Memórias quebradas Suivre l’histoire

mioshyovan Bar-t-t-tender

Poe quer mudar o passado, não só para salvar um relacionamento gasto ou preservar as amizades desfeitas. Ele quer se apagar da vida de todos que conheceu. E numa madrugada triste, através de um palhaço estranho e cansado, finalmente consegue um meio para alcançar seus objetivos.


Fanfiction Anime/Manga Déconseillé aux moins de 13 ans.

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Dias haviam se passado desde o acontecido quando, finalmente, seus sentidos despertaram para a realidade que viveria então.

Seus sentimentos vinham sempre atrasados em relação aos outros; como se o cérebro precisasse de doses de apatia para enfim conseguir processar o desespero.

Entre um e outro, o “não sentir” sempre fora o pior, mas daquela vez, a tristeza veio muito além dos limites de seus próprios anseios masoquistas.

Ele não sabia o que fazer.

Não sabia o que sentir.

Os comprimidos já não lhe davam uma noite de sono tranquila, mesmo tomando o dobro da dose receitada.

Logo acabariam. E ele não poderia ter mais. Aquela altura, também havia desistido de qualquer ajuda psicológica.

Não ia adiantar. Era um caso perdido.

Nos últimos dias, até Ranpo veio a notar isso.

Oh, sim, Ranpo. Era a ele quem dedicava mais uma carta. Longa e melancólica, ainda que carregada de sentimentos aparentemente bons.

A terceira daquele mês. Tinha o costume de escrevê-las quando queria, mas não conseguia falar seus sentimentos.

Ora, um escritor que perde as palavras quando tenta elogiar a pessoa amada.

Deprimente.

Os cortes ardiam enquanto riscava o papel. Oh sim, chegara naquele odioso estágio onde tudo arde e coça. E não havia nem feito os curativos naquele dia.

Não tinha energias.

Realmente, devia ter morrido.

Um dia antes, no silêncio da madrugada entre terça e quarta. Ranpo não sabia – Poe não contou -. Foi simples e indolor. Não chorou. Não era triste, não era lamentável. Libertador. Para ele e todos à sua volta.

Mas infelizmente acordou. Sangrando, com a moleza no corpo característica dos remédios engolidos e quase sem memórias. Fora inútil até para isso.

Ranpo terminou depois, alheio a tudo. Edgar não o diria nem se o mesmo insistisse, e logicamente ele não o faria. Não mais.

Havia sido um péssimo namorado.

Desde o início, já estava condenado. Um destino pré-definido desde o nascimento: morreria sozinho e em decadência. Um fim miserável por suas próprias mãos.

Ele poderia tentar, e fazer crescer a coleção de cartas não entregues, ou ainda se dedicar até a exaustão ao trabalho que parecia cada vez mais cansativo, mas nada, absolutamente nada traria Ranpo de volta, ou o tornaria uma pessoa menos detestável. Não, o mundo não o odiava; era insignificante demais para receber alguma coisa desse universo. Apenas ele mesmo era egoísta o bastante para dedicar boa parte a sua vida a se examinar e buscar motivos para se castigar mais a cada dia.

Ele ainda acompanhava Edogawa com os olhos quando muito por acaso acabavam se encontrando nas ruas daquela cidade que havia se tornado tão pequena. E Ranpo, ocupado com as possibilidades que o mundo lhe proporcionava, nem se dava conta de sua existência.

Ora, e por que o faria? Realmente, Edgar deveria dar logo um jeito naquele egoísmo descarado.

Devia dar logo um jeito em si mesmo.

Ranpo agora ia a festas e se divertia com os colegas. E Allan sabia que ele sempre fora comunicativo, mas desconhecia todo esse interesse em eventos desse tipo.

Teria o mais novo se privado te tudo isso por causa do escritor? Para Poe, estava claro que não se importava nem um pouco com as andanças ou companhias de Edogawa, mas agora aos poucos se perguntava se deveria ter reforçado isso outras vezes.

De fato, a cada dia tinha mais certeza dos atrasos que causava na vida de quem lhe fosse próximo.

Por sorte, agora não tinha mais ninguém. E dedicava seus dias à solidão daquelas paredes escuras que já começavam a ter o cheiro característico de umidade.

Ele realmente não procurava saber sobre o outro. Entendia que devia deixa-lo só, e apesar dos encontros aleatórios, tentava ficar fora da vista tanto quanto possível. Mas conversas iam e vinham, e não era raro encontrar aquela mesma risada gostosa, acompanhada de tantas outras logo no começo do dia, quando abria a loja onde arrumara um emprego na parte central da cidade.

Ele continuava bonito. Entre tantos outros, o mais inalcançável para Poe.

Ah, como sentia falta daquele sorriso...

Nessas horas, sempre se embrenhava por debaixo daquele velho portão emperrado o mais rápido e discreto possível. Mesmo que nem fizesse tanta diferença assim; para o outro e todos esses colegas, ele agora era invisível. Ranpo simplesmente não o via. Edgar era tão importante quanto as folhas secas e bichadas que caíam as árvores da praça. Havia finalmente conseguido o tratamento que tanto buscara, então por que ainda sofria tanto?

Edogawa só olharia daquele jeito em seus sonhos - isto é, quando os tinha. Ele tinha seguido a vida, enquanto Poe se desprendia cada vez mais de sua existência.

Seria pior se voltassem a se falar, eles não tinham como dar certo, apesar de tudo.

Edgar deveria continuar só. Porque era assim que as coisas aconteciam.

Há quem não seja feito para uma vida a dois. Há quem não seja feito nem para viver.

Não sabe se foi por toda a negatividade que especialmente o acompanhara ao longo das semanas, ou ainda algum fator externo que em nada – ou quase nada – tinha haver com Poe. Mas seja lá qual for o motivo (isso não importa), ele apareceu.

De fato, num mundo onde usuários de habilidade andam livremente por aí, seria até insensato crer que o sobrenatural se resumisse apenas a isso. Tal qual humanos, entidades tem o livre arbítrio de perambular por onde quiserem.

Quem lhe visitou não foi nenhum demônio da perversidade, muito menos um anjo tocado com sua atual situação. Era algo no meio. Talvez levemente mais voltado para os lados da maldade, mas não o mal em si.

Ele surgiu numa madrugada quente, quando Poe insistia em descrever com aqueles garranchos ilegíveis toda a doçura sofrida de seu coração espinhento. As cartas não entregues formavam uma pilha desorganizada ao lado, mas a entidade preferiu não se distrair com esses detalhes.

“Há algo que você queria resolver no passado?” essa foi a pergunta.

E como era de se esperar, ele se virou para a fonte do barulho. Assim, como se já fosse esperado, sem temor ou o mínimo tom de surpresa no olhar.

Talvez a entidade tenha se decepcionado um pouco. Esses espíritos costumam ter o ego grande. Para eles, é uma grande decepção quando alguns reles mortais se acham no direito de não se assombrar diante a sua presença.

Talvez

Foi basicamente toda conversa entre eles. De fato, não precisavam falar muito. Ele foi até lá por já saber o que se passava dentro do escritor. E o próprio Poe já sabia que não o oferecia aquilo por bondade ou pena. Teria um preço. Hora ou outra aquilo viria cobra-lo.

A entidade mostrou a caixa de ébano que trazia na mão encoberta pela capa vermelha – ele sempre estivera com aquilo? Edgar não lembrava -. Da lateral saía um braço de ferro, tal qual o das velhas caixas de música. Sob a luz das velas, o negro do objeto parecia brilhar. Era quase impossível desviar o olhar daquela peça.

“Gire a manivela conforme o tempo que deseja retroceder. Para você, o tempo máximo é de trinta anos” e sua expressão era tal qual a de Poe; cansado, com a voz arrastada e olhos a desviar de tudo.

Jamais vira uma entidade tão depressiva.

“Viagens temporais são arriscadas”

“Mas você as deseja. É bom consertar tudo enquanto é tempo”

As vozes de ambos pareciam não passar de lamúrias. Como se falar sobre isso doesse, ou a simples existência retirasse o restante de suas forças.

“E qual será o preço?”

“Algo que você tem, e eu não”

Era uma troca arriscada. Mas o que Poe poderia ter de tão importante assim que seria do interesse daquilo?

Ele pegou a caixa. O homem pareceu ainda mais triste.

A manivela era dura e estralava enquanto Edgar tentava girar. Não deu muita corda, nem sabia como (se) aquilo funcionava. Não demorou para a música começar a tocar. Era estranha, às vezes feliz, outras agourenta e quase insuportável. Observava as reações do homem pelo canto do olho; hora parecia mergulhado numa tristeza profunda, hora tudo que se via era uma indiferença sem graça.

Pouco a pouco, fragmentos de lembrança começaram a voar aqui e ali, em formas de folhas de papel rasgados. Um pequeno caiu em suas mãos; ali estava a recordação de quase dois anos atrás, logo no início do relacionamento. Poe olhou como se aquilo fosse coisa de outro mundo. Parecia tudo tão, tão distante...

“Dê mais corda, se quiser voltar mais tempo”

E ele o fez.

Até mais ou menos uns sete anos atrás. No dia em que finalmente se conheceram.

Quando Poe perdeu naquele jogo de detetives.

A entidade pareceu ter mais interesse naquela parte. Eles olharam por um tempo, até o homem se pronunciar.

“É aqui que você quer parar?”

Era uma possibilidade. Eles ainda não se conheciam naquele tempo. Poe poderia fazer tudo diferente desde o início.

Mas o próprio Ranpo era apenas uma mancha amorosa e doída em seu psicológico. O amor deles lhe doía, mas não era o maior machucado de Poe.

O problema era consigo mesmo. Ele simplesmente não se suportava. Os braços de Ranpo – ainda que seu abraço lhe desesperasse – traziam um conforto temporário. Cinco minutos de felicidade antes de voltar a chorar de desespero.

Muito além de qualquer relacionamento amoroso ou apenas uma amizade, ele não tinha o direito nem de fazer parte da vida dos outros.

“A única coisa que você não pode fazer é apagar sua existência” completou, como se adivinhasse seus pensamentos. Ora, poderia voltar trinta anos e era essa a sua exata idade. Qual era o problema?

Girou mais a velha manivela. Até aquilo se tornar tão duro ao ponto de realmente temer quebra-la.

As próximas lembranças vieram do início da adolescência. Ah, aquela época infernal do tempo que ainda estava sob o véu dos Allan... seus olhos marejaram, era impossível olhar para aquilo sem o fazer.

“Eu ainda vou lembrar de tudo isso?

“Vai”

Respirou fundo. Girou mais uma vez, só o que achou suficiente para retornar mais uns dois anos.

Era isto. Não tinham (nem queria) voltar atrás.

“Eu fico por aqui”

A entidade pegou a caixa de suas mãos. Retirou uma pequena chave do cordão que trazia no pescoço e girou na fechadura da frente. Da caixa aberta emergiu uma pequena bailarina com um braço quebrado. Ela não dançava, e suas cores estavam desbotadas. Ele ainda retirou algo dali e entregou nas mãos do homem; um pedacinho de papel, tão pequeno quanto um botão.

“Obrigado pela troca. Tente ter uma boa vida, por favor”

Na visão adormecida do homem, a imagem da entidade vacilava e parecia cada vez mais borrada e escurecida. No último instante, notou a máscara que o outro carregava no rosto caída no chão, mostrando um olho atravessado por uma cicatriz. Enquanto isso, o vermelho da outra íris pareceu se destacar, e não sabia o porquê, mas aquele olhar não lhe era estranho.

Um segundo depois, e tudo estava escuro.

No outro dia – ou outra semana, mês, ano... – acordou num lugar que lhe passava a mesma sensação do antigo quarto da mansão dos Allan. Tinha o mesmo cheiro de mofo, e o colchão era duro e calorento.

Por cima daquele lençol pesado de sono, alguém balançava seu corpo e o chamava impaciente. Poe respirou um pouco mais fundo, e foi como se todas as memórias dos acontecimentos anteriores invadissem sua mente. Levantou de supetão, jogando os lençóis para trás enquanto arfava pelo susto.

Estava acordado, mas ainda não via nada.

“Finalmente acordou! Vamos, arrume-se depressa, seu tio quer viajar antes das treze horas.”

Era a voz da empregada, mas só conseguia distinguir sua silhueta naquela escuridão.

Ela suspirou.

Sentiu a mão calejada sendo colocada em seu ombro. “Mora aqui a cinco anos, como ainda consegue ser tão desorientado?”, e saíram pelo corredor.

“Algo que você tem, e eu não

Então havia funcionado. Ele havia voltado.

Ranpo não o conhecia.

Louise não fazia nem ideia de quem ele era.

A Guilda ainda era algo distante dos seus sonhos.

Enfim poderia fazer tudo de novo. Evitando cada pessoa que foi marcada por ele.

Entraram na sala principal. E os gritos de John Allan em direção a Poe se fizeram ser bem ouvidos.

O menino tremeu diante aquela cacofonia escura e desesperadora.

Era o inferno da infância voltando a lhe assombrar.

Se jogou no chão.

E começou a chorar.





_______________________________

Notas finais:

Glossário

Após a morte da mãe, Elisabeth Poe, o pequeno Edgar foi deixado aos cuidados da família Allan. Eles nunca o adotaram formalmente, e Edgar tinha um relacionamento conturbado com John, o patriarca da família.

Até onde sei, pareceram ser anos ruins para Poe. Isso deve tê-lo marcado muito, apesar do Poe real ser “duro na queda”. O contraste entre o Poe verdadeiro (pequeno e de personalidade “forte” – tão forte quanto aquela vida miserável permitia) e o de bungo stray dogs (grande e psicologicamente cansado) é para mim uma grande fonte de inspiração. Espero saber aproveita-la bem.

É isto. Obrigado por ler até aqui.

25 Janvier 2020 20:29:48 0 Rapport Incorporer 0
La fin

A propos de l’auteur

Bar-t-t-tender keep love alive// uma mistura estranha de passado e presente.

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