eduardo-cezar1586895645 Eduardo Cezar

No interior, principalmente antigamente, a história do lobisomem é contada assim, um cão grande, peludo e preto que ataca galinheiros em noites de Lua Cheia.


Conto Todo o público.

#cão #monster #boo
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A lenda do Cão do Inferno

Lá pra fora era assim, um campo entre as casas e a lavoura atrás. Do outro lado da estrada de chão tinha um açude, aquele que teu avô viu uma bola de fogo em cima.

— Isso é mentira, tio!

— Prova que não é.

— Ai, isso não tem como.

— Então escuta o que eu tô te falando. A lenda era a seguinte:

Tinha que ser o sétimo filho homem e sempre acontecia na lua cheia. No campo, naquela época, o céu era diferente. Quando a Lua Cheia brilhava na noite ela era a rainha da terra. Eu ficava admirando aquele brilho na varanda do chalé. O açude que ficava na frente ganhava uma tonalidade de azul que nunca encontrei semelhante.

É um cachorrão preto, peludo e grande. Os olhos são vermelhos, dentes enormes e uma fome incontrolável. Ele invadia os galinheiros e comia as galinhas, se rolava na merda delas e depois fugia.

— Já atacou gente?

— Já. Tua tia.

E eu sempre ouvia histórias. Teve uma vez que uma mulher voltava para casa depois de um bailão quando foi atacada por um enorme cachorro. Naquelas redondezas já se comentava sobre um cachorro grande que estava comendo galinhas de madrugada. A mulher conseguiu sobreviver, mas teve todo o seu vestido vermelho rasgado pelas garras do animal. No outro dia de manhã, um bêbado daquela debanda apareceu desmaiado no meio da estrada. Entre os dentes e debaixo das unhas do homem eles encontraram retalhos de pano vermelho.

— E o que fizeram com o cara, daí?

— Mataram. Naquela época era comum esse tipo de coisa, todo mundo andava armado e a gente podia comprar uma pistola em alguns botecos. Morria muita gente por besteira, também.

A história do Cão do Inferno é contada em vários lugares. No interior ele existe. É uma figura comum, um medo compartilhado. Todas as famílias têm histórias com esse cão. Aqui na cidade não existe mais isso, mas lá pra fora, eu te garanto que o cão é real.

Eu gostava de olhar a lua. Ela sempre me chamava quando eu era adolescente. A gente não tinha muito o que fazer depois que o sol se punha, era o sol que dava a hora de dormir e a hora de acordar. Mas eu ficava admirando a lua a noite adentro. Ela me compreendia, às vezes. Foi numa dessas noites que eu ouvi um barulho no galinheiro. Pensei que fosse o vizinho tentando roubar um garnizé, então peguei a carabina do meu pai e fui lá ver o que estava acontecendo. Teu tio nunca teve medo de nada. Eu conseguia enxergar tudo por causa da l da lua que brilhava cheia no céu.

Foi então que eu ouvi aquele rosnado. Um grunhido veio do galinheiro, minhas pernas pararam, perdi a força e congelei. Havia alguma coisa que não era desse mundo naquele galinheiro, eu sentia. Ele sabia que eu estava ali. Através das frestas das madeiras eu vi aqueles olhos vermelhos, um focinho preto e enorme. O cão saiu do galinheiro e veio caminhando até mim. Era enorme. Eu já era um guri feito e aquele animal tinha a minha altura. Era peludo e o pelo era muito escuro, como o céu daquela noite. Eu não consegui correr.

Além do medo, outra coisa me prendia ali. Aquela criatura também tinha uma ligação com a lua. Acho que foi por isso que ele não me atacou. Ele viu algo em mim que refletia dentro do olhar selvagem. Eu não lembro direito o que aconteceu depois, mas eu ouvi um tiro, daí eu vi meu pai na porta de casa. A criatura já tinha sumido.

— O que era aquilo, pai?

— Um lobisomem, meu filho.

Nunca mais eu vi aquele cão de novo, mas ele nunca deixou de me assombrar. Ele vinha nos meus sonhos de madrugada, algumas vezes conversava comigo. Outras, eu ficava encarando aqueles olhos vermelhos. Eu sentia a presença dele nas noites, conseguia perceber seus movimentos pelo meio do mato às noites de Lua Cheia. Eu passava as madrugadas não só olhando para a lua, mas também procurando a criatura.

Numa madrugada, tua tia foi atacada por alguém ou alguma coisa. Essa é uma história muito mal contada, mas eu lembro que a gente foi até a casa dela naquela noite e ela disse que tinha sido atacada por um monstro. Teu avô tirou o três-oitão do cinto e correu atrás do lobisomem mato adentro. Eu lembro que ouvi uns tiros, mas nada de corpo, voltou sozinho. Diz ele que acertou de raspão um tiro.

Naquela semana nublou e choveu todos os dias. Nem lua minguante, nem cheia, apenas a memória do olhar vermelho do cão. Numa noite de trégua, céu nublado e muito barro, eu estava indo para a casa da tua tia quando um homem debilitado passou por mim. Ele usava um casado muito grosso e preto, parecia estar sangrando. Quando chegou perto de mim, caiu. Fui ajudá-lo. Quando eu olhei para o homem, reconheci o olhar no mesmo instante. Não era vermelho como quando estava possuído pelo cão, mas os olhos nunca mentem o selvagem que habita um coração. Eu já tinha o visto antes, era um namorado da minha irmã naquela época.

— Tu quer? — Ele perguntou, quase implorando.

— E o que tu respondeu, tio?

— Eu gritei por ajuda. Então teu avô apareceu pra ver o que estava acontecendo, mas o homem já tinha partido.

— Eu não acredito nisso.

— Não tem que acreditar. Mas eu tô te contando a verdade.

— Lobisomem não existe.

— Disso eu duvido muito. Já te perguntou por que a gente escuta uivos em noites de lua cheia?

— Porque são os cachorros da vizinhança.

— Será?

**

A lenda do lobisomem é essa, tal qual eu ouvi do meu tio. Depois desse relato, eu fui conversar com a minha tia e ela confirmou que namorava um homem que era o sétimo filho da família. Ela também me contou como a maldição é passada. Quando o homem envelhece ou quer passar o fardo, ele fica vagando pela estrada falando “Quem quer? Quem quer” até alguém passar por ali e responder “Eu quero!”.

No interior, principalmente antigamente, a história do lobisomem é contada assim, um cão grande, peludo e preto que ataca galinheiros em noites de Lua Cheia.

Meu tio é um, tenho certeza. Ele aceitou o fardo do cão naquela noite. Por idade ou por não viver mais no campo, ele não sai mais atrás de galinheiros. Nas noites de Lua Cheia ele fica triste, não conversa com ninguém. Sai para caminhar pela vizinhança e volta calado como saiu.

O cão selvagem habita meu coração. Meu tio é um lobisomem e eu também serei um dia.

14 de Maio de 2020 às 16:37 13 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Eduardo Cezar Acadêmico do curso de Letras da UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul). Amante da literatura brasileira, principalmente a contemporânea, grande fã de Harry Potter, Jogos Vorazes e Senhor dos Anéis.

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Nathy Maki Nathy Maki
Olá! Nossa eu adorei muito essa história, tem todo aquele ar de sítio na cidade de interior, com as histórias passadas de boca a boca e os trejeitos da fala que aparecem tão marcantes no texto! A gente usa muito o tu e o teu por aqui no CE então foi como ouvir alguém que eu conheço contando tudo. A frase "Os olhos nunca mentem o selvagem que habita um coração." Ficou muito marcada pra mim. Parabéns e boa sorte <3
June 09, 2020, 17:44
Amei seu desenvolvimento, o final foi de arrepiar, ninguém esperava por isso. Me vi extremamente focada com os personagens, realmente muito bom! Parabéns!
June 01, 2020, 18:02
CC C Clark Carbonera
"Os olhos nunca mentem o selvagem que habita um coração", que frase mais linda e poética! Os regionalismos são maravilhosos e eu adorei ver nos comentários como outros escritores/leitores de diferentes estados já ouviram enredos semelhantes. Isso deixa teu conto com um gostinho diferente. Fiquei com vontade de ler mais hehe Parabéns!! Parabéns por participar do Desafio e seja bem-vindo ao Inkspired ^^
May 30, 2020, 13:13

  • Eduardo Cezar Eduardo Cezar
    Muito obrigado! Eu fico muito feliz ao ler os comentários! June 01, 2020, 02:38
Antónia Noronha Antónia Noronha
História com um bom twist! boa narrativa! Bom trabalho!
May 28, 2020, 22:13
Rodrigo Borges Rodrigo Borges
nuss, histórias de interior, sempre bem-vindas. vou me resguardar para o final do desafio, mas parabéns!!
May 28, 2020, 16:10
Verônica Ashcar Verônica Ashcar
Olá, tudo bão? Amei a narrativa com um "que" de regionalismo, consegui me sentir em Minas com os meus parentes reunidos olhando uma fogueira e contando histórias de terror! Bateu um calorzinho gostoso e nostálgico com cheirinho de infância, lenha queimada e pão de queijo quentinho, meu senhor, que delicia de escrita, apaixonade estou! <3 Parabéns pela história e boa sorte no desafio! ^^
May 27, 2020, 00:49

  • Eduardo Cezar Eduardo Cezar
    Oi! Fico muito feliz com teu comentário. Eu sou daqui do interior de do RS e com esse conto eu vejo como o interior dos estados mantêm semelhanças lindas e cativantes! May 28, 2020, 11:48
Lucas Alcântara Lucas Alcântara
A narrativa é envolvente. Gostei bastante do clima de interior, muito bom o seu conto.
May 16, 2020, 15:32
DC David Cassab
Muito bacana, me lembrou minha avó que era de Senhor do Bonfim - BA contar sobre lobisomens.
May 15, 2020, 01:49

  • Eduardo Cezar Eduardo Cezar
    Sim! Eu sou do interior do Rio Grande do Sul e ouvi histórias assim do meu avô. May 15, 2020, 03:54
Lilac L. Lilac L.
Sua escrita é muito boa. Li tudo e nem vi que já tinha chegado ao fim! Muito legal o conto!
May 14, 2020, 20:41

  • Eduardo Cezar Eduardo Cezar
    Muito obrigado! Fico feliz que tenha gostado. May 15, 2020, 03:54
~

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