shinia Bar-t-t-tender

A terra estava a salvo, mas os problemas de Lio ainda não haviam encontrado um fim.


Fanfiction Anime/Manga Interdit aux moins de 18 ans.

#galo-thymos #lio-fotia #promare
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único

Há papéis em cima do tapete da entrada. Lio os vê ao chegar em casa. Quase pisa em cima, mas para a tempo. Estranha. A caixa de correspondência fica lá fora, pouco acima do muro baixo que cerca a casa. O carteiro não adentra a propriedade. Não há motivo para tal.

Os envelopes estão sujos e não têm selos. Lio suspira, se abaixa e os recolhe. Sabe que não foi o velho homem de bicicleta a deixá-los por lá. E por isso ele até tem uma ideia do que sejam, e a impressão de que não devia abrir nenhum, mas se conhece o bastante para saber que o fará.

Isso não tem importância nenhuma, ele repete, em vão, enquanto ruma para a cozinha escura nos fundos da casa. O relógio de parede marca vinte para seis. Ainda tem pouco mais de uma hora até Galo chegar. Tempo suficiente para ler aquelas coisas, ele espera, ou esperava, até olhar o que há atrás das janelas.

A cozinha era pequena e tinha como única entrada de ar as janelas de vidro tampadas com uma pequena cortina de tiras de plástico que se abriam conforme se puxava uma cordinha do lado. Quando as abriu, buscando as cores que tanto admirava, teve quase certeza de que olhava para mais um de seus pesadelos.

As plantas que vinha cuidando com tanto carinho estavam destruídas, arrancadas pela raiz, com vasos quebrados do lado. No muro baixo, havia uma frase pichada em cor vermelha, e apesar da caligrafia horrível, uma mensagem bem clara para ele: saia daqui, seguido de notáveis xingamentos. Lio cravou as unhas na palma da mão, sem perceber. Os olhos começando a arder, e ele culpou a luz amarela do fim da tarde, claro. Não queria, e nem ia se abalar por uma coisa tão idiota assim. Fechou as persianas. Só olhar não arrumava aquela bagunça. Afastou-se aos poucos, sentindo um frio estranho na barriga. Aquilo subia até a garganta e por ali se transformava em um tampão que dificultava a passagem do ar. Parecia coisa de doença. Ele levou as mãos até os olhos, tentando massagear o local para a ardência incômoda passar, subiu a palma até a testa e percebeu que suava os montes. Quis falar alguma coisa para si mesmo, mas estava muito ocupado em apenas tentar continuar respirando. Sentia-se frio. Das mãos até os dedos dos pés. Quase ansioso, talvez.

Exigiu que se acalmasse, pensasse de uma forma racional. Poderia dar um fim as cartas, se suas quase certezas sobre o conteúdo se concretizassem, mas a bagunça no quintal era outra história. Havia esperado meses para ver o primeiro botão de Dália nascer. Era, no mínimo, frustrante. Ele estava triste, não podia negar a si mesmo, e enraivecido também. Uma mistura que deixava a garganta cheia, mas a boca vazia, seca.

Recolheu os envelopes em cima da mesa. Não devia ler. Não devia ligar para o que uns idiotas desocupados falam, mas tinha aquela curiosidade irracional. Daquela, que você sabe que vai te fazer se dar mal, mas segue, faz, como se quisesse ver o quão na merda pode se afundar. Fotia só rezava para não haver nenhuma ofensa a Galo por ali. Ele conseguia passar pelo inferno, com certeza o atravessaria, mas sem enfiar Thymos no meio de sua jornada. Ele não merecia essa dor.

Tateou o primeiro envelope. Aquele parecia mais cheio. Remexeu o conteúdo com o pacote ainda lacrado e se surpreendeu quando sentiu uma pequena fisgada no dedo. Ele olhou; uma pequena gota de sangue começava a sair do corte minúsculo. Do pedaço de papel rasgado, emergia uma lâmina fina, cinzenta, daquelas de costureira. Lio suspirou, não seria uma leitura agradável.

Logo quando chegou, Galo estranhou o silêncio. Lio sempre colocava uma música baixa no final do dia. Geralmente Louis Armstrong ou Billie Holiday, até Tim Maia, nas noites mais agradáveis, como Thymos pensou que aquela fosse. Mas quando chegou, não havia nada. O silêncio dominava, e se não fosse a luz acesa da cozinha, pensaria estar até vazia.

Da porta da frente chamou pelo parceiro, no entanto, ele não respondeu. Lio não era de fazer essas brincadeiras. Odiava causar preocupações, Galo sabia disso. Sabia até demais.

Não acendeu a luz do corredor, nem lembrou de tal detalhe. Apenas foi direto para a cozinha, tentando escutar qualquer ruído mínimo da voz amigável de Tim Maia, mas como já dito, não havia nada. A vitrola velha em cima da mesa, a pia úmida ou os pratos para enxugar; nada. Nem o cheiro do incenso de dama da noite que Lio insistia em queimar por cada canto da casa. Galo realmente começou a se preocupar

Foi até o quarto, apreensivo. Girou a maçaneta com um pouquinho mais de força que o normal, mas nem reparou. Pelo menos a porta não estava trancada, graças aos deuses.

Aquele cômodo também permanecia majoritariamente no escuro, exceto pelos feixes de luz do poste, que adentravam por uma ou outra fresta. A silhueta de Fotia era visível, mas somente ela.

— Lio?

Nenhuma resposta. Talvez estivesse dormindo. O corpo em cima da cama não se movia. Galo se aproximou, sentou na beirada, pronto para dar um beijo de boa noite atrasado. Seus dedos buscaram a franja bagunçada com delicadeza, mas, do nada, dedos trêmulos impediram sua aproximação. Thymos só viu o vulto cinza escuro da mão rápida em direção à sua. O contato brusco produziu um estalo alto e uma ardência que se desfez quase ao mesmo tempo. Estava fria. O corpo de Lio nunca foi frio assim.

— Ei... o que aconteceu? — A mão de Lio escorregou até sua palma, a trouxe para mais perto de si. Thymos pensou ter ouvido um soluço baixinho, ou algo do tipo.

Esticou-se o bastante para alcançar o abajur sobre o criado mudo. Os olhos de Lio se fecharam com a claridade repentina. Galo o olhou, e se assustou com seu estado: o rosto estava inchado e vermelho, as íris eram apenas bolinhas embaçadas pela água. Os cabelos verde-amarelados estavam desgrenhados, algumas mechas pareciam até repuxadas.

— Lio... O que aconteceu?

Ele olhou todo o corpo tenso, dobrado em posição quase fetal. Percebeu que o outro segurava pedaços rasgados de papel na outra mão.

— Ei, o que é isso? Correspondência? — Tentou pegar, mas Lio não cedeu. — Lio?

Não adiantava. Ele nem o olhava. Os joelhos de Fotia estavam dobrados quase até o peito, a coluna curvada sobre si mesmo. Às vezes fitava o lençol amassado, fechava os olhos, mas só.

— Ei, Lio...

— Não posso. Desculpe; eles dizem a verdade. — A voz era um fio. Melancólico. Disperso.

— Mas o que... — havia uma folha amassada perto do travesseiro, Galo a pegou, às suas costas, Fotia pareceu finalmente reagir. Disse alguma coisa, provavelmente o pediu para parar, mas Galo não o fez.

Um pedaço de papel rasgado caiu daquele amassado. O rapaz se curvou, o pegou próximo aos pés. Era o pedaço de um anuncio de promoção de cordas. Fortes, você pode puxar até um trem com essas belezinhas, era o que dizia, ou algo do tipo. Ele ia perguntar o porquê daquilo, mas antes, uma mão apareceu em seu campo de visão e lhe arrancou à força.

Saia! — Lio gritou, ou tentou, de todo jeito, os ouvidos de Galo meio que doeram. Ele começou a empurra-lo com a pouca força que tinha, e Thymos meio que se deixou levar, mais por choque do que qualquer outra coisa. Foi tentando falar alguma coisa, formular alguma frase, mas era sempre interrompido por um “cale a boca” ou “saia” autoritário seguido de um “por favor” suplicante. Fotia só parou quando estavam na entrada do quarto, e trancou a porta na cara do outro assim que o viu no corredor. Galo passou uns dois minutos sem reação, tentando processar o que acabara de acontecer, mas não conseguiu entender. No fim, apenas o deixou só. Foi até a cozinha, a noite estava começando a ficar abafada, uma cortesia do verão absurdamente quente daquela cidade. Ele abriu as janelas acima da pia, e mesmo com a pouca luz que escapava por elas, viu. Não acreditou. Era algo bem... Improvável, de qualquer forma. Correu para fora, como se já não lhe bastasse a visão das janelas. Havia terra e galhos por todo lado. As Camélias estavam pisoteadas, as Dálias, despedaçadas. Até a flor do deserto que Lio vinha tentando salvar teve o caule mole partido em dois. A frase pichada era o pior. Ele não teve coragem para ler o que vinha após a vírgula.

Respirou fundo, passando as mãos pelo rosto, se perguntando porque diabos alguém se daria ao trabalho de fazer tal coisa.

A maldade humana é algo imprevisível, Galo, lembrou do que Remi lhe disse após encontrar os primeiros papéis dirigidos ao namorado. Não era a primeira vez que ofendiam Lio, mas nunca havia acontecido algo tão extremo. Ele sempre conferia a correspondência atrás dessas coisas, sempre, mas dessa vez, chegou tarde demais.

Voltou para dentro, trancou a porta e fechou as janelas. Estava ficando tarde, e com certeza Lio não havia comido nada desde que chegara. Ele fez algumas torradas, um suco de laranja e deixou na mesa da cozinha. Tentaria entrar no quarto depois de tomar um banho. Hora ou outra, Fotia devia abrir aquela porta e conversar, se assim quisesse.

Ele gostaria de desmentir tudo aquilo. Mas sabia que era algo pesado demais para ser esquecido com uma dúzia de “eu te amo”.

Pensou em bater quando passou pela porta, mas não o fez. Foi direto para o banheiro, pedindo que a água fria lhe trouxesse pelo menos um pouco de calma.

Havia sangue no chão, quase uma trilha. Uma poça quase seca na parte do chuveiro e alguns pingos na pia. Por Deus, Galo quase chorou, aquilo doía nele também. O autocontrole podia ir às favas, ele só correu até o quarto e bateu na porta com força, implorando para que Fotia abrisse. A resposta aos seus gritos veio em soluços e gemidos roucos, quase inaudíveis por cima de todo aquele desespero. Galo se afastou, e jogou o peso do corpo em cima da madeira fina. Precisou de três tentativas para aquilo finalmente ceder. Ele nem sentiu a dor, a preocupação cegava seus outros sentidos.

Acendeu as luzes; Fotia estava no canto perto da cama, sentado no chão, encolhido com a cabeça escondida entre os joelhos. Havia pequenas manchas de sangue nas roupas, e duas lâminas entre seus dedos.

Galo as arrancou de suas mãos, cortando a si mesmo no processo, sem dar a mínima para isso. Pegou Lio pelos ombros, com uma força tamanha que fez o corpo pequeno chacoalhar. Fotia o olhou, assustado, quase miserável, e com certeza aquela foi a queda da última defesa de Galo. Ele apenas o abraçou com força, sabendo que não poderia afrouxar aquilo nem se quisesse. Estava tremendo também, e era uma coisa até bem visível. Quando as lágrimas se fizeram presentes, ele apenas deixou rolar.

Deixe que os filhos da puta falem. Eles só são um bando de mal-amados — disse. Saiu sem filtros. Ele não estava em uma situação boa para pensar direito no que falava.

— As pessoas te olham torto agora por minha culpa...

— E eu não dou a mínima. Se você estiver aqui, nada disso importa. Porra, Lio, você é tipo, a pessoa mais incrível do universo.

Fotia apertou os braços por cima dos ombros de Thymos, ou tentou. Estava fraco, e pálido. O bombeiro se afastou um pouco, apenas o suficiente para tentar olhá-lo. Passou os dedos pelo rosto molhado. O olhar disperso de Lio indicava tontura, e um certo grau de confusão até.

— Você tomou alguma coisa?

— O resto dos seus remédios para dormir...

— Lio...

— Eu vomitei tudo. Me desculpe. Você precisava deles, não é? No fim, só consigo ser egoísta...

— Eu preciso de você. O resto pode esperar. — Olhou o estrago nos braços. Os cortes eram longos, mas não tão fundos. Ele estava tão, tão pálido. — Você quer ir ao hospital?

— Não...

Galo suspirou. Entendia, mas não era o adequado a se fazer. Ele ainda tentou pegar Lio pelos braços, mas não conseguiu; o ombro estralou e doeu. Acabaram andando com as próprias pernas, apenas apoiados um no outro. Galo pegou a caixa de primeiros socorros e fez os curativos. Não ligou para a própria dor, e o outro, absorto, também pareceu nem perceber.

Mostrou as torradas e um copo de suco, deixou que o outro comesse, se assim quisesse. Não abriu as janelas. O calor era mais suportável do que aquela visão. Lio chorou mais um pouquinho e Galo se aproximou, beijou o topo de cabeça e disse que tudo ficaria bem. Fotia não creditava tanto nisso, mas preferiu não opinar.

— Quer ir dormir? — Perguntou. Lio estava torto na cadeira, o corpo pendendo para o lado por puro sono.

— Não sem você ao meu lado.

O bombeiro sorriu. — Acha que consegue esperar eu tomar banho?

Ele concordou com a cabeça, meio incerto. Thymos o pegou pela mão e tentou não ser tão desajeitado. Lio não riu de suas piadas, mas depois de um tempo, já não tinha uma expressão tão pesada no rosto. Os olhos ainda estavam vermelhos, e ele ainda soltava uma ou duas lágrimas quando sem querer, acabava olhando a gaze cobrindo seus braços. Paciência, aquilo não ia sumir tão cedo. Um trauma não escorre por um ralo, como a água. Galo precisava se forte, por mais que aquele olhar lhe doesse também.

— Eu te amo. — Disse, quando já estavam deitados e os feixes da luz da rua eram a única fonte de luz no quarto. O braço bom estava por cima do ombro de Lio, o trazendo para mais perto, tão perto quanto o conforto permitia. — Muito. Mais do que poderia expressar.

— Eu também.

— O quê?

— Eu também te amo, Galo.

Ele sorriu meio bobo. — Eu sei. — Beijou a bochecha do outro, sentindo Lio relaxar em seus braços.

Ainda havia muito ódio no mundo além daquelas paredes, e eles ainda precisariam enfrentar a maioria, mas, por enquanto, quase tudo estava bem.

Eles poderiam lidar com aquilo.

29 Mars 2020 13:31:42 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Bar-t-t-tender Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

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Raquel Terezani Raquel Terezani
Olá! Sou da equipe de verificação e venho lhe parabenizar pela verificação da sua história. O início deste conto cativou instantaneamente minha atenção, o suspense quanto ao conteúdo das cartas me deixou ao mesmo tempo curiosa e com medo. Uma frase que me impactou e que vai me deixar pensando por um tempo foi “era algo pesado demais para ser esquecido por uma dúzia de eu te amo”. Quanto a ortografia e a gramática, gostaria de apontar alguns equívocos, que e corrigidos deixarão a história ainda melhor. 1- Há diversas falas dos personagens em que, após o travessão, o início das orações está em letra minúscula, quando o correto seria em letra maiúscula. 2- Logo no início, na frase: “Pouco a cima do muro baixo que cerca a casa, o correto seria “acima”. Acima é antônimo de abaixo e “a cima” significa “para cima”. 3- No trecho “ele apenas o abraço com força”, o correto seria “abraçou”, acredito que tenha sido um erro de digitação. Gostaria de destacar também a delicadeza com que temas tão pesados como preconceitos e automutilação, ou até mesmo tentativa de suicídio, foram tratados nessa história. Há uma mensagem de esperança e um convite a refletirmos sobre como nossas atitudes afetam pessoas. Continue assim! Obrigada e até breve
April 29, 2020, 16:09

  • Bar-t-t-tender Bar-t-t-tender
    Oh, olá. Primeiramente, peço desculpas pela demora em responder, o fiz apenas por querer corrigir o texto antes. Bem, não lembro onde li, mas certa vez dei de cara com um texto onde alguém falava que uma ofensa tinha mais poder do que sete elogios. Não sei se é verdade, mas fiquei pensando, sabe? Muitas vezes, é mais fácil destruir do que construir, e o psicológico é algo bem frágil. Lio já era uma pessoa bem sofrida, por causa de todo o preconceito com os burnish, apesar de não se deixar mostrar esse lado. O filme (promare, recomendo fortemente, caso a senhora ainda não tenha assistido) terminou bem, mas não é com um ou dois diálogos e um dar de mãos no final da batalha que a sociedade vai mudar seus pré-conceitos. Admito (com uma certa vergonha) que essas frases iniciadas com letras minúsculas ocorrem por pura preguiça da minha parte. Muito obrigado pelo toque, creio que eu não mudaria se não tivessem me chamado atenção. Oh, essa questão do “a cima” e “acima” me confundiu um pouco na hora da escrita. Anotei sua explicação aqui no meu caderno. Muito obrigado. Sim, foi um erro de digitação. Fico imensamente feliz por ter passado a mensagem com êxito. De vez em quando, preciso escrever algo assim para tentar me convencer de que ainda há um motivo para seguir, apesar de tudo. E é com uma alegria quente, reconfortante que leio suas palavras. Muito, muito obrigado. Tenha um bom dia. April 30, 2020, 13:42
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