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shinia Bar-t-t-tender

Para Lio, crisântemos são como girassóis, e por isso Galo tentou ficar feliz ao vê-los desabrochando nos pequenos canteiros do quintal.


Fanfiction Anime/Manga Tout public.

#galo-thymos #lio-fotia #galio #promare
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único

Lio adorava flores. Era um detalhe meio inesperado, um cara aparentemente bruto, metido em roupas de couro preto, até um tempo atrás líder de uma gangue que ameaçava incendiar a cidade inteira ser tão habilidoso com pequenas plantinhas delicadas que morriam por muito pouco. Galo teria rido, se lhe dissessem antes de tudo acontecer. Ele nunca pensou mal dos burnish, mas mesmo assim, os via como durões demais, brutos demais para cuidar de algo tão simples.

Ironicamente, lá estava ele, no quintal vazio da casa que começara a dividir com Lio há uns três anos, aprendendo que devia tirar a casca da batata antes de enfiar o cabo cortado das rosas lá.

Rosas essas que havia presenteado o parceiro no dia anterior, para comemorar os quatro anos de namoro. E propor um noivado, se ele tivesse sido corajoso o suficiente.

Lio tinha cortado os caules. As rosas estavam conservadas numa xícara de água com açúcar na cômoda do quarto. Ele quase não dormiu, falando de como aquilo ajudava a preservar a flor por mais tempo, e que ia plantar os caules, e mais meio mundo de coisas indecifráveis para Thymos, mas que ele ouvia de bom grado, só por ser seu namorado a falar. Ele plantaria uma floresta de roseiras, se isso fizesse o olhar do outro brilhar daquele jeito.

— O solo tem que ser argiloso e bem drenado... — murmurava. Parecia meio distante, ele costumava pensar alto quando se distraía. Tinha o costume de falar dormindo também, e era assim que Galo descobria quando estava planejando alguma surpresa. — Onde eu deixei tesoura de jardinagem?

— Dentro do armário debaixo da pia. — O de cabelos azuis respondeu. Fotia pareceu acordar para a vida. O olhou, como se prestes a perguntar como tinha adivinhado, mas desistiu e só levantou, a terra caindo de suas roupas e formando um caminho diminuto até três passos de distância.

Galo se concentrou em espetar os caules nos pedaços de batata descascadas. O espaço onde ficariam já estava praticamente pronto; terra rica em material orgânico e bem drenada, como Lio havia repetido incontáveis vezes.

Ele estava demorando lá dentro. Talvez não tivesse encontrado. Galo quis deixar para lá e terminar logo com aquilo, o sol estava de matar, mas não conseguiu. Levantou e foi até a porta, chamando pelo outro.

— Lio? Você encontrou a tesoura? — Perguntou logo da porta. Ela ficava perto da pia, e havia janelas pouco acima das torneiras.

Só viu quando entrou no cômodo. Fotia estava no chão, caído. A tesoura de jardinagem o lado, ainda fechada. Thymos procurou por sangue; não havia nada. Ele correu para o corpo, se ajoelhou por lá e examinou os pontos vitais do homem. Tinha pulso, embora fraco. Galo virou o rosto do outro para o lado, tentou corrigir a postura, atento à palidez medonha. As mãos não estavam frias, mas eram definitivamente menos quentes do que o normal de Lio. Ele sempre parecia meio febril. Às noites, era quase como um cobertor ambulante.

Não demorou muito para acordar. Desmaios nunca duravam mais de alguns minutos, de qualquer forma.

Lio — chamou, baixinho para não o assustar. — Consegue me ouvir?

Os olhos arroxeados demoraram um pouco para olhá-lo, quando o fizeram, ainda estavam meio dispersos. Ele quis levantar, mas Galo impediu, disse para fazer com calma.

— Está sentindo alguma coisa?

— Não.

— Tem certeza?

— Sim. — Ele pegou a tesoura, fez menção de levantar, mas Thymos segurou seu pulso gentilmente.

— Acho melhor você parar por hoje. Vou ali enterrar as mudas e já volto. Beba água com açúcar enquanto isso. Grite se sentir alguma coisa.

— Mas...

— Mas nada, Lio. São ordens de um profissional. — Ele teve prazer em dizer aquilo, e Lio fez cara feia, mas obedeceu. O de cabelos azuis voltou para terminar com as mudas de rosa e o loiro esverdeado ficou olhando da pia da cozinha.

Quando Galo entrou, ele ainda estava lá.

— O que você quer pro almoço? — Lio. O bombeiro sorriu.

— O horário não me permite dizer.

— Ah, vá... só não digo porque sei que cê gosta.

— Eu vou pedir alguma coisa, okay? É melhor. — Segurou as mãos do menor, ainda estavam relativamente abaixo da temperatura normal. Ele continuava pálido, também. Estava começando a pensar em como levaria aquele cara teimoso até o hospital. — Vamos tomar banho?

Lio deixou o copo seco, de onde estivera tomando a água adoçada em cima da pia. Galo não ia desgrudar dele tão cedo depois daquilo, e ele não achava ruim; muito pelo contrário. Tomaram um banho quente e escaldante, embora o de cabelos azuis preferisse água fria. Eles brigaram quando foram decidir o que comer, como sempre acontecia, mas bastou lio olhar todo pidão, e em vinte minutos o entregador batia na porta com as pequenas caixinhas do restaurante chinês.

— Você é fofo demais pra eu conseguir recusar alguma coisa. — Galo meio elogiou, meio reclamou quando trouxe o pedido. Lio só sorriu.

— Eu sei.

Eles deitaram depois. Ainda era domingo, e havia muito a se fazer, mas tecnicamente, não quer dizer que eles fariam de fato.

Thymos ainda estava convencido a levar Fotia ao hospital no mínimo sinal de piora. Ele não havia voltado à temperatura normal, e não tinha certeza, mas o parceiro parecia divagar de vez em quando.

— Lio... tem certeza que não tá sentindo nada? — Estavam abraçados na cama, o bombeiro deitado e o loiro em cima do seu peito, sentindo o vai e vem do peito largo de Thymos.

— Relaxe. Aquilo não foi nada, eu devo ter comido pouco no café, ou...

— Ou?

— Nada, Galo. — Ele o beijou, rápido, os lábios também não eram tão quentes. — Quero dormir. Você ficou me chutando a noite inteira.

— Que mentira!

— Ah vai, eu poderia estar cuidando dos meus crisântemos agora. — Ele puxou os lençóis até a altura do queixo, fechou os olhos com quem não quer saber mais de nada.

— Então seus crisântemos são mais importantes do que uma tarde ao meu lado?

— Para, Galo. Você sabe que não.

Thymos o apertou entre seus braços. Lio parecia fácil de machucar, mas céus, não tinha explicação para o tanto de força que cabia dentro daquele corpinho pequeno. Ele o amava mais do que já amou qualquer outra coisa na vida. Não se imaginava sem Lio, e ficava feliz por isso.

Galo acordou primeiro. O sol do começo do fim de tarde entrava por um buraco na telha e batia bem na cara dele. Seus olhos demoraram a se acostumar com a mudança na luminosidade, e o sono do meio-dia sempre deixa qualquer um derrubado por mais tempo. Porém, acordou de uma vez quando apertou mais os braços e sentiu.

Lio, que ainda dormia na mesma posição, estava frio. Não menos quente, ou numa temperatura normal de ser humano, mas frio. Como alguém que acabou de sair da chuva. O problema é que ele não tinha saído de chuva nenhuma, e quando os olhos de Galo se acostumaram, ele viu o rosto branco que nem ao menos parecia ter vida. Tentou chamar, fazer os primeiros socorros, sabia que estava respirando, embora o peito se movimentasse fraco, mas era só isso.

Tentando manter a calma, galo se vestiu e o carregou até o carro, ainda com o corpo pequeno enrolado nos cobertores. Dirigiu até o hospital e quase gritou em desespero na recepção, falando numa urgência perceptível a qualquer um.

Em poucos minutos, Lio estava atrás de uma porta nos extensos corredores, cujo o acesso a Galo não era permitido.

Ele só sentou depois de sentir as pernas ardendo de tanto andar em círculos. Lá na frente, a recepção estava quase vazia, e o silêncio o inquietava ainda mais. Ele tentou respirar de tudo que era jeito, mas não tinha solução. Era Lio que estava ali atrás, sofrendo. Ele devia ter notado os sinais, devia ter insistido mais. O parceiro era teimoso, mas não de todo invencível. Estava à beira de um ataque de nervos quando sentiu alguém sentando ao seu lado. Ele abriu os olhos, querendo saber quem diabos o incomodava quando a merda do corredor estava com o resto das cadeiras vazias.

E para sua surpresa, era Meis. Alguém havia dito que Lio estava lá? Na confusão, Galo tinha quase certeza de que não havia ligado para ninguém...

— Cara... você tá horrível. — A sensibilidade característica dos ex-mad burnish. Galo nem se incomodava mais. Entretanto, o outro não estava muito melhor.

As olheiras de Meis pareciam ser desenhadas com lápis preto. Era isso ou ele não dormia há uns três dias, no mínimo.

— Me diga algo que eu não saiba... Como vão as coisas?

— está tudo meio merda, sabe? Faz uns dias que o Gueira passa mal, ontem ele piorou e a gente correu pro hospital. Tô aqui desde então. E você?

— Sério? E como foi isso?

— Não é muito educado responder uma pergunta com outra...

— Lio também não tá bem.

Meis pareceu se assustar. — Ele ficou frio do nada?

— Sim... por que?

— Tem acontecido com alguns ex-burnish. Ninguém sabe o motivo, só acontece. Até onde eu sei, Gueira foi o primeiro, mas de ontem pra cá já tive notícias de mais alguns...

— Mas e você?

— Eu tô normal. — e era óbvio que não estava, mas se não queria falar, Galo não ia insistir. Provavelmente nenhum tinha cabeça para isso.

Uma mulher — provavelmente uma médica — veio falar com os dois mais ou menos na metade da noite. Pediu para irem, se pudessem, que ia ligar se qualquer coisa acontecesse. Meis quis ficar, mas Galo se meteu e disse que o levaria para casa, sem deixar que o outro retrucasse. Ficar ali não ia fazer ninguém ficar melhor, eles sabiam, e precisavam engolir isso.

Foram para a casa de Thymos, mas não dormiram. Galo fez alguma coisa para o jantar, ele não soube o que era ao certo, e comeram sem sentir o gosto. Uma hora, o moreno ficou olhando o gramado verde além das janelas com uma expressão indecifrável.

— Lio sempre quis ter um jardim. Ele ama crisântemos, sei lá por qual motivo.

— Eu sei.

— Ei cara, vai dormir. Eu te acordo se algo acontecer.

— Você também tá precisando.

— Eu vou depois.

Ele suspirou. — Tudo bem.

Ninguém ia dormir, eles tinham certeza, mas fingir ajudava a diminuir o nervosismo.

Ligaram durante a manhã. Eles voltaram lá, cara um com um vazio diferente no peito. Meis sumiu por uma porta qualquer, e uma outra mulher guiou Galo até o quarto.

Lio estava lá. Os olhos arroxeados meio grogues graças a sonolência, ainda pálido, mas inegavelmente vivo. Ele sorriu pequeno quando Galo entrou, e Thymos correspondeu.

— Como está?

— Bem melhor, senhor bombeiro. — Brincou. As mãos grandes de Galo se enroscaram nos fios claros.

Ele não riu, entretanto.

— Você devia ter me dito que não tava bem...

— Não queria te preocupar. — As mãos de Lio foram atrás das suas. Fotia ainda estava frio, e por algum motivo, Thymos sentiu urgência naquele toque.

— Mas você não...

— Ei, Galo, pare. Já chega, tá? Passou.

O de cabelos azuis suspirou.

— Eu te amo. Muito.

— Você tá me assustando...

— Meu carinho te assusta?

— Não! Ah... eu também te amo. Muito mesmo.

— Então me prometa uma coisa.

— O que?

— Que vai ser feliz.

— Mas eu já sou.

— Não idiota. Depois de tudo isso. — Ele apontou para si mesmo, o olhar ficando cada vez mais disperso num mar de água que ameaçava vazar a qualquer momento.

Galo ficou frio. E torceu para não ter entendido.

— Lio, o que...

— Não se faça de desentendido quando você é bem esperto lá no fundo. Tire por mim, que só percebi que gostava de você depois de muito tempo. — Galo lembrava de tudo. Lio era tão claro quanto aos próprios sentimentos que parecia impossível para qualquer um não perceber o desfiladeiro que ele tinha pelo bombeiro, mas ele negava tudo, sem enxergar a si mesmo.

O começo do namoro tinha tudo para dar errado. E futuramente, Thymos pretendia contar tudo aos netos da forma mais vergonhosa possível.

E ele esperava ter Lio ao lado, irritado, tentando desmentir todas as vergonhas que eles passavam em cada canto da cidade.

— Eu só te amo. Mais do que poderia amar qualquer crisântemo. — Uma das mãos estava no rosto de Galo, ele a recolheu, a outra que segurava a mão do homem perdeu a força. — Eu sei que isso nunca via ser suficiente, mas... obrigado por tudo. Eu te amo demais.

Os olhos de Lio foram se fechando aos pouquinhos, como se quisessem gravar a imagem de Galo até o último segundo. Ele pendeu a cabeça para o lado sem dizer mais coisa alguma. Galo ficou lá, uns dois segundos olhando as duas últimas lágrimas descendo, partindo junto com o restinho de vida naquele corpo pequeno e absurdamente forte.

Quando percebeu, suas próprias molhavam o lençol branco da cama de hospital. Thymos se perdeu; tocou o rosto frio, implorando para que Fotia parasse de brincar. Fez o pedido de noivado que tanto esteve preso na garganta nos últimos meses, tentou falar em casamento, tudo, até nos cachorros que eles poderiam ter, mas nada fez Lio abrir aqueles olhos bonitos.

Os enfermeiros entraram, e o arrancaram dali sem muito esforço. Já havia sido derrubado, o que quer que viesse a seguir não passaria de uns poucos chutes depois da queda do precipício.

As cinzas chegaram uma semana depois. Numa caixa de madeira negra, bonita demais para a função fúnebre a qual servia.

Gueira foi enterrado. Galo compareceu ao funeral. Quis fazer ao menos isso. Meis estava frio também, ambos sabiam que não havia muito tempo. Era a natureza deles. O fogo nasce e morre pelas cinzas, não há nada a se fazer além de aceitar.

Entretanto, era a parte mais difícil. Ele ainda acordava desorientado buscando aquele calor entre os lençóis.

O mundo parecia ter esfriado também, mas provavelmente era só a chegada do outono.

O crisântemo era a flor do outono. E quando o primeiro botão desabrochou, Galo tentou ficar feliz, como Lio ficaria. Quis se convencer de que não era tão ruim assim.

Mas era. E bastou sentir o perfume trazido pelo vento para voltar a chorar.



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Ieeeeee eu amo finais tristes <3
O crisântemo é uma flor de significados opostos. Por aqui, ela adquiriu um tom um tanto fúnebre, por ser muito usada em enterros, mas já na China e no Japão, por exemplo, é conhecida como uma planta que traz felicidade para quem cultiva. No México, dar um crisântemo vermelho a alguém representa uma declaração máxima de amor.
Não me apeguei a nenhum significado específico, já que não ficou claro aonde a cidade do anime se localiza.


23 Avril 2020 12:02:58 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Bar-t-t-tender Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

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