psiu_psycho Billy Who

Quando Mauro percebe que sua família, aqueles quem deveriam ser seu suporte, já não são as mesmas pessoas e que sua casa não é tão segura quanto pensava, o sentimento de terror se torna presente em cada minuto, no entanto, Mauro também não é quem pensa ser.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

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Uma família feliz

N/A: Este conto era para ser postado no Desafio sobre monstros, mas acabou se criando diferente e não quis desperdiçar o plot e reescrever, portanto, não irá entrar, mas me deixou bastante satisfeita. Espero que gostem.



***



O quanto um homem pode suportar de sua família?

O quanto se pode permitir se tornar um inimigo daqueles que deveriam ser a razão de retornar para casa?

Mauro já não sabia responder tais questões. Enquanto os talheres tilintavam contra a louça importada, uma das tantas frivolidades que a esposa tanto fazia questão de ostentar para que todos soubessem que era admiravelmente paparicada, naquele jantar a porcelana já não se fazia presente como um item extraordinário.

Vivian, sentada à esquerda do marido, tinha os olhos negros vidrados no Coq au vin a qual havia preparado com suas próprias mãos.

A carne se dissolvendo dos ossos, o molho se tornando uma cama para migalhas de carne de um cadáver a qual pretendia comer, o garfo chafurdando naquele animal morto que ela tanto se gabava, no passado, de preparar como ninguém. Um bando de comedores de cadáveres, pensava Mauro, um bando de comedores de cadáveres que vestiam roupas de cordeiro.

Em sua direita, Laura, a filha caçula que não comia, mas remexia igualzinha a sua mãe naquele prato de morte. Seu rosto, redondo e pálido, apresentava o marco comum às crianças mimadas como ela, um beiço enorme como os olhos, agora, marejados. Mauro sabia que a pequena Laura era uma das piores crianças a qual poderia ter como filha, era indisciplinada e desordeira e quando erguia seus olhos em sua direção, havia variações de nojo e desprezo, ocasionalmente medo.
Medo...

Como se a si fosse um monstro.

Ao lado da filha, o pior dos três, Santi. Santino, como seu avô materno, mas a horda de amigos depravados, como o próprio Santi achavam melhor chamá-lo daquela forma. Este estava planejando alguma coisa muito, muito errada há pelo menos dois dias e Mauro sabia, sentia dentro de seus ossos que quando chegasse o momento não poderia deter o rapaz.

Santi era um adolescente de dezesseis anos, desde muito cedo praticava judô, um dos tantos cursos aos quais havia sido incluído para que não se tornasse o parasita que ele era.

Tudo culpa da mãe, aqueles dois eram copias da mãe, que por conseqüência, era igual à mãe dela.

Mauro observou o prato, o silêncio sepulcral deixava o ar ao seu redor denso, como se estivessem os três mergulhados em um tipo de universo paralelo feito de desconfiança e terror. Havia a possibilidade que aquele prato estivesse envenenado... Vivian poderia perfeitamente ter deixado cair veneno ali dentro, veneno de rato, não o bastante para matá-lo de imediato...

Talvez sim, talvez não.

Uma vertigem de horror lhe ocorreu ao ver sua pessoa pendendo sobre aquela mesa, jorrando sangue naqueles rostos odiosos que desejavam sua morte, que o queriam sofrendo. Iria desmaiar, levar consigo, em sua queda, os pratos de porcelana, revirar a comida amaldiçoada e cair ao carpete enquanto os três iriam se projetar acima de si, com sorrisos inumanos de desdém e logo tudo estaria acabado.

Mauro sabia que era o que eles bem queriam, por isso, se ergueu da mesa jogando o guardanapo de tecido sobre o prato e se afastando. Sentia os olhos dos três em sua pessoa, à distância agora cochichavam, zombavam, lamentavam que não houvesse querido jantar de sua morte.

Havia duas noites que Mauro já não dormia mais no quarto, com a esposa, mas se escondia dentro do quarto de empregados, depois da cozinha e de lá era que passava a ouvir as coisas bestiais que aqueles três confabulavam. Os sussurros deles corriam pelos dutos de ar, durante a noite era o momento em que se tornavam mais bizarros.

Ouvia os moveis sendo arrastados, a conversa entre eles, sempre sussurros, apenas sussurros e risadas estridentes que pareciam surgir sem motivo algum. Noite passada, Laura havia arranhado a porta durante a madrugada inteira, as unhas dela havia ido embora e durante o jantar pode perceber que sua mão que segurava o garfo estava roxa, os dedos onde as unhas lascadas e amputadas haviam sido alavancadas pela madeira estavam lá como prova, o sangue coagulado formando manchas escuras e vis.

Quanto tempo mais aquilo iria durar até perder completamente a razão? Quanto tempo poderia fingir que a sua família, já não era mais a sua família? Mauro temia por si, temia o que os rostos, antes amados, poderia fazer consigo.

Sua filha caçula, que agora não tinha unhas e olhava para ele como uma boneca amedrontada – isto, apenas uma desculpa para que parecesse mais inofensiva, sabia que era uma tática dela conspirada e discutida em conjunto com a mãe, a líder daquele grupo aterrador – não se alimentava mais, havia percebido isto de modo muito claro, pelo menos não com o que deveria ser o habitual para uma criança de dez anos, mas sua dieta se restringia a cabelos humanos.

Em sua cabeça, antes onde os fios castanhos grossos e escorridos adornavam com uma franja torta, cortada por ela mesma, havia um buraco calvo de onde ela arrancava e arrancava, enrolava no dedo e após criar bolas de fios, devorava. Encontrou-a á alguns dias, remexendo nos ralos, mas ao ver o sorriso esdrúxulo dela voltado em sua direção enquanto acocada, quase deitada para obter suas repulsivas bolas molhadas de cabelos, Mauro não teve coragem de dizer nada, paralisado pelo terror e repulsa que o consumia e apenas se afastou, a deixando para trás a gemer com satisfação pelo hábito pavoroso.

Santi também possuía suas particularidades. Mauro percebeu o que ele fazia assim que começou a mudar...

Mudar...

Não havia palavra melhor para descrever, não no estado de terror a qual o homem de família se encontrava naqueles dias de confinamento na casa de verão. Santi mudou lentamente, a princípio, de modo progressivo, uma ou duas noites de insônia, depois três, algo comum ao seu entendimento para um adolescente. No entanto ele parou de dormir completamente.

Quando ainda dormia no quarto com Vivian, Mauro decidiu se levantar da cama e ir verificar o que os sons do andar inferior significavam, mas ao atingir o final da escada de vidro da mansarda que ligava os pisos, viu seu filho andando a esmo pela casa, ele conversava e conversava entre sussurros.

Mauro sabia que ele não havia o visto, no entanto, ao descer em seu encalço ao porão e adega, o viu abrir o duto de ar, deitando-se junto dele para ouvir a canção que dali brotava.

Ele e sua presença dos dutos cantarolavam por horas, contavam segredos um para o outro, falavam sobre a família. Paralisado com aquela voz que vinha de algum lugar da casa, Mauro passou a compreender que ele conversava com alguém a qual chamava de Papai.

Havia um intruso em sua casa e este intruso havia mudado sua família.

No inicio, Mauro acreditou que estivesse vivenciando algum tipo de histeria coletiva com seus familiares, mas a constatação que sim, seu lar, seguro e confinado não era tão seguro assim.

O que poderia ser pior que isto?

Definitivamente não sabia.

Você tranca suas portas, enche os seus armários, reúne seus filhos e os oferta uma boa casa, luxo, afeto, no entanto... No entanto eles sucumbiram ao intruso que lhes sussurrava da escuridão.

No primeiro momento, Mauro buscou o Pai postiço ao qual eles queriam por em seu lugar. Cada cômodo, cada armário, cada espaço esquecido, no entanto enquanto o fazia, os três andavam atrás de si, rindo, como se estivesse desempenhando algum tipo de brincadeira sem graça de pega-pega. Eles estavam se divertindo e possivelmente, seu substituto também.

Não havia escapatória, as linhas telefônicas haviam sido roídas, sabia que não foram cortadas, mas roídas pela esposa. Ela já havia colocado todo tipo de coisa em sua comida, mas o mais perturbador talvez fosse o fato de se deitar ao seu lado durante a noite e rir esporadicamente, desde risadas baixas até crises de gargalhadas e quando em parceria com seu novo marido, os dois podiam se tornar muito brutais.

Mauro não via saída, não mais que se trancar em seu quarto, onde arrastava a cômoda pesada para junto à porta, e se trancar lá dentro. Encolhia-se contra a parede, os olhos e pupilas arregaladas de terror, o suor emanando os feromônios de medo que sabia, sentia, que eles podiam farejar no ar.

O quanto um homem pode suportar de sua família antes de matá-los para se salvar?

O monstro que vivia dentro de sua casa, sussurrando depravações aos seus se arrastava lá fora, sendo reverenciado e adorado enquanto dentro do quarto os ouvia sussurrar. Sabia que ele vinha a noite, não conhecia sua forma e na pior das hipóteses apenas restava imaginar.

Não sabia se gostaria de vê-lo, talvez não quisesse vê-lo verdadeiramente, mas o que mais lhe restava se não a vasta imaginação além de vivenciar a perda de segurança daquilo que mais temia, no ambiente onde mais parecia improvável, temendo pessoas que viviam consigo, inevitavelmente viviam consigo, eram sua família, seus descendentes, sua esposa...

O que poderia ser pior que isso?

Talvez o pai substituto fosse um monstro. Unhas vastas e longas, uma pele ressacada a andar se esgueirando e sumindo com a poeira, vivendo em dutos de esgoto com dentes pontiagudos, no entanto, não temia nenhum monstro, nenhuma forma alienígena, nenhum tipo de zumbi, vampiro ou anomalia genética.

O medo era invisível, assim, poderia entrar por qualquer fresta, se instalar no ar como uma doença, modificar a percepção e criar a insanidade de não saber de onde vinha a certeza, mas ela estava lá.

Não estava sozinho.

E de onde viria o próximo ataque? Quem rastejava pelo corredor? Quem faria a porta voar pelos ares? Qual filho teria que escolher para lutar, entre a vida e a morte, para sobreviver?

Quem era o substituto naquela casa?

Mauro ergueu as mãos a cabeça e controlou um urro de desespero enquanto do lado de fora do cubículo pequeno demais, ouvia os complôs que criavam contra si, sussurros de criança e do pai substituto, falas de sua esposa pedindo, clamando para terem novos filhos, irmãos às suas crianças que já não eram como antes.

Clamava no quarto uma explicação, um porquê de aquilo acontecer consigo. Por quê?

Por quê?

Havia uma missa de vozes que dançavam, frases soltas chegavam aos seus ouvidos junto de imagens distorcidas que não faziam o menor sentido, em conjunto da narrativa dos quatro que contavam como aquilo poderia ter acontecido.

“Você não é nosso pai”, Santi pronunciava, naquele redemoinho de palavras e frases incompreensível que se mesclavam criando uma conversação terrível.

Mauro os ouvia enquanto colava a orelha contra a porta, permitindo vir em sua mente imagens do intruso entrando naquela casa, assimilando quando ele havia o enganado e adentrado em seu lar. Visualizava claramente que o Novo Pai usava uma jaqueta de camurça e olhos vivazes, sob o seu rosto havia uma máscara de linho preta, onde os olhos eram projetados clamando por sangue em uma excitação sobre humana como seus sussurros libidinosos.

O monstro que entrou por uma das janelas, havia farejado sua família, penetrou em seus domínios seguros e enquanto todos dormiam, ele andava pela casa. Ele tocava nos moveis, tocava na louça, tocava nos porta-retratos onde os rostos sorridentes estavam impressos, como um lembrete para o amanhã que, em algum momento, foram felizes.

O monstro altivo subiu as escadas e os observou em seu sopor confortável, velou o sono e sentiu o cheiro de cada um deles, sorrindo, pois os queria para si, para serem seus novos familiares.

“...ele nos arrastou para a sala...”, contava Laura como se confessasse uma travessura a qual parecia extremamente satisfatória. “...ele nos levou para a sala e nos fez um jantar”.

Sua mão coberta de luva havia ido parar nos cabelos da pequena Laura, havia puxado com tanta força que com som cortante havia lhe arrancado uma mexa castanha e couro cabeludo, foi assim que o intruso as levou para a sala de jantar, amarrou a menina na cadeira, mesmo que ela lutasse e o arranhasse, ele deixou-a perfeitamente alocada.

Santi, aquele que pensava possuir algum tipo de chance contra o intruso, lutou a princípio, mas acabou da mesma forma que a irmã, enquanto palavras eram sussurradas contra seu ouvido.

“Cante uma canção para a sua irmãzinha”.

Mauro arranhava o rosto ao vislumbrar o que havia acontecido, se perguntando onde estava durante aquele tempo todo em que sua filha estava visivelmente em choque, amarrada à cadeira e o irmão mais velho pronunciava uma cantiga de ninar, por ordem do invasor.

Os sons da voz dos dois, entoando a doce canção era quebrada pelos soluços de Vivian que jogada ao chão, implorava, rindo de nervoso, de pânico uma única melodia.

“Não machuque os meus filhos”.

Onde esteve enquanto ele os forçava a jantar? Onde esteve enquanto ele os deixava amarrados a cadeira até perder a consciência?

Mauro tentava chegar ao fim do vórtice distorcido de lembranças grotescas que agora sua família lhe enviava, em conjunto do invasor. Sua garganta dolorida estava gritando, pois ele estava vindo, cada vez mais perto, se arrastando pelo corredor com sua família agora convertida em dele, roçando as unhas contra as paredes, rindo baixinho e informando que estava chegando.

Cada passo dado, menos espaço, cada passo dado, um sorriso diferente. Seu coração batia tão acelerado que quando a porta explodiu em fragmentos de madeira, Mauro ergueu a cabeça e o viu.

O monstro, ali estava ele.

Um fino zumbido se alastrou em conjunto com uma claridade cegante, fazendo tudo se perder em meio aquele momento de pânico e horror. Mauro abriu os olhos, o som ensurdecedor do silêncio presente, consumindo a tudo, a todos.

Quanto um homem precisa aceitar de sua família?

— O substituto sou eu — sussurrou.

Olhou ao redor de si, o quarto iluminado pelo dia claro e bonito, abaixo da janela havia borboletas africanas colhendo o néctar das roseiras, o gramado se estendia verde e molhado de orvalho e podia ouvir o som das ondas do mar quebrando ao longe. Do outro lado, havia um corpo ressequido, uma boca aberta em expressão de pavor, um de seus braços estava quebrado em um ângulo impossível de ser reproduzido. Sua pele pálida se tornava azulada.

Aquele era Mauro, cujo Substituto havia encenado ser por as últimas duas semanas, inclusive, sendo assombrado por seus próprios atos continuamente.

Enquanto o observava morto, o Substituto, que vestia as roupas do defunto, se ergueu do piso e estendeu os músculos, arrancando os óculos que havia pego emprestado do dono da propriedade e saiu do quarto após abrir a porta.

Assoviando uma canção, andou até a sala de jantar onde a família jazia morta desde o momento em que os conheceu, que os assassinou.

Eram uma família problemática, acabaram completamente com a sua diversão.

Tudo era muito simples, havia dado fim ao patriarca, para assumir seu lugar, chamando-se Mauro à partir daquele momento, no entanto, a mãe e filhos não levaram muito bem a novidade. Era terrível quando aquilo acontecia, não restando nada a não ser o peso de suas costas como chefe de família absorver o papel, vivenciar o terror até que tudo se dissipava.

E mais uma vez, se dissipou, por culpa deles que não souberam interagir, que criaram aquela maldita ilusão que odiavam ao próprio pai. Como podiam ser tão egoístas e lhe fazer se afundar em alucinações tão terríveis?

— O quanto um homem precisa aguentar de sua família, Vivian? — espalmou as mãos sobre a mesa, olhando para o rosto morto da mulher que o encarava de forma patética — O quanto eu preciso suportar de vocês todos aí, sentados, imóveis, querendo ressuscitar aquele sujeito? Eu não fui um marido melhor que ele? — indignado virou o rosto para o filho, que sequer lhe olhava no rosto, tendo a cabeça pendida contra o peito — Eu não fui um pai melhor que ele foi? Não fui? — magoado se ergueu e suspirou, negando com a cabeça — Pra mim já basta, eu vou deixar vocês e esta casa.

Olhou através dos olhos marejados pela janela, vendo o mar que parecia agressivo e chocado em como as pessoas poderiam ser monstruosas com uma alma como a sua. Seus olhos seguiram a linha do horizonte em direção a um grande chalé, onde a cumeeira alta era percebida como um triângulo alinhado e convidativo.

O Substituto sorriu.

Talvez, naquele lar, houvesse uma família nova esperando por um novo pai, e muito provavelmente, seriam mais receptivos que aqueles aos quais deixou para trás, como muitos antes deles.

22 de Maio de 2020 às 17:44 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Billy Who A história é relevante, seu contador não.

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