shinia Bar-t-t-tender

Lio Fotia se considerava um homem feliz. Após toda a loucura do incidente, com a cidade relativamente reconstruída e seus antigos parceiros se ajustando à nova vida, ele poderia até dizer que viu e conquistou mais coisas do que já sonhara. Galo era uma delas. Ele nunca pesou que alguém o amaria como realmente era, mas Thymos o fez, com um carinho que Lio já não conseguia se imaginar sem. Pela primeira vez, ele se sentia realmente feliz. Tudo estava perfeito. Perfeito até demais.


Fanfiction Anime/Manga Déconseillé aux moins de 13 ans.

#galo-thymos #lio-fotia #promare
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único

O dia amanhecia nublado por cima dos prédios sufocantes de Promopolis. Adentrando por cada mínima fresta dos espetaculares arranha-céus.

E as casas pequenas, à sombra de toda essa grandiosidade, não ficavam de fora, para o desagrado de Lio.

Não que lhe fosse penoso acordar cedo. Sempre preferiu o fazer em sua antiga vida, gostava de assistir o sol nascer nos campos rochosos ao redor da cidade. O problema era Galo. A rotina fazia parecer que as manhãs sempre o arrancavam de seus braços, o enganando com a ideia fraca de um dever importante a ser cumprido. Não haviam mais burnish no mundo, mas em uma cidade como aquela, esse era só mais um dos muitos problemas. Ainda era um trabalho arriscado, principalmente para um idiota. Fotia se preocupava muito. Até demais.

Hmm — Galo murmurou. O tipo de gemido rouco que se dá quando acaba de acordar com o sol na cara. As mantas grossas farfalhavam à medida que buscava se ajeitar. Os olhos azuis não demoraram a encontrar o que buscavam. Lio sempre ficava sentado ao lado, com os olhos fixos em algo além dos vidros da janela. — Bom dia.

O rapaz pareceu despertar de seus devaneios. Olhou-o cheio de sono e amor, respondendo no mesmo tom.

Galo fechou os braços em sua cintura, como uma criança agarra a pelúcia favorita. Trouxe Lio para mais perto, sentindo o calor característico. A manhã ainda estava fria graças à chuva da madrugada, e eles até dormiram com cobertores extras por causa disso, mas Thymos só conseguia se esquentar com ele em seus braços.

Começou a passar a ponta dos dedos no pescoço do outro, suave, descendo até os ombros. Sentia Fotia se arrepiar em resposta aos toques. Apertou mais a mão na cintura, o fez deitar, começando a distribuir beijos tímidos pelos ombros.

— Acordou animado hoje. — Comentou, buscando as mãos grandes de Galo no meio daquele mundo de lençóis. Sentia alguma coisa roçando em suas nádegas. Thymos se desvencilhou, ficou por cima de Lio em um movimento rápido, os cabelos azuis caindo como uma cortina.

Os pontinhos arroxeados em sua clavícula estavam bem visíveis agora, cortesia do rapaz que o encarava inocentemente.

— Eu poderia passar o dia todo aqui.

— Então fique. — Respondeu. E era estranho o jeito dele de dizer aquilo. Falava como se suplicasse, temendo o mundo que havia além da porta. Lio não era assim.

— Não posso. Mas vou voltar cedo hoje. Prometo.

Sabendo que não tinha como vencer, Fotia concordou. Demoraram no banho, e tiveram que apressar o café por isso. Aqueles momentos faziam Lio esquecer das preocupações por um tempo, se perdendo em cada detalhe do homem, tentando gravar tudo para lembrar ao longo do dia.

— Ei — na porta, Galo sempre chamava, não importando se Lio estava ou não olhando para ele.

— Oi.

— Te amo.

Fotia sorriu de canto. — Também te amo.

As mãos de Galo seguraram seu rosto, eles estavam na porta de frente e o muro cercando a casa era baixo, os vizinhos podiam ver qualquer coisa que acontecesse ali. Lio ficava nervoso. Não por não gostar de demonstrações públicas de carinho, ele geralmente não dava a mínima, mas tinha medo por outro motivo. As pessoas ainda o olhavam daquele jeito torto, não queria, temia, aquela hostilidade sendo dirigida a Thymos.

— Ei, tá tudo bem. — Disse, como se lesse seus pensamentos. Ele sempre notava, aquele cuidado fazia Lio se desmanchar.

Thymos levantou se queixo com uma mão, descendo a outra até a cintura e aproximando seus corpos. O frio da manhã começava a se dispersar, mas o calor de Fotia lhe era bem-vindo até no inferno.

— Tudo vai dar certo. — Completou, entregando o resto de esperança da manhã. O outro concordou, não se sentindo mais tão melancólico com a temporária despedida.

Não fazia mais de meio ano desde toda a confusão. Lio não conseguia emprego em lugar nenhum e era alvejado por olhares rancorosos só em colocar o rosto para fora de casa. Não temia por si, nunca temeu. Estava acostumado ao ódio desde o nascimento. O problema era Galo. Não queria prejudica-lo de forma alguma.

Tentou deixar esses pensamentos ruins de lado, se concentrando nas tarefas diárias. O quintal de Thymos era uma bagunça, Lio estava tentando transformar aquela confusão em algo pelo menos apresentável e isso estava ocupando boa parte do seu dia.

Galo não ligou na hora do almoço, e ele meio que estranhou, mas também não fez nada. A Burning Rescue estava um caos, ele não quis atrapalhar.

Saiu pouco depois das quinze horas para comprar verduras na feirinha. Os olhares continuavam, chegava a sentir as orelhas ardendo, ouvindo os cochichos de quem não sabia falar pelas costas. Era inútil se esforçar para não ligar, mas também não era como se pudesse fazer algo. O velho da venda o atendeu rápido, e ele entendeu o recado.

O relógio da praça marcava quatro e meia quando terminou. Galo voltava às sete. Ele ainda tinha tempo para fazer algo decente. Um curry, talvez. Havia reparado numa garrafa de vinho no fundo do armário. A noite podia terminar bem animada com aquilo.

Foi caminhando absorto nesses pensamentos, já sem reparar nos olhares ou quaisquer comentários ao redor. Estava satisfeito. Feliz até. Galo havia lhe dado esses sentimentos tão raros. Ele se sentia quase completo agora, uma parte dos seus temores já não lhe incomodava mais.

Estava a pouco mais de quatro quarteirões de casa quando foi arrancado de seus pensamentos. Uma mulher visivelmente alterada esbarrou com força em si. Pelo choque, Lio quase caiu. Olharam-se por dois segundos, ela estava assustada, sem fôlego, pareceu reconhecê-lo e ficou mais assustada por isso. Não demorou mais de meio segundo, saiu correndo novamente sem explicação alguma. Ele olhou ao redor; havia uma fagulha a mais de medo e ódio no olhar daquelas pessoas. Como se o culpassem por algo além dos antigos fardos. Alguns, menos rancorosos, olhavam para cima. Sem alternativas, Lio olhou também.

Uma fumaça negra se estendia pelo céu. Acima dos prédios, ofuscando um pouco do céu de fim de tarde. A origem parecia estar em algum lugar antes de sua própria casa. Ele tentou traçar a rota na memória, parando quando a angústia lhe invadiu o peito.

Era o prédio da Burning Rescue, anda em funcionamento, que ficava a três quadras de casa. Nenhum pensamento especifico lhe veio à mente. Ele apenas correu. Deve ter esbarrado em alguém no caminho — não soube, nada lhe vinha à cabeça — o mundo ao redor era cinza escuro e ele estava cego por uma possibilidade que não queria cogitar.

A rua do prédio estava um caos. Ao redor da calçada, as pessoas se espremiam em um espaço tão ínfimo que Lio já não podia mais apenas empurrar. Foi se esgueirando por cada canto à procura do fim daquele mar de gente.

— Foi obra daqueles terroristas. — Alguém disse, mas Fotia não saberia dizer quem nem se o olhasse. Todos gritavam, alguns se afastavam quando o viam, outros pareciam impedir sua passagem. Com muito custo, chegou até as faixas amarelas colocadas pela polícia. Pensou em falar, perguntar alguma coisa. O prédio ainda queimava, mas àquela altura, havia mais fumaça do que fogo. A ambulância estava lá, mas parecia vazia.

Ignis estava lá fora, gesticulando e falando, como se tentasse acalmar a multidão. Foi quando Remi surgiu em meio ao mar de cinzas. Parecia mancar enquanto carregava algo grande sobre os ombros. Cambaleou pouco depois da entrada, quase indo ao chão. Varis e mais dois enfermeiros vieram ajudar. Colocaram o pacote que ele carregava numa maca, e Varis o ajudou a se manter de pé.

Por uma brecha entre os corpos de branco que tentavam ajustar o corpo naquela coisa pequena, Lio reconheceu os cabelos azuis caídos ao lado do rosto virado para o outro lado, mas não quis acreditar.

Pulou por cima da fita amarela que continha a multidão. Nem os repórteres passavam dali, mas isso pouco lhe importava. Queria gritar, mas não sabia se o fazia de verdade. Prontamente, um policial veio pará-lo, disse algo, provavelmente uma ameaça, mas pouco lhe importou. Ele estaria pronto para apanhar, se pudesse ver Galo depois disso.

O resto dos agentes não demoraram a dispersar a multidão. Em pouco tempo, restaram apenas alguns repórteres. E Lio. O homem que o barrava começava a tentar empurrá-lo para longe quando Aina apareceu um pouco à frente e o viu.

Ela falou algo para o homem, e este se afastou meio contrariado.

Quando ela o olhou, Fotia percebeu que não tinha mais voz.

Ela não disse nada. Provavelmente por não conseguir também. O barulho da ambulância já começava a se distanciar, e os repórteres vinham como moscas perguntando se a antiga Mad Burnish tinha algum envolvimento nisso.

Aina foi abrindo espaço entre o mar de microfones, com um braço apoiado nos ombros baixos de Lio de um jeito protetor. Ignis disse alguma coisa lá atrás, e os repórteres voaram em cima dele, como se os dois nunca tivessem existido. Ela o levou até um dos bancos da praça no outro lado da rua, cobriu seus ombros com a jaqueta pesada dos bombeiros e sentou ao lado. Lio percebeu que ela também tremia. Suspirou. Mesmo ali, o ar ainda parecia quente.

Era o Galo naquela ambulância? O que aconteceu? Como ele está? Aina! — Ele cravou as unhas em seus ombros. Ela fez careta, mas não conseguiria se desvencilhar nem se pudesse.

— Eu devia ter impedido... Me desculpe. — Ela parou. Lio não disse nada. Tinha apenas uma pergunta, pouco lhe importava o resto. — Ele vai ficar bem. Não tem como isso derrubar aquele idiota. — Fungou uma, duas vezes, passou as mãos nos olhos para enxugar as lágrimas gordas. — Começou do nada... Ele insistiu em voltar quando viu o fogo. E não estamos com nem metade do equipamento, então... realmente, me desculpe.

Lio tentou falar, mas percebeu que não conseguiria confortá-la. Quis dar mais um passo, correr até o hospital e exigir que lhe permitissem ver Galo, mas não tinha estruturas. Suas pernas pareiam moles e frias, embora ao mesmo tempo tomadas por uma inquietação ansiosa.

— Ele já foi atendido. Vamos esperar por notícias.

— Mas eu devia estar lá.

— Isso não vai mudar nada.

Lio se virou, a encarou. Queria sentir raiva, dizer que adiantava, mas sabia que não. Sua presença não mudaria nada. Ele fora inútil até para tentar convencê-lo a ficar em casa, afinal.

Acabou por sentar ao lado dela. Não queria, mas fez. A frente da Burning Rescue já estava quase vazia, e só um fio de fumaça voava até o céu. O prédio havia se tornado negro. Era um milagre um desastre tão grande terminar sem nenhuma vítima.

Ou quase.

Lio levou as mãos aos olhos não intenção de limpar as lágrimas mais ousadas, mas elas continuavam bem presas aos seus olhos, por mais que ardessem implorando para sair.

Depois de pouco tempo — ou talvez muito, ele havia se perdido na contagem das horas — Ignis apareceu. Veio dizer que ia ao hospital, e os dois acabaram por insistir em ir também, igual o resto da equipe. O chefe disse que não tinha serventia, mas estava esgotado demais para discutir.

Um homem baixinho de expressão irritadiça emergiu das portas cinzentas da ala cirúrgica. Tinha os olhos em uma prancheta abarrotada de papéis, e mexia nas folhas de uma forma quase compulsória. Parou quando finalmente se deu conta do grupo que o encarava. De toda a Burning Rescue, pareceu reconhecer apenas o chefe.

Girou a maçaneta da porta ao lado e gesticulou para Ignis, o convidando a entrar.

O velho suspirou. — Eu acho melhor vocês irem. Esperem no prédio novo da Burning Rescue, voltarei assim que possível. — E a voz era cansada. Ninguém se opôs. Lio ainda quis ficar, mas Aina o pegou pelo braço e ele apenas a seguiu.

Com exceção de Remi, que se entupiu de analgésicos, ninguém conseguiu dormir. Lucia ainda tentou apagar Lio com dois calmantes diluídos no suco de maracujá que Aina o obrigou a beber, mas não obteve sucesso. Uma hora ou outra, Varis acabou por contar o que aconteceu, apesar de ter sido alertado que falar tudo só pioraria a sensação de culpa de Fotia. Ele sabia, mas também era injusto deixa-lo daquele jeito, alheio a quase tudo.

—Algum grupo remanescente dos antigos Burnish iniciou o incêndio no papa-entulho dos fundos. Pegou o prédio por trás, e equipamentos restantes estavam empacotados na frente por causa da mudança. Já tinham enviado ameaças, mas quem nessa cidade se importa com um bando de jovenzinhos revoltados? Nós temos muito trabalho, não podemos parar a cada telefonema falso... pelo menos, era o que pensávamos.

— Atacaram o Galo? Trataram ele como alvo por minha causa?

— Não... não foi isso. Não entraram no prédio. Foi ele que voltou quando as chamas já estavam altas e aí... — Lucia cutucou suas costas. — Bem, você viu o resto. — Varis desviou o olhar. Passou a mão grande pela cabeça, quase sem jeito. Fotia cruzou os braços e manteve a cabeça baixa enquanto andava em círculos pela sala. Lutava para não chorar. Os outros escondiam alguma coisa, ele sabia, mas não tinha coragem para descobrir. Ele só queria se certificar de que Thymos ficaria bem. O prédio, os rebeldes e até ele mesmo podia se explodir depois disso.

Ignis voltou pouco tempo depois das três da madrugada. Os pares de olhos cansados o acompanharam desde a entrada, cheios de temores que não ousavam explanar. Ele lançou um olhar demorado em cima de cada um, sabendo que não podiam ver sua expressão por trás dos óculos escuros. Não conseguiu olhar para Fotia, aqueles olhos arroxeados estavam miseráveis demais para isso.

— Eu... sinto muito. O médico disse que era uma situação complicada demais, e as chances eram mínimas e... aconteceu.

Cinco segundos de silêncio. O que se seguiu adiante foi uma variação de reações à mesma notícia. Ignis se apoiou na porta, sentindo o mundo ao seu redor se revirar e cair, e não ousava chorar, apesar de as lágrimas estarem prontas para sair. Aina desabou na cadeira, em prantos, e Varis colocou as mãos em seus ombros de uma forma acolhedora, enquanto tinha os olhos inundados. Lucia baixou os óculos, e sumiu na infinidade de portas no corredor.

Lio apertou mais os braços contra o corpo, não acreditando. As lembranças da rotina com Galo ainda estavam lívidas demais para aquilo acontecer. Ele podia sentir o calor dos toques se pensasse bem naquela manhã.

— Lio... — Aina tentou chamar.

— Pare. — Respondeu. Não ousava olha-la. As lágrimas embaçavam sua visão, mas aquela notícia parecia distante demais para conseguir deixar rolar.

Fotia atravessou a sala sem olhar ninguém. Foi até a porta bloqueada por Ignis e pediu, de um jeito sem palavras, mas perfeitamente entendível para que ele o deixasse ir.

— Eu te deixo em casa.

— Não precisa.

— Mas vou.

Fotia suspirou. Apertou mais os braços contra o corpo, por deus, nunca havia sentido tanto frio.

Ignis não tentou falar nada durante o caminho inteiro. Também não ligou o rádio, e optou pelo caminho mais longo, só para não passar em frente ao velho prédio. Talvez fosse uma tentativa idiota de autoconsolação. Ele nunca pareceu propenso a extravasar as mágoas por meios convencionais. Lio também não era tão diferente.

— O enterro vai ser amanhã. Durante a manhã ou no fim da tarde. Foi tudo muito rápido, mas... não podemos adiar por mais tempo. — Ele parou o carro e Lio desceu, sem responder. Ignis ainda escutou um soluço feio, engasgado antes da porta do carro bater. Deixa-lo sozinho lhe causava dor, mas não fez nada quanto a isso.

— Galo. – Lio chamou. A casa estava num breu total, e Thymos odiava o escuro. Fotia pensou que talvez quisesse lhe pregar uma peça. Desejava que fosse. Não ia brigar, jurava, aquilo precisava ser só mais uma maldita brincadeira. — Galo!

Não havia sinal de vida na cozinha, nem no banheiro. Até o cheiro de sabonete na roupa de dormir já tinha se esvaído no ar. Ele escancarou a porta do quarto com medo e um pouquinho de esperança.

Novamente, não havia nada por lá.

Lio fechou os olhos até sentir as pálpebras ardendo pela força, se arrastou até a cama, trazendo os travesseiros de Thymos para perto, agarrando aquilo como se a vida do outro dependesse disso. Não soube quando dormiu, mas acordou com um barulho distante e repetitivo. Alguém parecia chamar seu nome ao longe, ele até tentou ignorar e voltar a dormir. Estava tendo um sonho bom antes de ser interrompido.

Não conseguiu. Abriu os olhos sonolentos esperando os feixes de luz da manhã, mas não havia nada além de pontos amarelo alaranjados que escapavam das frestas da janela. Estas ainda se mantinham fechadas. Mais uma prova de que não havia ninguém além dele ali.

Sentia-se dormente e sem forças. Havia dormido de sapato e tudo. Os braços estavam dormentes por causa da força com que apertou os travesseiros. Eles eram fofos, Galo também era, mas não daquele jeito. Ele era uma pessoa, afinal.

A voz continuava chamando. Começou a bater na porta também.

Fotia precisou de meio minuto apenas para sentar. Foi andando pela casa quase totalmente escura enquanto se agarrava qualquer superfície apenas para se sentir minimamente apoiado. A voz do outro lado da porta lhe era familiar, mas quando tentava buscar um nome ou uma imagem, nada lhe vinha à mente.

Conseguiu destrancar o trinco depois de três tentativas. A claridade do fim de tarde fez seus olhos arderem. Ele os coçou com força, não sabendo se melhorava ou piorava a situação. Quando finalmente conseguiu olhar, viu que a expressão do homem há frente não deixava dúvidas sobre seu estado atual.

Inclusive, era um homem alto, de cabelo esverdeado liso e olhar afundado em olheiras. Vestia um terno preto e tinha curativos em quase todas as poucas partes de pele descoberta pelo tecido. Segurava uma caixinha pequena em uma das mãos. Lio pensou que era um vendedor qualquer, apesar de sentir que o conhecia. Estava para fechar a porta, mas ele começou a falar:

— Lio, eu... — parecia que falar doía. — Desculpe o incômodo, mas... acho que isso é seu. Galo queria lhe entregar. Não sei quando, mas queria. — Estendeu a caixa até o rapaz. Lio a tomou em mãos depois, bem depois. Tudo parecia passar muito devagar ali.

A caixa era quadrada, preta e aveludada. Passou os dedos com cuidado, como se pudesse dissolvê-la com o simples toque.

— Se quiser ligar pra, sei lá, conversar ou... enfim, não precisa fazer cerimônia. A burning rescue está aqui. E... desculpe, de novo. — Dito isso, deu as costas, porque sabia que não teria resposta. Lio ficou um tempo na porta, vendo-o se afastar, mas sem reparar que o fazia. Os raios de fim de tarde se findavam atrás dos prédios, e ele só conseguia pensar que estava quase na hora de Galo voltar.

Por fim, entrou. Sentindo-se vazio de tudo, até de sua tristeza. Se chorava ou não, já nem sabia. Tinha em mãos o motivo de Galo ter voltado para um prédio em chamas, e o motivo de ele não estar em casa agora.

Se resumiu a encara-la por uma semana. E por uma semana, os membros da Burning Rescue, um a um, ligaram, batiam na porta, hora com vozes fingindo um ânimo inexistente, hora quase miseráveis, apenas pedindo para que ele comesse. Tudo em vão. Talvez tivesse morrido também, quem sabe até quisesse, se Gueira e Meis não tivessem arrombado a porta dos fundos e muito gentilmente o arrastado até o hospital. Lio só sabia que estava vivo. Sobrevivendo, pelo menos, com a ajuda de mais gente do que seu orgulho permitia contar.

Numa noite como qualquer outra, decidiu juntar a pouca coragem restante para abrir a maldita caixa. Havia permanecido esse tempo todo em cima da cômoda, bem em frente aos porta-retratos de uma viagem passada. Sentia calafrios só em toca-la, podia reviver aquele maldito dia só em olhar para ela também.

Levantou a tampa. Foi um trabalho um tanto simples. Pareceu indigno de tamanha preparação. Havia veludo por dentro também, igualmente negro. Mas ele entendeu o motivo de tamanha relutância quando viu o pequeno aro de metal dourado no meio.

Era um anel. O minúsculo rubi vermelho tinha um brilho solitário, como se soubesse de tudo e mais um pouco.

— Você é um idiota. — Disse, baixo demais até para ele mesmo ouvir. Que tipo de idiota queria se amarrar pelo resto da vida com um diabo como ele?

Galo queria.

Ele sabia, só não conseguia acreditar. Jogou a caixa longe por tristeza e frustração. Soltou o grito ardido na garganta, se curvando sobre si mesmo e apertando o peito doído com força.

Chorou até pegar no sono.

29 Mars 2020 14:08:12 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

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Bar-t-t-tender Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

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