai tá pensando?

VICTORIA: - (SORRI) Eu também te amo, papai!

Mulder sorri.

MULDER: - Filhinha, papai precisa dizer uma coisa pra você. Não é legal ler o pensamento das pessoas.

VICTORIA: - Não? Mas é divertido! Tá, algumas vezes é triste, mas assim eu posso ajudar...

MULDER: - Pode ser divertido, você pode fazer isso com a intenção de ajudar, mas não deve fazer. Eu sei que o faz com boas intenções, mas não pode fazer mais isso.

VICTORIA: - Por quê?

MULDER: - Pensa assim. Você comeu alguma coisa bem estragada.

VICTORIA: - Eca!

MULDER: - Aí dá uma enorme dor de barriga e você tem que correr pro banheiro. Imagina você sentada no banheiro, com uma dor de barriga enorme e o banheiro não ter paredes. Todo mundo que passa na rua olha pra você sentada fazendo cocô.

VICTORIA: - (ARREGALA OS OLHOS) Papai, isso é embaraçoso!

MULDER: - É o que as pessoas sentem quando você lê o pensamento delas.

Victoria fica pensativa. Scully olha apaixonada pra Mulder.

VICTORIA: - Sério? Puxa vida...

MULDER: - Sabe o significado da palavra intimidade?

VICTORIA: - Sim. Quer que eu responda e soletre a palavra?

MULDER: - (SORRI) Não precisa. Pensamentos são íntimos. A única coisa que nós temos realmente de privacidade, porque ninguém consegue saber, são os nossos pensamentos. Ninguém tem o direito de invadi-los.

VICTORIA: - Mas papai, como ninguém consegue saber? Se a gente pode ler os pensamentos?

MULDER: - Pensa numa coisa.

Mulder fica olhando Victoria.

MULDER: - Scully, sabe o que Victoria está pensando?

SCULLY: - Não faço ideia. Na sopa?

MULDER: - Nem eu. Quem sabe pensa que nos ama, já que foi isso o que pensei antes, mas estou apenas dando um palpite.

Victoria olha curiosa pra eles.

MULDER: - Pinguinho, as pessoas não conseguem ler pensamentos, só você consegue fazer isso. Assim como as mágicas que você faz e papai explicou que ninguém consegue fazer isso, assim é ler o pensamento. Ninguém consegue e você não deve fazer por respeito a privacidade das pessoas.

Victoria abaixa a cabeça triste.

VICTORIA: - A Baba faz.

MULDER: - O que a Baba faz?

VICTORIA: - Ela sonha coisas, escuta coisas e algumas vezes vê. E também pressente. Que nem a mamãe, mas a mamãe não faz porque tem medo. Sei lá pra que ter medo...

MULDER: - Mas elas não leem pensamentos, nem movem objetos com a mente.

VICTORIA: - ... Você pode ler. Eu sei que pode.

MULDER: - Eu já pude ler, hoje não posso mais.

VICTORIA: - Porque você não se esforça.

MULDER: - Nem quero me esforçar. Pinguinho, algumas pessoas, como a Baba, conseguem fazer algumas coisas que você faz. Mas não todas as coisas que você faz. Outras como a sua mãe, não sabem lidar com essas coisas e nem querem fazer. Chamamos de paranormais as pessoas que fazem esses tipos de "mágica".

VICTORIA: - Então eu sou uma paranormal?

MULDER: - É. Você é uma paranormal. E quando papai diz pra você não fazer as coisas que faz é porque papai não quer que as pessoas olhem você com diferença e preconceito. Porque muitas pessoas não acreditam nessas coisas, elas pensam que são mentiras e bobagens. E mesmo que você consiga provar pra elas, sempre dirão que é um truque e não aceitarão, porque isso não é algo normal para as pessoas. Entendeu? Paranormal. Palavra nova pra procurar no dicionário.

VICTORIA: - Eu sei o que é paranormal, você vive falando isso! Vocês dois investigam coisas paranormais, que até agora não entendo, são coisas tão normais!

MULDER: - Então agora você entendeu. São normais pra você. Para as pessoas não. Elas não sabem lidar com isso. Não é a realidade delas, é a sua.

SCULLY: - Por isso chamam o papai e a mamãe. O papai descobre qual é a coisa paranormal e a mamãe tenta explicar com ciência, que é o que as pessoas entendem e aceitam. Mas quando a ciência não encaixa, até a mamãe tem que aceitar que é paranormal e não tem explicação.

VICTORIA: - Deixa eu pensar. Tô confusa agora.

Os dois sorriem. Scully coloca a panela na mesa.

SCULLY: - Quem sabe vamos pensar comendo uma sopa quentinha? Hum?

VICTORIA: - Ah mamãe, agora você leu meu pensamento! Pensar de barriguinha cheia sempre é melhor!

Eles riem. Scully serve o prato de Victoria.

VICTORIA: - Vocês tem razão. Agora entendi porque o Darius tem medo de filme de terror e a Megan morreu de rir quando eu fiz o Chad voar daquela vez. Mas assim, então eu sou diferente das outras pessoas porque eu sou paranormal, mas eu faço mais coisas que a Baba? Então eu sou diferente até dos paranormais, eu sou diferente de todo mundo?

Scully olha pra filha com ternura.

SCULLY: - Eu não diria que você é diferente. Eu digo que você é muito especial.

MULDER: - Muito especial.

VICTORIA: - Mas por que eu nasci assim?

MULDER: - Porque eu também sou especial, não tanto quanto você. E a mamãe também. E você sabe disso.

VICTORIA: - Entendi. Eu sou assim porque vim das sementinhas de vocês, né? Legal! Somos uma família diferente.

MULDER: - Somos. Mas isso não é desculpa para se achar melhor ou pior que os outros, ok? É como uma identidade secreta que ninguém pode saber. Ou podem nos meter em encrencas.

VICTORIA: - Eu sei! Que nem Os Incríveis! A gente não pode mostrar os poderes que tem porque se não as pessoas se assustam! E vão comentar e a chapa vai esquentar para o nosso lado. Sem contar o vilão do Iço! Agora entendi tudo!

Os dois sorriem pra filha.

VICTORIA: - Mamãe... Seu superpoder tá na cozinha, porque essa sopinha tá muito boa! Acho que você faz mágica na panela.

SCULLY: - Também acho. Por isso conquistei seu pai. Ele tá ficando com a barriga do Sr. Incrível!

Mulder olha debochado pra Scully. Victoria começa a rir.

MULDER: - Ok, mas o Sr. Incrível quer assistir um filme incrível com a família. Depois criança cedo na cama. Amanhã tem pescaria. Vou levantar bem cedinho e não vou esperar ninguém.

VICTORIA: - Oba!!! Vou dormir bem cedinho, vou ganhar de você!!! Quando acordar, já estarei pronta!


10:45 P.M.

Mulder lava a louça. Scully seca.

MULDER: - Acho que ela entendeu melhor do que eu esperava. E pelo menos não tive que entrar em coisas que ela ainda não entenderia, como a genética dos Mulder.

SCULLY: - Você consegue explicar as coisas pra nossa filha de uma maneira que eu me espanto, sabia? Ela escuta você. Não que ela não me escute, mas você é a referência dela, Mulder. É aquele cordão umbilical invisível que você tem com ela. Victoria tem você como herói, exemplo. E eu fico imensamente feliz que minha filha tenha isso, porque eu tinha isso com o meu pai e as meninas precisam de um exemplo masculino na vida.

MULDER: - Meu medo é que ela cresça e se case com um agente do FBI.

Os dois riem.

SCULLY: - Mulder, um policial a mais ou a menos nessa família não fará diferença. Eu me casei com um marinheiro, hum?

MULDER: - Não. Mas com um cara autoritário, que mandava em tudo e fazia você segui-lo em suas buscas sem nem pedir a sua opinião. Igual ao seu pai. Espero que a nossa filha não acabe com um sujeito de uma causa, que liga mais pra isso do que pra ela. Mas eu mudei, não?

SCULLY: - Bastante. Mas ainda tem coisas do meu pai. É um bom marido, apaixonado pela esposa, zela pelos filhos e tem a família em primeiro lugar.

MULDER: - Vamos conversar, Scully.

Mulder puxa a cadeira pra ela. Scully senta-se. Mulder senta-se de frente pra ela.

MULDER: - Scully, você já deu a entender que assim que Bryan nascer, você vai voltar a estudar e fazer seu doutorado. Eu quero que saiba que tem meu apoio. Eu cuido das crianças, cuido da casa, eu deixo a administração da agência pra Baba, se eu me sentir muito ocupado. Lógico que preciso trabalhar, mas vamos encaixar isso de forma que nem você sinta-se cansada e nem eu. Quero dizer que também penso em fazer parapsicologia, mas depois que você terminar seus estudos. E se quiser lecionar, não vou me opor a isso.

SCULLY: - Só não quero que pense que não gosto de investigar, Mulder. Só penso que posso fazer a minha parte trabalhando com você não em tempo integral. Mas se isso importa pra você, eu...

MULDER: - Não importa mais. Sabe por quê? Porque sem você, sem o seu trabalho, sua parte... Eu nunca teria chegado na verdade que tanto procurei. Encontrei a verdade, as verdades, Scully. O que faço agora é porque gosto disso, não me vejo trabalhando em outra coisa. E ainda bem que deu certo! Mas é eu, entende? Eu gosto. Você precisa também fazer o que você gosta. Isso não é apenas sobre o Mulder, é sobre a Scully.

SCULLY: - Aprendi a gostar dessas loucuras, Mulder. Gosto de investigar. Mas quero evoluir. Quero saber como são as coisas fora disso. Fora da loucura. Eu preciso disso, você sabe que sou a mulher da ciência, preciso me atualizar, preciso de ciência ao meu redor.

MULDER: - (SORRI) E eu preciso que você continue a mulher da ciência para me manter honesto comigo mesmo. Combinados?

SCULLY: - (SORRI) Combinados. Serei apenas seu apoio?

MULDER: - Não, nunca. Sempre será a minha parceira. Só que você será promovida a consultora, enquanto eu continuo o peão na obra. E sabe peão, né? Toda hora precisa ligar e incomodar para saber o que precisa fazer, por não ter material suficiente...

SCULLY: - (SORRI) E eu irei correndo pra você não fazer besteiras, Mulder.

Os dois trocam um beijo. Mulder ergue as mãos, com as unhas pretas.

MULDER: - E aí? O que vamos aprontar hoje? Hum? Estou curioso!!!

SCULLY: - Tem um óleo de lavanda maravilhoso na minha mala pedindo para cair no meu corpo. E você com essas mãos macias e essas unhas pretas contrastando na minha pele branca... Hum... Preciso de uma massagem bem gostosa à luz de velas, enquanto olho pra você me tocando...

MULDER: - Yhaaaa!!! Demorou, Dana Scully!

Mulder a toma nos braços. Scully ri.

MULDER: - Já deixei uma almofada na cama. Grite nela.


Residência de Barbara Wallace -6:06 A.M.

Krycek entra pela porta dos fundos. Aciona o alarme. Vira-se rapidamente. Nada. Procura Barbara.

KRYCEK: - Malyshka? Mais um truquezinho me espreitando é, gatinha malandra? O que inventou dessa vez?

Nenhuma resposta. Krycek coloca a arma no alto da prateleira. Fica cismado. Tira a jaqueta e pendura no cabide. Vai pra cozinha. Se assusta ao ver Barbara escorada num balcão, mordendo o polegar, olhos vermelhos e inchados de chorar.

KRYCEK: - (PREOCUPADO) O que aconteceu? Por que tá chorando?

BARBARA: - Nada...

KRYCEK: - Como nada?

BARBARA: - Só passei a noite sozinha nessa casa, precisando conversar...

Krycek abre os braços.

KRYCEK: - Ah, Malyshka...

Ele a abraça, ela se abraça nele. Ele a beija na cabeça. Ela chora no braço dele, agarrada nele.

KRYCEK: - Já tô aqui, hum?

BARBARA: - (CHORANDO) ...

KRYCEK: - Vem, vamos subir. Vou colocar você na cama, tomar um banho, ficar cheiroso pra minha nanica linda e depois vou abraçá-la pra ela dormir. Hum?

Ela afirma com a cabeça. Ele a toma nos braços.

Corte.


Barbara sentada sobre a cama, cabisbaixa, brincando com o edredom. A porta do banheiro aberta. Krycek sai enrolado na toalha indo para o closet.

KRYCEK: - O truque do Mulder deu certo.

BARBARA: - (SORRI) Sério?

KRYCEK: - (RINDO) Só que eu pedi pro Bishop fazer, ele anda todo arrumadinho de terno e gravata. O cara começou a falar pensando mesmo que era o advogado dele! Confessou rapidinho!

BARBARA: - Ele matou mesmo a ex esposa daquele jeito?

KRYCEK: - Não vamos entrar em detalhes grotescos. Você não precisa disso. Viu meu pijama?

BARBARA: - Lavei. Pega o outro.

KRYCEK: - Só você mesmo, garota. Nunca usei pijamas na vida! Até isso você me faz fazer.

Barbara sorri. Continua brincando com o edredom, nervosamente. Krycek sai do closet vestido com as calças do pijama e uma camiseta branca.

BARBARA: - Alex... Precisamos conversar.

KRYCEK: -... O que foi que eu fiz?

Barbara abaixa a cabeça, derrubando lágrimas, em nervos.

BARBARA: - Não foi minha intenção, mas... Aconteceu o que você temia. Me perdoa por trair você.

Krycek fica incrédulo.

BARBARA: - Eu sei que não fiz por querer, aconteceu e...

KRYCEK: - (IRRITADO) Ah! "Aconteceu"! Simples assim!

Krycek passa as mãos na cabeça, visivelmente transtornado e com raiva. Evita olhar pra ela.

KRYCEK: - (FURIOSO/ AOS GRITOS) Quando ia falar pra mim? Ahn? Que droga, Barbara! Eu sabia que essa merda ia acontecer algum dia! Eu sabia! Eu disse pra você o que pensava sobre o assunto, mas você... Sinceramente eu não entendo como pode fazer isso comigo!!!

Barbara olha pra ele com raiva.

BARBARA: - (INDIGNADA) Acabou, Alex, é isso? Pode falar. Eu sei que acabou tudo entre a gente, você deixou bem claro o que pensa. Mas você não tem o direito de gritar comigo desse jeito, quando a culpa também é sua!

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Minha culpa? E eu lá tenho culpa se você quis abrir as pernas? Ahn? O que conversamos? Adiantou conversar? Eu avisei você!

Barbara olha incrédula e com mais raiva.

KRYCEK: - Quanto tempo, ahn?

BARBARA: - Menos de uma semana.

KRYCEK: - Menos de uma semana? Não quero conversar com você agora, estou de cabeça quente, cansado e vou dormir no outro quarto! Amanhã eu pego as minhas coisas e vou embora. Agora você deve estar feliz, o idiota aqui pode cair fora!

BARBARA: - Deixa de ser cretino, Alex Krycek!!! Você sabia que podia acontecer!

KRYCEK: - Eu sabia, mas queria acreditar que não aconteceria nunca!

BARBARA: - Pelo amor de Deus! Eu não acredito que vamos acabar um relacionamento por causa disso! Eu sabia que tinha medo, mas não a tal ponto!

KRYCEK: - Quem foi o cara? Ahn? Mato ele agora?

Barbara enche os olhos de lágrimas, magoada.

BARBARA: - Como ousa dizer uma coisa dessas, Alex? Eu nunca trairia você com outro homem, nunca! Eu sempre disse que se acontecesse teria que ser com você!

Krycek olha confuso pra ela.

KRYCEK: - Barbara, um momento. Estamos falando da mesma coisa? Você me deixa confuso e maluco! (INCRÉDULO/ TRISTE) Malyshka, eu sei que você é muita areia pro caminhão desse rato velho, eu sempre disse que se houvesse traição nesse relacionamento, seria da sua parte, porque temos um diferença grande de idade. Mas me trair com outra pessoa e ainda achar que a culpa disso é minha? Isso é demais, sabia? Eu não acho que tenha feito algo pra merecer isso!

Barbara olha pra ele sem entender.

BARBARA: - Do que você tá falando? Eu nunca dormiria com outra pessoa! Ele é seu, canalha! E se não quer assumir, pega suas coisas e vá embora, porque eu não vou abortar o meu filho porque você acha que ele é uma desgraça! Não precisa nem ajudar a pagar as contas! Eu me viro. Crio sozinha, dou meu sobrenome pra ele!

Krycek arregala o olhos.

KRYCEK: - Barbara, do que você está falando? Que filho? Você me traiu e engravidou? E-eu não tô entendendo mais nada! Quer se acalmar e falar devagar e explicar direitinho do que estamos falando?

BARBARA: - Eu traí você, mas não foi intencional! Jamais mentiria que estava tomando pílula sem tomar, só pra ter um filho! Eu nunca enganaria você só pra engravidar!

Barbara tira o teste de gravidez da gaveta e joga na cama.

BARBARA: - Estou grávida. Esqueci a pílula num descuido, estava empolgada em arrumar entrevistas pro Mulder... E devo ter esquecido de novo, mas juro que não lembro! E eu queria dizer pra você usar proteção, mas você nem me deixou falar...

Krycek senta-se na cama, olhando para o teste de gravidez.

BARBARA: - Você vai ser pai, Alex. E eu sei o que pensa sobre isso, então se quiser ir embora, vá. Estou feliz porque é tudo o que eu mais queria, mas estou triste porque perdi você...

Krycek põe as mãos no rosto e começa a rir.

BARBARA: - Não acho isso engraçado. Estou em nervos a madrugada toda, pensando em como contar pra você, sabendo que você não quer um filho. É. Eu fui tonta, distraída e você pode achar que foi intencional...

KRYCEK: - (RINDO) Mas eu tô achando isso é muito engraçado! Tá vendo como você complica as coisas? Então o trair que você se refere é porque esqueceu as pílulas e não me disse a tempo? E está pensando que eu vou pensar que foi de propósito? Isso não é traição! É acidente de percurso e acontece mais do que você pensa!

Ela em prantos afirma com a cabeça. Krycek dá um sorriso e a abraça forte. Ela se abraça nele, aliviada.

KRYCEK: -Malyshka, sua boba, que sofre por antecipação. Eu nunca acusaria você disso. Eu só pensei que você tinha me traído com outro cara, isso me deixou doido, pra mim isso seria uma desgraça completa! Mas uma criança... Olha pra mim, minha nanica...

Os dois olham-se nos olhos.

KRYCEK: - Você me diz que vamos ter um filho? É isso? Eu não vou embora, não sou um garoto medroso com medo de responsabilidade. Ele é nosso, meu e seu. Aconteceu, não aconteceu? Um dia aconteceria. Seria eu num descuido ou você. Quem desce pro play tem que saber as consequências de brincar, não é?

Barbara tenta secar as lágrimas.

KRYCEK: -Admito que não estou preparado pra isso, sabe o que eu penso, mas aconteceu. Não tem devolução ao remetente.

BARBARA: - (SORRI EM LÁGRIMAS) Então não vai nos abandonar?

KRYCEK: - Tá maluca? Eu sou um homem, não um rato. Rato é só apelido. Eu nunca faria isso com mulher alguma, não fiz nem com a Marita que decorou minha cabeça inteira, imagina fazer isso com você? Eu assumo as minhas broncas. Da onde você tira essas ideias, Malyshka? Achou que eu ia embora o dia em que isso acontecesse?

Barbara afirma com a cabeça.

BARBARA: - Vai fazer uma semana na quarta. Eu acho que foi no primeiro dia que esqueci da pílula.

Krycek senta-se ao lado dela sobre a cama.

KRYCEK: - Sabe quando você não quer uma situação, mas essa situação acontece e então você percebe que é uma situação estranha, diferente, mas que ao mesmo tempo... É uma coisa boa? Sei lá... Tô confuso, nervoso, mas feliz.

BARBARA: - (SORRI/ ENTRE LÁGRIMAS) Tá feliz mesmo, Ratoncito? Ou só quer me fazer sentir melhor?

KRYCEK: - Malyshka... É seu, amo tudo que venha de você, só pirei achando que você tinha me traído com outro!

BARBARA: - E eu pirei achando que você estivesse furioso porque eu engravidei.

KRYCEK: - Mas, Malyshka, sua maluquinha, você fez o bebê sozinha? Eu não tenho parte nisso? A gente não resolveu brincar de casinha? Só estou preocupado. Vamos ter que casar logo, porque quando seus pais souberem que a filhinha solteira deles está grávida, vai sobrar pra mim. E sempre sobre pra mim, você sabe a minha fama. Se do outro lado do mundo acontecer alguma merda já vão dizer que tem dedo do Krycek nisso!

Barbara começa a rir. Ele ri com ela.

KRYCEK: - E você, tá feliz?

BARBARA: - Explodindo de felicidade, porque era tudo o que eu mais queria!

KRYCEK: - Deus sabe das coisas, Malyshka. Se não fosse acidente, teria acontecido? Hum? Eu sei, morro de medo de colocar um filho nesse mundo maluco, de não ser um bom pai, mas a gente vai encarar essa juntos. Olha o que eu já encarei na minha vida! Acha que tenho medo de bebês? E o que a gente faz agora?

BARBARA: - Acho que esperar. Não dá pra fazer muita coisa não.

Krycek se deita de lado, apoiando o cotovelo no travesseiro e a cabeça na mão. Barbara se deita. Ele puxa o edredom sobre eles.

KRYCEK: - Precisamos ir ao médico. E esvaziar um quarto e comprar coisas pra ele. E... Que coisa estranha... Vamos ter mais alguém nessa casa. Já dá pra sentir?

Ele passa a mão na barriga de Barbara.

BARBARA: - (RINDO) Não, seu bobo! Ele nem tem uma semana!

KRYCEK: - Tô me sentindo esquisito com a notícia. Acho que conforme sua barriga for crescendo, eu vou assimilar melhor, porque parece mentira. Sempre imaginei você grávida, porque era tudo o que você queria, mas nunca me imaginei grávido, entende?

BARBARA: - Entendo. Mas terá nove meses pra se imaginar.

Barbara vira-se de costas pra ele. Krycek deita a cabeça no travesseiro e a envolve nos braços, puxando-a contra seu corpo. Ela sorri. Ele ajeita o edredom.

KRYCEK: - Tá quentinha? Hum? E tá mais calma?

BARBARA: - (SORRI) Tô. Agora tô.

KRYCEK: -Vai ter que começar a ficar calma e pegar leve. Amanhã ligamos pra um médico. Agora vou levar mais a sério as minhas responsabilidades, porque vamos ter fraldas pra comprar. E depois eu me entendo com o Mulder, porque o culpado disso foi ele.

BARBARA: - (SORRI) Foi mesmo, Ratoncito. Esqueci minhas pílulas por culpa do Mulder.

KRYCEK: - Então ele vai ser o padrinho. Vai pagar as fraldas pra aprender a não atrapalhar a vida sexual dos outros, aquele intrometido... E você vai ter que parar com seus pulinhos por alguns meses. E dormir à noite. E se alimentar direito...

BARBARA: - Estou grávida, não doente!

KRYCEK: - A casa caiu pra você, garota. Vou vigiar você o tempo todo. Acha que essa barriga é só sua? Não mesmo. Eu também vou cuidar dela. Meio a meio. Ir embora... Eu avisei que não seria seu doador de esperma. Não avisei? Pacote inteiro. Quer o filho, tem que aturar o pai.

BARBARA: - Já tô curiosa pra saber o sexo pra comprar o enxoval. Você tem preferência, Ratoncito?

KRYCEK: - Sim. Com bastante saúde, essa é a minha preferência. E você?

BARBARA: - Ai, tanto faz, já é amado desde agora. Será a Svetlana ou o Dimitri?

KRYCEK: - Nossa, mas já escolheu os nomes? Por que não Maria ou Pablo?

BARBARA: - Porque é filho de russo, vai ter nome de russo e porque eu adoro russo. Maria ou Pablo Krycek não combinam! E papai vai ensinar russo desde cedo e mamãe vai ensinar espanhol. Nosso ratinho ou ratinha vai ser poliglota.

KRYCEK: - Sei, porque falamos em línguas diferentes enquanto o fizemos?

Ela ri, se recostando mais nele.


7:12 A.M.

Scully desce as escadas da cabana. Victoria sentada no sofá assistindo desenhos, Cookie com ela.

SCULLY: - Bom dia, Docinho? Tá acordada há muito tempo?

VICTORIA: - Não. Mamãe, eu comi cereais, tava com fome! E dei ração pro Cookie, ele tava namorando meus cereais!

Scully olha pra pia da cozinha, o pratinho e a colher lavados. A mesa limpa.

SCULLY: - Você guardou as coisas na geladeira? Lavou a louça?

VICTORIA: - (OLHANDO PRA TV) Humhum...

SCULLY: - Obrigada, meu Deus, por uma filha dessas! Espero que continue assim quando crescer!

Scully coloca água na chaleira. Abre a cortina da cozinha.

SCULLY: - Que dia lindo! Se o seu pai não acordar em quinze minutos, pode subir e espantá-lo da cama, ele prometeu pescar cedinho.

VICTORIA: - Posso mesmo? Porque eu adoro tirar o papai da cama!

SCULLY: - Pode sim.

VICTORIA: - Mamãe, não aguento mais pro maninho nascer!

SCULLY: - Por quê?

VICTORIA: - Ai porque eu já tô cansada de esperar!

SCULLY: - Imagina eu!

Scully pega o celular.

SCULLY: - Hum... Chamada perdida da Barbara. (PREOCUPADA) Será que aconteceu alguma coisa?

Mulder desce as escadas, sonolento, fazendo cara de malvado.

MULDER: - E matracam essas duas tão alto que acordam até os peixes no rio!

Victoria sai do sofá e pula em Mulder, que a segura no colo.

VICTORIA: - Bom dia papai! Já estou pronta pra gente ir pescar!

SCULLY: - Nunca prometa algo para uma criança se não vai cumprir.

MULDER: - (BEIJA VICTORIA) Eu sempre cumpro o que prometo pra minha garotinha. Vou tomar café e a gente vai pra beira do rio pescar, tá bom?

VICTORIA: - Tá!

SCULLY: - E passem repelente.

MULDER: - Lá vem a nossa senhora do repelente de novo! E o protetor solar?

SCULLY: - O sol não está tão forte assim e vocês ficam na sombra. Mas leva junto, caso resolvam aprontar alguma.

MULDER: - Mulher, se eu passar toda essa porcaria que você quer, vou ficar tão grudento que os peixes vão pensar que eu sou a isca!

Victoria dá risada.

MULDER: - Ah, você ri? Acho que vou besuntar você com manteiga de amendoim, amarrar na ponta da linha e tentar pescar um tubarão!

VICTORIA: - Nah! Não tem tubarão no rio!

MULDER: - Olha que pode ter... Sabia que tubarões também entram nos canais dos rios?

VICTORIA: - Você não faria isso com a filha amada das suas entranhas.

Scully solta uma gargalhada.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ok, filha amada das minhas entranhas. Suba e pegue repelente, protetor solar, boné, casaco, televisão, passaporte e já leva uma mala inteira para o rio, ou sua mãe vai ter um piripaque aqui e seu irmão pode nascer de véspera.

Victoria sobe as escadas correndo. Scully passa o café.

SCULLY: - Eu vou com vocês. Que tal levar uns sanduíches e café?

MULDER: - De acordo. Eu faço os sanduíches.

SCULLY: - Não, porque você vai entupir de manteiga de amendoim e geleia. Senta aí e tome o seu café, meu massagista.

Mulder sorri debochado.

MULDER: - Quero repetir a dose.

SCULLY: - É, mas dessa vez eu faço a massagem.

Mulder abre a boca e revira os olhos, levando a mão ao peito. Scully ri. Victoria volta.

VICTORIA: - Mamãe, eu posso falar um segredo pro Bryan?

Mulder e Scully se entreolham, curiosos.

SCULLY: - Pode.

VICTORIA: - Mas vocês tem que taparem os ouvidos! É segredo.

Os dois riem e colocam as mãos nas orelhas. Victoria se aproxima. Coloca o rosto e a mão contra a barriga de Scully, cochichando.

VICTORIA: - (SUSSURRA) Bryan... Seu melhor amigo já tá vindo aí. Eu vi a luzinha dele, dentro da barriga da tia Barbara, parecia um vaga-lume, assim como você.


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01/05/2020

25 de Maio de 2020 às 22:35 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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