O Eterno Suivre l’histoire

zephirat Andre Tornado

Um jogo que se desenrola para sempre. Uma promessa, uma visita, um desejo, uma noite de lua cheia.


Histoire courte Interdit aux moins de 18 ans. © História original, de minha autoria.

#amor #conto #eterno #lua #sobrenatural
Histoire courte
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Capítulo Único


A lua cheia derramava a sua luz fria sobre o jardim. O mundo iluminava-se em marfim e prata, acentuando as sombras escuras e sobressaindo o contorno da pedra. Havia silêncio, noite e inverno.


Ele chegou com passos calados que a relva húmida abafou.


Sentou-se sobre os calcanhares. Montou o tabuleiro de xadrez incompleto. Algumas peças já tinham sido devoradas. Não iria começar uma nova partida, seria a continuação do jogo que se iniciara há tanto tempo – numa época tão remota que se escondia atrás dos muros da sua memória.


Ele vivia somente para as noites de lua cheia. Nas outras noites, nos outros dias, ele arrastava-se, colecionava horas vazias e repetia gestos mecanizados. Só nas noites de lua cheia ele despertava do seu torpor e efetivamente vivia. Recuperava do seu sonambulismo, armava-se com a chama da paixão, vestia-se a preceito escolhendo a roupa apropriada e ia para o jardim. No silêncio, na clandestinidade, no segredo.


Aguardou que a serenidade regressasse. Ficava sempre ansioso quando procedia ao ritual que, no fundo, era apenas a continuação de uma imensa peça de teatro particular.


Olhou para o tabuleiro de xadrez. Peças pretas e peças brancas. As suas eram as pretas, obviamente.


Movimentou o último cavalo. A rainha preta aguardava, com toda a paciência delicada de uma guerreira implacável, observando o terreno do jogo onde tinha a vantagem. Por enquanto. Tudo se encaminhava para a sua derrota e queda. E ele, que conhecia esse desfecho, que provocava esse final, não se importava. Ele queria perder. Ele queria cair. Mas a rainha preta tinha uma vontade própria e recusava-se a ceder, com uma obstinação admirável. Era também uma maneira de prolongar aquilo. Se terminasse depressa demais, haveria remorsos e ele não queria enganos.


Depois de feita a jogada, aguardou. Os punhos fechados sobre as coxas, o pescoço curvado, os olhos postos nas peças do tabuleiro. Não sentia frio, nem calor, nem medo ou tranquilidade. Estava apenas ali, à espera. A escutar a quietude da noite.


Uma mão delicada esticou-se sobre o tabuleiro e movimentou a torre contrária. Viu a manga do lindo vestido branco que ela usava, que combinava com a cor das suas peças alvas. Branco com branco e com pureza.


Sorriu, ainda cabisbaixo, não ousando encará-la com receio de que a bela noiva se esfumasse. Assim como Orfeu que perdeu Eurídice nos caminhos ínvios do inferno porque não aguentou e olhou para trás, para se certificar de que a sua amada ainda o seguia.


Entreabriu os lábios e soprou o nome dela. Escutou um risinho.


Ela ria-se, que pequeno milagre!


Então, inflou-se de coragem e desafio. Olhou-a e viu-a diante dele, sentada na mesma posição, do outro lado do tabuleiro de xadrez. Bela, diáfana, jovem, perfeita, digna, virginal. O vestido branco adejava em suaves ondulações, com os seus folhos e as suas pregas a flutuar em redor do corpete justo decorado com pérolas. A esplêndida noiva cobria a boca com os dedos esguios, abafando o riso fresco.


Sem dizer nada, estendeu-lhe a mão direita e entregou-lhe o prego. Ele recebeu o objeto. Era maior que os outros, enferrujado e pesado. Abriu a sacola que usava a tiracolo e juntou-o aos outros pregos.


Ela levantou-se. Deu meia volta e afastou-se.


A jogada estava completa com os movimentos dos dois jogadores. Ele reparou que a rainha branca estava numa posição que encurralava o rei preto. O seu rei. E a sua rainha preta, determinada e feroz nada podia fazer, mesmo com a possibilidade de um ataque à torre que se entregava ao sacrifício. O castelo iria ser derrubado, mas sobre esses escombros iria acontecer a vitória almejada.


O tempo ter-se-ia esgotado?


No silêncio sepulcral, ele experimentou um arrepio.


Sob a árvore grande e sombria, a velha lápide cravava-se no tapete relvado recoberto de orvalho, um manto de pequenos diamantes que cintilavam sob a bênção da lua plena. Da noiva, nem sinal. Já teria regressado ao seu sono na tumba gelada.


E ele recolheu, outra vez, o tabuleiro de xadrez, após mais uma jogada e após mais um prego.


Durante as noites de lua cheia ele jogava xadrez com a sua noiva perdida, ceifada na flor da idade, nas vésperas do seu casamento. Assassinada, jurara ele, mas nunca se encontrou o assassino. Doença ruim, contava a versão oficial e o inquérito da polícia foi arquivado. Ela foi enterrada com o vestido branco que haveria de usar no dia feliz do seu matrimónio. Ele recusou-se a vê-la no caixão e não foi ao funeral.


Chorou durante um ano inteiro na sepultura dela, no jardim dos supremos silêncios. E após esse infindável rio de lágrimas salgadas, ele jurou, esgravatando os torrões de terra gelada, soluçando e impando, que haveria de a resgatar da solidão do Além.


Fez um pacto com uma criatura sobrenatural que o visitou, no primeiro aniversário da morte da noiva. Recebeu um tabuleiro de xadrez, com as instruções de que deveria jogar até acontecer o xeque-mate ao seu rei. Por cada jogada, por cada posição conquistada e perdida, um prego ser-lhe-ia entregue e que ele deveria colecionar, sem nunca contar a ninguém para que serviam e onde os tinha obtido.


Quando fosse o último prego, ele sabê-lo-ia.


Arrumou o tabuleiro de xadrez, sopesou a sacola com os pregos que ganhara. Fixou a lápide gasta uma última vez naquela noite e deixou o jardim. Tinha as pernas pesadas e o coração cansado. Quantos anos se teriam passado? Não se lembrava.


Os pregos estavam a terminar. Já os tinha em número suficiente para encerrar aquela demanda e construir, por fim, a barca mágica que o faria atravessar o Estige, orientado pelo cioso barqueiro a quem ele entregaria todo o seu ouro para pagar a travessia.


Sorriu, portanto.

25 Janvier 2020 12:43:48 0 Rapport Incorporer 3
La fin

A propos de l’auteur

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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