shinia Bar-t-t-tender

O duelo entre Playmaker e Unnamed causou mais feridas do que o caos de uma realidade virtual em ruínas poderia processar. Agora, herói e derrotado precisam conversar, deixando de lado os títulos acumulados ao longo dos anos naquela plataforma. Um herói deve representar a justiça, mas o que fazer quando o senso comum fere a pessoa mais importante para você?


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo único: o fardo de um herói.

É quase como uma visão dos “bastidores” do anime, algo que “aconteceu” por trás das cortinas do espetáculo mostrado ao espectador. Yusaku e Kusanagi têm uma boa relação, mas Jin é família, como Soichi já disse, e para ele isso importa mais. A vitória (vamos chamar assim) de Playmaker foi algo conversado entre eles, mas na minha opinião, é um erro considerar que só por causa disso kusanagi tenha levado tudo numa boa.
Até a data de finalização dessa história (27/julho/2019), Kusanagi apareceu em poucos episódios após a luta final contra os Ignis, e também, por conta dos acontecimentos cada vez mais frenéticos, a dupla ainda não teve oportunidade de aparecer em cena. Acho essa distância (mesmo perfeitamente justificável pela loucura que Vrains está se tornando) muito estranha para dois amigos tão... íntimos(?).
É isto.
Boa leitura.

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Se o mundo fosse eterno e o conceito de tempo não existisse, talvez Yusaku continuasse olhando o nada além dos ombros distantes Kusanagi por tempo suficiente para gravar cada falha da parede de ferro na memória. Até a ferrugem pequenininha que começava a consumir o cantinho direito, se possível. Tão facilmente ignorável quanto um errinho besta numa relação que inicia a oxidação no mesmo momento em que começa.

Não que não tivesse pressa; era medo que o fazia travar naquela cadeira de plástico ressecado e anos de manchas no estofado.

Mas, no mundo real além daquela caixa abafada de lembranças com cheiro de salsichas de quinta (além dos prédios da Link Vrains), a madrugada se estende fria e mutável. Uma preparação para o inevitável dia seguinte, por assim dizer.

Os ponteiros do relógio continuam correndo.

Ele deve se apressar.

Mas quase do outro lado do espaço, Kusanagi o olha com a amorosidade serena de outros tempos, e ele sente a língua presa quando lembra que de um jeito ou de outro, foi sob aquele olhar que dormiu boa parte de suas noites nos últimos anos. Sob a infantil sensação de proteção que aquela presença lhe proporcionava, reuniu coragem para contar seus segredos ao homem que guardou com calma muitas de suas limitações. Agora, com o corpo tão anormalmente distante do seu, mal podia sentir o cheiro do café que nunca saía daquela pele bronzeada.

Havia perdido, de forma mais psicológica do que física, a única exceção para sua vida de dias solitários.

Infelizmente não poderia dizer que a ardência nos olhos vinha pelo sono.

Ele só queria chorar.

— E então... — começou. Mas não concluiu. Foi um início. Melhor que nada, de qualquer forma.

Um início sem mudanças de expressão ou voz calorosa. Mais um erro. Talvez esse seja o motivo primordial, pequeno e insignificante, responsável pelo começo daquele tipo de fim.

Ele realmente chegou a pensar que era uma pessoa diferente agora, depois de todas as madrugadas de conversas após as brigas por desentendimentos ou paranoias idiotas. Todavia, as travas às quais se prendia eram exatamente as mesmas, e a expressão séria permanecia imutável, mascarando a confusão de sentimentos que havia se tornado nos últimos dias.

As linhas escuras abaixo dos olhos estavam lá para qualquer um ver, mas aquilo não era mais uma exclusividade sua.

Queria saber quantas noites Soichi virou igualmente acordado, lendo aqueles livros idiotas de autoajuda. Tendo esperança de que a cura para a apatia do irmão pudesse ser encontrada em alguma lista genérica de “O que fazer para ajudar um parente com depressão” – não aconteceria. No fundo, bem lá no fundo, o choro de Yusaku havia levado até esse resquício de esperança. Mas ele nunca teve coragem para se render. E continuou buscando as mesmas listas, relendo os mesmos livros.

Kusanagi aceitava a dor dos outros, e entre uma tarde e outra, as tomava para si com a vaga desculpa de que apenas queria compreender melhor a situação.

Yusaku se sentia frustrado por nunca ter apaziguado a tristeza por trás daqueles sorrisos discretos. Nutria até certa raiva por não ser o pilar daquela relação.

(Se Soichi não lutasse e perdoasse tantas vezes, eles já teriam quebrado há muito tempo. Yusaku sabia. Aquela raiva era dirigida somente a si.)

— ... Nós podemos continuar sendo amigos. Não tenho problemas com isso, você sabe bem. — Ele deixou a velha caneca sobre a bancada, em vez estender diretamente para Yusaku, como sempre fazia quando estavam a sós.

A porcelana fuleira estava rachada num canto da borda. O estudante apertou o local onde a asa deveria ficar esperando algum resquício de conforto deixado pelo toque do outro. Não havia nada. E o vapor cozinhando seu rosto nem ao menos era do café escuro e amargo de sempre. A bebida tinha um tom bem mais claro; chá. Pelo cheiro, provavelmente de camomila.

Então ele havia se rebaixado a um adolescente neurótico precisando de alternativas naturais para se acalmar?

... Mas o próprio Kusanagi pegou a outra caneca e deu dois longos goles. E Yusaku considerou engolir os últimos pensamentos, junto com o sabor ameno da bebida.

— Eu machuquei seu irmão... E você também.

— Não poderia ter sido diferente.

— Sim, poderia.

— Então me diga como.

O tom saiu um pouco mais agressivo do que o esperado. Yusaku notou. E Kusanagi soube disso. Soichi não tinha levado aquilo numa boa; ele poderia ser tranquilo, mas definitivamente não tinha sangue de barata. Ele também achava que Fujiki poderia ter feito diferente.

Achava que Playmaker poderia tê-lo deixado vencer.

Yusaku resetou-se.

Meneou com a cabeça, balançado a xícara enquanto pequenas ondas se formavam na água amarelada.

— Me diga como, Yusaku.

A pressão na garganta de Fujiki o faz querer gritar ao mesmo tempo que arrasta para longe a força necessária para materializar suas palavras.

Ele sentia o desespero frio preenchendo o peito, mas aquilo era o de menos. Na verdade, até gostaria de aproveita-la; poucas vezes sentiu algo além de mágoa e indiferença por lá.

— Eu não sei...

— Você escolheu a justiça. Como combinamos. — Kusanagi para. Por um momento, parece pensar melhor nas palavras. — ... foi a opção mais vantajosa.

- E nem por isso foi a correta.

Ele aperta mais o corpo da xícara, magoando as mãos com o calor excessivo.

Soichi mantém o olhar distante.

— Eu não sei.

Silêncio.

— Um herói constrói seu caminho em cima de boas ações e sonhos de seus oponentes... considere-se o salvador da Link Vrains, Yusaku. É mérito seu.

— Não me diga para ficar feliz! – Ele levanta. Bate a xícara na bancada. Dá para ver a vermelhidão na palma das mãos. O dedão direito tem um band-aid transparente sobre a unha.

Kusanagi não o olha. – Só estou dizendo que meu irmão não tem mais nada a ver com você.

Yusaku quase chora.

— Você já fez demais por nós. E...

Algum dia nós vamos voltar a ser como antes?

Era a pergunta que vinha remoendo desde sua chegada.

Ele não se importava com o que os outros viriam a pensar do herói duas caras que sacrificou o melhor amigo no final, ou o quão patético o salvador da Link Vrains parecia, chorando daquele jeito enquanto derrotava mais um oponente. Não se importava nem com as próprias feridas, contanto que seu porto seguro aceitasse sua permanência.

Era fraco. Era patético. Empurrava Kusanagi cada vez mais fundo no lodo escuro de seu auto-ódio, enquanto mantinha a mesma expressão fria e distante de sempre, esperando que os outros pudessem ler através de sua cortina de fumaça. E mesmo assim, ainda conseguia sentir alívio por ter alguém ali, lhe dizendo palavras bonitas depois de mais uma noite em claro.

Você pode me perdoar?

Um suspiro cansado. Foi a primeira vez que Kusanagi o olhou diretamente desde que chegaram ali.

— Eu não sei. Talvez um dia nós possamos... voltar ao mesmo de antes. Vamos deixar o tempo dizer.

“Pelo menos não foi um ‘não’” seria a fala perfeita de Ai, caso ainda estivesse ali.

Yusaku quase olhou o disco de duelo, mas se conteve no último instante. Não precisava de mais decepções além das quais ele mesmo poderia causar.

— Ontem à noite Takeru me perguntou como nós estávamos...

Yusaku fechou bem os olhos.

— Yusaku, eu...

Soichi respirou fundo. Os nós dos dedos já estavam brancos por causa da força com que segurava a asa da caneca.

— Me diga o quanto eu posso falar para você. Não quero te magoar.

Ele se aproximou, se abaixou. Os joelhos apoiados no chão de ferro frio. Como um irmão mais velho se abaixa para ouvir as palavras embargadas do mais novo.

Esse era o problema: Kusanagi não era nada de Yusaku. Além daquelas noites em claro e conversas no escuro caloroso da madrugada, eles não tinham vínculo algum. A ida de Soichi amedrontava Fujiki, embora o mesmo deixasse tão claro que o outro era livre para atravessar a porta de sua amizade quando bem entendesse.

Havia aberto uma exceção em seu peito vazio, apesar de saber que não era exatamente a pessoa ideal para permanecer ao lado do carinha legal do caminhão de cachorro quente da praça central. Soichi era gentil demais. Compreensivo demais. Ele se aproveitou daquela paciência mais de uma vez ao longo dos anos. Agora colheria os frutos de seus erros.

— Então... é isso?

— Acho que sim. É o que você quer?

O estudante limpou as lágrimas. As mãos de Soichi não fariam aquilo. Não mais.

A resposta era bem óbvia até, mas para preservar o resto de decência que possuía, falou o que julgou ser correto;

— Sim.

(Ele não tinha mudado em nada)

— Então acho que é isso. — Kusanagi se levantou, enfiando as mãos nos bolsos do casaco. Desviou o olhar rápido e foi até o outro lado do caminhão. Como se Yusaku fosse radioativo. Ele não precisava exibir compaixão para com a pessoa que quase pôs tudo a perder. Se não fossem as falhas de Lightnig, seu irmão estaria praticamente morto agora.

Fujiki passou a mão nas costas da cadeira. O acolchoado é grosso e quente. Nas noites mais abafadas, não traz conforto algum.

— Acho que é hora de ir... — diz. Sente que é o que Soichi quer dizer com aquela distância. A clientela tem um tempo para ficar, quem extrapola é tido como inconveniente.

— Cuidado com o caminho. — O outro responde. — ... E tente ter uma boa noite. Você merece dormir tranquilo.

Por um segundo, ele para de mexer as panelas — Yusaku duvida muito que ele saiba o que está fazendo, Soichi tem mania de ficar andando por aí, ou mexer nos fios do fone, ou ainda desorganizar e organizar qualquer coisa quando está muito, muito estressado —, leva uma mão aos olhos e depois volta ao que estava fazendo. É rápido, mas Fujiki está atento dessa vez

(Um dia ele teria de estar. É melhor que seja no final de tudo do que nunca).

Não houve uma insistência para sua permanência. Nem o velho aviso de que estaria disponível caso tivesse algum pesadelo noturno.

A porta velha do caminhão sempre emperrava quando tentava ser aberta por dentro, mas daquela vez, ela abriu com um gemido sôfrego e cansado no primeiro empurrão.

A poeira fina do verão levantou dois milímetros quando ele pulou para o chão de tijolos coloridos da praça. Do lado de fora, depois de umas boas e espaçosas passadas, ele juntou a coragem necessária para olhar para trás pela última vez em um bom tempo.

Na janela lateral ou até mesmo as portas (já muito bem trancadas) de onde tinha saído; não havia ninguém olhando sua caminhada.

Foi um alívio meio triste — não soube explicar nem para si mesmo.

Voltou ao seu caminho.

Chorou até pôr os pés em casa.

22 de Maio de 2020 às 20:05 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Bar-t-t-tender Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

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