O ato solitário que é escrever. Seguir blog

papironauta Rodrigo Borges O ato solitário da escrita. Porém, antes, o que seria escrita? Segundo S. King, escrita é telepatia, e eu bem concordo com, só que com um porém: escrita CRIATIVA que é telepatia.
História Não Verificada

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O ato solitário que é escrever.
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"Escrever é um trabalho solitário [...]" S. King.



Mas o que é escrita? Stephen King diz ser telepatia, e assim concordo, mas com um porém: escrita CRIATIVA é telepatia, pois só nela existe única verdade: sua criação, imperfeita ao ser falada, mas perfeita ao ser lida. E até que isso me conforta, porque, dizer se tratar de telepatia, nunca que poderíamos escrever como Edgar Allan Poe, ou HP Lovecraft, ou Patrick Rothfuss, ou até mesmo como o próprio Stephen King; e nem eles conseguiriam escrever igual a mim, porque, sendo a telepatia uma para cada cabeça, as mensagens nunca seriam iguais, mesmo se fossem sobre o mesmo assunto. Claro, não há dispensar a destreza em manipular a gramática, as palavras e parágrafos.


Na trilogia sci-fi de Cixin Liu, a telepatia foi um dos fatores que fez os seres alienígenas optarem por aniquilar a humanidade, já que aqueles se comunicavam pela tal, portanto compartilhavam verdade, enquanto esta, de boca e língua, poderia omitir ou mentir num tratado de paz. Assim sendo, o que seria a escrita criativa, tipo de telepatia, senão a expressa forma da verdade da imaginação de quem escreve? E essa verdade sempre é excitante demais para um contador de histórias, é sua imaginação sem escrúpulos; e o desejo de compartilha-la é imenso, mas quem há por perto?


No geral, o ato da escrita criativa é solitário, porque (1) falar sobre mundos fantásticos e ideias inacabadas soa bobo, dificilmente alguém dará bola; mandará você crescer e arranjar dinheiro (2) é difícil ter apoio em trabalhos nos quais as recompensas são mais espirituais que materiais, (3) um contador de histórias precisa de leitores, e, cá entre nós, é bem difícil encontrá-los nos estágios iniciais de sua obra e (4) se é preciso se isolar mentalmente, adquirir tom reflexivo ao escrever. Claro, o dinheiro ajudaria a riscar metade desses itens.


Mas, mesmo Stephen King sendo um escritor bem-sucedido, ainda afirmou ser a escrita ato solitário.


Justo por isso, acho tais problemas superficiais demais, problemas convencionais que toda profissão detém; para tanto, o simples início do poema de Charles Bukowski servirá: vá até o final.


Agora, a real explicação do porquê a escrita ser ato solitário eu encontro em minha própria experiência, portanto particular, quando no despertar de minha imaginação.


Alguns autores decifram esse despertar com metáforas. Thomas Francis diz sentir-se como um cão de caça em estado de alerta. Henry James fala se tratar de uma impressão súbita, algo minúsculo, soprado pelo vento. Já eu, sinto empolgação e fascínio, sobretudo medo histérico, como olhar o mar através de uma janela ou monitor e sentir-se naufragado, porque, ao ter uma ideia acerca duma estória, significa dizer que logo terei que dizer tchau a ela e a todos que a compõe. Assim, nos meus mundos imaginários, ainda não escritos, eu sou o protagonista, eu converso diretamente com os personagens que farão parte da estória, eu sou um soldado intergaláctico, um morador duma cidade pequena e assombrada, um descobrir de mistérios antigos, mas, quando chega a hora de escrevê-los num papel, sou forçado a me afastar de todos estes cargos, apenas para preservar os momentos intocados que ameaçam se desintegrar em minha memória.


No final, torno-me um fantasma no mundo originado em minha própria cabeça, incapaz de conversar diretamente com aqueles que me acompanharam no que agora é estória, exonerado de minhas obrigações como ex personagem principal.


… torno-me narrador de uma experiência sem propriedade.


Então porque ainda continuo a escrever? Talvez porque eu ainda me convença de que nasci para isso, e que também é a única forma de revisitar minha criação, mesmo sob a forma de narrador invejoso, saciando, assim, a solidão que me é proporcionada.



Persistência, por Rodrigo Borges.


Num dia arranco folhas brancas e rabiscadas;

noutro, folhas mortas.

Então me deparo com o outono,

onde as folhas são expulsas por sua própria anfitriã.

Neste momento,

as noites avançam com a paciência de um exército,

e os dias recuam com a ausência de um rei.

Mesmo assim, prossigo contra o ditame do vento, e,

ainda que minha amargura caia,

deixando-me nu no inverno,

as folhas brancas ainda serão rabiscadas,

e as verdes, mortas.

10 de Março de 2020 às 18:19 4 Denunciar Insira 6
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