Bandido bom é bandido morto, disse o presidente. Suivre l’histoire

themadudu Madu Duarte

Porque papai noel não sobe morro, nem dá presente a pobre, preto, no caixão. * Esse conto não romantiza a realidade negra, muito menos busca tomar voz do movimento. É um conto sobre a desigualdade que observo ao andar pela orla da capital do Ceará e ao ver as notícias, espero que entendam e, acima de tudo, espero que humanizem. * Caso você se sinta ofendido pelo conteúdo aqui contido, vamos conversar! Estou disposta até mesmo a retirar, se assim desejar.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

#conto #natal
Histoire courte
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A rua (não) vai te proteger.

Não havia neve, apesar de haver frio. A cidade fazia aquele frio de querer fechar os olhos e aproveitar a rede, mesmo com 28 graus. É claro, naquela avenida, tudo cheirava a fumaça, peixe e esgoto. No sinal, vendiam bala; na praia, camarão. Tinham fome. O menino do morro e o menino do colégio caro — ambos divididos por uma mesma avenida —, só que um era de comida e outro de opressão. Sem nem mesmo saber, os dois se cruzaram, o menino do colégio caro em seu carro particular. Cruzava a expresso com pressa e medo de ser assaltado.

O do morro? Bem... estava na abordagem da polícia. Suspeito de usar droga, maconha.

Ninguém diz pro juiz que os menor não sabe estudar porque, antes de aprender a ler, os tios da esquina os ensinam a fumar.

Ninguém diz pros 'poliça que os menor, tudo que quer, é mudar.

Mas todos sabiam como aquele Natal ia acabar. Pois sim, era quase Natal. Alguns estudavam, cientes que estavam atrasados desde que nasceram, que as coisas iriam para trás antes deles poderem pensar na frente. Tem quem comemore, tem quem aproveite as férias. O menino rico ia à praia, a mesma que o menino pobre não pode pisar — mesmo as costas do morro dando lá —, porque se pisar... das ruas pequenas, chega o corre, arrastão. Se levarem o dinheiro da passagem, não sobra pro pão. Além disso, a segurança só serve pra quem tem pele cor de nuvem.

Para quem tem cor de carvão? Os gritos. Calma seu polícia, não sou ladrão não!

Cleiton gostava de ir à praia, e desculpa te adiantar sobre ele, mas é que humanizá-lo é necessário. Logo mais você entende. Por enquanto, apenas guarde isso na memória fria de dezembro: a praia é do futuro, mas pobre não tem nem passado, quanto mais presente de papai noel, ou futuro de rico.

A orla de Fortaleza sempre foi cercada de barracas, uma mais cara que a outra. O menino rico veio de uma em específico, aquela que diz ser do sol, mas enfrenta um dia chuvoso — e, por isso, o movimento anda fraco. Também, por isso, que Cleiton volta mais cedo dos corre da vida. Vida boa ou vida ruim, ainda é vida. Ele queria levar seu irmão mais novo para tomar banho de piscina, mas a pulseirinha tá cara e o preço da condução de todo mundo no busão, vai e volta, incluindo dos pais, que não tem carteirinha de estudante, é tão caro quanto.

Porém, não é sobre Cleiton que falaremos. Não agora. Tampouco do menino rico, não, nunca. Dentre tantos nomes, escolheremos aqueles que ninguém lembra — e que você, ao final desse conto, também não lembrará: é destino das minorias serem estatísticas —, que ninguém escuta, que ninguém fala. Porque nordestino já é esquecido por natureza, não de cabeça, mas de bolso.

Político só lembra da gente de 4 em 4 anos. E, como ainda não se passou mais 4, deixemos o óleo nas praias, o esgoto na orla, e voltemos ao frio, porque ele é um atributo essencial e preenchia as casas com conforto e delicadeza. Não me entenda mal, é só que quem vive no inferno, não nota a queimadura que o gelo faz. Apesar de que ele faz.

Não era o suficiente — ainda — para queimar, mas sim para deixar as crianças correrem no meio da chuva e sorrirem. Dona Maria, mãe de 4, sorria também ao ver o caçula voltar a brincar após ralar os joelhos na descida do chão de areia e pedregulho, tudo junto.

Seu primeiro filho tinha se metido nas drogas — sumiu no meio do mundo há um ano, a última notícia veio do xilindró —, o segundo estava indo para o cursinho preparatório, estudava dia sim e dia sim também, e o terceiro? Bem... ele era alguém. Vendia bala no sinal para pagar a merenda do primeiro.

Só que, para a polícia, é meliante igual a qualquer um. Suspiro, profundo e cansado, a pele enrugada e as mãos calejadas de tanto segurar vassoura, o filho grita: olha mãe, olha o que eu sei fazer. E ela olha, né? Fazer o quê? Limpa a lágrima, antes que a chuva leve dela também. Já perdeu tanto, todo inverno é assim: Arthur, o mais novo dos filhos, o quarto, cai, levanta, e volta a brincar, gritando peguei quando alcança o amigo. João, o marido de Maria, quase como na canção de Chico, volta naquela mesma chuva, todo encharcado. Porque ônibus não sobe morro, nem as renas do papai noel.

E em dezembro sempre chove, por dentro, ou por fora.

E o telhado faz aquele barulho de quem tem muito para contar, mas nada fala.

Apenas pinga.

E a lama invade as casas, e ela eleva o pouco que tem para não perder mais nada — rezando pra geladeira não queimar como ocorreu com a vizinha. Vida difícil, nem sempre a mãe dela, dona Selma que chamava, conseguia descer o morro — a idade avançada a impedia de muitas coisas —, por isso, Dona Maria tinha que faltar os extras e rezar pra não ser demitida. Não era. De casa, enxergava o colégio em que trabalhava como faxineira, ou melhor, um outdoor gigantesco dele.

Nem nos seus melhores sonhos seus filhos estudavam nele — mas, talvez, Caio, o segundo mais velho, alcançasse a mesma universidade que os alunos de lá, e ai, eles dividissem a sala. Ela reza para Nossa Senhora Aparecida todo dia, na esperança do filho passar na Estadual. É que na Federal o almoço é mais caro. 30 centavos a mais. Quase o preço de uma greve em 2013, até mais, só que todos esqueceram. Talvez não fosse pelos 20 centavos mesmo, talvez não fosse por ela.

30 centavos só tem valor de 30 centavos para quem precisava deles para se alimentar. O SISU tava batendo na porta, mas a esmola da cota fazia seu filho querer se matar. Ah, a depressão do jovem preto, pobre, da comunidade. O natal não era o mesmo desde que Cleiton, o rapaz do começo e o filho mais velho, fora para cadeia.

Antes cadeia que morte, né, Dona Maria? A rezadeira da esquina a diz, o pastor da igrejinha a diz, todo mundo diz. Mas ela preferia que fosse colo de mãe, se ele tivesse ao menos a escutado... Aliás, Caio é um menino tão bonzinho, e Pedro também. Arthur tá indo pro mesmo caminho do bem, completam sempre, todos eles, como se quisessem tirar dos seus ombros a culpa. Mas a culpa vem. Ela é como o frio: não pede pra entrar, só bate e volta em forma de brisa marítima. A noite, é mais forte, é que de dia faz calor e tem trabalho. Falando em trabalho, Dona Maria é faxineira.

Trabalha na semana no colégio, no final de semana nas casas dos patrões. Tira bem, dizem as pessoas do colégio. Mas são 5 bocas. E seu João é um encostado. Se ao menos não tivesse tido tanto filho.

É fácil reclamar da fome quando nunca se passou por ela.

Além disso, tem a mãe. Dona Selma tem tudo: problema nos ossos, nas pernas, nos pulmões, nos rins. Menos dinheiro, sempre diz, sorrindo com os dentes amarelos de fumar. Dona Maria reclama, mas como impedir? Seu marido se foi, o cigarro a fazia companhia. E a filha até tenta chamá-la pra morar com ela, agora que tem um quartim vago no final da casa, mas a mulher é teimosa feito uma mula! Prefere viver sozinha, sozinha não, com seus gatinhos. Alimenta 17, fora os da rua. Tudo que come divide.

Dona Maria reclama, é claro. Mas olha os bixins. Abandonado igual a eles, pelos donos, sejam estes pessoas, sejam estas instituições governamentais. Suspira fundo. Pesado. Novamente. Deixa a mãe de lado um pouco, mas nunca deixa de ser mãe. É que Arthur agora chora pelo joelho ralado e ela dá um beijinho pra sarar. A chuva continua.

O barulho continua.

O cheiro de terra molhada também. Dona Maria nunca soube o nome esquisito que Caio dava pra isso — porque Caio sempre fora muito esperto —, mas uma coisa ela sabia: era gostoso de se ver.

Petrichor, dona Maria. É o cheiro que a terra tem quando bate chuva. Um sorriso se abre em seus lábios ao lembrar, Petrichor, ela suspira. Não sabe o que Petra e Ichor significa, não sabe nem escrever isso direito, mas uma coisa Maria sabe: gosta disso.

— Petrichor — sorri.

É dia 22 de dezembro de 2019. Um domingo.

Ano passado ela morreu, esse ano, se Deus quiser, não vai ser eu.

*

O frio e a chuva trouxeram a fome. A mulher gritou para Arthur entrar. Dona Maria escolheu o nome porque sua chefa tinha um neto com esse nome, e se não dividem o prato de comida, que dividam algo além daquela chuva. O menino entrou, é claro, senão a chinela ia truar, porque o medo é a melhor forma de educar, afinal, é temer pra não morrer. A mãe, a polícia, os meliantes, tudo pra seguir em frente e não se meter com a malícia.

Como o irmão.

No almoço, o programa policial passava. Desliga isso aí, menino, a mãe reclama. Mas Caio, que permanecia sempre com os livros, dizia que precisava ver. Tava rolando rebelião no presídio, a mãe não queria saber. Muda de canal logo, poxa, Maria.

Poxa.

A banalização da morte é algo estranho, porque não era o corpo escancarado do rapaz que foi atravessado por um ônibus enquanto andava de moto que a incomodou, não. Muito menos o apresentador que gritava sobre a marginalidade, sobre a inutilidade, e outros dades daquela imensa cidade. Era a mágoa. Mágoa de saber que fracassou em algo.

Não é sua culpa, Maria.

Não é sua culpa.

— Por que estamos vendo isso? — Arthur perguntou, curioso.

— Porque seu irmão quer ver, ué. E não é pra tu ficar vendo essas coisas não, muleque. Muda logo de canal, Caio — seu João brigou, sentindo o desconforto da paternidade bater nas costas. — Tá esperando o quê, desliga isso ai!

— Calma, velho. Só queria ver...

— Ele não vai sair, Caio — Pedro comentou, entendendo tudo. Sempre foi esperto. — Ele não vai.

— Ele quem?! — intrometeu-se Arthur.

— Ninguém! — encerrou a mãe. — Agora eu quero todo mundo quieto, agradecendo pela comida. Senhor, Pai Nosso que está no Céu — iniciou a prece, que tomou conta da casa.

Por baixo do pano rendado da mesa, Pedro segurava a mão de Caio, que segurava o choro de Arthur, que guardava em si a inocência e santidade de todos da mesa. Ninguém sabia que Arthur sabia.

E muito menos sabiam ao certo quanto Arthur sabia.

— Mãe, por que Cleiton não almoça mais com a gente? — perguntou o mais novo, assim que a reza acabou. O clima pesado tomou conta do ar. Dia 22 de dezembro, domingo. Amanhã dona Maria trabalhava, dona Selma voltava a descer o morro, e Caio voltava a rotina de estudo.

E, mais uma vez, Arthur ficaria sem saber porque o irmão mais velho não almoçava mais com eles.

Mas ele era sortudo.

Porque, apesar de muito moço, era são, salvo e forte.

*

O dia 23 começou igualzinho o dia 22. Chuva forte, cansaço e o clima pesado de Arthur perguntando o que ele ganharia do Papai Noel. Dona Maria nunca soube explicar ao menino de olhinhos brilhantes que, para ele, que era pobre, Papai Noel não vinha. Por isso, deixava que ele se iludisse.

A decepção com o passar dos anos ficava menor. Dona Selma chegou, cansada, Maria agradeceu a mãe, que disse não ser nada e deu um beijo na filha. Foi junto com Caio e João pegar o ônibus, Pedro não pegava, mas desceu mesmo assim. Deu um beijo na avó, no irmão, no pai. Na mãe deu um abraço. No outro irmão? Se olharam. Boa sorte, mano. Pra você também. E passou cinco reais escondido para o bolso dele, é pro lanche. Caio se sentiu mal, mas aceitou o dinheiro. Precisava se alimentar.

É que ele, por mais que o ENEM já tivesse passado, permanecia estudando no preparatório, lá perto do calçadão. Pegava dois, três ônibus. Nos dias que não tinha, ia pra universidade, estudar na biblioteca de lá com os livros que o CA das humanidades deixavam. Era bom. A rotina, a comida, tinha marmita da mãe — às vezes, passava o dia com ela no estômago — e, por mais que sentisse falta da mistura, nunca reclamava. Tinham pouco. Nunca tiveram muito, por isso, qualquer migalha era refeição.

Caio tinha sonhos, todos tinham, ele queria ser professor, sabia que não ganharia bem, mas também sabia que médico não seria. Não tinha nota. Chorava a noite. Só queria ter diploma, tirar sua família antes que a terra os tirasse a força — sempre rolava intervenção por risco de desabamento.

Fugia dos corres, mas vivia na correria.

Saia ás 5 e voltava às 10. Da manhã e da noite. Cansado, dormia. A mãe orava, sabia. Mas tinha deixado de acreditar em Deus quando pediu de presente uma ceia e tudo que recebeu foi a notícia que dona Maria trabalharia na noite de natal pra pagar a conta de luz. Só queria ter dignidade. Começava com di, igual diploma, mas isso, sua cor o impedia.

Não tinha cota pra se ter aquela palavra estranha que o professor de filosofia tanto falava.

Além disso, fazia tempo que se sentia diferente. A confusão para estudar, a dificuldade de prestar atenção nas história da avó — até naquelas que mais gostava, como a do santo que nunca teve cabeça e a do cavalo que morreu com a noiva —, a família materna veio do interior, então, conhecia várias. Foi dessas histórias que conheceu a palavra Petrichor. Foi com ela também que entrou no concurso de escrita, e que prestou a prova de narração da UECE. Petrichor. A palavra que a bisavó havia o dito e ele fingira descobrir sozinho. Pensou no pequeno Arthur e na conversa que tiveram antes, queria ir visitar Cleiton, contar que o menino havia perguntado sobre ele, sentir a vibração do irmão. Sorriu, um sorriso triste e nostálgico.

Do tempo que eram seis, não cinco. Do tempo que o quartinho não 'tava desocupado, e que ele podia comer no sofá porque a mesa não tinha canto quando dona Selma tava lá.

Ou da fila que faziam pra pedir bença.

Limpou as lágrimas que tinham surgido. Isso, limpa mesmo, Caio.

É que você já sangrou demais.

Já chorou pra cachorro.

Agora, é hora de voltar a estudar.

*

E Pedro continuava vendendo, inclusive, no dia 23. Vai uma bala aí, tio? Ele pergunta. Quando o rapaz do carro chique diz pra ele ficar com o troco, compra uma de si próprio para Arthur, que vai amar o presente. Não é todo dia que se tem jujuba de sobremesa — na verdade, eles nunca tinham sobremesa.

Sobremesa de pobre é não morrer de fome.

Pedro sonhava. Sonhava com a volta do irmão, Cleiton. Ouvia as pessoas falando mal dele na rua e sabia que não era ruim — começava a entender o que era disparidade social antes de saber da existência daquela palavra. Perguntaria porque se sentia assim para Caio, que diria sobre luta de classe, e passaria a noite falando sobre Marx e outros filósofos que Pedro nunca entendeu. Só gostava de ouvir o irmão falando mesmo. Era dia 23, a mãe trabalhava, o irmão estudava, e ele fazia aquilo: vendendo jujuba no sinal, junto com outras balinhas, sofrendo no sol quente, deixando os sonhos sofrerem também. Esquentarem. Então, começou a chover, sabia que tinha menos chance de vender, mas continuou ali, não queria chorar.

Sonhava que Caio passasse na universidade — porque ai, ele teria almoço a menos de um real! E Caio sempre prometera que traria o doce da universidade de volta para Pedro, que queria o sorriso antigo do irmão mais velho tanto quanto o doce —, sonhava em sair das ruas e ir ver o mar. Morava perto da praia, mas a polícia sempre o parava quando chegava perto e era sempre interceptado na porta das barracas da orla da cidade do sol. Não queria chorar, porra, não queria chorar, caralho! Mas tava chorando. Porque os sonhos eram tantos e sua fome de justiça começava a crescer. Sentou no batente agora frio, com cheiro de chuva, sorrindo ao lembrar do irmão e seu costume de ser um dicionário ambulante, ele certamente saberia o nome daquele cheiro.

Cadê tua mãe, muleque? A polícia perguntava vez por outra. E se ele respondesse que tava trabalhando, e apontasse para o outdoor do colégio caro, eles iriam rir. Ninguém deixa o filho trabalhar na chuva enquanto pode trabalhar, e não é que dona Maria deixasse — fazia tudo escondido no começo, depois, não tinha como impedir. O desejo de ser o Papai Noel do irmão era maior que a bronca da mãe.

Por isso, dizia simplesmente que estava olhando o irmão menor. Então, era revistado. Algumas vezes, levavam as jujubas. Pagando ou não, preferia quando pagavam. Aí a mercadoria do dia acabava em uma hora e podia ir jogar bola em paz. Em casa, contava para a mãe do gol que fez e da pitchula de São Geraldo que tomou como recompensa. Dona Maria sempre ria, orgulhosa do filho.

Porra, que dona Maria não o escutasse falando esse palavrão, mas de todos seus sonhos, o maior era de dar orgulho a mãe.

Tá lá em cima, senhor, apontava pro morro, aprendeu desde cedo que gente mais velha era senhor, principalmente, os que tinham armas. Porque armas matam — os seus, mais que os dos outros.

Como outros dias, eles chegaram. Perguntaram o padrão, ele respondeu e foi revistado. Lembrou do dia que o irmão desceu para vender algo e não subiu mais, teve medo. Sempre tinha esse medo. Mas Caio o certificou que a bala que o irmão vendia e a que Pedro comercializava era diferente, por isso, se acalmou.

— E tu tá fazendo o quê aqui embaixo?

— Vendendo o almoço pra pagar a janta, vai uma jujuba aí?

O policial olhou em seus olhos, como quem perguntava se tava mentindo. Não tava. Realmente, só queria vender.

— Bora, muleque. Eu compro! Mas não vai gastar com droga, viu?

— Não, senhor. Vou gastar com estudo.

E sorriu.

Dava pra jogar bola antes do sol se pôr.

É que Deus é brasileiro.

E Pedro sabia que tava do seu lado.

*

E com passos apressados, Cleiton foi da cela ao banho de sol, mas tava chovendo, então, voltou. A prisão era escura, fria, tirava de você tudo de bom que tinha. Que saudades da rezadeira de sua esquina, sempre de boa vontade, dando os melhores conselhos. Agora, nem era mais gente ou cidadão. Bandido não tem função nesse país, muito menos ressocialização. E, como João de Santo Cristo, pro inferno Cleiton foi pela primeira vez. Traficou, e isso foi errado. Mas porra, dona Maria merecia. Esquecem que dentro da cadeia existem vidas e fora família. O policial grita para que entre logo, não enche, diz.

Na cela, pensa que é terça feira, mas seu irmão não tem aula na escolinha lá perto. Na verdade, o pequeno Arthur tinha sete. Acabara de entrar na escolinha perto da comunidade, mas as aulas 'tavam atrasadas porque era zona de risco e não tinha professor, então, nem sempre as tinha. Antes, era ele que ficava com o pequeno, agora, provavelmente era Selma. Selma era rígida, mas passava a mão demais. Tinha piorado ou melhorado? Não sabia. Queria que tivesse feito os dois, Arthur não merecia pagar pelos seus erros, porém, como viver pensando que o irmão poderia errar como ele?

Não vai ter saidinha esse final de ano, anunciaram há uns dias, o que é bom. Com que cara encararia a mãe? Ela, que tanto trabalhou. Ele não queria estragar nada, não queria ser assim. Só nasceu dessa cor e, como determinismo biológico, viu nos corres um jeito dos irmãos pararem de correr. Tava cansado de ver Caio comendo só arroz e feijão, sem mistura. Então, arrumou uns doces e foi vender. Ia pras festas, dançava, foi quando ia subindo o morro que houve a batida. A polícia era dura, sua pena também. Sua mãe deve ter chorado, não foi o visitar. Caio sim, disse que Arthur morria de saudade do Cleitin e que Pedro virou trabalhador. Menino honesto.

— Você também pode ser, Cleiton. Dá exemplo pro seus irmãos.

— Que exemplo o quê, Caio? Desde quando preto como a gente vira outdoor?

— Pois é, mas alguém tem que dar.

Invejava a cabeça dura de Caio, apesar de também ter. Só que um deu certo, outro não. Você deve se lembrar da praia, ele sentia falta da praia, sentia falta da areia, do corredor estreito, lembrava-se do dia que quase foi roubado, mas até um ladrãozinho sabe reconhecer quem não tem nada, além da vida. Se a roubassem naquele momento, teria sido menos doloroso, teria feito menos erros. Mas o deixaram com ela e, por isso, estava preso.

Foi depois de voltar a pé para casa que se revoltou, pediu aos amigos errados coisas erradas e fez coisas piores ainda. Dona Selma o olhou decepcionado, foi ela que descobriu primeiro, por que não contou a mãe? Não sabia. Talvez se culpasse por isso. Talvez, todos se culpassem. A verdade é que todos sabiam que algo de errado estava ocorrendo, mas Cleiton mentia. E mentia bem. Saia a noite e passava a vadiar, enquanto dizia que ia trampar de garçom. Nunca gostou de estudar, faltava aula de dia para dormir um pouco mais, ou pulava muro pra ir jogar futebol, nunca arrastou Caio com ele, mas também nunca foi dedurado. Falando em estudar...

Será que o irmão passou no vestibular? Estudava tanto. Não lembrava de uma nota baixa dele, Cleiton comprou um caderno chique pro mano uma vez, do pequeno príncipe. Foi com dinheiro suado, esse foi. Passou a noite de garçom, porque Caio não merecia nada que viesse do errado.

Nenhum deles merecia. Deus, como acabou nesse inferno?

— Que seja você, porque eu tô preso.

— Você logo vai sair daí, mano. Só tempo. E ai, vamos voltar a ser seis.

—Você sabe—o irmão sempre dizia—, dona Selma implica mais com a gente agora que você não tá lá pra ela puxar tua'sorelha.

Não conhecia a história do pequeno príncipe, nunca aprendeu a interpretar os contos difíceis que tia Lúcia — a professora que dava aula lá perto — ensinava, mas a mulher o falou uma vez que era responsável pelo que.... Pelo que mesmo? Cativava, algo assim. Sabe Deus que era isso. Resumindo: era responsável por seus irmãos. Se arrependeu. Naquela cela amarrotada, arrudiou a vida e viu o seu inferno pessoal, desceu os sete chão e voltou.

Que saudades da sua véia. Que saudades da tia Lúcia e dona Selma, sempre puxando sua orelha, dizia que era astuto demais. Não sabia o que era astuto, por isso, pegou apenas o demais. O ego o levou ao céu — e o céu o renegou.

Foi quando notou que não sabia o que tava pegando. Todo mundo correndo, tiros truando, Cleiton quis andar, mas não conseguia, a polícia estava lá. Eles são bons, lembrou da mãe dizendo. Eles são bons, repetiu pra si mesmo. Uma facção brigava com a outra, porra, ele nem era de nenhuma! Seu lugar sim — sua casa também, mas ele não. Não matava mulher, criança, e não fazia trabalho errado não.

Tinha uma alma limpa em meio ao dinheiro sujo.

Mas bandido bom é bandido morto, disse o presidente.

E, infelizmente, para certas pessoas, ele estava certo.

(...)

Naquela noite de 24 de dezembro, dona Maria não trabalhou. Não. Não teve ceia, não teve festa na escola rica. Só tinha um filho pra velar.

E, com lágrimas nos olhos, soube queBelchior estava errado e que, podia sim, morrer como no ano passado.

"Porque papai noel não sobe morro, nem presenteia pobre, preto, no caixão."

21 Janvier 2020 01:16:24 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Madu Duarte Revisora; graduanda em Letras; e escritora em eterna procrastinação. Filha de touro, nascida dos anos 2000 e regida por Vênus. Neuroatípica e LGBT+, é apaixonada por cactos, astrologia e literatura no geral.

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